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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Caso Prestianni-Vinícius: não é sobre futebol, é sobre dignidade humana


"A ironia é evidente: quando um jogador dança, questiona-se a sua atitude. Quando alguém responde com racismo, questiona-se o contexto — ou a prova.

Sou sócio do Sport Lisboa e Benfica e vivo o clube intensamente. Começo por aqui para que não haja equívocos: jamais atacarei aquela que, para mim, é a maior e mais representativa instituição desportiva do país.
O Benfica não é um episódio. Não é um dirigente. Não é um jogador. É história. É cultura. É identidade. É um símbolo que atravessa gerações. E é precisamente por isso que o que aconteceu no jogo com o Real Madrid exige mais — não menos — exigência.
O episódio entre Vinícius Júnior e Gianluca Prestianni é, em si mesmo, profundamente perturbador. E torna-se ainda mais grave quando analisado à luz do ambiente que o rodeou, das reações que gerou e da complacência com que parte dele foi acolhido.
Assistimos a ruídos e gestos de macaco vindos de diferentes zonas do estádio. Assistimos a uma narrativa que transformou uma celebração numa suposta provocação imperdoável. E assistimos, no momento da substituição, a aplausos dirigidos ao jogador envolvido no ainda “alegado” gesto racista — como se ali estivesse alguém a defender a honra da casa.
Não estava. Provocação não legitima racismo. Celebração não legitima desumanização. Dançar nunca pode ser argumento para imitar um animal.
É aqui que entra a dimensão institucional. O Sport Lisboa e Benfica não pode permitir que o seu nome seja associado a qualquer forma de tolerância perante comportamentos racistas. Não por pressão mediática. Não por conveniência circunstancial. Mas porque a grandeza de uma instituição mede-se precisamente nos momentos difíceis.
Defender o clube não é fechar os olhos. Defender o clube é exigir que esteja à altura dos seus valores.
Também não me passou despercebida a postura de José Mourinho, questionando por que razão “é sempre com o mesmo jogador” e sugerindo que Vinícius Júnior deveria repensar a forma como celebra.
A ironia é evidente: quando um jogador dança, questiona-se a sua atitude. Quando alguém responde com racismo, questiona-se o contexto — ou a prova.
Há aqui um paternalismo subtil, quase condescendente — como se o problema estivesse na exuberância de quem celebra e não na intolerância de quem não suporta essa celebração. A pergunta não é “porque é sempre com ele?”.
A pergunta é: porque continua a acontecer com ele? Talvez porque talento negro, confiante e bem-sucedido ainda incomoda. Talvez porque a ousadia de festejar sem pedir licença ainda irrita quem acha que há comportamentos aceitáveis consoante a cor da pele.
O Benfica não é um problema isolado. O racismo é um problema social que atravessa fronteiras, estádios e gerações. Negá-lo é ingenuidade. Relativizá-lo é cumplicidade. Endossá-lo é crime.
Ter sócios exigentes não enfraquece o clube. Fortalece-o. Eu continuarei a ser sócio. Continuarei a amar o Benfica. Mas amar uma instituição não é idolatrá-la cegamente. É querer que represente o melhor de nós — sobretudo quando o contexto é desconfortável.
O futebol é paixão. Mas a dignidade humana está acima de qualquer rivalidade. E é precisamente por acreditar na grandeza do Benfica que exijo que, enquanto instituição de renome mundial, dê o exemplo inequívoco na luta contra o racismo e qualquer forma de discriminação.
Porque a grandeza não se proclama — prova-se. E prova-se quando os valores são defendidos com firmeza, mesmo quando é mais fácil olhar para o lado."

Geração 2030


"Que critérios deve Carlo Ancelotti adotar na escolha da lista final de 26 para o Mundial-2026? Mais foco na experiência ou na juventude? Ou num misto?

No Mundial-2010, o Brasil clamava por Neymar, 18 anos, entre os 23 convocados. Mas o selecionador Dunga optou por Nilmar, 25.
Nem sempre a torcida tem razão mas neste caso Neymar deveria mesmo ter sido chamado, não apenas por ser mais jovem, mais empolgante e, na época, mais misterioso para os rivais do que Nilmar mas também porque nas Copas os treinadores canarinhos, além de um compromisso com o presente — ganhar — e com o passado — honrar os cinco títulos conquistados —, ainda têm responsabilidades com o futuro — preparar as próximas estrelas para o palco dos palcos.
Não por acaso, nos últimos dois Mundiais conquistados, os treinadores Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari sentiram-no: no tetra, em 1994, estava lá, mesmo sem entrar em campo, Ronaldo, 17 anos, chamado de Ronaldinho porque havia outro Ronaldo, o central Ronaldão; no penta, em 2002, foi a esse Ronaldo, já chamado de Fenómeno e com dois Mundiais disputados no currículo, que coube a tarefa de abençoar Kaká, 20 anos, melhor jogador do planeta cinco anos depois.
No tri, em 1970, Mário Zagallo deu a alternativa a jogadores como Paulo César Caju, Marco Antônio ou o guarda-redes Leão, todos com 20 anos — este último não jogou um minuto sequer mas seria titular em 1974 e 1978 e ainda faria parte do grupo de 1986.
No bi, em 1962, Coutinho foi chamado com 18 anos sob os epítetos de «génio da pequena área» e de «maior parceiro de Pelé». Pelé que, como se sabe, se estreou aos 17 no primeiro Mundial conquistado pelo Brasil, em 1958.
Ou seja, no equilíbrio das convocatórias faz sentido ter the next big thing entre os eleitos mesmo que no futuro o atleta em causa não venha a ser tão big thing assim.
Vem esta longa introdução histórica a propósito do futuro próximo: que critérios deve Carlo Ancelotti adotar na escolha da lista final de 26 para o Mundial-2026?
Por mais que o Brasil esteja furos abaixo da vizinha e rival Argentina e de outras candidatas, todos concordarão que, até por motivos de pura aritmética demográfica, ninguém tem tanta quantidade de qualidade como os canarinhos.
Logo, há que estabelecer critérios: mais foco na experiência ou na juventude? Ou num misto? Como Carletto recuperou, e bem, Casemiro, Danilo e outros veteranos em nome do equilíbrio, deve preparar a próxima estrela para o palco dos palcos, abençoar um eventual melhor jogador do planeta de daqui a cinco anos, chamar the next big thing.
O problema é adivinhar quem ela é. Ou quem são… Estêvão, 18 anos, já está lançadíssimo, Endrick, 19, voltou a ganhar fôlego, Rayan, 19, começa a brilhar na Premier League e ainda há Breno Bidon, 20, na boca de toda a gente.
Porém, muitos no Brasil chamam-lhes Geração 2030, ou seja, um grupo de jogadores elegíveis só no próximo Mundial para dar preferência, neste, à experiência de consagrados como Neymar. Mas não: Neymar merecia a Copa de 2010, não a de 2026."

Rabona: The chaotic collapse of Marseille’s season

BolaTV: Armindo Araújo...