Últimas indefectivações

sábado, 8 de setembro de 2018

Crónica futurística: exílio do Benfica e o país em 2022

"O Benfica joga em La Liga, a economia portuguesa sofre, os jornais desportivos fundiram-se num só título e as estações de TV passaram a transmitir uma programação virada para Ópera, cartomancia e jardinagem.

Oito de Setembro de 2022. Cumpre-se hoje a 4.ª jornada do campeonato espanhol e o Benfica joga em Valladolid. São esperados 15 mil portugueses. É uma alegria para o comércio local e também para o clube anfitrião, que vê assim esgotada a lotação do Estádio José Zorrilla. O presidente da Real Federación Española de Fútbol tinha razão quando, no já distante verão de 2019, ao aceitar a inscrição do Benfica em La Liga, prometeu aos espanhóis que a presença do maior clube português teria reflexos importantes na indústria. E, de facto, assim tem acontecido, superando até as expectativas. Ainda há duas semanas, quando na 2.ª jornada foi o Benfica jogar no campo do Girona, nem os 1400 quilómetros que distam entre Lisboa e aquela cidade catalã impediram que uma multidão de benfiquistas enchesse o Estádio Montilivi para assistir a uma expressiva vitória do seu emblema e ao regresso de Jonas depois daquele aborrecido problema lombar.

'O Benfica trará maiores benefícios ao futebol espanhol do que aqueles que o Mónaco empresta ao campeonato francês ou mesmo dos que os clubes de Israel emprestam às competições organizadas pela UEFA', disse na altura o presidente da RFEF. Na altura ninguém o levou a sério e a novidade foi até recebida com foros de excentricidade internacionalista. Mas, logo na primeira época em que o Benfica jogou em La Liga 2019/20, os índices da sua presença foram altamente satisfatórios. Aumentaram as assistências no estádios e as receitas dos operadores televisivos espanhóis, aumentaram as tiragens dos jornais 'As' e 'Marca', que passaram a vender-se nos quiosques das cidades portuguesas, aumentaram as receitas do comércio local por todo o país vizinho e aumentou a cotação dos jogadores do Benfica que, jogando no campeonato espanhol, passaram a ter uma visibilidade de mercado inatingível em Portugal.

A economia portuguesa é que tem sofrido um bocado com esta proscrição. A cada segunda-feira, milhares e milhares de cidadãos nacionais comparecem nos seus postos de trabalho extenuados pelos milhares de quilómetros que percorrem na Ibéria ao fim de semana para apoiar o Glorioso. O impacto desta situação por cá e já um caso sociológico: o campeonato português, coitado, é uma miséria total, o Record, 'A Bola' e 'O jogo' fundiram-se num só título e as estações de televisão passaram a transmitir nas suas noites uma programação toda virada para a ópera italiana, para a cartomancia e para a jardinagem. A águia Vitória foi fuzilada em directo - o que levantou algumas objecções dos ambientalistas internacionais - e encontram-se actualmente empalhada no gabinete de uma pessoa importante. Hoje, no Seixal vivem apenas a Madonna mais os filhos e todos aqueles relvados foram transformados num acampamento para lisboetas despejados de suas casas pela pressão imobiliária. Muito mais do que um clube, o Benfica é uma obra social. Y olé!"

Vitória no Funchal...

Madeira SAD 25 - 31 Benfica
(13-13)

Jogo estranho, com momentos muito maus, e alguns bons... mas no final, acabámos por vencer, com alguma tranquilidade...

Os nossos Centrais estão mesmo a fazer falta, o Seabra e o Xico precisam de recuperar - já que o João vai demorar mais tempo... -, daqui a 4 jornadas, temos jogo com os Lagartos, e não podemos jogar sem Centrais...!!!

Pizzi: a camisola do Barça, o "patrão" da Luz e "ídolo" em Bragança

"O Bancada aproveitou aquele que é o melhor arranque de época de Pizzi para ir até às raízes do médio em Bragança.

A atravessar aquele que é o melhor arranque de época da carreira, Pizzi já mereceu a chamada de regresso à Selecção Nacional. Em apenas oito jogos nesta temporada, o médio do Benfica já igualou o número de golos marcados na totalidade de 2017/18 (seis) e foi um dos principais destaques do trajecto das águias até à fase de grupos da Liga dos Campeões. O Bancada foi até às raízes do jogador de 28 anos, natural de Bragança, onde deu os primeiros passos no futebol. Para além de ter ouvido a história do nome que o transmontano adoptou no desporto rei, ficou também provado que o carácter animado e brincalhão que passa para fora dos relvados já se notava enquanto jovem aspirante a futebolista.
Luís Miguel Afonso Fernandes. Se perguntássemos a inúmeras pessoas a quem pertence este nome, certamente que seriam poucas as que saberiam a resposta. Assim o é porque o Luís é conhecido no mundo do desporto rei por Pizzi, numa homenagem ao antigo avançado do FC Barcelona, que também passou por Portugal, mais precisamente pelo FC Porto. Mas, foi devido ao clube catalão que a alcunha surgiu. Benfica, FC Porto e Sporting são os clubes grandes do futebol português, mas o jovem Luís preferia vestir uma camisola do Barça quando jogava na rua com os amigos. “Quando era miúdo, ele andava sempre com uma camisola do Barcelona e daí o nome Pizzi, porque na altura jogava no Barcelona o Pizzi e como ele fazia muitos golos os amigos só o tratavam assim”, revelou, em conversa com o Bancada, Beto Antas, antigo treinador de Pizzi nas camadas jovens do GD Bragança.
O próprio Beto Antas acompanhou o percurso de Pizzi dos sete aos 17 anos em Bragança até o SC Braga avançar para a contratação do jogador. “Chamou-me logo a atenção nos primeiros treinos de captação, um miúdo franzino e pequeno em relação aos outros da idade dele. Isto com sete, oito anos já demonstrava uma técnica acima da média. Era um miúdo alegre e notava-se que gostava daquilo que fazia. Quando lhe chamava a atenção por alguma coisa que se passava no campo [posicionamento ou movimentações] mostrava-se interessado e com muita vontade de fazer sempre bem aquilo que se lhe pedia”, confidenciou ainda o antigo técnico do médio do Benfica.

“Muita gente chamou-me maluco… mas eu sabia o que estava ali”
Pizzi é hoje uma das principais figuras dos tempos mais recentes do Benfica, mas a verdade é que o Sporting teve a oportunidade de ficar com ele ainda em jovem idade. “Muita gente chamou-me maluco e diziam que era apenas mais um que iria ficar pelo caminho. Mas, eu sabia o que estava ali pela maneira como trabalhava e sempre acreditei nele. Pelo trabalho, vontade, empenho e dedicação que demonstrava… muitas vezes tinha que o mandar parar porque ele queria sempre mais e até ficava chateado comigo por isso. Ele começou a dar nas vistas nas selecções distritais e vários clubes andaram de olho nele. Esteve a fazer testes no Sporting com mais ou menos 10/11 anos”, contou Beto Antas. No entanto, foi um emblema minhoto que apostou primeiramente no transmontano.
“Foi o SC Braga que chegou com condições mais realistas numa altura que ele numa época com idade de juvenil, foi campeão distrital de juvenis, juniores e nos seniores campeão da 3.ª Divisão”, referiu o antigo treinador de Pizzi. Por falar na equipa principal do Bragança, Carlos Carneiro, conhecido como 'Pedrinha' no mundo do futebol, foi colega dele por lá e deu conta de uma situação peculiar para um jovem chamado ao plantel sénior. “Sempre que tínhamos um treino de equipas, todos o queriam na equipa devido à qualidade dele já naquela idade”, contou ao Bancada.

“Em dez remates… nove deles eram golo”
“Para a idade que tinha já mostrava muito potencial em relação a outros da mesma idade e aos mais velhos. Era muito rápido e habilidoso com a bola, quer em drible quer em passe. Quando ele começou no Bragança era um jogador muito repentino de fácil drible, que tanto fintava com o pé direito como com o esquerdo, o que fazia com que fosse um jogador diferente dos outros”, prosseguiu ainda Carlos Carneiro. Nos dias que correm habituámo-nos a ver Pizzi jogador numa posição mais central do terreno, mas a verdade é que foi como extremo que deu os primeiros passos em sénior. “A posição dele quando apareceu era extremo dos dois lados, mas tinha uma facilidade em finalizar muito acima da média. Em dez remates... nove deles eram golo, tinha muita frieza frente ao guarda-redes.”
Esse cariz finalizador de Pizzi, que veio ao de cima neste início de temporada, era já um traço característico do futebol do transmontano no começo da carreira. “Era um finalizador nato, fazia muitos golos de todas as maneiras e feitios. Foi sempre o melhor marcador tanto a nível de clube, como nas selecções distritais”, referiu Beto Antas. De facto, essa veia goleadora fazia com que Pizzi jogasse mais avançado no campo do que nos dias que correm. “Ele actuava como ponta de lança ou médio ala. Fez algumas vezes a posição oito quando era preciso. Era muito evoluído tecnicamente e inteligente”, considerou Beto Antas.

