Últimas indefectivações

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Mal perdido...

Benfica B 1- 2 Leixões
Parks


A jogar contra 10 desde os 25 minutos (mal expulso, era uma falta para Amarelo), exigia-se mais!!! Mas mais uma vez, fomos 'comidos' no contra-ataque, como tem acontecido regularmente no Seixal!!! Nos jogos fora, onde metemos o 'autocarro' até tempos pontuado, mas nestes jogos, temos demonstrado uma enorme ingenuidade na forma como não conseguimos travar os contra-ataques dos adversários!!!

Uma nota para o absurdo anti-jogo do Leixões! A nojice começou cedo... mas depois do 1-2, tivemos momentos patéticos... A 'cultura' da manhosice do Tugão é das coisas mais asquerosas do desporto em Portugal.

'Burning'

"1. Se pudéssemos estabelecer dois extremos para o futebol, num deles estaria a bicicleta de Ronaldo (aplaudida pelos rivais) e no outro estaria Bruno de Carvalho (assobiado pelos seus).
2. Há qualquer coisa de inexplicável num homem que tinha tudo para ser o último Jedi e acaba por revelar-se o Darth Vader, sobretudo a partir do momento em que entra em guerra com as estrelas. Só faltou um grito à Chewbacca no momento da crise lombar que o obrigou a abandonar o campo com um andar à C-3PO.
3. Bruno de Carvalho é aquele tipo que vai na autoestrada em contramão e que ignora e insulta todos aqueles que lhe apitam e fazem sinais de luzes, acelerando cada vez mais. No meio da tantas batalhas, a maior é consigo próprio. E, com um sem burnout, o Sporting está burning. Talvez já não possa salvar-se o presidente, mas há que chamar o Dr. House e tentar salvar o homem.
4. O seu adeus ao Facebook (pode sempre pedir a password a Nuno Saraiva) é o segundo grande rombo nesta rede social, depois do escândalo da violação de dados de milhões de utilizadores. Twitter e Instagram já esfregam as mãos, mas Bruno de Carvalho pode sempre considerar a hipótese de ser presidente do Sporting, agora que tem tempo. Resta saber se vai a tempo.
5. Ver Bruno de Carvalho sair do clube em definitivo pelo próprio pé? Tão possível como meter uma pedra numa gaiola e espera que ela cante. Tentar não custa.
6. Nos tempos que correm, é o cúmulo do azar o que aconteceu a Luís Filipe: sem qualquer minuto na Liga pelo V. Setúbal, o ex-jogador do Benfica entrou em campo aos 88 e pouco depois dez o penalty que deu a vitória às águias. Pior, só cair de costas e partir o nariz.
7. É evidente que a queda de Salvio na área do V. Setúbal está ao nível da interpretação de Dustin Hoffman em Rain Man, mas, com ou sem queda, é penalty. Porque para ser falta (para mais na área, onde não há lei da vantagem) não é preciso um jogador cair com estrondo e apresentar fracturas expostas."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

Como Bruno perdeu o Sporting

"Estúpido psicodrama causado em altura decisiva da época revelou presidente sem discernimento nem maturidade; urge clarificação: paz podre não leva a lado nenhum

Este último psicodrama criado por Bruno de Carvalho com posts sucessivos no Facebook (continuo sem perceber o objectivo) teve contornos tão invulgares, tão estúpidos e tão constrangedores para a imagem pública do clube que a reacção dos sportinguistas no estádio (e não só) não podia ser outra. Eles disseram que estão saturados de confusões e de tiros no pé e que Bruno nem é dono da razão nem é dono do Sporting. E também sublinharam uma verdade universal: os adeptos gostam é do clube, independentemente de quem o preside (como se chamava o presidente do Sporting dos fabulosos cinco violinos? Pois...). «O que interessa é o Sporting ganhar, não interessa quem é o presidente!», disse na SIC Notícias um jovem adepto à saída do estádio. Irritado, dorido e não disfarçando a perplexidade, BdC referiu no final do plebiscito falhado que «a ingratidão faz parte da cultura do Sporting» e que não admitia ser insultado pelos adeptos - logo ele que passa a vida a destratar toda a gente utilizando uma linguagem desbragada e rasteira. E de repente Bruno acordou do burnout (stress intenso) para uma realidade que ele desconhecia. Jogadores, treinador, team manager, presidente da AG e do CF de um lado e ele do outro, a esbracejar. Aparentemente isolado. E a única voz autorizada do Sporting ainda teve de ouvir gente que gosta dele e que o apoiou a dizer publicamente que a situação é insustentável e que o seu tempo chegou ao fim.
Não faço ideia de que maneira vai o Sporting resolver o problema que tem nas mãos. Urge uma clarificação rápida porque situações de paz podre não levam a lado nenhum. Parece-me que BdC, pela falta de discernimento e maturidade que mostrou, está irremediavelmente perdido. Mas não o estou a ver sair pelo seu pé ou sem dar luta. Não sei que alternativas reais - repito: reais - estão na mesa e de que forma estão a ser cozinhadas. Acredito é que o Sporting, a curto prazo, precisa de um líder maduro e responsável, imune a estados de alma e crises de confiança, mais própria de adolescentes... e que não passe a vida a postar no Facebook e a falar do Sporting obsessivamente na primeira pessoa do singular. Um homem capaz de continuar a defender intransigentemente os interesses do clube perante terceiros (nisso Bruno nunca falhou), mas também capaz de ouvir e valorizar outras opiniões - o mal dos yes man é que não são capazes de dizer aquilo que o líder não gosta de ouvir. O Sporting cresceu muito nos últimos anos e Bruno de Carvalho tem méritos absolutamente inquestionáveis nesse crescimento. Foi com ele que o Sporting recuperou competitividade, capacidade de mobilizar os adeptos a alimentar sonhos dignos de um clube grande. Foi com ele que o Sporting deixou de ser o parceiro obnóxio da santíssima trindade (a quem FCP e SLA passavam a perna com toda a facilidade) e, convém recordar, foi Bruno o primeiro a denunciar publicamente as práticas questionáveis do Benfica. Mas Bruno não soube, não quis, ou não conseguiu evoluir para a etapa seguinte. Deu cabo de tudo o que fez de uma maneira quase infantil. Não conseguiu perceber que o período guerrilheiro - se calhar inevitável numa primeira fase mais virada para a afirmação pessoal a reboque da notoriedade de clube (foi exactamente assim com Pinto da Costa no FCP e com Vieira no SLB) não se podia prolongar indefinidamente. Há um tempo para tudo.
Ao fim de cinco anos julgo que até os adeptos mais brunistas reconhecem que o Sporting não pode ficar reduzido a isto - uma instituição em guerra permanente com tudo e todos, liderada por um presidente com uma incapacidade de contenção patológica e uma vertigem autofágica ainda mais vincada que a do próprio clube, famoso por dar tiros no pé nas alturas menos apropriadas. O Sporting não pode alimentar folhetins e psicodramas todos os meses nem condicionar a sua existência - e as suas aspirações - às variações de humor e teimosias de um presidente impulsivo, emocional e irreflectido. O Sporting precisa de tranquilidade para continuar a crescer e sedimentar cultura de vitória. Tem de sair rapidamente desta espiral autodestrutiva sob pena de hipotecar tudo aquilo que conseguiu recuperar nos últimos anos - e não foi pouco. Em resumo, o Sporting precisa de um homem capaz de fazer o que os verdadeiros líderes fazem: unir, congregar, cimentar, solidificar.
Para dividir, perturbar, envenenar e fracturar existem os adversários. E os inimigos.
Há uma coisa que um líder nunca pode perder: o respeito dos comandados. Quando o perde nunca mais volta ser olhado da mesma maneira - nem a sua autoridade. Bruno de Carvalho foi muito importante numa altura crucial da vida do clube. Fez um grande trabalho de reconstrução e tem lugar garantido na história do Sporting. Mas o seu prazo de validade chegou ao fim, como sensatamente reconheceu Jaime Marta Soares, presidente da AG do Sporting.
(...)"

André Pipa, in A Bola

PS: Existem aquelas situações, onde acabamos por ter pena dos 'desgraçados', dos 'derrotados' mas com os Lagartos isso é impossível!!! Merecem tudo o que lhes vai acontecer...!!!
Como é que é possível um supostamente jornalista independentemente como o Pipa, depois de tudo o que se tem passado, ainda ter 'tempo' para elogiar o Babalu?!!!!
Reconstruíu o Sporting?!!! Recuperou a fé dos adeptos?!!! A sério?!!!
E já agora, enfia no teu traseiro, 'as práticas questionáveis do Benfica'!!! Inacreditável, como a enxurrada de mentiras, manipulações, difamações, calúnias... continua a ser usada por esta gentalha!!!

