Últimas indefectivações

sábado, 11 de junho de 2016

A época ainda não acabou!

Benfica 7 - 9 Oliveirense

É preciso mudar o chip para a Taça de Portugal, esta descompressão pós-título Europeu e Bicampeonato, é perigosa, muito perigosa, porque isto de mudar o chip, nem sempre resulta... É verdade que o Pedro Henriques, não é a mesma coisa que o Trabal, mas sofrer 9 golos em casa, é prova que a equipa está a defender mal...

Bom demais para ser verdade

"Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo apareceram inspirados no joguinho com a Estónia. O resultado foi volumoso e abrilhantado com golos do mais fino recorte empolgando o público e a generalidade da imprensa que não perdeu tempo a concluir que "este ano é que é". E seria um feito notável visto que nunca a nossa Selecção principal conquistou um troféu deste quilate.
No dia seguinte as estações de televisão transmitiram a partida da Selecção e ouviu-se muito repórter consternado com a "falta de adesão" do público que era suposto comparecer patrioticamente no aeroporto e que não compareceu por uma questão de bom senso e, certamente, por ter mais que fazer. Quando está a Selecção em causa repete-se um fenómeno curioso. Libertos das amarras da isenção a que estão obrigados, os jornalistas perdem as estribeiras transformando-se em adeptos mais desaustinados do que os adeptos propriamente ditos que, por sua vez, vestem a pele de analistas fleumáticos dos acontecimentos dando tréguas à clubite que a todos infeta sem limitações éticas durante o ano inteiro.
Friamente analisado, o desempenho da Selecção foi bom demais para ser verdade. Não esquecendo também o perigo de se terem gasto os golos todos que nos estavam reservados para este Junho. Pelo que viu, para além das camisolas 1 e 7 que estão entregues, teremos ainda mais três titulares indiscutíveis: João Mário, Renato Sanches e Ricardo Quaresma. Quanto aos outros, Fernando Santos que decida pelo bem geral e sem que ninguém se aborreça. E que a fleuma da nação triunfe sobre o histerismo da comunicação que já cansa e isto mal começou."

Benfiquismo (CXXXI)

Nas Antas...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Juvenis - 3.ª jornada - Fase Final

Benfica 3 - 1 Corruptos
Embalo(2), Dju


Sem os 'juniores' Zé Gomes e Jota, foi o 'iniciado' Umaro Embalo, a decidir o jogo!!!
Bom jogo do Benfica, talvez o melhor que vi este ano da equipa de Juvenis... com os sectores mais compactos!
Além do Embalo, são vários os jogadores que se destacam nesta equipa, além dos mais 'conhecidos'... destaco o João Félix: muita personalidade com a bola...

Só uma nota: o Gedson tem que jogar no meio-campo, até porque temos 2 defesas-direitos de raiz que tomam conta do assunto!

Com 7 pontos no final da 1.ª volta, estamos na frente, e com vantagem sobre os nossos adversários, vencer em Braga e vencer o Sporting no Seixal deverá ser suficiente... para celebrar o título!!!

PS: Parabéns para os Iniciados B, que se sagraram hoje Tricampeões Distritais!!! O Benfica continua a dominar os escalões mais 'baixos'...

É inevitável vender

"Sempre que é alienado o passe de um atleta querido pelos adeptos, logo é evocada a inevitabilidade dessa operação. Na larga maioria dos casos é, de facto, inevitável recusar ofertas de "tubarões" do futebol europeu, não só pela necessidade do clube de obtenção de receitas elevadas, mas também pela vontade dos jogadores: Os que são transferidos, porque passarão a auferir ordenados mais elevados; E os que permanecem, pois, caso se entendesse cobrir as ofertas salariais de outros emblemas de forma a evitar a saída dos jogadores mais assediados, os restantes exigiriam maiores contrapartidas, as quais, de forma a manter o necessário equilíbrio no plantel, teriam que ser atendidas. Esta é uma questão estrutural do futebol português, que dificilmente será solucionada. Os principais clubes nacionais terão que continuar a notabilizar-se pela formação e scouting, servindo de tubos de ensaio de jogadores de nível europeu.
No contexto actual, só o Benfica, pela capacidade de captação de receitas operacionais, poderá contrariar este fado. Para tal necessitará de preservar a tendência de crescimento da facturação e a competência na formação e scouting, além de mitigar o constrangimento que o passivo oneroso representa. A revitalização desportiva e financeira da Benfica, SAD, alavancada em capitais alheios, desde o ano 2000, assim o determinou, reflectindo-se, no presente, em custos financeiros pesados. A SAD benfiquista tem meios para reduzir drasticamente os custos financeiros, mas não o poderá fazer no imediato porque perderia competitividade no curto prazo. A redução suave do passivo é o caminho certo, o tricampeonato assim o demonstra."

João Tomaz, in O Benfica

Modalidades

"A gloriosa saga do ecletismo encarnado de 2015 era difícil de repetir. Então, só o Andebol escapara ao pleno dos campeonatos nacionais entre as modalidades mais significativas. Foi o melhor ano de sempre a este nível. Em 2016, se Futebol e Hóquei repetiram o título (no caso do Hóquei acompanhado de brilhante conquista europeia), e se Futsal e Atletismo mantêm em aberto essa possibilidade, Basquetebol, Andebol e Voleibol falharam o principal objectivo - pese embora a conquista de Taças e Supertaças.
Os casos são diferentes, bem como o contexto e as expectativas que rodeavam cada uma das equipas. Se a de Andebol era, à partida, a menos favorita, a forma como deixou fugir o campeonato acabou por ser, porventura, a mais dolorosa.
O meu grau de benfiquismo não me permite aceitar com naturalidade derrotas como a do último Sábado, quando, com quatro golos de vantagem a pouco mais de três minutos do fim, o título estava no bolso. A não repetir. Também o Basquetebol desiludiu. O Benfica era o grande favorito à conquista do penta. Mantinha a estrutura e reforçara-se com nomes sonantes. Mas durante os play-offs percebeu-se que as coisas iriam correr mal. Jogámos pouco. As sete (!) derrotas com o FC Porto obrigam necessariamente à reflexão.
O Voleibol foi, sobretudo, infeliz. Perdeu no último set da última partida, depois de 24 vitórias em 25 jogos até chegar à final. Creio que nesta modalidade recuperaremos o título rapidamente. De Futsal falarei no fim do campeonato. E o Hóquei, pela estrondosa época que fez (ainda falta a Taça). merece um texto inteiro, assim que a oportunidade espreitar."

Luís Fialho, in O Benfica

A verdadeira siuação patrimonial do Sporting

"Com que então são os outros que estão em falência técnica, sendo certo que o conceito de falência técnica já foi por mim explicado dezenas de vezes, mas é verdade que "quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita"! Neste caso "burro velho não aprende línguas"!
Vejamos o célebre relatório do 3.º trimestre da Sporting SAD na - que em bom da verdade é apenas um relatório trimestral, assim como que, punçado de alguns membros.
Ora, ou preciso de óculos ou o capital próprio é negativo em 10.133 milhões de €.
Depois, se tirarmos as tais Vmoc's que são de 127,925 milhões de €, ficariamos com 138 milhões negativos! É que as Vmoc's estão mesmo a dar jeitinho para compor o valor do capital próprio que mesmo com Vmoc's ainda é negativo!
Sendo de 138 milhões de €, nem sequer é falência técnica - é insolvência purinha, como água cristalina! (...).
Depois o que é ainda mais extraordinário - foi ventilado aos sete ventos (seria sete Mares se fossem os Sétima Legião), que a Sporting SAD teve lucro de 1 milhão. Ouvimos amiúde estas declarações da boca do Digníssimo presidente do Sporting.
Mas não está correcto numa perspectiva ética. E porquê? Porque logo a seguir foi escrito no Relatório da Sporting SAD, que "... os resultados dos primeiros nove meses do exercício são negativos em 17,106 milhares de euros!
Palavras para quê?! É um artista Português, como dizia o outro. Mas mais: O que o Sporting devia informar os seus accionistas era disto (...).

As Marchas Populares
As Marchas Populares de Lisboa remontam a 1932, sendo uma das mais antigas e crescentes tradições da cidade de Lisboa (às marchas, "juntaram-se" em 1958, os Casamentos de Santo António).
A minha avó materna trabalhou vários anos na Cordoaria Nacional, onde ajudava a tecer as fardas dos marinheiros. As mesmas fardas que por vezes foram utilizadas como adornos dos marchantes.
As marchas populares não são um exclusivo de Lisboa.
Também em Setúbal e em muitos outros pontos do País, a tradição das Marchas Populares tem forte expressão, agregando colectividades de toda a cidade e arredores. No entanto, cada marcha tem a sua peculiaridade.
Muitas vezes confundem-se marchas populares com "tangas populares".
Aproveitando as modernas políticas de controlo de massas, consegue-se manobrar as vontades exteriores em proveito próprio. Só que o resultado pode ser igual ao daquele Rei que caminhava nu e apenas uma criança reparou em tal facto.
O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, não é assim tão nítido.
É verdade que a psicologia individual diz respeito ao homem individual e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos institucionais; no entanto, só por excepção, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objecto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificável das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social. É o apologismo da máxima da exploração das ideias e emoções dos outros, pelo uso das palavras de forma sinfónica, mas que dissecadas, não correspondem a nenhuma realidade.
Ao fim e ao cabo, é mais uma marcha popular - a de Alvalade!"

