Últimas indefectivações

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Benfiquismo (MCCXI)

O meu ídolo...

Manipulação... pela enésima vez!!!

"Boa noite a todos e aos nossos colegas da CMTV. Só para informar que a nota de rodapé do acórdão não é uma acusação ao Benfica por parte do juiz. É isso sim, uma lista das acusações do FC Porto ao Benfica dentro do contexto da divulgação dos emails no Porto Canal.
É só para isto não passar entre os pingos da chuva, chega de deturpação. É urgente esclarecer o grande público, pena a CMTV não estar para aí virada."

A loucura do mercado

"A profissão de futebolista é das poucas em que se pode ganhar uma fortuna antes de apresentar serviço e em que as expectativas de um futuro currículo podem valer mais do que o currículo em si. João Felix, de 19 anos e seis meses como “estagiário”, vale mais para os empregadores do que Eden Hazard, de 28 e profissional de classe mundial com dezenas de títulos colectivos e individuais.
Os espectadores, estupefactos ou incrédulos, dividem-se entre o orgulho e a inveja, consoante a proximidade com os protagonistas, mas, no fundo, tendem a acreditar que existe uma lógica para as loucuras do mercado dos dirigentes, apesar de nenhum negócio poder prosperar com este sistema. Nenhum negócio normal, quero dizer, o que não inclui o dos agentes, também conhecidos como "empresários".
Os media ampliam este frenesim e, ao fim de quase trinta anos de mercado de verão, continuam na mesma lógica insana de considerar e apresentar ao público qualquer candidato como excelente, evitando o odioso da dúvida metódica. Os jogadores, por menos qualidade que possam ter, são todos apresentados como “reforços”: no Atlético de Madrid ninguém duvida neste momento que João Félix seja um reforço e ai de quem ouse duvidar.
E não devia ser assim. Mesmo correndo o risco de perder alguns achados, a lógica de gestão de um clube profissional devia reger-se por objectivos e premiação, como na maior parte das carreiras profissionais. Porque a taxa de sucesso relativo das novas contratações não ultrapassa os 20 por cento, o que equivale a dizer que são muito mais os falhanços do que as boas operações desportivas e financeiras e que 80 por cento dos jogadores valem menos na venda do que na compra.
Tomemos como exemplo o mercado português de há um ano. O Benfica contratou Vlachodimos, Corchia, Ebuhei, Conti, Lema, Alfa Semedo, Gabriel, Ferreyra e Castillo. O FC Porto reforçou-se com João Pedro, Janko, Jorge, Mbemba, Eder Militão, Bazoer e Paulinho. O Sporting adquiriu Renan, Viviano, Bruno Gaspar, Marcelo, Gudelj, Nani, Raphinha e Diaby.
Neste conjunto de promissoras estrelas gastaram os três clubes 80 milhões de euros, que teriam redundado em perda quase total, não tivesse havido o milagre Militão, graças à incompetência do “scouting” do Real Madrid, que podia tê-lo adquirido um ano antes por seis vezes menos. Para lá do defesa brasileiro, só Vlachodimos, Gabriel, Renan, Gudelj e Raphinha se encontram, ao fim de um ano, numa linha de evolução desportiva que justifique a aposta. Tudo o resto, com o devido respeito, foram erros de casting ou de incompatibilidades com os objectivos - dentro da média habitual de apenas um acerto por cada cinco contratos.
Quando são cada vez mais e maiores os espaços mediáticos dedicados ao tema em época de defeso, um trabalho dos mais difíceis e complexos, devido aos evidentes riscos permanentes de especulação (dos jornalistas), manipulação (pelos agentes) e propaganda (dos clubes), em que o sentido da abordagem é sempre positiva, alimento a expectativa de um especialista que seja capaz de vaticinar fracassos e que entre em contraciclo com a tendência de que tudo o que vem ao mercado é craque.
E esta transferência de João Félix para o Atlético de Madrid tem muitas possibilidades de redundar num erro de casting também, desde a relação custo-rendimento, à adequação equipa-jogador: o Atlético não é, seguramente, o clube indicado para quem queira tornar-se no melhor jogador do Mundo."

Jorge Mendes e o Benfica

"Por esta altura, já não parece haver muitas dúvidas que João Félix até Julho será apresentado noutro clube. Três dos mais altos dirigentes do clube vieram dizer ao longo do último mês que ele só sairia pela cláusula, como tal, não há outra maneira de ele sair a não ser pelos 120M da cláusula. Eden Hazard custou 100M ao Real Madrid, Julian Brandt custou 25M ao Dortmund e Frankie de Jong custou 80M ao Barcelona. Não há maneira possível ou imaginária de alguém pagar 120M por João Félix. Ele muito provavelmente vai valer isso ou até mais. Mas neste momento não vale. Ainda assim, aparentemente, alguém vai mesmo pagar esse valor e tudo isso se deve única e exclusivamente a um só nome: Jorge Mendes.
O mercado do futebol mudou após a transferência de Neymar para o PSG. Desde aí os valores ficaram todos muito inflacionados. 27 das 50 maiores transferências da história foram feitas nesse verão ou nos dois anos que se seguiram. Jogadores de 30-40M começaram a chegar a valorizações de 70-90, num instante. O Benfica nunca fez uma grande transferência já depois da chegada de Neymar a Paris.
Ainda assim, o trabalho de Jorge Mendes é inegável:
1. Ederson, com ano e meio de Benfica, é o 4º guarda-redes mais caro do mundo, sendo que os dois primeiros foram ambos transferidos pós-Neymar. Foi mais caro que Courtois (pós-Neymar), Neuer (30M), de Gea (25M) Lloris (12.6M) ou ter Stegen (12M).
2. Victor Lindelof é o 17º central mais caro do mundo e jogou apenas um ano e meio também. O Davinson Sanchez foi do Ajax para o Tottenham no mesmo ano, mas já com o mercado a fechar e custou apenas 40M. O Rudiger e o Hummels foram para o Chelsea e para o Bayern pelo mesmo preço que o sueco custou ao United.
3. Nelson Semedo é o 3º lateral direito mais caro da história. Custou mais que o Danilo (31M ao Real Madrid), custou quase o dobro do Ricardo Pereira ou do Diogo Dalot. Custou menos 5M que o João Cancelo, se bem que com a cláusula dos 5M pelos jogos, a diferença já é "só" de umas centenas de milhares de euros.
4. O Gonçalo Guedes não valia, nem de perto, os 30M que custou ao PSG. Nem titular indiscutível do Benfica era. O rapaz vai ser um extraordinário jogador, mas nem titular no Benfica era, como é que poderia valer 30M?
Todos estes negócios incríveis só aconteceram devido a Jorge Mendes. É um facto. Estes jogadores, com outro agente qualquer, nunca sairiam por estes valores ao final de apenas meio ano ou um ano de experiência profissional. São raríssimos os casos em que isso acontece e normalmente é sempre consequência do contexto (o mercado está a fechar e já não há mais alternativas, como tal o clube tem que pagar um preço premium). Isto quer dizer, que para mim, aquela conversa do “ele só vende os jogadores que são fáceis de vender” não se pode aplicar. Não é fácil vender um jogador que tenha tão pouca experiência. E daqui surgem duas perguntas completamente legítimas:
1. Se os jogadores ficassem mais tempo, não seria mais fácil vender por esses preços? Pois. Parece-me bastante óbvio que sim. O Sporting não vendeu João Mário, Slimani e Bruno Fernandes à primeira e conseguiu maximizar o valor de cada um. No entanto, por alguma razão que ainda me é difícil descortinar, o Benfica continua a vender jogadores sem grande experiência. E muito se deve à máquina de propaganda que temos montada para valorizar os jogadores. Não é preciso os jornais fazerem entrevistas a dirigentes, ou fazerem mega-reportagens sobre o Seixal, para o mundo saber que temos realmente a melhor Academia do Mundo. Isso vê-se pela qualidade de jogadores que sai de lá. No entanto, nós estamos sempre a vender o nosso peixe e a certa altura isso começa a prejudicar mais do que beneficiar.
2. Para quê vendê-lo? Se o João Félix não vale 120M e se alguém paga 120M é porque metemos o maior vendedor do futebol mundial a vendê-lo? É algum título para o Benfica ter a 5º transferência mais alta do futebol mundial? Nenhum dos 120M vai chegar ao meu bolso. Nem dos 120M, nem dos 80M que já tínhamos feito em vendas (Jimenez, Jovic e eventualmente Carrillo). A única coisa que o Benfica me dá são títulos e ao vender o João Félix estão a baixar a probabilidade do meu Benfica ganhar títulos. É que os 120M vão chegar cá, pelo menos 12M vão para o Jorge Mendes (como é perfeitamente justo, porque sem ele o João Félix não seria vendido por 120M) e os 108M que sobram vão ser gastos em Jhonder Cadiz, Pedros Neto e jogadores parecidos. Já verdadeiros craques, talvez tenhamos a sorte de um Raul de Tomás, mas ficaremos por aqui. Para quê meter o maior vendedor do mundo a vender um craque quando depois não fazemos nada com o dinheiro a não ser esbanjá-lo em jogadores que não precisamos. O Pedro Neto, que não é mau jogador, não é melhor que o Willock, Zivkovic ou que o Jota. E muito provavelmente um ou dois destes jogadores não vão ter lugar no nosso plantel. Para que é que queremos o Pedro Neto se podíamos ter o João Félix?!
Jorge Mendes, dependendo da perspectiva de cada um, pode ser um grande parceiro da empresa Benfica ou o pior parceiro do clube de futebol SL Benfica. Se vocês virem o Benfica como uma empresa, de certeza que estão contentes com a venda do João Félix e com o parceiro Jorge Mendes. Se vocês vêem o Benfica como um clube, não sei quanto mais tempo vão aguentar. Eu pessoalmente começo a ficar um esgotado com a conversa de “queremos fazer uma boa campanha na Europa” e “vamos fazer tudo para os segurar”, mas um mês depois lá temos o melhor vendedor do mundo a negociar a nossa melhor promessa. E é verdade, nós vamos sair por cima disto tudo. O João Félix ainda não vale 120M (ou 108M porque 10% são do Jorge Mendes). Mas também vamos perder um jogador da qualidade de Félix que sabemos que se calhar só daqui a mais 20 ou 30 anos poderemos ter um igual.
O Eusébio se reaparecesse no Benfica hoje, era vendido ao final de 6 meses. Temos uma Estátua do nosso melhor jogador de sempre que se tivesse nascido 60 anos mais tarde, teria sido uma lenda de um Atlético Madrid ou de um Manchester City. Se isto não faz os benfiquistas pensar, eu não sei o que fará."