Sabe quem é: Pé partido e algo mais - Francisco Ferreira

"Pediu 700 escudos, dirigente do FC Porto tratou-o como «malandro»; do «jogo das metralhadoras» ao Benfica

1. Nasceu em Guimarães, em Agosto de 1919. O pai era guarda do campo do FC Porto - e morreu quando ele tinha cinco anos. A mãe tendo de ficar por Infesta na labuta da vida, entregou-o aos avós para o criarem - e, em Guimarães, num campo que se improvisava na Feira do Gado se lhe descobriu um dom no pé esquerdo.
2. Aos 11 anos foi ao reencontro da mãe e logo se lançou à aventura até à Constituição: para lá foi a é de Infesta - pediu para fazer um teste, meia hora depois estavam a tratar de lhe dar a papelada para ser jogador do FC Porto.
3. No desastroso Campeonato da Liga de 1936/37, fez um jogo apenas na primeira equipa, a substituir Nova que adoecera. Encantado com ele, François Gutskas não o tirou mais, no Campeonato de Portugal que ganhou ao Sporting a grande figura foi ele.
4. Já na época de 1937/38, contra o Benfica, saiu das Amoreiras, de pé partido: «O Rogério de Sousa sempre jurou que não tinha feito de propósito, mas nunca acreditei. Que não quisesse partir-me o pé, vá que não vá, mas que me pretendeu segurar à má fila, embora a coisa tenha saído pior do que pensara, nunca me restaram dúvidas».
5. Voltou à liça quando descalabro atingiu o FC Porto - e perdeu 6-1 com o Sporting. 15 dias depois foi o jogo das metralhadoras, assim chamado porque «para acalmar as hostes a polícia andou pelo Lima a mostrar armas, ameaçadora». Para ser campeão, o FC Porto tinha de ganhar, ao Benfica bastava empatar. Ficou 2-2 - «com os jogadores em violências também, como se estivessem numa guerra, mas sem as metralhadoras na mão».
6. FC Porto protestou o jogo, o Benfica reagiu com azedume num ofício em que o jogador mais visado foi ele - por causa dos despiques em que andou metido, ele próprio haveria de o revelar: «A certa altura disse-me, o Rogério: 'Tu és feito de cimento das Devesas, pá' Não sei porquê, aferrou-se-me no espírito a ideia de que me estava a dizer com ironia, que eu era um «anjinho» e não resisti: não lhe parti o pé, não lhe parti coisa nenhuma, mas dei-lhe e, claro, a partir daí foi tudo fogo - e não só entre nós os dois...»
7. Nessa época de 37/38, o Benfica ainda foi ao Porto para o Campeonato de Portugal - e perdeu por 4-2. Após «meia hora de jogo limpo», o cenário incendiou-se de novo - com quatro jogadores expulsos: Rogério de Sousa por pontapé a Pinga, Costuras por agredir Albino e António Santos e o Gaspar Pinto por se «embrenharem ambos em mais uma escaramuça». Dessa não se pôs em confusão, nem depois na segunda mão que o Benfica ganhou 7-0 com «violências em campo e polícia a rodos» - outra vez.
8. Como no FC Porto havia quem recebesse 1500 escudos por mês, foi à sede solicitar «ordenadinho como os demais» - que nada recebia, a não ser os prémios por vitória e empate, nunca mais de 80 escudos no melhor caso. Hesitante, murmurou: «700 escudos já me chegava». Quem o ouviu, deu-lhe, ríspido, a alternativa: «O senhor ou assina a ficha já ou põe-se na rua, não queremos malandros cá dentro a pedirem-nos dinheiro». Por isso, nem sequer lhe juntou a outra parte do pedido que levara congeminado: «10 mil escudos pela assinatura e, logo que se pudesse, um emprego melhor do que o que tenho, de cortador».
9. Descobrindo o que se passara com ele, Ilídio Nogueira foi desafiã-lo para as Amoreiras, largando-lhe, firme, a promessa: «Tudo o que pediste, terás no Benfica». Acordou a mudança, Nogueira mandou-o de «férias» para uma quinta de Valadares. Quatro dias depois, levaram-no de lá para Lisboa...
10. Em Lisboa apareceu-lhe sorrateiro Sebastião Ferreira Mendes a garantir-lhe: «Se voltares comigo para o Porto receberás imediatamente 25 contos, terá emprego nas minhas fábricas, enquanto jogares não precisarás de trabalhar, garantidos terás 1000 escudos todos os meses ou mais até» - e a sua reposta foi: «Apesar de não ter ainda compromisso assinado com o Benfica, dei-lhes a minha palavra de honra, seria capaz de abandoná-la».
11. No Benfica ganhou 6 Taças e 4 campeonatos - e era o seu capitão quando o Torino veio a Lisboa à sua festa de despedida. E, no regresso, o avião que levava a equipa desfez-se contra a catedral de Superga."

António Simões, in A Bola

Sporting Clube de Problemas

"O Sporting está à procura de encontrar a melhor via para superar a crise aguda para onde se vi atirado. Há várias possibilidades em cima da mesa neste momento tão delicado. Entre  os brunistas, a doutrina divide-se entre quem acha que Bruno de Carvalho deve afastar-se momentaneamente por razões de saúde e os que entendem que o presidente deixou de ter condições, devendo ser ele próprio a pedir a demissão, abrindo espaço, eventualmente, a Carlos Vieira, para prosseguir o mandato. Continua a ser uma incógnita a posição do próprio Bruno, que, no último post no Facebook garantiu que ia convocar uma assembleia geral (AG) para ser reconfirmado no lugar. Tomando por bom o diagnóstico de burnout enunciado por Eduardo Barroso na RTP1, de quanto tempo precisará Bruno de Carvalho para recuperar e qual a percepção que sócios e adeptos dele passarão a ter?
E Jaime Marta Soares, presidente da Mesa da Assembleia Geral (AG)? Mantém a disposição de convocar uma reunião magna para destituir o presidente e abrir caminho a eleições?
E há ainda a oposição, que quer eleições gerais tão depressa quanto possível, e que tem meios estatutários (como Bruno de Carvalho fez a Godinho em 2013) para desencadeá-las...
Para aumentar a tensão, na próxima SAD (e todas as matérias que provocaram a crise são do âmbito da SAD...) as posições accionistas do clube e da Holdimo também estão em rota de colisão, com o futuro económico (leia-se uma importante emissão obrigacionista) em stand-by.
Paradoxalmente, o único sector que vive em tranquilidade, ao dia de hoje, é o de Jorge Jesus, o balneário."

José Manuel Delgado, in A Bola

Pois, até parece que é novidade !!!

A repreensão

"A Comissão de Instrutores (CI) da Liga abriu um auto por flagrante delito a Soares, do FC Porto, e propôs uma repreensão por comportamento incorrecto. Não foram jogos de suspensão, não foi multa, foi uma repreensão. Um castigo previsto pelo Regulamento Disciplinar da Liga, mas que está longe de se enquadrar no espírito dos autos por flagrante delito, uma figura que veio ocupar o espaço dos antigos 'sumaríssimos': punir, com base em imagens de TV, lances graves que tenham escapado aos árbitros.
Ao intervir numa situação que acabou por considerar pouco ou nada grave, a CI pôs-se a jeito. Sem querer julgar a troca de mimos entre Soares e Yebda, a pergunta que fica é: quantos lances merecedores de repreensão, ou até de cartão amarelo, escapam aos julgamento dos árbitros na Liga ou na 2.ª Liga? E porque é que só este mereceu a atenção da CI?
Fica a ideia de que os órgãos decisores vão muitas vezes a reboque de posições divulgadas nos media, mesmo que isso implique ir a reboque dos próprios clubes. Neste caso contrato, a possibilidade de ter havido uma agressão de Soares a Yebda começou a ser atirada em programas de televisão. As contas eram fáceis de fazer: se fosse punido por esse motivo, seria certo que falharia o clássico de domingo. 
A CI debruçou-se sobre o assunto e acabou por dar seguimento a uma situação que, a própria admitiu, não tinha gravidade. A CI abriu um precedente com esta decisão e, agora, por uma questão de coerência, deverá intervir sempre que houver indícios de comportamento incorrecto de um jogador. Ia ser divertido."

Sem dinheiro não há glória

"Nos últimos dias, o Sporting tomou de assalto o espaço mediático. Pelas piores razões, ou melhor, devido à incontinência verbal e “facebookiana” do seu presidente, Bruno de Carvalho. Tudo começou quando o líder leonino resolveu desvalorizar os activos do clube, passando-lhes um ralhete público pouco ajuizado.

A partir daí os acontecimentos precipitaram-se, primeiro com a reacção dos jogadores, depois com anúncios de suspensões e processos disciplinares, que exponenciaram o erro inicial e alimentaram opiniões contraditórias no espaço público, pedidos de demissão do presidente, realização de uma assembleia-geral extraordinária e afins.
Até ontem, dominavam duas narrativas concomitantes. Uma sobre o vórtice egocêntrico que engoliu a racionalidade de Bruno de Carvalho, outra relativa à falta de tacto na gestão dos activos do clube, os jogadores. Até ontem, a questão jogava-se no domínio do futebolês, fertilizada pelas opiniões apaixonadas dos adeptos e as observações cínicas dos rivais. Sem esquecer, claro está, as suspensões das acções da SAD do clube, vistas como uma espécie de dano colateral. Até que ontem a SAD do Sporting enviou um revelador comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Nele, avisa que "as recentes tomadas de posição públicas por terceiros vêm prejudicar gravemente a concretização da nova oferta obrigacionista, no valor de 30 milhões de euros", um cenário que pode pôr em causa o "financiamento de operações de tesouraria" da sociedade.
Depois, alerta que uma reunião de accionistas da SAD ou de sócios do clube "para destituição dos seus órgãos sociais" ou "para eleição de novos órgãos sociais" pode inviabilizar o reembolso da actual emissão de dívida, cujo empréstimo obrigacionista foi emitido em 2015.
Ou seja, a SAD do Sporting, devido à instabilidade entretanto criada, não conseguirá captar investidores para refinanciar a sua dívida, uma situação que penalizará os obrigacionistas que investiram em 2015 e deviam agora ser reembolsados.
Duas notas.
1) A SAD atribui a responsabilidade a terceiros quando foi Bruno de Carvalho, também presidente da SAD, a desencadear uma crise que terá significativos impactos financeiros ;
2) O futuro do actual líder do Sporting está nas mãos dos accionistas, sobretudo da Holdimo, porque sem capital não haverá capacidade para lutar por títulos, sabendo-se que o apoio dos adeptos vagueia ao sabor dos resultados desportivos.
Como disse o humorista brasileiro Millôr Fernandes, "o dinheiro não dá felicidade, mas paga tudo o que ela gasta". Neste caso, a glória desportiva."