Pragal Colaço, in O Benfica

Velhos tiques

"A Liga é contra a liberdade de expressão. A frase, nua e crua, pode parecer excessiva. Talvez seja, mas todos os que não gostam de mordaças estarão assombrados com a decisão que saiu da última AG: o «aumento de forma muito clara das sanções» a agentes e comentadores ligados «directa ou indirectamente» a clubes e «que ponham em causa a imagem do futebol».
Isto é: goste-se mais ou menos de algo, saiba-se mais ou menos sobre os bastidores ou tenha-se opinião mais ou menos favorável sobre um tema, a Liga já decidiu: se puser em causa a «boa (?) imagem», haverá punição severa.
Vamos lá ver... Além de ser completamente inconstitucional, desde quando é que associações privadas têm autoridade para sancionar acções de pessoas que não são suas associadas? Como dizia ontem um amigo, «isto é o mesmo que a minha associação de condomínio querer multar as pessoas da rua de cima por dizerem que o meu prédio é feio».
Que a Liga fale de «agentes desportivos» é uma coisa; agora, os «indirectamente ligados a um clube» são quem? Infelizmente, há coisas feias no futebol. Continuam a existir e tão cedo não serão arredadas. Veja-se os escândalos na FIFA, ou os casos das apostas, do tráfico de jogadores, dos fundos, etc, etc. São situações tristes, feias, sujas e que mancham o futebol, quer a Liga queira, quer não; quer goste, quer não. E, naturalmente, continuará a ser obrigação de todos os que gostam deste desporto denunciá-las, falar delas, comentá-las até à exaustão. Para que os que mandam no futebol (federações, ligas, clubes) possam, esses sim, fazer uso do seu poder para modificarem a má imagem. Tapar o sol com uma peneira, amordaçar ou atirar o lixo para debaixo do tapete, fingindo que tudo é belo e radiante, nada resolverá... E se se sentirem ofendidos com opiniões têm um bom remédio e este é constitucional: recorrer aos tribunais em defesa do seu bom nome ou honra. Tudo o resto são tiques com mais de 40 anos que ninguém deseja ver de volta."

João Pimpim, in A Bola

Benfiquismo (CXXX)

Classe...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Nem sempre ganhou quem quis... mas nunca ninguém ganhou sem querer!!!

"Fernando Gomes foi corajoso ao escolher Fernando Santos, e o seleccionador é o homem certo no lugar certo para Portugal

Em Outubro do ano passado, neste mesmo espaço semanal, deixei cinco elogios a três sócios do Benfica, um sócio do Porto e um do Sporting.
Neles, estavam incluídas duas pessoas que, hoje, e sobretudo com o aproximar do Campeonato Europeu, faço questão de voltar a elogiar, por diferentes motivos, mas com um fim comum: Fernando Gomes e Fernando Santos. Dois homens, que além possuírem a ambição necessária às nossas obrigatórias aspirações, querem - tanto quanto cada um dos portugueses - ganhar. Um, com um projecto com ambição, e outro, com a ambição como projecto! 

Fernando Gomes... um projecto com ambição
Fernando Gomes foi reeleito, no passado dia 4, para um novo mandato enquanto presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), até 2020, tendo tomado posse na passada terça feira (... nada é por acaso... ).
Curiosamente, ao contrário do que aconteceu nas eleições anteriores, neste ato eleitoral Fernando Gomes obteve 70 votos dos 76 delegados que exerceram esse mesmo direito. Desta vez, com apenas uma lista candidata, foram só 6 os votos em branco. Ao invés, em 2011, obteve 46 votos - contra os 36 do outro candidato - ganhando, assim, as eleições pela diferença de... 10 votos apenas.
Foi, por isso, eleito com a dificuldade que só quem acompanhou essa eleição saberá avaliar devidamente. Ainda assim, poder-se-á dizer que, em 2011, Fernando Gomes ganhou as eleições, sendo eleito presidente da FPF, mas deixou o futebol português dividido (quase) em partes iguais. 
Apesar - diga-se, em abono da verdade - de ter, nessa maioria, clubes que acabaram por fazer a diferença. E que diferença essa diferença fez! Aliás, ao longo do seu mandato, várias foram as vezes em que Fernando Gomes arriscou e ganhou, consolidando a sua posição à frente da FPF, ainda que isso lhe custasse alguns reparos.
Decidido a recandidatar-se, apresentou-se praticamente com a mesma equipa, com excepção para criticadas presidências (apenas constato factos) do Conselho de Arbitragem e do Conselho de Disciplina, sobretudo ao longo da época passada.
Independentemente disso, a verdade é que o seu mandato poder-se-á considerar muito positivo. Pelos resultados, mas, também e até, pela coragem com que o fez. Pelo seu rigor, pela imparcialidade, mas também pela audácia em criar um protejo com ambição. Protejo esse composto por ideias claras e definição de objectivos atingíveis. Estou certo que, face a isso, esta tenha sido a reeleição do reconhecimento e da unidade. Fazendo com que, por um lado, a diferença de ideias tenha servido para valorizar a vitória conseguida - então - à tangente e, por outro lado, o seu percurso tenha servido para ser - agora - o candidato do consenso.

Fernando Santos... uma ambição como projecto
tinha  dito, aqui, que Fernando Gomes tinha sido suficientemente audaz ao apostar em Fernando Santos. Fernando Gomes foi extremamente corajoso ao escolher Fernando Santos, por, essencialmente, se tratar de uma aposta de risco, uma vez que se encontrava em vésperas de poder vir a cumprir um castigo muito pesado.
Ainda assim, e convicto da sua escolha, Fernando Gomes teve a capacidade de definir uma estratégia - como o foi fazendo com os diversos assuntos com que se foi deparando ao longo do seu mandato - escolhendo gente competente para defender as suas escolhas.
E a verdade é que... ganhou.
Como com Fernando Santos... um homem com uma ambição, com um projecto. Aliás, um homem que tem uma missão com um projecto. E nisso, está em perfeita sintonia com Fernando Gomes, ainda que tenha tido um percurso contrário. De facto, Fernando Santos é um homem que, não obstante ter passado pelos três maiores clubes portugueses, enquanto treinador, não fez o alarido de muitos outros, falando o seu passado de águas calmas por si.
Também por isso, não levantou problemas na sua designação como seleccionador, tendo recolhido a (quase) unanimidade das opiniões expressas na altura da sua entrada em funções. Mas - face a essa personalidade calma e não conflituosa - foi uma excelente surpresa ter ouvido Fernando Santos afirmar que já está na altura de Portugal ganhar um título numa grande competição. E como tem razão... Até porque... tal como ele e muitos outros... eu penso que isso não é impossível.
Já tivemos muito perto desse acontecimento... mas perdemos, na final, para a Grécia, em 2004... quando ninguém colocou a hipótese de que poderiam ser eles os campeões.
Foi uma boa surpresa Fernando Santos assumir essa postura, de querer ganhar. E estou certo de que irá lutar por isso. Uma postura contra o que costuma ser o tradicional português (invejoso, pequenino, sempre com desculpas, por não atingir o que devia, por ter medo de assumir o que quer). Por isso, só posso elogiar o facto de ser bastante ambicioso. Hoje, com Fernando Santos ao comando da nossa selecção, e com o Europeu mesmo ao virar da esquina, finalmente temos a ambição que devíamos ter sempre! Nada mais que a nossa obrigação! Por cada um de nós, portugueses, mas, sobretudo, por consideração ao valor individual e colectivo da nossa equipa.
Temos o melhor jogador do mundo - ou um dos dois melhores - que é, por maioria de razão, o melhor jogador da Europa. Temos uma equipa experiente, com jogadores de reconhecida qualidade - até pelos clubes onde jogam - ainda que nem todos sejam da mesma galáxia que Cristiano Ronaldo. Por isso, além de assumirmos sem rodeios os nossos legítimos objectivos, temos de estar focados, mais do que nunca, deixando de parte os falatórios, cheio de episódios, que habitualmente emergem, junto da selecção, nestas fases decisivas. E um desses exemplos recentes foi a campanha que fizeram contra Renato Sanches, num claro, injustificável e mesquinho síndrome de clubite. Como se o facto de se ser jovem demais fosse impedimento de alguma coisa...
Quis o destino que fosse Fernando Santos o escolhido para liderar uma equipa de grandes talentos, nesta fase da competição.
E ainda bem que assim é, porque, efectivamente, é o homem certo no lugar certo, o único - neste momento - capaz de gerir essas campanhas, de manter a equipa concentrada, e de... sonhar.
Ou melhor, ambicionar.
E nisso os dois Fernandos, tanto o Gomes como o Santos, são parecidos. Ambos se encontram unidos no projecto... e na ambição!
Para podermos festejar, por Portugal,... no Marquês (se os outros não levarem a mal)."

Rui Gomes da Silva, in A Bola

Modalidades 'play-off' e Illiabum

"1. As modalidades colectivas têm sido injustificadamente marginalizadas pelas televisões em canal aberto. É futebol, futebol e futebol e quase mais nada. A televisão pública ainda transmite o Futsal (parente do futebol), mas quase nada de basquetebol, hóquei, voleibol e andebol. Tudo metido para canais por cabo ou para televisões ligadas a clubes (é o caso do basquetebol). Incompreensível e sobremaneira gravoso sobretudo para os clubes com menos recursos.
2. Com a excepção do hóquei, as modalidades têm um play-off para apurar o campeão depois da fase regular. Tenho muitas dúvidas sobre a justiça deste método, ainda que o compreenda do ponto de vista de esticar a temporada e aumentar a emoção. Este ano, está a verificar-se uma situação quase inédita: o vencedor da fase por pontos não se sagra campeão. Em basquetebol, o Benfica dominou e depois perdeu na final. Em voleibol, o mesmo Benfica superiorizou-se na competição, mas o campeão foi o Fonte Bastardo. No andebol, o crónico campeão Porto ficou pelo caminho, substituído pelo ABC. Só falta saber no futsal: se vence o Sporting, o primeiro na fase regular, ou o Benfica.
3. O clube da minha terra - o Illiabum - sagrou-se campeão da Proliga de basquetebol, depois de assegurada brilhantemente a promoção à Liga principal. Como seu sócio 137 e actual presidente da AG, fiquei muito feliz. A cidade de Ílhavo e a direcção do clube merecem este sucesso. Aliás, na sua história de 73 anos, o Illiabum tem muitas e significativas vitórias em diferentes torneios e escalões e até uma Supertaça derrotando o... Benfica."

