Últimas indefectivações

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Jogadores Que Admiro #116 – Óscar Cardozo

"Voltamos a 2007. Aterra no aeroporto de Lisboa Óscar Cardozo, a mais recente contratação do SL Benfica.
O gigante (1.93m) avançado paraguaio apresentou-se à frente de um batalhão de jornalistas, com um estilo mais similar ao de um segurança de discoteca do que propriamente a um futebolista. Totalmente vestido de preto, com óculos de sol e com uma atitude de quem não se preocupava muito com os jornalistas.
O andar desajeitado e a elevadíssima estatura preocupavam os puristas do futebol “espectáculo”. Cardozo chegava do campeonato argentino (Newell’s Old Boys), onde era reconhecido como um matador e finalizador de área.
O rótulo não saiu barato aos cofres encarnados. O SL Benfica pagou perto de 12 milhões de euros para adquirir o passe do paraguaio. As primeiras palavras de Cardozo foram muito objectivas: “Sirvam-me bem que eu resolvo na área”. E resolvia mesmo.
O paraguaio chegou à Luz numa altura difícil para o clube encarnado. O panorama do futebol nacional era dominado pelo FC Porto, a hegemonia azul e branca não parecia ter fim à vista.
Na primeira época do “Tacuara” em Portugal, o SL Benfica terminaria o campeonato num terrível quarto lugar, atrás de FC Porto, Sporting CP e Vitória SC. A segunda temporada teve um fim semelhante, desta vez os encarnados terminaram no terceiro lugar, atrás dos dois eternos rivais.
Os golos do paraguaio iam convencendo parcialmente as bancadas do Estádio da Luz, mas o seu comportamento dentro de campo atraía muitas críticas. O desejo dos adeptos em assistir a um futebol de pressão, de ataques rápidos, de fintas vertiginosas contrastava com a lentidão, falta de esforço e a primeira impressão de “tosco” (com muitas aspas) que o avançado transmitia.
Cardozo era o que era. Tacuara, a sua alcunha, é em castelhano uma espécie de bambu. O bambu é uma planta simples, grande, resistente, muito flexível, mas que é, no entanto, muito forte e de excelente qualidade. Cardozo era isso mesmo.
Com a chegada de Jorge Jesus, o rendimento do internacional paraguaio disparou. Foi a melhor época de Cardozo no Benfica, época onde atingiu uns impressionantes 38 golos.
Apesar do sucesso dos encarnados e das boas prestações de Cardozo, o paraguaio continuava a ser “patinho feio” da equipa. Era bastante comum ver o jogador a ser assobiado e aplaudido de pé no mesmo jogo. Raro era o benfiquista que apenas gostasse de Cardozo, a maioria ou idolatrava ou odiava o avançado. Discussões sobre o seu rendimento era o que mais abundava nas bancadas do Estádio da Luz.
Apesar da sua elevada estatura e das “dificuldades” de movimentação, Cardozo era um jogador de uma classe absurda. O golo em Leverkusen, onde com um toque sublime tira da frente o defesa e de seguida pica a bola por cima do guarda redes, é expoente máximo da sua qualidade.
Cardozo era isto mesmo. A capacidade que tinha para fazer tanto com tão poucos toques na bola, era absolutamente impressionante. Exibições lendárias como o hat-trick frente ao Sporting CP ou o bis frente ao Fenerbahçe SK imortalizarm a sua qualidade enquanto marcador de golos (os 13 golos apontados ao Sporting CP também ajudaram certamente).
Durante um jogo colectivamente mau, Cardozo aparecia como uma luz ao fundo do túnel. Mesmo estando completamente “fora do jogo” o paraguaio tocava uma vez na bola: e fazia golo.
Quase como um ilusionista, Cardozo transformava os assobios em aplausos e gritos de golo. A tristeza e raiva em alegria.
Cardozo era sinonimo de golo. 22, 17,38,24,28,33 e 11. Foram estes os golos de Cardozo nas sete épocas em que esteve ao serviço do Sport Lisboa e Benfica. Estes números foram mais que suficientes para “pulverizar” o recorde de Mats Magnunsson como o melhor marcador estrangeiro do SL Benfica (Cardozo ultrapassou o sueco logo em 2011).
Todos os anos chegam e partem jogadores de enorme qualidade a Portugal, mas creio que nenhum avançado moderno provocou tanto medo aos adversários. Cardozo teve a longevidade que Falcão não teve em Portugal. Cardozo era decisivo nos grandes jogos, como muitas vezes Jonas não era. Não teve as lesões graves de Jackson Martinez. Teve o palmarés que Liedson nunca conseguiu alcançar.
O Tacuara era, como proclamavam os adeptos encarnados, perigoso. O paraguaio foi um dos grandes ídolos de uma geração, que se obrigava a jogar nos recreios com o seu (maioritariamente tosco) pé esquerdo para imitar as proezas do gigante.
Cardozo foi um dos jogadores que mais dividiu a massa associativa do SL Benfica. Contudo será sempre um dos nomes marcantes na grande história dos encarnados. 173 golos em 292 jogos. Dois campeonatos nacionais, cinco Taças da Liga e uma Taça de Portugal."

Benfica de Quarentena #38 - Ricardo Gomes

Made In Benfica #1 - Tiago Dantas

Mensagem da capitã do basquetebol, Dora Duarte

"Como tem sido destacado vezes sem conta, cabe a cada um de nós ser um agente de saúde pública. Não posso deixar de usar este espaço para vos pedir encarecidamente que fiquem em casa e só saiam quando for absolutamente necessário. Protejam-se a vocês e aos vossos.
Para além desta, que é nossa obrigação, gostava de destacar que nós – atletas, treinadores, professores de educação física ou simplesmente amantes do desporto – podemos assumir também um papel fundamental na nossa comunidade durante este período. Cabe-nos motivarmos as pessoas mais próximas a fazerem exercício físico!
Como atletas, temos conhecimentos e experiências que podem ser usados em prol do bem-estar de outros. Os benefícios psicológicos do exercício físico parecem-me cruciais num período em que estamos confinados em casa. Para além disso, fazer exercício contribui para o fortalecimento do sistema imunitário e é este que nos ajuda a combater o vírus.
Quanto mais fortes estivermos mental e fisicamente, maior a capacidade de enfrentarmos circunstâncias adversas, hoje, e no futuro. E, por falar em futuro, gostaria que no final deste período todos tivéssemos coisas boas a recordar. Não se deixem entregar a pânicos ou tristezas. Aproveitem para parar, pensar e reajustar aspectos nas vossas vidas. Quanto à minha experiência pessoal... Como calculam, tem sido desafiante. Não é fácil estar em casa sem saber como a minha vida no trabalho vai ser afectada ou quando poderei voltar a pegar numa bola de basquetebol e entrar no pavilhão. O que tem resultado, para mim, é delinear tarefas para fazer durante o dia. Entre elas, por exemplo, destralhar a casa, fazer a minha rotina de exercício e ver as notícias na televisão (o veículo de informações mais fiável neste momento!). Existem muitas coisas para fazer em casa. Para além disso, as iniciativas que circulam online são imensas e mais uma vez fica demonstrada a solidariedade dos portugueses. Entre aulas de latim, concertos online, vídeos de exercício físico, existem dezenas de coisas que podemos fazer para nos mantermos sãos e unidos!

Dora Duarte"

Retomar o campeonato: as decisões quase impossíveis

"Há bons argumentos de todos os lados. Parece óbvio que a ideia é retomar o campeonato, mas como abordar um cenário tão extremo e improvável como este?
Difícil missão terá a Liga para encontrar uma solução para os campeonatos. A situação é complexa e nova, não há “jurisprudência”, e, portanto, admito que não gostaria de estar nos sapatos de quem terá que decidir. Parece começar a desenhar-se um regresso à competição dentro umas seis semanas, existem também (e bem) planos de saúde já delineados. Mas tudo pode mudar em poucos dias, e preparemo-nos para as grandes discussões. Porque, realmente, não será fácil.
Por um lado, jogos sem adeptos podem não fazer grande sentido - como Guardiola, por exemplo, até já apontou. Mas, por outro lado, parece previsível que será impensável promover eventos com grandes aglomerados de pessoas nos próximos tempos, e aí torna-se impossível abrir os estádios… por uma questão de saúde. E os clubes vão jogar no seu estádio? Ou concentram-se nos mesmos estádios? E desportivamente, que impacto é que isso terá? Um jogo com público é o mesmo que um jogo sem público? Filosoficamente, vale a pena promover um espectáculo desportivo sem gente a assistir ao vivo? Tudo pontos pertinentes, sim.
Ao mesmo tempo, a questão financeira. Imagino que os vários agentes envolvidos - clubes, empresas patrocinadoras, detentores de direitos de transmissão, e por aí fora - tenham todos os motivos económicos para quererem um regresso das provas, «dê por onde der», porque sem jogos não há receitas, e sem receitas não há coisa nenhuma. Mas, mais uma vez, o outro lado existe: será válido colocar os futebolistas - para todos os efeitos, trabalhadores e cidadãos como todos - no meio desse eventual risco? Principalmente quando sabemos que há casos assintomáticos invisíveis, etc?
Um jogo pode colocar dezenas de profissionais em risco. Que, por sua vez, podem vir a colocar dezenas de pessoas em risco. É verdade que isto está previsto pelos médicos dos clubes. Mas… e se houver um falso negativo? Um assintomático? Repito: difícil decidir, claro.
A vertente desportiva. Por aí não vale a pena entrar, já percebemos que haverá uma divisão insanável entre os que querem que o campeonato acabe agora (os clubes que estão dentro dos objectivos, entre título, Europa e descida), e os que vão querer que se jogue o mais possível (os clubes que não estão dentro dos objectivos, entre título, Europa e descida). E esta discussão será interminável, com argumentos e pareceres de ambos os lados. E, também por aí, se percebe a dificuldade das próximas semanas.
Ou seja, isto até pode parecer um artigo sobre coisa nenhuma, sobre tudo o que é possível e o seu contrário. Reconheço-o. Porque eu, pessoalmente, não consigo chegar a conclusão nenhuma. Acho que há pontos válidos de todos os lados, e daí seja tão difícil resolver isto. Dentro de algumas semanas, teremos seguramente muitas opiniões sobre a decisão tomada e sobre a forma como o campeonato será jogado (ou não) até ao final. Mas, sejamos justos: é mesmo difícil resolver isto."

