Últimas indefectivações

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Olhos de compreender


"1. O que mudou no futebol português depois do fim de Pinto da Costa? Alguma coisa terá mudado porque desapareceu o que sempre constituirá uma novidade em relação aos 42 anos em que foi a figura de proa da atividade mais popular do país.

2. Chamar-lhe figura de proa é uma gentileza a que me permito em nome, francamente, nem sei bem de quê. Mas, pronto, por hoje fica assim.

3. Em vésperas de jogo para os quartos de final da Taça de Portugal, o atual presidente do FC Porto pronunciou um aparente elogio ao Benfica afirmando que a eliminatória seria disputada entre as duas melhores equipas portuguesas. Que ninguém se iluda. Pode parecer uma grande alteração de paradigma isto de se ver e ouvir um presidente do FC Porto a reconhecer ao Benfica qualidade no seu jogo, mas não é. Na realidade, é a mesma coisa de sempre. Há muitas décadas que o FC Porto faz a política de estar bem com um e mal com o outro.

4. Olhemos para o exterior com olhos de compreender. Na medida em que o presidente do Sporting continua, nesta era de André Villas-Boas, a insultar os pergaminhos e a honra do FC Porto exatamente com a mesma intensidade com que o fez nos anos finais da era de Pinto da Costa, é natural que o presidente do FC Porto se veja forçado por essas circunstâncias a ter de se atirar mais a Alvalade do que à Luz. Acreditem que ele preferiria sempre o contrário.

5. A imprensa, sempre muito imediatista nas suas análises, decretou que o presidente do FC Porto, ao ser “simpático” com o Benfica elogiando-lhe a capacidade competitiva – “… as duas melhores equipas de Portugal” –, não estava mais do que a dar “uma bicada” no Sporting com quem vem trocando desconsiderações. Com esta predisposição para acreditar em tudo, enfim, é fácil ser-se analista.

6. Vamos lá então às supostas novidades. No dia anterior à eliminatória da Taça de Portugal uns energúmenos postaram-se nas imediações do hotel onde o Benfica pernoitou fazendo a grande barulheira do costume. E, no mesmo dia, o FC Porto publicitou um comunicado extenso e recheado de pormenores protestando contra a nomeação do árbitro do jogo, Fábio Veríssimo, a quem o nosso povo chama Fábio “Verdíssimo”, por ironia, certamente.

7. Duas quartas-feiras fatídicas afastaram o Benfica da luta pela Taça da Liga e pela Taça de Portugal. Em Leiria foi tudo muito mau. No Porto serve de consolo – servirá? – o Benfica ter terminado o jogo a pressionar os donos da casa e a falhar uma oportunidade de baliza aberta. Fraco consolo de qualquer maneira."

Leonor Pinhão, in O Benfica

Socorros no dérbi de 1960


"O JOGO ENTRE BENFICA E SPORTING DE 10 DE ABRIL DE 1960 DÁ O RETRATO DAS PRINCIPAIS INDISPOSIÇÕES SOFRIDAS PELOS ASSISTENTES

Benfica e Sporting, no frente a frente da 24.ª jornada do Campeonato Nacional de 1959/60, foi o jogo do ano antes de começar. Um dérbi entre os dois maiores rivais de Lisboa e a grandeza dos “protagonistas e das interrogações que suscitava” justificavam-no. O 4-3 para o Benfica teve consequências a longo prazo, com o Clube a conquistar o título, um mês depois, e a ter acesso direto à Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1960/61.
A enchente era esperada. Com 45 mil bilhetes vendidos, o mercado negro borbulhava apesar dos esforços da PSP, e mesmo com preços inflacionados os bilhetes vendiam-se. Milhares de adeptos acorreram, da província e do Golfo da Guiné. O Estádio da Luz foi um conclave do sentimento desportivo e clubístico. Com o 3.º anel em construção, sorria ao soalheiro domingo primaveril e ao primeiro adepto a chegar, vindo de Castelo Branco, às sete da manhã, nove horas antes do início da partida.
Às 10 da manhã, vislumbrava- -se um “formigueiro humano” nas ruas e azinhagas em torno do Estádio. O serviço de bar duplicou o stock e aumentou para 420 o número de vendedores, mais 80 que o habitual.
A equipa de râguebi apresentou- -se antes do jogo na condição de campeã nacional, título conquistado de manhã. Entre os milhares de aplausos, ouviu pedidos para que ficassem, que “ainda vão ser precisos” em campo. A dimensão deste jogo transcendia o próprio campo, com o nervosismo a tornar pequeninos os corações dos que assistiam. E com 50 mil pessoas reunidas, a probabilidade de ocorrências aumentava.
As duas equipas de Bombeiros Voluntários, os Lisbonenses e os de Lisboa, não tiveram mãos a medir: um senhor, ao acender um cigarro, incendiou a caixa de fósforos que lhe queimou um dedo; dois desmaios por insolação; uma senhora entalou um dedo na porta do automóvel e um senhor numa cancela; uma senhora desmaiou por se perder no meio da multidão e outra feriu-se ao cair.
Uma senhora perdeu os sentidos à saída, devido ao natural aperto da multidão, e o caso doloroso da morte do antigo guarda-redes do Benfica, Pedro da Conceição, que se sentiu indisposto nos primeiros minutos da partida e, mesmo com intervenção do médico encarnado, José Pinho, acabou por falecer “vítima de comoção”. Pelo menos outras duas pessoas desmaiaram pelo excesso de emoção.
Às forças de socorro presentes no Estádio não se pouparam louvores pelo auxílio prestado, a todo o instante, sem momentos de repouso, acorrendo pelos apelos do público, dos altifalantes ou das autoridades presentes.
Outros jogos impactantes da história do Benfica estão disponíveis para visualização na área 4 – Momentos Únicos, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Pedro S. Amorim, in O Benfica

