Últimas indefectivações

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Saudades do futuro



"Este é o tempo das saudades do que aí vem, que vai longo o jejum de jogos a sério. Na teoria, pelo menos nela, nenhum dos candidatos ao título estará mais fraco, pelo contrário, mas também teoricamente nunca está nesta altura das épocas. E ainda há hipóteses de saídas importantes em aberto, que o mercado vai estar vivo mais um mês e o dinheiro que jorra da Arábia faz cair velhos hábitos de negócio como peças de dominó.
O campeão Benfica já sente as previsíveis saudades de Grimaldo. Os números de assistências e golos da época passada silenciaram os céticos do “defende mal”, mas o pequeno espanhol era bem mais do que o defesa que organizava como médio e definia como atacante. Era um elemento indispensável no processo de construção, GPS raro pelo que encontrava de saídas seguras, fosse em passe ou condução, algo essencial a qualquer equipa grande e mais ainda a um Benfica que coletivamente lida mal com adversários pressionantes. Viu-se em alguns jogos importantes da época anterior e houve sequelas recentes e elucidativas nos confrontos com Burnley e Feyenoord. Mais que encontrar o local certo para Aursnes, que não me parece de todo ser no centro do terreno (para mais quando há João Neves), ou que descobrir a fórmula de utilizar mais vezes David Neres (provavelmente sacrificando João Mário) sem perder muito equilíbrio, a decisão mais crítica no imediato, e sobretudo no processo ofensivo, será a de aprender a viver sem Grimaldo, porque os primeiros sinais de Jurásek são de um jogador ainda em construção e Ristic não é melhor do que era, apenas ganhou estatuto de comparável à concorrência porque o nível baixou.
No FC Porto, a defesa pode ser melhorada - que os laterais não são fiáveis e os centrais titulares não vão para novos – enquanto o ataque parece solucionado desde que Taremi não saia - esse será, um dia, uma saudade – e acrescentado do prometedor Fran Navarro. O problema que ainda urge resolver, já pelo segundo ano, é mesmo o que ficou em aberto desde a saída de Vitinha. Nem Bruno Costa nem mesmo Eustáquio provaram como alternativa ao magnífico peso-pluma que saiu para Paris e só a imensa qualidade, e versatilidade, de Otávio vai disfarçando a ausência de quem defina ritmos e o critério com bola na zona nuclear portista. O problema é quando Otávio baixa para organizar, como se viu com o Rayo, deixa de estar nos três quartos do campo, onde é mais influente e profícuo, porque permite à equipa ter largura a defender e várias soluções de passe por dentro quando em posse. Grujic, Eustáquio e Baró são opções interessantes para compor o plantel, mas não os herdeiros firmes da dupla Uribe-Vitinha, a última campeã. Se a contratação arrastada de Alan Varela se confirmar, está encontrada a alternativa a Uribe, taticamente fiável e com mais potencial, mas o grande reforço já garantido é mesmo Nico González, que vejo encaixar como luva nas ideias de Sérgio Conceição. É robusto e combativo, disponível no momento defensivo, mas tem uma assinalável qualidade com bola, que transporta e passa com qualidade. É um jogador de perfil diferente, desde logo físico, mas acredito que será capaz de fazer com que haja, finalmente, menos saudades de Vitinha.
O Sporting de Braga conseguiu um excelente reforço no jovem médio Zalazar. Até há poucos anos, poucos mesmo, por 5 milhões o Braga só vendia, agora compra. Também isto exemplifica como o clube cresceu. Rodrigo Zalazar é um internacional uruguaio vindo da Alemanha, muito competente com bola e batalhador sem ela. Vai entusiasmar, acredito, e terá função essencial no desenho híbrido, algures entre 1.4.2.3.1 e 1.4.3.3, que Artur Jorge tem ensaiado, e ao qual não faltam soluções daí para diante. Se imaginarmos Ricardo Horta, Bruma e um dos pontas de lança (Ruiz parte à frente de Banza) como outros titulares óbvios, resta uma vaga apenas, para a qual se vão acotovelar, dependendo da estrutura, Álvaro Djaló, André Horta, Pizzi e Rony Lopes, se se confirmar a sua chegada. De caminho saíram dois nomes com história, Sequeira e Iuri Medeiros. Pelo trajeto no clube vão sempre deixar saudades, mas elas serão maiores ou menores consoante o que renderem Adrián Marín na lateral esquerda e Rony (ou outro dos citados) na direita do ataque. Mesmo muito difícil de superar, por muito que o negócio venha a ser bom e já tenha chegado Vítor Carvalho para a vaga, será uma eventual partida de Al Musrati. Ele é a coragem tática de nunca se esconder sob pressão, a qualidade posicional nos vários momentos, somadas à lucidez do melhor passe, seja curto ou longo. Mas também é, e sobretudo, a sabedoria da pausa numa equipa que joga ligada à corrente, o velho feiticeiro que explica aos guerreiros que o caminho para a vitória não tem de ser sempre em linha reta. Numa equipa emocional, que espelha o perfil do treinador, a racionalidade de Al Musrati será fatalmente uma de duas coisas: ou decisiva ou uma saudade.
No Sporting, já se viu que Gyokeres acrescenta. O primeiro impacto é físico, num daqueles jogadores que impressionam na aceleração e nos duelos, mas também já vai mostrando que pode somar golos. Muito poderoso no ataque à profundidade, fará decerto do Sporting uma equipa mais perigosa nos momentos de transição ofensiva, mas também, ao empurrar para trás (por receio das suas arrancadas) as linhas defensivas contrárias, vai alargar o terreno à disposição da criatividade de Marcus, Trincão ou Pote. Os leões vão ser mais perigosos a atacar, essa parece ser a primeira conclusão otimista a retirar da pré-época. Quanto ao momento defensivo, vai depender de conseguirem a contratação de um médio de equilíbrio, na linha de Ugarte (e de Palhinha, antes dele), porque nem Morita nem Pote têm esse perfil e necessariamente não poderão alinhar sempre os dois naquela zona, seja por razões táticas ou de simples disponibilidade. André, do Fluminense, é, há muito, um craque anunciado, mas se a opção for pelo dinamarquês Hjulmand a equipa fica igualmente muito bem servida, porque é um jogador físico, mas que sabe jogar, um homem de equilíbrios que não se esconde em posse. O dinheiro do excelente negócio Chermiti é bem capaz de permitir que Amorim venha a ter o seu plantel mais completo de sempre em Alvalade. E assim, por lá e para já, as maiores saudades serão ainda de Pedro Porro."

