Últimas indefectivações

sábado, 25 de maio de 2019

Bem-vindo, craque

"Ainda com acne, João Félix joga com a serenidade de um adulto. Ainda que menos esbelto e mais apaixonado, tem um ar de Kaká dos primeiros tempos e não só no aspecto. Gosta de pulular perto da área mas mesmo quando se afasta cheira a perigo. Para as assistências tem um golpe de vista e a suavidade dos 10 clássicos; para o golo, sentido de oportunidade e determinação, que é a confiança em acção. O seu reportório com a bola nos pés é variado e atractivo porque resolve tudo com a naturalidade própria dos craques e, como topo o craque, tem descaramento e brilha mais nas grandes ocasiões. As suas bolas filtradas são delicadas, as suas desmarcações são profundas, as suas aparições na área fantasmagóricas e os seus remates são como machados. Cada machado, cada árvore; o mesmo que dizer: cada uma das suas aparições tem o valor de golo."

Jorge Valdano, in A Bola

As bases de Lage

"Falta tanta cultura de exigência aos portugueses como capacidade para dizer bem e elogiar quem o merece. A inveja e a maledicência falam sempre mais alto Há demasiados homens da política envolvidos nas querelas do futebol e a ‘botar faladura’ naqueles programas ditos desportivos, em que pessoas que até nos habituámos a ver de fato e gravata, cheias de falinhas mansas e polimento, viram bichos e perdem as estribeiras no calor da discussão sobre aquele golo que não devia ter sido validado ou anulado, sobre aquele lance que deu um cartão de uma cor e devia ter sido de outra, sobre o VAR que tinha obrigação de ter visto o que o árbitro não viu.
Não sei se eles já nem se dão conta das figuras que ali fazem ou se são mesmo pagos para fazer aquelas figuras.
A verdade é que até aquele que, há anos, era o troglodita mor desses programas de rescaldo das jornadas futebolísticas resiste ainda num dos inúmeros programas derivados daqueles e já passa como um dos mais toleráveis e tolerantes comentadores.
Porque em matéria de debates sobre o futebol, parece que quanto pior melhor.
Há programas em que os ditos comentadores - incluindo jornalistas que têm dever deontológico de isenção e distanciamento - são do piorio na cegueira clubística e na argumentação, ‘encartilhada’ ou não.
Já chega ou basta de tanto programa de ‘clubite’ aguda e cega. Mas, a avaliar pelas horas e horas que todos os dias as televisões continuam a dedicar a esses programas com tais comentadores, pelos vistos não.
Por isso, é ainda mais extraordinário que tenha sido um homem do futebol a ter vindo dizer que é preciso respeitar os nossos adversários e aprender a reconhecer-lhes o mérito quando ganham se queremos que eles reconheçam o nosso quando somos nós a ganhar.
No momento de celebrar o título de campeão acabado de conquistar e de euforia colectiva, com milhares e milhares de pessoas em delírio a cobrirem de vermelho o Marquês de Pombal e seus principais acessos, é preciso grandeza para dizer aos sócios que o futebol está longe de ser o mais importante das suas vidas e da vida em sociedade.
Sim, porque não é usual, num momento como aquele, falar-lhes de uma cultura de «exigência», e dizer-lhes que tal como adeptos que são e a têm no que se refere ao futebol e ao seu clube, aos seus jogadores, aos seus treinadores e dirigentes, também e sobretudo a devem ter enquanto cidadãos, na sua vida em sociedade, em relação à Economia, à Educação, à Saúde... por um país melhor, porque é possível fazer melhor e «reconquistar os valores de Portugal».
É inusual.
Tão inusual que até parece que o apelo político de Lage desagradou tanto aos políticos como o seu fair play obviamente não agradou aos fanáticos do futebol.
No momento da festa benfiquista, o que tem ele de falar em reconhecer mérito aos adversários quando forem eles a ganhar? Está louco? E despede-se a dar ‘Vivas a Portugal’ quando o que interessa ali, naquele momento, é a ‘nação benfiquista’?
Do que publicamente ouvi aos políticos, mesmo àqueles que não resistem a dar ‘bitaites’ sobre a bola, nenhum verdadeiramente elogiou a intervenção de Bruno Lage: o que tem ele de misturar as coisas e ir para ali falar de política. Um populista. É preciso lata. Só faltou dizer que este tipo de discurso no desporto é um perigo para a democracia.
Os políticos utilizarem o futebol para fazerem política não tem mal nenhum, mas já é um problema se um desportista ousar imiscuir-se na política, sobretudo realçando que, sendo bonito ver compromisso entre adeptos e a sua equipa, o compromisso primeiro deve ser com o que é mais importante para a sociedade e para o país.
Nos últimos dias, e mesmo sabendo que as duas últimas semanas foram de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, o discurso de Lage no Marquês foi talvez o que teve mais substância política. 
Aliás, para amanhã, o apelo político do treinador do Benfica foi muito mais impactante e importante do que aquela quase despercebida campanha de propaganda de apelo ao voto em que o Governo investiu mais de 500 mil euros.
Já agora, e a talhe de foice, os políticos em geral, bem como os editores e a generalidade dos jornalistas, passam a vida a falar da crise da imprensa, da necessidade de se estudarem formas alternativas de aumentar as receitas dos jornais, da obrigação de o Estado começar a pensar em criar subsídios específicos para o sector.
Subsídios para quê? Em vez de falarem e nada fazerem, melhor não seria que dessa campanha publicitária de 500 mil euros uma parte fosse investida em publicidade nos jornais? Não seria mais eficaz a todos os níveis?
Ao que parece, não.
E, porém, os jornais, para bem servirem os seus leitores, fazem notícias e propagam a informação sobre o que vai mudar nos cadernos eleitorais e nas mesas de voto e o que devem fazer os eleitores. No mero cumprimento do dever de informar. A troco de nada. Enfim...
Se ninguém valoriza o que de pedagógico teve o discurso de Lage, se poucos querem mesmo ter um futebol saudável, com menos fanatismos e economicamente muito mais rentável, se a cultura da exigência e de mérito na vida social e política como no futebol é quase uma negação, por que razão a coerência haverá de vingar?
Podemos lá nós dispensar uma boa zaragata, nem que seja por causa de um apito, ou deixar de ter motivos para as queixas do costume ou, simplesmente, para dizer mal do próximo, do mundo e da vida..."

Live and Let Die 🎵

"S/S Benfica 2007/08 Away
Potenciado bastante pelas redes sociais e pela facilidade de acesso à publicação escrita (seja em caixas de comentários de notícias, seja em rubricas de fraco interesse em plataformas independentes do Benfica), tenho a percepção que vivemos uma época de intensa crítica e ódio. Tudo é mau. Tudo é um drama. Tudo é passível de ser criticado e muitas vezes só porque sim. Sendo assim, e numa semana onde surgiram várias opiniões e discussões sobre os prováveis novos equipamentos, trago-vos uma das camisolas alternativas mais odiadas do Benfica:
O cor-de-rosinha não foi fácil de engolir pelos machos do Benfica mas, sinceramente, não considero a camisola mais feia do Benfica. Tem um decote redondo tradicional, o logotipo do patrocinador foi reduzido em relação à época anterior (que tinha um rectângulo PT gigante) e tem um corte elegante. Podia ser melhor se fosse toda rosa ou toda cinzenta? Podia. Mas também a época do Benfica podia ter sido bem melhor, começando, por exemplo, por não ter perdido na minha primeira deslocação a Alvalade na meia final da taça depois de estar a ganhar por 2-0 aos 60 minutos.
É evidente que temos direito a opinião e a criticarmos o que não gostamos. Mas não nos podemos é esquecer de uma coisa: o Benfica é de todos.
É dos que gostam de camisolas rosa. Dos que só admitem o branco nos equipamentos alternativos. É dos que vão de vermelho para a Luz. E dos que vão de camisola alternativa. Ou pura e simplesmente dos que vão com a roupa que lhe apetece e ninguém tem nada a ver com isso!
O Benfica é dos que vão ao Marquês. É dos que não vão por opção. E muito também de quem está longe e queria ir ao Marquês, ao Regedor ou à tasca do Ti Chico por ser o sítio com o qual se identifica mais!
Sejemos fiéis às nossas convicções mas invistamos mais tempo a amar e a desfrutar a nossa vivência que a criticar ou a condenar as cenas dos outros.
Cada um vive o Benfica como quer e como pode. Há espaço para todos, cada um no seu.
E que esse espaço apenas seja invadido por estranhos quando nos abraçamos naquele momento em que o Benfica marca um golo. E depois volta tudo à sua vida normal.
Viva o Benfica!

A título de curiosidade:
* Esta foi a minha camisola nº 11 do Benfica;
* Também tenho este modelo em versão L/S mas das camadas jovens (com os patrocínios Coca-Cola e Sicasal). Tem o número 10 nas costas e foi alegadamente utilizada por Bernardo Silva.
* Foi a primeira camisola que comprei à minha filha mais velha (que nasceu precisamente em 2007); 

Paul McCartney - Live and Let Die
https://open.spotify.com/track/0BlnapfYbgEbTfjtg5tbCT"

Mais uma (duas) para o Come Damião!

