Últimas indefectivações

sábado, 16 de março de 2019

Temos de escolher as nossas batalhas

"Slavia de Praga, Villarreal, Valencia, Frankfurt, Arsenal, Chelsea e Napoli. É esta a minha ordem para o sorteio de hoje. Acho que temos boas chances contra Slavia e Villarreal. Valencia, Frankfurt e Arsenal seriam eliminatórias equilibradas. E depois Chelsea e Napoli não seríamos favoritos. No entanto, o facto de ainda haver tantas equipas fortes, acho que devia por em perspectiva toda a competição. A verdade é que o Benfica não tem plantel, pelo menos neste momento, para andar a lutar por duas provas.
O Benfica criou o seu 11 base e sempre que é obrigado a deixar peças de fora desse 11 base, a equipa ressente-se. Jonas com bola é um jogador excepcional. Mas a equipa joga com menos qualidade com Jonas em campo do que jogava com Seferovic em campo. Jonas já tem uma certa idade. Não pressiona, não dá profundidade, é capaz de baixar para construir, mas isso depois tira qualidade no ataque. Seferovic é um jogador insubstituível no Benfica. Primeiro porque não há ninguém que jogue como ele. Segundo porque não há uma segunda maneira de jogar tão eficiente como aquela que criámos quando Seferovic estava em campo. É o caso mais grave no Benfica. Mas há mais. Há gaps consideráveis entre Grimaldo, Pizzi, Rafa e os seus substitutos. Enquanto Corchia consegue fazer o papel de Almeida, Ferro consegue fazer o papel de Jardel e Florentino o de Samaris, há quatro jogadores que quando saem a equipa joga menos bem.
É assim em todo o lado. Quando não joga o Ronaldo na Juventus tem que jogar outro que não tem a mesma qualidade. A diferença é que o outro é o Moise Kean que é capaz de fazer diferença num jogo com um adversário mais frágil. E se não fizer, a Juventus tem 18 pontos de vantagem para o Napoli logo não tem mal. No Benfica os outros são Yuri Ribeiro, Krovinovic, Gedson, Zivkovic ou Cervi que não são maus jogadores, mas que neste momento não fazem grande diferença. Não estão enquadrados com a equipa. Yuri Ribeiro está irreconhecível desde do início da época. Cervi é banal. Krovinovic está lento e mastiga muito o jogo. Todos estes jogadores seriam estrelas num Moreirense. Mas neste momento não são. A confiança não está lá. E o problema é que a nossa margem de erro para o Porto é inexistente.
Grimaldo, Pizzi, Rafa e Seferovic não vão fazer 2 jogos por semana até ao fim da temporada. Se fizerem, o mais provável é que se lesionem ou que acabem por deixar de render o mesmo devido ao cansaço. O Benfica perdeu na Croácia e empatou com o Belenenses não só por erros defensivos, mas porque Seferovic não jogou. Na minha opinião o Benfica devia concentrar-se no Campeonato, prova que tem maior probabilidade de ganhar. Na Liga Europa jogam os substitutos. Não temos plantel para mais. Se ao intervalo estivermos a perder, Rafa e Pizzi não podem fazer 120 minutos para ajudar a equipa a passar. Há outras prioridades. Temos que saber escolher as nossas batalhas."

Liverpool e Eintracht: futebol vertical, com direito a queda no abismo

"Vida muito complicada para os sobreviventes portugueses na Europa. Os adversários de FC Porto e Benfica gostam de quebrar linhas e partir velozes em direcção da baliza contrária sempre que podem, oferecendo na vertigem aos adversários verdadeiras quedas no abismo. É impossível passá-los? Isso já é outra conversa, mas o ponto de partida é muito alto

Liverpool. O Liverpool que arrumou logo na primeira mão os oitavos do ano passado, com o 0-5 no Dragão. Uma equipa inglesa com princípios mais consolidados, embora a lutar taco e a taco e sem poder recuperar fôlego na luta com o Manchester City pela Premier League, e a apresentar alguns jogadores abaixo do nível da temporada transacta, em que, por exemplo, Salah parecia definir sempre bem.
Um futebol feito à base de pressão alta e contrapressão na reacção à perda, assumindo aquele ritmo «heavy metal», «non-stop», de transições velozes e jogo vertical de que Jürgen Klopp tanto gosta. Um futebol em que dás tudo ou não dás nada porque estás fora, está de volta ao caminho do FC Porto, desta vez a visitar primeiro Anfield antes de receber no Dragão.
A análise bem que também serve ao Eintracht. Estável num sistema de três defesas, ajudado pelos laterais, em que figura um competente Danny da Costa, e com passes directos para os dois avançados: Luka Jovic – emprestado pelo Benfica, com a tal miserável opção de 7 milhões –, e um Haller de enorme qualidade. Explosivos, dinâmicos e cirúrgicos, com o sérvio à procura de definir no primeiro momento em que puder, e o francês mais disponível para os apoios centrais e combinações. Por vezes, nas costas dos dois da frente, surgem, com espaço, Rebic ou Gacinovic. Desde a esquerda, Kostic promete ainda inúmeros cruzamentos a reclamar finalização.
Com a força dos de Frankfurt a vir também do jogo interior, a equipa de Bruno Lage terá de encontrar as paralelas para progredir no terreno, a exemplo do que aconteceu no triunfo recente frente ao FC Porto.