Segunda...

Cada vez mais a sério


"1. O arranque da temporada já tem data marcada. É já no tão próximo dia 9 de Agosto, no Estádio Municipal de Aveiro, que será dado o pontapé de saída das competições oficiais em 2023/24. A tradição manda abrir a época com a discussão da Supertaça Cândido de Oliveira e quando a tradição manda o calendário obedece. O Benfica, campeão nacional, e o FC Porto, vencedor da Taça de Portugal, vão encontrar-se a uma hora imprópria para discutirem entre si um troféu oficial. Carrega, Benfica. E mais nada.

2. O apito inicial do encontro em Aveiro será às 20:45, uma hora imprópria por ser excessivamente tardia. Não é assim que se conquistam as famílias para o futebol. E muito falam os dirigentes da necessidade de recuperar as famílias para as bancadas dos estádios. Mas com os jogos a acabar perto das onze da noite e com as tão aparentemente desejadas 'famílias' a regressar a cada pela meia-noite, não há campanha que resista. O slogan até é bonito. Queremos trazer de volta as famílias para o futebol, dizem todos. Mas não passa disso.

3. Poderoso. É a palavra que melhor define Diogo Ribeiro, nadador do Benfica, 18 anos, vice-campeão do mundo dos 50 metros mariposa. Trata-se de um predestinado, de um portento da natação mundial. A medalha de prata que conquistou nos Mundiais de Fukuoka é a primeira medalha que a natação portuguesa tem em provas desta dimensão e isto diz tudo sobre a proeza cometida por Diogo Ribeiro. Que campeão.

4. Uma das boas notícias da semana foi, sem dúvida, a renovação do contrato de Tomás Araújo até 2028. Não foi, aliás, uma boa notícia. Foi uma excelente notícia.

5. O Conselho de Arbitragem (CA) da Federação Portuguesa de Futebol anunciou a divulgação pública das comunicações com o VAR a partir já desta época que vai daqui a pouco começar. O CA não é muito claro no seu comunicado sobre esta interessante inovação porque, se um parágrafo diz que serão divulgadas 'algumas' comunicações, num outro parágrafo diz que o CA divulgará uma vez por mês os áudios das conversas 'em todos os lances avaliados no ecrã disponível no relvado'.

6. Estamos nisto portanto, a intenção é via, mas entre o 'algumas' e o 'todos' sempre vai uma grande distância. O que é certo, mesmo certo, é que será 'uma vez por mês' que vamos ouvir as conversas entre os árbitros de campo e os videoárbitros. Cuidado, não digam asneiras.

7. No domingo, em Roterdão, o Benfica encerra a sua pré-temporada com um jogo de preparação na cada do Feyenoord. Não é mais um jogo a brincar, no entanto, é depois do jogo nos Países Baixos que tudo começa a sério, muito a sério."

Leonor Pinhão, in O Benfica

Uma vitória bem cozinhada


"Em dia de decisões, Guttmann teve uma ajuda inesperada

Os grandes jogos captam todas as atenções para si. E os adeptos querem ficar ligados e vivenciar cada momento. As opiniões sobre o onze inicial multiplicam-se, com um ou outro a defender a inclusão de determinado jogador em detrimento de um companheiro. São técnicos de bancada, mesmo antes sequer de terem chegado ao estádio! A imprensa aproveita esse interesse para reproduzir passo a passo o dia a dia das equipas.
Na última semana de maio de 1961, os 'holofotes' viraram-se para a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus. 'É justo afirmar-se que está a despertar um interesse extraordinário'. Dada a importância da partida, o Benfica preparou o encontro de forma minuciosa, viajando para a Suíça uma semana antes do jogo final. Mesmo afastados de Portugal, e superando a típica neutralidade dos suíços, os benfiquistas foram bastante acarinhados, sendo frequentemente abordados durante os 'passeios higiénicos', com os encarnados a terem de 'assinar milhentos autógrafos'.
A simpatia dos jogadores portugueses conseguia quebrar a sempre neutra Suíça, pondo os locais a pender a favor dos encarnados, querendo contribuir ao máximo para o seu sucesso. Neste capítulo, o chefe de cozinha do Hotel Eden, onde os benfiquistas estavam instalados, conseguiu ir mais além. No dia da final, o chefe de cozinha chegou junto do treinador do Benfica e entregou-lhe 'misteriosamente, um papelinho. Enquanto Guttmann examinava o 'recado' ouvia atentamente as explicações do mestre 'Pantagruel', que, como já tinha visto, pela televisão, jogar o Barcelona mais do que uma vez, pretendia, por questão de simpatia, indicar ao técnico dos portugueses a táctica que devia empregar'.
Não sabendo se o técnico húngaro levou em conta as dicas do chefe de cozinha, a verdade é que os benfiquistas realizaram uma excelente partida, dando a volta ao marcador após terem começado a perder, e, com o triunfo por 3-2, foram o segundo conjunto a inscrever o nome na lista de vencedores da competição de clubes mais importante da Europa.
Saiba mais sobre esta conquista na área 12 - Honrar o País, do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