Benfica After 90 - Season Wrap Up

A luta perene contra a mutilação da alma

"O Jamor é, no espaço de horas, a festa do futebol no seu estado mais puro e nostálgico

O Estádio Nacional é o último baluarte do futebol romântico em Portugal. Uma obra com 75 anos de existência e milhares de histórias vivenciadas no Vale do Jamor. Da glória à tragédia, da euforia à depressão, da magia ao horror, de tudo se passou naquele coliseu de pedra rugosa desde a sua inauguração em 1944. Uma espécie de memória viva daquilo que fomos e somos enquanto nação, que fomos e somos enquanto povo que (supostamente, já nem sei...) ama o futebol. Curiosamente, uma obra de afirmação do regime, de legitimação do Estado Novo e de um homem que nada percebia nem queria perceber sobre futebol. Zero. O desporto que hoje domina o mundo ultrapassava os limites da sua compreensão, embora essa sua inaptidão não o impedisse de reconhecer a força e a importância do jogo enquanto ferramenta de propaganda política, de controlo colonial e de manipulação de massas. Inspirado no antigo Estádio Olímpico de Berlim, o nosso Estádio Nacional ajuda a perpetuar a lenda de que Salazar era um admirador da estética e da ordem germânica, embora a principal razão para ter sido este o projecto aprovado tenha muito mais a ver com estratégias de poupança do ditador do que com qualquer outra coisa. Os projectos entre os quais Duarte Pacheco se preparava para escolher eram construções de raiz, edificadas em terreno plano, mas quando surgiu a ideia de escavar o estádio na rocha, inseri-lo na paisagem, ao ver os custos muito mais reduzidos Salazar nem hesitou: escave-se então! E não se fala mais nisso!
Para a história a preto e branco - e directamente para o imaginário de quem não sonha que mundo era o mundo antes do nosso 25 de Abril - ficará sempre a crise estudantil de 1969 e a forma como os estudantes clamaram por liberdade. Por direitos. Por democracia. Por cultura. Sinais de um tempo em que as vozes eram mesmo vozes. E eram gritadas! E ouvidas! Não se limitavam a patéticos e inenarráveis posts nas redes sociais. Já a cores, 27 anos mais tarde, o mais inimaginável e macabro episódio - um homicídio presenciado ao vivo por milhares e transmitido na televisão para milhões, tingindo de vermelho-sangue as alvas bancadas do gigante branco. E cobrindo para sempre de vergonha quem permitiu que o derby de 1996 se realizasse naquelas trágicas circunstâncias. Antes e depois, sete décadas e meia de golos, de lágrimas e de emoções fortes. De subidas à Tribuna Presidencial que tanto foram marcadas por aplausos como por cobardes insultos, cobardes ofensas, cobardes agressões e cobardes cobardes, daqueles tão cobardes que fazem do escarro a sua única arma de arremesso. A nata da nata que, amiúde, as derrotas têm o dom de trazer ao de cima nos nossos estádios. Nos acessos pela Praça de Maratona, de tudo um pouco, desde cargas policiais sobre os adeptos a cargas de adeptos sobre os jornalistas. Hoje a caça, amanhã o caçador. É o país que temos. O futebol que temos. E o Jamor que vamos tendo.
Mas o Jamor é também o palco de todos os sonhos de todos os clubes de todos os escalões. É o objectivo por todos sonhado e ambicionado, o tapete onde todos se veem um dia a jogar. É o destino de romarias imensas de adeptos provenientes de toda a parte, é o cenário de repastos bem regados e salutares convívios entre tantas raças, credos, idades e orientações, todos debaixo desse imenso manto que é a tribo do futebol. O Jamor é, no espaço de horas, a festa do futebol no seu estado mais puro e nostálgico. Do plano quase bucólico nas primeiras horas da manhã, ao patamar de saudável loucura que por ali se encontra ao final da tarde e após todas as chuvas coloridas de pirotecnia e confetti. É o exagero do exagero, a hipérbole das emoções e o declínio da modernidade. É acreditar que o jogo ainda se sobrepõe ao negócio e que o povo ainda é mais forte do que o poder corporativo. É a prova-rainha do desporto-rei, o estalo plantado no rosto da sobranceria do futebol nocturno em estádios de luxo, o pó acumulado nas cadeiras que são limpas apenas e só para aquele momento.
O sonho. Sempre o sonho. Por favor não nos matem o sonho... Há 11 anos que a final da Taça não é um clássico entre grandes do futebol português e há 23 anos que não é um derby de Lisboa, ou seja, desde aquela fatídica tarde em que um adepto do Sporting foi assassinado. Tem tido sorte a FPF. Tem tido sorte o país. Porque muito mudou neste quase quarto de século e muito mudou nesta última década. Os espíritos estão perturbados entre os vermelhos e os azuis, entre os verdes e os vermelhos, entre os azuis e os verdes. Os tempos estão perigosos. Os ânimos estão exaltados. Receita explosiva para quem tem de montar uma megaoperação de segurança num estádio com 75 anos e cujos argumentos já não convencem a FIFA nem a UEFA a permitir que ali se realizem jogos internacionais. É esse o maior risco da final deste ano - que nos matem o sonho e inviabilizem para sempre que a final da Taça se mantenha naquela floresta de problemas chamada Jamor, mas que os portugueses amam com todas as forças com que (supostamente, já nem sei...) amam também o futebol. «Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso». Se Fernando Pessoa - que nada percebia de futebol mas tudo sabia da matéria de que são feitos os sonhos - já há 100 anos dominava a temática com mestria, que saibam os adeptos de hoje beber das suas palavras e interiorizar os seus ensinamentos. Por favor não nos matem o sonho... «Eu fundi numa cor una de felicidade a beleza do sonho e a realidade da vida. Por mais que possuamos um sonho nunca se possui um sonho tanto como se possui o lenço que se tem na algibeira, ou, se quisermos, como se possui a nossa própria carne». O sonho é vosso. É nosso. Mas só até ao limite da possibilidade de se possuir um sonho. Não é vosso para matar. É vosso, apenas e só, pelo direito de o sonhar. Por favor não nos matem o sonho..."

Desporto: identidade e multiculturarismo

"Tanto quanto nos foi dado a observar, durante sete anos, para os portugueses que vivem em França o futebol tende a assumir-se como um meio de manter os laços sociais com o país de origem, valorizando-se no seio da sociedade francesa. É um dos raros domínios onde se podem sentir melhores do que os franceses, permitindo, de algum modo, compensar a imagem “pouco atraente” dos portugueses residentes em França.
Nos anos 60/70, muitos portugueses deixaram um país empobrecido dominado por uma ditadura e a braços com uma guerra colonial que mobilizava todos os jovens, entrando em França de forma clandestina (o designado “salto”; ver o filme realizado por Christian Chalonge, “O Salto”, 1967). A maioria partiu das zonas rurais mais pobres do país, tendo-se sujeitado a viver em bairros de lata (“bidonvilles”), como o de Champigny-sur-Marne, e a realizar os trabalhos mais indiferenciados, pouco prestigiantes e mal remunerados.
No contexto histórico da emigração portuguesa, rumo a França, mas não só, os campeonatos internacionais de futebol entre selecções nacionais constituíram, desde cedo, a ligação das comunidades emigradas a Portugal. Com o processo de globalização do futebol e a mediatização em larga escala dos grandes eventos a partir do final dos anos noventa, a juntar ao facto da Selecção portuguesa se ter tornado uma equipa de primeiro plano com presença assídua nos campeonatos, as manifestações de afirmação das comunidades portuguesas emigradas têm vindo a evidenciar-se, como constituiu exemplo as manifestações de apoio durante o Euro 2016. Os bons resultados da Selecção portuguesa em campo, tendem a ser motivo de orgulho nacional, alimentando os sentidos identitários dos portugueses residentes fora do país e seus descendentes, independentemente das nacionalidades adquiridas.
Poder-se-á pensar que esta ligação a Portugal pode ser uma resposta a uma forma de estigmatização sofrida em França. De fato, não se pode negligenciar que, em França, nas sociabilidades dos adolescentes no colégio e no liceu, ou no trabalho, muitos indivíduos são identificados em função do país de origem dos seus pais. Esta identificação assume formas de brincadeiras e de piadas, mais ou menos de mau gosto, sobre a construção civil, as limpezas ou a pilosidade nas mulheres (o filme de Ruben Alves, La Cage Dorée, 2012, retratou muito bem esta realidade dos portugueses em França, sobretudo os da chamada “primeira geração”).
Deste modo, apoiar a Selecção portuguesa, uma equipa que se tornou uma das melhores a nível mundial, permite uma autovalorizarão que se contrapõe ao estigma não raras vezes sentido. A origem portuguesa deixa assim de ser uma desvantagem para se tornar fonte de orgulho, facto que poderá ser accionado a qualquer momento, ainda que não se possa daí retirar nenhuma outra conclusão do que isso mesmo, pois a realidade social mantém-se nos quotidianos, a depender do grau de inserção na sociedade francesa. Porém, durante os campeonatos podem avivar-se os estigmas, embora com maior capacidade de resposta por parte das comunidades minoritárias quando se sentem ofendidas, pois o torneio é entre Estados-nação.
Exemplo desta realidade, foi o caso da adjectivação de “dégueulasse” [ignóbil, revoltante] a Portugal por um jornalista, após o jogo de apuramento para os quartos de final do torneio da Selecção portuguesa, em 2016. Depois do jogo contra a Croácia, realizado no dia 25 de Junho, um jornalista francês do jornal “20 minutes” publicou um artigo no dia seguinte, referindo “Ce Portugal est dégueulasse mais il est en quarts” [este Portugal é ignóbil, mas ele está nos quartos de final]. Levado a título na notícia, esse adjectivo foi considerado ofensivo e provocou fortes reacções da comunidade portuguesa residente em França nas redes sociais, chegando mesmo a registar-se ameaças de morte ao jornalista, o que obrigou o director da redacção a referir que “o nosso jornalista qualificou de forma inapropriada de 'dégueulasse' a prestação da Selecção portuguesa. Mas quando a paixão toca o irracional, o perigo espreita”. O jornalista, autor do artigo, acabaria por pedir desculpa aos portugueses pela escolha do seu título e encerrou a sua conta Twitter. Num outro periódico, o jogo viria mais tarde a ser considerado como “soporífero”, “realista” e “defensivo” (Le Monde, 12/07/2016).
De facto, a multiculturalidade da sociedade francesa tem-se tornado bem evidente quando do acolhimento de grandes eventos de futebol, como foi o caso do Mundial de 1998, em que a França se consagrou campeã mundial com uma Selecção constituída maioritariamente por jogadores franco-descendentes, com especial destaque para o seu capitão Zinedine Zidane, mais conhecido por “Zizou”, o famoso jogador franco-argelino, mas também durante o Europeu de 2016 e o Mundial de 2018.
Importará a este respeito referir que a integração de três jogadores portugueses nascidos em França na Selecção francesa, em 2016, Raphaël Guerreiro, Anthony Lopes e Adrien Silva, não suscitou nenhuma polémica, surgindo aos olhos da comunidade portuguesa como bons exemplos de luso-descendentes de sucesso, bem evidenciado pelo papel de representação da França na sua Selecção nacional."