Bagão Félix, in A Bola

Arbitragem e arbitrariedades

"Começam a vir a público algumas das acções do antigo Conselho de Arbitragem (CA), e assim vamos também percebendo a reacção dos árbitros ao longo da época, como a sistemática recusa à realização dos obrigatórios testes escritos e físicos (art.º 20º, alínea h do Regulamento de Arbitragem), cujas notas deveriam ter reflexo na classificação final. Mas a fila anda: como justificar também o incumprimento em matéria de designação dos nomes para as insígnias da FIFA, num evidente desrespeito regulamentar (Carlos Xistra nos últimos dois anos, Hugo Miguel na última época...)? Como validar para a classificação as imagens vídeo da empresa contratada pela Liga e haver entretanto jogos em que o sistema, por acaso, até falhou, beneficiando uns e prejudicando outros? Como aceitar que árbitros lesionados sejam reconduzidos sem nota final quando as normas são explícitas e dizem que a falta de elementos de avaliação determina a descida de categoria?... Finalmente, para não atulhar a caixa de críticas, que devem aliás ser estendidas a todo o antigo CA e não apenas a Vítor Pereira, detenhamo-nos nesta realidade tão absurda quanto ilegal, só possível numa casa sem ordem e num futebol de faz de conta(s): do quadro dos 24 árbitros da Liga (sem contar com os assistentes, portanto), só nove foram realmente tratados como profissionais - os internacionais. De facto, este restrito lote, além das verbas tabeladas para cada jogo, e comuns a todo o grupo, recebeu um bónus mensal de três mil euros, suportado pela FPF, a título de compensação pela exclusividade. Não entrando na discussão da chocante falta de paridade, já parece serviço de amador proceder depois à avaliação dos 24 sem a devida equidade, uma vez que uns podem treinar-se diariamente e outros não!... E não canso mais. Mas pergunto: vamos continuar assim?!..."

Paulo Montes, in A Bola

10 porcos e 10 vitelos

"Anda o presidente do Gil Vicente rejubilante com este maná caído do céu, mais concretamente do Tribunal do Círculo Administrativo de Lisboa, que anulou a despromoção do clube, a ponto de prometer um festim, na cidade, de porcos e vitelas e a animação de Quim Barreiros.
Não é caso para menos. Diremos que, no meio desta exuberância pecuária, só falta mesmo a vaca que voa... Mais um caldinho, a atormentar a já débil credibilidade do futebol português, com esta realidade singular: no espaço de três anos, a Liga vai ter de alargar duas vezes o número de clubes na primeira divisão, por via de reversões judiciais, que anularam decisões dos órgãos disciplinares da Federação e da Liga (que, nestes casos, ainda exercia esse poder).
A somar às suspeições decorrentes, do 'fixing' e que já levaram à prisão preventiva de vários arguidos, ressurge agora esta batata quente, que, desde 2006, andava esquecida nas catacumbas do nosso contencioso administrativo.
Bem andou a Federação ao atalhar caminho neste imbróglio, renunciando ao recurso e encarando a questão de frente, mas com um desfecho reputacional e desportivo desastroso; realmente em Portugal acontecem coisas que não há em mais lado nenhum e a Primeira Liga, que não era já um modelo de competitividade, vai ser alargada com um (ou mesmo dois) clubes, que, em rigor, não vão acrescentar nada.
Os mitos urbanos, em que o nosso futebol é pródigo, pululam de histórias de membros de órgãos jurisdicionais, que, sob a capa de uma aparente independência, se prestam a fretes e a jogadas de bastidores. Não quero nem saber, porque, em minha opinião, o problema não é esse.
O problema está na qualidade das pessoas que vêm integrando sucessivamente esses órgãos e que falham, por sistema, em questões fulcrais, quando submetidas ao escrutínio judicial. Logo, há que ter os processos mais bem instruídos, de forma absolutamente transparente e decididos por gente mais capaz e dedicada.
Talleyrand dizia dos Bourbons, que estes nada esqueciam, mas também nada aprendiam. Desde o famoso caso N'Dinga que, nos anos 90, opôs Guimarães e Académica, que esta máxima parece aplicar-se aos órgãos jurisdicionais do nosso associativismo, onde vejo sempre os mesmos nomes, 'pase lo que pase'."

Benfiquismo (CXXIX)

Levantar... e seguir em frente!!!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Viva a fartura!

"A fartura de jogos e de entre-jogos está a provocar-me um acrescido distanciamento do futebol televisionado. De tal monta que sou cada vez mais selectivo, evitando passar os olhos por soporíferos envoltos em excipientes e adjuvantes futebolísticos. Esta overdose tem o risco de conduzir ao mesmo efeito da inflação em relação à moeda: o de, por tanto excesso, se desvalorizar o seu valor.
A não ser - para mim, evidentemente - quando joga o Benfica. Porque aí a paixão clubista está bem à frente do gozo que me dá, em abstracto, um jogo de futebol. A minha paixão e o meu acicate é o clube, não obrigatoriamente a guarnição à volta do jogo.
É, por isso, que esgotado o período de fortes emoções da época (este ano foi mesmo até ao fim), costumo «tirar férias» e revigorar-me para a temporada seguinte.
Acontece que este ano, há, a nível internacional, uma acumulação que não deixa interstício temporal fora de «bola à discrição». Vão ser dois meses com o Euro 2016, a Copa América, e, por fim, o desconsolado futebol das Olimpíadas do Rio de Janeiro, desporto dito olímpico, mas que fere à saciedade os ideais que estão na base dos Jogos.
E até ao começo destas competições, lá temos os jogos chamados «amigáveis». Curiosa esta expressão, que, aliás, Bruno Alves caracterizou em Wembley. São também chamados «particulares» ou «não oficiais» (?), outras designações estranhas para bilhetes de ingresso, em regra, pouco particulares ou amigáveis. São jogos entediantes, sem chama, que servem para coleccionar minutinhos de «Internacionalizações» e empolar, por esse mundo fora, o valor de troca de (alguns) artistas."

Bagão Félix, in A Bola

Mitro... glicerina !!!

Renato Sanches outra surpresa?

"Há pouco mais de um mês, expressei ideia de que, dada a quantidade de qualidade nos centrocampistas, o miúdo Renato Sanches não estaria entre os nossos 23 para este Europeu. Sim ou não porque Bernardo Silva sofreu lesão e Tiago também de lesão não recuperou a tempo de adquirir bom ritmo competitivo, Fernando Santos convocou Renato Sanches.
Face ao alto nível de opções para o meio campo - Danilo e William Carvalho, João Moutinho e Adrien, João Mário e André Gomes -, os 18 aninhos de Renato Sanches, quase de certeza o 7.º médio na linha de chamada, pareceram reservados para emergência... Será assim?
Saltando do banco perante a Noruega e, sobretudo, nos derradeiros 20 minutos em Inglaterra, o miúdo revelação desta época veio dizer olhem bem como estão enganados... Impressionante a sua personalidade, com descarada audácia para imediatas acelerações ofensivas que, nestes dois jogos, nenhum outro médio conseguiu imprimir - no mítico Wembley, rasgou espaços para contra-ataques até aí nulos (um jogador a menos durante quase uma hora). Moutinho, habitual e imprescindível motor, ainda está com baixas rotações após baixa clínica. Adrien pode discutir posição na faixa central, não na direita como depois do intervalo em Wembley. André Gomes, excelente técnica e visão de passe, não é um flanqueador. João Mário sim, versátil, indiscutível. Mas as pujantes acelerações do irreverente Renato Sanches podem ser cruciais no apoio abre defesas de que os dois avançados muito carecem. Talvez surpreendente dor de cabeça para Fernando Santos. Expectativa pelo teste desta noite."

Santos Neves, in A Bola

PS: O Renato é claramente o melhor '8' desta Selecção, metê-lo nas faixas é desperdiçar todo o talento e capacidade de ultrapassar 'linhas'... além de ganhar quase todos os duelos físicos. O Adrien é de outro 'Campeonato' e o Moutinho está muito longe da forma ideal...
Acho que todos já chegaram a esta conclusão, mas desconfio que o seleccionador, vai ser o último a admitir o óbvio!!!

Entendam-se, sff

"E protejam o que temos E pronto, está - de novo - instalada a confusão em torno do número de equipas (e quais delas) a disputar a Primeira Liga. Já vamos ao "de novo". Quanto à decisão do juiz, pode ter sido justa ou injusta. Tendo sido injusta, reclame-se. Tendo sido justa, então faça-se mea culpa pelo facto de acções e submissões à margens dos regulamentos continuarem a ser validadas. Donde voltamos ao "de novo". Porque, no fundo, a pergunta mantém-se: quantos clubes queremos na Primeira Liga? Já tivemos 20, já tivemos 16, já tivemos 18. Há dois anos, alargámos o campeonato para acondicionar o Boavista, aparentemente com relutância, mas depois não se fez a operação contrária. Em que ficamos? Por mim, ficávamos com 18 clubes e extinguíamos a Taça da Liga, de utilidade tão evidente como os clubes satélites ou a selecção B. Percebo outras decisões. Mas não percebo, com certeza, 38 jornadas, a Taça da Liga, a Taça de Portugal, as competições europeias e os compromissos de selecções - tudo numa época só. Temos um futebol competitivo e forte. É disso que querem dar cabo?"


PS: Tudo serve para reclamar o fim da Taça da Liga!!! Estes Lagartos têm pouco imaginação...!!!
Sou obrigado a informar este profissional do desporto português, que a Taça da Liga, é neste momento de crise financeira, uma das fontes de receita importantes, para a maioria dos clubes médios e pequenos da I e II Liga... a distribuição das receitas ao estilo 'Champions' faz muito jeito a vários Clubes...
Mas as sete vitórias do Benfica, em nove edições são difíceis de engolir!!!