Ideias Semelhantes, Agressividade e Velocidade Vários Níveis Acima
O mestre e o aprendiz: Jürgen Klopp e Sérgio Conceição. Não consta que o treinador português tenha procurado directamente inspiração no alemão, mas a verdade é que o «gegenpressing» e a verticalidade extrema terão nascido por oposição e antítese ao futebol de posse tecido por Pep Guardiola no Bayern e até em contranatura face ao sucesso da selecção alemã.
Ao mesmo tempo que a ideia florescia no Borussia Dortmund, equipas como RB Leipzig, Bayer Leverkusen, Hoffenheim e Hertha entre outras, desenvolviam filosofias semelhantes. Em Frankfurt, a «Diva Caprichosa» («Die Launische Diva») ia igualmente projectando uma ideia semelhante. É Klopp quem influencia os restantes treinadores germânicos.
Conceição terá bebido de muitos, e se a sua ideia pareceu vingar por Portugal encontrou no Liverpool uma diferença abismal de qualidade nos jogadores e uma maior certeza nos processos, que deram um triunfo retumbante aos britânicos nesse encontro do Dragão. Aprendiz ou não, a verdade é que a ideia tinha um mestre e foi esse mesmo quem sorriu no fim.
Adi Hütter, com um passado de campeão e vencedor da Taça ao serviço do Salzburgo, implantou os mesmos processos em Frankfurt. Foi ajudado pelo «renascimento» do clube, assente na política desportiva alternativa de Fredi Bobic, antigo internacional alemão de ascendência eslovena e croata, capaz de encontrar soluções em mercados paralelos como os países da ex-Jugoslávia e até em Portugal.

Histórico Pesado Para os Dragões
Terão os dragões aprendido algo com a goleada sofrida no Dragão? Essa será a dúvida que a ter a resposta positiva poderá equilibrar o embate. Porque o Liverpool não está pior.
A história não traz qualquer conforto à equipa de Sérgio Conceição, já que nunca antes venceu os «Reds». São seis jogos, três derrotas e três empates. O primeiro encontro deu-se nos quartos de final da Taça UEFA de 2000-01. Anfield viu um 2-0, as Antas tiveram de contentar-se com o nulo. Sete anos depois, a fase de grupos da Liga dos Campeões de 2007-08 não correu melhor: 4-1 no terreno dos ingleses, 1-1 no Dragão. A seguir, a época passada, nos oitavos de final os tais 0-5, com Sadio Mané endiabrado à solta, e o nulo ao jeito de cessar-fogo na Velha Albion.
Cinco títulos contra dois. Em 1976-77, o Liverpool bateu em Roma o Borussia Moenchengladbach por 3-1. Na época seguinte, novo título continental, agora com o Club Brugge como vítima, em Wembley (1-0). Idêntico resultado abateu o Real Madrid no Parc des Princes, em Paris, na temporada 1980-81. A Roma caiu em 1983-84 no Olímpico (1-1, 4-2 gp) e o «Milagre de Istambul» trouxe dos balneários um 3-0 favorável ao Milan e um Steve Gerrard de punho cerrado ainda a tempo de assinarem uma recuperação épica (3-3, 3-2 gp). Há ainda 3 Taças UEFA na sala de troféus de Anfield.
Contra isto, os dragões apresentam a Taça dos Campeões de 1987, com os golos mágicos de Madjer e Juary, e a Liga dos Campeões de 2003-04. Em Gelsenkirchen, os remates certeiros de Carlos Alberto, do MVP Deco e de Alenitchev confirmam a superioridade inequívoca do FC Porto sobre o Monaco de Didier Deschamps.

O Eintracht Como Tábua Rasa
Benfica e Eintracht nunca se defrontaram em partidas oficiais. Há apenas registo de dois jogos entre os alemães e o FC Porto, durante a Liga Europa de 2013-14: 2-2 no Dragão, 3-3 na Alemanha.
Se os encarnados tiveram três finais da Liga Europa sem vencer uma única (1983, Anderlecht; 2013, Chelsea; e 2014, Sevilha), o conjunto de Frankfurt tem já uma taça no seu museu. Em 1979-80, ganhou na final aos compatriotas do Borussia Moenchengladbach. E se o emblema da Luz vai já em 10 finais europeias e em 8 perdidas, cinco na principal prova da UEFA, o Eintracht apenas teve mais uma, a da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1959-60, em Glasgow, frente ao Real Madrid (7-3).