"Há Vida nas Estrelas" - Um livro de Vítor Serpa

"Neste rápido traçado, acerca do último livro de Vítor Serpa, não deverá estranhar-se que, com os seus juvenilíssimos 67 anos de idade, eu veja nele um dos mais notáveis jornalistas da sua geração e um escritor com lugar de relevo, no contexto da cultura portuguesa. Tenho para mim que o Desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo, o que alguns, numa incompreendida teimosia mental, ainda desconhecem, incluindo uma juventude burguesa avelhentada e “blasé”. E portanto os problemas que a prática desportiva suscita, a diferentes níveis, ficariam, largo tempo, por estudar e esclarecer, sem os registos hermenêuticos de intelectuais militantes, como o Vítor Serpa. Intelectuais militantes? Sim, intelectuais in-conformados, in-submissos, in-quietos, diante dos muitos mortos-em-pé que lideram o nosso desporto, designadamente o nosso futebol. Mortos-em-pé? Sim, sem força, nem saber, para vincar, gravemente, decisivamente, na sua obra, um constante aspirar à verdade desportiva, à transcendência que é movimento intencional em direcção, não ao “ter mais”, mas ao “ser mais”. Vítor Serpa, ao invés, é, hoje, um dos mais puros exemplos de independência crítica que as nossas Letras (onde o jornalismo se integra) podem orgulhar-se. Como José Régio, ele pode clamar, com altivez:
“(…) Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam os meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: “vem por aqui?” (…).
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada”.
Eis o que o Vítor Serpa quer fazer, eis o que o compromete, eis a promessa que tantos escolhos acabará por criar-lhe. Eis, afinal, o segredo do fascínio, da luz cintilante que emanam do seu último livro Há Vida Nas Estrelas (Livros FPF, 2019). E também a causa mais profunda da sua extraordinária capacidade de comunicação. De facto, só quem é livre pode ser libertador…
Este livro começa, com o ousado propósito do seu autor de aceitar como benfazeja a própria adversidade que a sua independência crítica inevitavelmente lhe traz: “Este é um livro de homenagem ao futebol. Portanto, é uma obra que obriga a uma certa coragem do autor e a uma certa firmeza de carácter do leitor. Bem sei que seria mais fácil e expectável ir na enxurrada que leva, de uma vez, o futebol e todo o seu povo. Trata-se, porém, de uma escolha consciente. Se alguém cavar uma trincheira, saibam, pois, que eu decido ficar do lado do futebol. Poderemos não ser muitos, mas trata-se de uma questão de gratidão e de comprometimento com muitas das emoções que também deram sentido à minha vida de quase cinquenta anos de jornalista. Perdoem-me a imodéstia, mas já não tenho idade, nem paciência, para a humildade dos súbditos. Pretendo que este seja um livro realmente necessário, para contar a história do futebol português, nestes últimos cinquenta anos” (p. 5). E encerra assim a sua apresentação: “Não será, garanto, um livro de ajustes de contas, um livro feito de vingança das feridas de guerra que durante todos estes anos também me foram infligidas. É um livro factual, mas intimista. Um livro de retratos de gente famosa. Não está toda a gente. Está quem eu consegui estar mais perto de poder fotografar”. E, porque o actual presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na sua infatigável expressão de palavras contidamente fraternas, é também um adepto do futebol, Vítor Serpa ainda escreve: “A última história é uma homenagem ao adepto. Peguei na figura tutelar do presidente da República, também ele um adepto de futebol e, em especial, da Selecção Nacional. São, como as outras, histórias de vida, histórias reais e inéditas. Achei que era uma boa maneira de terminar este livro, com afecto”. E terminar bem, pois que todo o livro se distingue, pelo brilho das ideias e pela elegância da forma.
No livro Há Vida Nas Estrelas, o seu autor timbra em honrar os laços da solidariedade mais pura, com algumas das figuras maiores do futebol português, mostrando que é nas horas difíceis que melhor se avalia o penhor da amizade e que a sua profissão de jornalista, exercida com ciência e consciência e finura de trato, permite-lhe hoje evocar factos saudosos donde pode visionar-se uma exemplar devoção pelos mais belos valores desportivos e, sobre o mais, humanos. A sua culta inteligência, o seu senso prático, a sua exemplar devoção ao trabalho, a sua lealdade no convívio, o apoio constante da família – fizeram dele um profissional que prima por não preencher a ausência de Deus com a mentira, a balbúrdia e o artifício, como salienta George Steiner, referindo-se a certo jornalismo hodierno. Há nele uma cautela em não aguçar arestas, em encontrar zonas amortecedoras entre antagonismos em liça. E assim Fernando Gomes, Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira, Bruno de Carvalho, Jorge Jesus, José Mourinho, Jorge Mendes, Eusébio, Futre, Maradona, Messi, Cristiano Ronaldo, entre outros mais, são figuras humanas, profundamente humanas, com qualidades e defeitos portanto, mas todos eles estrelas, ou seja, todos eles emitem luz própria, em todos eles é possível encontrar as raízes da especificidade, do progresso do nosso futebol. Mas uma questão de fundo poderá levantar-se ainda, através da leitura deste livro: possuirá o futebol português traços de originalidade, de genialidade tais que nos permitam realmente falar da existência do “futebol português”? Ou descobre-se, no nosso futebol, o fenómeno para que já Eça de Queirós nos alertou, n’Os Maias, que a cultura nos chega de Paris, pelo comboio, embalada em caixotes? Resumo o problema, em poucas palavras: há “futebol português”, ou “futebol em Portugal”? Se me permitem uma resposta, faço minhas as palavras de José Régio: “toda a universalidade depende, em primeira instância da autenticidade das obras e do génio do seu criador, acrescendo ainda que é o português quem não sabe valorizar as suas produções, nem tem oportunidade de o fazer, apesar da existência de grandes génios, na nossa Cultura” (in Maria Manuel Baptista, Estudos – Eduardo Lourenço, Vol. I, Ver o Verso, 2006, p. 37).
Vi jogar, na minha frequência assídua dos campos de futebol lisboeta, na companhia do meu saudoso Pai, alguns verdadeiros talentos do futebol português, tais como: Rogério, Coluna, Germano, António Simões (Benfica); José Travassos, Manuel Vasques, Fernando Peyroteo, Yazalde (Sporting); António Oliveira, Paulo Futre, Pinga, Hernâni (F.C. Porto); Jaime Graça, Emídio Graça, Jacinto João (Vitória de Setúbal). E dois génios que faziam jogadas como um repentino acordar do espírito: Matateu (Belenenses) e Eusébio. Há, aqui jogadores, no seu tempo, recheados de vitalidade, onde esfuziavam os clarões de uma “classe” autêntica, mas não beneficiaram nunca do profissionalismo, no futebol, a medicina desportiva era incipiente e, acima de tudo, vivendo num país desafecto à inovação - que o mesmo é dizer: quase todos eles nunca foram o que poderiam ter sido! Os nomes escolhidos por Vítor Serpa, bem ao contrário, são (ou foram), quase todos, jogadores com remunerações e prémios principescos, tendo a seu favor uma ciência médica de prevenção/reabilitação e das várias “performances desportivas”, que os estudou, investigou e tratou, e renomados juristas que lhes apontaram deveres e defenderam direitos, como é do interesse de qualquer cidadão, numa sociedade democrática. Os demais (presidentes, treinadores e o empresário Jorge Mendes) também são (foram) eles e a sua circunstância – mas, em todos eles, Vítor Serpa descobriu qualidades e defeitos, como em qualquer outro ser humano e… talento! Alguns deles foram mesmo verdadeiramente inovadores. No Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 22 de Maio a 4 de Junho, o meu colega e amigo, Gonçalo M. Tavares, escreve com agrado (e eu sei bem como ele se delicia, com a leitura dos filósofos): “Recebo o calhamaço As Passagens de Paris de Walter Benjamin, traduzido por João Barrento. Mais um dos grandes livros inacabados. Praticamente toda a obra de Benjamin está agora traduzida, um grande acontecimento. Em Benjamin, sempre essa luminosidade acima da média: “O que é verdadeiro não tem janelas. O verdadeiro nunca olha lá para fora, para o universo” (diz Benjamin)”.
No mesmo jornal, colabora o escritor Afonso Cruz: “Não me lembro de viagens que não sejam pessoas ou animais, não me lembro de viagens que não sejam histórias. A viagem, como a vida, é uma cardiognose. Se não bater no peito, vale muito pouco”. Tanto o Gonçalo, como o Afonso, têm como Jano um rosto bifronte: de um lado, um juízo límpido, uma filosofia arrumada do concreto; do outro, o estilo próprio de dois dos melhores narradores atuais de língua portuguesa. O Gonçalo é um racionalista, mas de uma razão que o torna único e diferente, como acontece com a “teoria crítica” em Walter Benjamin. Tão único e tão diferente que o Gonçalo M. Tavares, que tanta gente conhece, eu não sei quem é. Acrescentarei que é um escritor junto de quem nos sentimos inteligentes, por contágio ou patetas, por contraste. O Afonso Cruz é um humanista, com todas as letras. Talvez um renascentista, talvez um discípulo do sofista Protágoras, para quem “o homem é a medida de todas as coisas”. Mas um humanista que sofre de “cardiognose”, quer ele dizer, no meu entender: é principalmente pelas “razões do coração” e não pelas “razões da razão”, que ele manifesta possuir “sabedoria”. Vítor Serpa, entre os jornalistas portugueses que se ocupam (e já se ocuparam) do Desporto, é certamente dos mais significativos. Pelo seu racionalismo, em primeiro lugar. A verdade do que a tradição ensina e a autoridade impõe só deverá tomar-se por verdadeira mesmo, se chegar à consciência, com clareza e distinção. E também pelas suas “razões do coração”. Vítor Serpa é, de facto, um racionalista, mas ao serviço do progresso, da ciência e de um mundo mais fraterno e mais justo. Não há só epistemologia, no seu racionalismo, porque, para ele, como para Levinas, “a ética é a filosofia primeira”. Aliás, a razão respeita, com naturalidade, a filosofia e a própria teologia, quando verifica que é mais do que razão. Há Vida Nas Estrelas, de Vítor Serpa, é um livro que, mais do que lido, deverá ser estudado, designadamente nos cursos superiores de Desporto. Dele desponta documentação fundamental para uma compreensão da história do nosso futebol. É o esquecimento do Passado e não o culto do Passado que nos tornará prisioneiros do Passado. Parabéns ao Vítor Serpa, o seu autor, à Federação Portuguesa de Futebol que o editou e a todos os que o escolherem para uma investigação histórica do futebol português."

37 Presidencial...

Especial...

Benfiquismo (MCXCI)

Grandes...

