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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Silêncio

Ontem, não foi um dia normal: o Rei foi enterrado em Dia de Reis; tivemos uma chuva persistente, provavelmente enviada por São Pedro para benzer o acontecimento; e o próprio Neptuno enviou a maior e mais alta tempestade marítima, que Portugal tem memória!!!
Mas o luto ainda não terminou, no próximo fim-de-semana, vamos ter jogo importante, que esperamos seja a derradeira homenagem da equipa ao King, com a vitória que ele merece...
Antes do jogo vai ser cumprido um minuto de silêncio, e eu desejo que seja mesmo um minuto de silêncio, o Eusébio foi aplaudido e ovacionado vezes sem conta, seria bonito desta vez, agradecer-lhe com silêncio... afinal de contas chama-se um minuto de silêncio por alguma razão!!!
E já agora, prevendo que vão passar um filme nos ecrãs gigantes com imagens do King, também seria bonito, que não tivesse banda sonora... E se alguém dos adversários não respeitar o momento, o problema é deles, abafar com palmas esses prováveis impropérios, é uma 'ajuda' que eles não merecem!!!
Deixo aqui algumas das imagens mais marcantes destes dias:

A geografia de Eusébio

"Eusébio não se mede em golos; mede-se em vidas tocadas num momento particular da História.
Reforcei esta ideia recentemente, durante aquela triste tentativa de matematizar em golos a distância entre Eusébio e Ronaldo: a minha geração, nascida nos anos 1970, e as seguintes podem, quando muito, especular sobre o impacto que Eusébio teve num Portugal para nós inimaginável.
Eusébio foi um desportista, mas também um terramoto e, como os terramotos, deixou marcas na pedra - em todas as pedras - que ainda podemos visitar em conversas com os nossos pais e avós. É infalível: qualquer que seja a cor do coração, falar-nos-ão de um cartógrafo impossível, que definiu a geografia do nosso futebol, mas que também foi transversal; durante décadas, completa e miraculosamente imune às baixezas do facciosismo. Ninguém que viveu tantos anos nas trevas esquece, e muito menos deixa de estar grato, a quem lhes acendeu uma luz, não importa o clube nem o cartão de sócio.
Não há como comparar Eusébio, e o contexto de Eusébio, com nenhuma outra figura, com nenhum outro nome, porque não falamos de bola: falamos de tocar a vida das pessoas num momento específico da História. A homenagem que se lhe pode fazer é a constatação de até que ponto se tornou inconcebível que apareça alguém capaz de ser um factor de união remotamente comparável; alguém capaz de pairar acima do ódio e da mesquinhez do futebol, quando nem os partidos políticos admitem, por um segundo, pôr de lado o oportunismo e a tacanhez em nome do bem-estar de milhões."

Simplesmente Eusébio

"Aqui na distante África, na terra de Eusébio onde ando por estes dias, o grande Mário Coluna diz que perdeu um filho. E, ouvindo o célebre capitão do Benfica e da Selecção dos tempos gloriosos, lembro-me de ouvir contar a história do miúdo que chegado de Maputo – à época Lourenço Marques – tratava Coluna, que tinha mais sete anos do que ele, por… senhor Coluna num sinal de respeito e humildade que o tempo nunca apagou, nem mesmo quando Eusébio passou, primeiro com o brilho das estrelas, depois com a eficácia dos predestinados, a ser o abono de família do Benfica dos anos 60 e início dos anos 70 quando os seus remates certeiros – até mesmo quando os joelhos já não ajudavam – entravam como balas nas balizas adversárias.
O King aplaudido e agraciado, embaixador do Benfica e da Selecção era do futebol e nunca quis ser de outro mundo. Gostava mais de estar no relvado do que no camarote. Gostava daquele cheiro que, dizem, só a relva tem.
Saí de Lisboa ao início da tarde de domingo ainda a notícia da morte de Eusébio era recente. Neste mundo global, tudo o que vi e li chegou aos leitores de Record, mas em plena era da globalização é absolutamente extraordinário como a simples referência à minha condição de português encaminhou todas as conversas para o desaparecimento de Eusébio, o seu legado, a inevitável comparação com Cristiano Ronaldo, o que dele disseram Di Stéfano ou Pelé. No aeroporto do Dubai, em trânsito, encontro um amigo espanhol que me pergunta se lera o que tinha escrito Don Alfredo. Que não, que acabara de aterrar. Sentado, computador à frente, encontro a frase de Di Stéfano – “Para mim, Eusébio, sempre será o melhor.” Não sei se assim é e, na verdade, ninguém sabe porque não há uma maneira de aferir essa condição. Sabe-se que Eusébio da Silva Ferreira está entre os maiores de sempre e, não por acaso, gerações de portugueses emocionaram-se com ele, com a sua genialidade e o seu talento quase tão contagiantes como o seu sorriso de menino pobre a quem a vida deu o que talvez ele nunca pensasse ter. Como escrevi no meu Facebook: Nunca vi o Eusébio jogar. Não é do meu tempo, embora ele – como todos os seres eternos – seja de todos os tempos. Nunca vi o Eusébio jogar, como não vi a partida das caravelas de Vasco da Gama ou a saída do hidroavião de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Vi, vezes sem conta na televisão, aqueles golos à Coreia relatados pelo Artur Agostinho no Mundial de 1966. Não os vi ao vivo, mas vivi-os como se tivesse o secreto desejo de lá ter estado no estádio ao lado do Mundo que abria a boca de espanto. Nunca vi o Eusébio jogar ao vivo mas, eu sportinguista, já expliquei ao meu filho pequeno que aquela estátua, no Estádio da Luz, é a de um jogador de que ele um dia vai ouvir falar. Mesmo sem nunca o ter visto rematar à baliza como, dizem, só ele rematou. Da próxima vez que voltar ao Estádio do Sport Lisboa e Benfica espero que se mantenha nos lugares de estacionamento, onde se pode ler presidente, vice-presidente, administrador e outros títulos pomposos um lugar vago que sempre lá esteve e que diz simplesmente: Eusébio.

O Eu a Eusébio
“Uma coisa me consola, Eusébio. É que não fui eu quem cobriu Você de adjectivos, de apodos, de cognomes mais ou menos imaginosos. Não fui eu quem disse que Você era a pantera, o príncipe, o bota de oiro, o relâmpago negro, o coice para a frente, o astropata. Também não fui eu quem disse que o seu nome era Eusébio. Dar o Eu a Eusébio, que pretensão! Derive, derive e vire, vire e atire sem parança, Eusébio, seu genial tragalhadanças!”
Alexandre O’Neill - Uma Coisa em Forma de Assim

Arquivo
Só acompanhei em directo uma parte do trabalho das televisões portuguesas na cobertura do que é, sem discussão, um grande acontecimento mediático. Vi até à hora de almoço de domingo e, com a ajuda das ferramentas tecnológicas, segui o essencial do restante trabalho quando aterrei. Parece-me claro que a RTP arrancou melhor e fez melhor num terreno onde tinha vantagem e, é justo dizê-lo, a sua equipa de produção estava há muito (como tem que acontecer) devidamente preparada. A RTP tem também uma grande vantagem sobre as televisões privadas em matéria de arquivo e soube usar bem esse material laboriosamente trabalhado ao longo dos anos. Terá havido ou não um excesso na cobertura do acontecimento? A resposta é sim, mas é inevitável que assim suceda. Durante aquelas horas os públicos procuram informação sobre aquele evento em concreto. Se, estando em directo, não há excessos e redundâncias? Claro. Mas só quem nunca esteve em directo é que não entende isso.

