Últimas indefectivações

domingo, 15 de dezembro de 2019

Vermelhão: mais uma confirmação, da subida de forma...

Benfica 4 - 0 Famalicão


Mais uma goleada, num jogo que até começou 'perigoso', com o Famalicão a conseguir chegar à área do Benfica, em contra-ataque, mas também com 'posse de bola'... sendo que desta vez, o nosso golo demorou algum tempo a aparecer. Só ao minuto 38 a bola 'entrou'... na Luz, para o Campeonato, temos marcado mais 'cedo'! Mas apesar das aparentes 'facilidades' que o resultado transparece, o Famalicão era o 3.º classificado antes desta jornada, a forma como acabámos por gerir a vitória no 2.º tempo, pode dar a ideia que o adversário 'facilitou', mas foi o Benfica que 'facilitou' ao marcar e ao jogar bem... Ao contrário do que aconteceu na visita do Famalicão ao Dragay, hoje, não houve golos 'oferecidos'!!!
É impossível não destacar o Pizzigol!!! Dois golos e de facto está em grande forma... Mas o Chiquinho está em 3 golos, dois com assistência directa e no nosso 2.º golo, faz o cruzamento, provocando o 'corte/assistência' para o Pizzi!
Sem desmerecer o impacto que a dupla Chiquinho/Vinícius deu ao Benfica... de todas as variáveis, continuo a defender que dupla Gabriel/Taarabt foi o factor mais importante para a enorme melhoria exibicional nos últimos tempos!
O Fama, veio à Luz, com um esquema defensivo muito parecido, com os esquemas que várias equipas nos tentaram 'travar' no início da época (hoje, tentaram pressionar mais alto...), mas nessa altura só tínhamos um médio de 'construção' no meio-campo, agora basicamente com dois 'lançadores', as marcações não dão resultado... e com os 3 Centrais, que quase todos nos têm tentado 'travar' o espaço nas 'costas' dos Laterais aparece com alguma facilidade... e se antes a bola não chegava lá, agora chega!!!
Ainda temos a Taça de Portugal (a Taça da Liga, está fora do nosso controle...) antes do Natal, mas o Campeonato só vai regressar no próximo ano civil, em Guimarães, um jogo seguramente muito difícil (na mesma jornada vamos ter um Lagartos-Corruptos), mas neste momento, temos na pior da hipóteses 4 pontos de vantagem! Tudo isto, porque conseguimos num mau momento de forma, conquistar os três pontos, jornada após jornada... Não sei se vamos ter 'retoques' na janela de transferências de Janeiro, mas a equipa neste momento está sintonizada... Pessoalmente, acho que existem posições que necessitam de reforço. Em caso de lesões em alguns jogadores fundamentais, ficamos sem substitutos à altura... Com a Liga Europa em Fevereiro, a equipa merece a ambição da conquista 'total', em todas as competições, sem ter que abdicar de uma pela outra, mas para isso é preciso profundidade no plantel... em todas as posições!

Vitória em Angra...

Lusitânia 60 - 103 Benfica
17-25, 14-28, 13-21, 16-29

Temos feito alguma 'rotação': hoje, tanto o Coleman como o Betinho, tiveram poucos minutos; invertendo aquilo que tinha acontecido na última jornada! Desta vez foi o Murry que 'carregou' a equipa (com 9 Triplos!), ele que no último jogo, praticamente não tinha saído do banco!

sábado, 14 de dezembro de 2019

Vitória complicada...

Benfica 5 - 3 Eléctrico

A equipa ainda não ultrapassou o fracasso Europeu. Tivemos um início de época muito bom, com excelentes exibições, mas depois da Ronda de Elite, não estamos a jogar bem... Ainda por cima, sem o Roncaglio, sem o Fernandinho e sem o Cecílio... a equipa está curta, e perdeu dois dos seus principais concretizadores (e até o Roncaglio de vez enquanto marcava...!!!)
Hoje, além de tudo isto, ainda tivemos que aturar uma arbitragem profundamente incompetente...

Vitória na Madeira...

Madeira SAD 27 - 29 Benfica
(13-12)

Não costumam ser fáceis as nossas deslocações à Madeira, e esta não fugiu à rotina: vitória na 2.ª parte, com muitos 'tiros' de longa distância!!!

Vitória em São Miguel...

Clube K 0 - 3 Benfica
18-25, 20-25, 25-27

Esperava Set's mais 'fáceis', mas amanhã é que será mais complicado na Praia da Vitória...
Com os jogos Europeus a meio da semana, o grau de dificuldade das jornadas duplas aumenta...

Derrota...

Benfica 2 - 4 Barcelona

Não se pode desperdiçar tanta bola parada: marcámos um Livre Directo, mas falhámos dois penalty's e mais dois Livres Directos!!!
Com o Barça a marcar cedo, acabámos por 'andar' sempre a correr atrás do prejuízo, mais com o coração do que com a cabeça, mas podiamos ter empatado perto do fim... falhámos, e eles 'mataram' o jogo com o quarto golo!

Os negros túneis do des(j)mor

"Drama, mistério, acção, 'suspense' e, por fim, uma comédia para que tudo acabe em bem. Se não for assim, quase que jurava que andará lá perto

Houve um incidente nos túneis do Jamor. Aliás, um incidente de desamor. Não se sabe de onde apareceu toda aquela pequena multidão que rodeava os protagonistas do confronto, mas andavam por ali polícias, delegados da Liga, jogadores, médicos, treinadores, árbitros, talvez roupeiros e outros funcionários curiosos, e só não estava o famosíssimo adesivo, porque não teve conhecimento prévio de que as câmaras da SIC espreitavam do alto do muro e registaram a voz e a atitude alterada do jovem treinador que tem, na camisola azul, o símbolo B, e que para conveniência de se designar um vazio se continua a chamar de Belenenses (que já não é ) e SAD que é.
«Levei Um Soco!... Levei Um Soco!... Isto Vale Tudo?... Vale Tudo, É?...» - gritava, com visível indignação, Pedro Ribeiro, enquanto tentava ultrapassar aquela inexpugnável barreira de corais humanos.
Ao que se percebeu da confusão de gentes e de vozes, um treinador (Pedro Ribeiro) acusava outro (Sérgio Conceição) de agressão, no caminho para os balneários. O supostamente agredido é um jovem em início de carreira, pobre, fazendo pela vida, lutando no difícil mar do futebol português; o outro, supostamente agressor, é um treinador consagrado, privilegiado, conhecido por ter os nervos à flor da pele e por não controlar as emoções.
O cenário e o enredo garantiam, pois, o escândalo público.
O desenvolvimento do caso, porém, tornou o filme de acção numa obra mais complexa, um policial de mistério, onde a procura da verdade bate contra um muro de conluios e de silêncios.
O argumentista, devemos admitir, é criativo e surpreendente. Junta ao silêncio do acusado o silêncio do acusador, que nem mais uma palavra se dignou dizer sobre o caso que tanto o indignara.
A partir daqui, a trama segue o seu percurso normal do cinema português. O sistema de justiça saca das trombetas e vem anunciar com pompa e circunstância: Vamos Iniciar Um Processo De Inquérito. O povo suspira de tédio e pensa: «Bom, temos mais um caso para durar até ao fim dos nossos dias».
O primeiro passo é pedir à Sociedade Anónima do trabalhador lesado que envie as imagens do túbel. Isso leva tempo, obedece a formalidade, tem o seu ritual. Depois, serão ouvidas as testemunhas das partes e as partes das testemunhas. Visto, revisto e analisado o relatório dos delegados da Liga e o relatório policial.
Das imagens, há já quem garanta que nada de especial se vê e de nenhuma se poderá tirar conclusões. Dos delegados da Liga, não se sabe se não viram o que viram. Dos policiais, há que avaliar com os chefes a chatice que a coisa dá, só por causa de uns eventuais sopapos sem consequências hospitalares. De todos os outros presentes envolvidos será melhor contar o que se sabe no café, aos amigos e conhecidos, ganhando estatuto e importância sociais do que perder tempo com autos e diligências da preguiçosa justiça.
Claro: há ainda o protagonista principal. O que se considerou agredido, o que, sem saber que estava a ser filmado, iniciou a série que está, agora, a passar na Futebolix. E aí reside o suspense. Que vai fazer o bom da fita? Como resolverá o dilema entre a promessa, mesmo que vã, de uma carreira afortunada e a ameaça de solidão de um escorraçado? Poderá, ainda, vir a sonhar com a glória, já alcançada pelo seu presidente, de receber um dragão de ouro?
Drama, mistério, acção, suspense e, por fim, uma comédia para que tudo acabe em bem. Se não for assim, quase jurava que andará lá muito perto.

