Últimas indefectivações

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A dignidade

"O comportamento dos benfiquistas perante o presidente do FC Porto no funeral de Fernando Martins e ainda o novo museu do clube.

A morte do antigo presidente do Benfica Fernando Martins não podia deixar de enlutar o futebol português. Amigo pessoal de longa data do empresário e líder benfiquista na década de 80, o presidente do FC Porto fez o que todos esperavam e deslocou-se a Lisboa para prestar uma última homenagem ao homem que fechou o Terceiro Anel do antigo Estádio da Luz.
A presença em Lisboa do líder dos azuis e brancos - acompanhado do director-geral portista, Antero Henriques - quase se tornou a notícia principal do dia do último adeus a Fernando Martins.
O presidente do FC Porto chegou cedo à Basílica da Estrela, sem guarda-costas, e permaneceu sentado na igreja durante toda a missa de corpo presente, conduzida pelo padre Vítor Melícias, um conhecido sportinguista também ele amigo pessoal de Fernando Martins.
A presença do líder portista não foi uma surpresa. Era pública a extraordinária relação de amizade entre os presidente dos dragões e o antigo dirigente encarnado e surpreendentemente teria sido se o primeiro faltasse ao funeral do segundo.
Claro que tendo Fernando Martins sido presidente do Benfica - e sido sempre, ainda, uma personalidade próxima do actual líder das águias, Luís Filipe Vieira - é evidente que esperaria o presidente do FC Porto em Lisboa um ambiente e um cenário maioritariamente benfiquista e, portanto, adverso, tendo em conta as péssimas relações entre as duas famílias.
À dignidade da decisão do presidente portista de estar presente no adeus ao amigo - e outra coisa não seria de esperar -, responderam os responsáveis do emblema encarnado e restantes adeptos benfiquistas presentes na triste cerimónia com um comportamento de uma dignidade ainda maior, pela clara serenidade (e naturalidade) com que souberam reagir à presença do mais alto responsável azul e branco.
Fizeram os benfiquistas o que deviam? Evidentemente.
Um ou outro comenta´rio impróprio de um ou outro anónimo presente não apenas não teve qualquer significado como de todo poderia vincular a imagem institucional do Benfica e a forma como a larga maioria de benfiquistas (anónimos ou não) soube conviver com a presença de mais um amigo de Fernando Martins, por acaso também presidente do maior rival desportivo dos encarnados.
O que muitos - legitimamente - se interrogam é se o contrário também seria verdade. Duvido.

ALCINO ANTÓNIO é (e será, para a história) um dos grandes responsáveis pela mais notável obra do Benfica neste século depois da construção do novo estádio.
Pôr de pé o Museu do Benfica foi trabalho de uma equipa, naturalmente, mas nos rostos das equipas serão sempre os líderes, e ao rosto de Alcino António junta-se naturalmente o de António Ferreira (como aliás escrevi neste jornal logo no dia da inauguração) e, porque os últimos são os primeiros, o do presidente encarnado, porque, é fácil compreender, sem o sonho de Filipe Vieira dificilmente a obra nasceria.
Não me levem a mal os leitores a confissão, mas sou amigo pessoal de Alcino António há quase 30 anos. Ele é um dos mais antigos dirigentes do actual elenco encarnado e também, como é fácil concluir, um dos mais discretos, desde que na década de 80 assumiu as primeiras responsabilidades, na gestão do também já desaparecido João Santos.
Quando a minha relação (agora, repito, de quase 30 anos) com Alcino António se transformou numa relação de profunda amizade nunca mais escrevi uma linha que fosse sobre o antigo e o actual dirigente encarnado, nunca Alcino António me forneceu (no passado ou agora) uma única informação que fosse da vida interna do clube, e as nossas conversas sobre futebol (para lá de uma normal relação entre amigos) são isso mesmo, conversas de duas pessoas que gostam de futebol e de desporto e que partilham, concordam e discordam nos seus pontos de vista.
Uma amizade sem complexos e sem falsos compromissos.
Agora, com a história do museu, vi-me perante a decisão:
- Continuar sem escrever uma linha sobre Alcino António sob o velho pretexto de sermos, simplestemente, amigos;
- Ou elogiar o trabalho da equipa do dirigente responsável pelo museu (e portanto elogiá-lo a ele próprio), por imperativo profissional de consciência jornalística e por ter visitado o museu e considerado, francamente, estarmos perante uma obra notável.
Optei, como sempre, pela minha consciência jornalística e pelo dever profissional da crítica honesta, como lhe chamaria o velho mestre Vítor Santos, porque (não se confunda)  criticar não tem de ser dizer mal...
Fica o desabafo. E os leitores que não me levem a mal...

'PENALTY'
HUGO PACHECO, árbitro da 1.ª categoria, ainda deve estar a esta hora às voltas com a insólita decisão que tomou: viu, claro que viu, o portista Kelvin ao pontapé (por quatro vezes) ao ex-benfiquista Nolito, agora no Celta, e foi mostrar o cartão amarelo a quem, quem? A Nolito! Insólita decisão? Bem...

LIVRE DIRECTO
A vida de Jorge Jesus advinha-se difícil. Não sabe ainda quem sai, não sabe quem pode chegar, não sabe se conta (por exemplo) com Salvio, Matic, Garay ou Gaitán, não sabe quem substituirá Cardozo, enfim, não sabe ainda demasiadas coisas para um candidato ao título. Não é fácil.

(...)"

João Bonzinho, in A Bola

O King merece...!!!

Obrigado, Fernando Martins

"Quando eu tinha 12 anos Fernando Martins era presidente do Benfica. Quando eu tinha 18 anos Fernando Martins era presidente do Benfica. Fácil é perceber que foi sob a presidência de Fernando Martins que vivi, com consciência, as minhas primeiras alegrias como adepto. Os títulos, as taças, a minha primeira final europeia contra o Anderlecht. Foi até sob a presidência de Fernando Martins que António Leitão ganhou a medalha olímpica, nos 5000 metros, em Los Angeles. Primeiro atleta do Benfica a consegui-lo.
Isto bastava para Fernando Martins ter marcado uma geração de benfiquistas. Mas o meu testemunho é maior e mais profundo. Durante quase sete anos, vivi durante a semana num dos seus hotéis e durante esse tempo conversei muito sobre o nosso Benfica e privei com um benfiquista fantástico. Fernando Martins tinha uma paixão pelo Benfica. Esse tributo e agradecimento é-lhe devido. Faz parte da nossa história, e ficará na nossa memória. Deixo-lhe aqui o meu reconhecimento e a minha grande saudade.
Esta pré-época trouxe o primeiro troféu de terras espanholas para o nosso museu, a enorme Senhora de Elche tem de ser a primeira de muitas conquistas. Não há margem para não encher os adeptos de alegrias, esses mesmos que em número superior a 100 mil já subscreveram o canal do seu clube, esses mesmos que esperam vitórias e títulos, esses mesmos que na sua generosidade merecem a alegria das vitórias. Muito bem Fran Escribá na sua relação com o seu ex-clube, categoria e classe de quem se move por sentimentos e reflecte-os nas suas atitudes.
Amanhã na festa de Eusébio saibamos fazer uma festa e homenagem bonita, pela primeira vez contra um clube não europeu. Em certo sentido é justo para Eusébio que tinha e tem prestígio mundial e não apenas europeu."

Sílvio Cervan, in A Bola

Universal

Making of... (versão longa!!!)

Joana a dominar nas cataratas do Niágara!!!

Boa entrada no Campeonato do Mundo de sub-23 para a Joana Vasconcelos, que conseguiu a qualificação directa para as finais do K1 500m e no K2 500m (com a companhia da Francisca Laia). No K1 venceu mesmo a regata, enquanto no K2 qualificou-se após terminar em 2.º lugar...
O Campeonato do Mundo está-se a disputar em Welland, Ontário, Canadá, perto das cataratas do Niágara!!! As Finais decorrem no Domingo.

O Presidente Fernando Martins

"Fernando Martins é o primeiro presidente do Benfica de que, efectivamente, me recordo. Foi o homem que presidiu o Benfica durante grande parte da minha adolescência. Durante aquela época em que começamos a ganhar consciência e sentido crítico.
A imagem que guardo de Fernando Martins é a de um presidente determinado, um homem que liderava de acordo com as suas convicções e de poucas cedências ao caminho mais fácil, mais popular e mais óbvio. Recordo que durante o seu mandato saiu o Chalana para o Bordéus e os benfiquistas gritaram “aqui d’el Rei” que isto não pode ser. Recordo que, além do Chalana, o Filipovic e o João Alves também saíram e que se dizia à boca cheia que o nosso Benfica precisava de jogadores e não de sacos de cimento para fechar o mítico Terceiro Anel. É impossível esquecer o quão ofendido foi Fernando Martins depois do famosos 7-1 de Alvalade. Já depois de ter terminado o consulado, Fernando Martins continuou a ser criticado por dar a mão a gente que tudo fazia para, à margem da lei, derrotar o Benfica. Da mesma forma que é impossível não recordar que Fernando Martins fazia questão de lembrar aos benfiquistas, que o criticavam no calor da paixão e da emoção imediata, que era importante não ser míope e perceber que os jogadores passam e a obra fica. Da mesma forma que recordo a lição que nos dava quando dizia que preferia abdicar de um jogador “vedeta” do que assumir compromissos individuais que, para serem cumpridos, comprometeriam o bem comum. Da mesma forma que, até ao fim, se mostrou intransigente na escolha das suas companhias, independentemente de serem mais ou menos agradáveis à opinião pública benfiquista.
Ou seja, o que Fernando Martins nos deixou como herança foi o testemunho de que quem lidera o deve fazer de acordo com as suas convicções e nunca ao sabor dos ventos e das paixões de momento. Se assim não fosse, não teria deixado obra feita, não teria deixado a vincada marca que deixou no nosso Benfica e à qual ninguém pode ser indiferente."