Made in Benfica
Eusébio faz parte de uma época que não volta mais. Durante décadas os jogadores oriundos das “colónias” alimentavam as equipas da “metrópole” numa relação onde o colonizador tirava todo o partido e dava pouco em troca. Mas no Benfica do tempo de Eusébio não entravam estrangeiros e, de facto mesmo com esse mercado privilegiado, havia um Benfica, made in Benfica como Luís Filipe Vieira expressou numa recente entrevista. O Mundo mudou tanto que o conceito faz hoje pouco sentido. Talvez seja melhor negócio e crie equipas mais competitivas encontrar jovens talentos em mercados como a Colômbia ou a Sérvia. Essa opção é legítima, mas ela não pode eliminar por completo a criação de valor na formação nem a oportunidade que se dá a esses jogadores para crescer. Isso, sim, é um péssimo ato de gestão até porque, quase 40 anos depois da independência os maiores talentos dos países africanos de língua portuguesa continuam a chegar com destino traçado: Benfica, Sporting e FC Porto. Fácil de entender, não?"

Uma marca registada

"Quando o tempo do futebolista foi naturalmente consumido e a sua obra inimitável o fez passar à condição de mito inapagável, Eusébio tornou-se referência de gerações, confundiu-se com o país. Há muitas décadas que o Pantera Negra é um fenómeno social, um nome que vai passando de voz em voz, a imagem que perdura na memória colectiva, a marca capaz de se sobrepor a uma sociedade que no seu tempo de maior fulgor profissional ainda pouco tinha de global.
Uma das maiores tentações de ontem foi fazer a projecção sobre o valor do futebolista Eusébio no jogo contemporâneo, comparado às estrelas planetárias que facturam ao minuto – trabalho inútil.
Para os heróis não há limites, cada um tem as suas virtualidades. Como os génios, são incomparáveis e bem dispensam a desfeita de juízos apressados. Resta à história calibrada pelo saber dar o seu veredicto, sabendo-se já que no caso de Eusébio ele é o King que foi resgatando os portugueses da sua endémica desconfiança.
Depois do luto, do respeito que é devido à família, há um trabalho para fazer, para além de alimentar o mito, fazendo reviver histórias antigas, eternas.
Eusébio deixa um património inconfundível ao futebol: a sua inigualável técnica de remate – o corpo que se inclina para a frente, a acumulação de energia logo descarregada brutalmente sobre a bola, a precisão quase infalível. Para além da literatura (pouca) que se foi publicando sobre os seus traços biográficos, falta estudar e dar à aprendizagem aquilo que verdadeiramente universalizou o nome de Eusébio: a técnica apurada de golear.
Quando o treino do futebol tende a especializar-se, o “remate à Eusébio” tem de ser estudado em todas as suas vertentes, fazer parte de um repertório técnico capaz de distinguir os melhores praticantes.
Caberá à universidade portuguesa – e no país existem faculdades com competências demonstradas na formação de alguns dos melhores treinadores do Mundo – e à Federação Portuguesa de Futebol o desenvolvimento de um projecto científico e técnico que permita criar a marca registada de um dos mais brilhantes jogadores da história. Que é português, nosso, para sempre."

Mudança de paradigma

"Eusébio desapareceu fisicamente, mas o seu legado irá acompanhar-nos para sempre, como sucede com as personagens que são imortais. Porque uma coisa pode discutir-se, mesmo quando se sabe perfeitamente que da discussão nunca nascerá a luz, e essa é se Cristiano Ronaldo já é ou alguma vez será o futebolista que foi Eusébio. Mas outra é indiscutível: a de que Eusébio é e será sempre o jogador mais marcante da história do futebol português. Suceda o que suceder daqui para a frente.
Quando, em 1960, Eusébio chegou a Lisboa, o Benfica tinha ganho dez campeonatos e o Sporting outros tantos. O futebol português dividia-se entre estes dois polos, com a intromissão episódica do FC Porto, que vencera a prova por cinco vezes. No dia em que Eusébio deixou o Benfica rumo ao eldorado norte-americano, em 1975, a relação de forças tinha-se modificado radicalmente, com 21 campeonatos para o Benfica e 14 para o Sporting: o FC Porto nunca foi campeão com o Pantera Negra no activo.
O que se passou com Eusébio foi uma mudança de paradigma como nunca mais se viu em Portugal, nem provavelmente se verá, porque a indústria que se instalou no futebol não se compadece com a permanência num país periférico como o nosso de um jogador com predicados como os que ele apresentava. Velocidade, potência, um remate portentoso de força e colocação, resistência ao choque e até humildade: tudo isso eram atributos que Eusébio tinha em doses muito superiores aos dos seus contemporâneos.
A juntar a isso, Eusébio tinha pelo Benfica o amor que um filho tem pelos pais. A história do livre direto que, pelo Beira-Mar, não quis bater às redes encarnadas, que ele mesmo me contou, numa tarde, num dos restaurantes do Estádio da Luz, já chegava para o provar. Mas o maior serviço que Eusébio prestou ao Benfica depois de deixar de jogar foi de magistério de influência:numa noite invernosa, apareceu com Manuel Vilarinho e virou umas eleições que as sondagens inclinavam para a recondução de Vale e Azevedo. Nessa noite o Benfica guinou e a finta de corpo foi Eusébio que a fez."