Liga da justiça

"A justiça não deve tardar, inviabilizando a correcção de eventuais falhas processuais, mas também não deve ser apressada, atropelando direitos
uma diferença considerável entre cumprir a lei e fazer justiça e essa diferença pode ser medida em tempo. Como dizia Rui Barbosa, jurista brasileiro e pai da constituição da Primeira República, "justiça tardia não é mais do que injustiça institucionalizada". Mas, se o tempo é a medida da justiça, não pode ser demasiado longo, tornando cada vez menos provável a correcção de eventuais falhas na condução dos processos, nem demasiado curto, atropelando direitos e apressando conclusões. O desfecho do Caso Mateus, lamentavelmente, enferma dos dois problemas. Dez anos depois da decisão que despromoveu o Gil Vicente é impossível fazer justiça ao clube de Barcelos pela via desportiva. Aliás, entretanto os gilistas já subiram à I Liga pelos próprios meios e já desceram pelas próprias limitações. A questão é que, uma década depois, deve ser um pesadelo calcular a indemnização a que o Gil Vicente terá direito e que, cá entre nós, mais do que a vontade de fazer justiça, terá sido a verdadeira motivação por detrás da decisão da FPF e a justificação para o carácter de urgência que assumiu: tempo é dinheiro e neste caso, mais um ano são mais milhões para a Federação pagar. O problema é que, para além da barafunda que provocou na definição do formato das competições para a próxima época, a urgência que o processo assumiu ameaça criar injustiças novinhas em folha. A falta de tempo até ao arranque dos campeonatos pode, por exemplo, inviabilizar a realização de um play-off de acesso à I Liga entre o União da Madeira e o Portimonense, roubando aos algarvios o direito a discutir olhos nos olhos uma vaga entre os grandes. Ora, pelo menos para quem as sofre, não há injustiças pequenas. Seria um mau sinal que as começássemos a medir apenas pelo tamanho das indemnizações que obrigam a pagar."

Apresento-vos o Europeu da minha vida


"Figo, Poborsky, Van Basten, Panenka, Suker: tenho espaço para vocês todos. E quero mais...
O Europeu da minha vida começa no pé direito de Luís Figo. Tantas boas histórias começam assim. Vai com ele até à baliza de Seaman e volta no tempo, até outro pé direito, de Van Basten, lá ao fundo, no impossível. Olho para ele como Dasayev: espantado. Vemos o mesmo, nenhum de nós faz nada.
O Europeu da minha vida prossegue a dois toques. Esquerdo, direito, golo. Gascoigne assina. E volta a voar. Descola a prumo, cai a pique, maldito, na baliza de Baía. Culpa tua Karel, culpa tua.
Como em tudo, há o bom e o mau. Que sentido teria um filme que não tem amargura para dobrar? Arranjo no Europeu da minha vida espaço para o cattenaccio de 68, que até a moeda controlou, e para o catenaccio de 2004, que Charisteas coroou.
Há o que vi e o que os livros de história me disseram. Há Yashin, Schmeichel e Casillas a pedir para parar o massacre. Há Beckenbauer, Rijkaard, Sammer, Gullit. Há o pé direito de Jordão, o esquerdo de Chalana, a cabeça de Costinha e a mão de Abel Xavier.
Da minha praia saio para dominar, como a Dinamarca. Da minha defesa não saio por nada e ganho na mesma, como a Grécia. Sobrevivo e ganho com um golo que vale mais. Que vale ouro. Como Alemanha e França.
No Europeu da minha vida apaixono-me pela República Checa de 2004. Até Dellas. E pela Holanda de 2008. Até Arshavin. Marco no fim como a Turquia. Choro com Ronaldo e tento agarrar Platini para que não marque aos 119. Bebo uma Erdinger com Sérgio Conceição, mostro o peito a Balotelli e corro ao lado de Schmeichel para evitar que Suker humilhe. Nada feito. Acerto em Toldo como qualquer holandês que se preze.
E se for a penáltis, se não tiver Ricardo de mãos despidas, que apareça Panenka a mostrar ao mundo como se entra para a história. Ou Postiga, pode ser. Seja de que forma for, é certo que Inglaterra vai perder. 
Misturo tudo, baralho e volto a dar. Sexta-feira continuo a história, com mais atores do que nunca. 
Confesso: estou ansioso por escrever mais umas linhas. Com Ronaldo, Iniesta, Muller, Bale, Pogba ou até pelas calças de Király. Mas também com aqueles que, agora, pouco conheço e espero que França me apresente.
Que role a bola, então, e que as páginas do Europeu da minha vida tenham mais letras de júbilo, arte e lágrimas.
Se puder ser em português, tanto melhor. Mas, acima de tudo, que se escreva futebol."

Os milhões de João Mário

"O Euro ainda não começou, mas as notícias mais recentes garantem pelo menos um jogador da Selecção portuguesa hiper motivado, a jogar nos 200%. João Mário sente-se preso a uma bola de ferro feita cláusula de rescisão e pago como jogador de fancaria.
João Mário é dos melhores jogadores europeus da sua geração. Pertence aquela classe rara de jogadores que parece jogar de saltos altos e afagar a bola como se parte do próprio corpo fosse. No Sporting ou num grande clube europeu, João Mário merece ganhar ao nível dos melhores, principalmente se confirmar toda a sua classe a favor das cores portuguesas.
Para já este grito do Ipiranga dado pelo seu pai, onde se denuncia a discrepância entre os milhões da cláusula de rescisão e o valor reconhecido ao jogador no salário, remete-nos para um problema que parece mal resolvido no futebol português e que não parece merecer grande atenção do sindicato da classe. O valor da cláusula de rescisão não deveria ter nexo num limite mínimo de salário para o jogador que ficará preso a essa cláusula?
Não é aceitável, nem à luz da boa fé que se pague a um jogador um salário que não lhe garante independência financeira futura e por esse mesmo jogador se peça uma fortuna para o libertar desse mesmo contrato.
Para já, a bem das nossas aspirações a um grande Euro, façamos votos de que João Mário transforme esta aparente injustiça em motivação extra. Assim, na maior montra da Europa, poderá mostrar que, se vale 60 milhões para o Sporting, também alguns milhões deverá valer para ele."

A França merece um grande Europeu

"Na sexta começa o Europeu e a França sustém a respiração durante um mês. O país que em menos de um ano sofreu dois atentados particularmente abomináveis (Charlie e Bataclan) não cedeu à chantagem terrorista e manteve a organização do Europeu nos moldes previstos: jogos com público nos estádios e fan-zones para promover a reunião e o convívio entre adeptos. A França podia ter desistido da prova ou realizá-la em moldes completamente diferentes - chegou a ser encarada a possibilidade de os jogos decorrerem à porta fechada. Não o fez e esse ato de coragem e dignidade merece o respeito e o apoio de todos os outros países europeus, que certamente estão com a França nesta luta de vida ou de morte (é mesmo o termo) contra a barbárie terrorista. É claro que este campeonato não decorrerá num clima tão alegre, e distendido como o do nosso Euro-2004: a tensão é latente e haverá muitas restrições e medidas de segurança pouco usuais, porque a possibilidade de novos atentados é real e, infelizmente, quase uma inevitabilidade. Toda esta gigantesca operação de segurança tem custos, claro. Na ordem dos milhares de milhões. Estão destacados mais de cem mil agentes de segurança (entre polícias, militares e seguranças privados) para vigiar 24 selecções e respectivas comitivas e os 2,5 milhões de adeptos esperados. A França endivida-se e gasta o que não tem para garantir a segurança de um evento que interessa e diz respeito a milhões de cidadãos europeus. Só por isso merece que tudo corra bem. Já decidi que se Portugal ficar pelo caminho é pela França que torcerei.
Sobre a Selecção. Gostava de partilhar o optimismo de Cristiano («estou em grande forma») e de António Costa («Cristiano disse-me que está em grande forma») mas não consigo. Acho difícil CR7 estar em grande forma apenas semana e meia depois de ter jogado o que jogou - bola! - na final da Champions. Mas pode ser que sim, que o Euro francês corra de feição e não seja uma repetição da tristeza mundialista de 2014: uma equipa estoirada, envelhecida, sem ideias nem energia. O sound byte inteligente do selecionador pegou e por todo o país se ouve dizer que «não somos favoritos», mas «candidatos à final». Uma espécie de bandeirinha à Scolari em modo verbal. Mas é claro que tudo depende da condição física de um e um só jogador. Para chegarmos à final precisamos de um Cristiano devastador (o que é muito duvidoso) e mesmo assim acho que não chega: é preciso que Nani e João Moutinho joguem com a dinâmica com que jogavam há quatro ou cinco anos; que Pepe e Carvalho não facilitem um milímetro; e que João Mário e Danilo, cada qual na sua função, repitam as melhores exibições da época. Por mim, confio no famoso pé quente do engenheiro - com ele no banco ganhámos todos os jogos oficiais (quase sempre à rasquinha, mas ganhámos caramba!) e na inversão do destino. Nos últimos vinte anos jogámos quase sempre muito bem e ganhámos... bola. Agora que não jogamos assim tão bem...

Nuno e Renato, a mesma luta
A meu ver o FC Porto escolheu Nuno Espírito Santo sobretudo para poder voltar a contar com a ajuda, os conhecimentos e a argúcia negocial do melhor amigo de Nuno, o superagente Jorge Mendes. Que, imagina Pinto da Costa, não deixará Nuno descalço ou pendurado no momento em que ele precisa, por razões óbvias, de recuperar todo o crédito perdido em Valência. Naquilo que lhe for possível ajudar, Mendes ajuda Nuno e, consequentemente, o FCP...; o risco que Pinto da Costa corre neste disfarçado escancarar de portas ao superagente é enfurecer os comissionistas que gravitam na órbita portista (leio que no último exercício abocanharam 13 milhões). É sabido que Mendes não precisa de intermediários nem costuma delegar no exercício daquilo que faz melhor que ninguém. Portanto...
De resto, Nuno não mostrou até agora capacidade para treinar uma equipa como o FCP. Por isso, não deixo de achar alguma graça à súbita profusão de comentários elogiosos ao ex-valenciano. Alguns jogadores conhecidos sentiram esse impulso ao mesmo tempo. Faz lembrar a súbita e genuína inspiração daquele miúdo que, com Cristiano em campo, invadiu o relvado para abraçar... Renato. Os portistas, pouco ou nada entusiasmados com a escolha de Pinto da Costa, sempre vão lembrando que Mourinho e Villas Boas também não tinham provas dadas quando chegaram ao Dragão. Isso é verdade. Como é verdade que Nuno até pode vir a ser um óptimo treinador. Mas para isso precisa de ser primeiro um grande condutor de homens. Nesse particular, alguns episódios valencianos (o modo como lidou com João Pereira e Alvaro Negredo; e se deixou enredar em guerras que não eram suas; a perda progressiva do balneário; o fecho sobre si mesmo...) sugerem que Nuno tem muito que aprender.