Eu bem avisei

"1. Vamos por as coisas claras: quem desencadeou toda a lamentável bagunça, que hoje trespassa o coração do Sporting, foi o seu presidente, ao permitir-se fazer, publicamente, uma apreciação personalizada do desempenho dos jogadores, na partida de Madrid. Marques Mendes fala em humilhação e eu concordo.
2. Os jogadores, ao verberarem - de forma não insultuosa, sublinhe-se - a atitude do presidente, ainda por cima reincidente, pois tinha feito o mesmo após o jogo com o Braga, não cometeram nenhum ilícito disciplinar, nem violaram o dever de respeito ou lealdade.
3. Devo dizer que me espanta a ligeireza com que o presidente comprou esta guerra: sempre defendi que ele era errático em termos estratégicos, mas muito clarividente em questões de poder. Até isso, agora, empanou.
4. Nunca ninguém ganhou um confronto, contra o colectivo dos jogadores: se bem atentarmos na história, foi apoiado nos jogadores suspensos por Américo de Sá, que, no Verão de 1980, Pinto da Costa chegou ao poder no Porto.
5. Há ainda três vertentes do discurso recente do presidente que verdadeiramente inquinam a sua credibilidade, a saber: a autocracia, a promiscuidade e o despropósito.
6. Autocracia, porque, quem o ouve ou lê, apenas se depara com o emprego obsessivo da primeira pessoa do singular, numa confusão apropriativa, ao arrepio dos estatutos do clube e da SAD.
7. Promiscuidade, porque, recorrentemente, mistura aspectos da sua vida pessoal com a do clube, numa sobreposição infeliz, que mais reforça a tese que, para o presidente, o Sporting é a projecção da sua pessoa e circunstância; há termos técnicos, para definir esta patologia.
8. Despropósito, porque com a emissão de um empréstimo obrigacionista à porta, para pagar o anterior e dar alguma folga de tesouraria, o que é uma crise institucional, pode transformar-se também, num cataclismo financeiro. Pior timing, é difícil.
9. Avisei várias vezes, que o presidente do Sporting não tinha dimensão ética e estabilidade emocional para desempenhar o cargo, o que me valeu muitas incompreensões; se calhar, tive razão antes de tempo.
10. Bruno de Carvalho, mesmo que não lhe apeteça, já está fora do Sporting, só não se sabe como e quando.
11. Perfilam-se duas alternativas: ou sai pelo seu pé, ou é destituído, sendo que neste último caso, ir-se-á assistir, inevitavelmente, a uma guerra fratricida, a uma brutal clivagem, com impacto deletério na solidez do clube, em todas as suas vertentes.
12. Se o presidente gosta tanto do Sporting como diz, deveria renunciar, mesmo com sacrifício dos seus rendimentos, só assim defende o clube e preserva o que lhe resta de dignidade. Caso contrário, arrisca-se a ficar na história como o primeiro presidente escorraçado, já que Jorge Gonçalves saiu, mas porque viu o seu mandato caducado, em 1989, por falta de quorum directivo.
13. Venha quem saiba unir e elevar."

Clubismo, tribalismo, nacionalismo: a mesma lógica

"O demagogo nacionalista e o seu congénere clubista são parecidos porque, tal como qualquer líder tribalista, eles são feitos do mesmo “molde” cognitivo.

coisas que parecem evidentes e não o são. Há coisas que são evidentes mesmo que se neguem as aparências. Durante séculos houve gente a olhar para o mapa de África e da América do Sul e a notar que as formas desses continentes encaixavam uma na outra. E durante séculos houve gente a negar, dizendo que era certamente por acaso. Afinal não era acaso. As formas de África e da América Latina encaixam porque, por assim dizer, saíram do mesmo molde.
Da mesma forma, salta à vista a semelhança entre a atitude de um Trump, por exemplo, e de um conhecido dirigente desportivo português (omitamos o nome do clube porque, para o argumento que nos interessa, isto poderia passar-se - e passa-se - em qualquer clube português ). Algumas pessoas dirão que aparências são aparências e que esta é certamente uma coincidência. Estão erradas. O demagogo nacionalista e o seu congénere clubista são parecidos porque, tal como qualquer líder tribalista, eles são feitos do mesmo “molde” cognitivo. O clubismo, o tribalismo e o nacionalismo — entendidos como perversão do amor ao clube, à tribo ou à pátria — têm a mesma lógica. Os demagogos de cada uma destas estirpes usam e abusam dos mesmos argumentos. Estes incluem a ideia de que a tribo (ou a nação) é uma “comunidade de história e de destino” com características especiais e separadas do resto, a insistência na noção de que o mundo exterior é insolidário, a obsessão com a necessidade de vingar o colectivo pelas humilhações e desrespeitos passados e a supremacia do interesse próprio.
Tomemos o exemplo da supremacia do interesse próprio. O tribalista diz estar exclusivamente empenhado no interesse dos seus porque, alega, isso é que é natural: cada família ou clã cuida dos que lhe são próximos. E claro que este é, sim, um sentimento natural. Mas mal estaríamos se a civilização fosse só feita de emoções pré-políticas. Claro que eu gosto mais da minha família do que da família do meu vizinho. Mas para o bem da minha família (e da civilização como um todo), tanto eu como o meu vizinho temos interesse em que ambas as famílias e as famílias de toda a gente sejam tratadas com a mesma civilidade, numa equidade social e política tão perfeita quanto possível. Se eu achar que a minha família tem de ganhar a todo o custo, o mais certo é fomentar essa atitude nos outros, e assim perdem todas as famílias. O tribalismo é o contrário daquilo a que poderíamos chamar sentimento republicano (o nacionalismo é o contrário da necessária emergência de um “sentimento republicano” à escala global).
O projecto do demagogo tribalista é sempre, ao contrário do que ele proclama, um projecto de poder individual feito às custas da entidade colectiva que ele diz abraçar. Em geral, isso só se entende quando — tal como com o líder nacionalista que leva o seu país para a guerra e acaba por arruiná-lo — o demagogo tribalista leva a um colapso da civilidade e, ao fazê-lo, acaba por prejudicar os interesses que alegava defender, matando assim a sua galinha dos ovos de ouro.
Quando se começa a perceber que o seu projecto de poder é individual e interesseiro, o demagogo tem dificuldade em aguentar-se no poder. Aí chega o momento da chantagem emocional: eu só fiz isto porque amo a tribo (ou o clube, ou a nação) mais do que tudo. Como o demagogo defende que não pode haver mal em amar a tribo acima de todas as coisas, a sua sugestão é que aqueles que estão contra ele não amam verdadeiramente a tribo. Os seus adversários são maus patriotas, ou maus adeptos. Provavelmente são até traidores a soldo dos inimigos. E assim se conseguem silenciar, pelo menos temporariamente, as vozes que alertam contra a deriva tribalista.
O mais curioso de tudo isto é que, tal como os argumentos nacionalistas se aplicam ao clubismo e ao tribalismo, também o nacionalismo não tem mais densidade do que o tribalismo ou o clubismo. A única coisa que tem é mais exércitos e, logo, mais capacidade de fazer mal. Mas não há nenhum argumento a favor do nacionalismo que não se consiga usar ipsis verbis para o clube ou a tribo, como para a raça ou a seita religiosa. O que é extraordinário é ter havido, ainda há pouco tempo, tanta gente a dar prestígio intelectual e apoio público a estas derivas."