Para lá dos golos

"Golos de todos os feitios e para todos os gostos, arranque, tiro, drible em movimento, inteligência em jogo, bolas paradas. Eusébio era muito mais do que isso.
Melhor jogador português do século XX. Achei graça à definição ouvida na rádio pela manhã e apreciei o jeito entendido de fazer justiça sem ferir susceptibilidades. É inexorável haver uma geração para a qual Eusébio será o melhor de sempre a título definitivo; da mesma forma, quem não o viu jogar tenderá a substituí-lo nos afectos por Cristiano Ronaldo. A situação é normalíssima, compará-los não faz sentido. Eusébio foi um monstro do futebol, um jogador à parte, um integrante do reduzido lote dos imortais. Cristiano está no mesmo caminho, qualquer um deles seria sempre um craque qualquer que fosse a geração a que pertencesse. O saudado crescimento de um não apaga o outro da história. Eusébio estará sempre na galeria dos melhores da história do futebol, a par de Di Stéfano, que ele próprio considerava o melhor de todos, e de muitos outros cujos desempenhos os imortalizaram.
Vi jogar Eusébio. Anos mais tarde devorei cassetes de vídeo sobre o Mundial'66 e revi tudo quando as imagens foram passadas para CD. Os golos, o arranque, o tiro, o drible em movimento, a inteligência em jogo, a nobreza, a lealdade, a pureza, o prazer de jogar. Tinha tudo, mas prefiro contar uma história.
Já lá vão uns anos largos. Num dia atendi um telefonema do João Malheiro, amigo desde o tempo em que era correspondente de O JOGO em Vila do Conde. Disse-me que estava com uma pessoa que me queria pedir um favor. Para meu espanto, passou o telefone a Eusébio, que se apresentou com toda a simplicidade do mundo. O pedido não chegava bem a sê-lo: o King gostava que o jornal desse cobertura noticiosa a uma digressão do então Clube Portugal, uma selecção de velhas glórias do futebol português que se iria deslocar a um torneio internacional.
Ficamos à conversa um bom bocado, falámos do enormíssimo jogador que ele fora e das saudades que deixou. A dada altura disse-lhe ser mais um dos muitos admiradores dele, mas acrescentei que as coisas poderiam ter sido diferentes. Quis saber porquê. Nesse jogo memorável de 1966 ante a Coreia do Norte, com 0-3 aos 25', Eusébio fez quatro golos seguidos. Quando marcou o penálti que deu o 4-3, o meu pai sentiu-se mal. Um susto, uma comoção ligeira que não o impediu de ver José Augusto assinar o 5-3. Quando acabei a minha história, ouvi um suspiro do outro lado: "Eh pá!, mas correu tudo bem, não correu? Agora fiquei preocupado." A seguir quis saber tudo sobre o meu pai, se tinha sido mesmo só susto, o que era feito dele, o que fazia na vida, se continuava de boa saúde.
Este era Eusébio, o cidadão."

Morreu o rei

"Embora todos soubéssemos que o estado de saúde de Eusébio apresentava algumas debilidades, a notícia da sua morte, ontem de manhã,  deixou em estado de choque o país inteiro.
É que com o desaparecimento daquele que foi um dos maiores jogadores mundiais da sua geração, não só fica mais pobre o seu clube de sempre, o Benfica, mas todos nós ficamos amputados de um dos membros mais unanimemente amados da nossa comunidade lusíada.
Tudo o que aconteceu durante estes dois dias no mundo inteiro, por via de sucessivos testemunhos enaltecendo a figura e a carreira de Eusébio, resta como a demonstração maior de como foi idolatrado ao longo de várias gerações, até daquelas que não tiveram o privilégio de o ver jogar.
Vindo um dia do bairro pobre da Mafalala, na então Lourenço Marques, recomendado por mãe Elisa à guarda de Mário Coluna, rapidamente conquistou o mundo com o seu talento e, ao mesmo tempo, com uma enorme humildade que viria a marcar toda a sua vida.
Ao serviço do clube que amou e da selecção que serviu com orgulho, Eusébio ganhou tudo o que havia para ganhar.
Com o seu contributo, sempre decisivo, os melhores troféus estão agora a engalanar para sempre o novo museu do Benfica, que fica a dever-lhe igualmente uma enorme dedicação, tantas vezes levada ao limite, e até com risco para a sua integridade física.
Morreu o Rei: resta-nos chorar a sua perda mas, ao mesmo tempo, retendo na memória os momentos de felicidade que nos permitiu viver ao longo de muitos anos, e que todos, reconhecidamente, lhe agradecemos."

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio

"Havia nele a máxima tensão.
Como um clássico ordenava a própria força,
sabia a contenção e era explosão,
havia nele o touro e havia corça.

Não era só instinto, era ciência,
magia e teoria já só prática.
Havia nele a arte e a inteligência
do puto jogo e sua matemática.

Buscava o golo mais que golo: só palavra.
Abstracção. Ponto no espaço. Teorema.
Despido do supérfluo rematava
e então não era golo: era poema."

Manuel Alegre, in A Bola

Eusébio, o Rei da minha República

"Há muitos anos, em meados da década de oitenta, estava eu a dizer mal da vida no posto médico do Benfica, a suar as estopinhas por causa de uma infiltração no joelho que o massagista da equipa, Hamilton Marques da Pena, me ia aplicar, quando entrou Eusébio, vindo da sauna, que ficava ali mesmo ao lado. «Estás com medo?», perguntou, «isso não custa nada, passei a vida a ser infiltrado», disse-me com um sorriso de menino nos lábios. Depois, mais a sério, lá confessou que «não dói nada, não é bem assim» e contou-me que cada vez que era infiltrado «mordia uma toalha para aguentar melhor a dor.» Acto contínuo passou-me uma toalha e, solidário, ficou comigo até que a agulha e a seringa cumprissem a sua missão...
Anos mais tarde, no início da minha carreira de jornalista, pedi-lhe que contasse a sua carreira através das múltiplas lesões que lhe transformaram os joelhos nas massas disformes que o obrigavam, nos últimos tempos, a precisar de cadeira de rodas para se deslocar nos aeroportos. Foi um depoimento arrepiante, em que o sacrifício em prol de um bem maior parecia não conhecer limites. No fim, uma explicação: «Nunca fui capaz de dizer não ao Benfica!»
Quis o destino que os nossos caminhos se cruzassem muitas vezes, nas últimas duas décadas, tomando eu por privilégio cada momento com ele passado. Tive oportunidade de ver Maradona olhá-lo como quem olha um ídolo, Pelé falar dele com a admiração que só se tem por um grande rival, Di Stéfano (o seu herói) amparar-se nele, a brincar com as dificuldades físicas de ambos, Beckenbauer pedir-me, durante uma entrevista em Munique, para falar com ele através do meu telemóvel, e Ruud van Nistelrooy, de outra geração, dirigir-se a Eusébio e, num português correctíssimo, dizer-lhe, «como está senhor Eusébio, é um prazer falar consigo.» Também fui testemunha, numa gala do Golden Foot, da satisfação do príncipe Alberto do Mónaco quando Eusébio lhe foi apresentado. Fiquei com a sensação que só por vergonha não lhe pediu um autógrafo...
Pois este Eusébio da Silva Ferreira que tinha o mundo a seus pés era um king do futebol e um rei da simplicidade. É verdade que nestes últimos anos ficou, fruto da debilidade física que ia sentido, mais impaciente e irritável, mas aquilo que lhe ia na alma tê-lo-á guiado ao Céu. Era sincero, amigo, em muitas fases, até, bom de mais, ficando à mercê de algum oportunismo. Mas, se há traço que caracterize Eusébio era o sentir-se, não o sendo, igual aos demais, e fazê-los sentirem-se iguais a ele.
Eusébio, o Rei da minha República..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Eterno rei