Viva a 'silly season'!
Campeonato com 20 à imagem da Premier e da Bundesliga? OK. Em vez de quatro ou cinco, passamos a ter seis ou sete jogos por jornada com pouco ou nenhum interesse. Faz todo o sentido. Viva! Slimani em férias castigado com um jogo de suspensão seis meses depois da cacetada a Samaris. Faz todo o sentido. Viva! Antigo vice- presidente do Sporting armadilha árbitros por sua conta e risco, já que para tribunal Sporting clube tem rigorosamente nada a ver com o caso. Faz todo o sentido. Viva! Juíza dá dez dias a Benfica para melhorar a geringonça judicial (alvo: Jorge Jesus) mais indigna e ridícula da história do clube. Faz todo o sentido. Viva! Pinto da Costa diz que querem matar o FC Porto (quem?) mas não vão conseguir (quem?) e Luís Figo (porquê?) diz que Pinto da Costa deve sair. Faz todo o sentido. Viva a silly season!"

André Pipa, in A Bola

Benfiquismo (CXXVIII)

O Melhor, alguém tem dúvidas ?!!!

terça-feira, 7 de junho de 2016

Um Oriente a Oriente do Oriente,,,

"Em 1970, o Benfica joga em Macau, no Japão e na Coreia do Sul. Nunca uma equipa portuguesa viajara para tão longe. Mas os céus do mundo eram cada vez mais os caminhos da águia.

Em 1970, o Japão recebia a Expo-70 e Portugal estava representado com um pavilhão em Osaka, inaugurado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros da época, Rui Patrício.
Osaka, terceira cidade japonesa em população a seguir a Tóquio e Yokohama. O Benfica também tem de estar presente. O Benfica é cada vez mais uma imagem de Portugal além fronteiras, uma marca firme de sucesso e brilhantismo. E Eusébio, sempre Eusébio, encantador de pessoas, o homem que fascina espectadores com a sua potência felina de uma vida que transborda dele mesmo e se propaga no redor. Facto inédito - eis que uma equipa portuguesa de Futebol se desloca ao extremo-oriente. O Futebol português está de luto pela morte do jovem Nené, prometedor jogador da Académica. No dia seguinte a comitiva 'encarnada' deixa Lisboa em direcção a Macau, primeira paragem desta nova deslocação 'encarnada', quase directamente de África, onde uma semana antes defrontara em Luanda e Lourenço Marques uma selecção de Luanda e o V. Setúbal, por duas vezes, para o mais distante de todos os orientes.
Dois jogos na velha Cidade do Santo Nome. Duas vitórias, como não podia deixar de ser. 4-1 à selecção de Macau; 7-0 à selecção de Hong Kong. O público gosta. Mesmo num território onde o futebol nunca se fixou como alegria do povo e se preferem as corridas de cavalos e de galgos.
Nos sopés dos montes
A 'águia' não pára de voar. Os céus do mundo são os seus caminhos.
Borges Coutinho comanda o grupo, o treinador é Jimmy Hagan, os jogadores são - José Henrique, Fonseca, Malta da Silva, Barros, Humberto Coelho, Zeca, Adolfo, Jaime Graça, Matine, Vítor Martins, Simões, Nené, Eusébio, Artur Jorge, Raúl Águas, Messias e Praia. Dois jogos em Macau para aquecer os motores, e quilómetros e mais quilómetros. Um jogo em Kobe, viagem de comboio para Tóquio, por entre as montanhas em cujos topos se espreita o branco da neve.
Kobe: um dos maiores portos do país de onde saiu a principal fonte de emigração para o Brasil. No sopé do Monte Rokko, o Benfica vence a Selecção principal do Japão por 3-0.
E a surpresa geral. A televisão japonesa transmite os jogos a cores! Uma sensação! O Benfica faz golos e mais golos e todos eles vão de casa em casa, a cores, para alegria de toda a gente. Depois é a partida para a Coreia do Sul, registando-se em Seul o único empate da digressão. Só à sua conta, Eusébio marca 13 golos. Um número que lhe dá sorte. E duro, o regresso, estende-se por escalas e mais escalas: Seul-Osaka- Tóquio-Hong Kong-Bangkok-Bombaim-Teerão-Roma-Lisboa.
Mais duas taças para a sala do clube: Taça Cidade de Kobe e Taça Pavilhão Portugal/Japão. O brilho extraordinário de ouro e de prata.
De cada vez que viajam, os jogadores do Benfica coleccionam carimbos nos passaportes, escalas infinitas em aeroportos e o respeito de um público que sabe a força desse nome vermelho.
Ao contrário do que escrevia Álvaro de Campos, não há de ser a vida de bordo a matá-los. Mas havia glórias a procurar num Oriente a Oriente do Oriente.
Era lá que estava o Benfica nesse Verão de 1970.
Nada de estranho para quem esteve em toda a parte..."

Afonso de Melo, in O Benfica

Justiça! Agredir um árbitro dá prisão

"Nos últimos dias, aconteceram coisas importantes no mundo da arbitragem. E qualquer uma delas seria válida para trazermos hoje a esta coluna.
Podia falar-vos sobre a tomada de posse da Direcção da FPF e do novo Conselho de Arbitragem, que acontecerá hoje, com a presença do presidente da FIFA, Gianni Infantino.
Podia também abordar a questão das alterações às leis de jogo, aprovadas em Março. Ao todo, foram 95 mudanças na letra e espírito da lei, muitas delas com impacto significativo no decorrer dos jogos. A analisar em breve.
Mas hoje a minha escolha é outra. Hoje respondo ao apelo do coração e escolho a mais importante de todas. Porque sempre que está em causa a saúde e a segurança de quem está no futebol, tudo o que é estrutural deixa de fazer sentido.
Lembram-se do Caso do Sobrado? Em Novembro de 2011, um árbitro assistente foi brutalmente agredido por dezenas de adeptos da equipa visitada, num jogo do Distrital da AF Porto, entre o Sobrado e o Rio Tinto.
A barbaridade foi tal que o Semedo, assim conhecido pelos colegas, correu risco de vida e foi internado durante várias semanas. Diagnóstico? Coisa pouca. Dentes e maxilares partidos, traumatismo craniano e deslocamento da retina do olho direito. Foi de tal forma grave que foi necessária cirurgia para reconstrução facial. Imaginem pois a violência dos socos e pontapés na cara, quando já estava caído e inconsciente no chão. Dispenso-me falar aqui das consequências psicológicas e emocionais e do impacto irremediável que esta situação teve na sua vida pessoal, profissional e familiar. E que ainda tem. Que terá sempre.
Quase cinco anos depois, a justiça portuguesa fez... justiça. E pela primeira vez em Portugal condenou a penas de prisão efectivas (confirmadas agora na Relação) alguns dos agressores identificados. A prisão de alguns dos arguidos (outros apanharam apenas penas suspensas) não é motivo de alegria para quem sofreu lesões gravíssimas na cabeça, tal como não o é para a sua família ou para o universo do futebol. Não há justiceiros nem vinganças agridoces em pessoas de bem. Não pode haver.
Mas teve o mérito de abrir precedente importante e de passar mensagem de prevenção inequívoca: bater nos árbitros (ou em qualquer outro interveniente desportivo) dá prisão. Dá cadeia. De verdade. E se tanta pedagogia, tanto diálogo, tanto apelo ao fair play nunca parecem desincentivar quem vai para um estádio apenas para agredir, que a consequência dessas acções o faça então. E que esta pena, neste caso justíssima, faça despertar nos potenciais arruaceiros de amanhã o receio de passarem a ver o sol aos quadradinhos durante muitos, muitos meses.
Sempre fui favorável à prevenção. Mas se ela se esgota sistematicamente em palavras, então que as acções sejam firmes, fortes e imparáveis. Seja em matéria criminal, seja por exemplo em questões de regulamentação disciplinar.
E que falta faz o endurecimento dessas no futebol português..."

Duarte Gomes, in A Bola

Os novos trabalhos de Fernando Gomes

"Decorrido o ato eleitoral que culminou com a eleição do dr. Fernando Gomes para presidente da FPF, é tempo de reconhecer a obra feita, de elogiar o cumprimento de todas as metas estabelecidas e de destacar a credibilidade governativa.
A expressividade do resultado eleitoral demonstra a comunhão de ideias entre a FPF e os seus associados que será fundamental nos anos vindouros, ainda que novos e duros trabalhos se avizinhem.
Sejamos realistas, os problemas estruturais do futebol português exigem muito mais do que um consenso alargado ou metas comuns. Sobre cada agente e cada instituição desportiva recai a responsabilidade de dar um passo em frente. O que hoje não merece discussão no papel amanhã terá de traduzir-se em acções concretas, com repercussão na vida dos clubes, jogadores e demais agentes. Cada um tem de assumir a sua responsabilidade, o seu papel, promovendo a pluralidade de opiniões, enriquecendo um projecto comum! 
Há muito que se impõem reformas estruturais. Discute-se hoje a arbitragem, nomeadamente a introdução de novas tecnologias no futebol (o que se saúda), em nome da verdade desportiva, como se fosse a panaceia que resolve todos os problemas, ignorando-se que a montante existem outros mais graves que a esvaziam. 
Resolver o problema da bola que entra ou não entra, da decisão acertada ou errada, diminui o incumprimento salarial, impede a propagação de actos de gestão danosa e fraudulenta ou condiciona o acesso à competição daqueles que violam reiteradamente os compromissos assumidos?
Nesta matéria, perdoem-me ser 'desalinhado', acho que devemos recentrar os nossos esforços a montante! Garantir condições de igualdade entre os competidores é o grande desafio! Fazer a justiça desportiva funcionar, independentemente da comum, ajuda!
O conceito de 'cidadania desportiva' vai muito para além do apoio a um programa de governação, significa identificar os problemas e aturar sobre eles com consciência crítica, encontrar soluções, construir pontes e premiar a seriedade.
Proteger os fundamentos do desporto, o futebol, os seus agentes, implica que cada instituição dê um passo em frente. Esse é o maior contributo que podemos dar ao dr. Fernando Gomes e à sua equipa!"