Pedro F. Ferreira, in O Benfica 

Um homem para a história

"Quis o destino que apenas dois dias após a inauguração do nosso Museu, desaparecesse do mundo dos vivos um dos nomes que bastante contribuiu para a riqueza nele depositada. Fernando Martins assumiu a presidência do Sport Lisboa e Benfica em 1981, e esteve ligado a um dos períodos mais importantes da história do clube.
Não só pelos títulos conquistados (dois Campeonatos, três Taças e uma Supertaça, para além da presença na final da Taça UEFA), mas sobretudo pelas bases estruturais deixadas, que pouco depois permitiriam o ansiado regresso à alta-roda do futebol internacional – arredia desde meados da década de sessenta.
As finais europeias de Estugarda e Viena, pese embora se situem já fora do âmbito temporal dos seus mandatos, e sem retirar mérito à equipa directiva que lhe sucedeu, tiveram também o “dedo” de Fernando Martins.
Foi a sua gestão criteriosa, e sempre pautada pela defesa intransigente dos interesses da instituição, que deixou o Benfica em condições de vencer em Portugal, e de se bater com os melhores fora de portas. Foi Fernando Martins que, por exemplo, trouxe Eriksson para o Benfica, numa aposta que teve tanto de ousada como de bem sucedida. Foi Fernando Martins que transformou o antigo Estádio da Luz no maior da Europa. Foi Fernando Martins que, depois de um período relativamente incaracterístico, marcado pelo fim da Era-Eusébio, devolveu a Mística aos benfiquistas, fazendo crescer o número de sócios, levando-os para o Estádio, e apaixonando-os pela equipa. Foi com Fernando Martins na presidência que, em 1986, me tornei sócio do Clube.
Embora as palavras sejam muitas vezes menores do que os Homens, quem viveu esses anos sabe bem do que falo. Infelizmente, nem todos os sucessores estiveram à altura do seu legado. Porém, dada a vitalidade que o Clube tem demonstrado nesta última década – diga-se até que com algum paralelismo face ao seu tempo -, Fernando Martins terá certamente partido tranquilo quanto ao futuro do clube que tanto amou, e ao qual tanto deu."

Luís Fialho, in O Benfica

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

As leis do futebol a sério e a feijões

"No Dragão, leis são leis, a sério ou a feijões. E que árbitro idiota se atreveria a expulsar Kelvin por se ter atirado em pontapés às canelas no Nolito que ainda tresanda a Benfica?

DE todos os estádios construídos propositadamente para o Euro 2004, confesso que, até ao passado sábado, só conhecia o Estádio da Luz. Agora também conheço o Estádio do Algarve porque fui lá ver o Benfica-Nice, um joguinho de Verão que começou muito animado, graças sobretudo às prometedoras agitações causadas por Lima e por Markovic na confundida defesa dos franceses, ao ponto de dar por bem empregue o dinheiro do bilhete.
Durou pouco, no entanto, o prazer do público. Coisa de meia-hora, apenas. Isto porque o árbitro, rigorosíssimo, entendeu ser merecedora de castigo máximo e de expulsão uma acção atabalhoada de Artur que terá atirado ao chão um adversário na sua área.
O árbitro foi pronto a mostrar o cartão vermelho ao guarda-redes do Benfica e Jorge Jesus também não pensou duas vezes. Tirou de campo Markovic para que Paulo Lopes pudesse substituir na baliza o infortunado Artur. E ali terminou o gáudio da significativa assistência porque Markovic, no esplendor dos seus 19 anos, é aquele tipo de jogador que leva gente aos estádios.
Foi, com certeza, em ensaio útil para Jorge Jesus ver a sua equipa jogar uma hora inteira com menos um em campo, lutando para segurar a magra vantagem de 2-1 e não descurando as oportunidades para dilatar o resultado a seu favor, o que poderia muito bem ter acontecido pela forma como o Benfica, mesmo em inferioridade, mandou no jogo.
Assim que Markovic abandonou o relvado, muito aplaudido como fez por merecer, apeteceu-me pedir ao árbitro a devolução de, pelo menos, o custo de meio bilhete. No entanto, nem todos os espectadores do Benfica-Nice terão pensado assim tão mesquinhamente.
- As leis são para se cumprir em jogos a sério ou em jogos a feijões - logo ouvi dizer, judiciosamente, a um consócio de bom sendo.
E, assim, fui levada a concordar com a decisão do árbitro, ainda que contrariada. O jogo perdeu muito do seu interesse, é verdade, mas não dei o dinheiro por deitado à rua porque com menos que ver no relvado havia oportunidade para melhor apreciar o dito Estádio do Algarve.
Trata-se de um imponente mono com velas, plantado num ermo que não serve nem a população farense nem a louletana e que, incluindo as derrapagens dos seus custos de construção, custou uma fortuna ao erário público em nome do inquestionável «desígnio nacional» em que se transformou ideologicamente a organização do Europeu de 2004 pelo nosso país.
Perante a obscenidade de semelhante desperdício enfunado, que terá feito glória dos seus promotores e construtores, passou imediatamente incólume a decisão do árbitro de expulsar Artur a meio da primeira parte, estragando o espectáculo ao roubar-lhe um artista.
- Leis são leis, em jogos a doer ou em jogos a brincar!
Isto é que é ser bom cidadão.

NO dia seguinte, 600 quilómetros mais a Norte, voltou a acontecer coisa semelhante. No jogo de apresentação do FC Porto com o Celta de Vigo, ficou provado que, a doer ou a brincar, há leis que serão sempre leis do Estádio do Dragão.
Os campeões nacionais averbaram a sua enésima vitória nesta pré-temporada. Foi um triunfo tangencial de 1-0 com um golo de Jackson Martínez que partiu de posição irregular à vista desarmada, legalmente sancionada pela bandeirola de serviço.
O jogo terminaria em grande espectáculo e com 11 de cada lado. No Dragão, leis são leis. E que árbitro idiota se atreveria a expulsar Kelvin - o herói do último campeonato - por se ter atirado em pontapés às canelas do Nolito que ainda tresanda a Benfica?
Leis são leis. Não se brinca em serviço. Isto é estrutura.

O pedido de explicações da CMVM ao Benfica no que diz respeito - ainda... - aos direitos sobre o guarda-redes Roberto poderá, certamente, ajudar a esclarecer os benfiquistas, entre os quais me encontro, para quem este vai-e-vem de grossos trocos entre o Benfica e o Atlético de Madrid causa alguma perplexidade.

O Museu Cosme Damião foi inaugurado e a Benfica TV chegou aos 100 mil assinantes. É obra. melhor dito, são obras. E em progresso. Porque um Museu para se afirmar como atracção permanente precisa de renovar o seu espólio com taças frescas e um canal pago de televisão para se impor precisa de ver crescer o seu número de assinantes até sabe-se lá onde.
O Museu Cosme Damião, na sua concepção e imagética, está ao nível de um clube como o Benfica. Maior elogio não se poderá fazer. A Benfica TV para lá parece caminhar, embora o seu sucesso enquanto projecto dependa sempre do percurso da equipa principal de futebol.
Assinar um canal de televisão por cabo é tão fácil como cancelar a dita assinatura. Faz-se tudo através do comando. Que os comandos da equipa de futebol - os desportivos e os políticos - entendam isto como um facto incontornável.
Negócios, negócios, vitórias à parte é coisa que não existe no futebol. Ou não devia existir.

FERNANDO MARTINS foi-se embora aos 96 anos. Como presidente do Benfica sucedeu, um tanto inesperadamente, a Ferreira Queimado em 1981. Depois de perder duas eleições para Borges Coutinho (em 1969) e para o mesmo Ferreira Queimado (em 1977), Martins chegou finalmente à presidência do clube. Para a sua vitória eleitoral contribuiu de alguma forma decisivamente a festa do título de 1980/1981 no Estádio da Luz.
À tradicional invasão de campo sucedeu-se uma inaudita carga policial sobre os adeptos que custaria a reeleição de Ferreira Queimado, castigado nas urnas pelos benfiquistas ainda doridos da pancada que apanharam naquela hora festiva. Martins não era de todo favorito naquele despique eleitoral mas venceria Queimado pela margem mínima (51% contra 49%) e, à terceira, viu-se finalmente presidente do Benfica.
Fez três mandatos. Viria a perder as eleições de 1987 para João Santos, também um vencedor altamente improvável visto que com Fernando Martins na presidência campeonatos nacionais e Taças de Portugal foi coisa que nunca faltou ao Benfica. No ano em que abandonou o cargo, Fernando Martins deixou a equipa a caminho de mais um título nacional e de mais uma final do Jamor.
No entanto, os benfiquistas, habituados ao bom e ao melhor, nunca perdoaram ao presidente Martins os 7-1 em Alvalade e exasperavam-se contra o treinador John Mortimore, acusado de ganhar campeonatos com um rol de intoleráveis vitórias por 1-0. Eram outros tempos, sem dúvida.
Fernando Martins foi eleito porque os sócios do Benfica penalizaram o presidente anterior por não terem gostado da intervenção policial na festa do título de 1981 e foi destronado porque os sócios do Benfica não gostavam do futebol que a equipa campeã praticava em 1986 e em 1987, sob o comando de John Mortimore, um treinador chato.
Que luxo!
Martins deixou a sua marca no Benfica, esse é um facto. Fechou o Terceiro Anel ainda que para isso tivesse de vender Chalana e Stromberg: contratou Eriksson que revolucionou o Benfica e, por contágio, o futebol português; manteve um pacto de não-agressão com Pinto da Costa porque o rival da altura era o Sporting.
O tempo e o andar da carruagem deram-lhe razão numas coisas e não lhe deram razão noutras coisas.
Foi, sem dúvida, um presidente carismático, da linhagem dos não-doutores. Fernando Martins, uma figura histórica do Sport Lisboa e Benfica."