O 'Dôjô' (centro de prática)

"Os praticantes de artes marciais e desportos de combate (AM&DC) evoluem num espaço próprio, espaço esse que impõe um código normativo e um conjunto de condutas. É apelidado, pelos praticantes, de “dôjô”, que podemos traduzir como dô, caminho ou via, e jô, lugar de treino.
No conceito processual de Merton, os centros de prática são um “lugar estratégico de investigação”. O dôjô insere-se nas chamadas instalações desportivas de base formativa. Mesmo que seja um ginásio, o dôjô tem um significado mais abrangente. Para os praticantes de AM&DC marciais, “o dôjô não é apenas um ginásio, mas um lugar sagrado” e de “iluminação”, onde, sem hierarquia de classes sociais, se vai treinar o corpo e o espírito, segundo a via (dô), desenvolver, através da dura aprendizagem das técnicas, as qualidades físicas e morais (endurecimento, vontade, perseverança, lealdade, força de carácter), combater os defeitos como as vaidades, orgulho, preguiça, etc. Um treinador de judo disse-me, em entrevista, em 2017, o seguinte: “surge nas artes marciais uma distinção. O desporto treina-se no ginásio. As artes marciais treinam-se no dôjô, no local de iluminação. A diferença é de atitude mental. Para quem inicia a prática, isso não faz sentido. Tem que ser educado. No desporto não educam. Para nós, quando alguém entra é logo ensinado a fazer uma saudação. Para nós, é o local onde vamos evoluir. Temos que mostrar respeito”.
O dôjô pode ser uma sala de treino privada, equipada com espelhos e sacos de boxe, ou uma sala de um clube público devidamente apetrechada. É o local onde os entusiastas partilham os seus treinos e conhecimentos. É o espaço longe do ambiente familiar. Os rituais (conjunto de signos – fórmulas, sinais e palavras – destinados a regular certos actos) praticados no dôjô mergulham os praticantes no tempo dos samurais, dos mestres, cujos retratos, “totens do grupo” figuram no local.
Para além de ser um local de prática e de ensino de artes marciais e desportos de combate, onde se encontram homens e mulheres de direita e de esquerda, ateus, agnósticos e crentes, idealistas e oportunistas, outros acontecimentos ritmam o dôjô: organização de almoços e jantares entre amigos, organização de passeios, festas, colóquios, seminários, etc. É frequente escutar durante os aquecimentos musculares (“warm-ups”) os praticantes falarem sobre temas societais variados: política, religião, relação familiar, sexualidade, vida quotidiana, entre outros. No fundo, os centros de prática são as células base deste desporto e funcionam como “empresas” concorrentes.
A adesão a um centro de prática não é, por vezes, um critério satisfatório. Os membros-praticantes não estão no mesmo plano. Alguns pagam a sua mensalidade e dão-se conta que não gostam da disciplina que eles imaginavam diferente à partida (ou seja, a um plano sonhado pode não corresponder a um plano prático); outros acabam por deixar a actividade (aborrecem-se ou têm impedimentos familiares ou profissionais); outros, apesar de gostarem, são “alérgicos” aos esforços físicos. Querem fazer o menos possível. Existem “corpos activos” e “corpos preguiçosos”.
Para frequentar os treinos, os praticantes têm que pagar, para além de uma mensalidade (entre os vinte e cinco e os trinta e cinco euros), um selo anual, que se coloca num cartão pessoal (quando existe), permitindo-o ir a estágios e a treinos especiais. Para além disso, e caso o praticante não tenha, é exigido o pagamento de um seguro desportivo na ordem dos cinco euros (valor variável). Com tantos pagamentos, muitos jovens são forçados a renunciar à prática das AM&DC (e de outras práticas desportivas) por falta de recursos financeiros.
A observação da realidade da vida quotidiana de um dôjô permite verificar que a frequência de um centro de prática implica um “conjunto de regras/normas básicas”, que poderão ser de comportamento, de saúde e de higiene, quer pessoal, quer das instalações. No caso do karaté e aikido, por exemplo, antes de começarem a treinar, os praticantes devem alinhar de frente para o instrutor/treinador (da esquerda para a direita) por ordem de graduações; os praticantes devem envergar correctamente o “keikogi” (também chamado de kimono) durante a prática da modalidade; os praticantes devem conservar o fato limpo e em bom estado; os praticantes devem respeitar os superiores e os colegas; os praticantes devem estar atentos aos ensinamentos do instrutor/treinador; os praticantes devem manter o silêncio no dôjô; é “proibido” o excesso de adornos; a assiduidade e a pontualidade para os treinos são factos muito importantes; sempre que um praticante chega atrasado à sua aula deve procurar obter do respectivo instrutor autorização para tomar parte do mesmo; os alunos mais antigos devem procurar ajudar os mais novos; todos os interessados que queiram observar um treino devem pedir licença ao instrutor apresentando-se no dôjô no mínimo dez minutos antes do treino começar, e comprometer-se a permanecer, sempre que possível, até ao final do mesmo.
O dôjô é também uma realidade mutável. Como muitas associações não têm dôjôs próprios, vêem-se obrigadas a praticar em espaços alugados ou emprestados. Isso leva a que fechem e abram com alguma facilidade. Claro que o encerramento de um dôjô não implica muitas vezes a diminuição do número de praticantes. Eles podem transitar para outro dôjô que esteja a funcionar. No caso português, existem associações que têm dois ou três dôjôs a funcionar e outras que têm dezenas."

Especialização precoce no desporto: Quantos mais melhor?