"Luto nacional. Evidentemente. Homenagem do Estado que respeita arreigado sentimento do povo pelo FABULOSO embaixador de Portugal em duríssimos tempos de sermos país isolado do mundo, entre desconhecimento e profundo desprezo público. Eusébio, menino pobre nascido e criado em paupérrimo bairro periférico da capital moçambicana, rasgou todas as fronteiras, tornou-se ídolo com dimensão planetária, principal concorrente de Pelé, o deus do Brasil então máxima potência do futebol. Eusébio teve mesmo se der puro fenómeno para tamanho êxito em dita missão impossível, mantendo-se sediado num país pequenino e mergulhado na tragédia do «orgulhosamente sós», a par de serem escassas as transmissões televisivas de futebol, não havendo internet e toda a panóplia de difusão hoje existente. Também por isso, Eusébio, monstro de talento e raça, foi... único. Gigante do futebol, ergueu-se a enorme bandeira de Portugal. De 1962 até ao 25 de Abril, Portugal, no mundo, foi... Eusébio. Tão extraordinária a marca do futebolista Eusébio, e da sua qualidade humana, que permanece indelével quase 40 anos após o final da carreira, atravessando gerações. Fantástica popularidade mundial, pedindo meças à de que hoje desfrutam Ronaldo e Messi, com intensa TV, profusão de vídeos e marketing. E nunca o deixaram partir para Itália, Inglaterra, Espanha...
Houve grandes jogadores que duvido também fossem no futebol actual. Eusébio, de certeza, continuaria hoje a sr gigante. Técnica, força, velocidade (tremendo poder de aceleração), diabólico remate (fortíssimo e certeiro), ganas de vencer, vencer, vencer. Hoje, dinheiro para lhe pagar... só ao nível de Ronaldo e Messi, no mínimo.
Eusébio na superelite do futebol mundial (não há muito, no melhor onze de todos os tempos, eleito pela FIFA, lá estava rei Eusébio). Ele é dos, escassos, que nunca perderão o trono. Emocionalmente arrepiante: ontem, o M. United colocou a bandeira de Portugal (a meia haste) e o público levantou-se num intenso aplauso de homenagem a um ídolo mundial. Hoje, o Real Madrid jogará com braçadeira de luto. Eterno rei. Quem, um dia, conseguirá esta reacção de históricos adversários?"

Santos Neves, in A Bola

Só os génios são tão simples

"Estava a fazer o exame de admissão ao ciclo, em Beja, quando o vi destroçar a Coreia do Norte, no Mundial de 1966. Um ano depois, já a viver em Olhão, vi-o calar o Comunale Vittorio Pozzo, em Turim, com um golo de livre directo de trinta metros, que deixou Anzolin, o guarda-redes da Juventus, de boca aberta. Era genial. Único. Mais tarde, já jornalista de A BOLA, conheci-o pessoalmente. Por essa altura as chuteiras do king estavam penduradas, mas ele acompanhava a equipa do Benfica, fazia tudo para não perder o contacto com a bola, a relva e os jogadores.
Lembro-me de uma vez, num estágio do Benfica em zona montanhosa da Áustria, era treinador Jupp Heynckes, de ver uma família alemã, pai, mulher e três filhotes, sozinha na pequena bancada onde se sentavam os jornalistas. Tinha feito mais de mil quilómetros para ver Eusébio, pela simples razão de que o king, em tempos idos, jogara contra o velho alemão e este queria apresentá-lo à família. Foi uma festa. Eusébio reconheceu-o. Tinha uma memória notável, até para os adversários. 
E era de uma simplicidade maravilhosa. Só os génios são tão simples. Uma vez foi comer uma caldeirada de peixe comigo, mais o Vieira Dias e o comandante Prata, a bordo de uma fragata do Tejo, na Moita. Depois fomos beber café ao Rosário. Disse-lhe que ali vivia um antigo defesa-esquerdo do Barreirense, o Patrício. «O Patrício?! Quero vê.lo! Foi o defesa mais difícil de passar que encontrei! Grande amigo!» Corremos tudo e o Patrício, logo nesse dia, não estava lá.
O king tinha inimigos? Não, não acredito. Quando em 2000, no Europeu disputado na Holanda e na Bélgica, via Eusébio entrar em campo antes de Figo e C.ª e o estádio levantava-se como uma mola a gritar pelo seu nome, até me arrepiava. Como me arrepiei ontem, manhã cedo. Adeus king."

Carlos Rias, in A Bola

Obrigado, 'king'

"Fiquei destroçado quando às 5.30 da manhã um amigo me ligou a dar conta da morte do King. Uma horrível maneira de despertar. Eusébio fazia o favor de ser meu amigo, pelo que é com emoção que escrevo estas linhas.
Tudo em Eusébio teve a ver com uma grande vivência extra. Uma vivência que envolvia, por exemplo, Hilário, lenda sportinguista, conterrâneo de Mafalala e irmão de peito. Inseparáveis para lá da última hora. Ou do saudoso Vítor Damas, outro grande amigo comum, meu antigo companheiro no futebol juvenil do Sporting. Eusébio e Damas eram também inseparáveis. Adversários que gostavam das mesmas coisas. Vão com certeza partilhá-las, agora, lá em cima, com um abraço e seguramente uma bola de futebol. Talvez Damas a rematar e Eusébio a defender, para variar um bocadinho.
Juntando a estes nomes os de José Torres, Jaime Graça, Costa Pereira, Santana, Chico Faria, Vitorino Bastos, Bento, Carlos Alhinho, Jacinto João, Germano, Cavém, José Águas, Yazalde já formaram seguramente uma boa tertúlia, uma grande equipa.
Eusébio deu-me o privilégio de uma grande amizade, muitas vezes cultivada à mesa da Ti Matilde. Sempre disponível para me conceder entrevistas. E sempre com a simpatia de me comunicar todos os seus passos e todos os convites que ia recebendo.
Felizmente existem imagens que os meus filhos viram repetidamente e que as futuras gerações vão poder ver também. Eusébio foi o maior de todos os tempos. Para mim. Um homem sempre, ligado à equipa de A BOLA. Ou a equipa de A BOLA sempre ligada a Eusébio.
Sabia da minha preferência clubista e chamava-me «o amigo lagarto». Éramos da mesma geração e usávamos a mesma linguagem. Sempre com muito respeito. Até um dia destes, grande King Eusébio!"