Quatro memórias de um campeonato

"Este não foi um campeonato qualquer: há uma satisfação redobrada quando se vence o que demos por perdido. Para memória futura, quatro momentos marcantes da reconquista.
A iluminação: depois de um Agosto positivo, os fantasmas da temporada anterior regressaram. Bastaram umas semanas para termos de voltar a uma ideia de jogo em acelerado processo de empobrecimento, à qual se juntou uma política de contratações com muitos erros. Depois, não foi preciso muito para chegar o momento em que o futebol jogado expôs as suas debilidades colectivas. Em Outubro, também por força da ressaca física das pré - eliminatórias da Champions, a equipa parecia ter entregue a época. Entretanto, os equívocos persistiam, com Luís Filipe Vieira, primeiro, a proletar o óbvio (a saída do treinador) e, logo de seguida, a ameaçar com o espectro do regresso inusitado de Jesus, para tudo culminar numa iluminação que transformou o treinador de principal a interino,. Com atraso, em Janeiro, o Benfica entregou a Bruno Lage uma tarefa hérculea: ganhar um campeonato improvável.
A bola do Rafa: a receita do 37 assentou em alterações no sistema de jogo, na colocação dos jogadores certos nas posições certas e numa combinação surpreendente de jovens da formação com jogadores proscritos. O futebol dominante quando a equipa tinha bola (103 golos!) ajuda a explicar a sequência impressionante de vitórias. mesmo a perder, o Benfica passou a ser capaz de ir buscar os resultados. Poucas reviravoltas foram tão importantes como a do Dragão. Na altura, foi muito glosado o modo exuberante como João Félix celebrou o golo do empate, enfrentando de braços cruzados, os adeptos adversários. Mas recuperem a imagem e notem na forma como Rafa, de bola debaixo do braço, vem resgatar Félix, reconduzindo a equipa para o seu meio-campo. No Benfica do passado, alcançado empate, a equipa recuaria linhas, procuraria controlar o jogo e começaria a expor as suas fragilidades sem bola para, num ápice, estar a sofrer. Não foi o que aconteceu. Foi naquela bola do Rafa que se começou a desenhar a reconquista.
A serenidade de Lage: impressiona a cadência pausada como fala e o modo como centra o essencial das suas intervenções no jogo. Este título é mesmo da sua autoria. Na hora da vitória, pediu exigência aos portugueses para além do futebol e disse que é necessário reconhecer o mérito de quem vence. Terá de estar à altura quando um dia perder.
Fomos campeões: já lá vão três dias de felicidade imensa. É altura, portanto, de deixarmos de afirmar, somos campeões. Na verdade, fomos campeões. Agora é preparar o 38."

Melhor que este só o de Trapattoni

"Nunca tinha acontecido uma derrota com tanto estrondo e uma vitória com tanto merecimento. E Bruno Lage merece os maiores elogios

Este foi de todos os títulos do século XXI (com excepção do conseguido com Trapattoni, porque havia uma década sem ganhar) aquele que soube melhor. Melhor porque foi dos mais justos, melhor porque foi conseguido com arbitragens a inclinarem o campeonato desde o início e melhor porque foi contra estratégias torpes a tentarem condicionar fora de campo.
Alguns dos títulos conseguidos por Jorge Jesus tiveram um futebol mais exuberante, mas ganhar um título depois de ter sete pontos de atraso e uma segunda volta impossível pela frente, deixa os adeptos em delírio e os adversários em desespero. Nunca tinha acontecido uma derrota com tanto estrondo e uma vitória com tanto merecimento.
Bruno Lage é destinatário obrigatório da maioria dos elogios quando se falar no 37. A qualidade do seu treino, a simplicidade da sua comunicação, a elegância da sua postura e a grandeza da sua conquista são património apenas seus, para desespero dos reis do azedume e dos imperadores do ódio. Este título tem tanto mais valor quando é alcançado contra o segundo melhor FC Porto dos últimos seis anos, contra um rival muito bem treinado e contra um campeão em título. A nossa alegria é controlada, porque só ganhamos cinco dos últimos seis anos e sabemos que é possível fazer melhor.
O nosso comparativo só é internacional: o Bayern, na Alemanha ou a Juventus em Itália, não ganham sempre, mas ganham quase sempre. O Benfica vai a caminho, com a consciência do muito que ainda falta fazer e a certeza que nada nos será fácil.
Quando Félix saiu para dar lugar a um Jonas a chorar, quando Lage festejou com a camisola de Jaime Graça 37 levantada, quando Rui Costa um a um abraçou e beijou os heróis do campeonato no fim do jogo, todos percebemos que «o futuro tem uma história» porque «só nós sentimos assim».
O nosso amor ao Benfica é tão grande que fica pouco espaço para o ódio, a nossa paixão pelo nosso emblema é tão genuína e autentica que fica pouco espaço para o azedume. Por isto mesmo enquanto milhões festejavam no Marquês e em centenas de outros pontos espalhados pelos cinco continentes, um punhado de caricaturas faziam papel deles mesmos. Para nosso gáudio, o ridículo deles e a diferença de todos."

Sílvio Cervan, in A Bola

Vantagem...

Benfica 89 - 82 Corruptos
21-20, 19-23, 30-23, 19-16

Vitória importante, num momento onde ainda não temos todos os jogadores a 100%...
Fundamental, o jogo do Domingo, para ir com vantagem 'grande' para o jogo 3...

Derrota 'perigosa'!!!

Benfica 3 - 5 Fundão

2.ª derrota da época no tempo regulamentar, 1.ª na Luz, não é fatal, mas fica o aviso... Espero que os penalty's falhados e as bolas nos potes, tenham sido 'gastos' hoje, no Domingo não existe margem de erro...

Campeões!

"O admirável escritor Mário de Carvalho, em tempos, referiu-se ao ego, cuja palavra, «lida na natural direitura, apenas lhe falece um 'c' para não ser 'cego'», explicando, inadvertidamente, a temporada futebolística prestes a findar. Os dirigentes portistas, ofuscados pelo sucesso da época passada, glorificados pelos seus acólitos e nunca perturbados pela comunicação social, julgaram ter encontrado a fórmula perfeita para, senão perpetuar, pelo menos esticar o tal sucesso. E a vida correu-lhe bem: se a competência em campo vacilava, a força fora dele compensava. Mesmo árbitros imunes à magia da supracitada fórmula teriam os seus limites, nem que, para que soçobrassem, fosse necessária uma conversa em centros de treinos.
O ego cresceu, e a cegueira aumentou, iludindo quem, julgando que práticas recicladas reproduzem efeitos iguais, passearia o campeonato e apostaria na Europa. Mas a máquina em campo engasgou-se com experiências tácticas, e os árbitros atingiram o ponto de saturação em Braga. Após essa partida, o FC Porto, até então levado ao colo, viu-se obrigado a andar e, claro, coxeou. Qualquer analista independente o preveria com facilidade caso adivinhasse o fim da permeabilidade dos árbitros à coacção de vária ordem. E houve Benfica, estrutura, Lage, miúdos do Seixal integrados num núcleo de jogadores experientes e, sobretudo, estofo de campeão. Houve demasiado Benfica para tão pouco FC Porto, abandonado a si próprio.
A história do ego ficou por aqui, pois já não é o que lhes dificulta a aceitação do desaire e subsequentes protestos delirantes. Esses provêm da propaganda interna e da habitual tentativa de condicionamento da época seguinte. Continuemos atentos e rumo ao 38!"

João Tomaz, in O Benfica

Sem palavras

"Não tenho muito para vos dizer esta semana. Fiquei sem palavras no sábado passado. Fui engolido pelas emoções da conquista feminina no Jamor e da façanha masculina na Catedral.
Não foi uma época fácil, como todos vocês sabem. Nem para eles (treinadores, jogadores e dirigentes), nem para nós (adeptos e sócios). Tivemos de ouvir muitas mentiras, desaforos e acusações desesperadas. Tivemos de assistir a favores constantes ao adversário, no campo e nos jornais, nos corredores da arbitragem e nas televisões.
Estivemos fora de jogo. Ou, melhor, fomos colocados fora de jogo pelos entendidos do futebol. E recuperámos como nunca se viu. Fomos melhores, mais eficazes e mais concretizadores com uma equipa muito mais portuguesa do que as dos nossos rivais.
E muito mais jovem. Eles podem escavar à procura de argumentos, mas mais facilmente se encontra a factura da viagem de Carlos Calheiros para o Brasil ou o talão da autoestrada para Vigo do que uma mancha na carreira do Benfica de Bruno Lage.
Por estes dias, deve ser muito complicado não ser adepto do Glorioso. Já devem estar fartos de nos ouvir, e de nos ver, mas agora vem a má notícia - para eles. É que cheira-me que não vamos ficar por aqui. Sinto que estamos a caminho da melhor década de sempre da história do SL Benfica a nível nacional. E com a dose certa de fortuna (financeira e do acaso) podemos ir ainda mais longe. Nada mudou, caros benfiquistas. Jogo a jogo, rumo ao 38."

Ricardo Santos, in O Benfica

R3conquis7a

"O campeão voltou. Leu bem, amigo leitor! O campeão voltou! A reconquista está consumada. Eu ainda estou a recuperar da festa. Quem deve andar descontente são os pais dos nossos miúdos: os exames nacionais aí à porta, e a rapaziada distraída em passeatas no topo de um autocarro descapotável noite dentro. Chegaram a casa às 5h da manhã e foram treinar exercícios do teorema de Pitágoras? Rever os resumos do Memorial do Convento? Não acredito. Ao contrário de boa parte dos benfiquistas, nunca deitei a toalha ao chão. Mas reconheço que não sou exemplo a seguir. Para ajudar o leitor a perceber o meu nível de alucinação basta relembrar o ano de 2008, quando estávamos com 16 pontos de atraso para o FCP a seis jornadas do fim, e eu ainda acreditava genuinamente que o Benfica ia ser campeão. Na jornada seguinte, o Estrela da Amadora perdeu 6-0 no Dragão, e o sonho foi assim desfeito. Como há adeptos mais ajuizados do que eu, admito que este título já tenha sido mesmo uma miragem.
O Benfica igualou o seu recorde de golos na Liga e teve a melhor segunda volta da história - em casa dos sete primeiros classificados somou 18 pontos em 18 possíveis. Nos mesmos duelos, o FCP e o SCP conquistaram apenas 7 pontos cada um. Numa volta com Bruno Lage, o Benfica marcou tantos golos (72) como o SCP durante a época inteira e apenas menos dois do que o FCP. 