O alarme italiano

"Infelizmente, por razões já largamente dissecadas, chegou-se a uma situação catastrófica. Com o futebol em quarentena, os prejuízos contabilizados são já de vária ordem e de monta. Há por aí, de sobra, teorias sobre o regresso do futebol aos relvados.

Há uns que arriscam mais do que outros, mas todos tendo sempre em conta aqueles que despontam como os seus interesses. Legítimos, mas interesses.
Infelizmente, por razões já largamente dissecadas, chegou-se a uma situação catastrófica. Com o futebol em quarentena, os prejuízos contabilizados são já de vária ordem e de monta.
Nem sequer valerá a pena repetir os lamentos que se ouvem num caudal imenso, por se conhecerem os danos e, ainda mais, outros tantos que se adivinham. E a pergunta que se coloca todos os dias, de forma angustiante, tem a ver com a dúvida sobre o regresso.
Há já, naturalmente, quem aponte caminhos para que tudo volte ao normal, e até alguns, poucos, que já deram o mote através de uma tímida actividade, que pretende constituir-se num sinal para os mais renitentes em avançar com projecções desmesuradas.
Contabilizando os efeitos da pandemia que chegou a todos os países, parece ser arriscado imaginar que nos próximos meses possamos ter competição a sério, tal como a conhecíamos há poucos dias: os receios sentem-se e veem de todos os lados.
As posições contrastantes assumidas por diversos responsáveis são a melhor imagem de que vai ser muito difícil chegar a um consenso tão rápido quanto desejável. E houve até quem entendeu lançar para a confusão reinante uma ideia explosiva, que a ser levada a sério, causará ainda maior perturbação.
Ontem, das parcas notícias sobre futebol, ressaltava uma declaração bombástica da Senhora Sandra Zampa, Sub-Secretária do Ministério da Saúde da Itália. Transcrevemos: “Vejo o regresso do futebol muito difícil, e penso que esse debate não é, neste momento uma prioridade. E, com isso, também penso que nada de catastrófico acontecerá ao futebol. Só voltaremos a ver estádios cheios quando existir total segurança, e quando existir uma vacina.”
Vinda da Itália, esta declaração assume importância sobretudo por se saber que aquele país é uma das maiores potências do futebol mundial. E pelo menos numa coisa deve ser dada toda a razão àquela responsável do governo italiano: o debate, tão acidulado e cheio de contrastes como o conhecemos sobre o regresso do futebol não é, neste momento, uma prioridade."

Músicas Gloriosas!!!

BTV em casa II

Bernardo no B/R

BnR - João Tomás

Benfiquismo (MDIII)

Do Futebol às Touradas...!!!

Não vá. Telefone! - Svilar

Leis do futebol: o que muda e o que não muda

"Não se aproveitou a oportunidade para um aspecto fundamental do VAR: a comunicação com o árbitro de campo poder ser ouvida

1. Foram conhecidas as alterações às leis do jogo de futebol para a próxima temporada. Em A Bola de sábado passado, Duarte Gomes explanou, com clareza, as mudanças, a sua razão de ser e as consequências que delas poderão advir. Do seu oportuno texto pude concluir que todas elas se justificam, ainda que eu as considere timoratas. De facto, organismos mundiais que tutelam o futebol mantêm uma atitude excessivamente conservadora, embora compreenda que não se devam precipitar e funcionar como câmaras de ressonância do actualismo puro e duro.
De todas as alterações, sublinho duas: a primeira - que já tardava - tem que ver com a definição futebolística de «mão na bola», que nunca coincidiu, aliás, com a anatomia da dita. Nela se inclui, como é óbvio, o braço e o antebraço, sendo agora convencionado que o braço no «limite inferior da axila». Assim sendo, o ombro passou a não ser punido, o que, convenhamos, sempre foi uma hiperbolização anatómica da mão e uma exageração de o incluir no braço. Como, para qualquer regra, é quase impossível determinar os limites do limite, imagino já a discussão que vai haver sempre que o esférico bata parcialmente no ombro e no agora independente braço. Será que, nestes casos, se vai aplicar a regra dos limites da linha de golo, ou seja que só será ombro se a bola ultrapassar totalmente o confinamento do braço? E como será quando o jogador da equipa infractora tiver os ombros descaídos?
O segundo ponto, que aqui realço, está relacionado com a decisão de ida mais frequente (obrigatória mesmo?) dos árbitros ao monitor para visionar os lances com margem de subjectividade. Espero que, assim, termine a arbitrariedade arbitral, passo o pleonasmo, de se poder escolher quando se vai ou não vai, nem sempre com critério uniforme. Mas, como bem referiu Duarte Gomes, não se aproveitou a oportunidade para um aspecto fundamental do VAR, qual seja a de a comunicação com o árbitro de campo poder ser ouvida e sindicada. Estão à espera de quê?

2. Aproveitando a boleia destas novidades, e com a à-vontade de ser um mero e curioso leigo destas matérias, escrevo aqui sobre o que, neste domínio, tenho reflectido. Antes, porém, devo reforçar o que disse atrás, agora de outro modo: nem tão devagar, nem tão depressa. Reconheço que as mudanças devem ser analisadas, evitando, por um lado, o imobilismo incompatível com a importância desta actividade e a disponibilização de novas tecnologias de aferição, e, por outro lado, a pressa que anula o amadurecimento e a estabilidade necessárias para o futebol do novo século.
Selecciono, aqui e agora, apenas cinco pontos.
Começo pela magna questão do tempo de jogo jogado. Tenho cada vez mais dificuldade em perceber que o futebol, de tão marcante na sociedade contemporânea, continue a ter como um dos seus alicerces, alguma discricionariedade na contagem do tempo e algum favorecimento do antijogo. Quase todos os desportos colectivos têm contagem do tempo útil ou mais cedo, tal não venha a acontecer no futebol. O espectáculo melhoraria, a batota seria reduzida, não haveria tantos espaços mortos, a subjectividade do tempo não teria cabimento. Todos assistimos ao esplendor das tecnologias e das estatísticas de um jogo de futebol, do tempo de posse de bola até ao tempo e espaço percorrido por cada atleta. Então qual a dificuldade em medir o tempo efectivo de jogo, por exemplo, 30 minutos em cada parte? Não percebo tanta hesitação. Mas, já agora com a função do VAR, porque não começar, ainda que parcialmente, pela compensação exacta do tempo de paragem durante o escrutínio de uma jogada?

3. Um outro aspecto que aqui considero é o relativo ao fora-de-jogo. Tudo se esmiuçou, disse e escreveu sobre os limites a considerar pelo VAR e a ser sancionados pelo árbitro. Temos exemplos nacionais e estrangeiros de anulação de golos por offside de 2, 3 ou 4 centímetros. Sabemos que a distância entre um frame e o seguinte pode anular esses escassos centímetros. Temos todos presente o sempre invocado direito consuetudinário de que, em caso de dúvida, se deve favorecer quem ataca. Por isso, é incompreensível que não se tenha já avançado - ao menos como recomendação - que os limites para o fora-de-jogo fossem apenas contados a partir dos centímetros que a uma velocidade média do passe representem um só frame. Com tanta tecnologia à disposição não deverá ser difícil obter um consenso dos tais centímetros de 'terra de ninguém'. A partir dela, então compreende-se que tanto basta um centímetro, como dez, vinte ou trinta, para assinalar a infracção.

