Últimas indefectivações

domingo, 5 de abril de 2026

Internacionalização...

Circo...

Shameful !!!

4 de seguida...!!!

O futebol português e o cheiro a lixívia pela manhã


"O futebol português é a cena de Apocalipse Now revisitada todos os dias, sem um final feliz. O que teremos feito nós para merecer tão infernal castigo? E estes dirigentes?

Não sou o primeiro nem esta é a primeira vez que eu próprio uso a expressão de um dos melhores filmes de sempre e a devastidão que retrata para falar do calamitoso e comatoso futebol português. Quando Robert Duvall, na pele do Tenente-Coronel Bill Kilgore em Apocalipse Now atira, diante de um mar de destruição, aquele Adoro o cheiro a Napalm pela manhã, inala o perfume único da vitória a todo o custo, depois de mais uma colina carregada de Charlies ter sido bombardeada durante a noite e antes de avançar para a próxima.
Ele ainda não sabe que aquela sempre foi uma guerra perdida, nunca a irá ganhar, da mesma forma que os restantes tenentes-coroneis do futebol deste lado da barricada não se aperceberam que perderam a batalha antes sequer de darem o primeiro tiro, espero eu, em sentido figurado.
Porque, ao contrário dos norte-americanos, que voltaram a casa destruídos por dentro, mas apenas viveram novos combates nas próprias cabeças, os nossos, e nós com eles, terão de tentar sobreviver na mesma colina queimada, deixada infértil por décadas sem fim. Na verdade, iremos reviver essa cena todos os dias na Liga, como se fosse o nosso castigo no inferno. Basta Villas-Boas lançar as habituais rajadas em todas as direções. Quer ser o melhor filho adotivo que o pai que o renegou poderia ter e honrar um passado com glória, mas nem sempre com métodos honrados, como nos lembra a história, para provar valor a pouco mais do que uma memória.
O futebol português, esse produto que queremos vender lá fora para respirar melhor cá dentro, é uma colina queimada. Com napalm. Ou lixívia, se o estendermos a outras modalidades. O que se tem passado é uma vergonha. Regressámos aos anos 80, com altifalantes do novo milénio. Desrespeita-se a grandeza do clube que se representa. Não percebo. Onde se escondeu o bom-senso?
Varandas, já se percebeu, não gosta de deixar ninguém a jogar sozinho e, com ele em campo, o ruído não deixa ouvir mais nada. A não ser talvez, teclas furiosamente marteladas poucos metros a sul. E, talvez, Rui Costa a ligar a mandar disparar tweets e comunicados enquanto se distraem com o cogumelo nuclear e assim retirar daí algum ganho. É esta a liderança dos grandes. E para muitos deveriam ser os grandes, caso conseguissem caminhar juntos e a direito, a liderar os outros.
Nasci poucos meses antes do 25 de abril, fui embalado enquanto se trauteavam hinos da Revolução. Mas ao futebol esta nunca chegou. A guerra é eterna."

BF: Lesões...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Observador: E o Campeão é... - "O Santa Clara já não pode ver o Sporting à frente"