Isto, à boleia de um grupo de um grupo de adolescentes que não tem idade para tirar carta de pesados, mas teve capacidade para ajudar a conduzir um gigante do tamanho do Benfica. Espero que todos eles fiquem. Nem é pelo futebol, é para quando festejamos o 38 na próxima época poder ser um deles a conduzir o autocarro até ao Marquês."


Pedro Soares, in O Benfica

Sabor especial

"Na hora de festejar o 37, Bruno Lage fez um discurso repleto de desportivismo, apelando ao respeito pelos adversários. Luís Filipe Vieira, título após título, não se cansa de repetir que ganhamos por nós e não contra os outros. Que me perdoe o mister, que me perdoe o presidente. As palavras são bonitas e pedagógicas, mas este título, este em particular, não pode deixar de me fazer recordar o quanto nos fizeram sofrer nos últimos dois anos, com os ataques mais violentos de que há memória no desporto, ou mesmo na sociedade portuguesa. Este título, este em particular, não pode deixar de ser contra todos os que idealizaram, executaram, promoveram e alimentaram esses ataques - que visavam desunir e destruir o nosso clube. E a esses, caro presidente, caro mister, os benfiquistas jamais irão perdoar. Este título é pois um grito contra eles. Percebe-se, pelas declarações de alguns jogadores, que tal sentimento também alimentou o balneário ao longo da época. Também os nossos profissionais sentiram o seu trabalho muitas vezes injustiçado e posto em causa. O que não nos mata torna-nos mais fortes, e o Benfica é demasiado grande para ser desrespeitado. Reagiu como melhor sabe: dentro do campo.
O campeonato agora concluído serve ainda para sedimentar a clara hegemonia benfiquista no futebol português da última década. Não fossem dois pontapés fortuitos em tempo de descontos (2013 e 2018) e estaríamos agora a falar de um Hepta-Campeonato – como a Juventus em Itália, ou o Bayern na Alemanha. Assim são “apenas” cinco títulos em seis anos, ou seis em dez, conforme se preferir. Venha então o 38."

Luís Fialho, in O Benfica

sexta-feira, 24 de maio de 2019

O campeão voltou...

"Continuamos a viver a melhor década da história do Sport Lisboa e Benfica. No último fim de semana, foram conquistados mais três títulos nacionais. Qual máquina trituradora, as épocas vão-se sucedendo, e os títulos, idem. Creio que é caso para dizer que não há museu que aguente este ritmo.
No futebol, foram mais dois. E no hóquei em patins, a nossa extraordinária equipa sénior feminina brindou-nos com mais um. São já sete campeonatos consecutivos, e confesso que, quando me cruzei com o treinador Paulo Almeida, fiquei sem saber o que lhe dizer. O que se diz de original a quem papa títulos época após época? Quem começou esta saga vencedora foi a notável equipa de futebol feminino. Logo no primeiro ano, as nossas Papoilas Saltitantes fizeram-nos vibrar, levando o nome do Glorioso por esse mundo fora.
Mérito total de um plantel muito bem construído e que ambiciona altos voos internos e extremos. A conquista da Taça de Portugal será o primeiro de muitos troféus. Deixo para o fim o melhor - a reconquista. O 37.º título foi obra de todos - adeptos, jogadores, treinadores e dirigentes. Não me lembro de um ano em que tenhamos sofrido tanto, lutado como nunca para estarmos eufóricos. Aquilo que todos considerávamos uma miragem, no início de Janeiro, tornou-se uma realidade em Maio.
O profissionalismo do nosso grupo de trabalho, a dedicação dos nossos dirigentes e, sobretudo, a visão dos administradores da SAD e do presidente, em particular, fizeram a diferença. Com a escolha de Bruno Lage aprendemos uma lição - a solução para os nosso problemas está dentro de nossas casa.
Venha o 38!"

Pedro Guerra, in O Benfica

Maio, Mês do Coração

"Sabemos todos que o Estádio do Sport Lisboa e Benfica, naqueles dias em que o Benfica dá o máximo e os jogadores comem a relva pelo resultado, por ser 'impróprio para cardíacos' como todos costumamos dizer.
São 65000 corações de respiração suspensa prontos a explodir em alegria naquele ambiente fantástico que faz da Luz um inferno vermelho, fumegante e ruidoso. Maio é também um mês especial porque marca o fim da época e o amealhar de títulos como este 37 da reconquista que tanto nos orgulha a todos pelo mérito e resiliência que o Benfica patenteou publicamente. Mas não é desse Maio de emoções nem desses corações em sentido figurado que agora falo. Falo, sim, dos corações verdadeiros, feitos de músculo e vitalidade que nos permitem a todos levar a vida pelo mundo e aproveitar com a melhor qualidade possível esta oportunidade fantástica de passar tantas décadas, por vezes mais de um século, neste planeta extraordinário.
Por vezes, a nossa constituição ou a genética familiar ditam que o coração sofra e fraqueje. Mas muitas vezes, muitas mais que as necessárias, escolhendo estilos de vida completamente errados, somos nós com o nosso comportamento inadequado que determinamos as inevitabilidades cardíacas. Nunca é demais repetir o que já todos sabemos de cor: beber, fumar exercício e por aí fora, em suma, viver desregradamente é uma combinação de factores que conduz incontornavelmente à doença e antecipa a morte a tantos e tantos seres humanos.
Por isso, todos os anos, a Fundação Portuguesa de Cardiologia faz de 'Maio, o Mês do Coração', procurando alertar os portugueses para os riscos cardiovasculares e incentivando a que adoptem estilos de vida mais saudáveis para poderem viver mais e melhor. Por isso, também todos os anos, a Fundação Benfica acolhe esta campanha no estádio em dia de jogo e promove a saúde de algo que todos sabemos que os benfiquistas têm:
Um enorme coração!"

Jorge Miranda, in O Benfica

E a ordem cósmica cumpriu-se

"Da felicidade à euforia, os benfiquistas experimentaram no desafio do último sábado toda a dimensão da distância que medeia entre o sonho e a realidade. Fazendo-se as contas no fim, estava escrito nos astros que, como predizia a sabedoria dos homens, havíamos de vencer. Vencendo-nos, primeiro, a nós próprios, das nossas insuficiências e nas nossas dúvidas, com as quais sempre quisermos e soubemos superar os nossos limites. E, a seguir, ultrapassando os obstáculos que aleatoriamente sempre surgem, de modo inesperado ou nem tanto, no percurso que nos foi dado empreender. Por fim, ganhando, com brio, competência e estilo, as mais difíceis disputadas directas com os nossos adversários.
Estávamos fortes e preparados: sempre nos mantivemos juntos e unidos na adversidade, cada um sempre disponível para todo o esforço de carreira e todos em cada dia mais fortalecidos pelo desempenho conjuntivo que irrevogavelmente nos impelia para o triunfo.
Pela frente, a realidade estendia-nos o caminho que devíamos prosseguir: conhecendo-nos, como ninguém nos conhece, na nossa própria cadência e na capacidade trabalhada que vamos desenvolvendo com humildade e persistência, no íntimo, como sempre, me face dos resultados que fomos alcançando, desenhámos e fomos tornando mais definidos os nossos planos.
A meta estava nítida. Se as contas definitivas se haviam de fazer no fim, bastaria considerar e prever todos os factores próprios que estivessem ao nosso alcance, de modo a dosear devidamente o nosso esforço, ajustando-se sempre à realidade das jornadas que se sucediam. Simples.
Não pensar nos outros, terceiros, cujo rendimento não tinha que nos interessar directamente, senão quando eles o confrontassem face a face com o nosso, fez-nos focar exclusivamente nas nossas próprias tarefas. Cada vez mais nitidamente, concentrámo-nos no nosso próprio objectivo. Esse, para nós, semana a semana, tornava-se mais nítido. E embora a fadiga e a traição física por vezes se viessem insinuar, logo sentíamos o determinante apelo daqueles que nos envolviam: já falta pouco... não podemos fraquejar... afinal, todos juntos, vamos conseguir.
E conseguimos.
Cumpriu-se a ordem cósmica: tínhamos de ser campeões e, como nas anteriores trinta e seis vezes, hoje voltámos a ser campeões. Porque, como nos ensina a História do Benfica, soubemos definir o rumo, soubemos cumpri-lo; e, sobretudo, porque, depois de começarmos por nos superar a nós próprios, todos juntos nos soubemos focar e manter, exclusivamente, naquilo que tínhamos de fazer.
Aí, está, de novo, o Grande Benfica!

José Nuno Martins, in O Benfica

Félix ao vivo...

O que nos distingue

O discurso do rei

"A grande figura do novo campeão sabe que colocou a fasquia muito alta e que, tendo ganho, ganhou também mais responsabilidade

É muito difícil não simpatizar com Bruno Lage, esta figura alta, magra e simples que se evidencia pela discrição, pela serena e aparente genuinidade e pela natureza de um discurso tolerante no meio de tão feroz clima que há muito se instalou no futebol em Portugal sempre que se fala de Benfica, FC Porto e Sporting.
Bruno Lage acaba de ganhar e não podemos, portanto, saber se vai ter a coerência de manter comportamento e discurso quando perder, quanto muito podemos acreditar que sim, sem nos esquecermos, porém, de o termos visto azedo sempre que a coisa deu esta época para o torto, como foi caso do momento em que perdeu em Alvalade e foi eliminado da Taça e quando perdeu em Frankfurt e foi eliminado da Liga Europa.
Ou seja, a ganhar é sempre mais fácil mostrar serenidade, tolerância, compreensão, filosofia, e a perder é bem mais difícil evitar que estale o verniz.
Apesar disso, claro benefício da dúvida a um homem que pode realmente orgulhar-se de ter sido a principal figura do novo Benfica campeão e que surpreendeu, realmente, pelo discurso improvisado, pareceu-me, com que se fez ouvir (e espero que se tenha feito ouvir muito bem) no último dia da competição, que consagrou o Benfica como justo campeão nacional pela quinta vez nos últimos seis anos.
Lage sabe que colocou, assim, a fasquia muito alta e que, por isso, ganhou ainda mais responsabilidade, e veremos na próxima época se se confirmará ou não toda esta filosofia, comportamento e palavras, na que será a verdadeira prova dos novos rostos benfiquistas, a começar por um treinador que parece realmente boa lufada de ar fresco e que merece, pelo que já mostrou, a oportunidade de também ele aprender e crescer como treinador de um grande clube e de uma equipa que se exige grande no espaço competitivo português e ambiciosa e lutadora no espaço internacional.
Pode o Benfica sonhar com o que quiser, mas o que se espera e exige ver na próxima época antes de qualquer sonho é se vai o Benfica de Lage ser capaz de continuar a discutir intensamente todos os títulos nacionais e não ser na Europa o Benfica europeu que foi o tão pequenino Benfica na última época completa de Rui Vitória.
É isso certamente que os benfiquistas esperaram. E é isso que Bruno Lage vai ter que lhes dar!