Um 8 para o 36

"Se o Benfica quiser garantir o 36 na próxima época, a prioridade passa por não repetir erros da temporada passada. Parece paradoxal, tendo em conta que o Glorioso acabou por ser campeão, contra as expectativas iniciais. Mas, a frio, talvez valha a pena reconhecer que, de facto, o Benfica venceu, apesar de um planeamento atribulado.
É, hoje, claro que a digressão norte-americana, se colocou o Benfica na rota de muitos colossos do futebol mundial, foi uma má experiência e impediu a sedimentação de novos processos. O problema, aliás, não foi apenas do Benfica - as equipas que andaram embarcadas em viagens comerciais à volta do Mundo deram-se mal no início da época.
O principal erro foi mesmo a formação do plantel. Depois de uma segunda metade de 2014/15 em que era evidente a necessidade de encontrar um substituto de Enzo para a posição 8, o Benfica entreteve-se com um sem-número de contratações, não cuidando de encontrar atempadamente um titular para o centro do terreno. Ora, com Jonas em campo, não há volta a dar: como o brasileiro não pode jogar sozinho na frente, o Benfica tem de jogar com um meio-campo de dois jogadores. Com Samaris e Fejsa, a posição 6 está assegurada, mas o futebol do Benfica depende de um 8 com características muito particulares.
Esta temporada, a emergência do extraordinário Renato acabou por resolver a lacuna no plantel e ofereceu-nos o título. Com a saída do Bulo, o Benfica voltou à estaca zero. Encontrar um 8 de classe, titular de caras, não pode deixar de ser feito, nem - como em anos anteriores - adiado para o encerramento do mercado."

"Viva o Benfica"

"A história dos geoglifos da vila da Malveira

Muito provavelmente não há benfiquista que não tenha conhecimento das homenagens ao Benfica efectuadas na Malveira. Porém, a história dos geoglifos na vila do concelho de Mafra remonta a muitos séculos antes da fundação do Clube 'encarnado'.
Reza a história que, pelo menos até ao segundo quartel do século XX, no dia 1 de Maio, a população subia ao Cabeço do Cerro com uma velha mó de moinho, transportada por uma junta de bois, e lavrava no solo 'o sentir do povo' em 'letras extraordinariamente grandes para de longe poderem ser lidas'. Depois, com a mó como mesa, tinha lugar uma 'longa patuscada em que o vinho e as especialidades da região' eram 'bastante lembradas e apreciadas'. 'Terminado aquele repasto (...), precede-se ao final do cerimonial (...): a mó (...) é lançada a rebolar pela encosta abaixo numa velocidade cada vez mais vertiginosa, de maneira a causar arrepios a quem, de perto, assiste ao desfecho'.
Rito pagão oriundo, segundo consta, dos moleiros da região, visava 'despertar a natureza do sono em que mergulhara desde o início do Inverno (...) e trazer de volta a fecundidade às pessoas, aos animais e às plantas'.
Em 1961, após a conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus, o Benfica figurou pela primeira vez nos geoglifos do Cabeço do Cerro com a frase 'Viva o Benfica'. No ano seguinte, repetida a conquista, os benfiquistas malveirenses reiteraram a homenagem. Mais recentemente, após a vitória nos campeonatos nacionais em 2005, 2010 e 1014, o Clube voltou a ser glorificado no cimo do monte, sendo que nos dois últimos a frase deu lugar a um gigantesco emblema do Clube.
Ao longo do século XX, há registos de outros geoglifos traçados no local. Entre eles: 'Malveira' em 1939; 'Paz no mundo', quando terminou a II Guerra Mundial; 'Vida por vida', aquando da fundação dos Bombeiros Voluntários da Malveira.
Actualmente, são vários os países onde esta prática ainda se mantém. 'Na Grã-Bretanha e na Irlanda, por exemplo, (...) todos os anos, no dia 1 de Maio, determinadas comunidades ascendem a uma colina (...) com o objectivo de revolverem penedos, após um manjar ritual fruído em conjunto'.
No Museu Benfica - Cosme Damião, as homenagens dos benfiquistas da Malveira não foram esquecidas: na área 16. Outros voos pode ver-se uma fotografia do tributo de 2010."

Mafalda Esturrenho, in O Benfica

Benfiquismo (CXXVII)

LP !!!

Bonito !!!

O monumento entre a Prisão e a Cidade do Futebol

"À beira do forte de Caxias onde Cândido de Oliveira foi torturado há um rotunda, é lá que o NAM o quer colocar como mais do que símbolo à resistência. Fique a saber como e o que ele penou depois de ser preso pelo seu próprio guarda-redes...

Perante a ameaça de Hitler invadir Portugal, criou-se, em Dezembro de 1940, com o patrocínio dos SOE, serviços secretos britânicos, a Rede Shell. Destinada a acções de espionagem (e eventualmente de guerrilha...) contra os nazis, Cândido de Oliveira tornou-se um dos seus principais agentes, o agente PAX. Aplicou à selecção o WM que Chapman inventara no Arsenal - e foi assim que à entrada de 1942 levou Portugal a brilharete: ganhou à Suíça, nas Salésias, por 3-0. 51 dias depois, às cinco de madrugada de 28 de Fevereiro, brigada PVDE entrou de restolhada na casa onde vivia e levou-o, preso, para Caxias.
Durante mais de 12 horas interrogaram-no sobre nomes e ligações, ajudas e arrimos - e Cândido disse anda. Partiram-lhes os dentes, racharam-lhe os lábios. Levou murros e pontapés - e ainda com um banco na cabeça. Pela sala da tortura passou António Roquete, que fora seu guarda-redes no Casa Pia AC e na selecção olímpica - e que, em 1930 se tornara agente da polícia política, ainda não se chamava PIDE, chamava-se PVDE.
Levantou-se rumor de que fora António Roquete, quem mais barbaramente o agredira - que não, revelou-o Maria Claudina Guerreiro Nunes, sua sobrinha:
- Era um rapaz muito pobre, o Roquete, o meu tio protegeu-o, garantiu-lhe refeições, ajudou-o a vestir-se, enfim fez com ele o que fazia com todos os casapianos que precisavam do que fosse... É verdade, que apesar disso, não se portou bem quando Cândido foi preso. Mas bater-lhe parece que não bateu. De qualquer forma, posteriormente, Roquete tentou uma aproximação, mas o Cândido recusou...

Cândido, a tortura em Caxias...
Ainda de Caxias, Cândido de Oliveira enviou exposição a Mário Pais de Sousa, ministro do Interior, que era mais do que um lamento, é imagem da barbárie que se praticava:
- Só agora tive conhecimento da razão das torturas, morais e físicas, a que fui submetido: a escuridão total, a cela húmida e sem ar, sem luz e sem janela, o facto de ter sido obrigado a viver como um animal e a comer no chão durante dez dias inteiros, impedido de receber cuidados médicos apesar de ter um dente partido e ter sido forçado a usar o mesmo lençol durante esse mesmos dez dias. A polícia pensava que eu era um comunista, um traidor que queria derrubar o governo, mas não, fui apenas um patriota que desejava combater qualquer invasor do seu país...

Obrigatoriamente, o Cândido
À sombra do presídio onde, então, penava Cândido de Oliveira está, agora, a Cidade do Futebol. Entre um espaço e outro há rotunda - e é lá que João Maria de Freitas-Branco, vice-presidente do NAM, Movimento Cívico Não Apaguem a Memória, quer que se coloque monumento que seja mais do que uma homenagem a Cândido:
- O NAM foi criado em 2005 com o objectivo de manter viva a memória do que foi o Estado Novo e o período da Revolução e da transição para a Democracia. É uma instituição independente que acaba de editar resenha histórica dos seus 10 anos de actividade, da autoria de Raimundo Narciso, seu presidente do NAM. Vendo em marcha a construção da Cidade do Futebol apresentei em reunião do NAM a proposta para que se fizesse monumento que estabelecesse um ponto de união entre aquilo que é a Cidade do Futebol virada para o futuro e o velho forte de Caxias, símbolo do passado ditatorial, da repressão, do Mal, do mal institucionalizado que foi o Estado Novo - e além disso que evoque o histórico momento da libertação dos presos políticos na madrugada de 27 de Abril de 1974. A figura de Cândido de Oliveira impôs-se quase como uma obrigatoriedade, dada a intenção de estabelecer ponte entre a resistência anti-fascista e a actividade desportiva. Quem melhor para isso? Cândido reúne numa só pessoa um conjunto de qualidades, de competência, de acções no seio da sociedade que fazem dele a figura mais importante da história do futebol em Portugal. O admirado Eusébio é caso diferente. Cândido não se esgota no futebol, nem sequer no desporto. vai para além disso, simboliza o intelectual do desporto, há na sua prosa jornalística e não só uma dimensão literária.

O amargo silêncio da FPF
A ideia acolheu-se com entusiasmo, ao NAM, por si só, falta capacidade para lhe dar andamento:
- Razão porque estabelecemos dois contactos institucionais privilegiados. Um, em primeiríssimo lugar com a Câmara de Oeiras. O presidente Dr. Paulo Vistas revelou de pronto todo o empenho possível na concretização da obra. Também todas as forças políticas representadas na Assembleia Municipal mostraram simpatia à ideia. O segundo contacto foi com a FPF e aí...
Freitas-Branco calou-se por um instante, percebendo-se-lhe, amargo, o silêncio:
- O contacto com a FPF foi em Março e é com alguma tristeza que tenho de dizer que ainda não tivemos nenhum eco da sua reacção...
Custo? Ainda não se sabe, o NAM não tem dinheiro...
José Maria de Freitas-Branco não faz (ainda) ideia precisa do que pode custar a colocação da estátua de Cândido de Oliveira no Monumento entre a Prisão de Caxias e a Cidade do Futebol:
- Não há qualquer orçamento, de momento. Porque nós, o NAM, defendemos que deve realizar-se um concurso de ideias. Não queremos impor nada no plano da criação artística. Aliás, aproveito para revelar que motivei um jovem escultor meu conhecido, Fernando Roussado, a abraça-lo e ele já me deu a conhecer o seu projecto. Trata-se, porém, de iniciativa pessoal, o NAM não apresentou nenhuma proposta de autoria. Eu simpatizo com a ideia de explorar o olhar criativo de um artista já nascido no Portugal de Abril, mas repito: sendo o NAM uma instituição sem fins lucrativos, não temos capacidade financeira para avançarmos sozinhos, por isso nada se orçou ainda...