As birras dos meninos


"Nesta página, e nos últimos vinte meses, já escrevi sobre André Villas-Boas e sobre Frederico Varandas. Fi-lo também sobre Rui Costa, na certeza de que, quando se tem opinião formada sobre os principais dirigentes dos clubes que mais apaixonam o adepto português do futebol, se está sempre sujeito à crítica, à confrontação e ao contraditório.
Tudo isso é legítimo, faz parte do jogo das palavras, das ideias e das argumentações, é o preço a pagar pela exposição de opinião no maior e mais importante título da comunicação social lusa dedicado a matérias desportivas.
Ao longo de todo este tempo, várias têm sido as situações protagonizadas pelos três presidentes passíveis de questionamento, crítica ou contra-proposta. Seja na dialética interna do Benfica que conduziu todo o processo de campanha eleitoral e a ideia de um Benfica District que talvez pareça populista e pouco exequível no prazo de tempo previsto (de molde a garantir o estádio da Luz como uma das sedes portuguesas na fase final do Mundial-2030), seja nos momentos truculentos entre Sporting e FC Porto, que resultaram em carros incendiados, argumentos cruzados e estalar de verniz quase permanente entre líderes que, evidentemente, deveriam ser os primeiros a dar determinado exemplo, e são justamente os primeiros a dar o exemplo exatamente contrário…
Sejamos claros: o desporto e, particularmente, o futebol, é uma indústria global e transversal, que joga com emoções a montante e resultados a jusante do próprio jogo, com rivalidades, com a difícil gestão do que o coração diz e do que a cabeça pensa.
Mas é exatamente por isso, pela globalidade e transversalidade da indústria, que é cada vez mais credor de estratégia fora do campo, na mesa negocial e de entendimento em que tudo se deve decidir por um bem maior, a credibilidade da modalidade, a sua sustentabilidade e, por consequência direta, o seu futuro de médio e longo prazo, acautelada que está a questão do curto prazo com a emoção, semana a semana, da competição e do desfecho imediato de cada parcela de noventa minutos.
Nunca fui apologista do recurso à tutela para mediar conflitos que pertencem e devem geridos (e resolvidos) no âmbito desportivo (naturalmente com a intervenção da justiça desportiva, se disso caso for). A ameaça de escalar desenvolvimentos sobre esta ou aquela queixas circunstanciais sempre me pareceu apoucada, afinal uma espécie de fuga para a frente quando os argumentos falecem.
Villas-Boas e Varandas têm idade para ter juízo. Têm formação académica e profissional, têm currículo desportivo, um escalando os degraus da hierarquia técnica, outro como médico de equipas de alto rendimento. Ambos, como se sabe, chegando à liderança de FC Porto e Sporting, arrastando hordas de adeptos, empolgando com os discursos de campanhas eleitorais mais ou menos disputadas, e assumindo a responsabilidade maior da condução de dois símbolos históricos do futebol e do desporto português.
Aqui chegados, é essencial ter memória. No caso dos dragões, de quatro décadas de muitos sucessos, e que tiraram o clube da esfera regional, projetando-o para lá da cidade e da região, tornando-o num incontornável símbolo de sucesso no país e no mundo.
Quanto aos leões, a truculência de muitas direções e presidentes arrivistas e populistas (de que Bruno de Carvalho será, apenas, o mais recente e eloquente exemplo…), não pode fazer esquecer João Rocha, um Senhor Presidente de dimensão transversal no desporto luso, e cujas componentes éticas e dimensão humana marcaram um período muito importante da história do Sporting Clube de Portugal.
E, já agora, o Benfica, antes da vieirização e de personagens pouco recomendáveis (como João Vale e Azevedo), deu à estampa professores como Borges Coutinho ou João Santos, ícones que, com Fernando Martins, colocavam o seu clube acima de tudo, equilibrando esse princípio com o do respeito e da dignidade perante todos os rivais.
Porque, na realidade, só assim é que faz sentido: não há competição sem opositores, sem organização, sem entendimento e sem perspetivas de crescimento. Um clube só será mais competente na sua estrutura se for gerido com qualidade e conhecimento, mas também se entender que não compete sozinho, e que a desvalorização permanente dos seus adversários e rivais apenas contribui, indiretamente e a longo prazo, para a sua própria desvalorização enquanto instituição.
Uma coisa é a luta dos adeptos em sede de redes sociais ou no apoio às suas cores nos recintos desportivos. É disso que eles vivem, e não será razoável que peça a um adepto muito equilíbrio e equidistância. É adepto, ponto. O limite da sua ação é o entroncamento com a ação do adepto rival, e o respeito pelos direitos de cada um.
Já da parte de dirigentes de topo, é obrigatório outro grau de exigência. De cultura desportiva, de visão global do desporto e do negócio, das potencialidades da indústria, que só pode crescer e se fortalecer se abraçada por todos, traçando, em comum, objetivos de médio e longo prazo, na melhoria dos modelos competitivos, na defesa dos jogadores, na reformulação dos calendários.
Em Portugal, tudo aquilo a que assistimos nos últimos dias parece uma brincadeira de crianças e uma teimosia de miúdos da escola primária. Dos tais que ainda têm de comer muita papa para, algum dia, conseguirem ombrear, na história dos seus clubes e do futebol português, com verdadeiros senhores na arte de liderar instituições centenárias.