“O melhor do Benfica… hoje é um patrão”
Pizzi foi contratado pelo SC Braga em 2007/08 e foi emprestado ao GD Ribeirão na temporada seguinte, depois de uma época nos juniores dos arsenalistas. Por lá encontrou João Pica, agora jogador do Académico de Viseu. “Nós passávamos muito tempo juntos, almoçávamos e jantávamos sempre juntos com mais uns colegas que tinham vindo com ele de Braga...houve muita situação engraçada...muita mesmo!”, salientou o defesa em conversa com o Bancada, antes de destacar aquilo que viu de Pizzi nessa temporada. “Ele na altura jogava mais na linha, muito rápido e com técnica já acima da média. Era jovem e tinha uma margem enorme de progressão, soube aproveitar as suas qualidades e as oportunidades que lhe deram e isso, a par da humildade, fizeram dele o jogador que é hoje.”
Tiago Martins também partilhou balneário com Pizzi no Ribeirão e descreveu as qualidades e capacidade que o médio aprimorou e que fazem dele um “patrão” dentro de campo hoje em dia. “Fisicamente nunca foi muito forte, mas nunca teve medo do contacto, tecnicamente era já acima da média. O Pizzi com a bola nos pés era e é rápido e sempre jogou com a cabeça levantada desde jovem com boa visão de jogo, que o faz hoje o melhor do Benfica pela grande qualidade que tem, hoje é um patrão”, salientou o antigo avançado ao Bancada.
Para um miúdo com pouco tempo no SC Braga e já alguma experiência anterior de seniores, uma cedência ao Ribeirão poderia ter sido vista como um passo atrás… mas quem jogou com Pizzi sabe que o jogador do Benfica viu essa situação sim como uma oportunidade. “Ele sabia que ia ser uma passagem para ele em Ribeira, acredito que por vezes quando não era opção lhe tenha passado isso [passo atrás] na cabeça, mas é normal para quem é jovem e está ligado a uma equipa como o SC Braga. No entanto, ele foi sempre profissional e conseguiu chegar à equipa principal do Braga com o seu trabalho”, referiu João Pica.
Tiago Martins falou em “boa aposta” para descrever a passagem de Pizzi pelo Ribeirão. “No Braga B joga-se com jovens todos da mesma idade, não há muita experiência, que num clube não sendo equipa B tem um pouco de tudo. Ele jogava comigo na frente na direita. Muitas vezes era meu suplente [risos]. Lembro-me num jogo na Madeira em que ao intervalo ele entrou para o meu lugar e marcou um golo que depois empatamos no final”, lembrou.

“Brincalhão e animado”... é assim o “ídolo” de Bragança
Quem acompanha o dia a dia do Benfica e, mais precisamente de Pizzi, já foi absorvido pela imagem que o médio passa para fora das quatro linhas de ser um animador de balneário. Na verdade, o transmontano já era assim em jovem. “Era um miúdo muito brincalhão e animado, tinha sempre um sorriso na cara, andava sempre com partidas aos colegas e faziam um balneário fantástico”, reconheceu Beto Antas, antigo treinador de Pizzi no Bragança.
Quando chegou aos seniores do clube da sua terra, o jogador de 28 anos acusou alguma timidez, mas aos poucos a integração no plantel foi suplantando isso. “Ele era um miúdo um pouco tímido porque só tinha 16 anos e quando se está pela primeira vez com colegas com mais idade fica-se mais acanhado do que espevitado. Mas, depois com o decorrer do tempo ele era brincalhão... mas sempre sem abusar, senão os mais velhos punham-no em sentido”, contou Carlos Carneiro.
Em Ribeirão, o facto de se ter sentido em casa desde logo fez com que se sentisse mais à vontade. “Ele vinha com cinco colegas também do Braga, por isso estava mais à vontade. Mas, era um miúdo calmo, que escutava e respeitava toda a gente e já sabia o que queria apenas com 19 anos. Fazia as suas brincadeiras de balneário, mas mais com os seus colegas do Braga. Aos poucos foi ganhando confiança e depois soltou-se com o resto do grupo que é normal. Quando o vejo hoje no Benfica vejo que é a mesma pessoa que à nove anos atrás”, reconheceu Tiago Martins. “Apesar de ser dos mais jovens no balneário, o Pizzi era brincalhão, numa equipa muito jovem no geral e isso permitia mais brincadeira. O Pizzi era um miúdo animado e que fazia bom balneário”, acrescentou João Pica.
Pizzi nunca renunciou às suas origens, mesmo apesar de a carreira futebolística já o ter levado a Braga, Ribeirão, Paços de Ferreira, Covilhã, Madrid, Corunha, Barcelona e, por fim, Lisboa. Por isso mesmo, é que o jogador do Benfica é visto como um “ídolo” para as gentes daquela terra de Trás-os-Montes. “O Pizzi é hoje visto em Bragança como um ídolo e uma referência para os mais jovens. Quando pode, não esquece as origens, vem a Bragança e continua com a mesma humildade que sempre o caracterizou, amigo do seu amigo e sempre disponível para ajudar quem precisa com causas solidárias e não só”, confidenciou Beto Antas."

Fabio e os novos Mancinis

"Anda tudo louco por Cristiano não marcar golos em Itália. Ou é a inspiração de Sorrentino, Strakosha ou Sepe, os três guarda-redes que encararam a Juventus, ou então os remates do #7 bianconero saem ligeiramente direcionados ao lado do alvo e o salto do monstro fica encravado. No entanto, a aparente imprecisão do jogador mais bem pago da história da Serie A não significa necessariamente que o campeonato perca interesse, uma vez que há outros protagonistas dignos de realce, desde que queiramos olhar com olhos de ver. Fabio Quagliarella reforça essa teoria.
O magnífico golo de calcanhar de Quagliarella contra o Nápoles, em Marassi, no domingo, foi uma obra de arte para gravar na memória. O cruzamento de Bereszynski, do lado direito do ataque da Sampdoria, até nem foi famoso. A bola foi para trás de Quagliarella, mas o avançado ‘blucerchiato’ teve o instinto para improvisar com o golpe técnico adequado à situação, para estupefação de Koulibaly, que ainda está para perceber o que aconteceu na sua área. Ospina ainda viu o filme com alguma nitidez, mas também não foi capaz de pôr as mãos em cima da bola.
Por ser natural da Campânia e ter coração ‘azzurro’, adepto de infância do Nápoles, não celebrou o golo com a euforia que se exigia. E é curioso que, há quase uma década, também não andou aos saltos na altura em que marcou outro golo de ‘tacco’, pela Juventus contra a Udinese, culminando o passe rasteiro de Krasic. A explicação? Fabio não festejou esse golo pelas zebras porque já tinha jogado nas zebrinhas.
Com a proeza em Marassi, Quagliarella registou o seu 128.º golo na Serie A e vinca a condição de maior goleador em actividade na elite do ‘calcio’. Ainda não chega a metade do recordista Silvio Piola, mas ultrapassou nessa lista Shevchenko, igualou Rivera e ficou a um de Bettega, também conhecido por um mítico golo de calcanhar pela Juventus contra o Milan, numa vitória ‘bianconera’ por 1-4 em San Siro, em 1971. Com muito menos golos na lista, mas com merecida ênfase neste artigo, o brasileiro Mancini, então na Roma, fez um dos mais espetaculares, em 2003, e logo num derby contra a Lazio no Olímpico. Arrepia só de lembrar.
Embora tenha nascido no Sul e feito formação no Norte, no Torino, a Samp é um emblema especial para Quagliarella. Foi pelos genoveses que chegou à Selecção italiana, pela mão de Donadoni, que também o “apanhou” no Nápoles em 2009/10, já com Hamsik e Lavezzi. Na primeira passagem pela Samp, com Novellino a treinador, em 2006/07, fez parte de uma boa equipa que tinha Palombo no meio-campo, isto antes de rumar a Friuli, para a Udinese.
O regresso a Génova tem feito sentido para prosseguir a carreira e ninguém percebe que tem 35 anos. Por acaso recordam-se que essa era a mesma idade de Roberto Mancini quando, em 1999, fez aquele que pode perfeitamente ser considerado o golo de calcanhar mais elegante de todos os tempos, no Tardini, contra o Parma, na sequência de um pontapé de canto batido por Mihajlovic?
Nessa noite, depois do monumento assinado por Mancini, ‘Bobo’ Vieri apelidou-o de Maestro. O deslumbramento de Vieri era justo. E admito que 'Mancio' foi um dos mais fascinantes jogadores do meu tempo. Com aquela maravilha, digamos que foi fácil para Cragnotti, o presidente da Lazio, ter ficado ainda mais convencido com a sugestão de Eriksson quando o treinador lhe havia dito que ganhariam o ‘scudetto’ se Cragnotti lhe trouxesse Mihajlovic, Verón e Mancini, gente que o sueco já conhecia da Samp. Dito e feito. A Lazio foi mesmo campeã em 1999/2000. Ficamos, então, à espera das próximas pérolas de Quagliarella e de novos Mancinis. Porque isto não deve ficar por aqui."