Dentro da Área
Portugal está mais crescido
Benfica e FC Porto muito bem nos jogos da decisão europeia. Cada qual à sua maneira. O Benfica a trazer o Zenit para o futebol que desejava, nos ritmos e nas ocupações de espaço; o FC Porto a aceitar o risco de jogar à holandesa. Mas se permitem a contra-corrente: maiores elogios para o Minho. O SC Braga fantástico, com uma prestação imaculada e com uma clara afirmação de grande equipa; e o Vitória SC, de Guimarães, com uma personalidade e qualidade competitiva que representa claro avanço no seu crescimento.

Fora da Área
Morte ao Brexit, Viva o Brexit
Enfim, a tradicional e orgulhosa Old England parece ter resolvido o irritante impasse do Brexit. Boris Johnson, um primeiro ministro irreverente, com uma imagem de político desmiolado e sem tabus, acaba de obter uma estrondosa vitória para os conservadores, digna da sorumbática senhora Thatcher. Assim sendo, abrem-se as portas para um brexit regulado, mas também se abrem as portas para um novo e reforçado avanço do movimento independentista escocês. Ou seja: Morte ao Brexit, Vida o Brexit."

Vítor Serpa, in A Bola

Da Rússia

"Um sentimento antirusso, acusam. Farei parte de algo assim? Talvez não tanto mais há algo em mim que suspeita, que teme o desconhecido que vem da Rússia e que deriva, estou convencido, do impacto das duas superpotências, a russa e a americana, na nossa cultura, na minha educação. As vezes em que estive na Rússia ou nos EUA foram sensivelmente as mesmas, nada de errado me aconteceu, contudo nunca me senti tão longe de casa como na Rússia e nunca soube explicar porquê.
Também leio os russos desde a adolescência e sou até um pasmado admirador da grandiosidade e da beleza decadente dos estilos escultóricos e arquitectónicos da era soviética. Em todo o caso, aquela cultura nunca me chegou da mesma forma, sempre me foi apresentada com  ressalvas históricas, líderes loucos, expansionismos perigosos, economias falhadas, Berlim, um reactor nuclear explodido, tudo o que há de dramático, ou não fosse uma potência.
Coisas parecidas também há do outro lado da fronteira ideológica - ou não?
Ao surgirem estas punições da Antidopagem, visando o governo russo de liderança do maior plano de doping jamais conhecido, parece, para lá das provas que convencem a WADA, formar-se também qualquer coisa na qual se quer acreditar, como se para perceber e justificar o resto.
Mas, insisto, do outro lado houve Armstrong, a maior mentira do desporto; há agora um presidente que ridiculariza a verdade e desvaloriza a ciência, ao qual, para cúmulo, insistem em perguntar se ele não será espião russo! Um sentimento antiamericano, dizem.
Nestes tempos de crise cultural americana, de um inédito distanciamento, chegam-nos
 confundidos os tais velhos preconceitos de bem e mal e ficamos - eu fico - sem saber o que é realmente isso da cultura na qual crescemos.
Nunca há monstros piores que aqueles que nós criamos, isso eu sei."

Miguel Cardoso Pereira, in A Bola

Curta-metragem!!!

"Portanto, o «portista doente» Pedro Ribeiro, ao serviço de uma SAD presidida por um dragão de ouro, inventou ter sido agredido por Sérgio Conceição para prejudicar o clube de que todos são adeptos, numa armação urdida pelo SLB. É isto, não é?"

O Cantinho de Olivier #18

Uma Semana do Melhor... do Mendes!

Benfiquismo (MCCCLXXVII)

De bicicleta...

Agenda... Antunes, Guerra, Azevedo & Janela

Os três pontos mais importantes de 2019

"Este campeonato está mais difícil que nunca. Não se vislumbra nenhuma facilidade. Amanhã joga-se contra o terceiro classificado.

Na última semana o Benfica fez uma excelente exibição no Estádio do Bessa, evitou o brexit europeu com uma vitória folgada sobre o líder isolado do campeonato russo e ficou a saber, pela voz do treinador rival, que não vai ser campeão e que as equipas de arbitragem também entram na discussão do título nacional. É muita informação para digerir de uma só vez.
Poder-se-á dizer que levamos um soco no intervalo da satisfação. Ainda assim, para aqueles que acreditam em bom futebol, há razões de satisfação quando se vê o Benfica que venceu o Boavista. Grande exibição, talvez a melhor da época, deu três pontos ao Benfica e deixou o rival no ponto. O Benfica do Bessa, não só venceu, como merecer vencer, o Benfica do Bessa foi muito bom do primeiro ao último minuto. Dizer que Vinícius, Pizzi, Chiquinho, Cervi, Gabriel ou Taarabt fizeram boas exibições é até injusto para os outros que vestiram de vermelho e branco. Os adeptos do Bessa mostraram a alma e a crença, levaram a equipa ao colo antes, durante e depois do jogo. Foi uma manifestação impressionante de quem sente o Benfica de forma única. A norte o Benfica joga sempre em casa, porque o benfiquismo não se perturba com pontos cardeais e será sempre assim até ao fim.
Este campeonato está mais difícil que nunca, não se vislumbra nenhuma facilidade e sábado há jogo contra o sensacional terceiro classificado. Uma vitória no sábado garantir-nos-ia a qualidade da consoada. Faltam 63 pontos e amanhã temos os três mais importantes de 2019.
A vitória sobre o Zenit, embora dramática para os russos que em dez minutos passaram da Liga dos Campeões para o repouso do sofá, foi uma prova que o Benfica disputa na Europa um lugar de permanente destaque. Fica o travo amargo de alguns ses, fica a certeza que há Benfica na Europa do futebol.
Não sendo o primeiro objectivo, segunda-feira o Benfica é cabeça de série no sorteio da Liga Europa. Estamos a 900 minutos de Gdansk onde sabemos ser muito difícil chegar. Mas não houve o brexit encarnado várias vezes anunciado nas notícias.
Última palavra para o feito do voleibol do Benfica que ao vencer um jogo da Liga dos Campeões de voleibol fez história. Jogar a este nível, nesta competição, merece o respeito e apoio dos adeptos do desporto."

Sílvio Cervan, in A Bola

Empate...

Benfica B 3 - 3 Varzim


Muitos golos, emoção, mas muito sinceramente 'preferia' os três pontos, numa época, onde já se percebeu, o Benfica B, vai lutar pela manutenção, muito provavelmente até às últimas jornadas!!!

Equipa muito ofensiva, que deu muito espaço ao adversário para sair no contra-ataque... e depois de tanto trabalho para dar a volta ao marcador, de 1-2, para 3-2, permitimos o empate, na jogada de 'saída' de bola!!!

Nota de destaque para o regresso do Umaro, que se tinha lesionado em Lyon...

PS: Parabéns à Telma Monteiro, pela medalha de Bronze no Masters de Quingdao!

Derrota em Sintra...

Estoril 3 - 0 Benfica


Até entrámos bem, a dominar o jogo, e a criar oportunidades, mas o contra-ataque do Estoril foi fatal... Com o campo 'pesado' e em desvantagem o nosso estilo de jogo, acabou por não dar resultado!
Parece-me que a equipa está a tentar pressionar mais alto, mas com um meio-campo muito ofensivo, ficamos expostos aos adversários mais cínicos!
Este Chiquinho do Estoril parece interessante!!!

Rogério

"É bem conhecida a expressão dos ídolos com pés de barro, decalcada da lenda de Nabucodonosor, em que a estátua do homem feita de ouro, prata, bronze, ferro e barro, simbolizando a supremacia julgada eterna da Babilónia, bastou ser-lhe lançada uma pedra para que fosse destruída, precisamente no parte argilosa do monumento.
Mas este ídolo de que vos falo hoje, de seu nome Rogério alcunha 'Pipi', não tinha pés de barro, tinha-os antes de carne e osso, revestidos de cabedal, para honra e glória do Sport Lisboa e Benfica.
Sexto melhor marcador da história do Benfica em competições oficiais, quinto se incluirmos os golos em jogos particulares, campeão latino, figura de proa em três títulos nacionais e na conquista de seis Taças de Portugal (prova em que é, com quinze, o recordista de golos nas finais) e sobretudo ídolo de várias gerações, rivalizando, na era pré-Eusébio, com Vítor Silva e José Águas, nas preferências entre os adeptos quanto ao melhor jogador de sempre do Benfica.
Tive oportunidade de com ele conversar longamente uma única vez, há uns seis ou sete anos, e jamais esquecerei a sua simpatia, jovialidade e humildade. Até sempre, Senhor Rogério!