Vítor Cândido, in A Bola

Eusébio... O 'rei'

"Esta é um dos temas que ninguém gosta de abordar, mas a vida é mesmo assim. Morreu Eusébio da Silva Ferreira. A triste notícia correu o Mundo de forma muito rápida.
Portugal está de luto. Portugal está mais pobre. Eusébio era e vai continuar a ser uma das maiores referências do desporto universal. Deu grandes alegrias a Portugal e aos portugueses, marcou golos absolutamente fabulosos e mostrou sempre uma enorme capacidade de sofrimento, jogando muitas vezes de forma condicionada. Mas poucos ou nenhuns davam conta.
Uma velocidade invulgar, uma força da natureza que tinha na baliza adversária o seu alvo preferido. Eusébio era um vencedor, um campeão, um lutador, alguém que venceu as dificuldades e adversidades da vida transformando-as em oportunidades. Um jogador explosivo, um embaixador da nossa selecção e de Portugal no Mundo.
Além do Benfica, Eusébio tinha uma paixão enorme pela nossa selecção onde tinha lugar cativo. Motivava os mais novos e dava conselhos aos que chegavam.
Tive o privilégio de assistir a alguns jogos a seu lado e testemunhar a paixão e a intensidade com que vibrava pela equipa das Quinas, gritando muitas vezes aos avançados um simpático «chuta, pá», pois ele mesmo na bancada e longe do relvado sofria com a toalha branca enrolada na mão e queria que Portugal fosse grande.
Além do jogador importa salientar o homem humilde, generoso e solidário sempre com boa disposição apesar das adversidades da vida. No auge da carreira, a sua atitude dava esperança a um país que tinha imensos problemas e vivia com enormes dificuldades.
Projectou Portugal no Mundo durante imenso tempo. Um Campeão, um verdadeiro Campeão... Portugal está mais pobre. Obrigado, Eusébio..."

Hermínio Loureiro, in A Bola

Eusébio!

"E, de repente, o Rei deixou-nos...
Tinha 12 anos quando pela primeira vez ouvi falar dele. As informações que então nos chegavam de Lourenço Marques davam conta de um miúdo genial, que nascera dotado de invulgar talento para a arte do futebol e que, nos pelados moçambicanos, já deliciava plateias e cativava adeptos como poucos. Mesmo descontando os exageros que eram habituais acompanharem estas e outras notícias, ainda para mais "naquele" tempo em que o rigor deixava muito a desejar, pressentia-se - era mesmo esse o sentimento dominante - que algo de diferente e de muito importante estava aí para "rebentar".
Os grandes clubes portugueses, Sporting e Benfica sobretudo, atentos ao desabrochar das pérolas africanas, já há muito se digladiavam, tentando cada qual garantir os serviços do promissor jogador e recordo-me bem do que a Imprensa teorizava sobre o assunto, em crónicas, opiniões ou simples "pontos de vista", enchendo páginas e páginas de jornais e revistas, tendo por mote o "caso Eusébio". Aparentemente, o Sporting estaria em vantagem, dada a militância de Eusébio no Sporting de Lourenço Marques, filial dos "leões" de Lisboa.
Seria, contudo, o Benfica a conseguir o passe do jogador, numa jogada de antecipação do seu representante na capital de Moçambique. Mas nem assim o caso esmoreceu. O Sporting retaliou e houve que aguardar ainda cinco meses para que os tribunais, depois de muitas demandas, dessem razão aos encarnados e Eusébio - entretanto "resguardado" em Lagos, na casa de férias do dirigente do Benfica, Domingos Claudino - pudesse finalmente aparecer e treinar na Luz.
Das "reservas"do clube, onde se estreou frente ao Atlético, à titularidade na equipa - quer na Taça (V.Setúbal), quer no campeonato (Belenenses) - foi uma questão de dias, sempre com a particularidade de marcar o seu golo. No defeso, teve ocasião de brilhar no Torneio Internacional de Paris (três golos ao Santos), terminando o ano como indiscutível (e marcador...) na selecção nacional. Em cinco meses, a estrela moçambicana confirmara o seu estatuto.
Posso dizer que sempre segui com muita atenção a carreira de Eusébio, talvez espicaçado pela frase da velha raposa Guttmann ("é ouro, é ouro!"), quando se apercebeu das qualidades do novo recruta. Mas, na 1ª época, a de 61-62, não tive grandes ocasiões para o ver actuar. O "pantera negra", depois de um início fulgurante, saiu de cena por uns meses para ser operado ao joelho esquerdo, naquele que foi o início do seu calvário.
O flagelo das lesões obrigá-lo-ia a sete operações, seis das quais ao seu muito martirizado joelho esquerdo, e a constantes "tratamentos de choque" que terão posto em causa a sua correcta reabilitação. Mas nem por isso a sua trajectória se desviou do caminho triunfal. O título de campeão europeu, frente ao Real Madrid, em 62, abriu-lhe as portas da fama e a grande actuação no Campeonato do Mundo em Inglaterra projectou-o em definitivo na alta roda mundial.
O seu extraordinário currículo não cabe aqui nesta crónica. Dir-se-á que foi "apenas" campeão nacional por 11 vezes, ganhou cinco Taças de Portugal, foi campeão europeu e foi o melhor jogador e marcador da selecção na campanha do Mundial-66, em Inglaterra, onde Portugal alcançou o 3.º lugar. Os quatro golos marcados à Coreia do Norte (5-3) são, ainda hoje, referência obrigatória, mas será bom não esquecer os golos decisivos e espectaculares que apontou em Ancara e Bratislava, na fase de qualificação, que tornaram possível a grande saga dos Magriços.
Como marcador, foi ainda o maior de sempre do Benfica e o melhor da equipa e da selecção nacional, considerando a média resultante de jogos e golos subscritos. No plano internacional, foi por duas vezes o melhor marcador europeu e eleito uma vez o melhor futebolista do velho continente. Já no final da carreira, representou o Beira-Mar e o U. Tomar, além de ter jogado algumas épocas no campeonato dos Estados Unidos.
Restará dizer que, como ser humano, Eusébio foi também um exemplo. Um grande exemplo. De uma simplicidade e simpatia comoventes, dele se recordam os gestos de "fair-play", dentro e fora dos relvados, as suas atitudes de companheirismo e solidariedade, a sua constante disponibilidade e compreensão. O maior símbolo do futebol português e do desporto em geral, um campeão que galvanizou e arrastou multidões, era também um homem simples e bom. Que descanse em paz!"