4. Quanto às substituições considero que, as contagem das três possíveis (quatro de houver tempo-extra), não deveriam ser incluídos os guarda-redes. Primeiro, porque é justo, pois que um guardião é um lugar muito especial, que não deveria ser substituído por um jogador de campo pelo facto de já se terem esgotado as substituições possíveis. Segundo, porque seria, igualmente, uma forma de o treinador gerir o desempenho e eventual substituição, não limitado pelos numerus clausus determinado na lei. Por fim, poderia ter um outro aliciante: o de rodar mais os guarda-redes. Assistimos agora a plantéis com dois ou mais excelentes keepers, em que os não titulares passam uma época inteira no banco ou em casa, o que além de ser frustrante é também caro para os clubes. E talvez visse a contribuir para diminuir uma prática ora em voga - que eu nada aprecio - de ter um jogador para umas competições e outro (pouco rodado) para outras.

5. Voltando ao VAR, porque não alargar a sua função às expulsões por segundo cartão amarelo? Caso tal acontecesse, o VAR deveria revisitar o primeiro amarelo e apreciar o segundo imediatamente mostrado antes da cartolina vermelha. E, se fosse o caso, chamar a atenção do soberano árbitro para eventuais injustiças, lapsos ou erros deste.

6. Por fim, uma partida - que não fazendo parte das leis do futebol - teima em manter-se desde que foi iniciada há mais de 55 anos na Holanda e depois generalizada, pelo menos na Europa. Refiro-me ao desempate recorrente por maior número de golos marcados no jogo fora de casa.
Ao que li, a UEFA está desde o ano passado para decidir a abolição desta regra, mas, com a lentidão exasperante típica de organizações pesadas, burocráticas e demasiado conservadoras, nada aconteceu até agora.
Esta regra foi introduzida num tempo em que o futebol era muito diferente do que é agora. No plano das competições europeias, jogar fora de casa implicava viagens menos acessíveis e directas, desconhecimento das condições de treino, relvado, e outros aspectos operacionais do adversário, bem como a quase total ausência de adeptos seus. Na sua génese esteve também o objectivo de premiar mais o futebol ofensivo. Com o tempo, este critério subsidiário de desempate foi-se generalizado de uma maneira, aliás, incompreensível em competições do tipo campeonato ou em fases de grupo europeias.
Com a evolução das condições e o conhecimento detalhado de qualquer adversário, tudo mudou e jogar fora deixou de ser uma desvantagem notória. As razões apontadas desapareceram, a regra perdeu sentido e teve consequências negativas e contrárias à ideia do futebol ofensivo. Por exemplo, um empate 0-0, em casa, na primeira mão, passou a ser visto como um razoável resultado, o que não deixa de ser um desporto que vive da abundância de golos. Uma equipa a jogar em casa preocupa-se, por vezes, mais em não sofrer do que em marcar.
Acresce um ponto que sempre me pareceu injusto e enviesado. Havendo necessidade de prolongamento, a equipa forasteira está em vantagem pois vai jogar mais meia-hora com a possibilidade de golos que poderia valer a dobrar. E se bem verificarmos, na maioria destes prolongamentos, as equipas de cada jogam para passar o enfadonho tempo, pois sabem que um golo da equipa oponente é quase a 'morte do artista'. Pelo menos esta parte da regra, deveria ser abolida imediatamente. Aliás, ficou para sempre ligado ao futebol português quando o Sporting foi eliminado pelo Glasgow Rangers depois do empate 1-1 no tempo extra, apesar de ter vencido no desempate por penáltis que o equivocado árbitro consentiu. Outra história curiosa é da meia-final da Champions em 2003 entre o Milan e o Inter, tendo passado esta última equipa, embora com dois empates nos jogos 0-0, em casa do Inter e 1-1 em casa do Milan. Acontece que o estádio das duas eliminatórias era (e ainda é) o mesmo, San Siro.
Por cá lembro uma situação contrária. No campeonato de 1977/1978, Benfica e Porto terminaram com os mesmos pontos (o SLB até não sofreu nenhuma derrota). O título foi para os portistas, pela melhor diferença de golos totais, assim quebrando o ainda mais período de jejum entre os grandes, 19 anos. Logo a seguir passou a existir a regra dos golos fora nos jogos entre equipas empatadas. Se tal já existisse antes, teria sido o Benfica campeão (0-0 na Luz e 1-1 nas Antas)."

Bagão Félix, in A Bola

terça-feira, 14 de abril de 2020

Na companhia dos pássaros

"Por causa de um jornal antigo, lembrei-me de José Maria Nicolau, o Hércules do Cartaxo, o vencedor das tempestades. Por causa da sua têmpera, olho as ruas vazias sobre as quais a minha varanda se debruça neste tempo em que querem roubar-nos o carinho e fazer de cada um de nós cada vez mais só.

Na minha casa, debruçada sobre o Sado, vivo mergulhado em quilos e quilos de papel. Livros, revistas, jornais, correspondência (da antiga, antes do advento do e-mail), blocos de notas, simples rabiscos de todas as espécies. Às vezes deparo-me com uns e que merecem crónicas. Como o n.º 1 de Selecção - Semanário Gráfico de Todos os Desportos, publicação que saía às terças-feiras. Dia 21 de Setembro de 1948.
A peça, como elemento de informação e colecção, é um mimo. Distribui-se largamente numa exposição de imagens do que se passou no campeonato nacional de futebol do fim de semana anterior, dedica-se a contar a história do grande Ben Barek, o avançado marroquino que assinou pelo Atlético de Madrid por 1500 contos, a traz-nos à estampa Nicolau, José Maria Nicolau, uma das maiores figuras da história do Benfica.
Lança Moreira, que foi um dos grandes jornalistas da sua época, atirou-se a Nicolau como gato a bofe. Queria publicar as suas memórias, semanalmente, como se fosse um folhetim. E o Nicolau, rapaz humilde do Cartaxo, como do Cartaxo, também foi o seu grande rival e amigo, Trindade, a negar-se, a explicar que não sentia ter nada de interessante para dizer, que a sua vida fora monótona e etc. e tal e tal e tal.
Lança Moreira não era de receber um não como resposta.
Conseguiu fazer desembuchar o Hércules do Cartaxo, que era um latagão de força incomum, e pô-lo a desbobinar episódios atrás de episódios.
Nicolau contou a sua história. E o seu mundo.

Este outro mundo...
É bom dar vida, a palavras mortas. Como sabem, gosto de trazer para aqui os mestres, alguns deles ainda fizeram o favor de me ensinar o que puderam para que não envergonhasse a profissão de jornalistas, que é digna, que é útil e desinteressada, embora haja muitos a tentar contrariar esse desígnio.
'José Maria Nicolau... Este nome evoca uma época magnífica da velocipedia nacional e do nosso próprio desporto', começava por escrever Lança Moreira. 'O ciclista do Cartaxo firmou, com efeito, uma personalidade à parte. Combativo, lutador, temperamento de verdadeiro atleta, sentia e vivia as competições com um espírito de premente ansiedade, entregando-se de alma e coração à ideia de chegar à meta'.
Talvez só os mais antigos dos que têm a simpática paciência de me ler ainda recordem vivamente Nicolau. A minha obrigação, como cronista, é que os que o conheceram não o esqueçam, e que os que não o conheceram o memorizem.
Faleceu no dia 35 de Agosto de 1969 num acidente de viação. Venceu a Volta a Portugal em 1931 e 1934 com a camisola encarnada que traz uma águia desenhada em cima do coração.
Sim, Lança Moreira tinha toda a razão: não foi um enorme ciclista, foi um desportista emérito. Um nome para a história.
Em 1948, José Maria Nicolau era de uma simplicidade desarmante: 'Ora, eu já passei de moda... Quem se lembrará de mim?' A modéstia que acarinha os grandes campeões.
'Nesta altura talvez alguns amigos recordem o que fiz. Alguns adversários. Sobretudo o Trindade, de quem sou amigo desde a infância. Surgiram outros nomes, outros corredores de enorme valor. Ninguém perde tempo a olhar para o passado'.
Como haveria de se enganar, o grande Nicolau. Hoje, neste tempo de medos, neste mundo em que olhamos para os vizinhos do lado como inimigos prontos a trazerem o mal para dentro de nossas casas, no momento em que deixámos de poder abraçar a família, de beijar quem amamos, de tocar com carinho aqueles cuja ternura nos faz falta, olhamos para trás, sim, Nicolau, estejas onde estiveres. Olhamos para trás e para uma liberdade perdida que ansiamos reconquistar.
Do alto da minha varanda, sobre o Sado, divagando por entre papéis velhos e amarelecidos que me trazem momentos como este, parece que o mundo ficou vazio e nada mais tenho do que a companhia dos pardais que pousam, tranquilos, nos parapeitos aquecidos pelo sol.
Tenho centenas de abraços para dar, e não me deixam dá-los. Tenho de apertar os meus filhos contra o peito e dizer-lhes, baixinho, ao ouvido: 'Está tudo bem, eu estou aqui...'. E estou, não estando. Estou à distância com esta mágoa que me aflige de os saber longe, lutando à sua maneira contra a doença infame que vai apertando o cerco em nosso redor.
Escuto a voz da Bethânia ao mesmo tempo que escrevo sobre José Maria Nicolau, o vencedor das tempestades:
'Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender...'
Olho os pássaros na sua invejável liberdade. Quero correr para voltar a ver o brilho dos teus olhos. Quero beijar a testa dos meus pais com aquela meiguice infinita que me ensinaram na infância.
Na minha casa sobre o Sado, os pássaros cantam a melodia da tristeza.
'Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão'.
Ontem, ao telefone, o Manuel Alegre dizia-me: 'Vivi eu no exílio sem nunca imaginar que iria um dia viver exilado na minha própria casa'. Desculpe-me o meu grande amigo Manel, mas eu recuso o exílio. Estou no meu posto! Do alto da varanda sobre o rio tenho as mãos presas ao leme da esperança e desafio todos o caminharem a meu lado levados pela corrente inóspita de uma batalha ganha dia a dia com a espada afiada da paciência.
Eu vou. Tenho gente por quem lutar, tenho gente por quem continuar a viver, tenho gente a quem devo um mar inteiro de ternura que trago preso nos braços como um peso insuportável. Vou. Levo os pássaros comigo. E tu, não fiques para trás, companheiro! Não deixes que ninguém esqueça!"