PS: O ressurgimento da narrativa ficcional, requentada e bafienta, por parte de quem, sem qualquer autoridade moral ou ética, ou sequer justificação para tal, se arroga o papel de coitadinho, é um bom sinal e é revelador. É sinal de que estamos no bom caminho, sabendo-se que, nos últimos anos, procuramos sempre alcançar os nossos objectivos sem que os êxitos ou inêxitos pontuais nos distraiam. E revela algo já bem conhecido: quem construiu o sucesso fora de campo é incapaz de perceber que outros o obtenham agora apenas no campo."

João Tomaz, in O Benfica

Básico

"Nesta semana vejo-me obrigado a continuar a falar-vos de comunicação. Não queria, mas foi tão gritante o desespero de um dos nossos rivais, que merece a pena dispensarmos algum tempo para entendermos como funciona a mente de antibenfiquista.
Aconteceu com o departamento de comunicação do Sporting CP, mas poderia perfeitamente ter sido com o do FC Porto ou mesmo com o do SC Braga, naquelas alturas em que os minhotos se assumem como candidatos ao título fruto dos bons resultados desportivos (não é o caso esta temporada=. No dia em que se soube que um antigo vice-presidente e o líder de um dos grupos organizados de adeptos do Sporting CP tinham sido condenados a penas de prisão efectivas, o departamento de comunicação do clube do Campo Grande atirou para o online um chorrilho de acusações desesperadas contra - adivinhem lá... - o Sport Lisboa e Benfica.
'Vida selvagem', dizia o escriba, tentando tapar com a tradicional peneira o pouco sol que brilha naqueles lados. É caricato, para não dizer absurdo, que, num dos períodos mais obscuras da sua longa história, profissionais, comentadores, sócios e adeptos de uma equipa com tanto historial no atletismo e no ténis de mesa continuem - ontem, hoje e sempre - a pensar somente no Sport Lisboa e Benfica.
Alguma palavra sobre a condenação de dois dos seus ilustres? Nada. Alguma frase sobre o julgamento do vergonhoso caso das agressões em Alcochete e seus culpados? Nada. Alguma declaração sobre os constantes insultos das suas claques ao presidente? Nada. Alguma consideração sobre a calamitosa situação financeira do clube? Nada. Não têm arte para se organizar nem para arrumar a casa, mas para a dor de cotovelo há sempre tempo.
Nunca mudem."

Ricardo Santos, in O Benfica

Admirável mundo novo

"Os últimos anos mostraram-nos que já não há quaisquer limites na guerra movida ao Benfica pelas áreas de comunicação dos clubes rivais - em particular a norte. Quem é capaz de pegar em correspondência roubada e, adulterando-a, criar uma pomposa narrativa visando destruir o maior clube português para esconder fracassos próprios é, na verdade, capaz de tudo. Basta acompanhar os principais fóruns de opinião no mundo digital para perceber que, também, aí, alguma coisa está errada. Não tenho dúvidas de que há hoje um grupo de indivíduos mais ou menos organizado (eventualmente pago) a multiplicar perfis falsos para, apresentado-se como 'benfiquistas críticos' ou 'benfiquistas exigentes', inundar fóruns, blogues e redes sociais, principalmente em espaços afectos ao Benfica, tentando desestabilizar o desunir o clube, seja pelo ataque reiterado e persistente a dirigentes, treinadores e até atletas, seja pela crítica mais destrutiva visando criar ondas negativas que levem com elas os mais incautos.
E não me espantaria que, num futuro próximo, nos próprios estádios, entre os adeptos do Benfica, nomeadamente nos jogos fora de casa, pudessem também surgir alguns infiltrados à espera de mau resultado para assobiar e insultar os nossos profissionais, perseguir o autocarro, fazer esperas, etc. O até mesmo, quem sabe?, associados de aviário que em Assembleias-Gerais apenas procurem causar distúrbios e instabilidade.
Na verdade, caro leitor, daquela gente é de esperar tudo. E temos de estar preparados para enfrentar os ataques mais baixos.
O mundo mudou, e não necessariamente para melhor."

Luís Fialho, in O Benfica

Rogério forever

"O minuto de silêncio em memória de Rogério Pipi, no nosso último jogo na Liga dos Campeões, foi mais do que uma merecida homenagem a um símbolo do Sport Lisboa e Benfica. Perdemos uma das maiores referências, mas a sua obra jamais será esquecida. Rogério Lantres de Carvalho brindou-nos, durante 12 épocas, com o perfume do seu futebol, a acutilância ofensiva que o caracterizava e a elegância da sua forma de estar. Os testemunhos de José Bastos e Artur Santos, na BTV, foram eloquentes acerca deste Senhor do futebol português. Um desportista exemplar que deu tudo ao clube do seu coração, tendo sido decisivo na conquista de 10 títulos. De todas as conquistas destaco, obviamente, a Taça Latina, que em 1950 nos catapultou para a Europa. As vitórias frente à Lazio, com um golo de Rogério, e frente ao Bordéus constituíram primeiro grande triunfo português de carácter internacional entre os campeões dos quatro países latinos - Portugal, Espanha, França e Itália. Foi nesta altura que foi lançada a semente do futuro Benfica Europeu, que nos anos 60 surpreendeu nas competições da UEFA. José Bastos, Jacinto Marques, Félix Antunes, Joaquim Fernandes, Francisco Moreira, José da Costa, Corona, Arsénio Trindade, Julinho, Rosário, Rogério Pipi e Pascoal escreveram uma das mais brilhantes páginas da história do maior clube português. 1949/50 foi uma época de sonho. Sob a a presidência de Mário Madeira, com um plantel de 22 gloriosos jogadores, capitaneados pelo enorme Francisco Ferreira e treinador por Ted Smith, o SL Benfica conquistou tudo o que disputou - o Campeonato e a Taça Latina."

Pedro Guerra, in O Benfica

O valor de uma árvore

"Portugal volta hoje ao valor das árvores. Às vezes, quase sempre, saber História torna a vida mais esclarecida e ajuda-nos a entender melhor o presente e as suas razões para perspectivar da melhor forma o futuro. Esta é uma realidade no que respeita à nossa percepção da floresta. Nascemos e crescemos com a convicção de que Portugal é um país florestal e tomamos as extensas manchas verdes do nosso interior como um dado adquirido, como se as árvores sempre estivessem lá estado e nos bastasse a nós colher os seus frutos. Mas, na verdade, trata-se de uma percepção, não de uma vocação simplesmente natural do território.
Até à generalização dos combustíveis fósseis e da electricidade, resultantes da Revolução Industrial, o uso de lenhas como como combustível industrial e doméstico foi de tal modo intenso, que, aliado ao abate para a construção e engenhos, produziu uma escassez tal, que o país urbanizado entrou no séc. XX quase sem árvores, excepção feita ao Pinhal de Leiria, que foi a salvação de muitas indústrias. Um exemplo disto foi a deslocação de fábricas emblemáticas como a Stephens (antidg vidreira) de Coina, nos arredores de Lisboa, onde escasseavam as lenhas, para a Marinha Grande, perto da fonte energética proporcionada pelo grande pinhal. Estávamos no tempo de avaliar a árvore pelo valor da madeira e da energia.
Emblemático é também todo o movimento de arborização da primeira metade do séc. XX, em que se mudou a face das nossas paisagens rurais e se criou o país florestal que hoje todos damos como adquirido e que, realmente, parece que sempre aqui esteve. Na Primeira República, importantes projectos de arborização e educação ambiental foram lançados, com um triplo sentido económico, ambiental e cidadão, com destaque para as sucessivas 'Festas da Árvore' que envaideciam as vilas e cidades de todo o país. O Estado Novo continuou de forma sistemática e prolongada criando uma certa cultura campesina de plantação de pinhal como forma de entesouramento e investimento da economia doméstica. Dali se casavam os filhos, se valiam na tragédia ou na doença, dali também se comprava a passagem para emigrar e fugir da miséria. Foi o tempo da árvore avaliada pelo uso como matéria-prima e pé-de-meia familiar. Pelo caminho, limpavam-se matos, mondavam-se árvores adultas no abate selectivo para não depenar o pé-de-meia, geriam-se as manchas florestais por entre os terrenos agricultados.
Não tardou que todo este mundo desabasse a partir do Plano Marshall e entrássemos pelas décadas de 60 e 70 a abandonar os campos e substituir áreas agrícolas por pinhais e, sempre em busca de rápido retorno, eucaliptos que medram bem e rendem depressa. Foi o tempo das enormes manchas florestais e da árvore avaliada pela pasta de papel num país que é um dos maiores produtores mundiais. Hoje, o círculo vicioso do aquecimento global e do desordenamento florestal ataca a nossa segurança e o nosso bem-estar colectivo, consumido, paradoxalmente, muita da riqueza que produzimos no esforço de corrigir e repor a situação.
Hoje, sabemos bem que, afinal, o valor de uma árvore não era verdadeiramente nenhum dos que historicamente lhe conferimos. O seu valor é nada menos que a vida na Terra tal como a conhecemos. Por isso tocamos a reunir e convocamos o Benfica, as escolas, as famílias e a sociedade civil. Por isso voltamos ao velho espírito das Festas da Àrvore e queremos 'Fazer de cada Escola um Viveiro'. Começámos pelas zonas ardidas, mas, porque somos quem somos, temos muita ambição!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Um grande e justo abraço a Bruno Lage