Leonor Pinhão, in A Bola

Sobre nomes dos clubes (IV)

"É sobretudo na Europa de Leste (ex-URSS e seus satélites) que há os gloriosos, bélicos e propagandistas genéricos de regime: CSKA (Clube do Exército), Lokomotiv, Torpedo, Spartak, Sparta, Dínamo (Dínamo de Kiev, de Tbilissi, Zagreb e até de Dresden na antiga RDA), Zenit, Estrela (Vermelha de Belgrado ou Steua de Bucareste) Partizan, Rapid (de Bucareste e até de Viena).
Acrescem os relacionados com a origem eslava como Slavia, Slovan assim como Levski, Dukla e Shatar (nome de um antigo sindicato da URSS). Só a Polónia - não por acaso - resistiu a esta avalanche de nomes (apesar de ter o Legia que quer dizer legião) e os magiares pelas características não eslavas do seu idioma (mas tem Vasas...).
Na Europa Central, incluindo a Alemnha há Viktoria e Viktorie para todos os gostos.
Por fim, regista-se a circunstância de quase todos os clubes israelitas serem Hapoel (de Haifa, Jereusalém, Telavive, o que coube em sorteio ao Estoril, Hapoel Ramat Gan, ao todo são 39!), Maccabi (Nazaré, Haifa, Netanya, Tel Aviv, 15 no total!) ou Beitar (Jerusalém e mais 10).
Trata-se de uma divisão algo política e ideológica que, de vez em quando, dá problemas. Hapoel, em hebraico, está ligado à palavra trabalhados e a Histadrut que representa uma poderosa organização sindical de esquerda. Maccabi (conotada com o centro político) advém de um exército rebelde judeu, os Macabeus, e simboliza a resistência. Beitar, conotado com a direita, resulta de um expressão ligada a movimentos sionistas juvenis.
Já o APOEL cipriota é o acrónimo de Athletikos Podosferikos Omilos Ellion Lefkosias, que quer dizer Clube de Futebol Atlético dos Gregos de Nicósia."

Bagão Félix, in A Bola

Sobre nomes dos clubes (III)

"Poucos clubes têm Portugal no nome. Para além dos lisboetas Sporting e Atlético, destaco o Clube Desportivo e Recreativo «Portugal» (Moita), Clube Desportivo Portugal (Porto), Clube Ferroviário de Portugal (Marvila). Curiosamente há um clube da 3.ª divisão espanhola chamado Portugalete, nome de um município no País Basco.
O Benfica fica-se pela cidade (Lisboa) e um dos seus bairros (Benfica) embora tenha dado à luz em Belém e o Porto pela cidade apenas. Sobre este há o hábito de, no preciosismo de jornalistas, se ouvir dizer (em regime único) o nome completo Futebol Clube do Porto e não apenas Porto.
Passando para outros países europeus há também genéricos clubistas. No Reino Unido com todos os United em competição com todos os City. Ou os Rangers de Glasgow e os Queens Park Rangers.
Em Espanha há um Sporting (de Gijón), um Racing (de Santander) Atléticos de de que já falei, Deportivo (de Corunha) e, claro está, a profusão monárquica Real para todos os gostos (Madrid, Saragoça, Sociedad, Béris, Valladolid, Oviedo, etc.) e Reial Espanyol em versão catalã. E ainda os germiandos Celta de Vigo (também Real) e Celtic de Glasgow. Por falar em Real, por cá temos o Real Sport Club (de Massamá), o Real Clube Brasfemes (AF Coimbra) e o Real Clube Nogueirense (AF Aveiro).
Em França, além dos Olympique como o de Lyon, Nive e Marselha (à semelhança dos vários Olympiacos gregos), há um Sporting (Sporting Club de Bastia) e um Atlético (Atlético Club Ajaccio).
Na Alemanha temos alguns Fortuna (o mais conhecido é o de Dusseldorf), alguns Bayern que quer dizer Baviera (Munique e não só) e Borussia (significando Prússia) de Dortmund ou M'Gladbach."

Bagão Félix, in A Bola

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Bons ventos, do lado de lá, da raia...

Elche 1 - 3 Benfica

Será desta vez que o Rodrigo ganha confiança, perde a ansiedade, e volta a demonstrar todo o seu potencial?!!! Não sei, mas hoje esteve inspirado, espero que não tenha sido, só por ter ultrapassado a fronteira... porque quero que em Portugal faça o mesmo!!! O facto de ter jogado toda a 1.ª parte a '9', e não nas costas do Lima (ou do Cardozo) também poderá ter ajudado!!!

Foi um bom jogo, competitivo, com o Campeão da 2.ª Divisão Espanhola, que efectuou algumas contratações para enfrentar a 1.ª Liga... Desta vez, gostei mais da gestão do Jesus, não apresentou uma equipa exclusivamente com segundas opções, misturou titulares, com não titulares, tanto na 1.ª parte, como na 2.ª e assim não tivemos momentos muitos maus, como já aconteceu nesta pré-época... aliás durante a época, o que acontece sempre é a inclusão de alguns jogadores não titulares (por lesão, por castigo, ou por opção técnica...), no meio dos 11 mais utilizados. Por isso é que as avaliações, nestes amigáveis, quando temos 11 jogadores que são efectivamente segundas escolhas, em simultâneo no campo, acaba sempre por ser injustas...

Creio que as experiências acabaram, com o São Paulo e o Nápoles vai jogar a equipa mais forte... agora tudo vai depender das saídas, porque entradas só se o Cardozo for vendido, de resto parece que a loja está fechada. Em relação às saídas: a dúvida está nos Centrais, com o Garay na equipa, abre-se a possibilidade do Luisão sair, caso contrário o Capitão fica, sendo que o Jardel será o carta mais fraca, não acredito num plantel com 6 Centrais!!! No '11' o único lugar susceptível de dúvidas é o do Djuricic, que muito provavelmente vai rodar com o Marko, constantemente...

PS: E mais um troféu muito bonito para o nosso Museu... com um significado Histórico muito interessante!!!

"O Museu é uma obra de todos"