A escola gaúcha

"Em Julho de 2014, na ressaca da mais humilhante das derrotas da selecção brasileira, frente à Alemanha por 7-1 nas meias-finais do Mundial, a imprensa acreditava que a CBF escolhesse o gaúcho Tite como novo técnico. Mas não: optou pelo gaúcho Dunga. Interrompia-se assim o ciclo do gaúcho Luiz Felipe Scolari, que sucedera ao gaúcho Mano Menezes, que por sua vez em 2010 tomara o comando canarinho da mão de Dunga, um gaúcho, já se sabe. Caiu Dunga, pela segunda vez, entretanto, e foi então contratado, finalmente, Tite, que como já dissemos é gaúcho, para os ciclos Rússia-2014 e Qatar-2018.
De 2006 até 2022, são 16 anos seguidos de gaúchos no banco da selecção, nascidos em Caxias do Sul (Tite), Ijuí (Dunga), Passo Fundo (Felipão) e Passo do Sobrado (Mano), localidades num raio de 250 quilómetros no Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil.
“O que é que a baiana tem?”, escreveu Dorival Caymmi, em 1939, para a voz da luso-brasileira Carmen Miranda. E no futebol, o que é que o gaúcho tem? Como é que uma região que representa um 20º da população do país e um 30º do seu tamanho domina o banco da selecção?
A teoria “naquele momento, naquele lugar” é antiga e ecléctica. Na literatura, conviveram na mesma Paris – na sala de estar da casa de Gertrude Stein, mais precisamente - Ernest Hemingway, Francis Scott Fitzgerald ou Ezra Pound, a nata da génération perdue.
Num prédio acanhado de Hell’s Kitchen, no lado oeste de Manhattan, Lee Strasberg ensinou o método Stanislavski, nalguns casos na mesma sala de aula, a Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Marlon Brando, Montgomery Clift, James Dean, Marilyn Monroe, Paul Newman, Ellen Burstyn, Al Pacino, Geraldine Page ou Eli Wallach.
No prefácio ao livro de 2012 de Sandro Modeo Il Barça: tutti i segreti della squadra più forte del mondo, o jornalista Paolo Condó recordou ainda que graças ao médico Franco Basaglia a sua cidade natal, Trieste, se tornou a meca da psiquiatria mundial, isto a propósito de Barcelona, à época daquela obra o destino de todos os repórteres free lance europeus, atraídos pela presença “naquele momento, naquele lugar” de Guardiola, Messi, Xavi, Iniesta e de outros “revolucionários”.
O Silicon Valley é um exemplo contemporâneo da teoria, assim como a Escola de Sagres, nos idos séculos XIV e XV.
Mas como é de futebol que falamos, as escolas de treinadores, da húngara à holandesa, passando pela catalã, pela argentina e até pela portuguesa, são casos de estudo cada uma no seu tempo. Por sua vez, no livro Franz. Jürgen. Pep, de 2016, os autores procuram obstinadamente a origem do domínio alemão, tão expressivo nos últimos anos, e também encontraram um lugar, geograficamente demarcado.
Concluíram que, da mesma maneira que se fala na Escola de Frankfurt, como berço de teorias sociológicas, no futebol se poderia falar na Escola de Stuttgart, como berço do futebol moderno, ou não fossem Klinsmann, Löw, Klopp e o teórico preferido de todos eles, Ralf Rangnick, naturais de povoados em redor da capital de Baden-Württemberg. 
A Escola de Estugarda derreteu a, chamemos-lhe assim, Escola Gaúcha, naquele tal Julho de 2014, quando a Alemanha de Löw goleou o Brasil de Scolari, mas ainda assim a aposta brasileira pós-Felipão foi noutro gaúcho, Dunga, e ainda em mais um, Tite.
Porquê? E há algum pólo de atracção no Rio Grande do Sul, como Gertrude ou Strasberg?
Tite fala em duas correntes dentro da própria escola gaúcha: uma representada por Carlos Fröner, um militar tricampeão pelo Grêmio nos anos 60 e também seleccionador com um futebol que privilegiava a defesa, a marcação, a rigidez e a disciplina e da qual, diz ele, Scolari é seguidor; e outra por Ênio Andrade, campeão nos anos 70 pelo Internacional com um futebol organizado mas vistoso, em que ele se revê.
Mas Paulo Roberto Falcão, que também chegou à selecção como treinador e era a estrela daquele Inter de Andrade, discorda. “Mesmo ele privilegiava a defesa”. E Oswaldo Brandão, treinador que conseguiu a proeza de ser ídolo de Palmeiras e Corinthians e foi o primeiro gaúcho a orientar a selecção, em 1955, de tão severo chegava, consta, a bater nos jogadores de cinto.
“Somos competitivos, guerreiros, ‘copeiros’ [ndr: treinadores com vocação para competições a eliminar] e mais europeízados”, explicou um dia Argel, antigo defesa de FC Porto e Benfica, nascido no Rio Grande do Sul. “É cultural, tivemos muitas guerras por aqui, isso formou gente com capacidade para enfrentar batalhas, para comandar, também os jogadores e os árbitros gaúchos têm boa fama”.
O estado mais a sul do Brasil, de facto, outrora disputado pelos reinos de Portugal e Espanha, local de destino de milhares de imigrantes açorianos, italianos e alemães, passou o século XIX em guerras – Guerra dos Farrapos, Guerra do Paraguai, entre outras – contadas, com primor, nos livros de Érico Veríssimo, um dos mais reputados escritores brasileiros do século XX e gaúcho até à alma.
“Criam equipas competitivas, sem dúvida”, disse o jornalista Maurício Savarese, correspondente no Brasil da revista 4x4x2 e paulistano de nascimento. “Mas o excesso de mentalidade gaúcha tornou o futebol brasileiro um tédio desde os anos 90”.
Até ao Qatar 2022, a Tite compete fazer o Brasil ganhar outra vez e defender a honra da escola."

O crime não pode compensar

"As declarações que sublinham o papel indispensável que o desporto deve assumir perante o agudizar de tensões, de intolerância, de individualismos e conflitos étnicos, sociais, políticos e religiosos que hoje vivemos são conhecidas e recorrentes.
Muitas vezes gostamos de evocar as palavras visionárias de Mandela, quando afirmava que o desporto “tem o poder de mudar o Mundo”.
Mas frequentemente esquecemo-nos que o desporto é um produto social e nessa medida também amplifica, reproduz e acentua - em palcos de milhões - fenómenos de violência, de racismo e de criminalidade.
Se não soubermos preservar o desporto, se formos incapazes de cuidar dos seus valores e princípios fundamentais, se não salvaguardarmos a sua integridade, se o não colocarmos ao serviço do desenvolvimento social e humano conforme se encontra consagrado na Carta Olímpica todo o seu valor formativo se perde.
Porque aí o desporto vira-se contra si próprio. Subverte a sua missão essencial, descredibiliza-se irremediavelmente perante a sociedade e compromete a reputação dos agentes e das organizações que desempenham aquilo que deveria ser um relevante serviço de interesse público.
A globalização do fenómeno desportivo, a sua mercantilização alavancada por um crescente volume financeiro e interesses de cariz económico e político, tem exposto vulnerabilidades preocupantes da indústria do desporto à permeabilidade das ameaças crescentes que corroem os seus pilares fundamentais.
Diariamente somos inundados com episódios de manipulação de resultados, apostas ilegais, infiltração criminosa, corrupção, tráfico de menores, fraude fiscal, branqueamento de capitais ou tráfico de influências que usam o desporto para florescer proveitos de origem criminosa.
A integridade, não tenhamos dúvidas, há muito está posta em causa e é hoje uma das maiores, mais sérias e complexas ameaças que o desporto enfrenta. 
Maior pelo volume financeiro que comporta.
Mais sérias pela dimensão da rede de criminalidade organizada transacional que aqui opera com baixo risco e elevados lucros.
Complexas pela sua dimensão transnacional e sofisticação tecnológica.
Ora, se sabemos que esta é uma realidade que em muito extravasa a jurisdição e a regulação do desporto, devíamos ter plena consciência que urge mobilizar esforços para suster esta gangrena, pois não serão outros a fazê-lo por nós, se não assumirmos, de forma firme e decidida, uma atitude liderante.
O Comité Olímpico de Portugal tem a perfeita noção que uma ameaça global desta índole requer de imediato o compromisso intransigente e empenhado de organizações que partilhem a mesma visão reformista e preocupação face à enorme dimensão dos problemas que atravessamos.
Que cruzam as competências das organizações desportivas, mas também de governos, entidades intergovernamentais, órgãos de investigação e polícia criminal, reguladores e operadores de apostas, mas também a reputação e credibilidade de patrocinadores, operadores televisivos e demais entidades cujos investimentos e marcas estão postos em causa e manchados por escândalos.
O desporto, mais do que personagens, precisa de ideias, de esforços conjuntos e, mais do que casos, precisa de causas.
A batalha da Integridade é um processo interminável e de melhoria permanente.
Um longo caminho a percorrer, tantas vezes marcado pela frustração entre o que almejamos e aquilo que alcançamos. Marcado pelo desinteresse e alguma ignorância.
Mas à medida que avançamos temos perfeita consciência que se trata do desafio mais importante, e porventura decisivo, daqueles que gostam desporto e acreditam no seu valor formativo.
Por isso não temos receio de expor as nossas fragilidades, de trocar pontos de vista, de mobilizarmos esforços conjuntos no sentido de nos fortalecermos e passarmos uma mensagem clara: o crime não pode ter no desporto um palco privilegiado de impunidade."