A última conversa com o Rei

"Terá sido a derradeira entrevista de Eusébio, resultado de uma conversa que requeria memórias do Mundial de 1966 e previsões para o de 2014. O Rei estava satisfeito porque os exames recentes tinham sido animadores e entusiasmou-se com a hipótese de testar a prodigiosa capacidade para acumular informação, talento que estimulou até ao fim dos seus dias.
Nesse diálogo criticou a decisão da FPF em aceitar a troca de estádio para o jogo com a Inglaterra; explicou as lágrimas no fim da meia-final e desvendou por que foi pouco efusivo nos festejos do terceiro lugar. Pensou tão grande que nem a vitória sobre a URSS atenuou uma dor para a vida: não ter sido campeão do Mundo. E ainda expressou a opinião de que Ronaldo será um justo vencedor da Bola de Ouro, pondo fim ao clima tenso entre ambos. Disse ainda que a Selecção Nacional teria muito a ganhar se CR7 chegasse ao Brasil na condição de melhor jogador do Mundo, à semelhança do que sucedeu com ele em Inglaterra, no Mundial de 1966. Estarão juntos em Zurique, no próximo dia 13.
A meio fez questão de saber o objectivo do diálogo. Reagiu com indiferença à primeira parte da explicação (todos os sábados, e até ao início do Mundial, Record publicará experiências na grande montra contadas na primeira pessoa) mas não resistiu ao sorriso feliz quando confrontado com a opção de que o primeiro teria de ser o maior, o Rei do futebol português. Apesar de ter mantido uma corte que o adorou pelo tempo fora, gostou até ao fim de sentir o respeito, a admiração e o carinho dos outros. Mesmo na condição de ídolo imortal. E intemporal.
Eusébio abandonou o grande palco há mais três décadas, mas não perdeu a aura de mito marcante para gerações que só o conhecem de ouvir falar. O seu património emocional e sentimental excede os 15 anos de actividade, prova de que não foi apenas herói de um tempo mas acedeu ao lote daqueles que se transformam em património da humanidade. Nenhum outro jogador reuniu génio, peso social, sentido de representação e reconhecimento perpétuo à escala planetária, razão pela qual, desde o dia em que pendurou as botas até à madrugada em que partiu, foi a memória de um talento arrasador e figura invencível às agressões do tempo. Eusébio foi e será sempre o fenómeno que, sustentado pela paixão de um povo, excedeu o futebol, o desporto e se universalizou.
Na tarde da última conversa, da qual resultou a entrevista publicada a 14 de Dezembro, a despedida entre nós não foi como as anteriores. Porque há atitudes difíceis de explicar – provavelmente por senti-lo debilitado há muito tempo –, talvez tenha sido o instinto a alterar o comportamento: levantei-me, abracei-o por detrás e, com ele sentado à mesa, agradeci ter-me recebido na hora do seu almoço e dei-lhe um beijo na cabeça. Eusébio foi meu ídolo, meu herói e acabou sendo meu amigo. Viverá para sempre no meu coração."

1966

"O meu primeiro ídolo no mundo da bola chamava-se Diego Armando Maradona. O pequeno argentino fez parte da seleção das pampas que jogou o Espanha’82. Não me recordo desse Mundial, pois estava mais preocupado com outras coisas. Como aprender a andar. Mas vi-o a fazer coisas extraordinárias no México’86 e eu tentava imitar tudo no recreio da escola.
– Ó Vasco, não sejas fuço e passa a bola!
– Cala-te, não vês que estou a imitar o golo que o Maradona marcou à Inglaterra?!
– Então porque é que não foi golo?
– Porque o guarda-redes deles é melhor que o Peter Shilton.
Nessa altura, a pergunta que mais se fazia no mundo da bola era “Qual o melhor de sempre? Maradona ou Pelé?” A resposta que eu mais ouvia em casa era dada pelo meu pai: “Eusébio.” Recordo perfeitamente o Natal em que recebi como presente uma cassete VHS com os melhores momentos do Mundial de 1966. (Um pequeno aparte para o leitor do Record mais jovem: não sabeis o que é uma cassete VHS? Ide ao Wikipédia e pesquisai.) Vi a cassete uma vez. E outra. E mais outra. Fiquei viciado naquilo. Todos os sábados, via a cassete assim que acordava. E se tinha as imagens na TV, tinha o prazer de ouvir os comentários do meu pai, na cadeira ao lado, comendo as suas torradas e bebendo o seu chá Li-Cungo. Era o meu Gabriel Alves particular.
– O quê? Nós ganhámos ao Brasil neste Mundial, pai?
– É verdade, filho..
 – Mas eles eram campeões do Mundo e tinham o Pelé!
– Mas nós tínhamos o Eusébio. O meu momento preferido deste filme do Mundial’66? O resumo do jogo contra a Coreia do Norte. Claro que os comentários do Gabriel Alves lá de casa, de roupão cheio de migalhas de torrada, ajudavam muito.
– Filho, estava em casa da Tia Maria Teresa e do Tio Joninho a ver este jogo. E à meia hora estávamos a levar 3 secos. Toda a gente lá em casa calada. E eu disse “se marcarmos um antes do intervalo, ganhamos isto!” O teu pai é que sabe!
Ver o sorriso do meu pai a ver aqueles 4 golos do Eusébio era tudo para mim. Mas eu já sabia que ele se ia levantar e ir para cozinha. Tudo para não ver o resumo da meia-final contra a Inglaterra. O meu pai recusava-se a ver esse jogo.
– Eles é que tinham de ir a Liverpool, não éramos nós que tínhamos de ir a Wembley! A viagem cansou-nos! E perdemos!
Sim. Perdemos. Mas o futebol ganhou tanto com Eusébio.
Partiu ontem. E ninguém lhe tira o lugar na equipa dos melhores de sempre. O melhor, para o meu Gabriel Alves particular."

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio, a lenda...

Noite agradável...

Benfica 5 - 0 Gil Vicente

Vitória folgada, com entrada decidida, e com um pouquinho mais de acerto, até podiam ter sido mais... A equipa quis resolver o assunto cedo, e até deu para 'proteger' alguns jogadores na 2.ª parte. O Gil Vicente está numa série negativa, hoje 'rodou' alguns jogadores, mas com 'este' Benfica nunca teriam hipóteses.
O pequeno período de férias de Natal, o próximo jogo do Campeonato, e as poucas ausências (Cardozo e Salvio...), podem explicar a subida de rendimento da equipa, mas além de tudo isto, parece-me que a confiança do Lima e do Rodrigo está finalmente a subir, o Matic está a jogar na sua melhor posição, e os Sérvios (principalmente o Markovic...) estão mais entrosados futebolisticamente e socialmente com os companheiros...!!!

Só uma nota: com o regresso do Siqueira, o Sílvio que até estava a jogar bem ficou de fora... são aquelas situações, onde o treinador 'nunca' tem razão!!!

Agora, o jogo do próximo sábado terá uma história completamente separada deste jogo, vai começar com a nomeação do árbitro... e já agora, não acredito que seja este '11' o escolhido pelo Jesus: Amorim no lugar do Markovic...

Estamos nos Quartos-de-final da Taça de Portugal - mais uma 'decisão' para o carregado mês de Fevereiro -, mas cuidado com os próximos dois jogos com o Gil Vicente - Taça da Liga e Campeonato -, pois não vão ser tão fáceis, e com este resultado, corremos o risco de 'facilitar'!!!

sábado, 4 de janeiro de 2014

Goleada

Benfica 10 - 3 Mealhada

Vitória fácil, para tentar esquecer o último empate... mas não podemos continuar a desperdiçar situações de 'bola parada' (penalty's e Livres Directos)!!! 

Liderança

Ovarense 75 - 85 Benfica
11-24, 14-23, 26-17. 24-21

Excelente primeira parte, com 22 pontos de vantagem, mas um 3.º período muito abaixo do normal 'equilibrou' o resultado!!! Sofrer 50 pontos nos 20 minutos do 2.º tempo, não é um bom indicador...
Também não é bom sinal, quando mais de metade dos pontos do Benfica foram obtidos somente por 2 jogadores... sendo que um deles, o Jobey Thomas, cometeu a proeza de fazer um 0/7 em triplos, a sua especialidade!!!
Mas o que interessa, é a vitória, e independentemente dos tempos, a Ovarense nunca é presa fácil...

Desperdício...