Afonso de Melo, in O Benfica

Benfica sobre rodas

"Entre os dias 3 e 6 de Março de 1960, realizou-se mais uma edição da Volta a Portugal em Automóvel

A 11.ª edição da Volta a Portugal em Automóvel passou por várias regiões portuguesas, desde a Serra da Estrela ao Algarve. Organizada pelo clube 100 à Hora, contou com a participação dos mais consagrados pilotos portugueses, incluindo os benfiquistas Manuel e Augusto Palma. Os condutores 'encarnados' chegaram a ser apontados como os prováveis vencedores da prova individual, da qual revelaram algumas peripécias.
No início da prova de regularidade em estrada, que tinha vários controlos e em que não podia haver qualquer deslize, sob risco de desclassificação, notaram um forte cheiro a gasolina. 'Verificámos logo a seguir que o carro a perdia largamente. Mas nada havia a fazer, que os segundos eram preciosos. Quando 'apanhámos' 23 quilómetros sem 'controles', pudemos ver então que havia desaparecido a parafuso lateral da bacia do carburador. Remediámo-nos com um pedacinho de madeira e só na Covilhã nos pudemos arranjar melhor entrou em acção uma rolha...".
Manuel e Augusto Palma compraram várias rolhas, que foram substituindo, e foi assim que o Volkswagen, 'equipado com um motor Porsche 1600 super, travões de 'qualquer coisa' que não 'Volkswagen', suspensão corrigida e o todo com uns toques pessoais do proprietário', chegou a Lisboa. Pai e filho venceram os circuitos de Portalegre e de Alvalade e a perícia do Estoril. Nas restantes etapas foram segundos, excepto em Vila do Conde, mas, apesar dos bons resultados, os benfiquistas classificaram-se em segundo lugar.
Foram cumpridas cerca de 80 horas de prova, durante três dias e quatro noites. Dos 58 condutores que iniciaram a prova, apenas cerca de metade chegaram à última etapa, realizada no Estoril. As sete etapas que compuseram a Volta foram seguidas com entusiasmo, principalmente 'em Vila do Conde, em Portalegre, em Évora, em Lisboa e no Estoril', onde o público afluiu em grande número.
Além do segundo lugar individual, o Benfica conquistou o primeiro ligar por equipas. Constituída por Rui de Noronha, Manuel Valente da Cruz e Luís Fernandes, a equipa benfiquista somou 12 pontos, seguida pelas equipas do 100 à Hora e do Sporting, que se qualificaram em 2.º e 3.º lugares, respectivamente:
Saiba mais sobre este e outros títulos do automobilismo benfiquista na área 4 - Momentos únicos, do Museu Benfica - Cosme Damião."

Marisa Manana, in O Benfica

Não vá... Telefone!

"Desde o surto de coronavírus na China que o Sport Lisboa e Benfica se tem empenhado no combate à propagação do vírus e à COVID-19.
Recordemos, por exemplo, as demonstrações de apoio e solidariedade para com o povo chinês efectuadas no jogo frente ao Braga, realizado na Luz, em 14 de Fevereiro último, servindo simultaneamente de alerta e sensibilização para o problema de saúde pública vivido na China, esperando-se então, porém sem quaisquer garantias de sucesso, que este fosse delimitado na região onde surgira.
O contágio galopante na Europa e no resto do mundo deu-se em menos de nada, com as consequências que se conhecem. O Sport Lisboa e Benfica não hesitou em empreender medidas de prevenção e contingência, antecipando-se, em parte, às recomendações das autoridades de saúde.
A transição para um regime de teletrabalho, aplicável a cerca de 600 colaboradores, foi rapidamente implementada e só possível pela antecipação de cenários e elaboração de planos que possibilitassem a aplicação dessa medida extrema e impensável num contexto mesmo de apenas alguma normalidade. 
E foram accionados igualmente, com uma celeridade que merece apreço, os mecanismos de solidariedade à disposição do Clube, nomeadamente, mas não só, através da orientação de esforços imediata da Fundação Benfica, à semelhança do sucedido na sequência de outras catástrofes, como as ocorridas na Madeira, no Haiti ou em Pedrógão Grande, entre outras.
A partir desse momento, Fundação, Clube, SAD e Casas do Benfica desdobraram-se na promoção de diversas iniciativas para mitigar os efeitos da pandemia, seja pelas doações avultadas (a que se juntaram prontamente os elementos da nossa equipa de futebol), seja por acções que visam estimular a ligação aos adeptos, o preenchimento dos tempos livres, a passagem de mensagens de esperança e confiança ou simplesmente o reforço da necessidade do distanciamento social e dos cuidados de higiene.
Inclui-se, entre estas, e à semelhança dos depoimentos publicados na News Benfica, a iniciativa conjunta do Clube e da Fundação, "Não vá. Telefone!", espoletada pelo presidente Luís Filipe Vieira, no passado dia 28 de Março, ao entrar em contacto, por videochamada, com José Coelho, um benfiquista com a proveta idade de 100 anos.
A equipa técnica e os futebolistas da nossa equipa A estão empenhados nesta iniciativa, sucedendo-se os momentos emocionantes a cada dia, os quais alguns ficarão certamente para a posteridade. Hoje será a vez de Svilar surpreender mais um benfiquista, depois de Cervi, Chiquinho, Florentino, Jota, Nuno Tavares, Odysseas, Pizzi, Samaris, Taarabt, Tomás Tavares e Vinícius, e mais se seguirão. Por vezes, uma voz amiga é o que basta para ajudar.
#fiqueemcasa"

Golo: Grimaldo...

Benfica de Quarentena #36 - Luís Garrett

Benfica FM #107 - Memória: Final da Taça 1992/93 - Benfica 5 - 2 Boavista

A sério?!!!

Resumindo: o Parma queria Rui Costa que queria o AC Milan que não queria Rui Costa. E esta é a história de uma transferência

"Carlo Pallavicino, antigo agente do português, revelou em entrevista todo o processo que levou à saída do ex-médio da Fiorentina para o AC Milan, em 2001. E tudo começa com uma crise e acaba com vários telefonemas e mensagens de voz

A história da saída de Rui Costa da Fiorentina para o AC Milan foi finalmente revelada pelo agente Carlo Pallavicino, que representava o antigo jogador português na altura. E tem episódios curiosos de desencontros e telefonemas não atendidos. E tudo começa com uma crise.
"A Fiorentina, naquele ano, estava a encarar a possibilidade de falir [o que viria a acontecer, mais tarde] e tinha a obrigação de vender o Rui Costa e o Toldo [guarda-redes]", disse Pallavicino ao Calciomercato.com.
Pelo Rui Costa, os viola pediram oitenta mil milhões de liras italianas. "Apanhámos um avião privado, voámos até Faro para convencer o Rui Costa a aceitar o Parma. Eles estavam preparados para lhe dar um salário incrível". Qualquer coisa como 10 mil milhões de liras.
Pallavicino, depois, confessa ter achado que a coisa se iria fazer entre os clubes, mas havia um pormenor para ultrapassar: "o rapaz estava fixado no AC Milan". Porque o AC Milan tinha assinado com o treinador Fatih Terim, o turco que o treinara na Fiorentina e de quem Rui Costa gostava muito. Aliás, no futuro, Rui Costa tentaria, sem sucesso, levar Terim para o Benfica.
Problema: o AC Milan não estava convencido e gastar 80 mil milhões de liras num jogador que não era jovem não "era uma medida popular". Nem para um tipo como o incorrigível Silvo Berlusconi. 
Resumindo: o Parma queria Rui Costa que queria o AC Milan que não queria Rui Costa. Mas havia outro clube. "Para ele, a única outra perspectiva era a Lazio", revelou Pallavicino. Assim, "apanhei o comboio das 05h30 da manhã para chegar a Roma a tempo, onde o os dirigentes estavam à minha espera para pôr a transferência do Rui Costa, preto no branco".
"Fui deitar-me cedo, desliguei o meu telemóvel e no dia seguinte liguei-o, já no comboio, quando estava a poucos quilómetros de Roma". Foi nesse momento que Pallavicino viu "40 mensagens de voz, todas do Rui Costa e do Branchini, dizendo-me que, naquela noite, o Galliani [ex-homem forte do futebol do AC Milan] tinha convencido o Berlusconi a gastar dinheiro. Fiquei feliz pelo Rui, mas também, por outro lado, já tinha tudo acertado com a Lazio que, obviamente, não ficou contente".
E foi assim que Rui Costa seguiu para o Milan, onde jogou entre 2001 e 2006, ganhando uma Liga dos Campeões, uma Serie A, jogando ao lado de colossos e treinado por Terim, sim, mas também por Ancelotti."