Notas soltas


"- Diogo Ribeiro é um prodígio. 18 anos apenas, o mais novo na final do Mundial nos 50 metros mariposa (o seguinte tinha 20 anos, os restantes 22 ou mais), conquistou a prata, a primeira medalha de um português. Desde Yokochi, em 1987, que não havia um português (individual, masculino) numa final de uma prova num Campeonato do Mundo. E, naquela que nem sequer é a sua melhor especialidade (100 metros livres), foi 10º nas meias-finais. Extraordinário!
- Se sou o primeiro a relativizar as vitórias e boas exibições na pré-época, serei o último, também, a relevar uma derrota e uma exibição apagada numa metade da partida. Neste tipo de jogos, dou importância a sinais que, por sua vez, nos dão pistas, não mais do que isso. O jogo com o Burnley não correu bem, mas, do meu ponto de vista, o sinal mais interessante teve a ver com a dinâmica que a equipa (mais aproximada do 11 base) imprimiu na última meia hora da primeira parte, com um futebol rápido, variado, pressionante e inspirado, apesar de infeliz na concretização;
- Esta semana soubemos da inovação relativamente ao VAR (divulgação de alguns áudios) e demos conta do regozijo em causa própria do Conselho de Arbitragem. É lamentável. Não há, nesta decisão, qualquer acto que fomente a transparência. O que teremos é a divulgação de áudios escolhida a dedo. Claro que poderá haver um propósito pedagógico, outro elucidativo, mas o que impera é a criação de mais uma potencial ferramenta de condicionamento através da escolha selectiva dos áudios tornados públicos. Transparência seria a divulgação integral dos áudios. Ainda mais transparente seria a comunicação ao vivo das decisões, como acontece na NBA, na NFL, no râguebi… assim não temos sequer uma meia medida, porque de transparência esta medida nada tem;
- O Benfica é impressionante. A entrada no mercado dos fan tokens, através da plataforma Socios.com, foi um sucesso. Conseguiu mesmo ser, de acordo com um responsável da plataforma (citado pelo Negócios), a melhor emissão do ano. 500 mil fan tokens colocados em 24 horas e isto porque, no primeiro dia, a subscrição estava limitada a 100 por subscritor;
- Parabéns Museu Benfica Cosme Damião pelo 10º aniversário. É um excelente museu, muito mais do que um repositório de taças. E há todo um conjunto de valências de que o clube dispõe devido à sua existência, promovendo o estudo da história benfiquista e um conjunto de iniciativas de divulgação da mesma à disposição dos sócios e adeptos."

João Tomaz, in O Benfica

A História a ser escrita


"Que semana esta! E tudo foi espoletado na passada segunda-feira com o impressionante segundo lugar de Diogo Ribeiro nos 50 metros mariposa dos Campeonatos Mundiais de Natação. A medalha de prata conquistada em Fukuoka, no Japão, foi a primeira na história da natação portuguesa (a este nível e em piscina longa) e o impacto mediático não se fez de esperar. As reações oficiais do SL Benfica e dos seus adeptos (bem como dos desportistas em geral) geraram tal frisson que o nadador de 18 anos que representa o Glorioso teve a necessidade de suspender a sua atividade nas redes sociais para se concentrar nas restantes provas em que se apurou - 100 metros livres, 50 metros livres e 100 metros mariposa, além da estafeta de 4x100 metros estilos.
Esta competição inesquecível para o desporto português termina no próximo domingo e todos os elogios são poucos para o feito de Diogo e do seu conceituado treinador, Alberto Silva (Albertinho no mundo da natação). Às vezes, há momentos em que temos a certeza de estar a assistir à história a ser escrita. Este é um deles. Com o talento e o trabalho embalados por uma imensa massa de adeptos - além do apoio logístico do clube - Diogo Ribeiro tem tudo ao seu alcance para ser uma estrela de uma das mais populares modalidades olímpicas, a par de atletismo e ginástica. Tem apenas 18 anos, repito, e uma carreira invejável enquanto júnior. Imagine-se até onde poderá chegar no escalão principal. Para já, é só o nadador português de sempre em Mundiais. Venha Paris 2024."