Benfica 2 - 2 Rio Ave

Mau regresso das mini-férias. O Rio Ave no 'papel' tem um dos melhores plantéis do Campeonato, mas os resultados normalmente não correspondem...
Desperdiçamos muitos golos quando o jogo estava 0-0, chegámos mesmo a mandar uma bola à barra, e na recarga ao poste, sem que ninguém do Rio Ave tivesse tocado na bola!!! Mas quando finalmente conseguimos marcar o 1-0, baixámos a intensidade, e em duas desconcentrações permitimos a reviravolta no marcador...!!! Num livre, inteligentemente marcado pelo Joel, conseguimos o empate!!!
Nos últimos minutos, tentámos o 5x4, mas não criamos quase perigo nenhum (pelo menos não sofremos o golo da derrota!!!).

Com este empate, inesperado, permitimos o 'empate' na classificação com os Lagartos, que hoje, venceram depois da hora!!! Sim, o golo da vitória do Sporting, foi obtido depois da buzina!!! Nada de novo para aqueles lados...!!!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Clínica da Luz

"Artur, Siqueira, Sílvio, Fejsa, Matic, Salvio, Enzo Perez, Ruben Amorim, Sulejmani, Cardozo e Markovic. Ao contrário do que possa parecer, não se trata de uma proposta de “onze” apontada aos próximos jogos. Trata-se, sim, da longa lista de ausências (a maioria por lesão, algumas também por castigo) que afligiram o Benfica nesta primeira fase de temporada. Para completar o inusitado cenário, resta acrescentar o próprio treinador Jorge Jesus - também ele ausente por castigo durante várias semanas.
Salvio, que havia estado em destaque na pré-temporada, lesionou-se à 3.ª ronda, para não mais voltar a jogar. Amorim, que se fixou como titular em Atenas, permitindo então a adopção de um novo sistema táctico, lesionou-se no jogo seguinte. Cardozo, que depois da novela de início de época recuperara a sua melhor forma, e mostrava pontaria mais afinada do que nunca, também ficou no estaleiro, onde se mantém. Siqueira, que aparentava ter condições para resolver o velho problema da ala esquerda da defesa, rapidamente se viu, também ele, impedido de jogar. Matic e Enzo foram castigados à vez, inviabilizando, durante duas jornadas, a construção do melhor meio-campo encarnado. Sílvio só em Outubro pôde discutir um lugar. Fejsa lesionou-se em Paris. Markovic em Lisboa. Sulejmani em Belgrado, e, por fim, Artur em Olhão.
Quando um destes dias ouvia um comentador televisivo culpar Jesus pela indefinição do onze-base do Benfica, quase tive vontade de rir. É verdade que nem sempre os jogadores têm demonstrado a fibra de campeões que se vira, por exemplo, ao longo da maior parte da temporada passada. É também verdade que alguns dos reforços demoraram tempo demasiado a adaptar-se ao grau de exigência do clube. Mas, caramba, com tantos contratempos, manter ainda assim o 1.º lugar da tabela (embora de forma partilhada), é algo que deveria conferir algum pudor à crítica.
Sejamos justos. O que seria dos nossos adversários directos caso padecessem de tão extenso rol de contrariedades? Estariam na luta?"

Luís Fialho, in O Benfica

Elogio de Sporting e FC Porto à Taça da Liga

"FC Porto e Sporting mostraram no último fim-de-semana de 2013 que a Taça da Liga está ao nível da Liga dos Campeões nos seus objectivos para esta época. Ambas as equipas apresentaram os seus melhores jogadores e com uma entrega digna de registo. Curiosamente o FC Porto conseguiu um empate (que não mereceu) graças ao único não titular que apresentou: o guarda-redes Fabiano Freitas foi o herói da equipa azul e branca.
Esta vontade de ganhar a competição só não é verbalizada com mais coragem, porque isso era dar valor a quem ganhou dois terços das vezes esta prova. E o que une Sporting e FC Porto é não conseguir dar valor a nada que o Benfica vença.
Eu elogio o Sporting e o FC Porto por quererem muito vencer a Taça da Liga, já ambos chegaram duas vezes à final desta competição e nunca conseguiram conquistá-la. É justo e prestigiante esta entrega à prova por parte dos nossos rivais.
Por exemplo, eu festejei o golo contra o Nacional da Madeira a passear na Madison Avenue. Durante o jogo com a equipa madeirense recebi 23 preciosos sms, que me mantiveram informado mesmo à distância de um continente.
Escrevo com o frio de Nova York a atingir os 15 graus negativos, mas com a convicção de que os sms de amanhã vão noticiar mais uma vitória contra o Gil Vicente, na Taça de Portugal.
Com o Central Park coberto de neve, um frio siberiano, e uma paisagem dos deuses, basta uma vitória contra o Gil Vicente para o ano de 2014 ter entrado de forma perfeita, até porque o cordeiro no Balthazar também estava perfeito.
Mesmo nas condições mais simpáticas da vida, a vitória do Benfica é fundamental."

Sílvio Cervan, in A Bola

O preço da desigualdade no futebol

"Joseph Stiglitz apresentou, neste ano de 2013, o livro O preço da desigualdade onde defende a ideia de que a troika mais ricos/mais políticos/mais influentes ganha com a desigualdade sócio-económica. Quem investiga o futebol, depressa observará também que a desigualdade entre Grandes e os outros (que acontece em todos os campeonatos profissionais europeus) tem alimentado a pretensa grandeza de uns e poderá, em breve, levar a uma implosão (no mínimo, a um retrocesso histórico) do desporto-rei no Velho Continente. Esta ameaça tem três dimensões: desregulação financeira, descapitalização e desigualdade. 

Desregulação financeira
Os actuais fundos de investimento mais não são que a modernização do patronato que nas décadas de 50 a 70, alguns mecenas realizavam sobre determinados clubes assegurando a fidelização dos craques. Neste momento, os empresários/investidores reúnem capital, criam um fundo (por vezes, sediado em offshores) e adquirem percentagens dos passes dos jogadores, beneficiando das mais-valias pelas sucessivas transferências. Em primeiro lugar, quem perde algum controlo é a figura do agente tradicional que recebia a figura da comissão. Em segundo lugar, devido à emergência da figura no panorama financeiro, creio que a mesma possibilita perdas de receitas fiscais para os Estados. Por último, complexifica as finanças do futebol – cada vez mais anónimas e cada vez mais longe dos estádios. O pedido da UEFA em 2012 (dirigido à FIFA, para proibir a actividade global destes fundos, agilizadores de transferências de jogadores de campeonatos emergentes) é um toque a rebate.