A final do Euro 2016. O dia em dia em que o Eder nos lixou a todos

"Porque a bola que Eder recebeu, protegeu, aguentou com três toques e rematou, desengonçado pela fé do pontapé, nos fará ter saudades para sempre do tal dia – o dia em que pudemos dizer que somos os melhores.

- Almoçamos?
A manhã já vai longa e leio esta mensagem no telemóvel. Acabo de acordar. Estou de rastos, são trinta e tal dias seguidos a trabalhar, a ir para a cama cansado, a sair dela na mesma, a dormir poucas horas, a comer a más horas e a engolir quilómetros todos os dias. E digo-o ao Duarte.
Não são desculpas, são desabafos a um amigo de faculdade, que vive e trabalha fora há anos e que está em Paris no dia em que Paris pode significar tudo e mais alguma coisa para nós. Já estou nervoso quando lhe escrevo que sim e acertamos as agulhas do sítio para reunir.
Fica a 30 minutos debaixo de terra, mais ou menos. Faltam umas seis horas para o jogo e fico nervoso quando entro no metro. Há gente mascarada, já de cara pintada, a falar alto, pessoas que se multiplicam à medida que sobram menos estações até ao destino. Ouço barulho em português em vez de uma ou outra frase aportuguesada no sotaque, palavras enferrujadas pela vida de emigrante, como nas últimas semanas.
Saio perto da Torre Eiffel e a coisa intensifica-se.
Encontro o restaurante e o Duarte está com o Miguel, outro emigrado, mais um da universidade. Estão com um alemão e ele, acho, acalma-nos. É a pessoa de fora, estrangeira, e a conversa que acompanha o hambúrguer e as batatas e a Coca-Cola é para lhe explicar o que significa sermos portugueses. Sê-lo em França, durante um Europeu, estarmos ali, em Paris, para uma final contra os franceses. Falamos dos emigrantes e das gentes brandas e humildes, das profissões que arranjaram e das porteiras, das invasões francesas e da história, do futebol e do que ele nos fez perder para os franceses.
Obriga-nos a contextualizar, faz-nos perceber o quão pequenos - e sortudos - somos dentro do gigante quadro que se está ali a pintar.
- Vemo-nos quando formos campeões europeus.
Lembro-me de ouvir, quando nos despedimos, mas esqueço-me da boca que o disse.
Mais nervoso fico. O metro e o comboio que apanho para chegar ao Stade de France parecem demorar uma eternidade. Não há pressa, faltam horas, mas só quero entrar no estádio, chegar ao meu lugar de jornalista, sentar-me e absorver tudo o que se está a passar. E pensar em como vou conseguir escrever o que seja.
O estádio parece o alvo de uma invasão. Uma multidão de gente circunda-o e está diferente dos outros dias de jogo. É a terceira vez que ali estou e os acessos estão mudados. Há mais controlo, mais barreiras policiais, mais fronteiras para cruzar. Dou três voltas ao recinto porque dois voluntários diferentes me indicam acessos pelos quais não me deixam passar. Fico fulo e a ferver na pouca água que a ocasião me dá e ainda mais nervoso estou quando me sento na bancada.
Faltam três horas.
Os jornalistas vão chegando, os companheiros de uma estrada que percorremos há mais de um mês. Os apertos de mão, as posturas ansiosas, a incredulidade nos olhares dos que são portugueses e têm de trabalhar no dia que é obrigatório desfrutar. É a definição de conversa de circunstância - falamos sobre a selecção, os empates, os golos que não sofremos, o Fernando Santos, a sorte de ali estarmos. 
Conversamos sobre a circunstância em que estamos metidos, na final de um Europeu que pode ser ganha por Portugal.
E estamos no meio de uma praga de traças gigantes.
O aquecimento, a cerimónia de abertura, a canção oficial do torneio. Por esta altura já soa e significa tanto como o hino nacional, por mais que vá contra tudo o que acredito que a música deve ser. Mas até o que é mau e banal se entranha quando é tantas vezes repetido ao longo de um tempo que acaba por ser dos melhores que já nos aconteceram na vida. Essa canção, que o meu gosto continua a ter como má, banal e estridente e básica, ainda hoje me dá pele de galinha quando a ouço.
Arrepia-me, como arrepiado fico ao pensar noutros momentos da final. Do Manuel Casaca, jornalista d’O Jogo que me goleia em idade, experiência e andança nesta vida e que ao meu lado ficou pela terceira ou quarta vez no Europeu.
- Ó, tu outra vez, Diogo? Assim já fico mais descansado, vamos ganhar.
Vi adultos feitos a chorarem, emocionados, quando o Ronaldo se emocionou e, sentado no relvado, empurrado pela tristeza da lesão, deitou lágrimas. Nem a Mariana Cabral (espero que me perdoe) se conteve. Os nervos que senti durante quase duas horas, como se a vida dos meus pais estivesse em jogo. Os dois ou três miúdos, voluntários da UEFA, que durante a final diziam, em francês, atrás de nós, que Portugal jogava pouco e merecia ainda menos estar ali. Os berros, os abraços, e os saltos, a festa que nos engoliu por um minuto quando, de todas as pessoas, foi o Eder a ir buscar-nos ao poço dos coitadinhos que nada ganhavam e se queixavam das vezes em que estiveram perto de o fazer.
O golo entrou com 11 minutos em falta para se jogar. Estava a trabalhar, mas fechei o portátil. As mãos tremiam, estava nervoso, parecia ter na cabeça um medo que se agarrava ao volante e conduzia aos ziguezagues.
Não conseguia estar sentado.
O jogo acaba e somos campeões europeus. Melhores que todos e piores que ninguém, a olhar de cima e não mais para cima. Mais gritos e saltos. Abraço jornalistas com Europeus e Mundiais no passaporte, décadas de trabalho e de experiências falhadas, que choram. Choro com eles. Acho que todos sabemos que, muito dificilmente, tudo o que o universo alinhou se voltará a alinhar na direcção de uma selecção portuguesa. Isolo-me durante uns minutos, porque ainda tremo e tenho de conter as lágrimas e há palavras que têm de ser escritas.
Entrego-as, são publicadas e fico quase duas horas no mesmo sítio. Não quero sair dali, do estádio onde, lá em baixo, vejo os jogadores com os pais, as mulheres, as namoradas, os filhos e os amigos. Tiram fotos, beijam o caneco, também não querem ir embora. O Marco Oliva, da Lusa, vai à conferência da imprensa, volta, ri-se por me encontrar no mesmo sítio. É proibido, mas fumamos um cigarro, que se lixe. Conversamos sobre a sorte que temos e o momento pede-o - o estádio está praticamente vazio, só estão umas dezenas de pessoas à vista, há um daqueles silêncios impagáveis.
- Pouco importa, pouco importa, se jogámos bem ou mal, vamos levar a taça para o nosso Portugal!, cantariam os jogadores, quando passaram na zona mista, sem pararem.
Já deve passar da uma da manhã. Vamos embora, é tarde, procurar um sítio que cozinhe e sirva comida a vários esfomeados e felizes jornalistas portugueses. Nas catacumbas do estádio, alguém repara que um dos túneis para o relvado está aberto e não vigiado. Arriscamos, ninguém nos interrompe e, de repente, estamos a passear no relvado. Exultamos, rimos, tiramos fotografias e até bolas encontramos para dar uns toques e rematar à baliza para a qual o Eder não olhou, mas acertou.
Ficámos quase uma hora até dois seguranças, altos, pesados, corpulentos, franceses, surgirem com má cara perante os nossos risos e sorrisos. Expulsam-nos. Vamos à garagem e ao carro do Bruno e do Rui, do Diário de Notícias, que levam a Mariana, o Diogo e o Rui Miguel para o restaurante, descoberto não sei como, que nos serve um bife tártaro às três da manhã. Podiam ser ovos mexidos com arroz, esta refeição iria sempre merecer um prémio gastronómico.
A sorte que temos em estar aqui, às três da manhã, a comer, despreocupados e aliviados, no fim de uma aventura que deu um Campeonato da Europa a Portugal. E podermos dizer que estávamos lá.
No dia em que o Eder nos lixou a todos. O pontapé dele foi a felicidade de qualquer português que gosta de futebol e de muitos que até nem costumam querer saber. Foi o tipo de alegria que, ao senti-la, estamos já um pouco melancólicos e com um pitada de saudade, porque, no fundo, sabemos que o mais provável é não vivermos algo remotamente parecido enquanto formos vivos.
É por isso que, nesse dia, durmo duas horas, se tanto. Não quero fechar a cortina e passar ao dia seguinte. Não, este tem de - e vai - durar para sempre."