"Nunca é aconselhável deixar para resolver mais tarde as tarefas do quotidiano. Geralmente as contas saem erradas quando, no momento próprio, não encaramos de frente e não resolvemos os problemas que se nos apresentam. Em todo o caso, nos cenários do desporto, tem de se reconhecer que os factores de decisão não são lineares, nem esquemáticos e, ainda que a cultura do meio determine que tudo se vá resolvendo, jogo a jogo e treino a treino, à medida das jornadas, as prévias escolhas dos executantes, ou as estratégias laboriosamente estudas e preparadas para cada não constituem propriamente matérias ou produtos resultantes de ciências exactas.
As decisões prévias nos desportos de equipa são tomadas pelos responsáveis considerando o somatório de experiências e desempenhos técnicos, físicos e psíquicos imediatamente anteriores dos jogadores que se encontram disponíveis, mas, naturalmente, tendo também em consideração as características da equipa adversária que vão defrontar e - de novo - as performances exibidas pelos jogadores contrários nas suas mais recentes apresentações.
Falta referir toda a panóplia das 'condições laterais' que também condicionam a preparação de cada jogo, jornada após jornada: a condição do piso em que se vai jogar; em algumas modalidades, as dimensões do campo de jogo; o estado do tempo; os riscos de iminente lesão de algum executante, devidamente assinaladas pelo gabinete médico; o temperamento habitual (e os 'mind-games' mais subtis ou mais provocatoriamente agressivos, por exemplo) do estratega da equipa opositora; a personalidade das equipas arbitrais (por que não?...) e o histórico das suas decisões em jogo; a envolvência contextual da partida - expectativas dos adeptos, conjuntura das classificações relativas dos contendores previsões de enchente, clima comunicacional dos clubes em presença e algarviadas dos seus respectivos peões mediáticos, etc., etc.
Enfim, o cenário de cada pré-match não constitui propriamente um 'mar de rosas', ou um ambiente fácil, resultante de valências estritamente mensuráveis e factores de ciência exacta. Nem para quem joga, nem para quem analisa (e quem é que, em boa verdade, é capaz de analisar, mesmo, com verdadeiro espírito crítico independente, justo e neutral, em Portugal?!...), nem para os que arbitram os desafios, nem - muito menos! - para aqueles que jogam e para aqueles que dirigem os que jogam. Mas o que se torna cada vez mais insuportável para o Público consumidor de Desporto - que assiste, atónito e perplexo a toda a constante baderna mediática - é a indigente narrativa das elucubrações que os pontas de lança da Comunicação 'especializada' persistem em exibir acerca dos seus próprios mais recorrente conceitos, como 'plantel', 'matriz de jogo', 'escolhas', 'rotatividade', 'inexperiência', 'lance discutível', 'defesa de betão', ou 'ataque acutilante', nos enfadonhos textos metafóricos que (quase sempre) escrevem com os pés, e em perguntas de pacotilha que ousam dirigir nas conferências de imprensa, aos verdadeiros heróis do nosso imaginário - alguns (raros) Treinadores e alguns (pouquíssimos) grandes executantes...
Por isso, vai daqui um grande abraço e justo abraço a Bruno Lage!
Gabo-lhe a infindável pachorra e a superior contenção dele, como sempre supera, com a maior humildade, tanta banalidade e tanta impertinência."

José Nuno Martins, in O Benfica

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Antevisão...

Lage...

Liga Europa vai falar português

"Excelente semana para o futebol português, com quatro vitórias em cinco jogos, quatro equipas qualificadas para a fase a eliminar da Liga Europa (e a que não se apurou não deixou de dar excelente conta do recado...) e os adversários russos varridos do mapa. Na próxima temporada, o segundo classificado da nossa primeira Liga deixará de ser o primeiro dos últimos, passando a ter direito a participar na festança dos milhões da Champions, uma boa forma de libertar alguma da pressão que diminui e inquina o nosso campeonato.
Esta jornada europeia serviu ainda para confirmar algumas impressões que andavam no ar:
a) O melhor Benfica teria tido muitas possibilidades de furar a ditadura dos big five, que vão reinar sem contestação nos oitavos de final da Liga dos Campeões.
b) O FC Porto vive no fio da navalha e à beira de um ataque de nervos, situação de que necessita libertar-se se quiser encarar com ambição o resto da época. Assim, será difícil...
c) O Sporting não tem plantel para grandes rotações e se alguém tinha dúvidas disso tê-las-á dissipado com a prestação em Linz. E mais: há jogadores cuja saída (tendo em conta o mercado de Janeiro) pode comprometer, pura e simplesmente, a época.
d) Confirma-se a bipolaridade do SC Braga de Ricardo Sá Pinto, que tanto ganha com a maior naturalidade em Wolverhampton como perde nas Aves.
e) O Vitória Sport Clube merecia mais do que a classificação do Grupo F da Liga Europa indicou. Despedida em grande em Frankfurt, depois de ter passeado classe, há umas semanas, no Emirates Stadium, em Londres."

José Manuel Delgado, in A Bola

Melhorar internamente

"Ignorar as evidências não ajuda nada a resolver o problema. Pelo contrário, significa empurrá-lo para debaixo do tapete. Portugal vive momento fantástico no futebol, seja em que modalidade for. Somos campeões europeus e mundiais, jogamos finais de seniores e de escalões de formação, temos jogadores e treinadores de top mundial, passámos a ser exemplo no mundo. A qualidade das nossas equipas de futebol, futsal e futebol de praia é reconhecida lá fora.
Quem lê o parágrafo anterior, ou quem não vive a realidade diária das nossas competições, pode ser levado a pensar que nada mais se pode fazer, ou que estamos perto de atingir o máximo das nossas capacidades. Nada mais errado. Estamos muito longe desse ponto, a começar pelas nossas competições internas. Precisamos de uma visão estrutural, que a federação tem tentado construir, sem que todos percebam a necessidade de unidade na reforma do sistema. As alterações, em qualquer das competições, amadoras ou profissionais, devem resultar em favor do equilíbrio dessa mesma prova. O mais importante que existe no jogo, pelo menos para mim, são os jogadores. As competições devem ser ferramentas para criar condições de desenvolvimento dos praticantes. Claro que quanto mais elevado é o nível de participação, mais são os parâmetros envolvidos para o sucesso do produto final.
Se temos capacidade e potencial, faz sentido criar condições para o desenvolvimento dos nossos jogadores. A começar pelos requisitos de participação. Devemos ser inclusivos, o que não significa não ser exigente. Óbvio que com bom senso, em virtude até das deficientes condições para a prática em centenas de instituições desportivas. Temos falta de espaços para treinar e jogar. Precisamos que todos sejam mais solidários e percebam que o sucesso se faz com o equilíbrio das diversas competições. O nível da competição interna reflecte-se no sucesso externo e nacional."

José Couceiro, in A Bola

Franco Cervi: Quem espera sempre alcança

"Franco Emanuel Cervi chegou ao Benfica no verão de 2016, proveniente do CA Rosário Central, por uma verba a rondar os 5,70 milhões de euros.
A vida do internacional albiceleste ao longo destes quatro anos de águia ao peito tem sido uma autêntica montanha russa, repleta de altos e baixos, sendo que a única constante tem sido a atitude irrepreensível que demonstra sempre que entra em campo.