"O Modelo de Desporto Português está falido! Sem a sua reforma, as selfies não produzirão medalhas olímpicas e esconderão a destruição de valor desportivo e juvenil!
Em Portugal a prática desportiva dos jovens é um território mal-amado como demonstram os resultados nacionais que situam o país nos últimos lugares europeus. Enquanto os países europeus da dimensão de Portugal conseguem que 7 a 10 dos seus jovens ganhem medalhas em cada sessão dos Jogos Olímpicos, ultimamente Portugal apenas consegue que 1 dos seus jovens seja medalhado. Avaliando o desempenho de Portugal pelo dos outros países, nos mais de 100 anos de história olímpica, houve centenas de jovens portugueses que não viram o seu potencial desportivo concretizado enquanto todos os outros países ofereceram a centenas dos seus jovens as condições para conquistarem medalhas olímpicas.
As muitas respostas erradas os líderes desportivos afirmam “saber” que Portugal não ganha mais medalhas olímpicas porque é um país pequeno, porque os portugueses não têm os genes ou a cultura correctos e outras respostas desleais relacionadas com a não existência de talento juvenil.
As estatísticas da prática desportiva sugerem que o Modelo de Desporto Português tem limitações graves e não cria valor desportivo equivalente a outros países europeus. Outra resposta plausível é que mesmo que seja descoberto um talento desportivo, as condições da produção desportiva dos clubes, das associações e das federações são muito difíceis e quando desacompanhadas de boas políticas públicas, como acontece há décadas, as organizações desportivas, clubes, associações e federações, arriscam destruir o valor desportivo dos jovens talentos.
Trago o exemplo de jovens atletas que praticam modalidades que integram o programa dos Jogos Olímpicos de verão que não identificarei, nem os atletas.
Chamemos Abel ao primeiro jovem praticante desportivo por ter sido um campeão nos escalões etários e nas especialidades da actividade desportiva em que competiu. Abel teve muitas lesões, que se seguiram umas às outras, perdeu oportunidades de evoluir desportivamente mais depressa e, apesar desse historial, foi ganhando os jogos e as competições que havia para ganhar. Numa das últimas lesões enquanto atleta disse ao treinador do clube que tinha dificuldade em treinar porque ainda não se tinha curado. O treinador disse-lhe: “tu gostas é de estar lesionado!”. Este comportamento do treinador entre outras situações, que o Abel “já esqueceu”, levaram-no a recear o treinador do clube. No clube, Abel sempre teve um treinador, não tinha outras especialidades para o nível de competição que foi alcançando e não lidava com especialidades médicas acontecendo-lhe e a outros colegas terem de treinar e competirem recorrentemente sem curarem a lesão anterior. A estrutura técnica da federação, o director técnico nacional, com quem o atleta também contactou apoiou o comportamento do treinador do clube. Abel quis afastar-se do treinador que receava e falhou propositadamente uma competição. Nem a estrutura dirigente ou técnica do clube, nem os responsáveis ou técnicos do alto rendimento da federação dialogaram simultaneamente com o atleta e o treinador do clube, assumindo a perda desportiva do atleta. Muito menos o lado humano do Abel.
O Abel não está sozinho. Outro atleta e outra modalidade, o Inácio, só à terceira costela fracturada, os médicos decidiram fazer a prescrição da osteodensitometria confirmando-se os graves problemas de osteoporose. Hoje o atleta continua a praticar desporto de alto nível sozinho, pagando do seu bolso a sua preparação e a medicação adequada à sua condição clínica. As fracturas de stress são comuns em demasiados atletas, chamemos-lhes os Zorros, para percorrer as letras do abecedário de A a Z, quer devido aos erros dos treinos promovendo actividades que contrariam as capacidades físicas do atleta, que deveria ser preservado, quer pelas carências de especialistas que são exigidas no treino de alto rendimento desportivo e que Portugal não oferece o nível de excelência médica que é exigido aos atletas cumprir desportivamente.
A existência de treino e competição na condição de lesionado também é referida por especialistas em seguros indicando haver modalidades desportivas onde a integridade dos jovens era falseada e a criarem problemas para toda a sua vida ao terem lesões mal curadas e consecutivas até à destruição dos tecidos, do atleta e das suas legítimas aspirações desportivas.
A complexidade do crescimento músculo-esquelético estará a ser desconsiderada ao nível dos clubes, das associações e das federações a quem falta capacidade de responder ao nível das exigências do alto rendimento desportivo moderno, cujo principal obstáculo radica na ignorância da política pública desportiva alicerçada quer na jurisdicionalização abstracta do acto desportivo, quer na austeridade bruta e ignorante da criação e preservação de valor humano desportivo.
Falando com treinadores das modalidades encontram-se situações em que a nova direcção da federação ao chegar despediu a equipa técnica anterior e nomeou outra jovem e imberbe ou outra velha e relha cheia de vícios e truques e de resultados habitualmente baixos ou nulos. Estes treinadores referem que nos contactos internacionais que tiveram, observaram que as equipas técnicas preservam-se, investindo e acumulando saber e experiência.
Noutra dimensão internacional as equipas de treinadores são plurais e acompanham ao pormenor o treino dos atletas verificando o impacto dos treinos e competições na fisiologia do atleta para aquilatar se a carga foi demasiada, o que a acontecer levaria à fadiga dos corpos e a lesões pela continuação de esforços excessivos do treino e da competição. O mesmo se passa com determinados exercícios que se sabem exigir demasiado e que essas equipas internacionais acompanham todo o seu desenrolar e aos respectivos resultados na preservação do atleta, sempre na procura de resultados superiores.
O desporto português fala há décadas da importância da descoberta de talentos, do seu desenvolvimento e não tem processos complexos de avaliação dos resultados. Os resultados que as estatísticas do desporto evidenciam são que, se porventura existe sucesso na descoberta e no desenvolvimento dos jovens talentos, também se verificam fracassos que inviabilizam essa descoberta de talentos e que o desenvolvimento ao longo dos anos de prática desportiva oferecida pelo Modelo de Desporto Português acaba por anular os propósitos iniciais da sua descoberta, por benévolos que tenham sido. As estatísticas desportivas são claras no domínio dos resultados.
Há modalidades desportivas como a natação, o ténis e o basquetebol, por exemplo, que possuem uma aura de excelência devido ao sucesso europeu e americano e cujos atletas e equipas nacionais nunca se afirmaram nas competições internacionais sustentadamente apesar do significativo financiamento público realizado. Há casos como o Hipismo que foi a primeira modalidade a ganhar 3 medalhas olímpicas para Portugal há 100 anos e que nunca igualou esses resultados e existe a Vela, de um país que se diz de marinheiros, que tem uma situação semelhante. Há uma responsabilidade federada que é incapaz de atender aos limites da produção dos clubes na base e que os governos não têm a capacidade de precaverem e melhorarem.
Outra dimensão relacionada com os talentos é o negócio da prática desportiva das crianças e dos jovens que se deixa como exemplo de destruição de capital desportivo por valorização do negócio imediato de vários agentes e parceiros que a estrutura clubística e a federada não têm capacidade de combater e o Estado português olimpicamente ignora.
Hoje o Abel não compete, tem dores de roturas e excessos passados e sentimentos de culpa do receio que teve do treinador e do desinteresse do clube e da federação desportiva. O ‘receio humano’ que se apreende de António Damásio ao Expresso desta semana. Abel de vez em quando pratica a sua actividade de eleição e os receios repovoam-lhe o espírito, sem remorsos e certo de ter sido coerente. Permanece-lhe o amargo de resultados e marcas que lhe fugiram apesar do seu empenhamento, mesmo naqueles momentos que lhe exigiam o que agora ele tem a consciência plena que eram os erros do treinador do clube e da estrutura federada que não preservaram e potenciaram as suas capacidades e o capital humano desportivo que acumulou.
O Abel fez-se um jovem adulto de sorriso fácil, dedicado, individual e socialmente responsável, focado no seu trabalho, afectuoso e capaz de surpreender positivamente, mesmo quando as situações do seu trabalho lhe são adversas e ele contraria-as com inteligência, como o desporto lhe ensinou. 
Neste artigo procurei demonstrar que muito há que fazer em toda a estrutura de produção do Modelo de Desporto Português, para além do discurso obcecado sobre os talentos e a sua especialização precoce."

terça-feira, 18 de junho de 2019

A exageração do exagero

"Sei da lógica impositiva das audiência. Mas não me curvo perante a inundação intragável da banalidade

1. A exageração é um dos traços da contemporaneidade. Por exemplo, os constantes alertas coloridos de meteorologia sobre a fatalidade de uns pingos de chuva em Junho ou de uma rabanadas de vento de 40 Km, tal como há semanas aconteceu com a misteriosa depressão 'Miguel'. Esta lupa aumentativa dos (não) factos e das (muitas) palavras é um dos traços do que gira à volta do futebol. O tempo de pousio futebolístico - quase reduzido a pó - é agora pasto para toda a sorte de demasia e de imoderação. Não há dia em que não se fale de ninharias de milhões sobre milhões, a propósito de transferências, empréstimos, cláusulas de rescisão e até - imagine-se tal contradição - de aquisições conhecidas a custo zero! Agora há espaço televisivo para, horas a fio, nos repetirem até à náusea, as (im)prováveis, (in)desejáveis e (im)possíveis transacções, em misturas capciosas de «pelas informações que obtivemos, estamos em condições de afirmar», «ao que julgamos saber de fonte segura», «parece haver movimentações nesse sentido», «tudo está preso por detalhes», etc. Em todos os programas sobre futebol é raro ouvir o moderador (?) avisar da falta de tempo, ao invés do que acontece no resto da actualidade onde a norma é ele ou ela dizerem «conclua, por favor», «30 segundos para finalizar», «o nosso tempo esgotou-se». Em certos programas (não todos, felizmente), há intervenientes que cumprem o seu tempo de glória, com fanfarronices, truques, gritaria de taberna e outras formas pouco urbanas e elegantes de serem pagos. Durante o prime time da noite agora e por mais quase três (!) meses só dá mais mercado, mais transferências e outros mais todos à condição para perorar horas seguidas sobre hipóteses que, nestes casos, bem poderíamos definir como algo que não é, mas que a gente faz de conta que é, para ver o que seria se fosse. Uma pessoa que abra a televisão nos canais informativos só vê essa névoa espessa em torno da bola. Mesmo os canais, que souberam construir o seu caminho e prestígio ao longo de muitos anos, renderam-se à tabloidização futebolística (e não só) e dão-nos mais do mesmo. Matraqueiam os espectadores (aqui não ficaria pior essa pérola do AO: espeta... dores) com antevisões, previsões, explicações, sugestões, constatações em redor de (quase) nada. Eu - que sempre gostei muito de futebol - já não suporto tanta conversa, tantos lugares-comuns, tanto bulício artificial, tanta especularão, sem sentido, tantas imagens repetidas, tantos euromilhões num mercado de pessoas, tanta peleja sobre minudências, tantos absolutismos de retórica... Tudo em dose cavalar, com o devido respeito pelo animal e o pedido de indulgência do PAN.
Até 31 de Agosto (uff!) o prime time dos canais noticiosos generalistas é quase todo delicado ao dito mercado, se exceptuarmos o canal público. Aproveita-se a circunstância dessa obscenidade anti-desportiva de o período de transferências entrar pela época dentro, em nome do primado do dinheiro da mercadoria. Junta-se o inútil ao patético. Perdeu-se o sentido da proporcionalidade.
João Félix, a fazer fé em certos programas e nos respectivos rodapés ou oráculos, já terá sido transferido para aí umas 50 vezes para uma mão-cheia de clubes-lavandarias. Já terão perguntado por Bruno Fernandes não menos de outras 50 vezes. Já não há balizas que cheguem para tantos guarda-redes novos no Benfica ou no Porto. Enfim, dantes dizia-se que o segredo era a alma do negócio. Agora parece que estes programas são a nova alma do negócio. Só não sei para quem, mas suspeito.
A diversidade, que deveria advir da concorrência, esfuma-se no monolitismo. Se exceptuarmos o serviço público de televisão, encontrar um mero nicho televisivo fora da futebolândia + novelândia é um achado. Cultura? Ciência? Música não-pimba? Literatura? História? Etc., onde param essas extravagâncias? Mais tarde ou mais  cedo se pagará o excesso, a imoderação, a destemperança, a estupidificação, a alienação. A não ser que, em Portugal, nos conformemos com esta triste realidade: futebol mais futebol mais futebol para encantar as massas (em ambos os sentidos) e nos distrair ou abstrair de tudo o resto.