Benfiquismo (MDII)

Alinhados...

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Não vá. Telefone! - Pizzi

Que jogos devo rever nesta Quarentena? Besiktas JK 3-3 SL Benfica

"A 23 de Novembro de 2016, o SL Benfica apresentou-se na Turquia com vontade de carimbar na quinta e penúltima partida da fase de grupos a passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Depois do embaraço causado por Anderson Talisca na Luz, com o brasileiro emprestado pelas águias de Lisboa às de Istambul a fazer o golo do empate aos 90+3, e da humilhação em Nápoles frente aos azuis de Sarri (derrota por 4-2, num jogo em que o marcador esteve nos 4-0), os pupilos de Rui Vitória queriam mostrar uma nova cara.
E a primeira parte dos encarnados foi fantástica. Absolutamente assombrosa. Com classe e categoria, os então tricampeões nacionais massacraram os homens de branco e negro e foram para intervalo a vencer por 0-3. Gonçalo Guedes abriu o marcador no último dos primeiros dez minutos. Insatisfeitas com a vantagem mínima, as águias portuguesas não tiraram o pé do acelerador e foi precisamente uma “águia portuguesa” a dilatar a dita vantagem.
Nélson Semedo, numa incursão ofensiva, procurou o espaço interior e, à entrada da área turca, rematou em arco com o pé esquerdo e apontou um verdadeiro golaço. Com dois golos com carimbo do Benfica Futebol Campus, a turma portuguesa vencia na Vodafone Arena por duas bolas sem resposta a equipa da casa, com apenas 25 minutos jogados. Esperava-se o melhor, esperava-se o ressurgimento do Glorioso Benfica, ainda que por uma noite apenas. Anúncio Publicitário
O tento de Fejsa seis minutos mais tarde veio cimentar essa esperança. Uma noite mágica em perspectiva. Durante toda a primeira parte, esteve em campo o melhor Benfica que Rui Vitória conseguia apresentar, o Benfica que nesse ano civil de 2016 havia gladiado olhos nos olhos com o FC Bayern de Munique de Guardiola. Sentia-se que para segurar a vitória, os encarnados só tinham que aparecer na segunda parte.
Não apareceram. Com muito mérito, assente essencialmente na crença e força de espírito demonstradas, os turcos mimetizaram a primeira parte dos adversários e alcançaram o empate. Cenk Tosun, aos 58 minutos, atirou a crença turca para níveis que se julgava serem inatingíveis depois do sucedido no primeiro tempo, com um golo acrobático. O Besiktas JK carregou e carregou com força.
Ainda assim, os visitantes, acanhados, conseguiram tardar o segundo golo dos pupilos de Senol Gunes. Tardar, mas não evitar. Tardaram-no até aos 83 minutos, minuto em que uma grande penalidade convertida por Ricardo Quaresma deixou claro o que viria a acontecer. O tempo escasseava, mas ninguém duvidava – nem mesmo os adeptos benfiquistas – de que o empate chegaria.
Chegou cinco minutos depois do 3-2. Vincent Aboubakar espalhou o êxtase pelas bancadas aos 88´, com o golo do empate que muitos julgavam inalcançável quando do final do primeiro tempo. A passagem encarnada, que ao intervalo parecia estar assegurada, ficou adiada para a última jornada. Os encarnados viriam a perder por 2-1 na recepção aos napolitanos, mas alcançariam os oitavos graças à derrota turca em Kiev, frente ao Dínamo local, por 6-0.
Nesta partida, o SL Benfica demonstrou ser capaz do melhor e do pior, ser bestial e ser besta, ser Yin e ser Yang. Tudo em 90 minutos. A partida de Istambul foi, por isto, um espelho do Benfica de Rui Vitória, um Benfica capaz de atingir o Céu e de seguida conhecer o Inferno.
A partida de Istambul é um constante lembrete do que o clube da Luz pode fazer e do que tem que evitar repetir. A partida de Istambul é um jogo a rever, não só pela qualidade e emoção da partida, mas também para que não esqueçamos do que somos capazes, para o bem e para o mal. A partida de Istambul, por mais penoso que seja revisita-la, tem que permanecer no nosso histórico colectivo, pois está marcada na nossa história.
A partida de Istambul, por tudo o que encerra, só pode ser avaliada conforme o que retirarmos dela no futuro: se aprendermos a não repetir o erro, veremos este jogo como um ponto positivo no novo trajecto benfiquista; se não o fizermos, veremos este jogo como mais um obstáculo que não conseguimos ultrapassar. Seja como for, voltaremos sempre a este jogo. Então, porque não agora? Tempo e aborrecimento para matar não nos falta.

O que vale hoje Rúben Semedo?

"Muito novo e quando ainda defendia as cores do Sporting, Rúben garantiu que apenas esperava pelo Benfica.
Cresceu, ganhou meritoriamente o seu espaço na equipa leonina e foi transferido para a Liga Espanhola por um valor significativo. Por lá se perdeu.
Hoje, volta à ribalta e poderá ser o eleito dos encarnados para reforçar um sector carenciado. Mas, o que vale hoje Rúben Semedo?
Destro, cresceu a jogar maioritariamente sobre o lado esquerdo do centro da defesa. Curiosamente em Atenas, passou a jogar como central direito, ganhando novas e importantes experiências a um nível elevado – Arsenal, Wolverhampton, Tottenham, Bayern foram alguns dos adversários que defrontou na presente época.
As capacidades condicionais foram sempre o ponto mais notório em Rúben Semedo. À muito elevada velocidade de passada, junta-lhe uma excelente leitura e percepção dos timings para os movimentos de profundidade, tendo características que lhe permitem sem dificuldade jogar em modelos que exigem linhas muito altas. Agressivo na saída ao espaço entre linhas, e extremamente forte nos duelos aéreos ou em espaços reduzidos, é regra geral dominante no seu espaço. Os posicionamentos laterais e a cadência de passada permitem-lhe chegar rápido, e a própria técnica defensiva individual tem crescido com as experiências, embora ainda se notem precipitações quer defensivas quer ofensivas.
Precipitado é mesmo o adjectivo que negativamente mais pode catalogar Rúben Semedo. Nem sempre a forma como conduz é assertiva, acelerando em momentos em que se pede maior leitura da situação. Ainda assim, também tecnicamente é um jogador bastante acima da média para quem ocupa a sua posição.



Na realidade Liga NOS, e ainda para mais num Benfica refém de qualidade no centro da sua defesa, Rúben traria argumentos até nas Bolas Paradas. Para substituir Rúben Dias ou para formar uma possível dupla, faz todo o sentido que o futuro de Semedo passe agora por onde sonhou em criança."

Entrevista para ver e rever

"No passado sábado, dia 11, o director-geral do futebol profissional, Tiago Pinto, deu uma ampla e importante entrevista em que revelou, ponto por ponto, o plano de acção gizado e implementado para a nossa equipa de futebol desde que surgiu o surto de coronavírus. Anteviu também um pouco do futuro pós-pandemia, sabendo-se, no entanto, que não há prazo definido para o regresso à normalidade e não se conhecem igualmente as consequências que advirão desta situação inusitada.
O que se sabe, porém, e conforme explicitado por Tiago Pinto, é que, independentemente de quando se der esse regresso e seja qual for o contexto nessa altura, "o Benfica vai ter a necessidade de continuar ganhar". Esta é uma das premissas, porventura a mais relevante, transversal no Clube, imutável e orientadora do empenho dos seus dirigentes e profissionais, que norteiam todas as decisões tomadas. Tudo no Benfica é feito com o intuito de haver retorno desportivo. "Ganhar, ganhar, ganhar", como recentemente afirmou o Presidente Luís Filipe Vieira.
Neste momento, e no que diz respeito à nossa equipa principal de futebol, Tiago Pinto esclarece: "A nossa grande preocupação diária é ter a certeza de que tudo se fez durante este período para, quando o futebol voltar, o Benfica estar mais capaz do que os outros e ganhar as 11 finais."
Esse regresso só se dará se e quando as autoridades o permitirem, previsivelmente num ambiente controlado, com jogos à porta fechada e vigilância permanente das condições de saúde de todos os intervenientes. Para já, a intenção, partilhada pela Liga, UEFA e Associação Europeia de Clubes, passa pela conclusão das competições.
Assim, está previsto que o regresso aos treinos, ainda que com limitações e salvo indicações em contrário por parte das autoridades da saúde, se verifique em maio e que as competições ressurjam, o mais tardar, em Junho. Entretanto, os jogadores estão a gozar um curto período de férias após um mês de trabalho intenso em casa, sob coordenação da equipa técnica e com apoio dos vários departamentos, para manutenção da forma desportiva de acordo com planos de treino individuais.
O nível de detalhe do acompanhamento dos jogadores impressiona e é revelador da esfera de acção alargada da estrutura do futebol benfiquista. Um dos exemplos apontados por Tiago Pinto está relacionado com a alimentação dos atletas, a qual é definida por nutricionistas de acordo com a recolha permanente de dados acerca do estado físico dos jogadores. As refeições são então confeccionadas segundo os parâmetros definidos para cada jogador e entregues diariamente nas suas casas.
A incerteza é, ainda, a norma. No entanto, é com enorme confiança, empenho e determinação que a enfrentamos. A rapidez com que o Sport Lisboa e Benfica transitou do seu contexto habitual para outro, caracterizado pela indefinição a todos os níveis, é demonstrativa da liderança e organização que pautam o dia a dia do Clube. 
#PeloBenfica"

Pizzi - O ‘influencer’

"É o verdadeiro influenciador de todo o jogo do Benfica. À direita, ao meio, nos penalties ou nas bolas paradas.