Milhões, Milhões e Mais Milhões... A Voar?
O incentivo da ideia de quem chega às meias-finais está perto de vencer o troféu também pode ser financeiro. O saldo portista está praticamente em 80 milhões, sendo que chegar às «meias» vale mais 12. Seria extraordinário para os debilitados cofres do FC Porto, há duas épocas consecutivas em contenção, face ao controlo do «fair-play» financeiro da UEFA. E pode nem ficar por aqui. Eliminar o Liverpool, coloca Barcelona ou Manchester United no caminho dos portistas, que vencendo a competição poderiam acabar com perto de 126 milhões só conquistados esta época.
Também o plano financeiro pode ser importante para a equipa de Lage, embora as diferenças para a Liga dos Campeões continuem grandes. Os encarnados já arrecadaram 52 milhões, grande parte pela participação e resultados na fase de grupos da prova milionária, e podem garantir mais sete se chegarem à final de Baku, no Azerbaijão. O vencedor da Liga Europa terá direito a mais quatro e, no total, podem ser 63. Só que o caminho, como já se viu, é complicadíssimo. Mesmo que ultrapassem o Eintracht, teriam ainda de bater Slavia Praga ou Chelsea nas meias-finais.

Grandes Estrelas no Dragão e na Luz
Van Dijk, o senhor 83,4M, e Alisson, 62,5M, são algumas das figuras de cartaz do Liverpool neste seu regresso ao Dragão. Ambos deram grande estabilidade ao sector defensivo dos «Reds», além do que o central holandês acrescenta ao jogo ofensivo, sobretudo nas bolas paradas. Todos os holofotes apontam ainda para o fantástico tridente no ataque formado por Roberto Firmino, Mohammed Salah e Sadio Mané, com o suíço Shaqiri a entrar na rotação. Contudo, a grande estrela é mesmo o seu treinador. Jürgen Klopp é uma fonte de energia constante, que sabe aproveitar o ambiente e utilizá-lo a seu favor.
Do lado do Eintracht, já se enumeraram alguns nomes. Aquele que mais diz aos benfiquistas é o de Jovic, emprestado com uma opção de compra de 7 milhões, miserável para alguém que só agora foi ultrapassado por Lewandowski na luta pelo título de melhor marcador. Os portistas também pensarão que a venda de Gonçalo Paciência, recentemente regressado à competição, terá sido baixa de mais. 
Ao olharmos para a mobilidade, técnica de finalização e até motivação e arrogância positiva, há que não deixar espaço para comparações: este miúdo Jovic nada tem a ver com aquele que não brilhou na Luz.
Os de Adi Hütter, que eram dos 8 apurados para os «quartos» o clube com pior ranking (77º), atrás inclusive do Slavia de Praga (72º), têm um plantel avaliado em valores semelhantes aos das duas equipas lusas: 261,7M, contra 277M do Benfica e 288M do FC Porto. Já o Liverpool não deixa dúvidas, está avaliado em 950,5M, segundo o site especializado transfermarkt.

Herrera, Pepe e Jonas a Fazer Falta
Dois jogadores portistas sacrificaram-se a si próprios durante a batalha no Dragão com a Roma. Herrera, muito importante na pressão alta portista, e o defesa internacional português viram amarelos que os afastam de Anfield, onde até a sua vasta experiência seria importante perante o ambiente que os restantes vão encontrar.
O mesmo se passa com Jonas, que também viu a cartolina, e falha a recepção ao Eintracht. Para um jogador que marca praticamente sempre que joga não deixa de ser uma péssima notícia para Bruno Lage.

Encaixe no Calendário
Em teoria, não serão os quartos de final de Liga dos Campeões e Liga Europa a poder provocar instabilidade em respectivamente FC Porto e Benfica.
Se olharmos para o calendário dos dragões, vemos que depois de dois embates com o Sporting de Braga, o último a contar para a 2ª mão da meia-final da Taça, recebe o Boavista e vai a seguir a Liverpool. Segue-se visita a Portimão e recepção ao Santa Clara. Mais uma vez, em teoria, o grau maior de dificuldade poderá estar no Algarve, mas já com conhecimento do resultado da primeira partida frente aos «Reds». Já uma eventual qualificação poderia ser diferente de encarar mais à frente, com os jogos das meias-finais entre Vila do Conde e Choupana.
Do lado do Benfica, a mesma ideia. Depois do Sporting para a Taça, segue-se a Feira e a recepção ao Eintracht. Recebe depois o V. Setúbal e vai a Leverkusen. Talvez o Feirense surja com alerta mais elevado, mas também aqui umas eventuais meias-finais seriam mais complicadas de gerir, depois da viagem a Braga e antes da visita a Vila do Conde.

Difíceis, Mas Não Impossíveis de Ultrapassar
Quando chegamos a esta altura, surgem também frases-feitas que procuram dar algum equilíbrio a jogos em teoria desequilibrados.
O histórico é desfavorável. O valor de mercado também, o que quer dizer que há muita qualidade nos adversários hoje sorteados. Haverá até baixas importantes em FC Porto e Benfica na primeira mão. O que é importante é que «só termina quando o árbitro apita». Uma verdade absoluta. Há que acreditar."