Ricardo Soares, in O Benfica

Tenho saudades de não saber como o que contar


"A pré-época está a chegar ao fim e há uma mistura de sentimentos. Por um lado, isto significa que as competições oficiais estão quase a começar - e a ansiedade aguda também. Por outro lado, estamos prestes a fechar este período que antecede o verdadeiro arranque com a sensação de que já nada é como antes. Nenhum jogo com o Étoile Carouge? A UEFA voltou a esquecer-se de organizar o Torneio do Guadiana? Nenhuma telenovela dramática com uma contratação extremamente desejada a acabar desviada para outro aeroporto? Reforços preparados para acrescentar qualidade à equipa hoje mesmo, agora, no imediato? Não digo que não aprecio, contudo ficava ainda mais excitado ao ver aquelas caras novas com potencial para explodirem... passados uns 10 anos.
Isto de organizar bem as pré-épocas é muito bonito e até aumenta exponencialmente as probabilidades de sucesso ao longo da temporada, mas assim o verão nem sabe ao mesmo. Já todos sabemos que o Di Maria é um craque, que o Kokçu trata a bola com muito carinho e que o Jurásek é uma locomotiva a percorrer o corredor esquerdo. No entanto, a incerteza também nos alimentava. Este Balboa vai ultrapassar o estatuto do Rocky ou nem sequer vai superar o estatuto das tranças do Olavo Bilac? O Carlitos vai estrar-se a marcar já na 1.ª jornada ou só daqui a 20 anos no Liga Portugal Legends? Será que este Marc Zoro tem todas as condições para ser um segurança no Urban? Hoje, sobra-me demasiado tempo livre porque já não preciso de o perder a refletir sobre este tipo de questões.
O que vale é que domingo temos jogo com o Feyenoord e depois... começamos todos a pensar no mesmo."

Pedro Soares, in O Benfica

Um luxo!


"Infelizmente, o mercado está longe de fechar. Não fosse o caso e poderíamos desde já afirmar que o Benfica iria ter um plantel verdadeiramente luxuoso, porventura o melhor futebol português nos últimos anos. Estou convencido do que o terá, mas de momento ninguém pode estar seguro - nem os próprios atletas - de que até final de Agosto não haja saídas. E a havê-las, quais os felizes contemplados e os respectivos substitutos.
Olhando para o imediato, limitando-me ao sector mais ofensivo, e vendo Di Maria, Rafa, Neres, João Mário, Aursnes, Kokçu, Gonçalo Ramos entre outros, aos quais acrescerá, a seu devido tempo Gonçalo Guedes, quase lamento a 'difícil' tarefa do nosso treinador na escolha do onze para cada jogo.
Haverá uma ou outra posição que talvez necessite de mais alternativas, pelo menos de banco (nomeadamente guarda-redes e lateral-direito), mas globalmente não deve existir um benfiquista que não esteja satisfeito com o plantel, e confiante em mais uma temporada de sucesso - o que se traduz na conquista do 39.
De resto, os jogos de preparação têm confirmado que as dinâmicas são para manter, e com uma maior afinação do processo defensivo (o regresso de Otamendi será importante nesse aspecto), estaremos preparados para o que aí vem. Desde logo para a Supertaça que sendo contra quem é, terá importância redobrada - até pelo que pode significar no plano psicológico de uma e de outra equipa, nuns e noutros adeptos.
Veremos o que acontece até final do mercado, sendo certo que já todos percebemos que a prioridade do clube é a aposta nos títulos. Aliás, é com eles que se conseguem também resultados financeiros, não esquecendo que este campeonato terá a particularidade de apurar apenas uma equipa, de forma directa, para a próxima, e ainda mais milionária, Liga dos Campeões."

Luís Fialho, in O Benfica

Para ti Se não faltares!


"Foi com este nome que há mais de uma década, logo no início da Fundação, batizámos um projeto de combate ao abandono e insucesso escolar cujos métodos inovadores e resultados são verdadeiramente extraordinários e têm sido reconhecidos em toda a parte, das famílias as comunidades, dos professores aos parceiros. Tem mesmo atraído a atenção de instituições internacionais que lhe reconhecem e premeiam o mérito.
O princípio ativo do projeto é obviamente a vontade dos jovens e o que o faz funcionar é atratividade do futebol e muito particularmente de um dos seus maiores: o Benfica!
Não se trata de um evento de massas, nem de propaganda ou comunicação fácil; é, sim, um projeto que atua no dia a dia, no espaço escolar, junto dos jovens e famílias ao longo de três anos letivos sucessivos em que os jovens assinam contratos de desenvolvimento e se comprometem com o investimento neles próprios que é valorizar a educação e os seus impactos para a vida. E, claro, quando se valoriza e educação, mesmo em situações socialmente desfavorecidas, abrem-se caminhos que levam jovens e famílias muito mais longe do que muitas vezes consideraram ser possível.
É sem dúvida o poder do futebol entregue às famílias em benefício da vida de todos os dias e daquela que há de vir para os seus filhos. O Benfica, como sempre, está lá bem perto, de mão dada com os jovens e ajudar a encontrar o caminho."

