Últimas indefectivações

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Entretenimento non-stop


"1. O presidente do Conselho de Arbitragem da FPF falou a A Bola e disse que “temos dos melhores árbitros que existem a nível internacional”. A sério? É que, frequentemente, a nível nacional não é isso que parece.

2. Luciano Gonçalves lamentou ainda a impreparação do povo português para interpretar os áudios dos videoárbitros que vinham sendo divulgados em programas televisivos. “Vamos suspender os programas de arbitragem na TV. O nosso futebol não está preparado”, disse o presidente do Conselho de Arbitragem. Não estamos preparados, bem me parecia.

3. Somos, então, todos burros. E burros malévolos recusando-se a interpretar imparcialmente o sentido da troca de palavras entre árbitros e videoárbitros, os imparciais por excelência. “O nosso futebol não está preparado” para uma coisa destas? Que pena.

4. Com este veto presidencial à divulgação dos áudios do VAR por impreparação do país, não ficará a perder a tão celebrada verdade desportiva, mas, não duvidem nem um bocadinho, fica a perder a indústria do entretenimento non-stop.

5. Se a aplicação do veto aos programas de televisão com áudios do VAR for, como se teme, imediata, já nem vamos escutar a conversa entre o árbitro e o VAR do jogo Santa Clara-Sporting para a Taça de Portugal. E isto, sim, mete dó. Aqueles 12 ou 14 minutos que levaram a descortinar uma falta sobre o capitão do Sporting na área adversária – com recurso a zoom como novidade tecnológica – ficarão para sempre sem a respetiva banda sonora da conversa entre o árbitro e o videoárbitro instalado no vale do Jamor. Oh!

6. Por falar em vale do Jamor… O árbitro assistente da última final da Taça de Portugal que cometeu a proeza de, a meio metro de distância, não ver a agressão de Matheus Reis a Belotti – o que custou um troféu oficial ao Benfica – foi o mesmo árbitro assistente que, na terça-feira, em Leiria, ia cometendo a proeza de invalidar o golo legal – 1 metro e 6 centímetros de legalidade – com que o Vitória SC afastou o Sporting da final da Taça da Liga. O árbitro principal da final do Jamor também foi o mesmo árbitro da meia-final de Leiria. Já o VAR de serviço de Leiria não foi o mesmo VAR de serviço no Jamor. São dados…

7. O Benfica perdeu a sua meia-final da Taça da Liga frente ao SC Braga e perdeu o seu capitão para o jogo da próxima quarta-feira, para a Taça de Portugal, frente ao FC Porto no Estádio do Dragão. A derrota do Benfica em Leiria deve-se mais a erros próprios do que a erros alheios, e só isto dá muito que pensar."

Leonor Pinhão, in O Benfica

O desafio inspirador


"FRENTE AO VARZIM, TORRES CONCILIOU DUAS PAIXÕES: OS GOLOS E OS POMBOS.

A um treinador pede-se visão para antecipar problemas e engenho para os resolver. As épocas são longas, e só quem mantém a motivação em alta chega mais perto das conquistas.
Na temporada 1964/65, o Benfica vivia um momento brilhante, dominando dentro e fora de portas. Terminou a 1.ª volta do Campeonato Nacional isolado na liderança, com um ataque demolidor. A imprensa já o dava como tricampeão anunciado.
Nas jornadas seguintes, mesmo com alguns tropeços – 2 empates, 1 vitória e 1 derrota –, os encarnados rapidamente regressaram ao trilho do sucesso. Pelo meio, brindaram o Real Madrid com um inesquecível 5-1 no Estádio da Luz, na 1.ª mão dos quartos de final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Mas o futebol é rico em surpresas. Seguiram-se dois resultados amargos: derrota por 2-1 em Madrid e novo desaire frente ao FC Porto por 1-0. O jogo foi duro. Costa Pereira perdeu quatro dentes num lance em que saiu aos pés de Carlos Manuel, impedindo um remate. Ainda assim, manteve-se em campo para o resto do 1.º tempo e toda a 2.ª parte. Na etapa complementar, os benfiquistas revelaram cansaço, e os azuis e brancos aproveitaram para marcar o único golo do encontro.
A imprensa ficou surpresa com o desfecho: “Como é possível a derrota, às mãos dos jovens de Otto Glória, dum Benfica que eliminou do maior torneio um Real Madrid? Fadiga do jogo de quarta-feira?” O técnico do Benfica, Elek Schwartz, manteve a calma e elogiou o adversário: “O FC Porto atuou com muita energia, e não há dúvida de que tem futebol que justifica amplamente o lugar que ocupa na classificação e que por certo manterá, pois merece-o absolutamente.”
Internamente, porém, sabia que era urgente reagir logo na jornada seguinte, diante do Varzim. Sem poder contar com Eusébio, lançou um desafio ao segundo melhor marcador da competição, Torres: “Se marcasse três golos frente aos poveiros oferecia-lhe dois pombos e se marcasse dois tentos, a oferta ficaria reduzida a um.”
Apaixonado por columbofilia, aceitou de imediato. O Benfica entrou de rompante e dominou o encontro. Coluna inaugurou o marcador, e Torres apontou os três golos seguintes.
O Monstro Sagrado bisou e selou o triunfo em 5-0.
No final do jogo, Elek Schwartz estava satisfeito: “O Benfica venceu por 5-0, mas se Torres não tem estado infeliz, poderia ter obtido mais alguns golos. Mesmo assim, perdi dois pombos que lhe tinha prometido como prémio.” A uma vitória do título, os benfiquistas celebraram o tricampeonato na jornada seguinte, ao vencerem o V. Setúbal por 2-1. E Torres, com mais dois pombos, sagrou-se o segundo melhor marcador da prova, com 23 golos em 23 jogos.
Saiba mais sobre esta conquista na área 6 – Campeões Sempre, do Museu Benfica – Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