Comportamento visual exploratório: um fator decisivo para o sucesso no futebol moderno

"Na sequência de um texto neste blog sobre João Félix, “Descodificar um génio”, propomo-nos a abordar a importância do comportamento visual exploratório como contributo para a elevação do futebolista a um patamar de rendimento superior.
A utilização de informação visual está dependente da combinação do movimento ocular e da rotação da cabeça. Neste sentido, a rotação da cabeça permite a todo o momento expandir o cenário visual e, deste modo, dirigir o foco visual para diferentes áreas do contexto que inicialmente estariam inacessíveis. Por sua vez, isso permite ao jogador explorar o cenário visual de forma mais efectiva no sentido de identificar a informação mais importante para resolver uma dada situação de jogo (ex: oportunidade de explorar o espaço entretanto disponível no corredor oposto mediante variação do centro do jogo).
A evolução do jogo de futebol tem criado desafios cada vez mais exigentes ao jogador dado que o espaço cada vez mais reduzido para “jogar” e o tempo cada vez mais limitado para “decidir”, obrigam a que a inteligência e a criatividade se constituam como elementos diferenciadores no perfil de jogador. Assim, os jogadores que forem capazes de antecipar aquilo que vai acontecer no momento a seguir estarão sempre um passo à frente dos demais pois terão mais tempo para ajustar as suas acções ao momento presente e ao futuro cenário de jogo, aumentando o sucesso das suas acções.
Importa ainda notar que alguns estudos têm demonstrado que os jogadores de nível superior tendem a apresentar uma maior exploração do cenário de jogo (medida através do nº de rotações da cabeça por segundo) e que a eficácia de passe aumenta em paralelo com um aumento da frequência deste comportamento visual exploratório (Jordet, 2013).
Em síntese, ao treinador caberá planear as tarefas de treino no sentido destas estimularem comportamentos visuais exploratórios que dependam de um uso criterioso de: 1) foco visual centrado nas variáveis informacionais de referência (ex: bola “coberta”, bola “descoberta”); 2) rotação da cabeça para expandir campo visual e integrar variáveis informacionais de referência (ex: posição da bola e colega mais próximo da linha defensiva).
Possivelmente muitos dos treinadores já incorporam no seu processo de treino estas preocupações. Parece-nos mesmo assim oportuno colocar este tópico em discussão de forma a que se sublinhe a importância de se criarem espaços de oportunidade para a melhoria do comportamento visual exploratório como base para um maior rendimento a nível individual, grupal ou colectivo.
O sucesso pode estar já “ali”, logo após mais um varrimento do cenário visual que permita identificar a informação crítica para uma tomada de decisão mais eficaz.

"

Pedro Tiago Esteves, in Lateral Esquerdo

A magnífica era da Estratégia – De Lage a Pep

"Ponto prévio. O texto está nos rascunhos há algum tempo. Bem antes de Silas ir pontuar à Luz, num jogo em que mantendo sistema, alterou posicionamento da linha média (mais próximo de um quadrado que linha) e com isso impediu o Benfica de criar de forma sistemática. Quem tudo muda, não está a ser estratégico. Está na verdade a ser o oposto do que deve ser a estratégia. Mudar a matriz táctica é mudar o modelo, mudar a identidade. Não é isso que é a Estratégia que marca uma nova era pela mente dos mais inteligentes.
Há sensivelmente um ano atrás, Bruno Lage partilhou com o Lateral Esquerdo a forma como a equipa técnica do Sheffield de Carlos Carvalhal orientava o seu trabalho semanal (vale muito a pena ver aqui com vídeos de observação de adversário, do modelo e do processo de treino)

A nossa preocupação consiste sistematicamente na evolução do nosso jogo e são as nossas ideias que orientam a planificação ao longo dos dias e das semanas.
Nesse planeamento semanal e, consequentemente diário, a organização dos conteúdos de treino são designados em relação directa com a evolução do nosso jogo e as características do próximo adversário, em função da estratégia eleita e, simultaneamente, estabelecendo uma relação própria entre o esforço e a recuperação.
Em função da informação recolhida da análise de desempenho, e na análise do adversário e, tendo em linha de conta, as considerações estratégicas que possamos eventualmente utilizar, idealizamos os nossos exercícios.

Há três anos atrás, referia-me à grande tendência, que continua crescente no futebol actual, como imperativo para vencer jogos em contextos competitivos equilibrados ou perante adversários mais complicados.

Na actualidade, para se vencer qualquer um dos três grandes, há que conseguir combinar três factores absolutamente decisivos. Bastará a exclusão de um dos, para que as hipóteses de tal suceder se minimizem praticamente a zero.
– Modelo de Jogo. Um modelo bem estruturado. Pensado e que consiga garantir mínimos de qualidade nos posicionamentos em cada momento do jogo;
– Estratégia. Adaptações obrigatórias mesmo mantendo o modelo, em função das características totalmente diferentes do jogo. Diferentes porque perante adversários substancialmente melhor apetrechados;
Os maiores serão naturalmente os jogadores. Sem um modelo de jogo já estruturado e com qualidade, nunca Abel teria tido sucesso. E é absolutamente impossível chegar lá com três dias de trabalho. Portanto, não ignorar que também José Peseiro poderá beber do triunfo.