CARTÃO BRANCO
João Pinheiro esteve, esta semana, envolvido no último seminário organizado pela FIFA para árbitros europeus com vista ao Mundial-2026. Depois dos trabalhos na italiana Viareggio, orientados pelo italiano Pierluigi Collina e pelo suíço Massimo Busacca, aguarda-se com a maior expetativa a divulgação da lista final de árbitros, árbitros assistentes, árbitros de apoio e árbitros assistentes de vídeo (VAR), que rumarão à América do Norte e à América Central em junho e julho. Posso, hoje, avançar em primeira mão que João Pinheiro estará na fase final do Mundial. Será o regresso de um árbitro central português à prova máxima do futebol mundial após a presença de Pedro Proença, há doze anos, no Mundial do Brasil. Depois disso, apenas Artur Soares Dias esteve na Rússia, em 2018, como VAR. Será um momento alto para a arbitragem portuguesa, a nível internacional, e para o João, o juiz de Braga que, muito justamente, verá realizado um dos seus maiores e mais legítimos sonhos profissionais."

O spa dos horrores


"Quando a liderança desvaloriza, legitima. E quando legitima, perpetua. Não é apenas uma questão de palavras. É uma questão de cultura. E a cultura constrói-se tanto pelo que se diz e se faz como pelo que se aceita.

Há momentos em que o desporto deixa de ser um espelho da sociedade para passar a ser um amplificador das suas piores fragilidades. O episódio ocorrido no jogo de andebol entre FC Porto e Sporting não é, por si só, o centro do problema. É apenas mais um sinal de um ambiente que há muito ultrapassou os limites do aceitável.
O alegado incidente no balneário, suficientemente grave para levar o Sporting a pedir uma audiência governamental, acabou por expor algo maior. Não se trata de um odor tóxico, nem de um jogo. Trata-se de um clima. Um clima que se instalou, cresceu e normalizou. Um clima que já não surpreende. E essa é a parte mais inquietante.
Frederico Varandas foi ouvido pela ministra do Desporto, Margarida Balseiro Lopes, com a intenção de denunciar aquilo a que chamou um «comportamento miserável» dos dragões ao longo da época. Pouco depois, André Villas-Boas passou pelo mesmo gabinete. À saída, escolheu o tom. Um tom leve, quase jocoso, que transformou episódios sucessivos em ruído habitual. Falou em enviar bolas, cones e toalhas para Varandas. E ao bom estilo da ironia de Pinto da Costa, sugeriu que os dragões iriam preparar um spa para receber o Sporting, com camas em condições e toalhas de veludo, reduzindo a questão a uma ironia logística quando o problema é, há muito, estrutural.
É aqui que a história se torna preocupante. Porque quando a liderança desvaloriza, legitima. E quando legitima, perpetua. Não é apenas uma questão de palavras. É uma questão de cultura. E a cultura constrói-se tanto pelo que se diz e se faz como pelo que se aceita.
Os episódios acumulam-se. Uma televisão no balneário de Fábio Veríssimo foi o pontapé de saída. As bolas e os cones que desaparecem durante um jogo importante são a continuação. E até as toalhas de Rui Silva, que foram desaparecendo nesse jogo, lembrando a final da CAN, é algo que André Villas-Boas considera dentro dos limites do desporto.
São vários gestos que, isoladamente, podem parecer irrelevantes, mas que juntos desenham um padrão. Um padrão de pressão, de desconforto, de tentativa de condicionamento. Um padrão que, repetido vezes suficientes, deixa de ser exceção para passar a ser método.
Nada disto é novo. O que é novo é a sensação de regressão. Havia uma expectativa, talvez ingénua, de que uma nova geração de dirigentes trouxesse outra linguagem, outro comportamento, outra responsabilidade. Uma forma diferente de competir fora de campo. Mais transparente. Mais adulta. Mais consciente do impacto que cada gesto tem num país onde o futebol não é apenas um jogo.