Jorge Miranda, in O Benfica

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"1
No Festival Olímpico da Juventude Europeia, Rafael Mimoso sagrou-se campeão nos 200 metros bruços e estabeleceu novo recorde nacional juvenil (2.15,98 minutos);

2
Diogo Ribeiro, 18 anos, o mais novo na final, conquistou a medalha de prata nos 50 metros mariposa do Campeonato do Mundo e estabeleceu o recorde nacional (22,8 segundos), naquele que é o maior feito da história da natação portuguesa;

5
A seleção feminina portuguesa sub22 de voleibol está apurada, pela 1ª vez, para o Campeonato da Europa e, no jogo decisivo, contou com o contributo de 5 voleibolistas do Benfica;

6
No jogo de estreia de Portugal no Campeonato do Mundo de futebol no feminino alinharam 6 futebolistas do Benfica, 4 no 11 titular;

10
O Museu Benfica Come Damião completou 10 anos de existência;

13
O Benfica é tridecacampeão nacional de atletismo em pista ao ar livre e passou a ser o recordista de títulos nacionais consecutivos (nos masculinos). Para conquistar o 13º Campeonato Nacional consecutivo, os encarnados ganharam 14 das 21 provas realizadas;

49
Gonçalo Ramos passou a integrar o top70 dos mais goleadores do Benfica (incluindo jogos particulares. Soma 49 golos e é, a par de Alexandre Brito, que se notabilizou no clube no final da década de 30 do século passado, o 68º no ranking;

50
Bah chegou à meia centena de jogos de águia ao peito (incluindo particulares);

66
Odyseas Vlachodimos, com 246 jogos, subiu ao 66º posto, partilhado com Artur Correia, dos futebolistas com mais partidas pela equipa de honra do Benfica (incluindo particulares);

500000
A Fan Token Offering do Benfica foi lançada com 500000 fan tokens."

João Tomaz, in O Benfica

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Visão: Prestianni...

El Mítico #50 - João Pinto...

BI: Equipamentos...

Lados coloridos!


"Crime era quando os candidatos às eleições do SL Benfica tinham políticos nas suas Comissões de Honra. Se for o atual presidente do fóculporto, não vem mal nenhum ao mundo...
Quem não se lembra das críticas, que o Ministro da Cultura recebeu por dizer que não ia assistir ao Mundial do Qatar in Loco, por preferir o seu lugar semanal no Estádio da Luz, por parte dos puritanos cartilheiros dos azuis de Contumil!?"

Sinal #5 - Feyenoord...

El Mítico - 60s - Feyenoord...

Segunda, excerto...

Benfica FM #241 - Feyenoord...

O Cantinho Benfiquista #145 - Pre-Season & A Draft

O Benfica Somos Nós - S03E02

Visão: Feyenoord...

5 minutos: Diário...

Visão: Zoom...

Mais um passo na preparação


"O particular com o Feyenoord é o destaque nesta edição da BNews.

1. Fecho da pré-época
Está completado o ciclo de jogos de pré-época. Em visita ao campeão neerlandês, o Feyenoord, o Benfica perdeu por 2-1, numa partida em que Roger Schmidt utilizou 21 jogadores.

2. Declarações pós-jogo
Roger Smith na Conferência de Imprensa para o jogo frente ao Feyenoord Após o reencontro com o seu anterior clube, Kökcü refere que a equipa "está preparada", salienta as "semanas duras de muito treino" e deixa uma garantia: "Temos mais dez dias até à Supertaça e vamos estar prontos para lutar nesse jogo."

3. Reconhecimento
Formado no Feyenoord, capitão de equipa e campeão neerlandês, Kökcü foi homenageado pela direção do clube de Roterdão antes da partida, uma ação a que se juntaram, de forma sentida, os adeptos presentes no Estádio De Kuip.

4. Feito na canoagem
Pedro Casinha sagrou-se campeão europeu Sub-23 em K1 200 metros. O canoísta do Benfica conquistou ainda o bronze, com Gustavo Gonçalves, em K2 500 metros.

5. Recorde nacional
Dois nadadores do Benfica, Diogo Ribeiro e Miguel Nascimento, integram o novo quarteto recordista nacional nos 4x100 metros estilos, uma marca estabelecida no último dia do Campeonato do Mundo.

6. Campeonato de Portugal de atletismo
Doze atletas benfiquistas são campeões nacionais, a título individual, após vencerem provas do Campeonato de Portugal. Ao todo, são 33 as medalhas conseguidas em representação do Benfica.

7. Iniciativa do Museu
No âmbito das comemorações do 10.º aniversário do Museu Benfica – Cosme Damião, João Estevão e Matilde Serra (ginástica), Tatiana Castanho (luta) e Maria Sofia Silva (hóquei em patins) partilharam a sua experiência no âmbito do tema "O que é ser campeão?""

Terceiro Anel: Diário...