Mas afinal, estratégia não é mudar tudo e não é opor-se ao modelo? Não. Curioso, como tentaram colar isso ao por cá defendido, quando não houve um único texto que o pudesse sequer dar a entender.
Mas, afinal o que é então a estratégia se não o mudar tudo?
Já vos demos e voltamos a dar exemplos do que é Estratégia:

Por exemplo: Jogo contra o Benfica. Sabemos como funciona a transição defensiva do Benfica quando entra no último terço. No seu posicionamento ofensivo, os laterais já estão próximos dos alas adversários, para que após a perda possam controlá-los, ou acompanhando se eles forem embora para receber na frente, ou apertando se eles quiserem receber no pé, e sabemos que após a perda, o Fejsa vai encostar nas costas do médio mais ofensivo, para que não seja referência para receber.
Então, sabemos que na perda no último terço, vai haver espaço nas costas do Fejsa, porque ele é atraído ao médio ofensivo, e que os laterais só baixarão se os nossos alas dispararem. Estar mais próximo de vencer ou incomodar o Benfica, não é sair com os nossos alas ou médio ofensivo / segundo avançado a pedir no pé, só porque o meu modelo assim o contempla! porque o Grimaldo, o Fejsa e o Almeida vão abafá-los e a bola rapidamente mudará a posse de novo, sem saída para ataque rápido. Mesmo que no meu modelo eu até priorize um primeiro passe para um destes elementos para iniciar condução.
Estratégia, é percebê-lo, e ser criativo para desenhar uma possível forma de chegar às costas do Fejsa. Mas como? Ter por exemplo, na recuperação, o avançado a mostrar-se para receber o primeiro passe. Mas porque sei que um dos centrais do Benfica sairá com ele para matar em falta enquanto está de costas, na recuperação, coloco logo um elemento diferente do que o Fejsa vai apertar, a saltar na frente para receber a bola de frente, proveniente do avançado que se mostrou para o primeiro passe. E ai, se tenho os alas sem comer metros… os laterais deles também não baixam no imediato, e consigo sair com um 2×2 contra os centrais do Benfica, e um deles desposicionado porque veio acompanhar o apoio frontal do meu avançado!
in Lateral Esquerdo (2018)

Estratégia é trocar a pressão em L do avançado (em L, no sentido de primeiro deslocar-se para entre centrais para cortar linha de passe que varie o jogo), por pressão de frente sobre o Mathieu porque sabemos que ele é quem constroi criando mais dificuldades, como fez Luís Castro. Mas, o Vitória perdeu alguma identidade ou deixou de ser modelo porque trocou um movimento na pressão? O Bruno Lage perdeu alguma identidade ou o Benfica trocou de modelo porque no Dragão a rota ofensiva contemplou ir primeiro fora para que os médios centro não recebessem de costas pressionados? Ou quando nas Aves baixou mais os médios para trazer oposição, por saber que o Desportivo defenderia HxH? O Pep Guardiola muda a sua identidade quando coloca mais um homem em equilíbrio quando defronta dois avançados rápidos? ou quando muda de jogo para jogo os posicionamentos e rotas ofensivas?
Quem tentou colar um lado estratégico do jogo a totais alterações de jogo para jogo enganou-se. Quem muda tudo, não está a mudar estratégia. Está a mudar identidade!
Sobre isso, aquando das alterações profundas de Marcel Keizer para dois jogos muito específicos havíamos referido (aqui):

Marcel Keizer trocou por completo a estrutura táctica. Mudou por completo a identidade táctica da sua equipa. E não é necessariamente alterar estrutura que é Estratégia!

Então, mas o modelo afinal é a base?
Obviamente, nunca em tempo algum foi afirmado o contrário. Se o modelo é mau ou inexistente, não importa sequer ter estratégia. De que vale ir pressionar assim ou assado, se depois os meus defesas nem sabem orientar o corpo para defender? É por isso que as dificuldades de Marcel Keizer em Portugal não passam por ter ou não ter estratégias para os seus jogos. Está tudo relacionado com os maus comportamentos do seu modelo em todos os momentos do jogo.
Então, porque vivermos hoje a era da estratégia, se o modelo é que é a base?
Porque com o emergir do modelo, e com a chegada de todos a este, no equilíbrio surge uma forma diferenciadora de enganar o adversário. É como a correria versus inteligência. Sempre afirmamos que o que discernia qualitativamente os jogadores era a sua inteligência. Mas, com isto não significa que se ganhem jogos sem correr. Não se ganham. Pelo contrário, 11 Bolts ganhariam sempre a 11 Messis com 60 anos. Mas, não se anda a gritar que é a era da correria, pois não?