"(...)
- Desde muito cedo que o ouvi considerar que montar um grande Museu do Benfica era, para si, uma verdadeira obrigação. Mas, afinal, não foi uma obra tão simples nem tão rápida de realizar...
- Não era uma obrigação, era um dever. Para quem tem o património histórico que o Benfica tem, é evidente que um Museu moderno, inovador e dinâmico era uma necessidade. Não por uma questão de 'fechar' a história entre quatro paredes, mas, sim, para que essa história inspire o nosso futuro. A história é o chão onde se encontram as nossas raízes, foram elas que nos deram vida. Se não cuidarmos desse chão, o nosso futuro estará comprometido. É por isso que este Museu representa tanto para todos nós. Também devo dizer que o Museu Cosme Damião é uma obra de todos os benfiquistas, e aqui há uma palavra que quero deixar a todos quantos me acompanharam desde que entrei no Benfica, desde o meu presidente Manuel Vilarinho até ao mais anónimo dos trabalhadores que nos últimos três anos estiveram envolvidos nesta obra fantástica. Desde o Alcino António até toda a equipa liderada de forma incansável pelo António Ferreira, a todos devemos o que a partir de hoje vamos poder ver...
- Não foi uma obra fácil...
- É verdade que não foi uma obra fácil, porque, na verdade, o estado em que o Benfica se encontrava quando assumimos a Direcção do Clube era assustador, e as prioridades dos primeiros anos não passavam, evidentemente, pelo Museu. A verdade é que, à medida que íamos conseguindo reerguer o Benfica, ficava claro que o Museu era uma obra tão estruturante como qualquer uma das outras que já conseguimos pôr de pé. O nosso ADN está aqui, os nossos alicerces estão aqui! Gostaria muito que o meu pai estivesse aqui para testemunhar este momento, ficaria feliz pelo obra, e eu ficaria feliz por tê-lo ao pé de mim.
- Criar de raiz este impressionante Museu Benfica Cosme Damião obrigou, então, a montante, a todo esse conjunto de ajustamentos estruturais e operações prévias que não estavam 'no programa'...
- A partir do momento em que tivemos condições de começar a pensar e a estruturar a ideia do Museu, houve todo um trabalho invisível de recuperação física de todo o nosso património documental, histórico, dos troféus que estiveram abandonados durante anos e que se encontravam em muito mau estado. Foi assim que nasceu o Centro de Documentação e o Departamento de Reserva, Conservação e Restauro. As bases do Museu Cosme Damião estão aqui, com a colaboração de jovens estudantes universitários de todo o Mundo que encontraram no Benfica um projecto completamente novo e suficientemente desafiador para os cativar. Foram eles que recuperaram de forma exemplar documentos fundadores, taças históricas, enfim, um património que estava fisicamente comprometido.
- Foi um trabalho de paciência
- Foi um trabalho paciente, pensado, minucioso. Houve também pessoas da nossa estrutura profissional a visitar alguns dos museus que eram, até aqui, considerados museus de referência a nível de clubes. Portanto, houve um grande planeamento em tudo o que foi feito, e tenho a certeza de que, a partir de hoje, o Museu Cosme Damião vai ser um dos melhores museus de clube de todo o mundo, e isso é algo que nos deve deixar orgulhosos.
- Nos domínios desportivos, a relação do Benfica com as universidades e centros do conhecimento já era uma constante praticamente ao longo da sua gestão. Para a estruturação do Museu, os nossos interlocutores e os departamentos científicos são agora outros...
- Era uma necessidade. No estado em que se encontravam alguns documentos da nossa fundação, troféus que estavam abandonados e que precisavam de ser recuperados, isso não se faz apenas com vontade, faz-se, como diz, com conhecimento, e foi precisamente às universidades especializadas e que se mostraram disponíveis a trabalhar connosco que fomos buscar esse conhecimento. Houve a participação de profissionais habilitados e de estudantes universitários, com programas de estágios nacionais e internacionais, numa estratégia que inclui a parceria com muitas empresas e protocolos com várias universidades.
- E também parceiros da sociedade civil, claro!
- Também não deixa de ser verdade que procurámos, e conseguimos, envolver muitos parceiros da sociedade civil cujo contributo serviu para melhorar a oferta cultural e histórica do Museu. Nesta colaboração mais alargada que permitiu hoje poder abrir um Museu que será um referência nacional e internacional.
- Julgo que foi um escritor inglês da primeira metade do século passado que disse que 'Quem controla o passado dirige o futuro. Da mesma forma que quem dirige o futuro conquista muito mais do que o passado.' Na sua opinião, o Museu Cosme Damião será, nesse caso, muito mais do que uma mera fonte de receitas...
- A ideia do nome do próprio Museu - Cosme Damião - remete precisamente para a necessidade de cuidar do legado dos nossos fundadores, não como arquivo morto, mas, como já disse atrás, como património inspirador que oriente e balize a acção do todos nós no presente e no futuro. Os que vieram atrás de nós merecem isso, e os que virão a seguir também. Fazer da história apenas um capítulo morto é um desperdício e um perigo. Portanto, o Museu Cosme Damião nunca foi pensado como um 'fonte de receitas«, mas, sim, como mais um projecto estruturante do Benfica do século XXI.
- Não pensaram apenas na história do Clube?
- A história do Benfica, apesar de haver pessoas que ainda não o entenderam, cruza-se com a história de Lisboa e de Portugal. Aliás este Museu faz essa articulação na perfeição. A nossa história atravessou a ditadura de Salazar, o fado da Amália, a Revolução dos Cravos, enfim, são 108 anos de história, e tudo isso está reflectido no trabalho que foi produzido. É precisamente esse património e esse legado que queremos mostrar, porque ele representa a nossa identidade, os nossos valores, a universalidade do Clube. A visão daqueles que na Farmácia Franco iniciaram a nossa história está bem reflectida no Museu.
- Não é estranho que nem o Primeiro-Ministro nem o Presidente da República estejam presentes naquela que é a inauguração de um espaço cultural - mais do que desportivo - para o País?
- Não sei se é estranho, só posso dizer que o lamento, porque acho que a inauguração deste equipamento cultural (e não desportivo) merecia a presença dos dois representantes do Estado português. Como lamento, igualmente, que o Benfica tenha ido a uma Final europeia no passado mês de Maio e nem Primeiro-Ministro, nem Presidente tenham estado presentes. Deve ter sido a primeira vez na história em Portugal que tal sucedeu, mas não me cabe a mim fazer juízos de valor, mas é evidente que o lamento. Recebemos sempre bem quem nos visita e apenas podemos estranhar estas ausências em dois momentos tão significativos da vida do maior Clube português.
- Tratando-se de um desígnio seu, e de um 'modelo estratégico' para o 'edifício estrutural' do Clube e do seu grupo empresarial, foi acompanhando pessoalmente e sempre de perto os trabalhos da equipa de especialistas internos e externos, nacionais e estrangeiros, que reuniu para o projecto. Houve muitas decisões difíceis de tomar porque representavam despesas incomportáveis, ou porque tinham alcance para além da própria 'ideia' circunscrita ao Museu?
- Em primeiro lugar, quero fazer uma correcção. O Museu nunca foi um 'desígnio meu', mas, sim, do Benfica e dos benfiquistas, e a obra que está aqui deve-se a todo o trabalho desenvolvido durante os últimos 13 anos pelas Direcções que presidi, mas também pela Direcção presidida pelo presidente Manuel Vilarinho. Já tive oportunidade de dizer atrás que, quando alguém entra no hospital quase a morrer, a nossa prioridade é salvar-lhe a vida, e só depois temos condições de trabalhar no sentido de evitar que aquela situação venha a repetir-se no futuro. Foi exactamente isso que aconteceu no Benfica: primeiro foi necessário 'salvar' o Benfica, e só depois dar-lhe ferramentas que evitem que mais alguma vez possamos chegar àquela situação. Creio que o Museu vai servir como garantia e salvaguarda do Clube. Muito do investimento que foi feito foi associado a permutas e, portanto, desse ponto de vista, temos um investimento que foi controlado do lado dos custos. A maior dificuldade foi mesmo o trabalho que foi necessário fazer para salvar uma grande parte do nosso património histórico.
- Com a vastidão do nosso espólio de troféus e peças de toda a natureza, certamente que muitos e muitos outros ícones não tomaram lugar nesta formidável colecção de abertura. E, mesmo assim, julgo que para já é impossível ver tudo o que está exposto nos quase 4000m2 do Museu numa única visita. Como é que os Sócios e Adeptos podem vir a conhecer tudo quanto ainda lá não pode estar agora? Com exposições temporárias?
- Há um parte do Museu que está precisamente preparada para exposições temporárias. Aliás, a ideia desse projecto é que ele seja um espaço aberto, dinâmico, que responda às expectativas de quem nos visita, que em algumas partes, mas não no seu bloco principal, possa mudar, que seja um espaço aberto à cultura onde se possam integrar também exposições que podem não ter que ver com o Benfica, mas que vão encontrar no nosso Museu em espaço de afirmação. É assim que penso no Museu Cosme Damião, e acho que ele - Cosme Damião - gostaria que assim fosse.
- Na sua opinião, e de acordo com o conhecimento que tem da colecção exposta e do sentimento dos nosso adeptos, quais acha que virão a ser as salas, os ícones, ou os momentos mais celebrados pelos visitantes?
- Sinceramente, é difícil de dizer. De cada vez que lá entro, não consigo evitar emocionar-me. Tenho a certeza de que os nossos adeptos, mas também os portugueses que não sejam benfiquistas e todos os turistas estrangeiros que nos vão visitar, vão ficar impressionados com o que vão ver, com a dinâmica que o Museu transmite. Creio que seria injusto da minha parte, no dia em que abre o Museu, destacar um local em particular.
- A nove meses da final da Champions League, no Estádio da Luz, este mês de Julho de 2013 vai ficar marcado para sempre como um dos períodos mais impressivos da história do Glorioso e, até, da linha do tempo do Desporto em Portugal. Mesmo quem sabe?, na Europa e no Mundo. Aos mesmo tempo, por sua iniciativa e em menos de 30 dias, avançou com duas medidas verdadeiramente espectaculares e de indesmentível impacto histórico, que transcendem o universo benfiquista: primeiro, foi o lançamento da 'segunda vida' da Benfica TV; e hoje, a inauguração desta casa da memória. Impressionado com esta sua capacidade de inovação e de realização, o que é que se segue, agora, no seu espírito, como próximos desígnios do Benfica?
- O Benfica é um projecto que nunca se completa, e desse ponto de vista tenho a certeza de que daqui a 20 anos ainda estaremos a lançar novos projectos e a abraçar novos desafios, mas há um alerta que eu quero fazer a todos os benfiquistas: todos estes projectos dependem fundamentalmente de uma coisa - do envolvimento dos Sócios e dos adeptos. A Benfica TV, por exemplo, é um projecto único a nível mundial, e os números que temos do nosso primeiro mês, como diz, da sua segunda vida confirmam e ratificam a decisão tomada, mas temos de ter consciência de que temos de continuar a crescer. O Museu Cosme Damião também só faz sentido se for para ser vivido pelos benfiquistas, se for um local a ser visitado. O Museu tem de passar a ser um templo para todos os benfiquistas. É isso que eu peço, o envolvimento de todos nestes projectos. Só assim é que faz sentido.
- Mas estes não são os dois únicos projectos que o estimulam de momento?
- Não escondo que, num curto espaço de tempo, gostaria de ver concretizados dois outros projectos: um Centro de Apoio às velhas glórias do Benfica que por circunstâncias da vida precisem desse apoio. A vida muitas vezes prega-nos partidas inesperadas e todos aqueles que escreveram a história deste Clube merecem ser apoiados quando essa necessidade surgir. Quero poder implementar este equipamento no Seixal, bem como gostaria de ver na cidade de Lisboa em espaço dedicado à figura de Eusébio. É evidente que ele é um referência do Benfica, mas é um referência de Portugal e da cidade que o adoptou, portanto espero que ainda em vida Eusébio da Silva Ferreira possa inaugurar um espaço permanente na cidade de Lisboa que evoque o seu exemplo e o seu talento."

Entrevista a Luís Filipe Vieira, por José Nuno Martins, in O Benfica 

O barato sai caro

"Os adeptos do Benfica vão começar a época muito pouco confiantes. Vêem entrar dezenas de jogadores, ainda não sabem quem vai sair, as dúvidas são imensas, Jorge Jesus é contestado.
Nesta última crónica antes de férias vou contar um episódio que talvez anime os benfiquistas.
Na época 2006/07 Jesus começava a treinar o Belenenses, que no ano anterior quase descera de divisão. ?Este ano é que vamos descer mesmo...?, disse eu aos meus amigos, desanimado com a trajectória que o clube vinha a seguir.
Mas o campeonato começou, o Belenenses ganhou aqui, empatou acolá ? e, no fim, conseguia um surpreendente 5.º lugar, com acesso à Taça UEFA, onde apanharia o poderoso Bayern Munique, perante o qual se bateria muito bem, sendo eliminado à tangente.
Este brilharete fez com que muitos jogadores de Belém fossem cobiçados e saíssem do clube. Assim, na época seguinte a equipa começou praticamente do zero. Aí eu disse: ?Não descemos no ano passado, mas vamos descer de certeza neste!?. Jesus mandou vir então um contentor do Brasil cheio de jogadores que ninguém conhecia, a equipa começou a fazer uns resultados jeitosos ? e no final, contas feitas, alcançava um brilhante 5.º lugar, que só perderia por ter sido penalizado com a subtracção de 6 pontos por causa do famigerado ?caso Meyong?. Aí, eu disse: ?O treinador é mesmo bom! Agora não o mandem embora?. Mas ele infelizmente saiu. ?Era muito caro?, foi a explicação que me deram.
Sucede que na época seguinte o Belenenses caiu a pique ? e pouco tempo depois descia à 2.ª Divisão. Também hoje alguns sócios do Benfica dizem que Jesus é caro de mais. Será. Mas como aquela história mostra, às vezes ?o barato sai caro?"

A culpa é mesmo do(s) governo(s)

"Não são muitos os países que se dão ao luxo de deixar extinguir-se a equipa que conquista a única medalha nuns Jogos Olímpicos.
Portugal, claro (porque será que isto não me surpreende?), consegue fazê-lo e fá-lo com a mestria de um ignorante, aplaudindo mesmo a decisão porque um dos atletas que conseguiu a medalha tem, afinal, grita-se em coro, todo o direito de competir sozinho se bem lhe apetecer.
Falo, já deu para perceber, de canoagem. E da recusa de Fernando Pimenta em participar nos Mundiais que se disputam este mês, por não querer fazer equipa em K2 (aquela em que ganhou a tal medalha de prata olímpica) com Emanuel Silva.
Sim, estou contra a decisão de acabar-se com a equipa de sucesso dos Jogos Olímpicos, sobretudo porque a mesma é unilateral e, pior que isso, tomada a um mês dos campeonatos do Mundo. Mal comparado, aplaudir a decisão de Fernando Pimenta é como aplaudir Ricardo Carvalho quando, zangado com Paulo Bento, pegou nas malas e se foi embora do estágio da selecção de futebol. Ou era como admitir que fosse Cristiano Ronaldo a escolher os companheiros que jogam.
Também sou contra a insensibilidade de quem não percebeu há mais de um ano o risco de fractura porque um dos atletas que integra a equipa quer deixá-la - ainda por cima, a solo Pimenta tem conquistado medalhas; de facto, merece a oportunidade - e, sobretudo, incomoda-me que todos juntos não tenham encontrado uma óbvia solução de compromisso: Pimenta fazia agora os mundiais em K2 e seguia a carreira a solo, cheia de sucessos, logo depois.
O mal, no entanto, não está só nas gentes do desporto, mas também nos sucessivos governos que não mudam uma lei que, de tão antiga, estipula os prémios para atletas medalhados ainda em escudos. Se os prémios de K2, tal como os de K1, não fossem a dividir, aposto que não haveria metade dos problemas."