Primeiros passos
A época de estreia de Cervi no futebol europeu não podia ter corrido melhor: dono e senhor da ala esquerda das “águias”, o argentino conquistou a Supertaça, sagrou-se campeão nacional, venceu a Taça de Portugal e foi um dos protagonistas da campanha europeia dos encarnados, que terminou nos oitavos de final da UEFA Champions League, aos pés do Borussia Dortmund.
O argentino foi um dos principais obreiros do 36º campeonato do clube da Luz, sendo a parceria que fez com Alejandro Grimaldo uma das mais temidas no futebol português.

Apagão
No entanto, a época seguinte foi um retrocesso em relação à anterior. Apesar de ter começado a temporada com a conquista de mais uma Supertaça, a época viria a tornar-se numa autêntica desilusão, com os encarnados a somarem zero pontos na fase de grupos da Champions League e a perderem o campeonato para os eternos rivais do norte.
Aliado a este insucesso colectivo, Cervi foi perdendo influência no plano de jogo das “águias”. Apesar de ter obtido bons números individuais – apontou quatro golos e somou dez assistências -, as exibições não enchiam as exigências das bancadas da Luz, sendo que a época seguinte não se adivinhava fácil para o argentino.
De facto, a época 2018/19 confirmou o que já há algum tempo se adivinhava: Rafa Silva assumia a titularidade da ala esquerda encarnada, sendo que Cervi passava agora um período de maior dificuldade em afirmar-se como opção válida para o ataque. Porém, as coisas iriam mudar.

Novo fôlego
24 de Outubro de 2019, o dia em que Franco Cervi ganhou um novo fôlego. Jogava-se o SL Benfica – Olympique Lyonnais, jogo da terceira jornada da fase de grupos da UEFA Champions League, quando Rafa Silva sofreu uma desinserção do tendão médio adutor à esquerda, lesão que afasta o português dos relvados até 2020.
Contudo, o azar de uns é a sorte de outros, e Cervi parece estar a atestar a veracidade desta velha máxima. O argentino tem aproveitado ao máximo a ausência de Rafa, protagonizando boas exibições – e até alguns golos – nas últimas partidas.
Cervi não tem a mesma capacidade técnica que Rafa, nem a mesma qualidade de passe, de decisão e, porventura, de finalização. Não obstante, compensa essas lacunas com uma capacidade de entrega e de sacrifício em prol do colectivo absolutamente notáveis. A sua entrada no onze veio estabilizar a equipa em termos defensivos, com o argentino a compensar as lacunas que são reconhecidas a Grimaldo nesse momento do jogo.
Apesar de não ser um jogador adorado por todos no universo encarnado, Franco Cervi tem justificado a aposta de Bruno Lage e, neste momento, voltou a ser um dos indiscutíveis na manobra das “águias”."

Campeonato. O dragão que espuma e a águia do sorriso amarelo...

"Os nervos explodem por entre os portistas à mais pequena contrariedade. Têm o fim de semana para descansar.

O dragão espuma, pelos vistos de raiva. Incapaz de botar fogo no Estádio Nacional, contra o Belenenses, o mal-estar rebentou e voltaram os tiques de um mau perder que se tornou uma doutrina desde os tempos em que José Maria Pedroto e o seu grande discípulo, sua eternidade o presidente do FC Porto, tomaram as rédeas do clube. Ninguém se surpreende. Ninguém parece sequer prestar atenção às diatribes que se desenvolvem na escuridão dos túneis, geralmente os locais escolhidos para que o civismo e a educação sejam brutalmente atropelados pela filosofia degradante da ameaça e da violência física. Ano após ano após ano, o filme repete-se. Desgasta os espectadores e destrói os protagonistas. Os opinadores, na sua maioria, calam-se. Não é conveniente acicatar a fúria. Há que esperar que ela passe. Ou que se dilua na alegria da próxima vitória.
Regressando ao campeonato na próxima segunda-feira, pelas 20h15, os portistas têm promessa de uma noite sossegada com a visita do Tondela, confortavelmente instalado a meio da tabela e sem preocupações de qualquer espécie. Aliás, ou Paços de Ferreira e Desportivo das Aves acertam com a pedalada dos que os precedem ou não tarda estaremos perante uma prova na qual umas dez equipas jogarão para coisa nenhuma, algo de preocupante para a competitividade que deveria balizar um campeonato. Mais cedo ou mais tarde será necessário concluir que 18 participantes (exactamente porque o grosso dos clubes não faz mais do que apenas participar) é um excesso. Uma gula maior do que a de Pantagruel e Gargântua juntos, convenhamos. E que justifica a forma como os primeiros da classificação se debatem com a impossibilidade de estar entre os 24 melhores da Europa.

Desilusão
Esperemos sentados o dia em que os senhores pomposos desta Liga tristonha decidam perceber o erro que cometem nesta insistência num campeonato pleno de desequilíbrios e entregue a um calendário com muito de absurdo, para não dizer estúpido.
Entretanto, depois do empate do seu único adversário na luta pelo título, a águia tem motivos para sorrir ao receber amanhã, na Luz, um Famalicão que vai de trambolhão em trambolhão, tal como se esperava depois de um início de época formidando. Quatro pontos de avanço à beira do passar do ano é suficientemente aliciante para atrair o público. E a forma categórica como venceu os últimos dois jogos, com a complicada ida ao Bessa (1-4) e a dura recepção ao Zenit de Sampetersburgo (3-0), dá ideia de que o conjunto de Bruno Lage se encontra no melhor momento da temporada.
Não pode deixar, apesar disso, o adepto encarnado de sentir uma certa desilusão. A Liga dos Campeões devia ter sido mais do que uma quimera, ainda que sabendo das dificuldades imensas que a fase eliminatória consigo acarreta. O Benfica, ao fazer três pontos nos primeiros quatro jogos e quatro nos últimos dois, deixou-nos a sensação de que só começou a correr, como a lebre da fábula de Esopo, quando a tartaruga já estava à vista da meta, pronta a ultrapassá-la no seu passo molenga. Não restam dúvidas de que a presença em campo dos jogadores mais batidos, e Pizzi acima de todos eles, a verdadeira mola de percussão do futebol ofensivo encarnado, teria sido fundamental para a obtenção de mais dois ou três pontos, os suficientes para colocar o campeão nacional nos dois primeiros lugares de um grupo que se confirmou equilibrado e que viu o Lyon apurar-se com apenas oito pontos, isto é, um a mais do que Benfica e Zenit. Um sabor a azedo ter-se-á misturado com a doçura advinda da vitória de terça-feira.
Este Benfica, o Benfica de Leipzig, do Bessa e da Luz, não pareceu inferior a nenhum dos seus adversários."