Bruno de Carvalho e a democracia

"Hoje em dia é difícil perceber em que tipo de realidade vive Bruno de Carvalho. O presidente do Sporting parece uma criança que pinta uns sarrabiscos num papel e diz que está ali uma obra de arte. Mas também se assemelha ao soldado que marcha fora de tempo e consegue jurar que é ele o único que avança no ritmo certo, enquanto todo o restante batalhão segue desalinhado.
Bruno de Carvalho não começou agora a criar realidades alternativas, porque os primeiros sinais remontam ao processo ‘kafkiano’ de saída de Marco Silva, conduzido com o silêncio cúmplice de quase todos os elementos dos órgãos sociais do clube e o apoio unânime da Administração da SAD. Nessa altura, como agora, o líder leonino contou com o apoio espúrio de algumas figuras do Sporting. Os argumentos em defesa do presidente quase não diferem, mas desta vez há uma imensa maioria (apenas uma das claques prestou apoio ao líder leonino, no jogo com o Paços de Ferreira) que já não encontra justificação para o que aparenta ser “apenas” irresponsabilidade e egocentrismo. A Bruno de Carvalho parece faltar ainda, quase sempre, um espírito democrático que nunca pode deixar de estar no âmago de uma instituição desportiva com a dimensão e a história do Sporting Clube de Portugal. 
Os méritos de Bruno de Carvalho são conhecidos e já foram devidamente assinalados: a recuperação financeira do clube, a retoma competitiva da equipa de futebol, a construção do pavilhão e o inegável talento para escolher treinadores (Leonardo Jardim, Marco Silva e Jorge Jesus). No entanto, toda esta obra fica praticamente soterrada, tapada por uma torrente de publicações nas redes sociais e várias críticas e acusações públicas que feriram de morte o relacionamento do líder com o plantel profissional de futebol.
Bruno de Carvalho não tem apenas um problema de ego ou de comunicação, tem um problema grave com as opiniões divergentes. Só que a democracia não é moldável, não devendo ser elogiada quando permite vitórias indiscutíveis em eleições e em assembleias-gerais e desprezada e atacada quando os jogadores defendem a honra (depois de terem sido criticados na mesma medida e nos mesmos meios de difusão) ou quando os jornalistas fazem perguntas pertinentes e incómodas.
O presidente do Sporting castigou os jogadores com uma repreensão pública (mais uma de várias, é bom lembrar) depois de uma derrota no terreno do Atlético de Madrid, a meio de uma eliminatória e na altura mais crucial da temporada. E fê-lo à distância, porque não viajou para a capital espanhola, por motivos de saúde. Sentado no sofá, longe do calor da refrega, Bruno de Carvalho pegou no telemóvel e achou que aquela seria a forma certa de intervir. E aquilo que não se entende é a alegada surpresa pela reacção da opinião pública, de muitos adeptos (que viram os comentários negativos serem sistematicamente apagados das últimas publicações de Bruno de Carvalho nas redes sociais) e dos jogadores.
Como disse Jorge Jesus (que merece nota 20 pela forma brilhante como tem conseguido gerir as intervenções públicas ao longo desta crise), “quem faz crescer os clubes são os jogadores”. Quem fez crescer o Sporting, enquanto potência futebolística? Peyroteo, Travassos, Vasques, Albano, Jesus Correia, João Morais, Vítor Damas, Yazalde, Oceano, Figo, Nani, Cristiano Ronaldo e tantos outros. Mas também Rui Patrício e William Carvalho, dois crónicos titulares do Sporting e da Selecção Nacional que o presidente do clube de Alvalade atacou de forma pouco dissimulada numa das últimas publicações nas redes sociais.
O Sporting tem agora uma lista extensa de jogadores descontentes (e que provavelmente vão querer deixar o clube no final da temporada), um presidente fragilizado e sem rumo aparente, investidores e patrocinadores preocupados e um treinador que precisa de preparar uma etapa da época com decisões importantes e que vai fazê-lo num ambiente de “fogo e fúria”. A solução nunca será fácil, mas é difícil imaginar que Bruno de Carvalho possa não fazer já parte, apenas, do problema."

A negociação e a guerra no futebol nacional

"Houve outro erro na avaliação do poder e reacção de alguns "stakeholders", que, ainda mais após a reacção dos jogadores, de imediato os apoiaram contra o presidente.

O presidente do Sporting começou uma guerra contra a grande parte dos seus principais jogadores, que se presume que obviamente pretendia ganhar.
"Quem vai à guerra dá e leva", diz o provérbio popular. Se vamos usar a guerra como ferramenta de negociação para tentar obter certos objectivos, convém antes pensar o poder que temos e que objectivos queremos atingir, qual o poder e as possíveis reacções de quem iremos atacar, mas também qual o poder e as possíveis reacções de outros "stakeholders" que poderão influenciar o desfecho da guerra e como os deveremos tentar influenciar para que nos apoiem.
Ora neste caso, na minha perspectiva, quem começou a guerra tinha um elevado poder recentemente "ratificado" com uma estrondosa vitória numa assembleia-geral. Também tinha definido um objectivo que os jogadores jogassem melhor e cometessem menos erros. Mas esse objectivo não é fácil de se conseguir com uma humilhação pública dos jogadores, ou seja, havia um objectivo mas o modo de o alcançar não foi adequado.
Contudo, houve um erro na avaliação do poder e da possível reacção dos jogadores, que parece ter sido subestimado pelo presidente, pois aparentemente não esperaria que os jogadores se juntassem todos (ou quase todos) numa posição pública, forte, mas focada no bem maior, que é o bem do clube. 
Houve outro erro na avaliação do poder e reacção de alguns "stakeholders", que, ainda mais após a reacção dos jogadores, de imediato os apoiaram contra o presidente.
Um último erro negocial foi de aparentemente não ter um plano de contingência, caso começasse a perder a guerra, como por exemplo pedir desculpa e trabalhar com os jogadores e todos os outros colaboradores para, todos juntos, se focarem em obter o melhor para o Sporting. No momento em que escrevo, não se tornou visível nenhum plano de contingência, além de que cada vez mais adeptos, comentadores desportivos e membros de órgãos sociais estão a reagir contra o presidente. Este parece estar a perder a guerra que começou, na minha opinião, porque escolheu a forma errada de negociar. 
Espero que o futebol e todos os grandes clubes nacionais tenham estabilidade e trabalhem no sentido de valorizar o desporto-rei numa perspectiva de longo prazo, e que o Sporting, como grande clube nacional, encontre a estabilidade o mais depressa possível, sem que se comecem mais guerras que prejudiquem o clube e o futebol nacional."

O brunismo, essa doença infantil do futebolismo... e do jornalismo

"Acho em geral abominável a importância (e o dinheiro, designadamente público) que se dá aos clubes. Acho vários dos seus presidentes figuras assustadoras, comportando-se em público como uma espécie de coronéis do velho Brasil, tribais, acima da lei, no que me parece aliás que Bruno de Carvalho não é muito diferente, com a sua voz de tiranete da turma.

Como qualquer bom aspirante a intelectual da nossa terra, também eu penso duas ou três vezes antes de escrever sobre futebol. E este não é um texto contra ou a favor de Bruno de Carvalho, de quem apenas conheço a figura e algumas declarações públicas, designadamente as últimas. Não sou do Sporting e nem sequer grande apaixonado por futebol, apesar de gostar de ver bons jogos, que raramente ocorrem em Portugal.
Acho em geral abominável a importância (e o dinheiro, designadamente público) que se dá aos clubes. Acho vários dos seus presidentes figuras assustadoras, comportando-se em público como uma espécie de coronéis do velho Brasil, tribais, acima da lei, no que me parece aliás que Bruno de Carvalho não é muito diferente, com a sua voz de tiranete da turma.
Se porventura fossemos capazes de aplicar aos clubes de futebol e aos seus dirigentes um centésimo da exigência que gostamos de ver aplicada aos nossos partidos e aos nossos políticos, o resultado seria bem divertido.
Enfim, talvez seja ingénuo pensar que um dia o nosso futebol, a mais bem-sucedida, fulgurante e perene criação do Estado Novo, seja substituído, digamos, pelo corfebol, por exemplo, no nosso imaginário e na nossa prática. Até porque algo que inclui o mesmo número de homens e mulheres na equipa e onde não se pode tocar com pernas, pés ou punhos ou sequer correr com uma bola parece algo para ser praticado no sofá por adeptos - e não por jogadores em campo...
Disse que estas não eram palavras nem contra nem a favor de Bruno de Carvalho. Porque Bruno de Carvalho, como Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira, na verdade, não têm importância nenhuma.
Mas Bruno de Carvalho, como qualquer outra pessoa, mesmo estando a ser vaiado sem quartel pelos disparates que escreveu, fez e disse, merece pelo menos que alguém grite que um médico como Eduardo Barroso, que para mais se diz seu amigo, não deve afirmar aos jornais que Bruno está em burnout – que não é apenas um anglicismo chique, mas uma condição clínica séria e que exige tratamento. Tal como é inaceitável o que o Correio da Manhã TV fez, expondo imagens da sua mulher grávida, ao seu lado e à porta da maternidade, com um rodapé garrafal onde se lia “Mulher de Bruno de Carvalho apanhada a fumar pouco antes de ser mãe” ou algo muito parecido, facto com um interesse público notável.
Não faz mal a quem se queira intitular jornalista um pouco de vergonha. E faz bem a todos um pouco de decência. Mesmo falando-se de futebol."

Alvorada... com Peter War

Benfiquismo (DCCCIV)

Visão privilegiada...!!!

105x68... Decisões...