Este Benfica de Bruno Lage pode na verdade ser reservado para futuro caso de estudo, a começar pelo modo como nesta segunda volta da Liga contrariou toda aquela lógica de muitos treinadores segundo a qual os ataques servem sobretudo para ganhar jogos e as defesas servem sobretudo para ganhar campeonatos, porque o Benfica de Lage foi sempre muito mais ataque do que alguma vez foi defesa e mesmo assim fez o que fez, ganhando o campeonato claramente a atacar muitas vezes (e avassaladoramente) bem e a defender muitas vezes (e precariamente) mal. Tão depressa dominando, como sendo dominado.
Ocorre-me, aliás, comparar o futebol deste Benfica de Bruno Lage com os sobressaltos de uma montanha-russa, porque em muitos jogos o Benfica tão depressa esteve por baixo como depois apareceu por cima, numa espécie de jogo bipolar que acabou, pelo talento, fúria e movimentos atacantes, por ser capaz de uma segunda volta verdadeiramente notável e uma sequência de resultados esmagadores que há muito não se via mesmo numa Liga tão desequilibrada como é a Liga portuguesa.
Poucas vezes conseguiu, porém, o Benfica ser na realidade uma equipa consistente e equilibrada, sobretudo depois de ter perdido Gabriel, que se revelou pela mão de Lage um indispensável, que impedia a equipa de cair muito para um lado ou para o outro, e, ao mesmo tempo, era uma dor de cabeça para o adversário com aqueles passes de rotura, como os treinadores tanto gostam de chamar, capazes de criar surpreendentes e súbitas oportunidades de ataque.
Sem Gabriel, o Benfica ficou um degrau abaixo na capacidade de ser mais consistente. Perdeu experiência e qualidade de passe e ficou, por isso, uma equipa mais vulnerável. Se lhe juntarmos a pressão que foi sendo cada vez maior de jogo para jogo e a juventude e imaturidade de jogadores como Ferro e Florentino, podemos evidentemente encontrar algumas razões para o jogo ora tão fulgurante ora tão descartado deste Benfica que Lage reconstruiu em quatro meses e em quatro meses conseguiu, honra lhe seja feita, dar ao Benfica um título que há quatro meses era verdadeiramente miragem e se tornou confessadamente, no fim, e todos percebemos porquê, num dos mais saborosos de que haverá memória na Luz.

Expôs a mais mediática claque organizada do FC Porto no último jogo do campeonato, no Estádio do Dragão, um gigantesco pano com a irónica e provocadora imagem de uma equipa de futebol que titulou de campeão nacional, formada por alguns árbitros da 1.ª categoria do futebol português, mais a figura do primeiro-ministro, ainda a figura de uma juíza de Direito, e, por fim, a de um alegado empresário de futebol, que a mais mediática claque organizada do FC Porto considerará serem figuras que, por diferentes razões, beneficiaram esta época o Benfica, alegadamente ao ponto de o terem ajudado a ser campeão nacional de futebol.
Se não fosse para levar a sério, o que a mais mediática claque organizada do FC Porto só podia e devia realmente dar alguma vontade de rir. Mas não pode. Porque o que foi feito deve ser levado suficientemente para merecer um castigo exemplar, na medida em que só pode ter sido feito com a autorização dos verdadeiros responsáveis do clube.
Podem as claques, do FC Porto ou de qualquer outro clube, brincar com o que quiserem. Mas não podem nem devem brincar com a seriedade dos outros. E muito menos com a contemplação (e evidente concordância), sublinho, dos verdadeiros responsáveis de uma instituição com a dimensão, o peso e o impacto nacional e internacional do FC Porto.
Liberdade de expressão não é ofender a dignidade e a honra dos que são livres.
(...)"

João Bonzinho, in A Bola

João Félix? “Há conversas, mas não chegou nenhuma oferta ao Benfica”

"João Félix só sai pela cláusula de rescisão de 120 milhões, garante Domingos Soares de Oliveira, CEO do Benfica, ao ECO24. Mas diz que a "venda de jogadores continua a fazer parte do negócio". 

Depois de estar a sete pontos da liderança, o Benfica conseguiu recuperar. Com Bruno Lage ao comando, os encarnados acabaram por conquistar o título de campeões nacionais, o 37.º da história do clube. Um sucesso desportivo para o qual contribuiu, entre outros, João Félix, uma jovem promessa vinda do Seixal. A nova estrela da Luz está a ser cobiçada, mas Domingos Soares de Oliveira diz que a SAD vai tentar mantê-lo. “Se não aparecer ninguém a bater a cláusula de 120, que batam 100 ou 90 ou 80, o jogador fica”, diz em entrevista ao ECO24, o programa do ECO com a TVI24.
A conquista do campeonato, que abre a porta à Liga dos Campeões, vem dar maior conforto à SAD, permitindo-lhe evitar vender jogadores titulares, como é o caso de João Félix, embora a “venda de jogadores continue a fazer parte do negócio”. O acesso à Champions, diz o administrador financeiro da SAD do Benfica, “faz toda a diferença” no orçamento ao garantir um valor extra de 50 a 60 milhões de euros. Mas também ajuda na projecção do Benfica lá fora, essencial para fechar o naming do Estádio da Luz.
Na entrevista, a primeira depois do título, Domingos Soares de Oliveira sublinha também que os sucessos desportivos permitem ao Benfica estar, agora, numa situação financeira muito mais sólida, que ajuda no processo de financiamento da SAD. Prova disso têm sido as sucessivas emissões de obrigações para pequenos investidores, que têm registado enorme procura. As obrigações de retalho permitiram ao Benfica praticamente já não ter dívida bancária. “A nossa dívida bancária é de cerca de 13/14 milhões de euros, não ultrapassa isso”, diz o administrador executivo da SAD, lamentando “não poder continuar a trabalhar com a banca” devido às “regras mais apertadas” do sector.

O Benfica precisa de vender jogadores ou os atletas só saem com a cláusula de rescisão?
São duas perguntas que não estão ligadas entre si. O Benfica tem hoje uma situação económica muito mais robusta do que já teve no passado, mas mesmo assim a venda de jogadores continua a fazer parte do negócio. Não significa que tenham de ser jogadores titulares, nós este ano sinalizamos aquilo que foram as vendas do Benfica ao longo do ano, não houve nenhum titular que tivesse saído e no entanto temos um volume de negócios com venda de jogadores ainda significativo.
Segundo aspecto que se coloca é: “só saem pelo valor da cláusula de rescisão?” Sim, em princípio essa é a regra, mas digamos quando um jogador é considerado excedentário evidentemente que a cláusula de rescisão não se aplica. Tem sido essa a regra que temos aplicado nas ultimas transacções. 

Mas nos jogadores que são titulares a cláusula de rescisão é sempre para cumprir?
É aquilo que procuramos fazer. Hoje a necessidade de venda dos jogadores é completamente diferente daquilo que era no passado, pelas razões que expliquei. Se algum jogador sair, daqueles que são titulares, o objectivo é que efectivamente apareça alguém que bata a cláusula de rescisão. No entanto, este ano preferíamos que isso não acontecesse. Com sinceridade, naquilo que é a preparação da próxima época, o nosso grande objectivo é manter o plantel.

Portanto, se aparecer um clube que dê 100 milhões de euros pelo João Félix, o Benfica não vende?
Se aparecer um clube que não bata a cláusula a intenção é não vender.

O que é que determina a decisão definitiva de venda ou não abaixo da cláusula de rescisão? Faz sentido, para a realidade económica e financeira em Portugal e do Benfica, haver uma oferta de 100 milhões de euros e não vender um jogador de futebol?
Sei que é difícil as pessoas entenderem isto, 100 milhões de euros é muito dinheiro. Nunca houve vendas de 100 milhões de euros de um único jogador em Portugal. Agora, o nosso objectivo principal, à data de hoje, é ganhar no relvado. Tudo o que tivermos de fazer para manter os jogadores que nos permitam ter mais condições de ganhar no relvado vamos fazê-lo. Já houve anos, há alguns anos, em que a situação económica era mais débil e, portanto, a necessidade de vender os jogadores que eram titulares era uma necessidade efectiva. Hoje, a situação é diferente. Portanto, se a cláusula de rescisão é de 120 milhões, se não aparecer ninguém a bater a cláusula de 120, que batam 100 ou 90 ou 80, o jogador fica.

Isso inclui ou não a comissão de transferência para os empresários?
As comissões de transferência são algo que é tratado quando os jogadores fazem os seus contratos iniciais ou quando fazem renovação dos contratos. Não há um aumento. O caso do João Félix é um exemplo. Tinha uma cláusula de rescisão muito mais baixa. Quando conseguimos mexer na cláusula de rescisão e passá-la para um valor superior, existem normalmente várias coisas a acontecer. Uma é a revisão do salário. Um jogador aos 19 e aos 20 anos tem de acompanhar. Quando fazemos as revisões [de contrato], o trabalho de um empresário torna-se muito mais difícil. É fácil vender um jogador por 25 ou 30 milhões de euros, mas é muito mais difícil vender por 100 ou 120 milhões.
É normalmente no processo das renovações dos contratos que se define qual pode ser a cláusula de rescisão, qual pode ser a comissão que um agente tem relativamente a uma futura transacção. Evidentemente, a defesa do Benfica não está naquilo que paga o agente, está muito mais em colocar a cláusula num valor suficientemente atractivo para nós e desinteressante para quem esteja de fora. 

Chegou a falar-se na possibilidade de uma revisão desta cláusula de João Félix. Gostaria de poder rever o contrato e a cláusula de rescisão?
Essa decisão é essencialmente tomada pelo conselho de administração e pelo presidente em particular.