Até morrer!


"O Benfica ainda não perdeu qualquer jogo neste campeonato, algo que, à 17.ª jornada, nos últimos 35 anos, apenas sucedeu noutras duas ocasiões. Na verdade, não perde na prova há quase um ano civil: a última derrota verificou-se em Rio Maior, diante do Casa Pia, no dia 25 de Janeiro de 2025.
Todavia, não vencemos o último Campeonato, fruto do atraso acumulado nas primeiras rondas, de alguma infelicidade, e ainda de alguns obstáculos colocados por terceiros. E estamos igualmente numa situação bastante difícil neste. Entre equívocos de arbitragem penalizadores, uma campanha notável do FC Porto e também culpas próprias (inadmissível ceder 3 empates em casa, contra equipas da segunda metade da tabela, com golos sofridos no tempo extra, fruto de erros individuais difíceis de tolerar), ficámos a 10 pontos da liderança, dependendo de uma quebra mais ou menos acentuada do rival nortenho para ainda podermos sonhar com o título.
Já a luta pelo segundo lugar apresenta contornos bem diferentes. Aí, apenas dependemos de nós próprios. Se ganharmos todas as partidas por disputar ficaremos, pelo menos, nessa importante segunda posição.
Desde 2010, o Benfica apenas falhou uma presença na fase principal da Liga dos Campeões. Somamos um total de 15 presenças nas últimas 16 temporadas, números apenas ultrapassados, neste período, pelos plenos de Real Madrid, Barcelona e Bayern Munique.
Serve tudo isto para chegar a uma conclusão: o Benfica não pode deixar de estar presente na Champions da próxima temporada. Por motivos financeiros, desportivos e históricos. Por tudo. Temos de lá estar novamente. É lá o nosso lugar.
Se ainda pudermos vir a ser campeões, tanto melhor. Mas, independentemente do atraso para o primeiro classificado, não podemos deixar de dar a vida em cada um dos jogos até ao fim."

Luís Fialho, in O Benfica

Adaptar é evoluir!


"Se há coisa que a evolução das espécies mostrou é que as mutações e as diferentes capacidades adquiridas, ou até alguns défices, podem transformar-se em vantagens competitivas em determinados ambientes e ecossistemas. Podem mesmo, por sua vez, conduzir a uma maior reprodução dos indivíduos que têm essas diferenças e, com isso, as espécies no seu todo acabam por se tornar mais competitivas e adaptativas. Quer dizer, a biologia descobriu há muito que a mutação e a diferença foram e são fundamentais no jogo da evolução, em pleno domínio da chamada “lei do mais forte”. Será, portanto, inteligente não fechar os olhos à diferença e aproveitá-la em benefício de todos. Para isso, é fundamental conseguir valorizá-la mais e saber aproveitar todo o seu potencial. A Ciência e o mundo empresarial, bem como a indústria, têm demonstrado repetidamente a mais- -valia que se pode encontrar quando uma determinada pessoa tem capacidades intelectuais superiores associadas a défices motores e sensoriais. Stephen Hawking é disso exemplo maior: preso a uma cadeira e isolado do mundo pelos sentidos, encontrou caminho na física teórica e desvendou brilhantemente mistérios do universo. Ocupou a cátedra de Newton e devemos-lhe a moderna teoria dos buracos negros e avanços fundamentais nas teorias “de Tudo” e do “Big Bang”. Elon Musk, publicamente assumido como Asperger, dispensa apresentações, mas há tantos e tantos exemplos, uns mais modestos que outros…
No mundo do desporto também assim é: ninguém irá negar a produtividade, eficácia e eficiência do desporto adaptado no nosso país em que, apesar das dificuldades de apoio, os atletas somam resultados de pódio em múltiplas modalidades e levantam a bandeira nacional como poucos. Quer isto dizer que, se entendermos de forma verdadeiramente inclusiva o nosso sucesso desportivo, considerando o desporto adaptado não como uma categoria à parte, mas como parte integrante desse todo nacional, seremos claramente mais fortes. Iremos muito mais longe, conquistaremos mais ouro e prata, seremos uma potência desportiva ainda maior e afirmaremos ainda mais Portugal no mundo.
Quer dizer: sempre que adaptamos o Desporto, evoluímos!"

Jorge Miranda, in O Benfica