Mais dogmático que pragmático

"Dêem-me mais Famalicão, mais Vitória de Guimarães e mais Rio Ave. Dêem-nos a nós, aos que são felizes durante duas horas perante um rectângulo verde. A Liga portuguesa é pouco apelativa? Verdade, e menos será se não valorizarmos os que procuram fazer diferente e melhor, em particular os que investem no risco e na criatividade. E nos jogadores, que o jogo depende de boas ideias e treino competente mas é jogado por homens, que o determinam no limite. E quem os escolhe melhor, semana a semana, está mais perto de ser feliz.
É por isso que aprecio mais o actual Benfica que o de há um par de meses, porque se reencontrou com o talento. E bem pode ser Carlos Vinicius o rei das manchetes - é mais fácil paginar golos que qualidade de jogo - que o essencial da mudança foi tipo pudim instantâneo: bastou juntar Grimaldo, Taarabt, Chiquinho e Pizzi. Parece outra equipa, com muito mais ligação e menos busca da profundidade inútil. Ao FC Porto tem faltado mais capacidade de criar, criar mesmo, mudar o rumo dos jogos, algo demasiado dependente, por agora, dos dois pés igualmente magníficos de Corona ou do esquerdo de Alex Telles. É preciso mais Nakajima ou Luis Díaz de volta, mais Sérgio Oliveira ou Uribe de volta, para que o jogo ofensivo não fique demasiado preso a lançamentos longos em busca dos avançados potentes ou à comprovada eficácia nas bolas paradas.
É justo reconhecer que Silas conseguiu equilibrar um pouco este Sporting, crónico na instabilidade. Só que o plantel é de qualidade sofrível e apenas com remendos se faz um onze razoável. Tem três estrelas de primeira grandeza - Bruno Fernandes, Vietto e Mathieu - mas não há fitas de qualidade sem actores secundários de bom nível e esses escasseiam. O exemplo do ataque: Luiz Phellype, Bolasie, Jesé, Rafael Camacho, Jovane, Fernando, Plata, qual destes seria titular de um Sporting "a sério"? É isso, talvez nenhum.
Os rivais maiores na luta pelo terceiro lugar moram no Minho e rivalizam. O Sporting de Braga, de Sá Pinto, sobrevivente de lesões e um calendário apertado, foi salvando match points e reergueu-se, mas ainda não encontrou o caminho que o faça ser tão competente quando lhe roubam espaço como quando tem de o aproveitar apenas. A rotatividade foi necessária mas a equipa é sempre melhor quando os Hortas, André e Ricardo, podem ser irmãos também em campo. O Vitória de Guimarães, com o plantel mais amplo e equilibrado em muitos anos, busca ser tão competente como consegue ser sedutor, e o próprio técnico, Ivo Vieira, o admite. Talvez o caminho possa estar em fazer coincidir mais vezes Evangelista e João Carlos Teixeira, e sem deixar cair Al Musrati, já agora, o 6 que tem mais a cara do jogar de Ivo. E haverá sempre Marcus Edwards, um dos achados do ano, que vale sozinho o bilhete de alguns jogos.
Seguem-se o Famalicão, que faz mais sentido elogiar agora. É que perdeu pontos mas não deixou cair a identidade que, acredito, o fará ganhar de novo. Apresenta um plantel jovem mas escolhido num critério em que o talento conta e exibe um jogar de iniciativa que podia ser de equipa grande. Arrisca? Arrisca. Pode ser surpreendido por equipas especialistas em contra-ataque, como o Tondela? Pode. Mas estará mais perto de ganhar na maioria do jogos do que quem especula apenas. E vai em terceiro, a propósito, que os resultados não podem servir apenas para louvar os pragmáticos. E aos da frente já se chegou também o Rio Ave, guiado pelas mãos competentes de Carvalhal, com um meio campo que é mais de jogar que de correr - Felipe Augusto e Tarantini - e se equilibra na cobertura a um ataque de aceleração mas desenhado para ferir com qualidade, sobretudo quando junta Carlos Mané, Nuno Santos e Taremi.
Sou mais dogmático que pragmático quanto ao jogo. Acredito no talento e mais ainda na associação de talentos. Prefiro o Santa Clara com Rashid, Lincoln e Ukra, como gosto tanto mais do Moreirense quanto mais vezes Filipe Soares, Pedro Nuno e Luther Singh se conseguem encontrar no jogo. E os sintomas de retoma em Setúbal não se podem desligar de ver em simultâneo Eber Bessa, Carlinhos, Zequinha e Hildeberto, como os do Belenenses resultam de uma vontade de guardar bola, desde logo nos pés maduros de André Santos, Varela e Licá. Não é a melhor liga do mundo,? Não, nem perto, mas melhora com equipas que assumem iniciativa e acreditam que há vantagem em aumentar o número de criativos em campo. Sou sempre mais de ilusão que de resignação. Quero antes o dogmatismo utópico do belo jogo que o falso pragmatismo da eficácia bafienta.

Nota colectiva:
Real Socidedad - Imanol Alguacil, um desconhecido de 48 anos, tem dirigido em San Sebastián a melhor novidade da Liga espanhola deste ano. Os bascos afirmam-se pela convicção de ter a bola e de a ir tocando, num caos ordenado de mobilidade criativa. Seja em 1.4.3.3 ou num losango alternativo, emerge o talento, a partir dos passes de um central a que vale a pena atentar - Diego Llorente - mas que se sublima nas sociedades estabelecidas entre o esquerdino Oyarzabal (craque já de selecção espanhola), o rápido Portu e esse magnífico Odegaard, que confirma aos 20 anos tudo o que se lhe vaticina desde que o Real Madrid o contratou, ainda adolescente. Não percam de vista esta Real.

Nota individual:
Luís Alberto - sempre me encantaram os médios elegantes e este espanhol da Lazio com nome de ator de novela enfileira com os melhores, na linha de Antognoni, Falcão (o brasileiro) ou Kaká. Vê-lo é apreciar o melhor da qualidade com bola, no modo como a trata com ambos os pés, como decide entre progredir ou passar, assistir ou rematar. Ver Luis Alberto é bonito, sem mais, mas os números também falam, que vai em 2 golos e… 11 assistências. Se Immobile é rei dos goleadores e vive o apogeu de uma carreira muito lhe deve. Com Milinkovic-Savic, Luis Alberto faz a dupla de criativos que vale o terceiro lugar em Itália e umas quantas horas de prazer a quem gosta mesmo deste jogo único."

Pensar em 2024

"A última vez que Portugal colocou quatro equipas nos 16 avos-de-final da Liga Europa foi em 2010/11, temporada histórica que terminou com a final de Dublin entre FC Porto e Sp. Braga (e mais o Benfica nas meias-finais). A história poucas vezes se repete, mas a presença das quatro melhores equipas nacionais na fase a eliminar da segunda competição da UEFA só pode ser motivo de optimismo, até porque três delas terão estatuto de cabeça de série no sorteio e esta edição não está particularmente recheada de tubarões. Pensar em colocar duas equipas na final, ou até uma, não passa nesta altura de um sonho; mas, no mínimo, trata-se de uma boa oportunidade para continuar a crescer no ranking UEFA: a Rússia está definitivamente para trás, mas convém continuar a somar pontos para assegurar que chegamos a 2024 – ano da anunciada mudança de formato na Champions – o mais bem colocados possível.
Conhecidos os 48 clubes que irão continuar na UEFA na segunda metade da época, os números falam por si: das 28 equipas colocadas em prova pelos quatro maiores países (Espanha, Inglaterra, Alemanha e Itália), há 25 que continuam em competição (e, destas, 14 estão na Champions). A Europa está cada vez mais a duas velocidades, também no futebol."

Boas razões para deitar foguetes

"No rescaldo de mais uma semana europeia de futebol há boas razões para festejar. O saldo é francamente positivo e abrange diversas áreas.

Para começar as quatro vitórias registadas por equipas portuguesas nas competições da UEFA: a começar pelo Benfica, que despachou os russos do Zenit, embora sem ter conseguido continuar naquela que é a mais importante competição e, não muito tempo depois, FC Porto, Sporting de Braga e Vitória de Guimarães na antiga Taça UEFA.
Resta o dissabor do Sporting, que não foi capaz de segurar o comando do seu grupo, e produziu mais uma exibição e um resultado que não merecem mais do que um rabisco na página esquerda da sua gloriosa história. O treinador Jorge Silas correu riscos demasiados ao introduzir nove alterações numa equipa já de si depauperada e, ainda por cima, com a justificação de um cansaço que não é fácil perceber “nesta altura do campeonato.”
Grande mérito para os dragões, que concretizaram, com sucesso, o assalto ao primeiro lugar do seu grupo, numa noite electrizante que só foi pena não ter contado com a habitual presença do seu público afecto.
E, do mesmo modo, referência especial para o comportamento do Sporting de Braga, capaz de vencer fora pela segunda vez (já vencera no Wolverhampton) e assim cimentar a qualidade do seu futebol quando jogado no exterior.
E, sem sair do Minho, aplauso especial para o Vitória de Guimarães, não apenas por ter sido capaz de vencer no campo de um alemão poderoso, mas porque, tendo entrado no denominado “grupo da more” deixou, ao longo de seis jogos, uma imagem de qualidade que não vai certamente deixar de ter reflexos no futuro.
Para além de tudo isto, que não é pouco, o brilhante saldo granjeado pelos treinadores portugueses: são nada menos de nove presentes na fase a eliminar das duas competições europeias. José Mourinho é o único a permanecer na Liga dos Campeões mas, para além dele, temos Bruno Lage, Sérgio Conceição, Sá Pinto, Silas, Nuno Espírito Santo, Paulo Fonseca, Pedro Martins e Luís Castro.
Num país que tem cerca de duzentos treinadores e adjuntos a trabalhar espalhados pelos cinco continentes, muitos deles com uma soma considerável de vitórias, há boas razões para festejar os muitos passos em frente que têm sido dados nos últimos anos.
O mesmo pudéssemos nós dizer em relação àquilo que se passa, em vários domínios, a nível interno. Mas essa é outra conversa…"