Manuel Constantino, in Tribuna Expresso

Uma Semana do Melhor... com o Tiago Machado

Mais um, que não percebe nada disto !!!

Assessores de imprensa do MP !!!

"Durante a semana, alguns dos mais reputados penalistas de Portugal arrasaram a acusação que o Ministério Publico dirigiu ao Benfica. E se ao início poder-se-ia pensar numa motivação clubística de alguns advogados consultados pelas mais variadas televisões, mais tarde até esse argumento caiu com estrondo. Não houve um penalista que não tivesse arrasado a acusação.
Pois bem, o que escreve o Expresso sobre o tema. Que a acusação é demolidora para o Benfica. Esta é a forma do Ministério Publico se defender. E como? Fazendo um julgamento público e acusando sem provas. E como faz isso? Aproveita jornalistas e meios de comunicação social com quem tem relações de promiscuidade jornalística. É isto que está causa.
Querem mais exemplos? A jornalista Tânia Laranjo tem sido uma das principais defensoras da acusação. Quem tem sido, em Portugal, uma das principais beneficiárias das toupeiras do Ministério Publico? Ela mesma. Por isso defende a acusação, tornando-a uma sentença e sem direito a contraditório.
O mesmo se passa com o jornalista Carlos Rodrigues Lima, que ontem, na sua página no Facebook ridicularizou o que chamou de 95 por cento dos advogados que haviam passado pelas televisões. Este jornalista é, curiosamente, um dos principais beneficiários das constantes violações do segredo de justiça.
Isto é o que temos assistido e tenho alertado desde o início. De um lado, as pessoas da lei, que a conhecem, alguns deles que ajudaram a fazê-la que arrasam a acusação. Do outro lado alguns jornalistas e meios de comunicação social a quem o Ministério Publico passa as suas informações com o objectivo de fazer um julgamento público.
Há quem chame a isso jornalismo. Eu acho que é assessoria de imprensa ao Ministério Publico. É nisso que as pessoas devem pensar. Nisso e em deixar a justiça fazer o seu trabalho. Eu disse a justiça. Não confundir com justiceiros mediáticos."

Benfiquismo (CMXLIV)

Dia do Trabalhador!

Jogo Limpo... Seara, Guerra & Fanha

Surreal...



Já tinha a sensação do que se estava a passar, com a constituição da SAD como arguida, mas como não tive paciência de ler a acusação, não me apercebi daquilo que o Pragal denunciou neste vídeo...!!!
Isto é simplesmente criminoso, não é, não pode ser simplesmente incompetência do MP, é impossível... Estamos perante um acto doloso, por parte do Procurador que assinou esta acusação...
O Benfica tem que partir para uma acção contra o Estado...

Curiosamente, este Procurador já tem no seu curriculum acusações absurdas, que obrigou o Estado Português a pagar indemizações, parece que ainda vai custar mais...!!!

Inacreditável, como a descomunicação social especializada, que tem dedicado horas e horas, páginas e páginas a este assunto, repetindo ad nauseam frases feitas, mentirosas, e difamatórias e ainda não tenham verificado a 'data' dos processos!!!!

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Outro 'fanático' Benfiquista!!!

Rui Vitória recupera forças

"Só o empate com o 'fraquinho' Sporting nos distanciou de um início de temporada perfeito. Estamos mais fortes.

O Benfica termina um ciclo terrível com bom aproveitamento. Na liderança do campeonato e com apuramento milionário para a Liga dos Campeões, Rui Vitória recupera forças numa posição invejável. Escrevi que nada se ganharia neste início de temporada, mas que se poderia perder tudo. O Benfica tinha oito jogos seguidos, com alguma dificuldade, e, se caísse em dois ou três, comprometia a época financeira e desportivamente. Só o empate contra o fraquinho Sporting nos distanciou de um início perfeito. Estamos, pois, mais fortes e mais perto da época de reconquista, que anunciamos como o objectivo.
Momento simbólico daquilo que é um grupo à Benfica foi o golo de Seferovic na Madeira com Svilar e demais suplentes a entrarem em campo para festejar com o suíço. Quem está no banco ou na bancada faz parte do mesmo espírito de quem está em campo. A lesão de Fejsa preocupa, pois ninguém é tão difícil de substituir como o sérvio neste Benfica. Estive mais receoso a ver o jogo na Madeira do que na Grécia. Mas o Benfica marcou quatro e podiam ter sido oito. Mas, agora que Seferovic marca e joga a alto nível, é altura de, contra a corrente, quero deixar escrito que Ferreyra foi uma excelente contratação e vai provar em campo isso mesmo. Precisa de se adapte, precisará até de mais rotinas e mais treino, mas, para mim, vai marcar muito e bem. Haverá muitos (também benfiquistas) que agora dizem e escrevem sobre Ferreyra, que serão proibidos pela consciência de festejar o muito que o ex-Shakhtar ainda nos vai dar ao Benfica.
Se o terceiro golo na Grécia tinha sido fantástico, voltar a ver o segundo e quarto golos na Madeira é pura poesia. Classe e objectividade, rapidez e eficácia. Há jogadores, há soluções, há plantel e há Benfica, este ano, na luta pela reconquista.
Em tempo de selecções esperemos que, como frequentemente acontece, não venham mais lesionados. O período é para recuperar jogadores e não perder mais disponíveis, porque a concorrência está aí, embora pareça mais entusiasmada em ganhar fora do que dentro do campo.
O Sporting vai a eleições, há que esperar com respeito pelo resultado, mas, pelo andar da carruagem, resta esperar para saber qual o anti-benfiquismo que vence. No Sporting, aprender com os erros não parece ser o forte da prestigiada instituição, a analisar pelas críticas feitas aos seus dirigentes que tiveram uma postura cívica e educada no derby."

Sílvio Cervan, in A Bola

Bom começo

"Passados 27 dias e 8 jogos, o Benfica lidera o Campeonato Nacional e assegurou a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, patenteando um nível exibicional entusiasmante e consistente, só pecando, em alguns dos jogos, pela escassa eficácia na concretização das inúmeras oportunidades criadas. Sem Jonas nem Krovinovic, entre outros, mas com Gedson e João Félix, produtos do excelente trabalho feito no Seixal (a que se lhes junta o “veterano” Rúben Dias e Alfa Semedo entre os utilizados).
Não por acaso, de acordo com um relatório do CIES sobre a facturação com a venda de passes de atletas para os cinco principais campeonatos europeus entre 2010 e 2018, o Benfica surge na oitava posição, com 618 milhões de euros, a apenas dez do quarto neste ranking, o Barcelona. Saliente-se que, neste período, o Benfica conquistou cinco Campeonatos Nacionais, duas taças de Portugal, seis Taças da Liga e três Supertaças, além de ter disputado duas finais da Liga Europa e ter sempre participado na fase de grupos da Liga dos Campeões a partir de 2010/11. Só este percurso desportivo permite o enaltecimento do sucesso financeiro, agora fortalecido pela recente amortização integral do endividamento à banca.
Será esta a razão que levou, subconscientemente, a antiga deputada à Assembleia da República e psicóloga Joana Amaral Dias a clamar pela extinção da Benfica, SAD? Não sei, a especialista é ela. Do meu ponto de vista, manifestamente leigo, limito-me a citá-la: “O maior risco, quer para as pessoas discriminadas quer para o público, encontra-se nos preconceitos e desinformação”. Então se partir do roubo de emails e deturpação e descontextualização do conteúdo dos mesmos, nem se fala..."

Rui Vitória, olé!

"Tenho este desejo, cá dentro. Sonho com o dia - espero que breve - em que os 6 mil da Catedral, embalados por mais uma conquista, cantem todos juntos o nome do treinador da equipa principal de futebol. O que é que vocês querem?
Estas coisas, passam-me pela cabeça. Todos a cantar pelo homem. Todos! Os que lhe chamaram Derrotas, os que disseram que sem Krovinovic nada feito, os que choram pelo 4-4-2 (como eu...), os que pensam que sabem mais de futebol no sofá do que os outros no relvado, os heróis do teclado, todos! Sem excepção, a gritar 'Rui Vitória, olé! Rui Vitória, olé!', até ele se levantar do banco suplentes, levar a mão ao coração e agradecer-nos por isso. Só conheço o nosso mister da televisão e de o ver das bancadas. Nunca me cruzei com ele nos corredores do estádio, nem na BTV, nem social ou pessoalmente. O que sei dele é o que vejo, como todos os adeptos veem.
Vejo um homem educado, correcto, profissional, com ideias próprias, respeitador e que tem o respeito dos jogadores com quem trabalha. Só assim se explica que, em vez de 11 titulares, tenha sempre 30 jogadores aptos para a batalha (tirando os lesionados...). Ou 18, com os que vão para o banco. Jonas e Castillo estão lesionados, Ferreyra está em adaptação, entra Seferovic e o suíço marca, dá a marcar e contribui para a festa. Tem de ser uma pessoa especial. Vai à equipa B e aos juniores e traz miúdos que jogam como homens grandes, como Alfa, Félix ou Gedson e cala os críticos sem ter que encomendar notícias em jornais ou pedir favores a comentadores.
Vamos lá começar a ensaiar. Em todo o estádio, com palmas à mistura: 'Rui Vitória, olé! Rui Vitória, olé!"