Pelo conselho ou pelo presidente?
O presidente é quem faz a sugestão, a decisão final é sempre aprovada pelo conselho. E eu sei que o presidente teve efectivamente, e creio que ainda tem, a intenção de fazer essa revisão da cláusula de rescisão. Agora vou apelar à outra parte, que é o agente, o jogador, a família do jogador, que dirá se aceita ou não aceita essa revisão.
É difícil dizer o que vai acontecer. O que o presidente disse na altura foi: “Tem uma cláusula de rescisão, tem um contrato por mais cinco anos”, portanto, neste momento, o que temos é uma situação que nos mantém confortáveis. Olhando ao potencial do jogador, se acreditamos que efectivamente o jogador pode subir significativamente o seu valor, vamos provavelmente antecipar uma subida dessa cláusula de rescisão, desde que consigamos chegar a acordo com o jogador.

Já houve algum clube a apresentar uma oferta concreta ao Benfica por João Félix?
Não chegou nenhuma oferta ao Benfica. Há conversas, há rumores, há algumas informações que até temos por via do jornal, de clubes que estão interessados. É verdade que, nas reuniões internacionais, a grande maioria dos clubes mais importantes da Europa pergunta pelo João Félix, todos têm uma expectativa relativamente ao João Félix, mas do ponto de vista objectivo, até à data, não chegou nenhuma proposta ao Benfica.

A revisão salarial de João Félix inflacionou o orçamento do Benfica?
Temos uma clara noção que os valores dos salários estão a crescer a taxas de dois dígitos no plantel. Evidentemente que se o jogador é mais novo, é natural que ele duplique ou triplique o seu salário. Num jogador mais velho é natural que o crescimento seja menos acentuado do ponto de vista de percentagem, mas aquilo que se vê em toda a Europa são crescimentos salariais significativos. Põe-se sempre a questão: como é que eu consigo reter este jogador? Não é por ele ter uma cláusula e ter um salário muito baixo que vou conseguir retê-lo. Já tive situações dessas no passado em que tivemos que vender porque o jogador, lá fora, ia ganhar três, quatro, cinco vezes mais.

Forçam a saída?
Eles não forçam a saída, mas percebe-se o desgaste que têm. Percebe-se a pressão. Não funciona. Portanto, a nossa regra hoje é comprar menos, o que significa de alguma forma reduzir o montante das amortizações que temos de fazer e o montante do investimento que temos de fazer, concentrar o maior esforço do ponto de vista do aumento da carga salarial, e continuar a ter as contas equilibradas como temos tido até agora.

Ainda assim, há uma parte do orçamento que acaba por advir das transferências. Na época que vai começar, qual é o montante de transferências que precisa de acumular para cumprir esse orçamento? 
Não costumamos divulgar esse número. É um montante reduzido. Como vamos ter a entrada directa na Liga dos Campeões, é evidente que o orçamento deste ano é preparado com muito mais conforto que o orçamento do ano passado, [porque] quando arrancamos o ano não tínhamos a certeza se íamos estar na Champions ou não. A Champions faz toda a diferença neste processo.

Quais são os valores directos?
Do ponto de vista de entrada directa na fase de grupos, é de cerca de 42 milhões de euros, mas na prática uma fase de grupos da Champions dá-nos sempre qualquer coisa perto dos 60 milhões de euros. É uma diferença significativa entre estar ou não estar. Se, em vez de estarmos na Champions, estivermos na Liga Europa os montantes baixam para 20% disso, se tanto.

50 ou 60 milhões é já uma parte muito significativa do orçamento, por exemplo do orçamento que o Benfica está agora a executar e que termina no final do Junho…
…estamos a fechar o exercício do ano, vamos fechar o exercício sem vendas de jogadores com um valor próximo de 200 milhões de euros. Sem receitas operacionais, sem qualquer transacção de jogadores. E com transacções de jogadores, se não houver nenhuma surpresa até ao final do ano, ou seja se não houver nenhuma venda relevante, o valor deve ser 250 ou 280 milhões de euros. Se considerarmos que 50 milhões – este ano é cerca de 58 milhões de euros – vem das competições europeias… As competições europeias, à semelhança dos direitos televisivos, são as duas principais componentes do ponto de vista das receitas. E são one shot, ou seja, ou estou ou não estou. Não é venda de merchandising, não é venda de bilhética que é um trabalho diário. Aqui, ou se conseguiu ou não se conseguiu.

Quanto é que vale a vitória no campeonato? Por exemplo, nos torneios…
Isso é a parte indirecta. A parte directa é que todos os contratos de patrocínio têm um prémio por sermos campeões, portanto, por aí vai-se buscar mais alguma coisa. Não é aquilo que faz a diferença, mas vai-se buscar mais qualquer coisa. Do ponto de vista de vendas de merchandising, a primeira semana a seguir a ganharmos um título é uma semana em que as vendas disparam cinco ou seis vezes, é uma semana em que podemos estar a fazer um milhão de euros em merchandising enquanto o nosso orçamento de merchandising é de cerca 13 ou 14 milhões de euros. Há um conjunto de itens que crescem significativamente. Mas o maior benefício é claramente o acesso à Champions.

Esta vitória no campeonato e o acesso à Champions vão acelerar o processo de naming do estádio? 
Não. O processo de naming do estádio está a ser discutido há muito tempo e antes do final do ano não haverá novidades, mas haverá muitas reuniões com parceiros que têm vindo a aprofundar aquilo que é o naming do estádio. Nós defendemos muito o patrocínio internacional, mais do que o patrocínio nacional. Os montantes de que estamos a falar tornam necessário que sejam empresas internacionais. A expectativa de um patrocinador é saber qual é a exposição do Benfica fora do mercado português. O mercado português, per si, não justifica o contrato de naming.
Aquilo que discutimos com a Emirates, com a Heineken, com a Adidas é: “qual é a visibilidade do Benfica”. Para isso, contam os jogos europeus que fazemos. Este ano, existe uma situação que pode mudar drasticamente: Actualmente, na fase de grupos faz-se seis jogos e nas perspectivas da UEFA para o pós-2024 existe uma estimativa mínima de 14 jogos na Champions. Existem os torneios internacionais que fazemos nos Estados Unidos que são muito importantes do ponto de vista de visibilidade de marca, porque são com o Real Madrid, Barcelona, Juventus. São 24 clubes de topo da Europa que, de alguma forma, expõem a sua marca. É quando temos os jogos fora que existe a exposição da marca em termos de camisola. O estádio tem esse atractivo para as empresas que tenham actividade em Portugal, mas que consigam tirar um beneficio que não seja apenas para o mercado português.

Sobre o naming do estádio, vamos ter novidades em Janeiro ou Fevereiro do próximo ano?
Não sei se vamos ter. Temos propostas… acredito que existem condições para fechar essas propostas durante os próximos meses, mas sou sempre cauteloso porque não queremos criar falsas expectativas.

O que é que atrasa o processo? É a identidade do Benfica? Não expor o estádio a uma marca? Ou é o facto de não ter sido oferecido dinheiro suficiente?
Não temos nenhuma objecção a associar o estádio a uma marca. Resistência do lado do Benfica não existe, mas não pode haver uma perspectiva em que as pessoas se vão deixar de referir ao estádio como Estádio da Luz. Haverá uma marca associada, mas é natural que as pessoas continuem a falar do Estádio da Luz.
No entanto, é possível associar a marca a um conjunto de negócios, em termos nacionais e internacionais, que permita rentabilizar a marca. Por isso é que digo que as marcas portuguesas não o conseguem fazer. E nós tivemos discussões com algumas marcas portuguesas e com outras internacionais e os montantes que alcançámos do ponto de vista de possível negócio são diferentes entre aquilo que oferecem e o que pretendemos. Mas há condições. Provavelmente nós ajustamos ligeiramente em baixa aquilo que é a nossa expectativa de valor, e o potencial patrocinador ajustar em alta aquilo que tem sido as propostas até agora.

É possível dar uma noção de valores?
Temos sempre apontado para um valor de cinco milhões de euros por ano. Estes contratos têm de ser de longa duração, a oito ou a dez anos.

Disse que começa esta época mais confortável. Quer dizer que o Benfica vai gastar mais? Recordo dois pontos, na emissão de obrigações assumiu o compromisso de aumentar os capitais próprios do Benfica e conter os gastos operacionais, isto é, não inflacionar orçamentos, nomeadamente com salários de jogadores. Como é que isso é compatível para ter uma equipa competitiva?
As receitas no mundo do desporto crescem sempre, não para todos os clubes, mas para a maioria e é o nosso caso. Este ano, temos um crescimento de receitas operacionais de 25%, e é uma época em que não fizemos nada de espectacular em termos de competições europeias porque saímos da Champions e fizemos depois até aos quartos-de-final na Liga Europa. Existe uma tendência neste momento no mundo do futebol que é de permanente crescimento das receitas. Na maior parte dos casos, temos receitas que estão de alguma forma contidas. Por exemplo, o contrato de direitos televisivos está fechado para os próximos anos, mas do ponto de vista de receita de bilhética, à medida que vai havendo maior escassez do ponto de vista de disponibilidade, e este ano já tivemos oito jogos em que não tínhamos mais bilhetes para vender. Naturalmente o produto mais escasso permite-nos crescer o valor, isto é válido para empresas e é valido para os particulares.
No caso das competições europeias aquilo que se nota é que de ano para ano as receitas sobem significativamente. Não é de ano para ano mas nos ciclos 2018/2021 e agora 2021/2024. Há sempre um crescimento de receitas. Portanto, contenção de custos operacionais sim, desde que isso não ponha em causa a qualidade do plantel e desde que isso seja acompanhado de um crescimento das receitas como temos tido.

A contenção é admitir crescimento abaixo desse aumento das receitas ou é manter o nível de despesa que tem hoje?
É admitir o crescimento. Claramente vamos ter um crescimento, creio que é expectável que todos os anos tenhamos um crescimento para reter o talento. Portanto, vai haver crescimento, tenho é de conseguir acompanhar um crescimento desses custos operacionais com o crescimento das receitas. 

Uma futura Liga Europeia seria bem recebida no sentido de mais facilmente poder aumentar as despesas porque as receitas serão muito maiores?
Uma futura Liga Europeia, seja ela fechada ou não — porque no fundo falou-se durante muitos anos numa Super Liga e agora fala-se de uma competição diferente, com muitos mais jogos europeus, mas que não é uma competição fechada –, é um modelo para equipas como o Benfica e, provavelmente, para outras equipas com o estatuto do Benfica, é um modelo favorável. Naturalmente que, se em vez de seis jogos, numa fase de grupos disputamos 14, o incremento de receitas é um incremento significativo.
Um desafio que se coloca é: como é que o Benfica garante estar nesse patamar das melhores 32 equipas europeias? Até agora, do ponto de vista de ranking, estamos nesse patamar e até já estivemos melhor. Do ponto de vista de receitas também. Temos conseguido aguentar-nos dentro dos 30 maiores, mesmo com os crescimentos disparatados do valor dos direitos televisivos em Inglaterra, nós conseguimos manter-nos ali dentro dos 25/30 primeiros.

