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segunda-feira, 11 de maio de 2026

José Mourinho e o Real Madrid UFC


"A possibilidade de o 'special one' regressar à casa 'blanca' pode dividir opiniões, mas poucos contestarão que o treinador português sabe controlar como poucos um plantel.

Uma equipa de futebol a lembrar um reality show, eis o Real Madrid de fim de estação em 2025/26. A troca de galhardetes entre Aurélien Tchouaméni e Federico Valverde, no ringue de Valdebebas, combate à porta fechada que as gargantas fundas dos merengues logo tornaram públicas, é novo episódio da temporada horribilis do colosso espanhol.
Na semana em que Arsenal e PSG garantiram presença na final da Liga dos Campeões, o clube recordista de orelhudas (15) é notícia por relatos de agressões entre jogadores e processos disciplinares rapidamente decididos com multas de 500 mil euros para o francês e o uruguaio. O ambiente no balneário dos blancos é tóxico e o futuro sombrio se Florentino Pérez não der um murro na mesa, talvez naquela em que Valverde garante ter batido «acidentalmente» antes de se deslocar ao hospital para «visita de rotina».
As vitórias mascaram quase tudo, os egos convivem na paz dos anjos, as tensões são relativizadas e até os conflitos internos acabam romantizados como sinal de empenho em que todos remam para o mesmo lado. Na ausência de resultados... esqueçam as linhas anteriores.
O Real vai terminar a época sem troféus — perdeu a Supertaça para o Barcelona, que hoje também poderá fazer a festa do título na receção ao rival, disse adeus à Champions ante o Bayern e à Taça do Rei frente ao Albacete — e pior que o rendimento em campo é o terreno minado fora dele.
O desgaste psicológico é tão importante quanto o físico e o atual momento dos madridistas exige mais um especialista em minas e armadilhas do que um conjunto de galácticos a espalhar magia nos relvados. E talvez seja precisamente por isso que o nome de José Mourinho surge associado ao Real Madrid.
A possibilidade de o special one regressar à casa blanca pode dividir opiniões, mas poucos contestarão que o treinador português sabe controlar como poucos um plantel, nem que seja por ter estatuto para limpar o cesto de maçãs podres custe o que custar em milhões de euros.
Reforços e dispensas? Mexidas numa estrutura criticada pelo vazio de poder entre Florentino Pérez, presidente pouco dado a descidas aos túneis e balneários, e o homem do leme no banco? Ajustes táticos e na forma de jogar de uma formação em que alguns só sabem correr para a frente? Não faltará o que mudar, seguramente, tal a pobreza deste Real sob as ordens de Álvaro Arbeloa após a saída prematura de Xabi Alonso.
Antes, porém, importa recuperar o princípio óbvio de que ninguém está acima do Real, sejam Tchouaméni, Valverde, Vinícius ou Mbappé. Caso contrário, é transformar o Santiago Bernabéu num octógono de UFC."

Noruega: Erik Mykland, o boémio sempre disponível para uma cerveja


"Mykland sempre protegeu os momentos de lazer dos possíveis transtornos que o profissionalismo lhes podia causar. Gostava de uma boa noite de copos e, depois, se tivesse tempo, jogava à bola. No TSV 1860 Munique chegou ausentar-se da fotografia de equipa por estar a resolver uma ressaca. Condenado por consumo de cocaína, o seu nome veio à baila numa operação policial que desmantelou uma rede de tráfico de droga na Noruega

A discoteca chamava-se Le Paradise e proporcionou tão intenso divertimento que as testemunhas daquela noite de junho de 1998 não estavam lúcidas o suficiente para se lembrarem de detalhes. Quantas cervejas bebeu? Estava ébrio? Os relatos do proprietário, do DJ e até do gerente do bar vizinho não são conclusivos. O que importa é que Erik Mykland esteve lá com o colega de equipa Henning Berg. O barman era capaz de jurar que lhe serviu cerveja de uma marca cubana. Foram muitas? Não se recorda.
Ao saber do sucedido, nas vésperas da Noruega enfrentar a Escócia, em Bordeús, o selecionador Egil Olsen interrogou os boémios. Fez de conta que acreditou quando os jogadores lhe disseram que o álcool não tinha interferido com a escapadela que terá sido proposta por Henning Berg, ávido por espairecer do ambiente do estágio em La Baule. Na verdade, soube que a contagem só parou lá para as oito canecas. Para resolver o problema no imediato, o melhor era aceitar a versão que lhe tinha sido apresentada e tomá-la como verdadeira mesmo que não o fosse.
A Noruega estava a viver um momento áureo. O Mundial desse ano, em França, assinalou a segunda presença consecutiva do país no torneio. A participação terminaria nos oitavos de final, capitulação feita pela Itália. Desde aí, os nórdicos estiveram ausentes durante 28 anos.
De Erik Mykland surgiriam notícias subsequentes. A evolução física acompanhou a desgastada reputação. No início da carreira, os longos cabelos concediam-lhe um ar divinal que progressivamente evoluiu para a aparência de um náufrago que deu à costa numa ilha selvagem.
Na seleção norueguesa, com a qual fez 78 jogos, existia quem incentivasse a sua excentricidade. O acumular de episódios caricatos fez com que o escritor Håvard Rem achasse que valia a pena biografar Erik Mykland. “O próprio Myggen [alcunha] perdeu uma aposta depois de um jogo na Geórgia. Como castigo, teve que rastejar nu pelo hotel. A cada esquina, tinha que levantar a perna e dizer ‘au, au’.”
Em disputa estava a qualificação para o Euro 2000. Na última competição de seleções em que participou não teve motivos para festejar devido à eliminação precoce na fase de grupos. Ainda assim, atracou-se aos copos após o último jogo e foi afogar as mágoas na praça onde os adeptos se encontravam. Acabou desnorteado e incapaz de regressar sozinho ao hotel. Foi salvo por dois adeptos, que o puseram num táxi.
Erik Mykland nem sempre precisou de tomar decisões ao longo da carreira. A obstinação por álcool tratou disso por ele. Quando o médio estava no TSV 1860 Munique não fez parte da fotografia de equipa: era demasiado cedo quando a tiraram e havia uma ressaca para curar nas primeiras horas da manhã. O treinador não tolerou as aventuras noturnas e recambiou-o para o Copenhaga. Na Dinamarca, deu a conhecer a sua personagem ao esparramar-se às 4h30 à frente de uma discoteca enquanto desafiava quem passava para um braço de ferro.
Os desvios acabaram por exceder os limites legais. Uma mega operação desmantelou uma rede de tráfico de droga na Noruega e Mykland foi acusado de envolvimento. O tribunal considerou que teve uma “participação periférica”, adquirindo cocaína para consumo próprio. O jogador foi então condenado a 140 horas de serviço comunitário. Uma má notícia para quem, após quatro anos de pausa, tinha voltado, em 2008, a jogar pelo primeiro clube da carreira, o Star."