We wish you a Merry Curling

"Além da tradição desportiva desta época - o «Arremesso de calorias para o bucho» -, é imperativo falar do outro grande desporto da quadra natalícia: o Curling, obviamente.
Portanto, a minha crónica desta semana é uma espécie de «MaisCurling», algo pelo qual o grande público já suspirava - e o pequeno público também -, só que como é mais pequeno os suspiros não se ouvem.
O Curling, para quem não sabe (e devia ter vergonha), é um desporto de inverno que consiste em lançar chaleiras de chá gigantes, contra outras chaleiras de chá gigantes, ao longo de uma pista de gelo com um alvo pintado no final.
Em termos práticos, o Curling é um «Chinquilho on Ice». Não é uma coisa da Disney, é só uma cena dos escandinavos. Claro que podiam jogar à sueca no parque, mas da última vez que o fizeram, o Sven demorou mais de 10 segundos a jogar a manilha e tiveram que o descongelar com um lança-chamas.
Portanto, lá nas Suécias, nas Noruegas, nas Dinamarcas, o que é que eles fazem quando não têm nada para fazer?
«Pessoal, bora brincar às chaleiras de chá gigantes no gelo?» – grita efusivamente o Gustav, ao que os outros respondem «Olha que boa ideia, já estava farto de estar em casa no quentinho a ouvir os ABBA, vamos mas é divertir-nos».
E vão.
Todos contentes lançam chaleiras sob vinte graus negativos. Confirma-se, portanto, que o frio faz mirrar certas partes do corpo, que no caso dos nórdicos é o cérebro.
Mas o que é realmente sui generis no Curling é ter uns tipos com vassouras a varrer o chão à frente das chaleiras, enquanto estas deslizam pelo gelo. E é aqui que se vê a civilidade destes povos do norte da Europa. Eles divertem-se mas limpam a porcaria que fazem.
«Ó Johanssen, toma lá a chaleira e passa aí ao Larsson, mas não te preocupes que o Eriksen é uma fada do lar e já está a limpar o soalho, com especial atenção aos rebordos!».
Isto, meus amigos, é gente com classe. Assim dá gosto ficar sem os dedos das mãos devido à hipotermia.
Fossemos nós portugueses e aquilo seria uma bandalheira, com chaleiras de chá com cheirinho de aguardente, bocados de torrada espalhados pelo gelo, e limpar com a vassoura tá quieto: tuga que é tuga só usa uma vassoura para bater no tecto quando os vizinhos de cima fazem barulho a praticar o amor. Fora isso, a empregada que a use para limpar tudo no final da semana.
Mas não se julgue que tenho algo contra o Curling, que não tenho. Longe de mim fazer pouco de um desporto que traz felicidade a milhares de apreciadores de ice tea por esse mundo fora.
Além disso, o Curling é um desporto olímpico. Tão olímpico que até há atletas que recorrem ao doping para melhorar as suas performances.
(Juro que é verdade.)
Que forma de doping usarão, não faço a mínima ideia. Mas só estou a ver uma possibilidade: em vez de usarem uma vassoura para limpar o gelo, usam um mini-aspirador sem fios. Mas isso sou só eu que não percebo nada de doping. Embora perceba muito de Curling."

Vamos mostrar aos desportistas que não são esquecidos

"Estamos para o desporto como as crianças estão para os brinquedos do Natal! Nesta época natalícia somos sempre bombardeados pelo excesso de publicidade aos brinquedos e consequentemente pela quantidade que oferecemos aos mais pequenos…
Também já fui criança e adorei recebê-los. Entendo e não quero com isto dizer que as prendas não sejam algo positivo para a felicidade dos mais novos mas, talvez sejam demais...
E o que acaba por acontecer? São esquecidos passado pouquíssimo tempo! Verdade?!
Quantos de nós não caímos nela...
O que nos coloca no caminho certo para esta "discussão".
Seremos nós crianças no desporto? Ou crianças nesta sociedade globalizada e ávida de significado? Vemos um resultado desportivo e é maravilhoso até cair no canto mais escuro das lembranças.
Culpa em parte da era da comunicação global... rápida... super rápida... consumidora de informação... nova, verdadeira ou falsa... poluente, às vezes, e diluídora da importância das verdadeiras notícias. 
Obviamente, podemos "culpar" o individualismo. Que de bom tem o facto de cada um ser único e cada vez mais bem aceite na sociedade, mas que, por cada um ter interesses específicos, coloca informação excessiva no nosso dia-a-dia. E não é negativo, é apenas o mundo onde vivemos.
Ser atleta é tão mais que um momento, embora seja para ele que trabalhamos!
Infelizmente, o interesse da maioria das pessoas é pouco. É fugaz e é tão alto como baixo…
É uma luta para ser reconhecido e outra luta ainda maior para existir no meio das "toneladas" de informação que todos os dias chegam até nós.
O futebol nisso está melhor... Por muitas razões, sim... mas a envolvência do povo comandará sempre tudo! O povo é que manda!
Sejamos curiosos, interessados e acima de tudo Portugueses… e queiramos dar uma prenda aos atletas neste Natal!
Mais do que algo físico, neste Natal eu sugiro, desafio e peço a todos, de coração, que seja dado a um ou mais atletas, à vossa escolha, pelas redes sociais ou pessoalmente, uma palavra de apoio para o ano que aí vem!
Uma palavra de apreço... uma palavra de solidariedade...
E acreditem que vai ter um impacto enorme se cada um de vós o fizer e pedir aos amigos e colegas para fazer o mesmo.
Vamos mostrar a todos os desportistas que não são esquecidos e que, nesta família que é Portugal, neste Natal nenhum atleta estará só!
Sejamos nós a mudança que queremos ver na sociedade!
Feliz Natal!"