Ricardo Santos, in O Benfica

Pausa para selecções? Prefiro curling

"O leitor consegue imaginar aquele momento em que está em casa a sós com a sua companheira, abraçados no sofá, clima romântico no ar, e entretanto chegam os seus pais? Caso seja um mandrião como eu e apenas conte abandonar o ninho aos 30, é provável que tenha esta situação bem presente; se já é independente, terá certamente um destes episódios armazenados na gaveta de memórias menos agradáveis. Ora bem, é precisamente essa a frustração que estes interregnos no campeonato causam em mim. Mas alguém estava interessado nas selecções, sobretudo agora que o Benfica começava a carburar? Nem eu, nem o leitor, nem sequer o Salvio, que até estava convocado para a Argentina e vai ficar em Lisboa a tratar de uma lesão - se eu tivesse a mulher dele também não ia achar piada nenhuma que me obrigassem a estar longe durante 15 dias. Normalmente, o meu nível de interesse pela Selecção à excepção das fases finais é este: prefiro assistir a um jogo de Curling na Eurosport. 
Todavia, desta vez vou estar atento dadas as convocatórias do Pizzi, do Rúben Dias e do Gedson. A presumível titularidade do Rúben e a chamada do João Cancelo vêm, com uns meses de atraso, mas ainda faltam o Rafa e André Almeida, que terão de fazer um esforço se quiserem ser seleccionáveis. O Rafa tem de ser menos rápido para que Fernando Santos perceba quando ele está em capo e não pense que a bola se desvia tão agilmente dos adversários como se fossem mecos sozinha. Quanto ao André, tem de descobrir qual é a caixa de vinho que o Cédric oferece ao Engenheiro no Natal, e dar uma ainda melhor. Se não for por este miminho, não compreendo o porquê de o Nélson Semedo e o Almeidinhos continuarem de fora."

Pedro Soares, in O Benfica

A lógica do absurdo

"Se o estimado leitor for ao futebol com um grupo alargado de amigos, ocupar sempre o mesmo sector do estádio, apoiar o Benfica com cânticos de incentivo, e não se registar como 'claque', facultando dados como estado civil, profissão ou nome dos pais, poderá estar a causar danos ao clube. Pelo menos é esse o entendimento do IPDJ, presidido (até ver...) por um ex-atleta do Sporting, e membro da Comissão de Honra de uma das candidaturas às eleições do clube de Alvalade. Deve dizer-se que o primeiro problema reside na própria legislação, que é ambígua na definição de 'grupo organizado de adeptos' - para utilizarmos a terminologia da Lei 16/2004. O que é um 'grupo organizado de adeptos'? Será, por exemplo, uma Casa do Benfica, que organiza excursões à Luz, coloca tarjas alusivas à localidade de onde vem, e é apoiada pelo clube?
O segundo está na aplicação da mesma, pois existem 'claques legalizadas' contando com três ou quatro mil elementos, dos quais meras centenas, ou mesmo dezenas, constam nos registos. Há uns meses pudemos ver, em Alcochete, o exemplo de uma 'claque legalizada' em acção. Já antes, no centro de trino de árbitros na Maia, uma outra 'claque legalizada' actuara impunemente aos olhos do país. Em sentido contrário, aplicaram-se no passado sanções duríssimas a adeptos que normalmente ocupam o topo sul do Estádio da Luz, e não foi necessário qualquer registo prévio para as autoridades policiais e judiciais fazerem o seu trabalho. Estamos então perante incapacidade para resistir à pressão mediática? Vontade de agradar ao eventual empregador? Ou simples incompetência?"

Luís Fialho, in O Benfica

Filipa e Cláudio

"O recital na Choupana começou no sábado à noite, quando mais de meia centena de adeptos do SL Benfica receberam a equipa no Aeroporto Cristiano Ronaldo. Liderados por Filipa Calisto e Cláudio de Jesus, dois benfiquistas envolvidos na criação da futura Casa do Benfica na Madeira, a nossa comitiva foi recebida, por volta das 23 horas, com muitas palmas e cânticos estimulantes. Dias antes, Filipa e Cláudio já haviam manifestado o seu benfiquismo na BTV, com intervenções telefónicas, em directo, no programa Benfica 10 horas e no sábado, véspera do jogo, compareceram no directo do Benfica 14 horas, no Funchal, entrevistados pelo repórter Nuno Amaral Saraiva. Esta dupla de benfiquistas conseguiu mobilizar os adeptos para o aeroporto e no dia do jogo lá estavam no Estádio da Madeira a puxar pelo Glorioso.
Filipa e Cláudio são dois bons exemplos dos verdadeiros reforços que todos os fins de semana apoiam, de forma incondicional, o Maior Clube Português. É assim em todos os estádios, sobretudo fora.
São adeptos como Filipe e Cláudio que precisamos em todos os jogos, com uma tremenda capacidade de mobilização e causadora de inveja nos nossos adversários e tanta preocupação no Instituto Português do Desporto e Juventude. Está ainda por explicar as razões que levaram um organismo público a condenar duramente o Benfica. Se a utilização em nove jogos de tarjas com frases: 'Honra agora os ases que nos honraram o passado', 'Demasiado fiéis para desistir', 'E Pluribus Unem', e 'Sport Lisboa e Benfica, O Glorioso desde 1904' são consideradas manifestações graves e violadoras do regime jurídico do combate à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espectáculos desportivos, valendo uma multa de 56.250 euros e uma sanção acessória de realização de um jogo à porta fechada... estamos conversados acerca da sensatez de quem dirigia o IPDJ. Augusto Baganha devia ter posto o lugar à disposição com a posse do novo Governo. Nem isso fez! Logo..."

Pedro Guerra, in O Benfica

Ninguém as para!

"A história do futebol é a história das pessoas e reflecte o estado civilizacional e a condição feminina no devir dos tempos, coincidindo com um enorme desenvolvimento económico trazido pela generalização da indústria, na viragem do século XIX e sobretudo ao longo de todo o século XX, onde são bem conhecidos os episódios quotidianos envolvendo futebol, por exemplo, durante as duas Grandes Guerras.
As mulheres, a quem a sociedade se habituou a sonegar oportunidades a abafar protagonismos, não podiam deixar de ser as grandes vítimas e também as grandes esquecidas da história. É o caso do futebol feminino que modernamente se vai espalhando e consolidando e a que a opinião pública se habituou a encarar como uma novidade e mais um passo libertador da condição feminina. E isso é verdade, mas vale a pena olhar para trás e ver que o reconhecimento do futebol feminino se trata afinal de um acto de elementar justiça social.
Em Inglaterra, que nos habituámos a ver como o lugar das origens, remontam à última década do séc. XIX (1881 a 1895) os primeiros registos de jogos de futebol feminino. O jogo tornou-se tão popular e as estrelas tão bem-sucedidas, que parece que por estas alturas os tradicionalistas ingleses se ocuparam muito a impedir o povo de jogar golfe para não envergonhar as elites e as mulheres de jogar futebol para deixar brilhar os homens e remetê-las à casa. É certo que se discutia muito se as mulheres deviam trabalhar, no que faziam concorrência aos homens porque eram exploradas no mercado de trabalho e argumentava-se que tiravam o sustento a outras famílias enquanto as suas próprias crianças ficavam privadas da educação e cuidados familiares. A economia falou mais alto, e as mulheres trabalhadoras vieram para ficar. E bem!
Mas no desporto a coisa não se passou assim, e o futebol feminino oficial foi proibido pela Football Association inglesa entre 1921 e 1971. Durante 50 anos a sociedade negou-lhes o direito a jogar à bola porque, cito: 'the game of football is quite unsuitable for females (...)'. Não apropriado, portanto.
E se em Inglaterra não era, imaginem no Portugal do Estado Novo...
Mesmo assim, em 1935 há notícias de jogos femininos no norte do país, mas podemos bem dizer que só no novo século em que nos encontramos se começa a fazer justiça às mulheres do futebol, e, como não podia deixar de ser, o Benfica faz uma vez mais histórica.
Parabéns ao Benfica, pela visão, e a elas porque... ninguém as para!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Verso e reverso de caso perverso

"Casos como o que agora envolve o nome do Benfica tornam o futebol português, a prazo, mais fraco ou mais forte?
Por um lado, da má imagem do maior clube nacional, que está a dar a volta ao mundo, nenhum bem virá; por outro, uma justiça que investigue igualmente ricos e pobres é de louvar.
Mas, se por um lado o inevitável descrédito para a industria do futebol que surge associado a estes processos é nefasto, por outro trará práticas diferentes, mais transparentes, que serão comuns a toda a actividade.
Há mais: se por um lado as aparentes fragilidades da acusação vinda a público nos devem colocar de sobreaviso contra o justicialismo militante (flagrante, há uns meses, no lamentável episódio que envolveu Mário Centeno), por outro, devemos ter consciência de que o Portugal de 2018 não é o mesmo de 2004...
O Benfica confrontado com uma acusação que viu no alegado conhecimento e concordância de Luís Filipe Vieira, quanto a factos que consubstanciam crimes, umas das razões para arrastar a SAD para o banco dos réus, e ao mesmo tempo não produziu efeitos contra o presidente encarnado, terá razões válidas para pensar que eventuais sanções desportivas não passará de um castelo de cartas, incapaz de resistir à primeira brisa.
Mas torna-se inevitável concluir que, para a nação encarnada, haverá sempre um antes e um depois relativamente a este caso. O Benfica deve manter-se unido e coeso nesta fase em que está debaixo de fogo cruzado. Mas essa circunstância não deve impedir uma autocrítica séria, única forma do clube sair mais forte desta provação."