Nuno Perestrelo, in A Bola

PS: Recordo que além do Fernando Pimenta, a nossa Teresa Portela está numa situação idêntica. Os dois melhores canoístas portugueses da actualidade, estão de relações cortadas com a Selecção...!!!
Curiosamente, no Triatlo, está-se a passar algo parecido, mas na minha opinião ainda mais grave. Se na Canoagem existem de facto equipas, e é preciso alguém decidir quais as combinações, que potencialmente podem trazer para Portugal melhores resultados, no caso do Triatlo estamos a falar de uma modalidade individual... o facto dos dois melhores triatletas masculinos da actualidade, estarem em conflito com o DTN devia preocupar a Federação, mas aparentemente é mais importante as guerrinhas e os tachos, do que os resultados dos atletas...
Nas modalidades ditas amadoras - nos desportos individuais - os subsídios deviam ser entregues directamente aos atletas, assim aparecem sempre os intermediários 'bem intencionados'...!!!

Nasceu do sangue a correr na Luz a primeira vitória de Fernando Martins

"Ganhou a presidência a Queimado graças, sobretudo, à carga policial que incendicou o parlamento - Quis Pedroto, ficou com Eriksson, eternizou-se

A morte levou-o ontem. Fernando Martins tinha 96 anos. A presidência do Benfica chegou-lhe como um destino fintado. A AD ganhara as eleições e Sá Carneiro fora buscar o presidente da FPF para seu Ministro dos Assuntos Sociais: Morais Leitão. Não chegou a estar sequer seis meses no cargo, vinha da fundação do CDS com Freitas do Amaral, Amaro da Costa, Martins Canaverde, Lucas Pires, que haveria de subir a Ministro da Cultura, era, por essa altura, candidato a presidente da Assembleia Geral do Benfica, na lista de Ferreira Queimado. A RTP passara a emitir a cores, 59.000$00 custaram os primeiros aparelhos de 51 centímetros - e neles se pôde ver já, vermelha de sangue, a festa do Benfica campeão de 1980/81.
Na última jornada, na Luz, estava a ganhar 5-1 ao V. Setúbal - e ao cair do pano adeptos em euforia derrubaram o gradeamento e puseram-se em frenesim junto às linhas. Irrompeu a polícia de choque. As escaramuças subira do relvado às bancadas, afunilaram-se para fora do estádio. No ar, cassetetes e bastões, gritos e insultos. E em rodopio cães e granadas de gás lacrimogéneo. Houve 100 feridos - e suspeitando que poderia ter começado ali a perder as eleições, Queimado, responsabilizou a polícia pelos «excessos» - mas o comandante da força deu-lhe réplica:
- Limitámo-nos a cumprir um pedido do Sr. Gaspar Ramos para limpar o campo...
Seguiu a agitação para a Assembleia da República, César de Oliveira, deputado do PS, disparou:
- O desejo de bater e aleijar por parte do Corpo de Intervenção igualou ou excedeu as mais violentas repressões policiais de Salazar e Caetano. A barbaridade não poupou vendedores ambulantes, crianças, grávidas...
Lucas Pires tentou, em São Bento, desligar a acção policial do governo, mas em vão. Fernando Martins, o candidato da oposição, aproveitou-se, com astúcia, do descontentamento - e assim ganhou as eleições.
Tomou posse a 29 de Maio de 1981 e no primeiro discurso lamentou que Queimado, no último acto de gestão, tivesse renovado com Baroti. Ficou com ele atravessado na garganta - e como o húngaro perdeu o campeonato de 1981/82 para o Sporting e foi eliminado da Taça pelo SC Braga - despachou-o pelo buraco do ponto. Escolheu Sven-Goran Eriksson para o lugar, mas a sua primeira ideia fora Pedroto, que deixando o FC Porto em rota de colisão com Américo de Sá, acabara por se comprometer com o V. Guimarães.

ERIKSSON A UM TERÇO DE PEDROTO
Eriksson jogara no Torsby, na II divisão da Suécia, na adolescência ia de férias para Inglaterra para assistir aos treinos do Liverpool ou do Aston Vila - e aos 28 anos terminou o mestrado em Educação Física com tese sobre o 4x4x2. O juri deu-lhe nota máxima, mas o único convite que lhe surgiu foi do Dogerfors da... III Divisão. Pô-lo na II - e saltou para o IFK Goteborg - e, aos 32 anos, ganhou a Taça UEFA.
Apesar disso, dessa vitória europeia que saiu de uma caixinha de surpresas, houve quem achasse que era jogar na roleta russa ir buscá-lo - e, depois, numa Assembleia Geral tumultuosa, cansado de insinuações e remoques, demitiu-se. Esteve à beira de um colapso cardíaco, foi assistido por um médico de emergência, lá mesmo no pavilhão. Oito dias se passaram - e acabou por retirar o  pedido de renúncia. Eriksson chegou a troco de 360 contos de salário mensal, Pedroto, regressando ao FC Porto passara a receber o triplo - e Juca ganhava quase o dobro no Sp. Braga. Ganhou fama por causa do chapéu da Macieira - que lhe ofereceu 1000 contos pela publicidade - e logo marcou o seu estilo:
- O golo é o que mais interessa no futebol, por isso ninguém verá o Benfica a jogar para não marcar golos, jogue onde jogar, contra quem jogar.
Ganhou o campeonato e a Taça ao FC Porto, a Taça que o Benfica esteve para boicotar por ter sido marcada para o campo do outro finalista - mas Martins não deixou. Convenceu toda a gente a ir lá jogar - e deu no que deu. Nessa altura, já era o que nunca deixaria de ser: amigo de Pinto da Costa. Que pelo tempo fora, o considerou o «melhor presidente da história do Benfica».

DESPEDIR QUEM NÃO DIZIA EUSÉBIO...
Em 1983, FM arrasou Jorge de Brito - e quando Eriksson se foi embora jogou outra cartada notável: Tomislav Ivic. Fugaz foi a passagem pela Luz, partiu porque Martins se recusou a pagar-lhe em... dólares. E nessa época de 1984/85 em que se deu mais uma novidade histórica: negociou pela primeira vez publicidade nas camisolas, através de contrato com a Shell - o treinador foi Pal Csernai. Bruto e duro, estranho e egocêntrico, não tratava Eusébio que FM pusera treinador de guarda-redes, por Eusébio, tratava-o por... Iosef! E um dia, o King não aguentou mais - e atirou alto e bom som para Pal ouvir: «Este gajo, vejam bem... Até na Tailândia sabem o meu nome, ele continua Iosef para aqui, Iosef para ali»...
Csernai perdeu o título para o FC Porto, mas a Taça não. A Taça ganhou-a aos portistas. Aliás, parece que não foi ele que a ganhou já que, no final, Bento revelou:
- Não foi Csernai quem fez a equipa e quem deu a táctica. Carlos Manuel e Pietra é que lhe abriram os olhos...
E, para não perder o balneário, Martins mandou-o embora. Foi, pode dizer-se, o seu único falhanço na escolha de um treinador...

Com os 232 mil contos de Chalana o terceiro anel...
Não quis dar 350 contos à sua estrela, voltou atrás, deu-lje 1000 e assim fez o negócio da década
Em Março de 1984, na Taça dos Campeões, noite negra para o Benfica - e para Bento que do Liverpool de Rush & C.ª sofreu quatro golos, revelando:
- No primeiro golo fui encadeado pelos holofotes. Depois, desabou tudo ali, a cabeça ficou quente de mais, acabei por sofrer um dos maiores frangos da minha vida, com a bola a passar-me, estupidamente, por baixo das pernas, é a vida...
Apesar da eliminação, Fernando Martins apresentou contas em AG e houv espanto: o futebol gerou um luro de 106 mil contos, nunca nenhum presidente atingira número assim.
Com o segundo título de campeão no bolso, Eriksson disse adeus ao Benfica, seduzido pela Roma - e Chalana também partiu. Antes do Euro, acertou com Valentim Loureiro transferência para o Boavista - por não lhe querer pagar 350 euros por mês. Mas, percebendo a tempo que poderia cometer erro histórico, o presidente deu-lhe, subtil como era sempre que tratava de negócios, a volta - e pagando em dobro o sinal que o jogador já recebera, subiu-lhe o salário para 1000 contos.
Nessa altura, Martins lembrou-se de uma outra inovação: colocou no novo contrato uma cláusula de rescisão de 24 mil contos. Mas, notando que o Bordéus enlouquecera por Chalana, só acertou a transferência quando os franceses lhe acenaram com 232 mil contos, oferecendo ainda ao extremo-gazua que fora campeão distrital de corta-mato de iniciados pela CUF e talvez tenha sido o melhor jogador do Euro 1984 apesar de Platini - 100 mil contos de luvas e 5000 de ordenado mensal.
Esses 232 mil contos foram sobretudo para fechar o Terceiro Anel. E na noite de inauguração, em Setembro de 1985, Martins não calou euforia:
- É talvez a maior obra feita em Portugal depois da construção da ponte 25 de Abril. O Benfica fica assim com o maior estádio da Europa.
Nesse ano, ninguém ousou defrontá-lo nas urnas - e não imaginara que pudesse ser o seu último mandato na presidência. Mas foi...