Em vez disso, assistimos a uma reedição de práticas antigas, agora com um verniz mais sofisticado, mas com a mesma lógica de fundo. A lógica de que vale tudo desde para vencer. De que a fronteira pode ser empurrada, testada, dobrada.
O problema não é apenas o que acontece dentro dos recintos. É o que acontece fora deles. A normalização. A banalização. A ideia de que faz parte. De que é rivalidade. De que é assim. Como se o desporto tivesse regras diferentes das restantes esferas da vida pública.
Não tem. Não pode ter.
Quando um presidente de um dos maiores clubes do país relativiza comportamentos que colocam em causa a integridade competitiva, está a enviar uma mensagem clara. Não apenas para os adeptos, mas para todo o ecossistema desportivo. A mensagem de que a linha pode ser esticada. Sempre um pouco mais até deixar de existir. Até rebentar.
Entretanto, as instituições observam. Liga, FPF e Governo. Todos com margem para agir. Todos com responsabilidade. E todos, demasiadas vezes, a optar pela prudência silenciosa. Pela gestão do momento. Pela esperança de que o tempo resolva aquilo que a liderança não resolve. É uma estratégia confortável, mas raramente eficaz.
Desta vez, o Ministério Público decidiu avançar com um inquérito, admitindo a possibilidade de crimes de natureza pública antes do jogo de andebol entre as duas equipas. É um sinal. Um sinal claro de que o assunto é sério. Demasiado sério. De que se estão a ser ultrapassadas todas as barreiras do aceitável. E devia servir de motivação para que as autoridades desportivas e governamentais deixassem de assobiar para o lado. Porque o problema não é apenas jurídico. É cultural. E os problemas culturais não se resolvem apenas com processos. Resolvem-se com posicionamento. Com liderança. Com exemplo.
O desporto português não precisa apenas de investigação. Precisa de autoridade. Precisa de consequências. Precisa de um ponto de rutura. Precisa que alguém diga, de forma inequívoca, que há um limite. E que esse limite não é negociável.
Quando a agressividade do futebol começa a contaminar outras modalidades, algo se perdeu. O andebol, como todas as modalidades, deveria ser um espaço de competição limpa, não um prolongamento das guerras de bastidores do futebol. E, no entanto, aqui estamos. A falar de balneários, de odores, de provocações pouco ou nada subtis transformadas em estratégia.
Tão inquietante como o episódio é a reação ao mesmo. Ou a falta dela. É a facilidade com que se desvaloriza. Com que se sorri. Com que se transforma o sério em anedota. Como se tudo isto fosse apenas parte do espetáculo.
Há uma linha invisível que separa a rivalidade da degradação. Alguns clubes estão perigosamente perto de atravessá-la por completo.
E quando isso acontece, o desporto deixa de cumprir a sua função mais básica. Deixa de ser um espaço de confronto leal para passar a ser um território de suspeita permanente, onde tudo se contamina, até aquilo que deveria estar protegido.
Não há vitória que compense. Pelo contrário. Há uma derrota silenciosa, partilhada, que não entra nas estatísticas nem levanta troféus. Uma derrota que se instala devagar, que corrói a confiança, que afasta quem ainda acredita que isto pode ser diferente.
E essa derrota é de todos. Dos dirigentes que alimentam o clima, das instituições que hesitam, do poder político que tarda em agir.
Mas também é de quem olha e aceita.
Porque há feridas que não se veem no fim de um jogo, mas que ficam. E essas são sempre as mais difíceis de sarar."