2. Outra exageração habitual é a da distância que vai do bestial a besta e vice-versa, normalmente alcandorada a título de primeira página ou à abertura de programas da rádio ou televisão. Um grande humorista brasileiro, Millor Feranndes, chegou a caricaturar este exagero: «o futebol é o ópio do povo e o narcotráfico dos media».
Vivemos freneticamente o tempo dos superlativos, dos endeusamentos sem travão e da obsessão pelas medidas da quantidade: mais, maior, super, hiper, maxi, numa caminhada aumentativa sem stop. No futebol já não chega o excelente, o fabuloso, o prodigioso, o notável. Sabe a pouco. É preciso chegar ao monstro, ao colosso, ao gigante e tantos outros epítetos em regime de concorrência entre os media. O problema é que se há - uns poucos - que talvez justifiquem esta forma de exageração elevada ao quadrado, outros a conquistam efemeramente por um golo saído do acaso, por um pontapé em forma de tatuagem, ou por uma cabeçada nas nuvens.
Ronaldo é um jogador incomparável. Mesmo na última fase da sua notável carreira continua a oferecer-nos momentos de eleição e, há dias, quase só a ele devemos a vitória sobre a Suíça. Mas daí a desqualificar Deus vai uma grande distância. Cito um exemplo: no dia seguinte a este jogo, neste mesmo jornal, a capa era toda preenchida com o título «Cristo Rei: mais três passos rumo à imortalidade». Percebo o jogo magnífico de mistura de palavras, mas depois disto o que se dirá em tom ainda mais encomiástico, agora que o nosso ídolo já chegou à divindade?

3. Mesmo no chamado defeso, os briefings e conferências de imprensa não nos largam: tudo interrompem em nome do sacra-futebol (como nos costumam dizer nas televisões «temos de interromper porque se impõe um directo para ouvir...»). Qualquer notícia da bola aparece intercalada entre o importante e o excitante. Para além do insólito de certas interrupções, tal evidencia também o inqualificável critério de prioridades noticiosas. Repito: gosto muito de futebol, mas abomino o exagero e a fantasia alienante à sua volta.
Nas famosas conferências de imprensa antes dos jogos, temos sete canais a reportar mimeticamente tais fascinantes momentos: SIC N, TVI 24, RTP 3, CMTV, alé dos jornais dedicados ao desporto, como A BOLA TV, SPORT TV e quase sempre um canal afecto ao clube.
Na larga maioria dos briefings, o que vemos e ouvimos? Praticamente nada. Um amontoado de frases feitas, umas perguntas de micro-ondas, uns tiques de falar sem dizer, uma perda total de tempo.
A oferta é exaustiva no exagero: directos a toda a hora e repetição seleccionada, mas extensa em todos os noticiários. Qualquer minudência desinteressante do campeonato espanhol tem honras de telejornal, eles que, em Castela, se estão borrifando para os feitos - que também os há - do nosso futebol (por exemplo, soberbamamente quase ignoraram até a nossa conquista da Liga das Nações!).
Sei da lógica impositiva das audiências. Mas não me curvo perante a inundação intragável da banalidade.

Futsal
A terceira Reconquista do SLB esta época: depois do futebol e do voleibol, agora o futsal. Fantásticos 5 jogos entre o Benfica e o Sporting, enormes equipas. Na 4.ª parida, o Benfica esteve a 30 segundos de ser campeão, e no derradeiro encontro, o Sporting, a 6 segundos do fim, ia levando a final para prolongamento com um remate que saiu ao poste! Como tem sido regra, ganhou a equipa que foi líder na fase regular. O Benfica soube renovar e diversificar o seu plantel.
Importa, sobretudo, registar a entrega e profissionalismo dos atletas de ambos os lados e como foi bonito ver, no fim do jogo, jogadores e treinadores a respeitarem-se exemplarmente. Não podendo ambas as equipas ganhar, souberam aceitar, como inexcedível fair-play, as posições de vitória e de derrota. Parabéns a todos por esta excelente propaganda feita a um desporto cada vez mais popular.

Contraluz
- Interrupção: Tal como em 2017, não haverá na época que se vai iniciar a Eusébio Cup. É pena, instituída em 2008, mereceria continuar sem hiatos, honrando a memória do grande jogador do Benfica.
- Sugestão: Com tantas referências nas camisolas dos jogadores, por que não assinalar nas costas das camisolas e por baixo do nome do atleta, o valor da respectiva cláusula de rescisão? Talvez levasse mais gente a perceber esta fantasia mercantilista...
- Exemplar: Grande e substantiva entrevista de Fernando Santos em A Bola de domingo. Assim vale a pena ler ou ouvir quem se exprime com clareza, sabedoria, sinceridade e até humildade perante o erro."

Bagão Félix, in A Bola

João Félix não fez a melhor escolha

"Chegados a este ponto das negociações para a transferência de João Félix, já não retorno. O jovem ídolo benfiquista sairá, certamente para o Atlético de Madrid, e Luís Filipe Vieira passará a ostentar o título de recordista de vendas de passes de jogadores em Portugal.
Estão ainda por definir os derradeiros pormenores do negócio, mas sabe-se que será concretizado logo que fique também a saída de Griezmann para o Barcelona.
Não penso que, desportivamente, seja, esta a melhor solução para João Félix, e também não penso que o Atlético de Madrid seja o clube indicado para o jovem jogador consolidar as suas evidentes potencialidades. Nem sequer acredito que João Félix, que há um ano era, apenas, uma das jovens promessas do futebol do Benfica, tenha maturidade profissional para aguentar a pressão que se exige (clube, adeptos e crítica) a quem é contratado por 120 milhões de euros, porque não se espera de alguém que custe tanto dinheiro, e que supostamente irá substituir um jogador como Griezmann, seja, somente, um craque em formação, a precisar de tempo, paciência e tolerância para continuar os erros próprios da sua inexperiência na elite das elites do futebol.
Não tenho dúvidas em afirmar que João Félix precisava de ter tudo espaço e tempo para continuar a crescer e para ganhar uma personalidade competitiva que ainda está em formação.
No entanto, percebo as razões de uma sofreguidão que leva a esta aposta no imediato. É difícil, admito, não ceder à tentação milionária. Porém, suspeito que o preço que João Félix ainda irá pagar, também não seja barato."

Vítor Serpa, in A Bola

E aquele guarda-redes que parecia uma criança

"De repente, uma memória solta-se da sua prisão como um pássaro que fugisse da gaiola. Início de Março de 1984. O Benfica foi goleado na Luz (0-5) pelo Hvidovre. Um Benfica de segundas linhas apenas a cumprir o papel que lhe cabia no contrato de aquisição de Manniche.

Às vezes é bom deixar a memória à solta, como o cavalo do meu querido Fernando Tordo. E não correr à procura do momento exacto da história certa. Lembrar. Lembrar só. Mesmo que coisas incompletas que obrigam ao esforço das meningues.
Estou em Águeda, terra da minha infância, ponto mais alto da ternura.
De certa forma, estou no meu posto.
Durante quatro dias viajei entre Águeda, Porto e Guimarães por causa da Liga das Nações, sempre com aquela excitação do jornalismo a correr-me pelas veias, aquele excitação de ir ao sítio onde as coisas acontecem e não ficar à espera que elas nos entrem em casa pelo ecrã da televisão.
Sentando num grupo de amigos, entre os quais o meu camarada de A Bola, Celestino Viegas, recordámos aquela vez em que o Benfica veio jogar ao Municipal, ali no Sardão.
Na época de 1983/84 o Recreio de Águeda estava na I Divisão: pela primeira e única vez.
Estive lá e vi. E muito não vi.
Sim, porque não havia espaço para todos. O público transbordou das bancadas até às linhas laterais - os dirigentes do Benfica viriam a fazer um protesto, alegando que o campo tinha sido reduzido - encavalitava-se atrás das balizas, os guardas republicanos passeavam a cavalo procurando impedir que as pessoas saltassem para dentro do pelado.
Havia quem gritasse: «Tira o cavalo do frente!!! Quero ver a bola!»
Bem podia gritar... De nada servia. A autoridade cavalgava a passo, farda a condizer e uma certa vaidade mal escondida.
O Benfica ganhou fácil: 4-1.
Mas a gente recorda-se sempre dos cavalos republicanos.