Pep manterá o essencial: tocar a bola até nos agruparmos; chegar a três quartos do campo através da sucessão de passes; subir bastante a linha defensiva, e ter sempre um homem a mais no meio de campo, seja como for. Mas não espere um sistema tático fixo nem uma equipe titular indiscutível. Isso mudará a cada jogo. E a análise do rival será cada vez mais importante
Domènec Torrent, no “Pep Confidencial” antevia o futuro

Outro aspecto que é importante perceber é o da identidade. Porque se dá a entender que identidade é só o que o Barcelona ou o Ajax jogam? Então o Bury FC da League 2, que estica 10 bolas na frente das 10 vezes que os seus defesas a tocam, não tem identidade? Pois claro que tem. Uma identidade que me faz fugir de ver os seus jogos, mas tem. Quem é a equipa que nos dias de hoje não tem a sua identidade?
Identidade não é só o que eu gosto, e fica a sensação de que as pessoas andam a confundir identidade com estilo.
Num programa de TV, o Rui Malheiro acabou por afirmar o que vem sendo dito há alguns anos aqui, e vale bem a pena ouvir / ler:

Fiel a uma identidade que não se desmonta… agora, para além da identidade há ajustes que fazem parte de uma estratégia. Um treinador que defende uma identidade não deixa de passar horas e horas e horas a ver como o adversário joga e se há necessidade de fazer um ajuste, fazem um ajuste.

E eis a magnífica era da Estratégia. Onde tal como Bruno Lage transmitiu há mais de um ano para o Lateral Esquerdo, o trabalho semanal já contempla o nós e o eles. Ao contrário dos tempos em que o modelo explodiu e era tudo “eu”, “eu” e “eu”.

El dibujo [sistema] no es el estilo
Los neerlandes se exhibieron en el Bernabéu ejecutando los conceptos de su glorioso pasado (la presión alta, el dinamismo de sus atacantes, la excelencia técnica como premisa fundamental para ganarse un puesto en el once, la circulación de balón a ras de suelo incluso en zonas de riesgo y la presencia de futbolistas cuya área de actuación no puede acotarse porque se mueven por todo el campo), pero no es verdad que jugaran con el 4-3-3 de toda la vida.
Axel Torres, sobre as mudanças tácticas de um Ajax diferente tacticamente do de outros anos

E quem altera tudo (base táctica), salvo raras excepções não é porque tem estratégia. É porque não tem modelo! E esses ainda nem à era do modelo chegaram, quanto mais à da estratégia!

Curiosidade: Na Liga NOS, apenas Marcel Keizer desmontou todo um sistema para se adaptar a um adversário. Mais nenhum treinador da Liga trocou em jogo algum o seu sistema de sempre na entrada em campo para se adaptar ao adversário.
E sabia que Pepa, na observação do adversário para preparação estratégica visualiza apenas jogos em que o adversário do seu adversário utiliza a sua estrutura táctica? (Precisamente porque a estratégia não se opõe ao modelo?)

Como em tudo na vida, é nas dificuldades que se cresce, que se procuram soluções para ultrapassar as barreiras. Nos dias de hoje todos têm o seu modelo, e o passo seguinte já está a ser dado pelos mais inteligentes. Estamos na era da estratégia. Na era em que os vídeos correm à velocidade da luz, vencer vai muito para além do modelar, tão típico da década passada. Hoje, o próprio processo de treino tem de ser virado para a competição seguinte, para o jogo que virá. Sobretudo quando se fala em forças de valores equivalentes, mas não apenas, é no perceber os comportamentos chave do adversário, e preparar o seu antídoto durante a semana, que está o passo seguinte. Na análise dos comportamentos e no desmontar dos mesmos. Na estratégia provocar constrangimentos ao adversário, que nos aumentem as possibilidades de vencer.
Lateral Esquerdo, 2017"

Onde Tudo Começa – Lição de Ferro

"«Gastem dinheiro com os defesas, sobretudo com os centrais! (…) Pode parecer paradoxal, uma equipa com um futebol ofensivo, de posse, de muitos golos e tem que investir em defesas? Claro, é onde tudo começa.»
Pep Guardiola

Num dos meus textos mais recentes, referia-me à importância da construção no definir de cada momento ofensivo. Porque é ali que se começa a definir a toada de cada momento ofensivo emerge a importância de ter os melhores atrás para que se criem os desequilíbrios necessários para chegar à baliza adversária, sobretudo em equipas como a de Lage que procuram ser dominadoras. Pode parecer paradoxal, mas é onde tudo começa e são os centrais que mais tempo a bola durante o jogo. 
Quando se começa a construir bem, as possibilidades de chegar à baliza adversária aumentam significativamente. É, portanto, fundamental ter centrais que desequilibrem desde trás. Se há espaço para conduzir, há que conduzir até fixar um adversário e se crie espaço para um colega. Se há possibilidade de colocar o passe vertical e eliminar vários adversários, então que se arrisque porque dar protagonismo aos centrais é acreditar que eles são capazes de fazer mais do que um passe para o lado. Não lhes retirem protagonismo porque mais do que também fazerem parte do jogo, é ali que se começa a definir o sucesso / insucesso do ataque organizado.
Num jogo que estava difícil para o Benfica criar, o golo que deu inicio ao apuramento encarnado para os Quartos da Liga Europa demonstra-nos a importância que um central pode ter no jogo ofensivo da sua equipa. Uma lição de Ferro que, com espaço conduziu até atrair e provocar médios adversários para no timing certo, soltar nas suas costas e permitir o inicio da reviravolta benfiquista na eliminatória.