José Manuel Delgado, in A Bola

Os velhos da minha rua

"Gosto de ouvir histórias, especialmente as contadas por velhos. Normalmente, têm sumo, conteúdo, honradez, fazem-nos transpor para uma imagética a preto e branco, recordar e trazem lições associadas. As soleiras das portas dos bairros costumam ser bons sítios para as ouvir. Depois das manhãs a discutir-se a espuma dos dias, as tardes, normalmente, eram passadas em regressos ao passado, até porque a nostalgia é sempre uma casa que se gosta de visitar por ter as portas abertas e em que as paredes podem ser pintadas das cores que se quer: ou mais garridas ou mais cinzentas, consoante o padrão com que se pretende colorir a memória.
A memória dos adeptos do futebol tem sempre padrões garridos. Nos mais velhos da minha rua, fosse pelas vitórias, pela qualidade dos ídolos; fosse pelo orgulho no comportamento dos adeptos ou na rectidão de princípio e de acções dos seus dirigentes. Quando se conseguia conjugar dois factores ou mais, o peito enchia, os olhos dos mais guardiões da Lisboa antiga até chegavam a marejar de lágrimas mesmo em homens de vida dura, operários feitos de pedra e nos quais as rugas do rosto contavam as histórias da linha da vida.
Os tempos mudaram. Na maioria dos variadíssimos vectores da vida, para muitíssimo melhor. Mas no fim de tudo, hoje, a única coisa que conta é a vitória e o dinheiro daí adjacente. Seja em que indústria for, mas especialmente no futebol que, no fundo, continua a ser uma bola com efeitos mágicos que continua a prender a atenção de milhões e milhões espalhados pelo mundo. Pode dar-se a volta que se quiser mas, no fim, no sentido mais estrito da história, na enorme maioria dos casos, nos dias que correm quem conta é quem contabiliza vitórias. Mas continuo a gostar muito dos velhos da minha rua, mesmo que muitos deles já cá não estejam."

Hugo Forte, in A Bola

Profundidade e tempo

"Fala-se muito em defender alto, fazer pressão alta, jogar em bloco alto, recuperar a bola longe da nossa baliza, o que dito desta forma parece algo fácil, diria que basta subir as linhas. Mas a realidade não é assim tão linear. Por que não dá o treinador indicações nesse sentido?, pergunta o adepto, que naturalmente que ver a sua equipa perto da baliza adversária. Quando uma equipa não tem a bola todos os treinadores pretendem que o espaço da equipa adversária seja limitado; quanto mais reduzido esse espaço, maiores as possibilidades de recuperar a bola. Se assim é, observa o adepto, sobre-se a equipa e o problema está resolvido. Acontece que essa decisão também implica o necessário controlo da profundidade defensiva, sabendo o que significa a linha de meio-campo para a regra que transmite inteligência ao futebol, o fora-de-jogo.
Abordando apenas questões de profundidade, defensiva ou ofensiva, consegue-se entender melhor por que motivo na maior parte das vezes as equipas não têm capacidade, nem condições, para recuperar a bola no terço ofensivo ou mesmo no meio campo ofensivo. As excepções, são as grandes equipas, que conseguem fazê-lo graças a linhas recuadas rápidas e a jogadores de nível superior. Mas não é para todos. Aquele rectângulo de 105m x 68m começa a ser cada vez maior com o cronómetro a correr. Não é interessante para o jogo ver uma equipa a defender constantemente em bloco baixo, tentando apenas, no plano ofensivo, explorar a profundidade. o adversário tem que circular rápido a bola para arranjar soluções, até atingir o objectivo. E aqui entram muitas vezes as situações feias do jogo. Uns querem que o cronómetro ande rápido, outros vão vendo o tempo a passar sem poderem pará-lo. Aqui está um tema interessante, o controlo do tempo de jogo. Defender e atacar a profundidade é importante, mas entendo que controlar o tempo de jogo ainda o é mais."

José Couceiro, in A Bola

Aquecimento... Ataques...

A tribo do futebol

"A crise de um clube desportivo como o Sporting é um assunto nacional

“Visto objectivamente, este é um dos padrões de comportamento mais estranhos que podemos observar em toda a sociedade moderna.”
Desmond Morris

Um grande clube português, o Sporting, tem mobilizado, desde há vários meses, o interesse generalizado da comunicação social, pelas piores razões.
A crise gerada em maio deste ano poderá ter agora o seu fim, com as eleições de amanhã para uma nova direcção. A crise de um clube desportivo como o Sporting Clube de Portugal é assunto nacional, obviamente, por causa do desporto nacional, o futebol.
Foi por isso que recorri ao livro de Desmond Morris, a quem “roubei” o título para esta crónica, reeditado com algumas actualizações este ano, por ocasião do Mundial de Futebol.
O livro deste zoólogo, observador atento dos seres humanos, escrito em 1981, compara o jogo e toda a sua envolvência, a um complexo ritual tribal, que é seguido actualmente em todo o mundo.
“O animal humano é uma espécie extraordinária. Entre todos os acontecimentos da história humana, aquele que atraiu a maior assistência não foi uma grande ocasião política, nem uma celebração especial de alguma proeza complexa nas artes ou ciências, mas sim um simples jogo de bola - uma partida de futebol. Calcula-se que mais de mil milhões de pessoas terão assistido a uma final do Campeonato do Mundo, quando esta foi transmitida na televisão global”, escreve Desmond Morris na introdução ao seu livro.
Ao analisar toda a envolvência do futebol, Morris debruça-se também sobre o papel dos dirigentes desportivos, a que chama o Conselho Tribal.
E, quando há crise no dito Conselho?
“Tudo muda quando sobre o pano desse prolongado drama que é a cisão directiva. Em termos de contenção e de pensamento racional, esta apresenta todas as qualidades da expulsão do chefe de um bando de babuínos, em que os roncos e as atitudes muitas vezes passam da sala da direcção para as colunas dos jornais. Segue-se um período em que o ar se encontra repleto de ameaças de demissão e de recriminações, até que a poeira assenta e um novo presidente é entronizado como chefe tribal, ou o antigo triunfa finalmente, ferido, mas não vergado. Normalmente, segue-se um rescaldo de ressentimentos que continuam a fervilhar nos corredores tribais durante algum tempo, prontos a transbordar sempre que a sorte do clube é questionada por inglórias derrotas no campo de jogo”.
Será que Desmond Morris andou pelos lados de Alvalade?"

CMTV é a grande vencedora das eleições do SCP

"As eleições do Sporting vão ajudar ironicamente o Benfica a sair, momentaneamente, debaixo dos holofotes. Amanhã, sábado, os amantes do desporto quererão saber quem sucederá ao impagável Bruno de Carvalho, homem que tem alimentado a melhor novela a que o país algum dia assistiu. Chegará ao fim, ou pouco depois, o mandato das comissões de Gestão e de Fiscalização. Quem não irá sentir saudades de ver o também inimitável Sousa Cintra a dar as suas conferências de imprensa? 
Mas estas eleições tiveram o condão de demonstrar a forma que a CMTV ganhou nos últimos dois anos. Foi a estação que mais horas gastou com o assunto e quase todos os candidatos por lá passaram, tendo alguns chegado mesmo a ligarem para a CMTV quando em determinado programa se discutia o clube e não estavam de acordo com o que era dito. A SIC e a TVI acordaram tarde para o fenómeno e foram obrigadas a ir a reboque. Não é por acaso que a CMTV lidera as audiências do cabo, com larga vantagem sobre os concorrentes.
Percebe-se que existe uma certa desorientação dos dois canais mais antigos, pois não queriam entrar em determinados terrenos, que consideravam pantanosos, mas hoje nenhum canal se atreve a não fazer directos nem que seja da detenção do suposto violador do Seixal. Quem diria que isto seria possível há dois anos? Mas as audiências determinam que a programação da TVI24 e da SIC Notícias comecem a sujeitar-se à actualidade. Quando é que encontrarão o seu espaço é uma incógnita, embora a SIC seja a mais prejudicada, pois sempre jogou para o segmentos A e B e agora vê-se obrigada a ir também atrás das classes C e D, embora seja hoje claro que a CMTV alcança todas as classes sociais.
No fundo, concretizou-se aquilo que os estudos de mercado já diziam há muitos anos. Os leitores dos semanários mais conservadores também o eram do “Correio da Manhã”. Para se perceber a força da CMTV, diga-se que há uns três meses um representante da Comissão Fiscalizadora dizia em directo que não falava para a estação e há poucas semanas lá estava ele, em horário nobre, sentadinho no estúdio. É a vida."

A derrapar para o Estado Polícia

"As regras constitucionais para o processo penal têm que ser cumpridas também por quem investiga, sob pena de uma completa subversão dos valores que depositámos na legalidade e funcionamento democrático das instituições e do Estado.