Um miúdo chamado Peter
Depois, a memória começou a inquietar-me.
Não sabia porquê, mas tinha que ver com o Manniche. O Manniche dinamarquês. Grande figura! Grande figura!, como exclamaria Otto Lara de Resende.
Mal desembarcou em Lisboa, José Maria Pedroto, que era treinador do FC Porto, tratou de diminui-lo: 'É um rapaz alto e louro'.
O rapaz alto e louro foi campeão pelo Benfica. Chegara de uma equipa meio desconhecida, o Hvidovre.
Depois, por entre as tais brumas da memória, chegou-me a vaga imagem de ver o Hvidovre jogar na Luz. Era por causa do contrato. Metera dinheiro pelo jogador e um jogo amigável ao qual o Benfica ligou pevas, entretido que estava a ser campeão.
Mas houve esse jogo e eu também estive lá.
Noite desoladora e fria.
Por muito que me esforce, os pormenores fogem-me e eu prometi, logo na primeira linha,que não ir ia recorrer aos subterfúgios de foçar nos canhenhos ou na internet. Faço um esforço. Um esforço grande.
O jogo contra o Hvidovre, na Luz, foi próximo da vinda do Benfica aqui, a Águeda.
Lembro-me de o Filipovic estar em campo. Depois da chegada do Manniche, foi perdendo o lugar nas escolhas de Eriksson.
Lembro-me de, dois ou três dias mais tarde, ver o Benfica dar 7-0 ao Braga, e de o Manniche fazer golos.
Lembro-me de que o jogo foi estranhamente dominado por aqueles dinamarqueses que sentíamos não virem de parte alguma.
E ganharam de goleada: 5-0. Com 3-0 ao intervalo.
Mas o que já não me lembrava, e de repente lembro-me como se uma luz se acendesse na escuridão do cérebro, é que na baliza do Hvidovre estava um calmeirão, também alto e também louro. Um tipo imponente, elástico, exibindo a calma intocável dos veteranos.
Depois, muito depois, ficou conhecido em todo o mundo. Filho de um músico de jazz polaco, nascido em Soborddard, na região de Gladsaxe, na Dinamarca. Foi empregado de limpeza num lar de idosos, vendedor, chamado ao serviço militar numa altura em que estava no Algarve, a fazer um estádio com a sua equipa, e libertado do fardo por alegação de ter os joelhos demasiados fracos.
Percebo, só assim não vão lá.
E isto também não é um concurso de adivinhas.
O rapaz chamava-se Peter Schmeichel. Tinha vinte anos.
Esteve na Luz e ganhou.
E eu ganhei uma nova recordação. Que estava há muito perdida nos labirintos do esquecimento."

Afonso de Melo, in O Benfica

O hoquista que não gostava de hóquei

"António Livramento, um dos melhores hoquistas do mundo, custou a encarrilar na modalidade em que vingaria como atleta

António José Parreira do Livramento nasceu em São Manços, perto de Évora, a 28 de Fevereiro de 1943, dia em que o Sport Lisboa e Benfica comemorou o seu 39.º aniversário. Três anos depois, a sua família deixou o Alentejo e rumou a Lisboa, instando-se em Benfica.
Ainda miúdo, despertou para o desporto, fortemente influenciado por Torcato Ferreira. Vizinho da família e familiarizado com as prestações de Livramento nos jogos de futebol do bairro, o treinador de hóquei em patins aconselhou o seu pai a inscrevê-lo na modalidade. Mas, para Livramento, uma coisa era o futebol, outra bem diferente era o hóquei em patins: 'Devo esclarecer que não gostava de hóquei'.
No entanto, Torcato, que via nele o presságio de um grande jogador, não desistiu e, aos 11 anos, Livramento acabaria por ingressar no Clube Futebol Benfica, onde Torcato era treinador. Mas custou a encarrilar na modalidade, como explicou no jornal A Bola em 1975: 'A aprendizagem é longa e caía muitas vezes (...) só à terceira tentativa é que me fiquei pelo hóquei patinado, o que aconteceu quando Torcato Ferreira me ofereceu umas botas novas, que me fizeram sentir importante e me levaram a entregar-me à modalidade'. Porém, em pouco tempo, 'gostava tanto de jogar, que trocava tudo pelo rinque'.
Aos 15 anos e já com um enraizado gosto pelo desporto, chegou ao Sport Lisboa e Benfica. Aí confirmou uma predilecção pela posição de avançado: 'É a posição da minha preferência (...) há um sabor especial quando se marca um golo'. Pelo Benfica marcou vários. De 'águia ao peito' jogou por 14 épocas (1960/61 - 1969/70, 1972/73 - 1973/74) e somou vários títulos, foi internacional, campeão do mundo e reconhecido além-fronteiras como um dos melhores hoquistas do mundo.
Em 1999, após a sua morte a 7 de Junho, a Federação Portuguesa de Patinagem, que o categoriza como 'uma das maiores lendas do hóquei em patins mundial', homenageou-o colocando o seu nome na Supertaça de hóquei em patins, que desde então passou a designar-se Supertaça António Livramento.
António Livramento, que representou ainda os italianos Hockey Roller Monza e Amatori Lodi, a equipa de hóquei do Banco Pinto e Sotto Mayor e o Sporting CP é uma das figuras em destaque na área 2  -Jóias do Ecletismo do Museu Benfica - Cosme Damião."

Mafalda Esturrenho, in O Benfica

Confiança...

"Se superámos a saída destes heróis, e de tantos outros excelentes jogadores, temos de encarar o futuro com confiança. O Benfica saberá colmatar a saída de qualquer jogador porque insubstituível só o Rei Eusébio.
O grande desafio que se coloca é o de preservar o Seixal da loucura que jorra destas operações. São valores inimagináveis que passam a estar na cabeça de miúdos que viram um deles fazer um caminho que está ali tão perto... João Félix tem um talento reconhecido mas realizou metade de uma época em muito bom plano.
Foi o que bastou para accionar uma cláusula de resolução unilateral de contrato fixada abstractamente em 120M€.
O que era abstracto está em vias de se concretizar para incredulidade geral. Saiba o Benfica reinvestir e teremos o lançamento de uma equipa apta para surpreender positivamente na Europa."



O papel da Federação no percurso de um jovem jogador (a propósito do crescimento de João Félix)

"A sociedade em que vivemos habitua-nos desde tenra idade a normalizar os nossos comportamentos. As nossas acções, das mais simples às mais complexas (como a nossa forma de falar, de vestir, de andar, de rir, as nossas expressões corporais e até a nossa forma de pensar), sofrem uma influência tremenda do meio em que estamos inseridos. Essa pressão social, que é exercida sobre nós desde que somos crianças, leva-nos demasiadas vezes a sentir necessidade de arrumar tudo em gavetas, de agrupar sem ter de acordo a especificidade, de querer transformar tudo em coisas ordinárias que se podem amontoar em cima umas das outras. Um pouco como fazemos quando arrumamos um baralho onde cada carta de espadas, de paus, de copas ou de ouros só tem espaço junto aos seus pares.
Claro que este mecanismo que nos é imposto pela interacção a que somos obrigados com outros seres humanos tem a sua importância e o seu espaço nos nossos processos cognitivos; mas, quando deixámos a preguiça de lado (que também tem muita importância para a nossa vitalidade), somos capazes de nos opor a esta tendência opressora de raciocínios originais.
Isto vem ao caso da discussão sobre os critérios que se devem utilizar na convocatória dos jogadores para as fases finais de competições para as selecções jovens.
Há uns anos, no Europeu de sub-21 de 2015, critiquei a escolha de William Carvalho, de João Mário e de Bernardo Silva para representar o nosso país nesse torneio. A nossa selecção acabou por perder a final para a Suécia, e ficaram todos com a dúvida na cabeça: “Se eles eram assim tão bons, assim tão melhores do que os outros, como este gajo dizia, por que raio é que estando os três a jogar ao mesmo tempo não trucidámos e trouxemos o caneco para Portugal?” No mais recente Mundial de sub-20, a não convocatória de João Félix trouxe de volta a mesma controvérsia. Desta vez eu estava de acordo com a decisão da Federação, mantendo a mesma linha de pensamento que na altura utilizei para justificar que William, Bernardo e João Mário ficassem a ver o Europeu pela televisão.
O meu argumento não se prende apenas no facto de eles andarem a passear o seu talento numa prova que já não tem o nível adequado para que sintam muita dificuldade, para que sintam a pressão. Também não se esgota no facto de eu achar que eles iriam sair dali sem nenhum ganho assinalável. Tão pouco termina na minha leitura do estímulo ser mais adequado a outros jogadores que estão num nível de maturação futebolística diferente, com mais dificuldade do que os citados. O meu ponto é: qual é, ou qual deve ser, o papel da Federação de um país no percurso de um jogador? Para mim, o objectivo principal é dar condições para que os jogadores se tornem elementos efectivos da selecção principal. E para isso, em cada selecção, em cada convocatória, para a situação de cada jogador, há princípios de acção diferentes a ter em conta.
Olhe-se, por exemplo, para o caso dos três jogadores citados acima, que participaram no Euro sub-21. Na altura, no final da época 2014/2015, para lá da qualidade que apresentavam, todos eles tinham cimentado os seus lugares nos clubes – João Mário e William no Sporting, Bernardo no Mónaco. Os três eram titulares, já eram figuras das respectivas equipas e só por motivos de lesão, para gerir a sua condição física, e por uma ou outra nuance estratégica, estiveram de fora. Fizeram a maior parte dos jogos em que os clubes participaram como titulares, e muito raramente não entraram na convocatória. Isto é, tinham conseguido um estatuto que lhes permitiu continuarem a ser expostos na equipa principal dos seus clubes, que disputavam provas europeias, o que lhes garantiu a continuidade da sua evolução e uma aproximação mais célere daquele que é o nível que se tem na selecção principal.
João Félix é um caso muito parecido. Sendo que não teve a mesma exposição, em termos de minutos somados, em termos de jogos como titular, a chegada de Bruno Lage representou para ele o acesso à ribalta. É seguro dizer-se que sem Lage ele não teria conseguido chegar ao nível mediático que chegou, ou pelo menos que com Rui Vitória ainda haveria pessoas a dizer que o miúdo não tinha ainda demonstrado nível suficiente para ser titular no Benfica. Não só por ir entrando aos soluços e saindo aos solavancos, mas por jogar amarrado ao corredor lateral numa posição que em nada beneficia as melhores qualidades que ele tem. Assim como ainda fazem com Zivkovic, que continua sem ser aposta firme, e que rendeu na única vez que Rui Vitória lhe deu consecutivamente a estabilidade que Félix ou Rafa têm actualmente.
Se pensarmos em Florentino e em Gedson, que foram alternando a titularidade no Benfica com outros jogadores, em períodos diferentes da época, o caso muda de figura. Não só porque nenhum se estabeleceu definitivamente como titular, mas por não gozarem do estatuto que, em tão pouco tempo, os golos e as assistências deram a João Félix. Estes dois ainda têm de batalhar para conseguirem cimentar as suas posições na equipa e para que também possam ser cobiçados e reconhecidos na esfera internacional. Obviamente que, se tivesse que escolher entre Gedson e Florentino, convocaria o primeiro, por força dos momentos de confiança em que um e outro terminaram a época, e da exposição que um e outro tiveram nestes últimos meses.
Neste Euro sub-21, há o caso de Dani Ceballos. O médio criativo espanhol, do Real Madrid, já leva algumas épocas na bagagem como titular do Bétis de Sevilla na La Liga. Porém, nunca se afirmou na equipa merengue, e nunca teve o espaço para mostrar o seu talento de forma regular. Sendo que é um jogador que aos 22 anos ainda não conseguiu cimentar a sua posição no clube, cabe à Federação Espanhola usar a maior arma que tem para alavancar a posição dos jovens jogadores nos respectivos clubes: protagonismo.
É dando-lhes o palco que eles não têm nas suas equipas, para que possam evidenciar o seu talento, para que sejam falados, e para que consigam até despertar o interesse de outros clubes, que as Federações melhor conseguem pressionar para que se aposte nos jovens jogadores. Quando lhes é dado o que eles não têm nas equipas (condições para expressarem as suas qualidades), está-se de forma muito directa a mandar um sinal aos clubes de que podem e devem fazer mais por aquelas individualidades. E isto, se feito com astúcia, nas selecções mais jovens e, em casos muito particulares, na selecção principal, poderá levar a que as Federações consigam um melhor cenário para os jogadores em que apostam. Isto porque o melhor cenário é ter todos os jogadores seleccionados como figuras incontestáveis dos clubes onde jogam.
Não sabemos que caminhos poderiam ter seguido as carreiras de Rúben Neves e de Iuri Medeiros; mas naquela altura em que lutavam para se afirmarem nos seus clubes, em 2015, ter-lhes-ia dado muito jeito participar de forma activa (como titulares) no Europeu de sub-21, despertando os clubes para os colocar na mesma situação em que já tinham chegado Bernardo, William e João Mário."