Se o seleccionador olímpico era ele...
Se a FPF não entrar no apoio financeiro ao projecto, o COP pode entrar? Já entrou doutro modo...
- Cândido de Oliveira não foi apenas jogador e treinador de futebol, também fez râguebi, atletismo e luta, da sua cabeça saiu a ideia da Volta a Portugal em bicicleta, era o seleccionador da equipa que nos Jogos Olímpicos de 1928 ficou à beira de ganhar uma medalha...
- ... E como jornalista, além de fundador de A BOLA, foi um dos mais notáveis que Portugal teve. Gosto de acentuar que o jornalismo é, à sua maneira, uma forma de escrita literária, nele era sempre assim...

- Pois, mas o que eu lhe queira perguntar era se, atendendo ao facto de Cândido de Oliveira estar muito para além do futebol não deveria envolver neste projecto o Comité Olímpico também...
- O Prof. José Manuel Constantino logo que soube do projecto do NAM mostrou o maior entusiasmo e interesse nele e, aliás, tem-me ajudado muito nesta batalha pela sua concretização...

- Já lhe falou na possibilidade de o COP se envolver financeiramente no projecto se a FPF não o quiser fazer?
- Não, nisso não falámos.

- Outra hipótese para o pagar é o envolvimento do governo - ou não?
- Eventualmente, embora ainda não tenha sido feita abordagem nesse sentido porque o NAM tem a correr outro projecto que envolve o governo, tem incidência sobre o espaço da prisão da Caxias, está a ser negociado com o Ministério da Justiça e não quisermos sobrepor projectos. Mas, claro, não está posta de parte a hipótese de se tentar o envolvimento do governo, se necessário...

- Não deixa de ser uma obrigação moral de qualquer governo...
- Concordo. Muito se disse já sobre o futebol como elemento de alienação. Sem o querer negar, gostava de enfatizar o facto de a prática do jogo, bem como o espectáculo futebol, com a sua enorme dimensão cultural, estética, sócio-antropológica, política, poder, e dever, constituir real factor de educação cívica no seio da sociedade. O nosso bom Cândido compreendeu isso e por isso merece de todos nós a homenagem que o NAM quer fazer...

Sem a FPF, a memória atraiçoada...
José de Freitas-Branco garante: o projecto não é megalómano e os custos não são exorbitantes.
- Se a FPF chutar para canto a ideia o Monumento na Cidade do Futebol...
- Achamos que o projecto, pela sua filosofia, o seu simbolismo, a ideia do NAM deve ser financiada pela autarquia e pela FPF. O futebol é hoje uma indústria que move milhões e para a FPF creio que não seria um investimento significativo, porque não estamos a falar de um projecto megalómano, que tenha custos exorbitantes...

- Não teme, porém, que no silêncio que tem recebido da FPF possa haver algum indício de contravapor - ou mesmo de uma forma de negação em particular na ideia?
- Não posso acreditar nisso.

- Porquê? Porque, fazendo-o, a FPF estaria a atraiçoar a memória de Cândido de Oliveira, a sua figura, o que ele representa?
- Julgo que não há nenhuma decente direcção da FPF que possa não simpatizar com a ideia de ter à entrada da Cidade do Futebol um monumento evocativo de Cândido de Oliveira e dos valores nele encarnados - independentemente das posições políticas que hoje se possam ter. Cândido de Oliveira é, aliás, figura digna, consensual, uma personalidade marcante no Portugal do século XX, um residente empolgado sem conotação partidária, um incansável lutador pela Liberdade e pela Democracia. Por isso, sofreu, por isso pagou preço que se sabe. E, 'last but not least', ainda não recebeu a devida homenagem nem o reconhecimento nacional que merece.
Do 'pântano da morte' à rotunda
O dinheiro que o governo de Salazar lhe roubou e a desculpa da doença que o desviou do Brasil...

Depois de quatro meses preso em Caxias, a 20 de Junho de 1942 Cândido de Oliveira foi embarcado no paquete Mouzinho com destino ao Tarrafal, construído em Cabo Verde à imagem de campos de concentração nazis. Por mais de uma vez, a embaixada inglesa exigiu ao governo de Salazar que o libertasse. Sem resposta, os SOE idealizaram raptá-lo de lá.
Na primeira vez gizaram plano que previa recurso a um barco francês - mas como Lionel Oliveira, o irmão de Cândido, era comandante de navio mercante, o Alfarrarede, ofereceu-se para ser ele a fazê-lo. Decidiu-se que a operação largasse cabo a 22 de Fevereiro de 1943, horas antes, por indicação do embaixador inglês foi «estrategicamente suspensa».

Plano para a fuga do Tarrafal...
Tentou-se outra, entretanto. Que, com a ajuda de um guarda, Cândido de Oliveira fugisse do campo do Tarrafal a nado do forte, a caminho dum salva-vidas que se lhe lançasse, pela calada da noite, sendo, depois, os dois resgatados por um navio da Royal Navy - deixando o bote com o casco para cima sugerindo que tinham morrido afogados. Cancelou-se também - porque Salazar decidira abrir os Açores aos Aliados e prometera aos ingleses soltar todos os envolvidos na Rede Shell, ao perceber que a sorte da guerra se inclinara para os Aliados...
Do Tarrafal voltou, assim, Cândido de Oliveira a 31 de Dezembro de 1944. Levaram-no ao Júlio de Matos - para «quarentena da febre amarela» e «análise de estado psíquico». Após seis dias no referido para hospital foi transferido para o «Depósito de Presos de Caxias». Para cada mês na cadeia exigiram-lhe 1500 escudos para «pagamento do quarto e da alimentação» (sim, os presos políticos tinham de suportar o cárcere e o resto...) e só a 27 de Maio o restituíram a liberdade condicional.
Quando o deportaram tinha 35 contos de economias, o Estado apoderou-se delas por achar que era «dinheiro da espionagem». Salazar deu-lhe a soltura mas manteve-lhe a exoneração de Inspector Geral dos Correios. «Arruinado» e «sem trabalho», sugeriu ao SOE que lhe arranjasse «qualquer coisa no Brasil». Arranjaram - e marcaram-lhe viagem para os primeiros dias de 1945. Não partiu, queixou-se de problemas de saúde. Não, não foi bem por isso que não partiu, foi porque outro sonho se lhe ateara, noutro sonho de envolvera - com Vicente de Melo e Ribeiro dos Reis na fundação de A BOLA.

Auschwitz de via reduzida
Do Tarrafal saíra, com livro na cabeça. Escreveu-o, magistral, na denúncia dos seus horrores - é O Pântano da Morte. (Obviamente só foi publicado em 1974). Numa das suas páginas, ao Tarrafal chamou Auschwitz de via reduzida. Arrepiante é o que conta sobre a famosa Frigideira e não só... (Vá lá, Cândido não passou por suplícios como outros passaram, a ele tiveram-no preso em «regime especial», fora do «arame farpado». Davam-lhe uma pequena área para passear e só era fechado das 8 da noite às 5 da manhã...)

O simbolismo da rotunda
Perguntando-lhe se, por um acaso (ou não...), a FPF não participasse no financiamento do monumento com Cândido de Oliveira na rotunda da Cidade do Futebol, isso o feria de morte (e lhe atraiçoava a memória) Freitas-Branco afirmou:
- Eventualmente. Porém, quero acreditar não haver tão grande risco, em face do empenhamento que tenho observado da parte do Dr. Paulo Vistas, presidente da Câmara de Oeiras, e do consenso entre as forças políticas na autarquia. Mas acredito que a FPF não deixará de se associar ao que é fundamental: fazer-se num local carregado de simbolismo, a homenagem a uma personalidade singular, a Cândido de Oliveira. Fazendo-o, estamos a enaltecer a atitude e o espírito pró-democrata, pré-liberdade, pró-desenvolvimento, pró-progresso, celebrando, do mesmo passo, o gesto libertador que ocorreu naquele local, em 1974, e que marca a história do Portugal contemporâneo."

António Simões, in A Bola

Talvez o maior benfiquista em Hollywood

"(...)
- Por sugestão sua conversamos em Sintra. Escolheu o local por ser perto da sua casa ou por sentir aqui - onde de resto já muitos filmes foram rodados, até com reflexo hollywoodesco, como A Nona Porta de Romam Polanski, com Johnny Depp - alguma energia cinematográfica?
- Foi mesmo por ser perto de casa. Moro em Ranholas. Até podíamos ter conversado lá em casa mas esteve a chover e está tudo sujo no jardim. Sou amigo do dono deste restaurante onde estamos. Venho cá muitas vezes e acaba por ser também onde recebo amigos quando estou em Portugal. Sintra, lá está, como disse, tem uma magia qualquer. Uma solidão. Não tenho vizinhos, o que é fantástico. Em Santa Mónica, nos EUA, vivo num condomínio mesmo em frente à praia mas sempre cheio de gente.

- Em Portugal é famoso; nos EUA, apesar de muitos anos de carreira, pela dimensão do mercado a exposição é menor. Ao viajar entre os dois países passa de um Joaquim Almeida para outro?
- As pessoas aqui na terra que me conhecem não param para conversar. O português é tímido. O espanhol é pior, chamam-te para ires com eles. Aqui notam quando passo, ouço o meu nome, normal. Quando isso deixar de acontecer, ou um pedido de autógrafo, é porque não estamos a trabalhar e isso será bem pior. Ocasionalmente ouço actores de novela afectados com isso e lembro-lhes que devem aproveitar, porque passam a fronteira e ninguém os conhece. Na Califórnia as pessoas estão tão habituadas a ver actores e actrizes que nem ligam, não se espantam.