Bruno de Carvalho, o Sporting e o futuro

"O Sporting está numa situação muito complicada, de divisão interna, provocada pela mesma receita que ajudou a levantar o clube do estertor em que se encontrava quando Bruno de Carvalho lá chegou: a necessidade de aglutinação, que só podia ser conseguida através de uma estratégia populista e de apelo aos instintos mais básicos que existem no ser humano. Não vai ser fácil ao clube sair sem danos, nem é claro neste momento quem vai sair por cima. Certo é que haverá confronto e que, mais cedo ou mais tarde, ele era inevitável. E não, por muito que um dos lados queira transportar a questão para aí, não é um confronto entre os que gostam do Sporting e os que não gostam, entre o povo e os “croquetes”. É um confronto entre a emoção e a racionalidade.
Quer isto dizer que Bruno de Carvalho é um idiota que só faz uso da emoção para liderar? Não. Se acredita nisso, pode parar de ler já aqui. Da mesma forma que se acredita que ele é uma espécie de homem providencial também pode ir embora. Não é uma coisa nem outra. Sempre vi Bruno de Carvalho como um homem com um propósito. Concordei com muitos dos seus pontos de vista, da guerra aos fundos de investimento à luta pela institucionalização do vídeo-árbitro. Vi-lhe trabalho positivo na construção do pavilhão, na recuperação desportiva e financeira do clube, no aumento de competitividade do futebol e das outras modalidades, na capacidade de arregimentação de adeptos, que voltaram a encher os recintos onde as equipas jogam. Sucede que Bruno de Carvalho conseguiu tudo isto com uma estratégia demasiado arriscada, sempre no fio da navalha. Alguma vez havia de se espalhar ao comprido, que foi o que aconteceu quando, depois de abrir guerras ao Benfica, ao FC Porto, ao SC Braga, ao G15, à Liga, à FPF, aos árbitros, aos fundos de investimento e aos jornalistas – peço perdão se me esqueço de alguém –, levou a guerra para dentro do clube e atacou os jogadores. 
Não sei, obviamente, o que levou Bruno de Carvalho a escrever aquele primeiro post e, pior ainda, os que se seguiram. Se no primeiro quebrava a solidariedade institucional com um grupo que deve liderar, pondo-se fora de uma derrota ao apontar responsabilidades concretas e individuais a diversos jogadores, no segundo foi ainda mais longe, insultando-os e decretando de forma unilateral a sua suspensão – o que depois, ao não se concretizar, foi apenas ridículo. Mais graves ainda foram o post de domingo, publicado horas antes do jogo, com mais ataques aos jogadores, e os de segunda-feira: nestes, não só acusava um jogador – nunca concretizando qual, o que como se sabe é a estratégia mais normal num populista – de espalhar uma foto em que ele próprio está a ser assistido por causa da súbita dor de costas que o impediu de ir com o plantel agradecer o apoio das bancadas, como dizia o pior de Jaime Marta Soares, o presidente da Assembleia Geral que ele próprio escolheu. Se Marta Soares é tão mau que até foi corrido de Poiares, por que razão o escolheu para o cargo mais elevado do clube?
Vejo, à partida, três possibilidades nesta escalada do presidente do Sporting. Ou Bruno de Carvalho está a cavalgar esta onda de forma estratégica e aquilo que queria era criar condições para despedir o treinador com justa causa – se Jesus se recusasse a orientar os juniores contra o FC Paços de Ferreira, por exemplo, estaria desde logo despedido e teria de indemnizar o Sporting em sete milhões de euros, o valor do seu último ano de contrato – ou para vender os seus melhores jogadores no final da época, pondo os adeptos contra eles. Ou então está apenas a passar um período menos bom do ponto de vista emocional – o próprio disse na conferência de imprensa a que compareceu após o jogo com o FC Paços de Ferreira que anda “a lutar contra várias doenças”. Ou, por fim, ter-se-á limitado a calcular mal o risco inerente à sua própria estratégia, a tal estratégia de combate permanente, sempre no fio da navalha, onde o equilíbrio é mais difícil.
Ainda recentemente – e já depois de ter fechado a conta de Facebook e de a ter voltado a abrir “por causa do Spotify” – Bruno de Carvalho dizia que nunca iria deixar de comunicar no Facebook, alegadamente porque era muito bom a escrever. Não sei se é bom ou mau. Sei que o Facebook é, para Bruno de Carvalho, uma espécie de poção mágica que torna a aldeia de irredutíveis gauleses a que ele preside uma força difícil de derrubar. E ele também sabe disso. Está estudada a influência do Facebook, por exemplo, nas últimas eleições norte-americanas ou no Brexit: ao procurar o engajamento, porque isso melhora o negócio, o algoritmo do Facebook favorece posts que apelam aos nossos instintos mais básicos, favorece a paixão, o ódio, a emoção acima da razão, o radical acima do normal. Favorece aquilo que Bruno de Carvalho representa, que é o clubismo mais exacerbado: por alguma razão Bruno de Carvalho já escreveu no Facebook e disse na última conferência de imprensa que ele nunca vestirá outra camisola, enquanto que os futebolistas jogam por quem lhes pagar mais. É um ataque de uma demagogia inaceitável, porque os futebolistas são profissionais e o próprio Bruno de Carvalho trabalhará para outras empresas quando sair do Sporting, e de uma falta de lucidez ainda maior – por ser impossível hoje em dia fazer uma equipa vencedora só com jogadores que estejam num clube por amor à camisola. Mas em certas fações dos clubes – quaisquer clubes – funciona. No Benfica, por exemplo, há quem não perdoe a Luís Filipe Vieira o ter-se rodeado de diversos adeptos do Sporting. E, mesmo antes do Facebook, João Vale e Azevedo só perdeu as eleições porque do outro lado apareceu, à última hora, Eusébio.
E agora? Assobiado e insultado pelos adeptos no estádio, Bruno de Carvalho está acabado? Não é assim tão simples. Querendo ele continuar – e aparentemente quer, seja por espírito de missão ou porque precisa do salário – é seguro que vai dar muita luta a quem pretenda sentar-se na sua cadeira. Porquê? Entre outras coisas, porque a emoção – um dos tais instintos básicos de que falava acerca do algoritmo do Facebook – é muito importante nos clubes de futebol. A Holdimo, accionista de referência da SAD, debate-se com uma preocupação que é puramente racional: não quer ver os jogadores, que são os seus maiores activos, desvalorizados por quem tem por missão defendê-los e valorizá-los. Bruno de Carvalho não é hoje diferente do presidente que a Holdimo e os credores – com a banca à cabeça – apoiaram. Simplesmente desatou a desvalorizar os seus activos. Quem é que vai dar 60 milhões por Gelson se ele não sabe chutar à baliza? Ou por Bas Dost se ele vê amarelos por não querer jogar um desafio fundamental? Ou por Rui Patrício e William Carvalho, se eles são um problema permanente no balneário? E isso, em termos de gestão, puramente racional, é um gigantesco tiro no pé dado pelo principal responsável do clube.
Os adeptos, no entanto, focam-se mais na emoção, nas coisas negativas, nos erros defensivos, nos golos falhados. E, aqui, o Facebook voltará a ser a maior arma de Bruno de Carvalho: não é por acaso que ainda há muita gente a achar que o presidente tem de meter na ordem esses “meninos mimados”, que “só querem dinheiro”, como se fosse possível competir no futebol com jogadores amadores. Ou que ele é a única barreira que os defende do regresso ao poder dos “notáveis”, dos “croquetes”, como se alguma vez Bruno de Carvalho pudesse ter sido presidente durante todo este tempo sem o apoio e o suporte da banca (representada acima de tudo por José Maria Ricciardi) e de muitos desses notáveis e “croquetes”. Os adeptos, no entanto, não têm isso em conta. Trump ganhou a Hillary Clinton contra os mexicanos; o Brexit ganhou contra os terroristas e as multidões de refugiados que as fronteiras abertas levavam ao Reino Unido. Bruno de Carvalho mobilizou os sportinguistas contra os adversários externos e até internos – os tais “croquetes”. É por isso que não vejo fácil quaisquer tentativas da banca ou dos accionistas promoverem um golpe de estado.
Quem têm os “golpistas” para avançar? Figo? Jogou contra o Sporting e, no banco do Inter de Milão, até festejou um golo na baliza leonina. É importante em termos racionais? Não, porque ele era profissional do Inter. Mas seria uma bomba nas redes sociais em cenário eleitoral. Futre? Jogou contra o Sporting pelo FC Porto e pelo Benfica – e não é preciso repetir os argumentos. Rogério Alves? Admitindo que quer prestar-se à luta na lama que aí vem e prescindir da vida que tem neste momento – onde ganha muito mas muito mais dinheiro do que o Sporting alguma vez poderá pagar-lhe – é demasiado fácil colocá-lo do lado dos “croquetes”, pelas funções que desempenhou no passado. O mesmo vale para José Maria Ricciardi, se o banqueiro um dia decidisse deixar de ser o poder oculto para se ocupar visivelmente dos desígnios de um clube do qual, é preciso dizê-lo, é um adepto tão emocional como qualquer outro.
Se a banca e os accionistas de referência querem mesmo mudar, só têm um caminho: o garrote financeiro. Mas isso seria o pior para o Sporting. Aí, os racionais estariam a lutar no mesmo campo dos emocionais, correndo riscos de prejudicar seriamente o clube. É por isso que Bruno de Carvalho pode ganhar ou perder esta guerra, mas deve ter a lucidez de entender que a única forma de o Sporting não sair a perder é com um armistício. Imediato."


PS: Dá para perceber 'entre-linhas' a gigantesta angústia que o Tadeia está a viver... o seu herói está a dar tiros nos pés!!!

Com BdC nunca se sabe

"Marta Soares é que é o chefe dos bombeiros, mas foi Jorge Jesus quem conseguiu dominar este incêndio

Falar do futuro do Sporting é como arriscar malabarismos em trapézio sem rede. Recomenda a prudência, pois, esperar para ver, na medida em que, desde a noite de quinta-feira, tem sido inequívoco o descontrolo que paira no interior do clube, a que se acrescentam súbitos golpes de rins e até algumas apressadas cambalhotas entre gente que desde Março de 2013 tem cantado os dons de BdC e, de repente, passou a ver nele um caso problemático.
Se nem o presidente da Mesa da Assembleia Geral entende os motivos do que classifica de «uma inversão tão grande de práticas e atitudes», o melhor será aguardar pelos próximos capítulos. Jaime Marta Soares acha que ele deve sair, mas também admite tratar-se de uma «situação de cansaço ou de instabilidade emocional».
Se o problema for este é simples trazer a paz. Um pedido de desculpas será suficiente para a vida continuar como se nada se tivesse passado. Ou não, com BdC nunca se sabe. Tem mais três anos de mandato que quer cumprir e em face da sua habitual e intempestiva reacção comportamental é de crer que se esteja nas tintas para o que os outros pensam. Por ora, arremessam-se assembleias para ver quem impõe mais respeito...