Benfica Podcast - Best Of 18/19 - Part III

O Mundial dos sonhos delas

""Eh pá, se eu fosse tailandesa, já podia estar a jogar um Mundial".
Quando recebi esta mensagem, durante o primeiro jogo da Tailândia no Mundial feminino que decorre em França, ri-me. Sim, foi insensível (perdão), mas a minha amiga - também ela ex-jogadora - tinha razão: as tailandesas, ainda que estejam no 34º posto do ranking mundial (por comparação, Portugal é 30º - e recentemente ganhou 4-1 à Tailândia), não tinham qualidade suficiente para segurarem as campeãs mundiais e, por isso, foram atropeladas pelas norte-americanas, por 13-0, naquela que ficou para a história como a maior goleada de sempre em Mundiais femininos.
Os EUA não fizeram, obviamente, mais do que a sua obrigação - ganhar, querendo marcar mais golos, do princípio ao fim -, mas foi difícil, ainda assim, não sentir pena do underdog, que está no Mundial mas não tem, ao contrário do adversário, jogadoras 100% profissionais.
Foi por isso que, domingo, mesmo perdendo e mesmo já tendo havido golos bem mais espectaculares na prova, o golo de Kanjana Sung-Ngoen foi o mais emocionante do Mundial. A Tailândia já perdia por 4-0 com a Suécia, mas quando a capitã tailandesa marcou o primeiro golo da selecção na prova, até os adeptos suecos bateram palmas, e houve uma mulher (a de branco na foto que encabeça esta newsletter) que não conteve as lágrimas.
Além de directora executiva da Muang Thai, uma das maiores empresas de seguros da Tailândia, Nualphan Lamsam é presidente do Port FC, clube tailandês, e é líder do futebol feminino do país, porque é a principal contribuinte para que o mesmo exista: não só o financia directamente, como emprega muitas das jogadoras da selecção, para que elas tenham tempo e possibilidades de treinar condignamente - a história é contada pelo "The New York Times".
Como o nosso Diogo Pombo escreveu na edição mais recente do Expresso, o Mundial feminino está a ser uma montra do enorme crescimento do futebol feminino na última década - inclusive em Portugal, onde o número de federadas tem crescido todos os anos. Ainda nem todas as federações olham para ele - ou melhor, para elas - de forma séria, como se vê pelo exemplo tailandês, que ainda está longe de ter as condições que têm as norte-americanas, mas enquanto houver gente a lutar por ele - no campo, nos escritórios ou nas bancadas (45 mil pessoas encheram o Parque dos Príncipes para o EUA-Chile) - o futuro será bonito.
Se ainda não viu um jogo, aproveite hoje, às 17h, no RTP Play (lamentavelmente, os jogos não estão nas televisões portuguesas, o que diminui drasticamente o impacto da competição, particularmente entre as jovens praticantes, mas adiante): é que Portugal, depois de ter estado no Europeu, não se qualificou para o Mundial, mas há lá uma árbitra portuguesa, que apitará o África do Sul-Alemanha. Parabéns, Sandra Bastos - tão pioneira quanto Nualphan Lamsam.

O Que se Passou
Depois de cinco dérbis incríveis, o Benfica sagrou-se campeão nacional de futsal; Maurizio Sarri vai mesmo treinar a Juventus; Miguel Oliveira conquistou pontos na Catalunha; Alonso brilhou em Le Mans; e a Argentina continua uma desgraça."

Predadores(as) sexuais (I)