Descapitalização
No caso de um clube de futebol representado por uma SAD, os primeiros decisores deveriam ser os sócios detentores do capital da SAD. Desde o momento que o clube não está controlado pelos sócios locais e pelos adeptos, fica à mercê dos interesses dos verdadeiros donos da bola. Obviamente, esta ausência de controlo pode, numa escala maior, deteriorar os respectivos campeonatos e a indústria no global, se existir um ciclo de descapitalização das SAD devido a necessidades financeiras. Nessa altura, corremos o risco de deixar de ter clubes, mesmo num sentido estético. Para acautelar a realidade contra a eventualidade desse cenário, seria útil que as Ligas internas, mas também a UEFA/FIFA criassem um fundo de capitalização obrigatória por parte dos clubes SAD que funcionasse como um seguro de resposta imediata perante os cenários de descapitalização emergente (este fundo teria alguma semelhança com o Fundo de Resgate europeu sediado no BCE).
A transição para que os clubes voltem a deter, por inteiro, os passes dos jogadores é um processo complexo que ninguém quer discutir. Haverá possivelmente direitos compensatórios, haverá possivelmente jogadores a perder valor, e haverá muito possivelmente clubes sem capacidade de intervenção. 

Desigualdade
O financiamento por obrigações (que virou ‘moda’ no futebol português) é tão só o resultado das necessidades de reestruturar o passivo dos clubes, levando a que a dívida aos fornecedores de capital de curto prazo seja atirada para os passivos de médio e longo prazo, dando alguma margem de liquidez para os clubes. No entanto, quando estes empréstimos vencerem, gera-se a necessidade de recorrer novamente ao processo de pagar as dívidas em vencimento com dívidas em contracção. No entanto, este processo não é garantido para sempre; chega um ponto em que os financiadores duvidam da capacidade dos clubes solverem as dívidas, quer pelo crescendo das taxas de juro, quer pelo peso dos seus passivos. Nesse momento, não bastarão garantias reais – a liquidez só será garantida com a alienação de curto prazo dos activos. Neste momento, as fontes de financiamento mais adequadas passam pela capitalização dos direitos dos activos intangíveis: marcas, publicidade/merchandising, e direitos televisivos. Obviamente o aproveitamento dos direitos de formação, se bem gerido, pode ser uma almofada nestes tempos para clubes de menor dimensão.
A crise agrava o fosso entre clubes ricos, com mais craques e com mais pontos, e os clubes menos ricos, com menos craques, com menos pontos. A crise nunca diminui esse fosso. Olhem-se os resultados dos clubes portugueses por exemplo e a exposição conseguida com a representação nas provas europeias. Observe-se ainda uma representação histórica.
Muitos dirão que a desigualdade é aceite tacitamente. Todos, no caso português, têm uma preferência de 1.ª ou 2.ª escolha por um dos 3 grandes. E depois há o nosso hedonismo intrínseco – todos gostamos de apostar no cavalo que ganha, de sofrer durante e ganhar no fim, de saborear mais golos que o vizinho. Daí, tendermos a ser simpatizantes, adeptos e sócios dos Grandes que concentram maiores probabilidades de vitória e de sucesso. Afinal, a desigualdade começa em nós."

Doping: a questão filosófica

"Nos últimos tempos têm sido recorrentes as notícias relativas aos casos de doping no mundo do desporto. Do ciclismo ao atletismo, passando pelo futebol (e até no wrestling turco ou nos pombos de corrida…), são cada vez mais os competidores apanhados com substâncias proibidas.
Os casos do ciclismo têm merecido especial destaque, uma vez que surgiram confissões de ciclistas vencedores que conseguiram escapar à detecção nos controlos anti-doping (o que põe em causa a sua eficácia). Isso corrobora a ideia de que a “ciência” do doping está sempre à frente da “ciência” da detecção e de que a implantação do doping é, provavelmente, muito mais generalizada do que os números da detecção permitem supor. Tendo esta realidade como pano de fundo, duas questões levantam-se: o que deve ser considerado doping? Deve o doping ser proibido?
Uma tentativa de resposta pronta a estas questões parece simples: o doping é o conjunto daquelas substâncias externas que produzem um aumento artificial do desempenho atlético; e devem ser proibidas porque desvirtuam a competição, o mérito e podem causar danos a médio e longo prazo na saúde dos atletas. Porém, uma análise mais cuidada às perguntas não nos permite ser tão lineares. Na realidade, as respostas não são fáceis e exigem uma análise filosófica.
Primeiro, a classificação de algo como doping está longe de ser inequívoca (não é por acaso que a lista das substâncias proibidas está em constante mutação, com entradas e saídas de novos e velhos produtos). Depois, na definição de doping entram as ideias de “aumento de rendimento”, “artificial” e “prejudicial para a saúde”. Porém, nenhum desses atributos é exclusivo do doping. O plano alimentar de um atleta está desenhado de forma a maximizar a sua performance e nesse plano alimentar são incluídas substâncias manipuladas artificialmente, como suplementos proteicos ou complexos multivitamínicos. A metodologia do treino é também uma forma artificial de melhorar a performance do atleta e mesmo os equipamentos (ex. sapatilhas, fatos de banho ou raquetes) também condicionam o desempenho. Se pensarmos nos efeitos secundários, também teremos dificuldades. O desporto profissional, é sabido, faz mal à saúde e origina problemas, a médio e longo prazo, devido ao excesso de esforço a que os competidores submetem a sua “máquina” – ou seja, a classificação de algo como doping é complexa e subjectiva.
A segunda questão também não é fácil, porque não só o doping desvirtua o mérito. Na realidade, o mérito nas competições desportivas está muito mal compreendido. Em bom rigor, o mérito só devia ser medido em função do esforço relativo que cada atleta fez (e do seu progresso), não em função de quem ganha a competição. Senão, vejamos: que mérito tem um nadador que já nasceu com mãos e pés de tamanho desproporcionado, e com todas as características aquadinâmicas, face a um outro, de um metro e sessenta, mãos e pés pequenos, mas que se dedica e esforça muito mais? Que mérito tem um competidor de um país desenvolvido que tem ao seu dispor toda uma infra-estrutura física e humana potenciadora das suas capacidades, face a um de um país miserável? Na realidade, as competições desportivas servem muito mais para assinalar dons genéticos e condições de contexto (que tornam certos seres humanos especialmente dotados para a actividade em questão) do que para destacar o mérito. Não é por acaso que, numa mesma modalidade, os campeões são, fisicamente, muito parecidos. Não foi o treino que os moldou assim, foi a genética que lhes permitiu ficarem assim e a competição que os foi seleccionando. Não haja dúvida: um campeão tem que treinar muito para o ser. Mas o que o torna campeão não é o treinar mais que os outros senão o ser mais dotado. O doping entra nesta equação como uma tentativa de tudo superar: o atleta em desvantagem, ou mais ambicioso, usa o doping para ganhar. Depois, por pressão competitiva, os outros também têm que o usar para poderem continuar a lutar…
Enfim, a grande questão é saber o que queremos do desporto profissional. Se o objectivo for apenas produzir campeões e gerar receitas televisivas, então, poderemos vir a ter competições futurísticas entre mutantes especificamente desenhados para as provas, com a nanotecnologia e engenharia genética a terem o papel principal. Se quisermos enaltecer o mérito e a natureza humana, então, teremos que redesenhar, filosoficamente, todo o desporto profissional."