P.S: Mais um grande jogo de Ferro. Mais do que destruir, o central português tem demonstrado uma capacidade incrível para construir em ataque posicional. Numa altura em que se fala de crise de centrais portugueses, Ferro e Rúben Dias aparecem como os senhores que se seguem.

"

Pirlo, in Lateral Esquerdo

Vista para os Quartos – Curtas

"* É um jogo de jogadores, e são eles que definem o rumo não apenas do resultado mas dos jogos. O mesmo sistema, mas sem Jonas e sem Félix trouxe correria sem fim, e mudou totalmente com as substituições;
* A má primeira parte do Benfica deveu-se, portanto, ao pensamento, ou falta deste de demasiados jogadores do Benfica. Os posicionamentos estavam lá, o sistema e modelo estava lá, mas a tomada de decisão dos jogadores da frente, condenou os encarnados a perdas sucessivas, e de forma rápida, que impediram as linhas mais recuadas de chegar à frente, para que nessa mesma perda, pudessem estar próximos para novas recuperações;
* Saída de Zivkovic e entrada de Jonas trouxe desde logo cérebro. Mais pausa e critério, e a partir daí mais Benfica, mais junto;
* João Félix, embora a um nível diferente do que vem sendo habitual, só pela capacidade que tem para definir assertiviamente os timings para (não) acelerar veio acrescentar mais qualidade ao jogo do Benfica, que trocou definitivamente acelerações por maior controlo mesmo com bola;
* Incrível Jonas – Mesmo bastante menos capaz do que outrora fora da zona de finalização, na hora de atirar à baliza ainda está ao nível dos melhores do futebol mundial – Torna cada lance que finaliza, por mais complicado que seja para o comum dos mortais, um lance aparentemente fácil;
* Destaques muito positivos para Ferro e Grimaldo. O central português voltou a ser um elemento que acrescentou bastante no ataque posicional. A qualidade dos seus passes e timings para progredir e soltar, bem como as decisões de para onde soltar, foram um dos maiores catalizadores das mais pensadas jogadas do Benfica. Grimaldo, trouxe qualidade na ligação com o espaço interior, sempre que o corredor lateral foi solicitado, e contrastando com Yuri Ribeiro ajudou a manter a posse e fazer com que o jogo tivesse menos repelões, mas fosse mais pensado."

SL Benfica – Quem melhor expressa a ideia de jogo – Deu a vitória a Lage

"Um onze inicial que surpreendeu tudo e todos, mas tiveram de ser os jogadores que melhor expressam a forma de jogar desenvolvida por Bruno Lage para consumar a reviravolta na eliminatória!
SL Benfica entrou em campo com um ½ campo inédito, Fejsa e Gabriel, uma frente de ataque ainda não vista – Jota e Rafa, e um lateral esquerdo, Yuri Ribeiro, que tem sempre a ingrata missão de substituir o craque Grimaldo.
Ideia clara de Bruno Lage: Gabriel e Fejsa lado a lado, movimentos interiores de Zivkovic e Pizzi e Liberdade para Jota e Rafa com, principalmente, envolvimentos de Yuri Ribeiro em profundidade no corredor esquerdo.
Porém, grande dificuldade de Jota e Rafa para jogarem em apoio, onde muitas vezes foram confrontados com movimentos “dentro da cabine telefónica” e a ter de tomar decisões de costas para a baliza do Dinamo. Cá esta, adequação da forma de jogar, considerando o contexto e as características individuais dos teus jogadores. Fica mais difícil.
Zivkovic lento a entender como explorar o espaço interior que o Dinamo de Zagreb lhe oferecia.
Em 1.4.1.4.1, a equipa Croata possibilitava que Zivkovic e Pizzi recebessem, na fase de criação, passes de Gabriel ou de Ferro e, sozinhos, orientados para a baliza do guardião Livakovic poderiam criar situações de perigo.
Muita ligação perdida, pouca capacidade de interacção destes jogadores e uma 1ª parte muito aquém das exigências e responsabilidades do jogo.