"Aos 17 anos, recentemente, Noa Pothoven morreu em sua casa em Arnhem, depois de anos a lutar contra a depressão, a anorexia e o stress pós-traumático. Transtornos provocados por violações de que foi vítima em criança. Apesar de solicitada, a eutanásia não foi autorizada.
Morreu, com acesso a cuidados paliativos, depois de deixar de se alimentar e com a anuência tanto de médicos como dos seus pais em não lhe ministrarem alimentos por via artificial.
Segundo a comunicação social, a jovem publicou o livro «Winnen of leren» (que ora é apresentado como «Winning or losing» ora como «Winning or learning») em Novembro de 2018, onde relatou como “por vergonha e medo” escondeu durante anos os abusos que sofreu. Nas suas próprias palavras o seu objectivo era tornar público aquilo por que passou e tentar quebrar o tabu em torno destas questões e dar apoio a jovens que passavam por situações semelhantes.
Uma morte que parece ter sido consciente e bem ponderada e que, sem estarmos na posse de todos os dados, nos parece enquadrada num suicídio de honra, o que nos aproxima da noção japonesa de “seppuku”, dizendo-nos Maurice Pinguet (1) que “é bom e bonito aprender a vencer, mas cedo ou tarde, em qualquer vida, por mais triunfante que o imaginemos, vem o último momento: é preciso saber então ser vencido.”
Catherine Moyon de Baecque, abusada sexualmente pelos seus colegas masculinos da equipa de França durante um estágio organizado pela Federação Francesa de Atletismo em 1991, também resolveu colocar em livro aquilo por que passou (2). Catherine relata no mesmo aquilo que sofreu, mas não só: mostra como os responsáveis colocaram em primeiro lugar o interesse das instituições, pois em vez de ajudarem a vítima tentaram silenciá-la.
Uma vintena de antigas alunas do treinador Régis de Camaret acusaram-no de violação. Entre elas a antiga n°2 francesa, Isabelle Demongeot, que conta a sua história no livro “Service volé” (3). Nove anos de abusos sexuais…
Ao contrário de Noa, Catherine, lançadora de martelo, e Isabelle, tenista, não recorreram ao suicídio. Eventualmente, a prática do desporto poderá ter tido aqui alguma influência… Ao ser inculcado ao praticante desportivo a ideia de esforço, de sacrifício, a fim de se superar a si mesmo ele vai construindo o seu próprio caminho… vai-se formando. A procura incessante da excelência, o culto do corpo e da “performance” e, a superação de si próprio, a tentativa de ultrapassar os limites são motivados pela crença de que ser um “verdadeiro atleta” significa assumir riscos, fazer sacrifícios e jogar o preço de ser tudo o que se pretende e poderá ser.
Habituados a comportamentos de violência física no desporto, de violência verbal, de violência psicológica e de violência gestual, normalmente descura-se a violência sexual no mesmo. Ignora-se ou procura-se mesmo esconder…
Em 2009 realizou-se em França o “Étude des violences sexuelles dans le sport en France : contextes de survenue et incidences psychologiques” (4) o qual na altura mostrou muito do que não chega ao público nem faz notícia… e que vale a pena consultar apesar dos seus já 10 anos!
Em 2012, a campeã americana de judo, Kayla Harrison, explicava ao New York Times (5), precisamente antes dos J. O. de Londres, o que não era um segredo: “eu fui violada pelo meu primeiro treinador. E isso é realmente a coisa mais difícil que eu tive que superar.”
O poder e a dominação masculina, tanto de pares como de treinadores e até de dirigentes serão as principais causas destes comportamentos de barbárie (veja-se o artigo de Aline Flor (6) intitulado “Reagiu ao assédio sexual e foi repreendida pela chefia. «Isto é um mundo de homens»”). São casos de cultura, de educação, de respeito pelo ser humano, já que “não é a fatalidade hereditária que determina que os homens dominem as mulheres”, tal como nos diz Germano da Fonseca Sacarrão (7). Mas que não se pense que a violência sexual funciona só num sentido… ou que o desporto é só uma escola de valores ou de virtudes…
O denominado «el mayor caso de pederastia de España» (8) eclodiu precisamente no seio de uma modalidade que se apresenta como formadora do carácter do indivíduo e detentora de inúmeros valores: o karate. Torres Baena, ex-campeão de Espanha e presidente da «Federación Gran Canaria de Kárate» foi acusado de abusos a menores de 9 a 17 anos que se prologaram durante mais de 20 anos num julgamento em que depuseram mais de 100 pessoas, 61 delas como vítimas. A 15 de Março de 2013 a «Audiencia de Las Palmas» torna pública a sua sentença: 302 anos de prisão para Fernando Torres Baena por se comportar como um predador sexual com os seus alunos, 148 anos para María José González (companheira do anterior e também treinadora) e 126 anos para Ivonne González (outra treinadora de karate).
Será de admirar que exista violência sexual numa actividade em que um atirador tinha um botão instalado no punho do seu florete para fazer acender a luz do marcador quando accionado (Boris Onischenko nos J. O. de Montreal em 1976), em que um futebolista no último jogo da sua carreira pela selecção do seu país agrediu um adversário com uma cabeçada (Zidane na final do Mundial de 2006), em que o ginasta mais medalhado de sempre afirmou que se habituou “a conseguir das mulheres aquilo que queria” (Vitaly Scherbo em 2010) ou em que uma ciclista é apanhada com um motor dissimulado na sua bicicleta (Femke van den Driessche, no Mundial de sub-23 de Ciclocrosse de 2016)?
(continua...)"

Benfiquismo (MCCX)

O início...

A história do 37

Desmentido oficial

"Face ao conjunto de notícias publicadas nestas últimas horas, o Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD esclarece que é falso que esteja neste momento em curso qualquer processo negocial a propósito de uma eventual transferência do jogador João Félix.

As condições para a sua negociação são públicas e de todos conhecidas, tendo em conta a cláusula de rescisão definida no valor de 120 milhões de euros.
Mais grave, e que merece o nosso mais veemente repúdio e desmentido, é a falsa notícia que faz referência a negociações que envolvem comissões de 30% e que, infelizmente, mereceu eco em Portugal por parte do jornal "A Bola", com intenções e objectivos que desconhecemos de todo. Repetimos: essa informação é totalmente falsa, absurda e tem intenções claramente dolosas para a reputação e dignidade do Sport Lisboa e Benfica."


PS: Este desmentido serviu essencialmente para negar a existência de negociações, mas isso não impede de amanhã, existir uma rescisão unilateral do contrato por parte do jogador, assumindo o pagamento da cláusula! São coisas diferentes...
Após as declarações públicas por parte do Presidente, após a conquista do 37, não existe margem de manobra. Quem quiser, paga os €120M, e o Benfica nada poderá fazer... Por acaso o Atlético de Madrid, já tomou uma decisão parecida: Oblak...

Tem existido alguma histeria online nos últimos dias, parece que a evolução dos hábitos e costumes da sociedade, fez com que hoje, existam mais fãs de determinados ídolos, do que adeptos do Clube. Os jogadores passam e nós, adeptos, sócios, ficamos... Nós somos o Clube, os jogadores tem o privilégio momentâneo de nos representar!!!
O ano passado, o nível de histerismo com uma suposta venda do Jonas, atingiu níveis completamente absurdos, e este ano parece que vamos pelo mesmo caminho...
Talvez por isso, se aplauda o Renato Sanches quando marca um golo ao Benfica, em pleno Estádio da Luz... o ídolo vs. o Clube!!!

A minha preocupação neste momento, é perceber qual será o plantel do Benfica, no dia 1 de Julho, depois perceber se teremos o plantel completo no dia do primeiro jogo oficial (Supertaça) e depois, perceber que plantel teremos quando o Mercado fechar... Com ou sem o Félix... Aquilo que interessa é o Benfica... Sabendo que o objectivo, terá que ser sempre ganhar tudo internamente, mas mesmo tudo...

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Nada pode ficar igual...

Benfica 72 - 97 Oliveirense
23-28, 18-25, 18-18, 13-26


Fim esperado... A surpresa acabou por ser mesmo, a 'qualificação' para a Final!!! Numa época, que começou mal desde início... Treinador, estratégia de contratações... várias lesões pelo meio...mudança de treinador... e depois, várias decisões erradas nesta Final...
Da modalidade com o orçamento mais alto, exige-se muito mais...

Exige-se muitas mudanças para o ano. A começar, por um definição da equipa técnica... existem demasiadas pessoas, em redor da equipa...  e se for contratado alguém de 'fora' até parece que estão à espera do insucesso, para voltarem à ribalta!!!

E em relação ao plantel, com o regresso dos Lagartos, não se pode voltar a experimentalismos de Mercados, num contexto onde o Basket nacional anda perdido, sem novos valores, os títulos ganham-se com a qualidade do 'conjunto' dos Americanos...
O regresso do Betinho, não é suficiente...

Belenenses campeão em três escalões

"A importância do TAD na vida do Casa Pia; a AF Lisboa com mais dois clubes no futebol profissional; e, é claro, o título do Belenenses!

O Casa Pia, emblema histórico do futebol português, de que Cândido de Oliveira, primeiro capitão da turma das quinas e António Roquete, guarda-redes da Selecção Nacional que disputou os Jogos Olímpicos de 1928, são referências incontornáveis, consumou, nos Açores, a subida ao segundo escalão do nosso futebol, entrando assim nas competições profissionais. Foi um sucesso suado dentro do campo, ao longo de uma temporada cheia de peripécias, e fora dele também, já que o clube viu-se condenado, de forma absurda, pela justiça federativa, valendo o bom senso do TAD, que em sede de recurso fez justiça, antes que fosse tarde demais. Pelos vistos, bons advogados também fazem falta a um plantel...
Também o Vilafranquense, que ensaia uma experiência de gestão virada para a iniciativa privada, ganhou direito a jogar na competição profissional. Mais um sucesso de Filipe Moreira, que deixa a ideia de ter passado ao lado de uma carreira que justificava outra visibilidade e essencialmente outras oportunidades. Igualmente em realce está a AF Lisboa, de Nuno Lobo, que vê dois emblemas da sua jurisdição engrossarem as fileiras do futebol profissional.
Depois de ter garantido a subida de divisão, o CF 'Os Belenenses' (campeão da I e da II Divisão Nacional) deu nova prova de vitalidade ao vencer o escalão distrital onde iniciou actividade, perante vasta moldura humana, no estádio 1.º de Maio.
O caminho faz-se caminhando, e a via dolorosa escolhida pela equipa de Patrick Morais de Carvalho, com o aval dos sócios, para manter vivo o espírito dos Rapazes da Praia, conheceu o fim de uma primeira etapa. Faltam outras mais, até que a Cruz de Cristo regresse ao convívio dos maiores do nosso futebol, a sua casa.
Nesta janela de Verão de 2019, o mercado de transferências promete muito mas tarda em arrancar em força. Disso ressentem-se os clubes portugueses, obrigados a aguardar pelo efeito dominó que sempre acontece após a abertura, a sério, das hostilidades. É verdade que o Real Madrid já colocou dinheiro a girar, mas vai ser preciso que se clarifiquem as situações de Mbappé, Neymar, Griezmann e também de Gareth Bale para que a onda de choque chegue a Portugal. E será bom não esquecer que há clubes ricos, habituais gastadores, preocupados com o fair play financeiro da UEFA...

Ás
Fernando Alonso
O piloto asturiano, ao volante de um Toyota, fez prova de vida ao tornar-se bicampeão das 24 Horas de Le Mans, numa altura em que se fala insistentemente na possibilidade de regressar à Formula 1, pela mão da Ferrari. Fernando Alonso, quase a fazer 38 anos, continua a fazer a diferença pelo talento e arte.