Não estou a dar nenhuma novidade ao dizer que não vejo em Jesus a genialidade que muitos lhe enxergam na área do treino. Reconheço-lhe competência, mas julgo que a sua personalidade egocêntrica vive em permanente conflito com a realidade e fá-lo acreditar ser o que não é. Não fosse esse défice de humildade e, muito provavelmente, hoje, seria treinador de um clube grande, em liga de superior dimensão europeia.
Sei distinguir, no entanto, quando ele tem razão. E desta vez teve-a, ao assumir a responsabilidade que cabia ao presidente: a de arrefecer o ambiente, promover o diálogo e tentar reunir a família leonina. Marta Soares é que é o chefe dos bombeiros, mas foi Jorge Jesus quem conseguiu dominar este incêndio.
Por entre processos disciplinares, suspensões, recurso à equipa B e outras sarrabulhadas, numa altura em que o ambiente escaldava, esteve brilhante na curta e determinante conferência de imprensa de sábado à tarde, em Alvalade. Poucas as perguntas e sucintas as respostas, embora esclarecedoras. O treinador deu a cara e saiu por cima. Foi aí que ficou sentenciada a culpa do presidente neste obscuro, processo, confirmada e agravada, no dia seguinte, pelo tribunal de Alvalade.

O meu aplauso para a argúcia com que o assessor de imprensa Paulo Cintrão fez emagrecer essa conferência. Com firmeza, profissionalismo e elegância. Entre o final de uma resposta e o surgimento de outra levantou-se, agradeceu aos presentes e salvou o seu treinador de posição muito incómoda.
Cintrão fez o seu trabalho com saber, acentuando a diferença que se observa na área comunicacional entre os que trabalham no terreno e tratam do futebol e os que cirandam nos gabinetes e cuidam da instituição. Estes são dispensáveis. Espalham fretes e agitam intrigas. Imprescindíveis são os que faziam a ligação diária com os meios de comunicação, que apoiam treinadores e jogadores, preparam e comparecem nas conferências e lutam diariamente com a impaciência dos jornalistas. Tarefa ingrata, não por não quererem dar notícias, mas, às vezes, por não haver notícias para dar.
A Liga quer valorizar a função, esperando-se que o faça com rigor e não apenas para ficar bem na fotografia ou aumentar as receitas. Não é só Paulo Cintrão a merecer respeito. Falo também de Ricardo Lemos (Benfica), de Pedro Amorim (FC Porto) e de André Viana (SC Braga). Os quatro primeiros da classificação, mas outros exemplos há, em emblemas de menor dimensão, igualmente atentos à importância de imagem como sãos os casos de Paulo Gonçalves (Paços de Ferreira), Marco Aurélio (Rio Ave) e Sérgio Mota (Chaves), a norte, e de Orlando Fernandes (Belenenses) e Letícia Neto (Estoril), mais a sul.

Nota 1 - BdC trouxe a barafunda, acusou jogadores, tentou pôr os adeptos contra eles e, talvez para atenuar a onda crítica, anunciou que vai encerrar a sua conta no Facebook. Até quando?...

Nota 2 - Na semana passada, a propósito do Braga, 1 - Sporting, 0, abordei o comparativo dos treinadores nos jogos entre os dois clubes e cheguei a uma conclusão de expressiva vantagem de Abel Ferreira sobre Jorge Jesus, derivada de duas vitórias e um empate: em termos de pontos, correspondia a sete a um. Leitor atento, porém, que faz o favor de me ler, Marco Cunha, assim se identifica, apesar da minha iluminada memória, ou da falta, como escreveu, pediu-me que o esclarecesse sobre o resultado da jornada 31 da temporada transacta entre os mesmos clubes e quem eram os treinadores à data. Pois é, venceu o Sporting (3-2), mas dois ou três dias antes Abel Ferreira voltou a ser retirado à equipa B para orientar a principal. Foi este o detalhe que me escapou. De qualquer modo, Abel mantém-se na frente: sete a quatro em pontos."

Fernando Guerra, in A Bola

O passou-bem de Manta é dos gestos mais genuínos do futebol português

"Ao fim de cada jogo, o mesmo ritual: Nuno Manta desce do púlpito e, terminada a conferência de imprensa, vem cumprimentar os jornalistas. Um por um.
Parece simples, mas, num meio em que os egos se agigantam, toca-me o respeito e a singeleza dos pequenos gestos.
Na penúltima conferência dele em que estive, após um jogo em tarde de temporal, só no final se percebeu que estava todo enlameado até aos joelhos. Sorrindo, disparou algo do género: «É para vocês verem o que um treinador sofre.»
Melhor é o episódio do meu camarada de redacção João Tiago Figueiredo, a quem o mister disse, ao sair do estádio, enquanto dava à chave no seu Clio antigo: «Vou pôr o meu clássico a aquecer…»
O treinador do Feirense age como a sua equipa joga: de forma simples e directa, sustentando-se em trabalho e luta. Com um plantel curto e um campo acanhado não poderia ter, aliás, grandes pretensões artísticas.
Convém referir que, nestas linhas, Manta – com quem nem tenho especial relação de proximidade, esclareço – representa bem mais do que ele próprio. Podia dirigi-las também, por exemplo, a Daniel Ramos, um treinador com notável franqueza no discurso, que subiu a pulso no futebol português e que, chegado à elite, revelou conhecimento e pragmatismo para colocar um Marítimo menos recursos do que os adversários a lutar pela Europa pela segunda época consecutiva.
O exemplo de Nuno Manta toca-me sobretudo pela forma como, com a equipa em aflição no fundo da tabela há largos meses (17.º lugar, com 24 pontos, oito derrotas nas últimas dez jornadas), ele mantém uma admirável correcção e encara a adversidade com um sorriso, intercalado pela emoção que lhe percebi no rosto ao empatar nos descontos com o Sp. Braga.
Sábado, depois da conferência, lá voltou ele a percorrer toda a sala de imprensa para cumprimentar os jornalistas. Um por um.
Meia hora depois, à saída, ainda o vi no estádio a conversar com funcionários do clube. Manta é um filho da casa e talvez seja também por isso que o Feirense seja o único clube dos cinco últimos classificados da Liga que ainda não mudou de treinador nesta época.
Deixei de ter como prioridade ver ainda alguma coisa de outro jogo que passava na televisão a essa hora, voltei para trás, interpelei-o e conversámos por momentos. Falou-me da importância de vencer: o próximo jogo e todos os outros que se seguem para ficar na Liga. Desejei-lhe felicidades.
Não lhe disse, porém, como aprecio que as dificuldades em que vive lhe evidenciam ainda mais o carácter. Que observo a luta pela manutenção, sua e dos seus adversários, como mais justa e leal do que outras. Que no sufoco do fundo da tabela, curiosamente, se respira melhor, por o ar ser aparentemente mais puro.
Talvez porque, no fundo da tabela, o futebol não ceda tanto espaço a novelas, a jogos de xadrez ou a exercícios de spinning. Talvez pela menor pressão mediática, que chega a fazer-nos entrar ouvidos adentro, ao vivo e em directo, narrativas que distorcem evidências que os nossos olhos veem.
O passou-bem de Nuno Manta é dos gestos mais dignos e genuínos que há no futebol português.
No fundo da tabela há mais cumprimentos e menos mãos invisíveis."

Da legitimidade para falar

"O mal está em tudo o que gira em torno da bagunça interna que enche o nosso quotidiano