Ajudem João Félix


"O cenário é irrealista. Imaginem-no, se forem capazes.
O FC Porto (podem ser Benfica ou Sporting) investe milhões num futebolista, o futebolista não corresponde ao que Sérgio Conceição (podem ser Roger Schmidt ou Rúben Amorim) exige, o mesmo atleta sai por empréstimo, volta e – em plena pré-temporada – diz que o sonho de criança foi sempre jogar no Benfica (ou no Sporting).
Um tonto. Um inconsciente. Um desrespeitador.
Plot twist. Aconteceu mesmo.
Foi isto, precisamente, que João Félix achou boa ideia experimentar: anunciou a todo o mundo o desejo de vestir a camisola do Barcelona e uma paixão blaugrana que o persegue desde a infância.
Só faltou o assobio do Piranha no Verão Azul, ladeira abaixo, bicicleta e amigos. Idílico.
Félix teve este atrevimento, veja-se bem, inserido nos trabalhos de pré-época do Atlético Madrid. E com mais quatro anos de contrato nos colchoneros.
Não sei se este tique de absurda petulância saiu da cabeça do João ou se alguém na sua entourage o aconselhou neste sentido. Uma estupidez desenfreada, um ultraje disparado direitinho ao coração dos milhões de adeptos do Atlético.
Não é assim que se recupera o crédito, já de si tão malparado.
Sou fã do futebol de Félix. Tem tudo o que procuro num craque, a leveza, a descontração altiva, a sensibilidade a receber, a tocar e a rematar.
Em 2019, alguém se lembrou que seria boa ideia entregar este pacote delicado nas mãos de um ferreiro. Um ferreiro competente, sim, mas um ferreiro. Um homem com ideias inversamente proporcionais às esperadas por João dentro de um campo de futebol.
Quatro anos depois, João Félix não é melhor futebolista, não é um nome mais apetecível no mercado de transferências, tem a credibilidade arruinada no emblema de Madrid e a carreira num beco de saída apertada.
Qual será o próximo passo?
Ajudem João Félix, ajudem-no a parar para pensar, a ver e a ler todas as possibilidades, a fazer mea culpa e a assumir o ridículo de um empréstimo a um Chelsea meio morto. Um Chelsea que, ainda assim, teve a afronta de recusar um futuro com Félix.
Dirijo-me às pessoas com influência sobre o avançado. Pais, irmão, representantes, a todos os que gostam realmente do homem. Ajudem-no.
Félix e Simeone era uma relação condenada à partida. Contra-natura. Um toureiro e um defensor dos direitos animais, um belicista e um objetor de consciência na mesma casa. Não há harmonia possível entre causas contrárias, conflituantes.
Não dá, nunca deu. A responsabilidade é de ambos, naturalmente, mas acima de tudo há um clube histórico e um contrato milionário a respeitar – assinado por vontade própria, que se saiba, pelo atleta.
João Félix tem algumas saídas, ainda assim.
1. Um pedido de desculpas público ao mundo colchonero, na esperança de que o clube facilite um empréstimo com cabeça, tronco e membros
2. Uma conversa séria com Xavi, para avaliar se a famosa paixão é correspondida ou se é um desamor de verão condenado ao fracasso
3. Uma terceira via, para um clube onde possa ter paz, jogar com liberdade e responsabilidade, num futebol compatível com os seus ‘pezinhos de ouro’.
O Benfica entraria nesta terceira opção. Socorro-me de Luís Freitas Lobo e digo que Félix «precisa mais do Benfica do que o Benfica de Félix» nesta altura. Mais do que contratar o avançado, o clube estaria disponível para recebê-lo. E seria bom para os dois lados.
Que Félix pense bem, que fuja das arábias desta vida e dos muitos milhões da Turquia, Grécia e outros desterros piores. O seu lugar é na mesa dos maiores, aos 23 anos está mais do que a tempo de corrigir erros recentes. No Benfica ou num campeonato decente.
Ajudem-no."

Quantos Burnley há na Liga Portuguesa?


"Tenho um par de galochas que só utilizo durante o Verão. É raro apanhar chuva, aquele par de galochas. Lembro-me de uma tarde, no Verão passado, em que caiu uma carga d’-água. Estava com as galochas, fiquei com os pés molhados. Sinceramente, não me importei. Num Verão inteiro, aconteceram quê? Duas, três vezes? É raro chover, no Verão. Não me vou desfazer das galochas por causa disso. Ando bem calçada. Se for preciso, subo montes, subo escadas. Já sei é que, pronto, se chover, fico com os pés molhados. Mas isso é uma vez, muito de vez em quando.
O Benfica joga na Liga Portuguesa. É raro jogar contra um adversário que pressione alto, o Benfica. Numa tarde do campeonato passado, o Benfica jogou contra o FC Porto. Apanhou uma pressão alta, perdeu o jogo. Sinceramente, não fez diferença. Num campeonato inteiro, aconteceram quê? Uma, duas vezes? É raro o Benfica apanhar pressões altas, na Liga Portuguesa. Não se vai preocupar com pressões altas por causa do FC Porto. Foi campeão. Se for preciso, ganha a Taça de Portugal, chega aos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Já sabe é que, pronto, se apanhar pressões altas, sente dificuldades. Mas isso é uma vez, muito de vez em quando.
Durante a pré-época, ainda não tinha caído uma carga d’água, ou seja, o Benfica ainda não tinha jogado contra um adversário competente a pressionar alto. Frente ao Burnley, ficou a ideia de que Roger Schmidt continua a usar as galochas do campeonato passado.
Quem olhou para a primeira-parte, período em que o treinador do Benfica lançou muitos dos principais candidatos ao primeiro 11 inicial oficial, viu uma equipa com os mesmos problemas colectivos e um novo problema individual: Jurásek não é Grimaldo. O lateral espanhol, quando recuado, através da sua exímia leitura de jogo e/ou da sua excepcional qualidade técnica, era capaz de inventar soluções face a opositores que lhe encurtavam o espaço, que o obrigavam a pensar e a executar mais rápido. Grimaldo era uma referência na primeira fase de construção; Jurásek tem um perfil diferente, sendo um jogador mais talhado para aproveitar o espaço do que para encontrar aquele que parece não existir. Além disso, Jurásek não veio pela facilidade em desequilibrar em zonas interiores, algo que Grimaldo fazia com mais eficácia do que alguns médios, mas pela largura e profundidade oferecidas.
Do outro lado, Bah apresenta melhores argumentos no momento de descobrir o passe certo sob pressão, acrescentando a essa capacidade a de romper em condução, contudo, sob pressão, também é um lateral bastante dependente da equipa, menos auto-suficiente do que Grimaldo. Admitindo que Vlachodimos é menos um com os pés e que os dois centrais, tal como Bah, estão altamente condicionados pelo bom funcionamento do processo colectivo, em que é que resultaram quase todas as tentativas do Benfica sempre que procurou construir desde trás? Resultaram em perdas de bola. Mesmo quando António Silva ou Morato arriscavam no passe em busca de Di María, Rafa ou João Mário, a equipa mostrava-se impreparada na hora de dar soluções ao portador, que rapidamente se via rodeado por um ou dois adversários.
Pontualmente, o talento individual de alguns dos jogadores do Benfica foi resolvendo problemas que, em conjunto, podem ser resolvidos com maior regularidade/facilidade. Sucedeu frente ao Burnley, tal como já tinha sucedido frente ao FC Porto, no Dragão. No Estádio da Luz, contra o mesmo adversário, não chegou. Chegou para ser campeão, dizem. E poderá voltar a chegar, digo eu.
Porventura, poucos são aqueles que se preocupam em andar de galochas quase em Agosto se, na mala da praia, guardam o título de campeões nacionais. Este texto não é para esses, é para aqueles que, quando calçam as galochas, se lembram sempre dos dias em que ficaram com os pés molhados."