Ás
Patrick McCaw
É uma espécie de Fejsa da NBA, três épocas e três anéis. Aos 23 anos, natural de Saint Louis, este ala de dois metros, fica associado à história do desporto canadiano, como integrante dos Toronto Raptors, que derrotaram os Warriors, antiga equipa de McCaw, onde venceu dois títulos, em seis jogos de altíssima intensidade.

Ás
Carlos Queiroz
A Colômbia de matriz portuguesa de Carlos Queiroz, venceu, sem espinhas, uma Argentina sem rei e roque, onde Messi não é capaz de fazer a diferença. Depois de uma passagem pelo Irão de grande impacto no futebol da região, Queiroz iniciou com o pé direito a aventura nos cafeteros, de James e Falcao.

E a partir de agora?
Os Lobos regressaram ao Seis Nações B, de onde nunca deviam ter saído. Honra a quem devolveu o râguebi português a um patamar aceitável, que permite sonhar com o regresso ao espírito de 2007, quando parecia que a modalidade tinha adquirido, finalmente, condições para se desenvolver plenamente. Não valerá chorar sobre o leite derramado nos últimos anos, marcados por erros e hesitações. É preciso olhar em frente, na certeza de que só com o contributo de todos será possível criar um futuro onde caiba a palavra ambição..
(...)"

José Manuel Delgado, in A Bola

Se eu fosse João Félix

"Porque não é, apenas, uma questão de partir ou ficar. É mais profundo que isso. E não é, ao contrário do que se possa pensar, assim tão fácil

Não sei se João Félix ficará ou não mais um ano no Benfica. Nem estou certo de que essa seja uma decisão que dependa em exclusivo dele e dos que lhe são mais próximos, ao contrário do que se diz por aí, porque há, no futebol moderno, uma vertente financeira que mexe, mais do que devia até, com interesses que vão muito para lá da simples vontade de partir ou ficar. Mas admitamos que as coisas são como Luís Filipe Vieira disse e que a bola está, mesmo, do lado de João Félix, o que só pode querer dizer que à Luz já chegou o conhecimento de que haverá clubes, de facto, dispostos a bater os 120 milhões de euros a bater os 120 milhões de euros da cláusula de rescisão do jovem avançado, único argumento lógico para que o presidente, depois da intransigência que sempre manifestou sobre o assunto - a cláusula ou nada -, dar a entender que não tem, já, qualquer voto na matéria no que ao futuro imediato de João Félix diz respeito.
Assumamos, portanto, que a decisão está, de facto, apenas no lado do jogador. Comecemos por dizer, porque é justo fazê-lo, que não é uma decisão fácil. Por um lado, a possibilidade de ir, partindo já, ganhar muitos mais milhões (fala-se de valores que são o dobro do que o Benfica podia oferece-lhe para o segurar, que não seria pouco mais seria, mesmo assim, metade...) do que poderia ganhar se escolhesse ficar. Não se trata, repare-se, de uma questão de ganância. Foi, até, infeliz Luís Filipe Vieira quando disse que os jogadores «gostam muito do Benfica mas também gostam de dinheiro». Porque as cosias não são, se para elas olharmos de forma mais profunda, assim tão simples. Primeiro porque a carreira de um futebolista não é assim tão longa e é normal que tentem ganhar o máximo possível no tempo que têm disponível. Segundo porque a vida de um futebolista é - à excepção de casos verdadeiramente fenomenais, que Félix pode vir a ser mais ainda não é - feita de incógnitas que os aconselham a não perder o comboio quando ele passa, essencialmente porque não é certo que passe duas vezes. Por outras palavras, nada garante que Félix tenha, na próxima época, a visibilidade que teve nesta, correndo o risco de perder o encanto anos olhos de quem hoje com ele está maravilhado. E terceiro porque há lesões e outros detalhes da vida de qualquer desportista de alta competição que os aconselham a não deixar escapar uma oportunidade como esta. Ou seja, olhando apenas para a parte financeira, se eu fosse João Félix não pensava duas vezes: ia já.
A questão é, essencialmente desportiva. Fernando Santos disse-o nos textos que ontem publicámos e já outros o tinham dito antes: é sempre melhor para um jovem jogador ficar onde se sente confortável até estar, de facto, preparado para sair. Há, como bem lembrou o seleccionador, exemplos suficientes de jovens futebolistas que saíram demasiado cedo. E, sem capacidade (essencialmente mental...) para lidar com as ilusões, e desilusões, que encontraram em clubes que olham para eles apenas como mais um, acabam com muito dinheiro na conta bancária mas profundamente infelizes. E com a autoestima profundamente afectada. Há, mais uma vez, exemplos suficientes de carreiras estagnadas, e estragadas, por decisões meramente financeiras. Não quer, atenção, isto dizer que João Félix, saindo do Benfica, será mais um desses casos. Mas que o devem fazer pensar, lá isso devem. Em suma, olhando apenas para a parte desportiva, se eu fosse João Félix não pensava duas vezes: ficava pelo menos mais um ano.
Como não sou João Félix, ficarei à espera de ver aquilo que ele vai decidir. Respeitando, e percebendo, a escolha que fizer. Mas se lhe pudesse dar um conselho, dir-lhe-ia para deixar que seja, apenas, a sua cabeça a decidir, o seu futuro. Porque essa é, sempre, a melhor maneira de ligar com as consequências. Pode ser, até, a escolha errada. Mas pelo menos é a dele."

Ricardo Quaresma, in A Bola

Os números da final com a “Reconquista Encarnada”

"Terminou mais um ano desportivo de futsal esta época. Tivemos momentos muito bons que, certamente, vamos recordar com muita alegria este ano. O Sporting CP foi campeão europeu, juntando-se ao SL Benfica no lote de vencedores da competição. E tivemos uma final de play-off digna de um país campeão europeu com os “encarnados” a terminarem um período de três anos sem vencer um campeonato.
Retiramos todas as polémicas que envolveram estes cinco jogos, porque o que verdadeiramente importa foi o espectáculo que os protagonistas nos proporcionaram dentro da quadra. Foi uma final como já estamos habituados e que não desiludiu todos os adeptos que gostam de futsal. Houve golos – um total de 40 na final -, emoção, jogadas brilhantes, defesas do outro mundo e ambientes em pavilhões que há muito já não se via e vivia.
Muitos pensaram que o factor casa pouco ou nada contava… mas revelou-se fundamental. Se no jogo um e dois não foi obstáculo para ambas as equipas vencerem no campo do adversário, os outros três o factor casa ajudou e de que maneira. Tanto no Pavilhão João Rocha como no Pavilhão da Luz os encontros foram jogados de maneira intensa com um ambiente que os jogadores gostam de jogar.
Esta foi uma final que trouxe muitas estatísticas interessantes que merecem ser discutidas no mundo do futsal novamente.
Começamos com os números impressionantes dos “leões” de presenças em finais do play-off. Esta foi a Décima (!) vez consecutiva que o Sporting CP estava a disputar os jogos decisivos para erguer novamente o troféu de campeão nacional. Dessas dez vezes em finais somente três não foram campeões – todas perdidas para o SL Benfica. São números incríveis da equipa “leonina”.
Na época 2009/10, o SL Benfica foi campeão europeu, em Lisboa, frente ao Interviu Madrid e na final do play-off do campeonato nacional acabou por perder para o rival Sporting CP. Esta época 2018/19, foi o Sporting CP a ser campeão europeu, em Almaty, frente ao Kairat e a perder com os “encarnados” na final. Vivemos uma maldição do campeão europeu português? Não sei… mas as estatísticas, que pouco ou nada valem, dizem que sim.
O campeonato de futsal só na época 2008/09 é que começou a ser jogado à melhor de cinco jogos – ou seja, o primeiro clube a ganhar três jogos vence. E desde que assim é jogado já houve quatro finais com jogo cinco, ou como se diz na gíria “a negra”. E parece que os números são favoráveis ao SL Benfica.
A primeira “negra” foi logo jogada em 2008/09 com o SL Benfica e CF Os Belenenses. Os “encarnados” acabariam por vencer os “azuis do Restelo” no último jogo, no Pavilhão da Luz, por 4-3 no prolongamento. As outras três foram jogadas entre os eternos rivais de Lisboa, SL Benfica e Sporting CP. Duas “negras” sorriram às “águias” – incluindo já a desta época 2018/19 – e uma aos “leões”.
SL Benfica e Sporting CP são as duas equipas com mais argumentos para vencerem todos os anos o campeonato nacional. Pode até haver surpresas de vez em quando, mas são, indiscutivelmente, as melhores equipas em Portugal. Protagonizaram uma final que teve de tudo e, certamente, os clubes do estrangeiro devem estar de olhos postos no que foi jogado nas quadras portuguesas.
Um jogo cinco que teve um protagonista que só jogou mesmo a última partida da época. Raúl Campos marcou três dos quatro golos das “águias” no encontro e foi decisivo ao entregar novo campeonato para o museu “encarnado”. O espanhol é um jogador de outro nível que merece mais oportunidades em campo.
Este foi o oitavo título de campeão nacional para as “águias” e foram fiéis ao lema que tinham quando começou esta nova época: “Reconquista”. Os “encarnados” foram justos vencedores e explico por quê. Foi a equipa que venceu a fase regular com mais dois pontos do que o Sporting CP, segundo classificado, e foi muito mais competente quando necessitava de o ser neste play-off. Resta apenas dar os parabéns ao SL Benfica, o novo campeão nacional de futsal."