Paulo Pereira: o homem que acabou com as desculpas no andebol


"Nos últimos dias, o andebol português esteve em foco, mas não pelos melhores motivos. Acusações entre Sporting e Porto levaram mesmo a uma reunião com a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes. Não é este o caminho que o andebol e o desporto nacional devem seguir. Há demasiado para valorizar no andebol português…
Durante décadas, habituámo-nos a perder antes de entrar em campo. Perdíamos no discurso. No «somos pequenos». No «eles são melhores». No «fizemos o possível». Criámos uma cultura confortável de resignação, onde a derrota era explicada antes de acontecer. Paulo Pereira, atual selecionador nacional, nunca aceitou isso.
Portugal não precisava de mais talento. Precisava de alguém que acabasse com a desculpa. Paulo Pereira destruiu esse limite cultural autoimposto. Aceitou o contexto, a falta de meios, a dimensão do país, a força dos adversários, mas nunca aceitou que isso fosse um destino. E é aí que começa a verdadeira revolução.
O maior feito de Paulo Pereira não foi ganhar à Dinamarca. Foi fazer com que, antes desse jogo, os jogadores acreditassem genuinamente que podiam ganhar. No desporto de alto nível, tudo começa aí. A diferença entre competir e vencer raramente está apenas no talento. Está na convicção. Na atitude. Na capacidade de entrar em campo sem complexos, sem aquela inferioridade silenciosa que durante anos nos limitou.
O mindset constrói-se com persistência. Com trabalho. Não há atalhos. É preciso melhorar continuamente os processos, na gestão do tempo, na eficácia, no desenvolvimento técnico, tático, físico e mental. É essa disciplina diária que transforma convicção em resultados. Mas há algo mais profundo na forma como Paulo Pereira vê o rendimento e a liderança: − Somos o resultado de duas forças: aquilo que trazemos de casa e aquilo que aprendemos ao longo da vida.
Liderar, explica, é garantir que ninguém se sente invisível. Que todos se sintam úteis, valorizados e parte do processo. Mesmo os conflitos, inevitáveis, podem ser momentos de crescimento.
A proximidade relacional é essencial. Sem ela, não há autoridade. Para exigir, é preciso primeiro criar ligação. Só assim é possível, em determinados momentos, ser mais firme ou até mais autoritário, quando o grupo assim o exige. E essa autoridade não se impõe, constrói-se com competência, preparação e coerência: − Eu nunca entro numa reunião sem estar preparado. Se não estiver, sei que não vou convencer ninguém.
A liderança não é fixa. Ajusta-se. Oscila entre momentos mais democráticos, mais exigentes ou mais diretivos, consoante as circunstâncias, o momento e as necessidades do grupo. É o próprio grupo que vai ditando essa linha. Ao mesmo tempo, a proximidade pode ser desafiante. Há decisões difíceis que têm de ser tomadas. Nesses momentos, a consciência tem de ser o guia: − Nem sempre acertamos, eu próprio cometi erros, mas procuro sempre decidir com base naquilo que acredito ser justo e melhor para o grupo, mesmo quando custa.
Há um episódio que o marcou profundamente. Como adjunto no FC Porto, venceu o Valladolid por 11 golos na primeira mão. Na segunda, perdeu por 12. Eliminado: − Foi como morrer de tristeza.
A frase é reveladora. Mostra alguém que sente o jogo para além do resultado. Alguém que percebe o peso emocional da competição ao mais alto nível. E, ao mesmo tempo, alguém que aprendeu a seguir em frente:
− Com o tempo, fui percebendo que tudo é movimento. Hoje perdemos, amanhã ganhamos, e no dia seguinte temos de continuar. Ora somos despedidos, ora somos convidados para novos projetos. Vivemos entre expectativas, alegrias e frustrações constantes. E é essencial aprender a lidar com tudo isso.
Esta ideia de movimento constante está no centro da sua liderança. Nem dramatiza a derrota, nem se ilude com a vitória. Equilibra. E isso reflete-se na forma como lidera: − Liderar é criar condições para que as pessoas sejam felizes, pensem pela sua própria cabeça e trabalhem para um objetivo comum. Não é controlo absoluto. Não é imposição cega. É exigência com autonomia. É garantir que ninguém se sente invisível. Que todos têm um papel. Que todos contam. É dar espaço, mas alinhar quando necessário. Porque quando surgem desvios, e surgem sempre, o objetivo coletivo tem de prevalecer sempre.
No alto rendimento, há outro fator inevitável… a pressão:
− Os grandes atletas sempre funcionam dentro de uma base de pressão. Grandes atletas e grandes treinadores. Se nós não conseguirmos funcionar num contexto com muita pressão, temos que mudar de atividade. Mas atenção, há a pressão positiva e a pressão negativa. A diferença está no ambiente que se cria.
E há também uma visão clara sobre o erro. E explica:
− Tento transmitir que alguns erros são permitidos. Erros normais do jogo, que acontecem quando as pessoas procuram seguir um plano, mas por vezes exploram alternativas e se equivocam. Às vezes, até tentam ser criativos, e isso para mim é um bom erro. O mau erro, por outro lado, é quando se tenta fazer algo com pouca consistência e baixíssimas hipóteses de sucesso. Esse tipo de erro não é permitido.