Luís Miguel Afonso Fernandes, bragantino na casa dos 30 que o futebol batizou, um dia, como Pizzi, merece honras de abertura deste espaço de análise a algumas das figuras que têm direito a nota de destaque no memorando de uma época futebolística que, em boa verdade, ainda ninguém sabe quando vai terminar. Ou se vai terminar.
O elogio a Pizzi não oferece discussão nem ao mais desatento dos mortais. Figura de destaque, e não apenas esta temporada, independentemente do sistema, do modelo ou do treinador, Pizzi é o verdadeiro influenciador de todo o jogo do Benfica. À direita, ao meio, nos penalties ou nas bolas paradas, a produção de conteúdos futebolísticos que nos apresenta em cada jogo colocam-no hoje nesse lugar de destaque. Esta época com um importante upgrade: 26 golos e 13 assistências são o melhor registo de sempre e um contributo relevante para os resultados e os sucessos da equipa.
Na sexta temporada ao serviço do Benfica, Pizzi não precisa dos números para gerar unanimidade. Só na primeira temporada ficou abaixo das quatro dezenas de jogos por época, o que mais sublinha a ideia de que ele, mais do que ninguém, assume capital importância no desenvolvimento do jogo colectivo. Sem perder qualidade individual. Aqui está um belo exemplo de quem, ao serviço do todo, consegue depois evidenciar o melhor dos seus recursos. Pizzi tem mundo. Conheceu realidades como as do Ribeirão, do Sp. Covilhã ou do Paços de Ferreira. Ganhou estatuto no Atlético Madrid, no Deportivo ou no Espanhol de Barcelona. Mas foi de águia ao peito que atingiu o auge como futebolista. Pizzi não nasceu (para o futebol) em berço de ouro. Não. Mas quando deu os primeiros pontapés no Mãe d´Água, provavelmente, já tinha o sonho de.... voar alto.

B. I.
Nome: Luís Miguel Afonso Fernandes
Idade: 30 anos
Valor de Mercado: 27 M€*
Jogos: 40
Minutos: 3193
Golos: 26
Assistências: 13
*Transfermarkt"

Os operadores televisivos também só se chegam à frente nos tempos de vacas gordas?

"À seca extrema de jogos que vivemos, seguir-se-á uma enxurrada capaz de saciar a sede à oferta televisiva mais exigente

O que sabemos (ou julgamos saber)
- O confinamento e o afastamento social são essenciais para conter o novo coronavírus;
- Daqui a algum tempo, com optimismo lá para o princípio de Maio, com pessimismo lá para o início de Julho, iniciaremos uma nova fase das nossas vidas, marcada por um progressivo retomar da actividade habitual, com observância de regras estritas, prescritas pelas autoridades sanitárias;
- Só seremos devolvidos a uma vida mais ou menos parecida com a que tínhamos antes de sermos invadidos pela Covid-19, quando for descoberta e produzida em massa uma vacina que erradique a peste.
Na fase em que nos encontramos devemos apelar à disciplina e à resiliência, seguindo-se tempos de prudência redobrada onde podemos perspectivar um retorno do desporto de alta competição, à porta fechada, que depois de meses de privação será um bálsamo para as almas e uma forma expedita de afastar a tendência temática monolítica dos dias de hoje, onde o novo coronavírus, qual buraco negro, suga toda a informação.

Nestes tempos terríveis em que a vida tem de continuar mas a morte não pára, têm desaparecido, à margem da Covid-19, alguns vultos do desporto que não receberam, pelo contexto em que nos encontramos, o devido tributo. Ontem morreu Stirling Moss, triunfador nas 24 Horas de Le Mans em 1956 (ao volante de um Aston Martin, fazendo equipa com Peter Collins) e vencedor de 16 Grandes Prémios de Fórmula 1 entre 1955 e 1961, entre os quais o GP de Portugal de 1958, disputado no circuito urbano da Boavista, no Porto, e o GP de Portugal de 1959, realizado no circuito de Montes Claros, em Lisboa. Moss foi quatro vezes vice-campeão mundial, entre 1955 e 1958, três delas atrás de Juan Manuel Fangio, antecipando na F1 a saga que Poulidor e Anquetil iriam, na década seguinte, escrever no ciclismo.

Para conter o mais possível, no futebol, os custos inevitáveis da pandemia que atacou o planeta, tanto a FIFA como a UEFA, depois de algumas hesitações próprias do desconhecimento do inimigo que enfrentavam, chegaram a decisões expeditas, que podem minimizar danos e defender alguns princípios que estavam postos em causa. Além do adiamento do Euro-2020, medida atempada que criou espaço nos calendários nacionais para a conclusão das provas (enquanto que o Comité Olímpico Internacional esbarrava no autismo nipónico, que passou de querer fazer os Jogos à força nas datas previstas, a uma posição de dúvida quando à possibilidade de organizar o evento em 2021!), foram abertas pistas para o prolongamento das épocas até onde fosse possível, garantindo-se o mérito desportivo dos campeões. O que significa que a fome de bola dos dias de hoje irá transformar-se numa fartura nunca vista num futuro que se deseja próximo. E os operadores televisivos, que andam há décadas a encher os cofres à custa do futebol (usando uma expressão bem portuguesa, por cada porco, dão um chouriço...) que não se queixem demasiado, nem tentem fugir às responsabilidades, porque se há sector de negócio, associado ao futebol, que esteja garantido para o futuro é precisamente o audiovisual.
Mas a FIFA também anunciou ter condições para apoiar o futebol (leia-se as Confederações, que chegam às Federações, que chegam aos clubes) o que pode servir de paraquedas para o salto no desconhecido que está a ser dado. Há que ter consciência, porém, de que muitos danos serão incontornáveis, vigorará o princípio darwiniano da sobrevivência daqueles que melhor se adaptarem às novas circunstâncias (não só no futebol mas em todas as áreas de actividade, à escala global), e não valerá a pena pensar que é possível regressar a uma vida como era antes: há um novo normal à nossa espera.

Por cá, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não escondeu e estabeleceu atempadamente parâmetros coerentes:
- Não haverá campeões de secretaria. Para ser outorgado um título, há que conquistá-lo em campo. Este é um princípio inatacável, que deve vigorar em todas as modalidades desportivas.
- Não havendo condições para levar as competições até ao fim, por falta de meios dos clubes que disputam as provas da formação e os campeonatos não profissionais, incapazes de dar respostas que salvaguardem a saúde dos desportivos e demais pessoas envolvidas directamente na realização dos jogos, a única solução é dar por terminados os campeonatos, abrindo contudo uma excepção para as subidas e descidas de divisão, que podem ser alvo de regulamentação excepcional.
- Foi ainda encontrada uma verba, para já escassa, para ajudar no primeiro impacto sofrido pelos clubes. Mas, e este princípio também é válido para os clubes do futebol profissional, o problema que se coloca agora, pode ser a oportunidade perfeita para corrigir erros e distorções que levaram os gastos muito para além das reais possibilidades de cada emblema...

Mas há outras questões que têm sido alvo de alguma mistificação e que urge clarificar. Sabendo-se que continua em aberto a possibilidade de play-offs para determinar subidas e descidas, falta falar de um cenário pessimista, no qual se prolongaria no tempo a impossibilidade de os campeonatos profissionais serem finalizados. Como determinar, então, não só as promoções e despromoções, mas também a hierarquização do acesso às competições europeias?
Uma via de play-off, que limitasse o número de jogos, deverá ser sempre colocada em cima da mesa. Mas, e se mesmo uma versão competitiva reduzida viesse a mostrar-se impraticável, o que fazer?
Em relação a subidas e descidas, uma de duas hipóteses viriam à baila: ou se dava a época por anulada e 2020/2021 iniciar-se-ia como tinha começado 2019/2020; ou aceitar-se-ia a classificação à data da interrupção das competições a agir-se-ia em conformidade.
No que respeita às competições europeias - e salvaguardando-se sempre que não acabando as provas não haveria distribuição de título - às duas primeiras sub-hipóteses atrás apresentadas, anular a época ou aceitar a classificação, poderia juntar-se uma outra, que passava por seguir o ranking de clubes da UEFA para preencher hierarquicamente as vagas.
Mais difícil, e quiça prematuro, é especular sobre quem se responsabilizaria por todas estas decisões. Mas confiemos que será possível, até Agosto ou Setembro, concluir as competições. Este será, sem dúvida, o mal menor...