Levou o Benfica ao papa depois dum ataque bárbaro
Martins recolocou o clube a lutar por um título europeu mas para isso teve de fugir ao inferno...
Foi com Fernando Martins que, depois dos seus fantásticos anos 60, o Benfica voltou ao fulgor da sua histórica - com nova final europeia. Na Taça UEFA de 1983.
Nos quartos-de-final, o Benfica eliminou a Roma - e antes do jogo, o presidente conseguiu que João Paulo II, o papa que fora guarda-redes, recebesse a comitiva no Vaticano. Humberto Coelho, o capitão, oferece-lhe uma bola autografada - e Martins uma águia em prata. O Benfica venceu por 2-1, com dois golos de Filipovic - e Martins soltou a promessa: «eliminá-los vale 500 contos a cada um». Cumpriu.
Nas meias, a Universitatea de Craiova. Na Luz, empate a zero. Mas não a esperança perdida. Houve de novo empate, a um golo - e o Benfica passou. E, de repente, foi como se tivesse caído no inferno, o inferno que Bento contou:
- Quando íamos a entrar no balneário, sentimos um estrondo incrível. Um paralelepípedo estilhaçou a porta de vidro e caiu ao meu lado. Sentimos todos a vida em perigo.
O Benfica foi ao hotel lanchar - e, de súbito, encheu-se a praça de gente a ulular. Chalana nem teve tempo de acabar de comer a sandes. Um polícia grito que fossem todos imediatamente para o autocarro, outros de kalashnikov em punho abriram corredor de fuga. O autocarro arrancou, uma pedra estilhaçou-lhe o pára-brisas, Júlio Borges teve de receber tratamento médico, ferido na face por um pedaço de vidro. Ao longe, ouviram-se tiros.
Na primeira mão da final, em Bruxelas, o Anderlecht venceu por 1-0 e Fernando Martins, que nesse ano movimentara cerca de 500 mil contos com o futebol, queixou-se do árbitro:
- Para além de nos anular esquisitamente um golo, esteve sempre a prejudicar-nos.
Quinze dias depois, perdeu-se o sonho no empate a um. Que Benfica era esse? O Benfica de Bento, Pietra, Humberto, Bastos Lopes, Veloso, Alves, Shéu, Filipovic, Carlos Manuel, Stromberg, Chalana, Diamantino, Nené. Só de bilheteira, arrecadaram-se 78 mil contos, as despesas de organização andaram pelos 16 mil. O policiamento envolveu 700 agentes - e custou 3000 contos. (A EPUL tinha à venda um T2 em Telheiras por 2960 contos, que era pechincha dizia-se na publicidade. O bilhete mais barato para a Luz era de 1000 escudos, o mais caro de 3500. Uma bicicleta banal custava 6500 escudos - e a RTP deu 10 mil contos ao Benfica pela transmissão do jogo...)
Fernando Martins prometera prémio de 1500 contos a cada benfiquista pela vitória na final da Taça UEFA. Não ganharam - mas o presidente pagou-lhe na mesma. (Sim, essa era a política dele como líder do clube: pagar pouco de ordenados, pagar muito de prémios. Uma política que lhe deu sem dúvida um toque de visionário. E que resultava, quase perfeita...)

Como João Santos o pôs numa mágoa que nunca mais escondeu
Em 1987 e 1989 tentou por duas vezes regressar à presidência, os benfiquistas não lha deram mais
Para o lugar do irascível Pal Csernai, Fernando Martins optou pelo regresso de John Mortimore. Perdeu o título de 1985-86 para o FC Porto - e a consolação voltou a ser a Taça, ganha ao Belenense. Na época seguinte, torvos foram os primeiros ventos: a Supertaça que Futre ganhou quase sozinho para o FC Porto com 4-2 na Luz e os 7-1 do Sporting em Alvalade. Não se conformaram sócios e adeptos que rasgaram cartões, cachecóis, bandeiras e soltaram a indignação sobre o pobre do treinador inglês. «Ainda hei de ver gente que humilhou Mortimore considerá-lo bestial» - apontou FM. E não se enganou. Puxou o orçamento do futebol para 300 mil contos - e acabou campeão. Por entre champanhe a jorrar na cabina. Rui Águas e Carlos Manuel jogaram forte ironia:
- A gente não tem a melhor equipa, a gente não tem o melhor plantel, a gente não tem o melhor treinador, mas é a gente que ganha o campeonato - e muito bem feito, e é muito bem feito!
Aliás, não foi o campeonato apenas, foi a Taça também: 2-1 ao Sporting. E com dobradinha no ano em que o FC Porto venceu a Taça dos Campeões com Artur Jorge, Mortimore partiu, levado por transe magoado:
- Não trabalho num clube onde há pessoas que não querem trabalhar comigo.
Referia-se, claro, à mudança na presidência. Para o lugar de Martins, fora João Santos. Nunca o escondeu, foi a derrota que mais lhe doeu:
- Os sócios não reconheceram tudo o que fiz pelo Benfica...
Toni conseguiu o milagre do regresso à final da Taça dos Campeões, foi campeão em 1988/89 - e nas eleições pela última vez. E João Santos deu-lhe 8-2 - mas não conseguiu, nem assim, roubar-lhe a eternidade...

Derrota com Salazar a fingir...
A primeira vez que Fernando Martins se candidatou a presidência do Benfica foi em 1969. Quatro anos antes ocupara funções de suplente no Conselho Fiscal e em 1967 deram-lhe a presidência da Comissão de Obras do Novo Parque de Jogos. Cumpriu a missão com tal zelo, que grupo de sócios o quis lançar à presidência. Nessa época, o Benfica ganhou mais um campeonato e mais uma Taça - a Taça foi aquela contra a Académica que transformou o Jamor no maior comício contra a política colonial que o salazarismo viveu. Artur Jorge não pôde jogar - deixaram-no retido no quartel, em Mafra. Eusébio desempatou aos 109 minutos - e anos depois diria que foi o golo mais triste da sua vida, exactamente pelo que estava em causa. Nessa altura já tinham morrido mais de 5000 soldados em Angola, na Guiné, em Moçambique. Salazar já não governava, mas achava que sim - e para manter a ilusão, de vez em vez até lhe apareciam ministros em São Bento disfarçando que estavam a despacho. (No Verão de 68 cadeira de lona cedera, bateu com a cabeça no chão, traumatismo craniano acabou reduzindo-o, pouco a pouco, a quase vegetal.) Mulheres mais modernas começavam a tomar a pílula, as outras continuavam a ir à missa de véu e meias de vidro mas para abrirem conta bancária ou para tirarem passaporte todas eram obrigadas a pedir autorização aos maridos - e só podiam votar se tivessem curso médio ou superior. As eleições continuavam a ser fraude pegada - e para mostrar a diferença em relação ao país, o Benfica anunciou, então, eleições «livres» e com vários candidatos. Eram três e entre eles havia um aristocrata com brasão - e em homem do povo que fizera riqueza graças ao seu génio para o negócio, mas alguns continuavam a tratar por... Pedreiro. Ganhou o aristocrata, das urnas saiu: Borges Coutinho: 58,4%; Fernando Martins: 24,9%; Romão Martins: 16,6%.

O outro abriu ao estrangeiro
Na segunda tentativa de ataque de Fernando Martins à presidência do Benfica, a sua segunda derrota. Foi em Maio 1977 - e Ferreira Queimado bateu-o por pouco: 52,4% contra 47,6%. Sim, foi nesse mandato - em que Martins nunca deixou de se mostrar oposição, mas «oposição com seriedade» que se fez aprovar a autorização de utilização de jogadores estrangeiros no SLB, numa assembleia presidida por Adriano Afonso, que durou mais de oito horas, começou com 1468 sócios e acabou com 534, dos quais 472 disseram sim...

(...)"

António Simões, in A Bola


El amistoso acaba en pesadilla

"La afición céltica denuncia agresiones y amenazas de la hinchada lusa
La afición del Celta desplazada a Oporto todavía estaba despertando ayer de la «pesadilla» en la que, aseguran, se convirtió el partido del domingo en O Dragão. En un compromiso para el que el celtismo se había movilizado de una forma sorprendente en pretemporada, y ante un equipo que algunos consideran «hermano», se encontraron con una actitud hostil por parte de la hinchada rival que les hizo «pasar mucho miedo». Para algunos, la cosa fue más allá, llegando a sufrir violencia física y verbal, así como robos.
Varios miembros de la Peña Dani Abalo fueron agredidos a la salida del estadio. «Por la mañana ya nos recibieron con escupitajos, pero en ese momento -les retuvieron una hora dentro del estadio tras la conclusión- ya íbamos confiados. Notamos que nos perseguían, apuramos y nos arrinconaron. Empezaron a patadas y puñetazos», relata David Abalo, que iba con cuatro amigos. Les robaron camisetas y bufandas. «Escapamos como pudimos. Fue un buen susto», describe. Dos necesitaron asistencia médica.
Las bufandas y camisetas que a unos les sustrajeron, otros se las quitaron antes. «Hubo quien compró ropa para pasar desapercibido. La tensión vivida no era normal. Quién más y quién menos estaba muy asustado», explica David Penela, que abandonó O Dragão en el minuto 80 «para evitar males mayores».
«Te mataban con la mirada»
Tampoco Marta Saiz esperó al final. «No disfrutamos del partido, ya era lo de menos. Queríamos salir de allí cuanto antes», dice sobre la que considera «la peor experiencia» de su vida en un campo de fútbol. Los problemas habían empezado ya al mediodía. «Los reventas nos amenazaron y no nos dejaban acceder a las taquillas», recuerda. Luego se refugiaron en un centro comercial. «Te mataban con la mirada. Nos sentíamos vigilados y vimos gente con labios rotos. Fue horroroso», lamenta.
Algunos autobuses célticos fueron escoltados a su llegada tras los incidentes previos. «Se perdió el sentido del amistoso. No nos podíamos imaginar que fuera a pasar algo así», dice Víctor, de Carcamáns. Para Berto Carballo, de Preferencia, lo ocurrido «empañó por completo un partido que era para disfrutar».
Otro de los afectados fue la Peña Lío en Río, que así lo confirmaba ayer, pero prefería no hacer declaraciones. Según otras fuentes, este colectivo también sufrió agresiones y el robo de un teléfono móvil. 
Dentro del estadio, los insultos fueron una constante. Lamentan también que no se respetara el minuto de silencio en memoria de las víctimas del accidente de tren de Santiago. «Fue todo una salvajada. Había gente con guantes de boxeo. Una batalla campal», dice Amador, de la Peña Jorge Otero. Él iba con sus hijos: «Si estoy solo y tengo que chupar dos bofetadas me preocupa menos, pero con los niños...», subraya. «Fue peor que un derbi en Coruña».
Todos apuntan en que la organización del Oporto, que les dispersó por el estadio tras ofrecer menos espacio del prometido, no contribuyó a mejorar las cosas. Coinciden, también, en que nunca volverán a O Dragão."