Memória, Desporto e Paisagem

"De que forma fariam a história os jogadores, os treinadores, os árbitros, os técnicos, os médicos, os nutricionistas, os fisioterapeutas, os psicólogos, a assistência, o apanha bolas, o jornalista, o repórter, os agentes dos jogadores e dos treinadores, os corpos policiais, os presidentes dos clubes, os políticos? De que modo se poderiam eventualmente cruzar as perspectivas de ‘uns’ e de ‘outros’ e de ‘todos’ entre si? E com a história dos ‘historiadores’ consoante os problemas, os pontos de partida de ‘uns’ e de ‘outros’? Que história poderia resultar do encontro, do cruzamento entre as perspectivas esboçadas e ‘alcançadas’ pelos próprios historiadores entre si? E dos economistas e os historiadores? Ajustadas ou não, certamente completar-se-iam e enriqueceriam o conhecimento de quantos a esse registo poliédrico tivessem acesso.
Para isso, seria necessário tempo. Um tempo sem pressa, que a sucessão veloz cada vez mais acelerada e compacta dos acontecimentos não permite ao assentar nem de episódios nem de grandes sínteses. Seria necessário ainda a formação de grandes equipas de estudiosos de áreas distintas, estudiosos dedicados e desinteressados de outros objectivos paralelos – carreiras, financiamentos, interesses partidários ou clubísticos, rivalidades, prestígios, poder, qualquer outra forma de ascendente – onde a memória recente e a distante se reconstituíria a partir de entrevistas etnográficas, entrevistas de jornalistas e de repórteres, conferências de imprensa, histórias de vida, as diversas biografias, registos médicos, estudos biomecânicos, fichas de psicólogos e de fisioterapêutas, inovações técnicas e tecnológicas, tipos de treino, análises de jogo, sistemas tácticos, provas diversas, de diferentes equipas, de sponsors distintos e ‘obrigações’ inerentes – como a exibição de sapatilhas, para destaque de uma marca, em vez da bandeira nacional, ou de uma camisola com uma determinada marca bem vísivel no peito, em vez de uma vestimenta formal num encontro promovido pelo responsável máximo da nação. Seria necessária uma vasta equipa de especialistas de áreas distintas o que não se afigura acessível por diversas razões.
Quando vivemos a história de um tempo, de um lugar, de uma instituição ou de um fenómeno social em particular – por exemplo a ginástica sueca, a ginástica artística, a ginástica rítmica desportiva, um desporto qualquer, seja o golfe, a vela, o pentatlo, o tiro, o judo, o ciclismo ou o futebol, o confronto com a história feita pelos historiadores e a história pessoal e colectiva não se ajusta por inteiro e desperta naqueles que a viveram directamente uma impressão de estranheza. Se por um lado a história elaborada pacientemente pelo historiador procura dar coerência aos dados reunidos, por outro, a experiência de quem nela participa no seu quotidiano de décadas parece destacar o que escapou ao trabalho cuidadoso do historiador. Esta situação não pode deixar de nos levar ao questionamento da própria história, do que fica para a consideração do historiador, e daquilo que lhe escapa, aquilo que foi a realidade vivida por quantos participaram nos problemas estudados. Esse espaço entre a experiência dos factos (vivida por uns) e a recolha e tratamento daquilo que fica inscrito em diferentes documentos disponíveis, analisados segundo procedimentos cientificamente conduzidos (operação construída pelo historiador), corresponde ao lugar da vida vivida, dos encontros e desencontros, dos sentimentos, das ideias e das suas diferentes perspectivas, dessa amálgama de aspectos que a vida em comum de certa maneira depura, a vida que pulsa e que se esvai do trabalho do historiador. Na história de um tempo de vinte, trinta, quarenta anos a memória salvaguarda as impressões inscritas que se destacam, as repetições e coincidências são marcadas pela unanimidade, ou quase, e as diferentes narrativas do vivido acabariam por enriquecer a síntese do historiador mais atento, mais voltado para a sensiblidade do vivido, do mais profundo.
Interessante é assinalar que a palavra história vem da palavra histor que significa testemunha, aquele que presencia, aquele que nessa condição de alguém que, de certa forma, participou em algo significativo e que merece ser transmitido aos outros os quais, por sua vez, farão inevitavelmente o mesmo consciente ou inconscientemente. Essa testemunha é a história viva, ela é a prova daquilo que viu, daquilo em que participou nem que fosse apenas como assistente de uma representação dramática, cómica, trágica. E é assim que a história antes de ser do historiador é daqueles que a viveram, que a testemunharam, que a transmitiram aos outros, aos mais novos, a todos – para que não esquecessem, para que cuidassem desse conhecimento feito de um capital de experiência, e que o partilhassem com os mais novos os quais, por sua vez, o haviam de passar aos outros, aos vindouros. No caso do desporto, atletas, jogadores, treinadores, equipas técnicas, são simultâneamente participantes, intérpretes, narradores da sua experiência e aí, nesse quadro do vivido, entra também o jornalista, o repórter, o comentador especializado e sério, o fotógrafo. Cada um com o seu registo, a sua perspectiva daquilo que acompanhou, de que fez parte. Muitas vezes, as interpretações multiplicam-se, podem também afastar-se e estarem longe de ser coincidentes – veja-se a novela permanente, excessiva e saturante do futebol nacional. É só isso? E tanto alarde?
Se a participação é marcada pelo facto de ser parte de algo, ou da vida de alguém, de um agir, de uma actuação, de um envolvimento directo ou até indirecto, ela é também com o decorrer do tempo um distanciamento inevitável. Face ao olhar crítico do historiador, construído na escolha dos dados que reune depois de seleccionados segundo uma questão inicial que o orienta, a confrontação com aquilo que ficou registado obedece a uma perspectiva exterior, de fora, o historiador encontra-se separado, na verdade – excluído. O valor da memória, elaborada pelo historiador numa perspectiva fria, desligada de qualquer emoção e antes do mais dominada pelo espírito lógico e racional, não pode coincidir com o registo feito pelo interveniente, o observador envolvido, a testemunha, as situações onde a emoção acentua diferentes tonalidades do contexto, as entoações e a ênfase da própria palavra, a partilha, o mundo da experiência directa onde a transmissão é assegurada pelo sensível, a impressão como marca da situação tal como foi vivida por aquele que a relata, que a transmite e assim a passa aos outros.
A realidade de ‘uns’, a realidade de ‘outros’ e a realidade dos historiadores e dos especialistas das áreas humanas e sociais é inevitavelmente parcial, limitada a um ponto de partida, a um período possível de abarcar dentro de restrições diversas, até de acesso aos principais intervenientes no fenómeno desporto. A relação entre todas as perspectivas, entre todos os níveis de análise é dificultada pelas exigências de um trabalho sempre limitado pelo tempo sentido sempre como sendo curto.
É importante cruzar a história enquanto construção do historiador e a memória enquanto cultura, tradição e transmissão. Ou seja, uma maneira de ver aquilo que foi vivido, por exemplo a participação numa vida, numa guerra, num desporto, numa competição, num jogo, a necessidade de o contar, como se diz, de falar sobre isso e de legar a quem quer que se disponha a ouvir ‘aquilo que foi’ tal como foi vivido por aquele que o transmite – seja a situação geral, as ideias dominantes, o espírito do tempo, seja a situação pessoal, familiar, do círculo de amigos, de colegas, de uma nação. É o discurso directo que passa a indirecto por aquele que o afirmou. A história do historiador ficaria desta forma enriquecida pelos condimentos da vivência, o sabor da experiência sentida e quantas vezes pensada sobre o olhar de cada interveniente no jogo da vida, da multiplicidade de factores recortados do vivido, verdadeira observação participante ligada profundamente ao facto de estar e, ao mesmo tempo, de distanciar-se, de obrigar-se ao distanciamento que a possibilidade de algum tempo mais acentua e organiza. Decerto aí, o jornalista de investigação, que escasseia na nossa sociedade e em particular no universo desportivo, estaria mais apto a captar essa parte do registo histórico. E para isso não basta a certificação académica mas, antes, a vontade de ir ao fundo das questões do humano sem montar espectáculo sobre o que quer que fosse – nem mesmo sobre o espectáculo. Quando Fernando Mamede desistia, em vez da crítica a compreensão. Apesar de tudo, o atleta não é ainda uma máquina – nem o será.
De um modo geral, quer a perspectiva dos profissionais do desporto ou dos amadores, uns e outros ligados ao desporto a diversos níveis, quer a perspectiva do historiador académico ou amador, ou ambos (o caso de Rómulo de Carvalho, físico e historiador da física em Portugal), confronta-se com a dificuldade de construir (de re-construir) a relação entre as partes (o jogo, o atleta, a técnica, a habilidade, as ciências do desporto, a entrevista, a conferência de imprensa, a biografia, o clube, os adeptos, etc.), a relação que representa o todo social. A única maneira de ver (compreender) essa linha ténue onde o social se materializa é onde o todo social é personificado, onde o social é compreendido como totalidade – o que exige um olhar preparado. Preparado pela vida, preparado pela capacidade de ler o todo num simples facto, esse facto que precisamente se apresenta à maioria como insignificante, por exemplo, a derrota, a vitória, o êxito, o prémio, a lesão, a imensa frustração, a igualmente imensa vontade de vencer que impele para a frente. Depois de várias lesões, de várias operações uma delas ao pescoço, Johnny Wilkinson manifesta, quase no limite da sua carreira de jogador de râguebi todo espatifado, que finalmente encontrou o acordo entre o seu corpo e o seu ser equilibrado, justo. E Garret Thompson, herói nacional também no râguebi, casado e pai de família, depois de assumir a sua homosexualidade, depois de assumir a sua situação de doente com HIV, aceita finalmente a sua fragilidade, talvez a sua mortalidade – que a lenda já tornou imortal.
E chegamos àquele ponto no caminho onde estamos perante a paisagem. Esse lugar de onde se avista tudo, onde é possível ter uma visão geral do que se encontra diante de nós. ‘A’ paisagem pois sempre nos remete para um lugar de onde viemos, um lugar físico e ainda simbólico, um espaço de pertença (que se aceita ou se rejeita), um sítio onde existem profundos laços em comum, as raízes do ser individual que é sempre também colectivo – parte integrante de todos, do que para nós é ‘tudo’. O país, a região, o lugar de onde viemos e onde uma identidade foi forjada em cada um de nós, uma construção mental que nos estruturou e que nos acompanha ao longo da nossa existência, da nossa vida biológica também. Ao contar-se os feitos do desporto reduzindo-os aos resultados, e só os primeiros ‘valem’ pois tudo é o resto é assumido pelos apressados profissionais da comunicação social (e outros) como ‘sem valor’, logo verdadeiramente desvalorizados, reduzindo as performances (representações), aos ‘milhões de euros’, às habilidades, ao corpo atlético, ao físico, a matéria que os torna visíveis, aos casos diversos e aos faits-divers, torna as pessoas ‘uma coisa’, um bem móvel, de quem é uma posse de algo, de alguém, omite o carácter da gente que faz com que o desporto seja o fenómeno que é, na verdade, não pelos resultados mas por aquilo que de nós se vê (vemos de nós) em cada prova. Quando cada um de nós tem uma história, e essa história integra-se na história colectiva, comum, pelo que a partilha daquilo que cada um viveu no contacto com um colega, um amigo, um professor, um actor (sempre seres individuais totalmente sociais) terá aspectos secretos, silenciosos, ocultos, mas terá sempre ainda uma dimensão de todos que os sobreviventes não podem deixar de legar. Dessa forma será possível construirmos a nossa história, mais próxima daquilo que, o nosso vivido em comum é, nos tornou aquilo que somos, e necessariamente – aquilo que genuinamente queremos ser."