Não pode haver democracia sem um combate sério à corrupção, ao crime organizado, à fraude fiscal e ao branqueamento de capitais. A criminalidade económica e financeira organizada, qualquer que seja a forma pela qual se materialize, corrói os alicerces da sã concorrência, da política e da democracia, impede que uma sociedade possa ser justa e solidária, sendo impeditiva da prosperidade e sã convivência entre cidadãos e empresas.
Defendo por isso que o Estado deve garantir ao Ministério Público todos os meios necessários humanos e materiais à prevenção e repressão da criminalidade organizada. No entanto, tal prevenção e combate à criminalidade, não pode ser feito com violação das regras que a Constituição da República Portuguesa (CRP) consagra como garantias no processo criminal.
No processo crime, aos visados, devem ser assegurados não só a presunção de inocência com a possibilidade de a todo o momento se poderem defender, como a estrutura acusatória do mesmo garante que todos os atos praticados pelo Ministério Público estão sujeitos a contraditório dos visados. Não pode por isso qualquer cidadão responsável deixar de ficar preocupado com indícios sérios de que em Portugal se caminha para uma ditadura do Ministério Público.
Com efeito, a possibilidade que se conferir ao Ministério Público o acesso à ficha fiscal de cidadãos e aos seus dados bancários, sob qualquer pretexto, em meros processos de natureza burocrático-administrativa, sem que exista contra os visados qualquer suspeita da prática de qualquer crime, transforma um Estado de Direito Democrático num Estado Polícia, que se imiscui por curiosidade e obsessão doentias na vida quotidiana de cidadãos e empresas, sem que tenha de prestar contas a quem quer que seja.
Quando o texto da Lei Fundamental consagra as referidas garantias de defesa aos cidadãos em processo penal, o que se pretende é que sempre que alguém seja visado por suspeita sobre o seu comportamento, seja instaurado um processo crime e tal dê lugar a um processo de inquérito, o qual, terminando sem indícios da prática de qualquer crime, e como tal, sem acusação, o investigado não deixe de saber que foi investigado. Nem se pode olvidar que havendo indícios contra o visado, este seja de imediato constituído arguido para se poder defender, sem embargo do segredo que possa abranger as diligências de recolha de prova em curso.
Não instaurar processo crime para contornar a exigência constitucional de garantir aos visados as necessárias garantias de defesa, tem como consequência um estado de vigilância latente e permanente sobre os comportamentos quotidianos de cidadãos e empresas que, a meu ver, ultrapassa em tudo a forma como a nossa sociedade se quis organizar após o 25 de Abril de 1974.
Quando os bons deixam de respeitar as regras com o pretexto de que os maus não as cumprem, passam a ser todos iguais. As regras constitucionais para o processo penal têm que ser cumpridas também por quem investiga, sob pena de uma completa subversão dos valores que a nossa sociedade depositou na legalidade e funcionamento democrático das instituições e do Estado. Nunca é tarde para se prevenir incorrer em abusos. Nunca é tarde para emendar a mão e fazer o que está certo."

Uma justiça para arguidos outra para o MP

"Não se pode passar de um país que dá a sensação de ter uma Justiça para pobres e outra para ricos, para um Estado que aparente ter uma Justiça para arguidos e outra para Ministério Público

Com o aproximar do fim do prazo para os arguidos da Operação Marquês pedirem abertura de instrução foi possível ler-se em vários jornais que estes preferiam que fosse o juiz Ivo Rosa a decidir se existem ou não indícios suficientes para os levar a julgamento. Numa primeira leitura este apontamento pode não surpreender, uma vez que os suspeitos deste caso, que tem José Sócrates como peça central, já tentaram por diversas vezes afastar Carlos Alexandre - o outro juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal e que tem o caso em mãos desde o início.
Mas se se parar alguns minutos a pensar no assunto não deixa de impressionar que em 2018, em Portugal, haja juízes preferidos dos arguidos e outros do Ministério Público - sim, porque não é preciso grande memória para nos lembrarmos de que há poucos meses dois procuradores do MP pediram o afastamento de Ivo Rosa de três processos, um dos quais o da EDP, invocando a sua imparcialidade. Ou seja, na prática o mesmo que os arguidos apontam a Carlos Alexandre.
A realidade é conhecida de todos e, inclusivamente, já é noticiada com naturalidade.
Mas o que aconteceu esta semana é particularmente grave. Não se trata apenas de se exercer um direito legal - de pedir o afastamento de um magistrado que tenha tomado uma decisão concreta -, trata-se de ser notícia que os arguidos preferem um juiz a outro, antes ainda do sorteio. E qualquer que seja a justificação que se dê para isto é a Justiça que fica mal na fotografia, como uma Justiça que aparentemente assegura diferentes direitos, diferentes liberdades e diferentes garantias.
E nem é que se possa dizer que se trata de uma invenção dos jornalistas, que os arguidos nunca verbalizaram essa preferência. Ricardo Salgado, que decidiu nem sequer pedir abertura de instrução - por considerar que não pode exercer a sua defesa - afirmou esta semana que caso seja Carlos Alexandre o sorteado para conduzir a instrução os arguidos não terão outra hipótese que não seja seguir para julgamento.
“Se tal vier a suceder, o arguido (Ricardo Salgado) não tem ilusões quanto aquele que seria ou será o desfecho de uma eventual instrução”, defendeu Salgado.
O que está a acontecer na Justiça torna-se particularmente preocupante uma vez que não é um problema exclusivo da Operação Marquês - são vários os mega-processos que estão em investigação e que num futuro mais próximo ou mais longínquo chegarão a esta fase. É preciso que se perceba onde é que a Justiça está a falhar, para que o sentimento que criou nos portugueses, de ser igual para todos, não se perca. Não se pode passar de um país que dá a sensação de ter uma Justiça para pobres e outra para ricos para um Estado que aparente ter uma Justiça para arguidos e outra para Ministério Público."

Benfiquismo (CMXLIII)

Lendas...

Proposta (in)decente...!!!

"Proponho o seguinte exercício. Se a Tânia Laranjo se chamasse Paulo Gonçalves de quantos crimes é que já teria sido acusada? Mas quem diz Tânia Laranjo pode dizer outros distintos especialistas em violação de segredo de justiça como Pedro Candeias, Carlos Rodrigues Lima e outros famosos jornalistas de investigação cujo principal mérito é cometer o crime de receber e divulgar informação a que deviam estar impossibilitados de lá chegar. E depois as contrapartidas. O que receberão as inúmeras toupeiras da justiça que fazem o trabalho sujo desta associação de violadores do segredo de justiça? Ou teremos de acreditar que essas toupeiras o fazem apenas por amor à liberdade de imprensa? Quanto e a quem custarão essas informações? E serão pagas de que forma? Idas ao futebol? Idas ao Estoril Open? Idas a espectáculos de música e outros? Outro tipo de contrapartidas? 
Acho que todos temos o direito a saber. E sobretudo acho que todos nós temos o direito a que estas pessoas sejam investigadas e punidas pela forma como constantemente violam o segredo de justiça. Seria um acto de justiça e para qualquer um de nós seria inspirador pensar que neste país não há cidadãos acima da lei. Sobretudo aqueles que fazem da violação da lei uma forma de vida."

Percebido?!

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Expert's !!!

"Do que me tenho apercebido, nos últimos dois dias, nas televisões e sobre o assunto E-Toupeira, tem sido assim. Os mais reputados advogados e penalistas deste país a desmontar a acusação do Ministério Público e do outro lado, os mais reputados especialistas em violações de segredos de justiça, como Ricardo Costa, Tânia Laranjo ou Carlos Rodrigues Lima, que assim contribuem para a prática de um crime e, ao mesmo tempo, servem o interesse do MP de se fazer um julgamento público.
Se há coisa que este processo tem de bom é o facto de se começarem a conhecer melhor os contornos da gigantesca perseguição clubística que visa o maior clube português. E o alinhamento entre as fantasias do Ministério Público e os jornalistas que as difundem como contrapartida do acesso ilegítimo à informação que devia estar em segredo de justiça."


PS: Aqui está um bom exemplo, entre aqueles que de facto sabem do que falam, e dos papagaios!

Perguntas...