A rapariga que ganhou um porco


"Alfonsina olhava em redor e só via homens - pudera!, era a única mulher a participar na Volta a Itália de 1924

Alfonsa não é um nome comum, mas Alfonsa também não foi uma mulher comum. Carinhosamente chamavam-lhe Alfonsina. De nome completo, oficial e testemunhado em cartório notarial era Alfonsa Rosa Maria Morini. Olhava em seu redor e só via homens. Pois, que remédio: era a única ciclista que participava nas grandes competições. Claro que isto foi há muito tempo quando o desporto era algo para calções e não para saiotes. Na Volta a Itália de 1924 enganou, e bem, os juízes da prova e fez-se passar por um rapaz. Entretanto ganhara o nome do marido: Strada. Podia lá ser apelido melhor para quem engolia sobre duas rodas quilómetros e quilómetros de estrada.
Não sei ao certo porquê mas mal me deparei com a vida de Alfonsina Strada, o Diabo de Saias, percebi que nascera numa família pobre. Nada contra as famílias pobres, era o que faltava. Conheci muitas e conheci as dificuldades que um homem - neste caso mulher - atravessa para se manter no rumo vertical da honradez. Não sou como a grandessíssima aventesma que resolveu soltar a frase assassina: «São pobres? Façam-se ricos!». Ou como aquela rainha que ficou coma cabeça separada dos ombros mas que enquanto a teve no sítio soltava com despudor: «Não têm pão? Comam brioches!». Ora, Alfonsina comeu pão e duro. Às vezes punha-o de molho para poder mastigá-lo. Nasceu em 16 de março de 1891 em Riolo di Castellfranco Emilia, na Emilia-Romagna, não longe de Modena. Aos 14 anos já não largava a bicicleta que o pai lhe oferecera. Houve quem apostasse que era uma mania passageira. Houve quem achasse a sua paixão escandalosa. Houve quem lhe lesse no brilho dos olhos uma vontade indomável de viver sentada num selim com os pés a dar a dar como os alcatruzes de uma nora. Alfonsina era de ideias fixas. E fixou-se na de se tornar ciclista. Mesmo que não houvesse mais nenhuma para lhe fazer companhia. Olhava em volta e só via homens; olhava em volta e só via adversários que fazia questão de vencer. Com apenas 12 anos viajou até à Rússia. Tinha ganho uma prova para miúdos de ambos os sexos disputada em Bolonha. O prémio pela vitória foi um porco vivo. O porco não lhe dava jeito nenhum mas deu um jeitão aos pais que tinham galinhas no mísero quintal das traseiras. O porco vinha mesmo a calhar para roncar por entre o cacarejar dos galináceos. Os jornais contam a história e exageraram bastante a proeza de Alfonsina. Não que não merecesse elogios mas, que diacho!, tratava-se de uma competição infantil. Os ecos da rapariguinha que ganhara um porco chegaram, imagine-se!, aos ouvidos da czarina Alexandra que a convidou pessoalmente para participar no Grande Prémio de São Petersburgo de 1909. Adorou conhecê-la. E teimou com o marido, o czar Nicolau II, que era fundamental oferecer-lhe uma medalha de ouro.
Calculo que quando a garota regressou a casa, o pai tratou de enfiar a medalha de ouro no prego. Mas Alfonsina já voava movida a pedais. Casou-se com Luigi Strada, um bem-falante turinês que tratou de lhe fazer todas as vontades, sobretudo oferecendo-lhe os modelos de bicicletas mais modernos que iam aparecendo por toda a Europa. Como sempre acontece surgiram vozes irritadas com o sucesso da pequena. Em 1923, uma publicação francamente preconceituosa e intitulada Almanaque das Mulheres Italianas resolveu trazer a lume um comentário desagradável que lhe era directamente dirigido: «As mulheres não devem forçar o corpo a excessos perigosos e a exageros ridículos». Ela não tardou a dar-lhes o ridículo.
Quando toda a gente percebeu que Alfonsina Strada estava embrenhada no pelotão da Volta a Itália de 1924 era tarde demais para a mandar parar. Seria até ofensivo para certas cabeças mais lavadas. Terá tido a matreirice de se inscrever com o nome de Alfonsin, mas também há biógrafos seus que levam a mal esta versão machista. Como alguns dos grandes nomes do ciclismo italiano desse tempo, acima de todos Girardengo e Ottavio Bottecchia, não participaram no Giro, reclamando prémios monetários para se apresentarem à partida, Alfonsina e la Bici tornou-se a grande novela diária da Gazzetta dello Sport, patrocinadora da corrida. Ao fim da sétima etapa Alfonsina continuava a bater-se ferozmente, uma ilha-mulher rodeada de homens por toda a parte. A oitava etapa foi-lhe fatal: chovia cães e gatos e macacos de rabos cortados, uma tempestade de vento forte abalou todo o pelotão. Strada foi vítima de três furos e, no fim, acabou por ser eliminada por chegar fora do controlo. No entanto, Emilio Colombo, o chefe de redação da Gazzetta não se conformou com a ausência de Alfonsina e deu-lhe carta branca para continuar a correr embora sem contar para a classificação. Chegou ao fim. Cumpriu mais de 3500 quilómetros. Ao cortar a meta, desceu da bicicleta e chorou. Não são só os homens que choram."