Não gosto de repisar verdades tristes e realidades deprimentes, mas se essas existem, se são diárias e actuais, não há como escapar a essa constatação. E a verdade é que, por muito positiva que uma pessoa seja, por muito que tente orientar o discurso apenas para a solução, não há sorriso que resista a um contexto tão feio e degradante como aquele a que continuamos a assistir no mundo do futebol em Portugal.
O jornal A Bola e outros canais informativos concedem-me, nesta fase da minha vida, o privilégio de usufruir de um espaço onde tenho liberdade para opinar e exprimir o que penso e sinto em relação ao que quero. Não aproveitar esse enquadramento seria trair a minha essência e tudo aquilo em que verdadeiramente acredito. Já me disseram várias vezes que devia assobiar para o lado. Que seria mais inteligente da minha parte. Mais sensato e razoável. Já me disseram até que devia cingir-me ao meu know how técnico e ficar-me pelos penálties, amarelos e vermelhos. Não sei se é assim que os outros me veem (e se é, a culpa é minha) ou se é apenas um conselho acobardado de quem não me conhece. O que sei é que não contem comigo para estar e silenciar. Para ver e calar. No dia que a etapa futebol se esgotar na minha vida, outra nascerá. E o que já existe para além dele é muito, é importante e é suficiente.
Quero acreditar pois que conquistei a legitimidade de falar. Conquistei-a porque dediquei quase três décadas ao futebol português. Conquistei-a porque representei o meu país mais de uma centena de vezes além-fronteiras. Conquistei-a porque calcei botas e sujei equipamentos mais de duas mil vezes em toda a carreira. Conquistei-a porque pisei muitos relvados, de muitos estádios, em muitas cidades. Conquistei-a porque grande parte da minha vida foi dedicada ao futebol. Permitam-me pois deduzir (com alguma vaidade) que tenho tanto direito à opinião como qualquer outra pessoa que tenha história escrita nas páginas do jogo de que todos gostamos.
E é precisamente em nome dessa entrega que pergunto repetidamente: como é possível chegarmos a este ponto? Como é possível? O futebol português tem uma estrutura base forte (FPF), jogadores e treinadores de qualidade e de créditos firmados. Tem boas gerações de miúdos, preparados por técnicos bem formados e competentes. Tem instalações de excelência e uma arbitragem com meios/condições incomparáveis. Tem um conjunto variado de virtudes (clima, gastronomia, segurança) difíceis de encontrar noutro qualquer canto do planeta. Mas em vez de potenciar tudo isso - para se tornar num canto único a nível global (é inimaginável o retorno tremendo que isso traria para todos) - faz o quê? Entrega as lides domésticas nas mãos de quem não tem um pingo de vergonha na cara. O mal está aí. Está em tudo o que gira em torno desta bagunça interna que enche o nosso quotidiano com balões cheios de nada.
O mal está em quem dirige, em quem notícia, em quem alimenta, em quem não actua, em quem se aproveita. O mal está nas mãos dos incompetentes, dos arruaceiros e dos espalha-brasas. Dos cúmplices, dos lambe-botas e dos telhados de vidro. O mal está nas palhaçadas, nos fait-divers e nas malandrices. O mal está nas mãos de quem retira palco aos actores de verdade. Nas mãos de quem tem agenda própria. O mal está na gula de uns e no oportunismo e ambição de outros. O futebol português precisa de coragem. De varriamento. De uma limpeza com soda cáustica, que derreta os canos entupidos de muitas casas. Precisa de coluna vertebral, de idoneidade, de verdade. O futebol precisa de dar luz a jogadores e treinadores, brilho ao seu jogo jogado, valor ao muito que (ainda) tem de bom. Há por aí alguém capaz de se chegar à frente e, de uma vez por todas... dar um murro na mesa? Ou ainda não chega?"

Duarte Gomes, in A Bola

Os valores são para os palermas

"Os sportinguistas, e mais ainda o presidente da AG, conheciam bem a pessoa que revalidaram em Fevereiro

O Bruno de Carvalho que os sportinguistas assobiaram anteontem é exactamente o mesmo de há dois meses, para não dizer que é o mesmo de há cinco anos. A diferença, se houver uma, está nos stripteases psiquiátricos que ele, entretanto, ganhou o hábito de fazer. Quando lhe deram carta-branca, na última assembleia, os sócios conheciam o presidente por fora e por dentro. Já o tinham visto dizer tudo e fazer tudo, no mínimo duas vezes, incluindo o raspanete público aos jogadores que, agora, se tornou intolerável. Conheciam-lhe pensamentos íntimos, leram-no chorar de solidão nas estradas transmontanas e viram-no dar saltos e fazer caretas na Sporting TV. Registámos um casamento, uma lipoaspiração, duas mulheres, as filhas, outra filha, os pais (sabemos a idade do pai), conhecemos o vocabulário inteiro do tio-avô, todos os detalhes do romance de escritório e talvez só o clima nos tenha poupado ao vídeo do último parto.
Nenhuma parcela da alma de Bruno de Carvalho está por escancarar, há muito tempo. Se alguma coisa mudou, para minha própria surpresa, foi ter desenvolvido genuína pena daquela pessoa que parece compelida por uma força superior a ostentar todas as misérias e fraquezas humanas. Os sócios, e muito mais o presidente da Assembleia Geral do Sporting, estavam ao corrente de quem era Bruno nas últimas eleições e melhor ainda há dois meses, quando o revalidaram por aclamação. Esta não é uma história sobre futebol: é uma história sobre os valores e princípios que, em Fevereiro, tantos sportinguistas voltaram a achar dispensáveis. Como outros fariam e fazem, para desgraça de todos."

Crónica de uma morte anunciada

"De hoje a precisamente uma semana fará 4 anos que o mundo recebeu a triste notícia da morte do grande escritor colombiano, Gabriel Garcia Marquéz. Foi ele o autor do célebre romance 'Crónica de uma Morte Anunciada', escrito numa criativa novela jornalística que apaixonou milhões de leitores.
O título tornou-se tão célebre quanto o livro e já terá sido utilizado milhares de vezes, nas mais diversas versões. Uso-o também eu, aqui e agora, na sua forma mais simbólica para, com ele, significar o que considero ser o capítulo final da vida presidencial de Bruno de Carvalho no Sporting.
Haverá quem considere que o homem tem sete-foles, como os gatos, e ainda consegue fazer sobreviver a sua presidência desta crise arrasadora e autodestrutiva. Mas será, sempre e só, uma mera questão de tempo.
Os seus mais fiéis escudeiros também já não terão dúvidas e sabem que não se trata de aliviar as consciências da traição, mas de fazer a inevitável opção entre o presidente do Sporting e o Sporting do presidente.
Foi, aliás, esse o primeiro e decisivo mandamento de Jesus na sua última conferência de imprensa, onde o treinador leonino esteve irrepreensível na lucidez de uma exposição que, provavelmente, se tornará histórica.
Bruno de Carvalho estará, então, condenado a uma morte presidencial solitária, amargurado com a ingratidão de todos os sportinguistas?
Não totalmente só, porque com ele estarão ainda alguns militantes resistentes, agarrados à imagem de um líder com o seu carisma de idealista revolucionário. Só que também esses irão acabar por se diluir no tempo."

Vítor Serpa, in A Bola

A surpreende liderança do Benfica

"Não é preciso recuar muitas semanas para nos depararmos com um cepticismo generalizado em torno das possibilidades reais do Benfica liderar o campeonato e vir a sagrar-se campeão. A crer no que muitos garantiram, este ano era tudo entre Porto e Sporting. Afinal, pode bem não ser assim. 
Claro está que o Benfica é hoje primeiro classificado por força de uma longa sequência de vitórias, assente na estabilização do onze titular, numa alteração táctica que resolveu problemas no sistema de jogo e na recuperação física de vários jogadores. No entanto, se hoje o Benfica lidera, a explicação, por estranho que possa parecer, está menos nas vitórias e mais na forma como os maus resultados e as más exibições de um passado não muito distante foram geridos. Há meses, escrevi no Record que se Porto ou Sporting estivessem a passar por aquilo que o Benfica estava a passar, já estariam definitivamente arredados da disputa do título. A explicação é simples: este Benfica está habituado a vencer (como, aliás, aconteceu com o Porto no passado) e estar habituado a vencer é o melhor tónico para continuar a vencer.
Em vários momentos esta época (e até no sábado, quando se viu a perder desde praticamente o início da partida) percebeu-se que a equipa mantinha o foco, não se desorganizava e, mesmo quando quase todos estavam descrentes, acreditava nas suas possibilidades. Ajudou muito que, mesmo após a derrota clamorosa contra o Basileia – para recuperar o jogo mencionado por Jorge Jesus para estabelecer o justo contraste com a derrota do Sporting em Madrid –, não se tenham visto dirigentes a colocar em causa nem as capacidades, nem o profissionalismo dos jogadores do Benfica.
No futebol de competição, as conquistas constroem-se a partir da forma como se lida com os dissabores e não tanto nos momentos de sucesso. Quando se vence, não há adversidade que mostre o lado frágil das equipas. Pelo contrário, é quando se é derrotado que se vê de que fibra são feitas as equipas.
O Benfica de hoje está repleto de jogadores para quem lidar com as dificuldades se tornou parte do percurso para a vitória. Ninguém ganha tanto, tantos anos, como o Fejsa, o Luisão, o Jardel, o André Almeida, o Jonas ou o Pizzi (para nomear, apenas, os que conquistaram mais títulos) sem ter ultrapassado momentos maus, em que vencer um título era garantidamente uma impossibilidade. Aliás, foi assim há dois anos – na primeira temporada de Rui Vitória – e a história está a repetir-se esta época. É por isso que os favoritismos não se anunciam, nem proclamam. Provam-se em campo, semana a semana. Esquecendo o que se passa na casa dos outros, desconsiderando os apelos descabelados à insurreição e considerando apenas um tipo de acção: garantir que, dentro do campo, jogamos o melhor futebol."

Game Over

"Várias vezes nos interrogamos se, aqui e ali, não fomos demasiado castigadores com determinadas personagens do futebol português, mas Bruno de Carvalho sugere-nos exactamente a sensação inversa, a de que podíamos e devíamos ter sido mais severos e profiláticos nos nossos julgamentos. É verdade que, desde a primeira hora, fomos censurando, por vezes até com indisfarçável malícia, a sua egolatria (bem visível na última conferência, em que não teve uma palavra de satisfação sobre uma vitória que pareceu não lhe dar jeito nenhum – ou melhor, deu-lhe apenas um conveniente jeito nas costas…), os tiques ditatoriais e o grau zero de razoabilidade que o foi tornando num foco permanente de instabilidade para o Sporting, e não só. Mas do outro lado da balança fomos sempre colocando o pavilhão, a escolha dos treinadores, a onda de entusiasmo que enche as bancadas e, à frente de tudo, a recuperação financeira (que, desconfiamos, terá sido, entretanto, quase dizimada em função da sua gula descontrolada). Faltou, e disso nos penitenciamos, deixar claro o que há muito vinha sendo cada vez mais transparente: o presidente do Sporting já não tem apenas um problema de comunicação. Porque insiste em funcionar como um elefante numa loja da Vista Alegre e porque se foi tornando num fator cada vez mais tóxico e patológico para o clube. Conclusão: não tem hoje condições mínimas para continuar a ser o presidente de uma instituição secular e que se quer respeitada. Não no sentido da legitimidade institucional, que, como é óbvio, só poderá ser resolvida pelos sócios em assembleia geral, mas porque, ao logo destes mais de cinco anos, somou um conjunto de declarações, posições e atitudes que foram mais do que suficientes para mostrar que não está apto para a função. O inventário, reduzidíssimo em função do espaço disponível, que pode ser lido em separado é a prova disso.