- Há muito que terá deixado de se sentir emigrante na América?
- Eu tenho nacionalidade americana. Sinto-me em casa lá também. Tenho dois passaportes. O americano, porém, só uso para entrar e sair dos EUA. Claro que se um dia me vir nalgum sarilho muito longe de casa uso o americano para pedir ajuda, porque desconfio que a embaixada americana me resolverá o problema mais depressa... Mas sinto-me muito português ainda, não me sinto americano.

- Cumpriu o sonho?
- Cumpri. E estou outra vez a trabalhar bastante. Tem a ver com a idade. Estou a chegar aos 60 e estão a dar-me papéis outra vez. E há menos concorrência, porque alguns actores, envelhecendo, deixam de representar. Mas sou um refilão, quando não tenho trabalho refilo porque não tenho trabalho e quando tenho refilo porque tenho.

- Pela sua versatilidade e fluência linguística trabalha em vários circuitos, uns de maior exposição, como o de Hoolywood - Our Brand Is Crisis - foi o último filme, com Sandra Bullock e Billy Bob Thornton -, e outros menos populares, na Europa. O que prefere?
- Gosto mais de fazer cinema, europeu ou americano, só isso. O futuro está na televisão, nas séries, há mais trabalho, mais actores a representar. Mesmo agora estou a filmar um filme em Londres.

- Que filme?
- De acção. Estou a fazer de francês. Chama-se The Hitman's Bodyguard. O assassino é o Samuel L. Jackson, o Ryan Reinolds é o guarda-costas. Há uma julgamento em Haia, uma testemunha num processo contra o presidente da Bielorússia, interpretado pelo Gary Oldman... Eu faço de agente da Interpol mas sou 'toupeira', infiltrado...

- Ao longo dos anos quantas dessas estrelas foram ficando amigos ou amigas?
- Na verdade não tenho muitos amigos actores. No meio são sobretudo realizadores, directores de fotografia, câmaras...

- Por princípio?
- Os actores falam muito da profissão. Chateiam-me.

- Nunca entrou num filme sobre desporto. Porquê?
- Nunca calhou. Mas nos do Joaquim Leitão há sempre cenas em que tenho de fazer de adepto do Sporting. Ele faz de propósito, porque sabe o benfiquista que eu sou...

- Custa-lhe assim tanto entrar nesse personagem?
- Um bocadinho mas tudo bem, é trabalho. E uma vez - agora me recordo - estive quase para entrar numa série nos EUA, do Robert Rodrigues, que envolvia futebol. Mas depois achei que não fazia muito sentido.

- Como era?
- Era sobre um polícia que se infiltrava no futebol - no soccer, portanto - para investigar a corrupção do dono da equipa. Mas era um polícia já com 25 anos que de repente começava a jogar... Achei irrealista, os jogadores começam desde miúdos. E quem o ensinava era uma jogadora de futebol feminino, que tinha mais experiência.

- A verdade é que nos EUA a equipa de futebol com títulos mundiais e medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos é a feminina...
- Sim, tudo bem, mas entrar numa equipa com 25 anos era impossível, não fazia sentido.

- Não há muitos filmes bons sobre futebol, se pensarmos bem...
- Tem razão. Olhe, sou amigo do Ron Shelton, que fez muitos filmes ligados a desporto, o 'White Man Can't Jump' e o 'Bull Durham', com Kevin Costner, filmes sobre basquetebol e basebol. E ele fez também filmes sobre pugilismo - nesse tema há muitos claro. Mas futebol, realmente, nem por isso.

- Vi há pouco tempo o Dammed United, sobre a passagem efémera do Brian Clough pelo Leeds, antes de rumar ao Nottingham Forest para ser bicampeão europeu. Muito interessante. A propósito de Nottingham Forest e os fenómenos desportivos, acompanhou com certeza a vitória do Leicester na liga inglesa.
- Claro que sim. Nos EUA, em LA, não consigo ver muitos jogos do campeonato português. E não me interessa, confesso. Lá vejo as ligas inglesas, espanhola, sobretudo. E o Benfica na Champions. De resto, sigo o Benfica pela Net. E vou ver os jogos quando estou em Portugal. Mas a liga inglesa, com competição, é a mais excitante de todas.

- A casa do Benfica mais próxima é em São José, ainda na Califórnia mas mais próxima de São Francisco. Não lhe fica em caminho...
- É longe. Mas, mesmo à distância, o benfiquismo, não esmorece.  Um homem não muda de Clube.

- Falávamos do Leicester como fenómeno europeu mas nos EUA, pela forma como o desporto se organiza - com franchises, drafts, tectos salariais -, a alternância de ciclos é quase regra...
- Está tudo organizado para o espectáculo. Quando se sabe quem ganha não é tão espectacular. No desporto dos EUA nada parece tão emocional do ponto de vista de quem organiza as provas. O que se quer é espectáculo. O que se torna pessoal e emotivo são as histórias, os símbolos, os jogadores. Agora vive-se muito a história do, o melhor de todos, como se chama...

- O Steph Curry?
- Não, não - como é possível esquecer o nome? -, o dos Cavs!

- O LeBron.
- O LeBron James, claro, que depois de Miami voltou para a terra dele e isso está a ser vivido com emoção por quem gosta dos Cavs. Mas na organização tudo é feito para não haver desigualdades. No enquadramento do futebol europeu o que o Leicester fez é heróico. E o clube vai ficar rico.

- Escrevia há duas o Wall Street Journal que em 2018 o Leicester, com o dinheiro da Champions e das transmissões televisivas, vai estar entre os 20 mais ricos do Mundo.
- A sério? Impressionante. Nos EUA o soccer também está a ganhar força.

- Soccer? Já corre o risco de começar a chamar soccer ao futebol?
- Lá tenho de chamar...

- Vive em Santa Mónica, na Califórnia. Acompanha alguma equipa da cidade? Ou de Los Angeles?
- Já fui ver os Lakers. Mas este ano estiveram mal. E LA vai voltar a ter um franchise de futebol americano, o que é entusiasmante. Passarei, pela lógica, a torcer um pouco por essa equipa também. E de vez  em quando acompanho as finais dos Kings no hóquei no gelo. No basebol gosto dos Angels e dos Dogders - estes já foram de Broollin, o que é estranho. Mas no basebol, na verdade, continuo fã dos Giants e dos Jets, de Nova Iorque. Quando fui para os EUA vivi 27 anos na cidade e não esqueço isso.

- No futebol o LA Galaxy não lhe diz nada?
- Não. Mas o clube é gigantesco. E não só esse. Os estádios andam sempre cheios. Cada vez mais. É incrível o crescimento e o investimento.

- Santa Mónica tem uma lendária comunidade surfista e é também um berço do skateboarding. Nunca se deixou influenciar por actividades radicais?
- Nem por isso, confesso. Gosto de sol, da praia, do clima. Só isso.

- Quando o Abel Xavier jogou em LA chegou a cruzar-se com ele?
- Claro. Quando ele chegou e combinámos o primeiro almoço eu disse-lhe que vivia em Santa Mónica e ele quis ir ter comigo. Primeiro enganou-se no caminho; tive de ficar à espera de o ver na estrada, mas estava com receio de não dar por ele no meio do trânsito... Que ingenuidade minha... Era impossível não ver chegar o Abel Xavier com aquele cabelo amarelo num Bentley branco de estofos vermelhos. Jantámos uma vez vezes num restaurante italiano em Santa Mónica. É uma pessoa, interessantíssima, muito inteligente. O penteado é estranho, porém. Muito LA, por sinal.

- Tendo nacionalidade norte-americana, imagino que possa votar nos EUA?
- Sim. Estou inscrito no partido democrata. Acho que a Hillary acabará por ascender e ganhar. E as pessoas hoje estão mais conscientes do óptimo trabalho que o Obama fez. Foi um dos melhores.

- Sobretudo ao nível da imagem internacional. Mas persistem problemas internos.
- Mas desculpe: há hoje menos desemprego do que quando ele chegou, o Dow Jones valorizou, a economia está a funcionar outra vez. Disse que tirava militares de cenários de guerra e tirou. Na Síria está a tentar resolver o problema mas não entrou em mais guerras, saiu de guerras! Acontece sempre o contrário com republicanos no poder. O Trump tem piada na televisão mas como presidente deixaria de a ter.

- Choca-o o discurso anti-islâmico, anti-hispânico, anti...
- Antitudo! Claro que fico. Reconheço que ele, por não ser político, fala de maneira que chega a uma classe menos educada. Veremos o que acontece no Midwest quando chegar o tempo das eleições nacionais.

- Esses estados costumam ser decisivos pelas oscilações.
- Sim. Eu nunca esperaria ver Trump chegar tão longe. Acho que, no fim, ele não ganhará, porque alguns republicanos mais conservadores votarão Hillary. E espero até que esta influência de Trump divida os republicanos de maneira a que o Congresso e o Senado tenham maioria democrática.

- Que Obama não teve.
- Ele não fez mais porque não deixaram! Mas deu seguros de saúde a 30 milhões de americanos, agilizou processos de criação de empregos e empresas com incentivos. Ao contrário do que acontece em Portugal -  e sei bem, porque tive negócios e alguns ainda estão em tribunal. Aqui em Portugal, se alguém abre um negócio é para lhe caírem em cima! E se por acaso o negócio correr bem pior ainda! É melhor se o negócio lhe correr mal... Lá o envolvimento é diferente, sobretudo na política. Ainda por cima nós portugueses falamos muito dos outros estereotipamos tudo, como essa ideia dos americanos serem burros em geografia por não saberem onde é Portugal no mapa. Queria ver o português médio localizar os estados dos EUA no mapa... E a maior parte são maiores que Portugal."

Entrevista de Miguel Cardoso Pereira, a Joaquim de Almeida, in A Bola