A discriminação não é fair play. Nem nos relvados, nem no desporto, nem em lado algum


"As mulheres jogam futebol. E não só no futebol têm impulsionado a mudança e inclusão, como noutras modalidades desportivas.

O dia 27 de julho de 2023 foi um marco na história do desporto português e das portuguesas. Pouco passava do início da partida contra o Vietname, quando as Navegadoras nos fizeram festejar o primeiro golo. Que bom é ver a representatividade no desporto. Que bom é saber que, como eu, mais raparigas e mulheres se sentiram especialmente representadas nesta vitória.
É verdade que, em Portugal, vivemos dias de celebração para o o futebol e para a equipa de futebol feminina. Além de ser a primeira vez que a Seleção Nacional de Futebol Feminino é apurada para a fase final de um Campeonato do Mundo, foi também marcado o primeiro golo, nesta fase, ao serviço de Portugal - por Telma Encarnação no jogo contra o Vietname. Kika Nazareth seguiu-lhe os passos e o rumo da bola, fazendo o 2-0 e garantido a vitória a Portugal nesta segunda partida.
As mulheres jogam futebol. E não só no futebol têm impulsionado a mudança e inclusão, como noutras modalidades desportivas. Somam conquistas e adeptos, despertando uma atenção mediática cada vez mais presente. Gostava de ter a certeza de que se anteveem boas marés. Que a valorização da vertente feminina no futebol cresce e que a relação das mulheres com o desporto é respeitada em pleno. Estou ciente das vitórias conseguidas nesse sentido, tal como estou dos passos que ainda faltam para o desporto - também o futebol - ser efetivamente para todos e todas, independentemente do seu género, religião, condição social, económica ou geográfica.
Em França, um anúncio da empresa de telecomunicações Orange tem desafiado as perceções sobre a vertente feminina do futebol. O vídeo expõe algumas das melhores jogadas dos atletas da equipa de futebol masculina, os Les Bleus, acompanhadas da narração emotiva dos comentadores. No entanto, quando aparece a mensagem "Só os Les Bleus nos podem dar estas emoções. Mas não são eles que acabaram de ver" e nos é mostrado todo o processo de edição de vídeo, é que percebemos que os passes e golos que observámos não são dos astros da seleção masculina, mas sim das jogadoras da seleção feminina francesa, as Les Bleues.
Por outro lado, ainda em França, enquanto se procuram derrubar preconceitos quanto ao futebol feminino e consciencializar para a qualidade de jogo que, também as mulheres, são capazes de ter, as mulheres muçulmanas continuam a enfrentar barreiras na prática desta modalidade. No passado dia 29 de junho, o Conseil d'État decidiu que a Federação Francesa de Futebol não teria de alterar a sua política discriminatória que proíbe as jogadoras muçulmanas que usam hijab (véu islâmico) de participarem em jogos de futebol de competição. Esta é uma medida que viola os direitos à liberdade de expressão, de associação e de religião das jogadoras muçulmanas, comprometendo também os esforços para tornar o desporto feminino, onde o futebol se insere, mais inclusivo.
No Afeganistão, embora o gosto pelo desporto seja algo tão intrínseco como nos restantes países, os Talibãs têm impedido a sua prática às mulheres e raparigas, alegando que não se coaduna com o papel da mulher na sociedade. Muitas procuram realizar atividades desportivas em segredo, debaixo das apertadas restrições e vigilância por parte das autoridades de facto do país, receando qualquer telefonema, visita intimidatória ou pior desfecho. A liberdade para praticar desporto é agora uma miragem. Por sua vez, no Irão, as restrições à entrada de mulheres nos estádios de futebol têm sido uma realidade difícil de quebrar. O caso da jovem Zeinab Sahafi, que várias vezes se disfarçou de homem só para poder assistir a jogos de futebol no seu país, é só mais um exemplo de como o desporto é ainda interdito à vida das mulheres, no Irão e em tantos outros sítios.
Mas acredito que as boas marés virão - fruto da persistência, da vontade, do respeito, da justiça e, inevitavelmente, do tempo. A mudança, ainda que devagarinho, já está a acontecer."

Zero: Negócio Fechado S01E11 - Balotelli...

Domingo, excerto...