Relato de um náufrago


"Depois de um ano miserável da arbitragem portuguesa, seguramente o pior das últimas décadas (encontrando paralelo só nos tenebrosos tempos do Apito Dourado), o presidente do CA decidiu – ou decidiram mandá-lo – falar ao país.
No meio da habitual conversa fiada, o que disse de substancial situa-se entre o burlesco e o indecoroso.
Que não há mais erros do que no passado. Qual passado? Os anos noventa? Então, pelo menos, não havia VAR. Agora, sr. Gonçalves, não há desculpa. Como esta coluna de opinião não é suficiente para elencar todos os “erros” escandalosos que ocorreram no último ano, com este CA, basta lembrarmos as imagens da final da Taça de Portugal para ficarmos elucidados. A arbitragem, esta arbitragem, subverteu o palmarés do futebol português como há décadas não se via. Repito: com VAR, o que agrava consideravelmente a sua avaliação global.
Problemas? Os árbitros inexperientes. Tais como, digo eu, Luís Godinho, que apitou a final do Jamor, Tiago Martins, que foi (ou devia ter sido) VAR dessa partida, João Pinheiro, que esperou 14 minutos para assinalar um penálti inexistente nos Açores, António Nobre, que, contrariando o seu VAR, viu um penálti cometido com a cabeça no Estádio da Luz. Enfim, só se estivermos a falar do fiscal-de- -linha que transformou um remate por cima da barra num pontapé de canto. Desse, confesso que não recordo o nome. Soluções? Deixar de comunicar. Espantoso! Pretendem “errar”, continuar a “errar” e não dar cavaco a ninguém. E, para concluir, nem sequer faltou prescrever a receita do dr. Varandas: punir violentamente quem tenha a ousadia que formular a mais leve crítica. Ou seja, há que comer e calar.
Espero que não tenhamos de comer este prato durante quatro penosos anos. Mas pode o senhor Gonçalves ter a certeza de que, a nós, não nos irá calar."

Luís Fialho, in O Benfica

De volta ao Regedor!


"Batiam as quatro nesta tarde soalheira de inverno quando se deu o ajuntamento frente à porta do Bristol e se descerrou a placa inaugural recoberta pela bandeira do nosso querido Benfica.
Aquela bandeira, de emblema finamente lavrado, águia triunfante e estrelas cintilantes, ocupava de novo e por direito próprio o lugar que lhe pertence no histórico edifício do Jardim do Regedor e na Baixa da cidade onde os lisboetas se habituaram a ver o emblema vermelho os - tentado na esquina das velhas paredes. Agora a placa lá fica, reluzente sobre pedra fresca, contrastando com os anos de degradação que o edifício sofreu e lembrando, aos que passam, que o Benfica se orgulha e está sempre à altura da sua memória e dos seus valores.
Ali foi durante muitos anos a secretaria e até a sede do Clube, e, portanto, foi ali que, por décadas, os benfiquistas se encontraram nos bons e nos maus momentos de uma história incrível onde a glória nacional e europeia elevou o Benfica, também pela sua dimensão, à escala universal e ao patamar dos maiores. E o Benfica merece essa posição em Portugal e no mundo porque sabe e sempre soube ser grande. Sabe e sempre soube ir além de si próprio, superar-se, inovar e nunca se deixar ofuscar pelo sucesso, mas olhar sempre para os mais fracos e atuar sempre solidariamente ao seu lado.
Neste dia, superou-se uma vez mais, e inovou, sendo o primeiro em Portugal a instituir uma Fundação e pioneiro a nível internacional ao criar um hotel histórico no centro de uma capital a reverter totalmente para a obra social da sua Fundação. No mundo que corre, parece incrível que se possa pensar nas pessoas depois do negócio e que se possa pensar nos mais fracos quando se compete entre os mais fortes e o lema é a excelência.
Mas não é de um qualquer que falamos, é do Benfica, por isso o sonho pode uma vez mais tornar-se realidade!
Viva o Benfica!"

Jorge Miranda, in A Bola