Portanto, estão no limiar…
Estamos sempre ali num limite… Eu até diria que as boas notícias são que apesar de estarmos sempre no limiar dos 30 maiores, do ponto de vista de ranking desportivo estamos sempre muito melhor do que isso. Ou seja, com o mesmo dinheiro conseguimos fazer melhor do ponto de vista desportivo em termos de competições europeias. Mas temos de manter isso. Vai ser necessário continuar a investir, vai ser necessário que o modelo que desenvolvemos do ponto de vista de potenciar os jogadores que sejam oriundos da formação continue a produzir bons resultados. Só assim é que conseguimos. Porque se apostarmos num modelo — há outros clubes que apostam — de comprar e comprar e, na prática, não desenvolver talento internamente, os custos vão disparar. E isso é um modelo, por exemplo, nos clubes ingleses é óbvio porque é preciso rendimento imediato. Nós precisamos de rendimento imediato do ponto de vista desportivo em termos nacionais, em termos europeus podemos preparar um ciclo completamente diferente, coisa que nas outras ligas é muito mais difícil. Daí o sucesso de termos integrado uma série de jogadores da formação com jogadores que sejam jogadores já com experiência.

E é fulcral estar nesse espaço de referência europeu para poder manter a hegemonia do futebol português?
É fulcral estar no espaço europeu, sem dúvida. E penso que o nosso projecto tem de ser um projecto em que olhamos para os nossos concorrentes como os clubes que estão ao nível mais alto da Europa. 

Isso não é só discurso de retórica? Um clube português pode aspirar isso?
Se olharmos para aquilo que está a acontecer nas competições europeias, por exemplo, os dois clubes que vão disputar a final da Champions este ano, nenhum foi campeão, que é uma coisa desde logo estranha.

Mas é um caso atípico, não?
Não é bem um caso atípico. Porque, efectivamente, aquilo que acontece é um poderio das cinco ligas principais que eles têm tanto dinheiro que qualquer uma delas pode chegar às finais e esse poderio é muito diferente do nosso. Se eu consigo fazer crescer as minhas receitas até 300 milhões, e posso estar satisfeito de chegar a esse valor dada a dimensão do nosso mercado, qualquer um dos clubes grandes vai, provavelmente, ter receitas completamente diferentes.
Outra coisa é que nas competições europeias, na fase de grupos, é preciso manter-nos na fase de grupos e ultrapassá-la de forma positiva. E, a partir daí, são três ou quatro jogos em que as coisas podem correr bem. Foi o que aconteceu ao Ajax. O orçamento do Ajax não tem nada a ver com o orçamento do Real Madrid.

Mas é fulcral estar nos oitavos de final?
É fulcral estar nos oitavos de final e, a partir do momento em que se entra nos oitavos de final, qualquer coisa pode acontecer. É verdade que o último clube a vencer uma Champions, no modelo actual, que não fosse a união dos cinco grandes países, foi o Porto em 2004.

E essa presença, nesse enquadramento europeu que tem uma visibilidade económica total diferente, muito maior, é um seguro de garantia para o domínio do futebol português? Consegue-se ganhar em Portugal sem ter estado na Europa?
Creio que não. Creio que isso é impossível. Ou seja, a diferença entre grandes e pequenos, seja em Portugal, seja no modelo europeu, é uma diferença que vai sempre existir. Eu posso ambicionar ter as receitas do Real Madrid em direitos televisivos, mas o meu mercado é o que é e eu tenho que me “contentar” com aquilo que tenho. E, em termos nacionais, a desproporção de orçamentos é muito grande mesmo sem os direitos televisivos, seja daquilo que se vai buscar em termos nacionais ou internacionais.
E os clubes mais pequenos da Liga portuguesa, são clubes que se veem atrapalhados para conseguir chegar a quatro ou cinco milhões de euros em termos de receita. Conseguem ter os direitos televisivos com o contrato que têm e pouco mais. O nosso campeonato, também desse ponto de vista, é completamente desequilibrado.

O Benfica acabou de fazer uma emissão de obrigações que correu muito bem. Tendo em conta o quadro que nos traça, porque é que ao mesmo tempo o Benfica teve de antecipar receitas dos direitos televisivos da Nos de 2022 e 2023?
Mais uma vez, as coisas não são coincidentes. Ou seja, primeiro fizemos essa cedência de créditos da Nos para reembolsar os 50 milhões que tinham origem num anterior empréstimo obrigacionista. Portanto, ao contrário de outras operações, em que o reembolso só era feito depois da emissão, neste caso fizemos primeiro o reembolso e depois lançamos a nova emissão, portanto, reembolsamos esses 50 milhões.

Com essa venda de créditos antecipada?
Com essa venda de créditos. As taxas que conseguimos neste novo empréstimo obrigacionista foram muito interessantes, portanto justificava-se fazer esta operação. Com a nova emissão obrigacionista, na realidade o que fomos buscar de dinheiro fresco foram 28 milhões, claramente uma redução do que tínhamos nos anteriores em termos de empréstimos obrigacionistas. Portanto, as duas operações justificam-se.

De alguma forma estenderam o pagamento dessa dívida aos obrigacionistas, a quem investiu. Está a valer a pena, mesmo com taxas baixas mas, ainda assim, mais altas do que as da banca, trocar a dívida bancária por este tipo de dívida de obrigações?
Nós praticamente já não temos dívida bancária. A nossa dívida bancária é de cerca de 13/14 milhões de euros, não ultrapassa isso. O maior problema que existe em termos de dívida bancária em Portugal é que os bancos não financiam as sociedades anónimas desportivas, dizem, por regras…

…Não é por vontade dos clubes…
Não. Nós gostaríamos muito de poder continuar a trabalhar com a banca, mas desde 2014 as regras têm sido mais apertadas e, do nosso lado, fizemos o reembolso de toda a dívida que tínhamos à banca, que não era só uma dívida do produto típico de empréstimo, mas também de papel comercial. Portanto, havia uma série de instrumentos financeiros que tinham taxas mais altas do que as habituais. Fizemos esse reembolso todo, com financiamento de 3,75% que eu acredito que se possa manter para os próximos. Estamos numa situação já bastante confortável.

Nos últimos anos, sucederam-se vários casos que envolveram o Benfica, nomeadamente e-toupeira e suspeitas sobre jogadores. A vitória deste ano é justa?
Não tenho dúvidas nenhumas. É uma vitória justíssima e os números falam por si. Tivemos um início de campeonato difícil, em que por culpa própria tivemos resultados menos positivos. E depois, a partir da entrada do Bruno Lage, fizemos um campeonato absolutamente irrepreensível. Acho que ninguém põe em causa isso.

Há quem ponha isso em causa, por exemplo num conjunto de resultados que foram consequência directa de erros de arbitragens.
Sempre ouvi dizer que o campeonato é uma prova de resistência e acho que é verdade. Um campeonato não se decide pelo jogo A ou B, pode haver um erro no jogo A a nosso favor e outro erro no jogo B a favor do nosso adversário. O que é verdade é que nas lutas directamente com os nossos principais rivais, ganhámos essas lutas praticamente todas.
No ponto de vista de eficácia e ataque, demonstrámos que voltamos quase aos anos 60/70. Portanto, sinceramente, uma pessoa honesta não põe em causa o resultado deste campeonato, porque — eu sei que é desagradável para os nossos adversários –, mas ver a performance que tivemos e ver que conseguimos ultrapassar uma barreira que parecia inultrapassável — sei que é difícil e compreendo isso, já estive do outro lado –, mas é um campeonato irrepreensível.

Ainda no caso dos emails, o Benfica pediu uma indemnização de 17 milhões de euros. Porquê este valor?
O valor está assente num conjunto de premissas que foram justificadas em tribunal. Não é um assunto de que eu queira falar muito porque ainda está numa fase de decisão, nem é um assunto que passe directamente por mim em termos da estratégia.

Mas de onde vêm estes 17 milhões?
Os 17 milhões estão calculados através de uma série de parâmetros. O que eu posso dizer é que, fugindo aos 17 milhões de euros, houve uma série de casos de empresas concorrentes que, de alguma forma, tiveram acesso a segredo de negócio. Este é um ponto essencial. E se analisarmos as decisões dos tribunais europeus em relação a esta matéria, o acesso indevido a segredo de negócio é penalizado.

Consegue dar um exemplo?
Na Fórmula 1, na indústria electrónica, na automóvel. Esses exemplos foram citados no processo. Não estou a discutir como tiveram acesso aos emails. O que estamos a discutir é informação confidencial de negócio que é obtida, estudada… É essa e temática que está aqui em causa. Portanto, não vamos discutir robô. Não é isso que está em causa.

A Benfica TV vai continuar a transmitir os jogos do Benfica no próximo ano?
Essa decisão não é só do Benfica mas, acima de tudo, de quem nos comprou os direitos televisivos. E quem nos comprou — foi a Nos — partilha esse conteúdo e custos com restantes operadores de telecomunicações. Os operadores estão satisfeitos com o modelo que têm actualmente, do ponto de vista prático, quem assinar a TV contribui para o esforço que os operadores de telecomunicações fazem e, portanto, da parte dos operadores e daquilo que nos foi transmitido recentemente, existe todo o interesse em manter o modelo actual. Da nossa parte, obviamente, completamente disponíveis para manter o modelo actual, estamos satisfeitos com ele e é para continuar.

Quer na dimensão da aposta na formação do clube, quer na avaliação desportiva que fez, há um nome que ressalta: Bruno Lage tem contrato até quando?
Penso que por mais quatro ou cinco anos.

Não é um problema a curto prazo?
Não, não é. E, por acaso, ontem [quarta-feira] tivemos o jantar com os nossos patrocinadores, fiquei ao lado do Bruno Lage e conversamos sobre imensos temas de futebol. A experiência que tem do ponto de vista internacional é muito interessante. Eu já o admirava por uma série de aspectos antes disto, mas surpreendeu-me pela dimensão, pelo mundo que tem, que é diferente de outros treinadores. Acho que temos ali uma pessoa que oxalá consigamos reter e que nos pode ajudar muito nos próximos anos."