terça-feira, 30 de julho de 2013

Martins, o Grande

"Meu caro Fernando Martins:
Não sei se muita gente se lembra, eu lembro-me: discutia-se o seu primeiro Relatório e Contas e por entre os ataques que a oposição, assanhada, lhe fazia, voaram cadeiras pelo ar. Apresentou a demissão e começou a ficar lívido. Saltou da plateia um médico a assisti-lo, soube-se que era um principio de ataque cardíaco. (Não, não me esqueço de que, na semana seguinte, voltou dizendo que afinal não se demitia e reforçava o trunfo da manga: era Eriksson para o lugar de Baroti que Queimado lhe impusera - e com Eroksson tudo mudou...)
Não sei se muita gente de lembra, eu lembro-me: a final da Taça de 1983 marcou-se para as Antas e ao saber-se que o adversário do Benfica era o FC Porto abriram-se movimentações para a devolver ao Jamor. Pinto da Costa, a coberto do remoque:
- Lisboa não pode colonizar o resto do país...
Aprovou em AG que ou jogaria lá ou não jogaria. Adiada ficou a final sine die, os seus jogadores foram de férias. (Não, não me esqueço de que, por via do seu jogo de cintura, convenceu-os a darem saltinho da praia ao estádio onde com golo de Carlos Manuel o Benfica venceu e você revelou ainda mais o seu carácter:
- Foi para evitar que o FC Porto pudesse cair na II Divisão, que decidi que viéssemos às Antas. É que nós precisamos deles para mostrar que somos os melhores, nunca se esqueçam...)
Sim, era assim: mais do que o presidente que lançou a lógica do clube-empresa, que fez do Benfica tão imenso como já fora, o presidente que mais ataques sofreu dos seus pares em bastidores e AG - foi o presidente que nunca precisou de ir pelo terrorismo para ganhar ao destino o futuro. (E não, não me esqueço de, em mandato de João Santos, lhe retirarem o camarote vitalício que lhe tinham dado no Terceiro Anel. Foi uma tropelia, você sentiu-a com mágoa, com a mesma mágoa que sentira ao perder as eleições, mas essa mágoa nunca foi rancor, eu sei - e é isso que faz a diferença entre os homens grandes e os outros...)"

António Simões, in A Bola

Os árbitros e a questão essencial

"Os árbitros portugueses poderiam escrever um novo livro do desassossego. Falta-lhes, porém, em talento literário o que lhes sobeja em assunto. A única consolação é que os árbitros sabem que não é de hoje que haja gentes e poderes com uma mal disfarçada vontade de os controlar, de os manipular. A experiência do passado recente, com o famigerado apito dourado, foi traumatizante e os árbitros são os primeiros a sentirem que têm de se liberar dessa imagem de serventes de poderes obscuros.
Recentemente, a discussão sobre independências, influências, maledicências e interferências agudizou-se e os árbitros voltaram a estar próximos de uma revolta. A Bola foi acompanhando clamores e estados de espírito e foi sabendo das razões dos árbitros insatisfeitos. Demos, também, a versão federativa e, aí, não foi menos espantoso verificar que há uma ideia institucionalizada na FPF de que o novo modelo de classificações foi pensado e programado para que os árbitros não regressem a vícios antigos de lobis e compadrios, dando vantagens a quem as não merece.
Fica por salvaguardar o essencial. As últimas classificações tiveram como resultado algumas aberrações indefensáveis e se a FPF se obriga a defender critérios inatacáveis e acima de qualquer vício tem de começar por assumir os erros anteriores, perceber as suas origens e dar garantias de que esses erros não se repetirão.
PS - Por falar em árbitros. Como foi possível que Hugo Pacheco, o árbitro do recente FC Porto - Celta, não tenha expulso Kelvin? Procurou proteger o jogador? E não perceberá que essa atitude só pode prejudicar um jovem com talento mas com preocupantes comportamentos de risco?"

Vítor Serpa, in A Bola

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Luz sobre roubo de computadores?

"SOS: transparência na arbitragem no futebol. Nela, e em seu redor, transparentes... só ganas de meio mundo, querendo controlá-la (amiúde com êxito), e de outro meio mundo, pretendendo virar do avesso o desfecho dessa tremenda luta pelo poder - por quase todos os dirigentes de clubes considerada... decisiva! Pelo meio, os árbitros...; alguns não vítimas de tal refrega, sim procurando subir na carreira sob impulso da mais forte maré, ou, pelo menos, tendo o cuidado de não a contrariarem...
A BOLA tem dado tónica à revolta dos árbitros, sob liderança dos internacionais, contra o CA, por causa de novas regras de classificação. Ontem, projectámos o contraste; explicações sobre o novo caminho traçado pelo  CA da FPF: visará bloquear o cozinhado de influências (exemplo de topo: escolha de observadores para determinados árbitros, em função de acesso a como vão estando classificações...), prática apontada em acórdão do Apito Dourado... Dá que pensar... Até porque a surpresa de novas regras colocou vários árbitros internacionais em medíocres posições. Será que se faz luz sobre o assalto no edifício da FPF unicamente para roubar os computadores de Fernando Gomes e de Vítor Pereira?"

Santos Neves, in A Bola

A minha primeira visita aos gloriosos troféus

"Na semana de 15 a 19 de Janeiro de 1979 fui um benfiquista em apuros. Queria um bilhete para assistir ao jogo, na Saudosa Catedral, referente à 17.ª jornada (segunda na segunda volta) do campeonato nacional a realizar no domingo, 21 de Janeiro, frente ao FC Porto e a lotação estava esgotada. Alguém que sabia do assunto disse-me que já só havia bilhetes de sócio. Mas para ter acesso a esses bilhetes tinha de ser associado do Clube. Na sexta-feira, em 19 de Janeiro de 1979 tomei uma resolução que seria para toda a vida. Inscrever-me como associado do "Glorioso". Como não conhecia nenhum associado dirigi-me à Secretaria, onde no último andar um empregado (também sócio do Clube) fez o favor de ser o meu sócio proponente. Inscrevi-me como associado do Benfica, comprei o "rectângulo mágico" para domingo que tinha inscrito "Dia do Clube" e recebi um conselho do meu desconhecido "sócio proponente" do tipo (cito de memória), «Não quer visitar a sala de troféus? Fica no piso de baixo!» Assim fiz. Dirigi-me a um empregado que estava no salão dos bilhares e ele encaminhou-me para uma porta ao fundo que dava acesso a uma outra porta que se abriu. Quando ligou a luz fiquei esmagado e orgulhoso. É uma imagem que nunca mais esqueci, já lá vão mais de 34 anos! Arrepiante! A luz, qual sol, iluminou um mar prateado de taças e troféus infindáveis. Ondas e ondas de troféus, quais vagas de mar encapelado, sobrepostos em anfiteatro encarnado, cintilavam perante o brilho da luz ensolarada.
No chão, o cinzento fazia realçar o pano vermelho onde brilhavam os troféus prateados e dourados. Senti-me um príncipe num harém. Estava incrédulo perante uma grandeza avassaladora. E ao mesmo tempo orgulhoso em pertencer como associado, ainda que há um par de minutos, a um clube que tinha tamanha grandeza, que eu, benfiquista desde pequeno e desde a Figueira da Foz, nem sonhava ser tão gigantesca. Ao mesmo tempo, começaram-me a "tremer as pernas". Na minha ingenuidade dos 18 anos, feitos há pouco tempo, pensei: "Se agora sou sócio do Benfica, como é que vou assegurar ou contribuir, com a minha quota-parte para manter esta grandeza! Que responsabilidade!"
O guia (que mais tarde, quando comecei a interessar-me pela história do Clube soube ser Álvaro Curado) talvez vendo-me tão atrapalhado (certamente, de boca aberta e olhos arregalados de espanto) para "complicar a minha vida" disse-me (cito de memória): «Veja como o apego dos sócios ao clube e o empenho dos atletas têm conseguido trazer tamanha glória. Estão aqui as nossas relíquias.» Percebi rapidamente! O Benfica era o Benfica! De clubes só conhecia (por dentro) o GD Graça, clube do bairro onde vivia! Ser sócio do Benfica era muito mais que "conseguir com mais facilidade" um lugar na bancada do estádio da Luz ou comprar bilhetes mais baratos para "ir à bola"! O Benfica era "Glorioso"!
(...)"

Nada nem ninguém acima do Benfica!

"Fernando Martins nasceu a 25 de Janeiro. Não terá sido por acaso que Eusébio da Silva Ferreira escolheu esse mesmo dia para vir ao mundo...