O erro, quando bem enquadrado, é aprendizagem. Este detalhe é fundamental. Porque é aqui que se constrói uma equipa que não tem medo de jogar. Uma equipa que arrisca. Que cria. Que cresce. E que entra em campo para ganhar. Aliás, essa ambição nunca foi escondida. Quando Paulo Pereira afirmou que Portugal podia conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos, muitos consideraram irrealista. Mas a equipa esteve perto. Muito perto. E isso expôs algo simples: não era loucura. Era preparação, crença e insistência:
− Quando fazemos bem as coisas, a distância entre ganhar e perder torna-se muito curta.
Esta frase resume o nível em que Portugal passou a competir. E expõe também uma realidade incómoda: Portugal conseguiu resultados de elite com condições que continuam longe de ser de elite. Pavilhões sem as melhores condições, investimento insuficiente, visibilidade mediática residual. E, ainda assim, resultados extraordinários. Isto não devia surpreender. Devia envergonhar. Quando se lembra que o andebol foi das poucas modalidades coletivas portuguesas presentes nos Jogos Olímpicos, não estamos apenas a elogiar, estamos a expor uma contradição nacional. Portugal normalizou o extraordinário. E isso é perigoso. Porque aquilo que é extraordinário, quando não é protegido, desaparece. Seja no desporto ou na vida.
Mas o maior legado do Paulo Pereira não está nos resultados. Está na mudança de mentalidade. Nos jogadores que hoje entram em campo sem pedir licença: Francisco Costa, Salvador Salvador, Martim Costa, Victor Iturriza, etc. Uma geração com talento, sim. Mas, acima de tudo, educada competitivamente. E o próprio acredita que o teto ainda não foi atingido:
− O Francisco Costa pode um dia ser o melhor do mundo. Se ele continuar nesta linha de trabalho, se ele melhorar fisicamente e, com certeza, ele tem a inteligência suficiente para poder continuar a melhorar, ele poderá vir um dia a ser o melhor jogador do mundo. E quando digo o melhor do mundo, falo de ataque.
Isto não nasce por acaso. É cultura. É exigência. É liderança. Paulo Pereira não criou apenas uma equipa. Criou um padrão. Um padrão de exigência, ambição e responsabilidade. E isso levanta uma questão inevitável: estará o andebol português preparado para continuar sem ele, mantendo essa exigência? Talvez a resposta esteja na evolução do próprio:
− Já pensei que liderar era ter pessoas a fazer exatamente o que eu dizia. Hoje acredito no contrário: o líder deve estar ao serviço das pessoas.
Esta mudança diz tudo. Mostra um líder que evoluiu. Que aprendeu. Que se adaptou. E percebeu que, no fim, liderar não é controlar. É potenciar. E, ainda assim, sente que o trabalho não está terminado:
− A sensação que tenho é que há alguma coisa que temos que terminar. Começámos há 10 anos. Tenho contrato até 2028 mas acho que falta acabar alguma coisa. E quando falta acabar alguma coisa, ainda continuamos a ter um propósito forte. E se esse propósito existe, vamos a isso.
O seu estilo de liderança merece, de facto, reflexão. Num tempo em que se valoriza a distância, Paulo Pereira aproxima-se. Envolve-se. Assume o peso. Não romantiza o sacrifício, vive-o. E isso torna-o credível. Criou uma marca «Heróis do Mar» mas, mais importante, criou um padrão. De compromisso. De ambição e de rigor. Paulo Pereira não é apenas o melhor selecionador da história do andebol português. É um espelho raro do que o desporto nacional pode ser quando deixa de ter medo de pensar grande. Educou uma geração para pensar a médio prazo, para controlar emoções, para respeitar o processo, para aceitar a pressão como parte do privilégio de competir, sem complexos, ao mais alto nível e para perceber que representar o país não é um momento, é um compromisso permanente. E, goste-se ou não do seu estilo, há uma verdade incontornável: depois dele, já ninguém pode fingir que não sabe o caminho. E mais do que um treinador, tornou-se um influenciador de comportamentos. Muito antes das redes sociais. Influencia pelo exemplo, pela coerência, pela autenticidade e pela exigência diária.
Essa influência ultrapassa o balneário. Chega aos clubes, aos jovens, aos adeptos. Tornou normal falar de ambição sem medo. De ganhar sem pedir desculpa. E quando um líder eleva de forma consistente o nível do que é aceitável, o impacto deixa de ser pontual. Passa a ser cultural.
Aconteça o que acontecer, o andebol português já não será o mesmo. Porque houve um homem que veio de um tasco reconstruído à força de pontapés nos ratos, que jogou à bola na rua até o chamarem para trabalhar, e que ensinou uma geração inteira a olhar nos olhos de França, Alemanha ou Dinamarca e pensar: eles que tenham cuidado connosco.
Isso não se apaga. Isso fica.
Fica o exemplo que transcende o andebol e o desporto…"

Año X despús de Johan Cruyff