"Não deixa de ser preocupante para qualquer benfiquista o manto de suspeição que se abateu sobre a estrutura organizativa no caso apelidado de «e-toupeira», cuja acusação veio a público no dia de ontem (5 de Setembro de 2018).
Ao contrário de muitos sócios ou simpatizantes de outros clubes de futebol (maioritariamente os dos chamados 3 grandes), parece claro que o benfiquista comum fica profundamente decepcionado e abalado com o teor da acusação e dos actos e factos lá descritos.
Mas não deve ser só essa a única preocupação. É que nesta embrulhada de enorme gravidade para o Sport Lisboa e Benfica ressaltam imediatamente à vista desarmada questões que, não sendo respondidas com urgência, fazem crer numa actuação gelatinosa do sistema judicial:
- Por que razão a Benfica SAD só é constituída arguida em 27/08/2018, e imediatamente depois (mais precisamente 8 dias depois) é deduzida acusação contra a mesma por 30 crimes? Qual a razão que esteve por detrás do MP para não constituir arguida a SAD muito antes, por forma a proporcionar à arguida o direito (basilar do processo penal e constitucionalmente consagrado) de carrear aos autos os elementos de prova que considerasse fundamentais para consolidar a sua verdade no processo? Qual foi a pressa?
- Ou seja: por que razão aguardou o MP para constituir arguida a SAD tão perto do limite do prazo tomar uma decisão, sabido que era que existia um arguido preso preventivamente, e que obrigava a que o titular do inquérito acusasse ou arquivasse os autos no final da primeira semana de Setembro? 
- Como pode o MP considerar que existem provas suficientes de que Luís Filipe Vieira sabia e havia autorizado e ordenado o pagamento de incentivos aos oficiais de justiça para daí retirar dividendo desportivos (base única dos crimes imputados à pessoa colectiva), e não o constitui (LFV), nem qualquer outro elemento da administração da SAD como arguidos? Qual a razão da desconsideração da pessoa singular em abono da pessoa colectiva? Qual o intuito em procurar a censura penal só à pessoa colectiva, se alegadamente os actos desvaliosos foram praticados pela administração?
- Qual o motivo para que, em 240 artigos da acusação, só dois deles aflorem responsabilidade directa penal da SAD, sem uma remissão expressa ou tácita para os apensos probatórios dos autos, quando é tão cuidadosa e profusa essa técnica jurídica na redacção da acusação em relação aos restantes arguidos?
Parece-me claro que ou a investigação e a procuradoria não têm prova alguma contra a SAD, e deduz-se acusação por motivos justiceiros da estrutura hierárquica do próprio MP, ou estaremos perante um processo que esvaziará em parte quando for presente ao crivo do Juiz de Instrução Criminal, se lá chegar. Devemos, contudo, ter a certeza de que a honra nos obriga a dizer que deve ser punido quem prevaricou, honra essa que nos impede de apelidar clubes e adeptos de corruptos quando nas suas próprias casas desportivas só não existiram condenações exemplares por motivos puramente formais do processo. A honra traz consigo a moral, e essa não é dispensada por ninguém que sente o manto sagrado."

Credibilidade...

"E no final de contas, parece que a grande teoria resume-se a isto. O Benfica ganha mais do que os outros, é mais competente do que os outros, cria mais riqueza que os outros, tem mais sócios do que os outros, é maior do que os outros, porque viola o segredo de justiça.
Note-se que não deposita dinheiro na conta dos árbitros, não lhes paga com prostitutas ou viagens ao Brasil. Nem tão pouco é acusado de lhe encontrarem 60 mil euros no gabinete de um seu funcionário para despesas, vamos chamar-lhe não documentadas. Nem tão pouco o Benfica é acusado de expor a vida privada dos árbitros, nem de os ameaçar ou perseguir. Não é acusado de liderar e pagar um esquema fraudulento e criminoso de segurança privada com ligações a crimes de sangue. Não.
O Benfica é terrível, é demoníaco e é a origem de todos os males porque violou o mesmo segredo de justiça que todos violam, todos os dias. O mesmo crime que é cometido pelos mesmos que agora o perseguem, desde o Ministério Publico até a uma certa comunicação social que faz parte de uma das maiores organizações criminosas de que há memória em Portugal. Uma violação do segredo de justiça que, é bom lembrar, se seguiu a meses e meses de crimes cometidos contra si e contra a sua privacidade e reputação.
Mas esses crimes são tolerados em Portugal por quem devia investiga-los. Ou seja, neste país pune-se a vítima que age em legítima defesa e premeia-se o criminoso que rouba, que manipula, que mente e que, por fim comete o crime de divulgação de correspondência privada.
Curiosamente um crime cometido por agente desportivo contra agente desportivo. Isto diz-vos alguma coisa? Exacto, é o argumento que agora se utiliza para constituir a SAD do Benfica em arguida e acusá-la de forma a pedir a suspensão da sua actividade desportiva.
É o cúmulo da hipocrisia e da forma como alguns magistrados aceitaram rasgar as vestes da independência e fazer parte de uma monstruosa perseguição clubística.
Ao contrário da ideia que se generalizou não é exactamente a reputação do Benfica que está em causa. Já não é apenas isso. É também a credibilidade do Ministério Publico como entidade independente e investigativa. Essa credibilidade levará anos a ser restaurada, devido ao diletantismo clubístico de alguns dos seus magistrados."

Missões cumpridas

"Agosto 'disse' isso do Benfica (equipa de futebol...) - contesto críticas a Rui Vitória... - e de quem conseguiu tirar o Sporting do caos

Agosto era, à partida, mês terrível para o Benfica. Potencialmente decisivo na projecção para toda a temporada. Duas eliminatórias a ultrapassar rumo à Champions, quatro jornadas do campeonato - com deslocações ao Bessa e ao Funchal e dérbi pelo meio -, soma de 8 confrontos em 27 dias, sempre ao ritmo de 3 jogos por semana, e sob enorme pressão (dando de barato que amigável com o Lyon - única derrota: 2-3 - 1 de Agosto, foi apenas mais um treino...). Muito duro arranque de época, física e animicamente (ai se falhassem!).
Desta vez, o Benfica soube preparar-se para o tiro de partida - tão longo quando crucial. Ao invés do que acontecera na estreia de Rui Vitória (disparatadíssima digressão americana e sob tremendo peso da sucessão de Jorge Jesus!) e também, noutros moldes, há um ano: transferências de Ederson, Semedo, Lindelof, Mitrolgou, sem qualquer compra com idêntica valia (Krovinovic, não direto substituto, chegou para ser operado...). Agora, fasquia colocada, como primeira prioridade, nos €43 milhões de entrada na Champions, boa preparação expressa em dois moldes:
1 - Manter todos os jogadores nucleares e reforçar o plantel (sobretudo, guarda-redes, dois defesas centrais - destes, ainda não se percebeu o que podem valer - e puros dois avançados de grande área, característica que Jiménez, agora emprestado, não possui).
2 - Nível dos adversários na pré-época: Sevilha, Dortmund, Juventus, Lyon.
Evidentíssimos méritos de Rui Vitória e da sua equipa técnica: táctica e estratégia muito mais consolidadas; preparadas física de alto nível para aguentar tão infernal ritmo de jogos; capacidade de superar, sem queixumes, lesões de Jonas (!) e de Castillo, a par do decepcionante rendimento de Ferreyra. Mesmo no empate cedido ao Sporting -porque na Luz -, unanimidade de opiniões: à parte o pormaior de finalização, Benfica claramente superior. Balanço deste arranque, bem duro e... fundamental!: missão cumprida. Tal como, noutro contexto, o do Sporting (já lá irei).

Críticas e Rui Vitória (até neste vitorioso percurso voltaram a estar na moda...). Exemplo: insistiu no mesmo onze, apesar de possuir dito de luxo - e, nos jogos, fez sempre as mesmas substituições (que monotonia!). De facto, limitou-se a ir rendendo Salvio e Cervi por Zivkovic ou Rafa. E, em Istambul, preteriu Ferreyra, optando por Castillo (lesionado ao cabo de 20 minutos...). Por fim, na busca de ponta de lança mais pujante e eficaz, recuperou Seferovic. Pergunto: que mais deveria ter feito?
- Teve alternativa ao desgastadíssimo André Almeida? Zero!!! Eis como prossegue a espantosa saga dos defesas direitos: há um ano, contratação de 5 ou 6... - e nem um se aproveitou!; agora, aquisições de Ebuhei (imediata grave lesão) e de Corchia (ainda mais rápida baixa clínica).
- Ok, para render Grimaldo, tem Yuri Ribeiro, regressado de empréstimo ao Rio Ave. Falta ver se já  com pedalada para um grande.
- Vlachodimos e dupla Rúben-Jardel permanentemente. Para além da grande importância de sincronizar guarda-redes e defesas centrais, não são estas as posições com menor desgaste físico?
- Médios: aí, sim, máximo desgaste (como defesas laterais e extremos). Que opções a Gedson-Fejsa-Pizzi? Até agora, estando Samaris apostado na liberdade em Janeiro, Keaton Parks na equipa B e sendo Gabriel aquisição de última hora... quem? Apenas o menino Alfa Semedo que Vitória fez questão de recuperar do Moreirense - excelente estampa atlética, boa qualidade potencial e... muito para aprender, desde logo tacticamente. Tem sido chamado, passo a passo, para render Fejsa ou para segurar triunfo reforçando - mais vigor - o centro da linha média.
Então, que fartote de alterações/poupanças poderia o treinador ter feito? Ele há embirrações...

Vulcão. Registe-se, nadinha tendo de somenos, mérito extra do líder técnico e do plantel: resistência à vulcânica torrente de problemões com casos judiciais em que o Benfica se envolveu! Não parecendo ser vítima...

Sporting: bicudíssimas tarefas cumpridas por Comissão de Gestão, Sousa Cintra, José Peseiro e jogadores, recuperando de cataclismo - e aguentando permanente manobras de desestabilização das quais o máximo destituído tem a suprema/irracional lata de não abdicar! Egocentrismo para o Guinness! Depois de amanhã, previsivelmente num renhido despique, será eleito novo comando directivo para enfrentar o que, bem árduo, irá seguir-se. Boa sorte!"

Santos Neves, in A Bola