Quimeras facebookianas
"Quer a equipa principal [derrota em Guimarães por 3-0] quer a B [derrota com o Atlético por 5-0] brindaram os sportinguistas com péssimas exibições que não dignificaram o nosso clube e a nossa camisola. Não demonstraram garra nem vontade".
Facebook, 1/11/2014

"Falei nas nádegas e passou a ser tema. O meu tio-avô disse uma das frases que Portugal mais usa: ‘Vão à merda, e bardamerda’. E ninguém vê isso como algo terrível. Já nádegas, todos as temos, e toda a gente ficou incomodada com uma aula de anatomia".
Entrevista ao Expresso, 13/10/2015

"(…) decidiu a Administração SAD, por unanimidade, esgotada a tentativa de chegar a um acordo com o treinador Marco Silva, instaurar um processo disciplinar com vista ao seu despedimento com justa causa (…) Ao trabalhar com Marco Silva, vi-me involuntariamente envolvido num conjunto de episódios em que este demonstrou, no nosso entendimento, falta de respeito para com o clube e para com a estrutura"
Facebook, Junho de 2015

Segundo este canal [CMTV], o presidente entrou no balneário acusando os jogadores de só pensarem em dinheiro e de serem uns chulos. Patrício e Adrien foram os primeiros a reagir mostrando que não toleravam aquele tipo de insinuações. Logo de seguida, Adrien pediu ao presidente para abandonar o balneário, mas Bruno de Carvalho recusou fazê-lo. (…) os gritos eram tantos que os jogadores do Chaves acabaram por sair do seu balneário para tentar perceber o que se passava (…).
Sol, 16/01/2017 (após o 2-2 em Chaves)

"A cada mau resultado, e então se torno público o meu desagrado, lá vem a onda de apoio aos "meninos". Nas modalidades, sem ser o futebol, então é confrangedor... perdemos jogos e lá estão as bancadas a aplaudir os "seus meninos" e a acarinhá-los (...)"
Facebook, 16/5/2017

"Dentro de 45m farei 46 anos, sozinho, na auto-estrada, triste pelo resultado e longe da minha família. Isto é demais... Como se pode acusar de chantagem, alguém que vive do seu trabalho na SAD, tem 3 filhas e vai nascer a 4.ª em Março, e põe a sua vida nas mãos dos sportinguistas? (…) Porque é que, afinal, todos têm o direito a ter opiniões e liberdades, e eu não posso fazer uma lista com quem anda, de forma vil e sem razão a difamar-me e caluniar-me? (…) Triste, sozinho, cada vez mais infeliz (…). Como me fizeram isto?"
Facebook, 7/2/2018 (após derrota, por 1-0, no Dragão, para a primeira mão da meia final da Taça de Portugal)

"Estes ‘meninos’ têm que ser sempre homens e ganhar os seus jogos e conquistar títulos, sem desculpas, sem estar sempre a falar de arbitragens (…) Quando se aponta o dedo aos "meninos" é o "aqui d'el-rei". Credo! É o horror, o sacrilégio..."
Facebook, 16/05/2017

"(…) a esmagadora maioria dos Sócios manifestou a vontade e o desejo de que eu me expusesse menos no espaço público. Pedi-lhes três condições: que deixassem de comprar jornais desportivos e também o Correio da Manhã, que não vissem programas televisivos portugueses de debate desportivo e que vissem apenas a Sporting TV, e que os comentadores saíssem dos canais em que estão.
Facebook, 21/02/2017

"Não é tempo de levantar a cabeça. É tempo de a baixar! Baixar, e olhar bem para o símbolo que trazemos no peito. E depois termos todos a capacidade de reflectir se somos dignos de o usar.
Facebook, 31/03/2018 (após derrota em Braga)

"Coates e Mathieu a fazerem o que os avançados do Atlético não conseguiam (…) Gelson aos 32m isolado frente a Oblak, em vez de "fuzilar" para a esquerda, tenta colocar em jeito, mas sem força, para o lado direito perdendo um golo que já quase se gritava. De 11, em vez de 22 como queria, fomos 9, muitas vezes, e isso paga-se caro... Fábio e Bas Dost "não quiseram jogar" em Alvalade, com faltas para amarelo que nunca poderiam ter feito. (…) E, para terminar, Montero aos 92m desperdiçou um golo feito com um remate para o céu quando só se pedia um simples encosto.
Facebook, 05/04/2017 (após derrota em Madrid)

"Meninos Amuados, Então Vamos Resolver… No Sporting não se vive na República das Bananas. Todos os atletas que escreveram o que em baixo descrevo estão imediatamente suspensos, tendo de enfrentar a disciplina do Clube. Já estou farto de atitudes de miúdos mimados que não respeitam nada nem ninguém, mas desta vez a minha paciência esgotou-se (…) São profissionais rotativos (…)."
Facebook, 6/4/2018 (visível só para amigos)

"Na primeira reunião, ficaram claras duas coisas: a total lealdade do treinador perante o Presidente e quem foram os grandes mentores de toda esta questão, de que fazem parte jogadores que, há anos, exigem sair do Clube de todas as maneiras e feitios. (…) O Presidente, recusando este tipo de insinuações, intrigas e manipulações de grupo, que já vêm sendo modus operandi habitual daqueles que, por várias vezes, tentaram desestabilizar o plantel, ligou em frente aos atletas para o líder da referida claque. Não sabendo que estava em alta voz perante toda a equipa, desmentiu categoricamente."
Facebook 08/04/2018 (3 horas antes do jogo com o Paços de Ferreira)

"A caminho do Hospital, mas como não consigo desligar do SCP, deixo 4 notas (…) O Dr. Jaime Soares criou a maior confusão vista na história do Sporting CP, ao conduzir, de forma infantil e incompetente, uma AG. (…) Vem agora ameaçar-me. Eu tinha-o avisado que mais uma dele e que pediria a sua saída (…) Escusa de reunir a MAG que, diga-se, nunca se reviu nele nem esteve a seu lado, pois serei eu a pedir novamente à Direcção para se fazer uma AG para os sócios se voltarem a pronunciar (..). Se os Sócios não tiverem a memória curta, sairá pela porta pequena como em Poiares."
Facebook 09/04/2018 (9h16)

"Ontem, o Jaime Soares dava-me palmadinhas nas costas, e desejava-me as melhoras e que hoje fosse um dia muito bom para mim e para a "Joaninha". De repente, o poder caiu na rua e já veio atraiçoar quem sempre o defendeu (…) Querem viver na ignorância e sem defesa à altura das necessidades do nosso Clube? Se o Sporting fica mais forte desta forma, seja feita a vontade da maioria. Vamos, aos poucos, ser novamente um Clube submisso, calado, sem expressão e sem voz. Porque vamos perder a voz! (…) Que este meu afastamento do Facebook seja a vossa felicidade!"
Facebook 09/04/2018 (12h)"

Espiral negativa

"Na semana passada, oportunamente e de forma responsável, o Sindicato dos Jogadores e os capitães de equipa das ligas profissionais, apelaram aos dirigentes para que nas jornadas que faltam para o término do campeonato fossem criadas condições mínimas para o exercício da sua actividade, não visando os jogadores no que à sua idoneidade profissional e pessoal diz respeito. Em síntese, exigiram respeito.
Isto não significa que os dirigentes não possam escrutinar a actividade dos atletas, nomeadamente o cumprimento dos seus deveres. Podem e devem, quando existam razões para tal e sejam dadas condições de defesa.
Tive oportunidade de dizer que estes processos devem ser dirimidos no local próprio, recorrendo aos mecanismos legais existentes e que regem o normal relacionamento entre entidade patronal e trabalhadores, evitando a exposição pública e os danos causados aos jogadores e às suas famílias. 
Este princípio basilar permite um distanciamento do foco do conflito, ponderação e, muitas das vezes, uma aproximação entre as partes, que resulta dos objectivos prosseguidos em comum. Tem de existir capacidade de resolver internamente o que é do foro interno.
Apesar do apelo do Sindicato, não tinha ilusões quanto ao agravamento do clima que estávamos a viver, primeiro porque as pessoas não mudam de atitude de um dia para o outro, depois porque há demasiados interesses em causa.
Ora, neste contexto, não cuidar de saber o impacto junto dos demais e desconhecer o alcance dos media e redes sociais, potencia um ambiente devastador.
O que se está a passar no Sporting é o reflexo de uma espiral negativa. Envolveram-se os jogadores, treinadores, adeptos, cidadãos em geral, numa discussão que poderia e deveria ser resolvida internamente. A bem do futebol."