Os números da pandemia em Espanha, teimam em não ceder, e é com redobrada apreensão que olhamos para os 619 óbitos por Covid-19 ontem verificados, mais 109 que na véspera (já morreram 16.972 pessoas). O facto de cada vez mais haver menos novos contágios é o único raio de esperança, num momento-chave em que os espanhóis vão hoje sair da hibernação a que estavam obrigados. O drama de muestros hermanos tem sido fonte de aprendizagem, e estará evitar-nos danos maiores na luta contra este inimigo quase invisível a olho nu. Para Espanha, solidariedade sem fim."

José Manuel Delgado, in A Bola

A época em que não há campeões

"Não sei, nem ninguém no seu juízo perfeito saberá, se vai haver fim nesta época de futebol. E já aqui afirmei que, independentemente de se achar uma fórmula para se encontrar os clubes que sobrem e descem e os clubes que se qualificam para as competições europeias, a época de 2020/2021, caso fique por aqui, deverá ficar registada na história como a época em que não houve campeões.
A razão será óbvia para quem não se deixou contaminar pelo vírus da clubite. Um campeonato tem regras. Quando não termina - e só razões muito especiais e raras pode determinar que isso suceda - não havendo campeonato não haverá campeão.
Claro que este é o cenário pessimista. Há outros cenários, todos eles mais optimistas. A pandemia dá tréguas improváveis, as autoridades sanitárias declaram que não há riscos, os campeonatos prosseguem, após meses de quarentena, tudo acaba em bem, o campeão é o que chega ao final da prova, com mais pontos.
Qualquer cenário optimistas nos parece, hoje, improvável. No entanto, não deixa de ser possível e desejável. E eu também defendo que, se for mesmo necessário, então que se jogue o que falta jogar sem pública nas bancadas. Poderão dizer que isso é um crime lesa futebol, que o futebol sem povo não é futebol, mas é tudo uma questão de escolha. Entre acabar o campeonato sem campeão, com jogos que se deitam para o lixo da história oficial, e poder acabá-lo, mesmo que se pague o tributo de ter bancadas desertas, pois eu prefiro que se vá até ao fim da competição desportiva. Será um género de telefutebol mas, isso, no fundo, nem sequer é grande novidade..."

Vítor Serpa, in A Bola

Benfica de Quarentena #35 - Ché

Uma crónica sobre carniceiros, cuspidelas, cartões vermelhos, expulsões e o Arregaça

"Volto ao Arregaça, o campo de alcatrão onde, na minha infância, muitos talentos se revelaram e poucos se aproveitaram. Com boa vontade, dava para cinco jogadores de campo e um guarda-redes em cada equipa. As balizas de ferro eram precárias e perigosas (só mais tarde as fixaram no chão) com pequenos aros de ferro na parte interior dos postes que deveriam servir para pôr redes.
Mas só em ocasiões especiais – festas da Junta ou torneios que mobilizavam algumas colectividades financiadas pela carolice de alguns pais, geralmente homens de bigode e óculos de fundo de garrafa que, na juventude, tinham jogado nas distritais e aspiravam a deixar uma marca no dirigismo desportivo local – é que punham lá as redes que, terminados os torneios, eram rapidamente removidas por funcionários municipais que as guardavam, como tesouros, em armazéns com latas de tinta, caixotes do lixo estragados e carrinhos de mão ferrugentos.
Graças ao excesso de zelo dessa guarda pretoriana dos bens públicos, jogávamos sempre sem redes, o que nos jogos mais rasgadinhos, quando em jogo só estava o nosso orgulho infantil e a aversão à derrota, significava longas discussões sobre se a bola entrara mesmo. O consenso era difícil. Para quem estava de fora, à espera de entrar, a bola entrava sempre. Quando o lance era decisivo, o segundo golo no roda-bota-fora, os derrotados agarravam-se com unhas, dentes e má-fé às dúvidas que só existiam nas suas cabeças, terçando trajectórias impossíveis como espadachins num duelo de floretes.
Numa altura em que muitos de nós tínhamos dificuldades na aritmética mais simples, os quase-derrotados eram possuídos pelo espírito de Newton e garantiam que, fisicamente, era impossível que a bola, chutada do meio campo, tivesse passado pelo meio das pernas do Zé Maluco. Na iminência da derrota, um evidentíssimo frango transformava-se num debate interminável sobre as leis da física. 
Mas não nos faltavam apenas redes. Às vezes, também não tínhamos bolas de qualidade. Os habituais guarda-redes, esse bem tão escasso e precioso no futebolzinho suburbano, nem sempre apareciam e, para preencher o lugar, lá ia um emérito ponta-de-lança, desgostoso e contrariado, avisando logo que bastava um golo de uma das equipas para ir outro à baliza, um critério que apavorava os companheiros de equipa, temendo que o temporário guarda-redes deixasse a bola entrar de propósito só para sair do castigo.
Árbitros, como todos sabemos, também não havia, à excepção de pontuais e ingénuas tentativas de pôr alguém nessas odiosas funções que tinham o efeito de despertar pulsões ditatoriais nos jovens juízes e o benefício de unir adversários contra esse inimigo comum.
Rapidamente destituíamos o árbitro nomeado e regressávamos ao método das decisões colegiais, quase sempre pacíficas quando se tratava de um agarrão, de uma mão na bola ou de uma rasteira manhosa, mas muito polémicas quando eram mais discutíveis: a distinção entre uma entrada viril (em que o infractor se defendia com o argumento de só ter querido jogar a bola) e uma tentativa de homicídio (aquilo a chamávamos “dar pau”) era nebulosa. A maneira mais eficaz de reclamar uma falta era pegar na bola e não permitir que o jogo recomeçasse enquanto a falta não fosse reconhecida pela comunidade desportiva. Claro que não havia cartões vermelhos. Já nem falo dos amarelos, o que seria uma picuinhice, uma burocratização das nossas práticas selvagens.
Mas o cartão vermelho, que seria admissível em certas circunstâncias, como daquela vez em que o Cebola, que militava nas camadas de formação do Vitória de Setúbal, deu uma patada nas costas do Xixa, era um recurso incompreensível para os nossos padrões éticos. Quando uma falta velhaca gerava tumultos incontroláveis, acabava o jogo. Ia tudo para casa, mas sem cartões vermelhos.
Isto quer dizer que todos os que lá passaram guardaram memórias, boas e más, do Arregaça – golos de letra, frangalhadas, fintas, passes de vinte metros – mas ninguém pode evocar aquela expulsão inesquecível porque nunca houve expulsões. E o que seria do futebol, do futebol a sério, sem o tempero das expulsões? Por exemplo, a de Batista. A resposta certa era Battista, defesa uruguaio. A pergunta, que às vezes dava queijinho no Trivial Pursuit, era: qual foi a expulsão mais rápida num campeonato do mundo de futebol? Antes de termos decorado a resposta, já sabíamos que só podia ser um uruguaio. Ou um argentino.
No Mundial de 1986, Batista foi expulso aos 56 segundos do jogo contra a Bélgica. Artistas de uma fineza inigualável como Francescoli ou Maradona eram escoltados por milicianos de ar carniceiro, como se tivessem sido libertados no dia anterior de prisões de alta segurança para jogarem pela selecção.
Quatro anos depois, em Itália, ficaram célebres as expulsões do camaronês Massing, que levou um segundo amarelo por ceifar o argentino Caniggia, numa falta que justificava o cartão vermelho, e as expulsões em simultâneo de Rudi Völler e Frank Rijkaard, com cuspidelas pelo meio. Ficando apenas pelos mundiais, lembro ainda as expulsões de Leonardo, defesa brasileiro, por dar uma cotovelada no norte-americano Tab Ramos, em 1994 (ano do cartão vermelho que nunca foi, quando Tassotti partiu o nariz a Luis Enrique), a de João Vieira Pinto em 2002, por cumprimentar com excessivo vigor um árbitro mexicano, a orgia de vermelhos na Batalha de Nuremberga de 2006, em que portugueses e holandeses se esforçaram por jogar cinco contra cinco, o que seria contra as regras, e, no mesmo ano, a mais inesquecível de todas, a de Zinedine Zidane, após ter dado uma marrada no italiano Materazzi, em plena final do campeonato do mundo.
Por diferentes motivos, nenhuma destas infracções teria merecido cartão vermelho no Arregaça. Desde logo porque não havia cartões vermelhos no Arregaça, mas também porque não havia árbitros (sem árbitro em campo, João Vieira Pinto nunca teria sido expulso, essa é que é essa) e porque todas as outras faltas, incluindo a de Zidane na final, teriam sido resolvidas em concílio ecuménico, provavelmente com mais agressões pelo meio, até os ânimos se acalmarem e ser possível retomar o jogo. No fundo, era isso que queríamos.
Não era justiça, nem cumprimento de regras, nem punição dos infractores. Era jogar à bola, jogar até nos cansarmos, jogar até as nossas mães nos chamarem para casa porque estava na hora do jantar. No universo do Arregaça era esse o nosso cartão vermelho: o minuto em que a voz da mãe dava ordem de expulsão."

Benfiquismo (MDI)

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