Denis Diderot, filósofo francês do século XVIII, escreveu um dia que «a imortalidade é uma espécie de vida que nós adquirimos na memória dos homens.» Assim sendo, é na memória dos homens que perdurarão figura e obra de Fernando Martins, ontem desaparecido, aos 96 anos. Homem simples, que subiu na vida a pulso, teve o Benfica por paixão e no clube da Luz deixou marca indelével. Foi presidente do Benfica num tempo em que engenharia financeira não tinha virado moda e soube administrar o clube sem gastar o que não tinha. É possível encontrar paralelismo entre Joaquim Bogalho e Fernando Martins (e estamos a falar de dois dos mais importantes presidentes do Benfica!). Ambos com forte sentido de património; um e outro de contas ao tostão; cada um deles apologista da disciplina e da ordem; ninguém podia estar acima do Benfica.
Quis o destino que me cruzasse com Fernando Martins, que até no último dia tratei por «presidente».
Em 1982, jogava eu no Portimonense e era Fernando Martins presidente do Benfica, este convidou-me a transferir-me para a Luz «por sugestão de Lajos Baroti». Acertámos agulhas (naquela negociação e nas duas renovações que se seguiram) aprendi a respeitar um homem que tendo uma imagem exterior de alguma dureza, era capaz de manter a porta aberta para resolver os problemas de quem o procurava.
Depois, Fernando Martins tinha uma vertente supersticiosa muito marcada, basta dizer que para os jogos, de verão ou inverno, levava sempre o mesmo fato creme; e antes da equipa subir ao relvado, na cabina, normalmente depois do treinador das as derradeiras instruções, Fernando Martins lá vinha avisar que estivéssemos preparados «porque todos querem ganhar ao Benfica. Ninguém dá um pontapé num cão morto. E se nos querem dar pontapés é porque sabem que mordemos.» Era esse o momento em que, invariavelmente Carlos Manuel perguntava, «então presidente, não se esqueceu de nada?» E Fernando Martins lá dizia, «ok, o prémio hoje é a dobrar.» Até nisso Fernando Martins andou à frente do seu tempo. Conseguiu, durante o seu consulado, implementar uma política de salários baixos (quando comparados com Sporting e FC Porto) e prémios altíssimos. Que funcionou ou não tivesse conquistado três campeonatos, duas Taças e levado o Benfica, 15 anos depois de Wembley, a uma final europeia. E fechou o terceiro anel, obra ciclópica que dotou o estádio da Luz de 120 mil lugares. A seguir, a vulgarização da TV (e o Euro 2004) acabou por justificar um estádio menor.
PS1 - Fernando Martins nasceu a 25 de Janeiro. Não terá sido por acaso que Eusébio escolheu esse mesmo dia para vir ao mundo...
PS2 - À família, em especial ao engenheiro Raul Martins, um abraço amigo.

MUSEU COSME DAMIÃO
Há, muito que Luís Filipe Vieira fala com paixão do Museu do clube que abrirá portas ao público na próxima quinta-feira. É natural que os benfiquistas olhem para esta obra com orgulho e dela queiram desfrutar. Mas não é menos verdade que Lisboa acabou de ser dotada com um espaço de referência que entrará de imediato nos 'tours' turísticos da capital. E não me enganarei se afirmar que no 'Cosme Damião' vão ser batidos todos os recordes de afluência a museus em Portugal. E quem sair daquele espaço, benfiquista ou não, não deixará de admirar a excelência arquitectónica e a modernidade museológica.

Quase seis meses: e a polícia não descobre nada?
«Informaram de que tinham sido furtados os computadores do presidente da FPF e da secretária, mas houve furto de um terceiro portátil, do presidente do Conselho de Arbitragem»
Fonte policial, Lusa
Em Fevereiro passado, um ladrão entrou na FPF, cortou-se e deixou sangue e impressões digitais espalhados e o rosto foi captado pelas câmaras de videovigilância. Furtou os computadores de Fernando Gomes e da sectária e ainda de Vítor Pereira. Para quê? Mistério. E mais misterioso é que se tenha evaporado. Com tantos indícios e as autoridades policiais nada apuram?

(...)"

José Manuel Delgado, in A Bola

Pobre Taça de Honra

"1. Recomeçou mal a Taça de Honra. Primeiro, com a falsificação da sua história (espero que a nossa Direcção já tenha tomado posição perante a AFL...). Depois, com o menosprezo a que foi votada pelos dois principais clubes lisboetas, que apresentaram autênticas equipas B (ou C). Finalmente, e no que nos toca, pela muito triste presença. No jogo com o Sporting, faltou-nos, acima de tudo, atitude perante uma equipa jovem que se entregou à luta e acabou por ganhar bem, mesmo entrando praticamente a perder. A competição é secundária, mas o Benfica tinha obrigação de ganhar e muito pouco fez por isso. Houve demasiada passividade, de toda a gente. Não gostei nada...

2. Volto ao tema. A lista de vencedores da Taça de Honra que a AFL divulgou (e aparece em todos os jornais e repetida nas rádios e TV's) é uma autêntica aldrabice. Esta foi apenas a 37.ª edição (e não a 65.ª), o Benfica tem 18 vitórias (e não 19), o Sporting conseguiu agora a 12.ª (e não a 30.ª!), o Belenenses tem seis (e não 12) e o Império uma. O Benfica não pode cruzar os braços e se dependesse de mim não participaria em mais nenhuma edição se não fosse reposta a verdade. Ganhar o antigo Campeonato de Lisboa e, nos anos em que não houve Taça de Honra, ser-lhe atribuído também (automaticamente) este troféu não tem pés nem cabeça. Entre 1960 e 1994, quando a competição se realizou, nunca estas contas foram feitas assim. Basta consultar os jornais da época.

3. Quando os leitores estiverem a ler este número do nosso Jornal, já se terá provavelmente consumado a saída de Cardozo. Tenho pena, embora saiba que, com 30 anos, provavelmente não seria possível novo negócio como este daqui para a frente. Só espero é que não venhamos a sentir saudades dos seus golos. Quanto à sua atitude no final da Taça de Portugal, claro que a lamento e critico.
Embora pense que uma multa exemplar teria resolvido a questão. Numa altura daquelas, até se pode admitir que, face a mais uma derrota tão inesperada quanto dolorosa, um jogador perca a cabeça. Não deveria acontecer, mas acontece. Como aconteceu uma 'cabeça perdida' castigada com dois amarelos em poucos minutos, a qual nos terá feito perder o Campeonato do ano passado. E até uma cabeça perdida no sábado passado, com vermelho directo, que só não foi tão grave porque a Taça de Honra não tem (nem pouco mais ou menos) a importância de um título nacional. Obrigado Cardozo, pelo muitos golos que marcaste!"

Arons de Carvalho, in O Benfica

Desonra

"No baú das muitas memórias que o Futebol já me vai deixando, tinha da Taça de Honra da AFL uma ideia longínqua, de quando, ainda criança, vivia cada jogo como se fosse o único, e cada dérbi como se fosse o último.
Lembro-me da alegria proporcionada por uma vitória nos penáltis sobre o Sporting (1978?, 1979?), a que correspondeu um desses troféus. Aconteceu numa pré-temporada, quando as saudades do Futebol mais apertavam. Jogavam Bento, Humberto, Shéu, Chalana e Nené. Foram tempos que me ajudaram a crescer, e me ensinaram a ser benfiquista.
Com o passar dos anos, entre dificuldades de calendarização, e rotatividades de plantel, a Taça de Honra foi perdendo importância e interesse, definhando progressivamente até à morte. A ideia de a recuperar pareceu-me excelente. Adoro (vencer) o Campeonato, mas também a Taça de Portugal, a Taça da Liga e até a Supertaça. para quem o Futebol significa festa, quando mais competições se disputarem, melhor. E gosto de comemorar todas elas, independentemente da importância relativa de cada uma.
Com transmissão televisiva em canal aberto, em estação pública e horário nobre, sem outros jogos a atrapalhar, esperava, no passado Sábado, um Dérbi mais ou menos oficial, que definisse, mais ou menos, um Campeão de Lisboa. Nada disso aconteceu.
A verdade é que esta Taça de Honra foi um fiasco absoluto, e envergonhou aqueles que, ingenuamente, nela depositavam alguma expectativa. Não fui ao Estoril porque não pude, e só depois me apercebi do logro em que poderia ter embarcado. Talvez a AFL não merecesse muito mais. Mas também me custa a entender porque jogámos com todos os titulares frente ao Etoile Carouge, e nos expusemos, entre suplentes e Juniores, a uma desnecessária derrota perante o Sporting - na qual, francamente, já custo a distinguir a equipa B da equipa A.
Gostava de reviver as tais Taças de Honra do passado. Mas, a ser assim, bem pode a prova regressar lá para 2033, que não lhe sentirei a falta."

Luís Fialho, in O Benfica

Jornalistas para a esplanada

"No dia 21 de Setembro de 1985, o Benfica defrontou o Dínamo de Bucareste num jogo particular que assinalou a inauguração do fecho do 3.º Anel do Estádio da Luz. Acho que foi o dia mais feliz da intensa vida do benfiquista Fernando Martins, um homem de empreendimentos e obras acabadas, que lutou imenso para impor e concluir esse projecto de grandiosidade, mais tarde imortalizado nos anais da FIFA, com a enchente da final do Mundial de Sub-20 de 1991.
Ao tomar conhecimento do óbito do último grande presidente do Benfica não podia deixar de me lembrar das suas complicadas relações com a imprensa, com este jornal em particular. Lembrei-me da célebre esplanada para onde íamos desterrados, os insubmissos, e desse traço de carácter de líder centralizador e atento que assinava pelo próprio punho as credenciais de imprensa.
Não se pense, porém, que o homem, o mestre de cerimónias, o anfitrião por excelência, o relações públicas exemplar, talvez o maior hoteleiro português do século passado, violava os seus princípios de promotor de encontros e relações cordiais, por não gostar do que lia na imprensa.
Nunca tive uma discussão com ele e nem me posso queixar de que me tenha mandado perseguir, insultar ou mal informar. Pelo contrário, só recordo momentos de cordialidade e respeito, alguns de muito boa disposição, como alguns célebres jantares dos presidentes em Zurique, antes dos sorteios da UEFA, ou aquela expedição à América do Sul para contratar Careca e Menotti, quando em pleno lobby do Copacabana Palace nos explicava como escondia os dólares enrolados num saco de plástico por dentro dos calções de banho para iludir os assaltos no calçadão.
Muitos outros tentaram e continuarão a tentar condicionar o trabalho dos jornalistas. Nunca me queixarei disso, pois considero-o um osso do ofício, fruto de uma cultura e de uma educação marcadas pela ausência de liberdade, e habituei-me a enfrentar essas contrariedades com a mesma bonomia e boa disposição com que há 25 anos íamos ver os jogos na esplanada do Estádio da Luz, sujeitos à pressão dos adeptos.
Nem nessa ocasião extrema, Fernando Martins cortou as pontes para o entendimento, que surgiria mais tarde, tal como aconteceu com os presidentes do FC Porto e do Sporting, como nenhum outro conseguiu nestas três décadas. Por isso, só se pode dizer que perdemos um grande homem, um grande industrial, um referencial para o dirigismo desportivo dos nossos dias."