Ao Intervalo, e com naturalidade, Bruno Lage lança Jonas e Grimaldo. Zivkovic e Yuri Ribeiro ficam no balneário.
As mesmas ideias, interpretes diferentes, mais adequados aos contextos e a qualidade sobe. Jonas com liberdade para receber a bola entre linhas e iniciar combinações com Rafa, Jota, Pizzi, mas também, naturalmente, para receber de costas e garantir qualidade nas interacções.
Grimaldo, com espaço para subir no terreno e até Gabriel ligeiramente subido, principalmente para garantir a cobertura ofensiva e defensiva ao lateral espanhol.
Com este comportamento de Grimaldo e Gabriel, existiu espaço para que Bruno Lage fosse constantemente dando indicações a Ferro para se libertar e poder ele fazer passes a queimar linhas ou até a progredir para criar desequilíbrios, atrair adversário e libertar espaço para Jota, Grimaldo, Jonas e Pizzi. Exemplo claro desta dinâmica no golo de Jonas.



A colaboração entre o Blog Lateral Esquerdo e a Coach ID pretende não só reflectir sobre os aspectos do jogo mas também (uma vez que somos treinadores de Futebol), propor um exercício que poderia ajudar na resolução de alguns problemas identificados na nossa análise.
No jogo de ontem, da Liga Europa, foram evidentes os problemas do SL Benfica em explorar o espaço livre deixado pelo Dinamo Zagreb na sua estrutura de 1.4.1.4.1. Zivkovic, Rafa e Jota não conseguiram utilizar com sucesso as zonas interiores por detrás da linha média do adversário.
Como tal, propomos o seguinte exercício:
Forma: GR + 7 x 8
Objectivo: Org. Ofensiva – Ligação sectores com movimento interior dos Médios Ala.
Exploração do espaço em círculo vermelho.
Atracção do ADV em círculo Amarelo. (deve ocorrer tanto em Fejsa como Gabriel)
Coordenação de acção entre Lateral, Ala e Médio de Organização, com dinâmica de profundidade dos 2 avançados móveis.
Capacidade de furar espaços entre linhas e procurar ações de finalização dentro da área (com movimentos de ruptura dos avançados).
Dinâmica:
Bola inicia-se sempre dos Vermelhos.
Atracção do adversário por Gabriel e Fejsa. Momento de paciência para atrair adversário.
Momento de coordenação através de apoio de lateral dos vermelhos a Gabriel e espaço livre a aproveitar por ALA (Zivkovic). Bola dentro em Zivkovic ou Pizzi, movimento de ruptura de Jota e Rafa e profundidade por Lateral.
Coberturas de 2 Médios centros e de Lateral do lado oposto, com subida do bloco.
Azuis se conquistam bola entre a linha da grande área e ½ campo, devem procurar fazer golo nas 3 balizas identificadas (sendo a amarela a mais valiosa /Petkovic).
Se Azuis conquistarem bola no espaço entre baliza e linha grande área, devem fazer passe para um dos médios centros, e procurar atingir balizas pequenas. Vermelhos não deve permitir.
(...)"

A lenda perpétua do menino que embala o sonho

"Ronaldo teve participação directa em 51 dos 64 golos da Juventus com ele em campo. É uma influência de 80% no rendimento ofensivo da equipa

Três dias volvidos sobre a sua visceral demonstração de poder, já tudo foi dito e escrito acerca do inesquecível feito – mais um depois de tantos – de Cristiano Ronaldo na Champions League. Este podia ser um texto sobre os seus recordes. Não é. Podia ser um texto acerca dos registos inacreditáveis que está a somar nesta nova etapa. Também não é. Impossível olhar para o homem sem a sombra dos seus números, imponentes, demasiado esmagadores para que os possamos ignorar, e como tal teremos de viajar por entre eles ou deixar apenas que se apoderem de nós, de tão dominadores e hipnotizantes que são. Mas deixemos para já de lado essa imensa dimensão dos dígitos. Já lá vamos. Este texto é, acima de tudo, uma homenagem a uma criança. Um menino que vive dentro de uma lenda, uma lenda que vive dentro de um homem e um homem que vive dentro de um sonho. Um puto que é do mundo mas continua na Madeira e que a partir da Madeira vergou o mundo a seus pés...
Quantas vezes ouvimos dizer que não há limites para os sonhos? Nada mais falso. Todos os dias milhões de sonhos são esmagados, triturados, transformados em pó, ou pior, em pesadelos. Ao ponto de haver já um medo tremendo de sonhar mais além, pela certeza de que esse além está fora do alcance. Crescemos e paramos de sonhar, somos os carrascos dos nossos próprios sonhos. Ganhamos consciência dos nossos limites e descemos à terra. E quanto mais crescemos mais descemos. Há, porém, uma ínfima minoria que nunca deixa de sonhar. Que não reconhece limites. Que vive num mundo que é só seu e no qual se recusa a crescer. Um mundo onde os sonhos voam cada vez mais alto sem que nada os possa impedir. Nesse mundo entram crianças e desse mundo saem super-heróis. Sim. Daqueles que só existem nos sonhos.
Ronaldo é Ronaldo porque o pequeno Cristiano dentro de si se recusa a desistir de sonhar. Ousa sonhar cada vez mais alto! Mais longe! Mais forte! Mais imortal! E nas asas do seu sonho transforma o homem na irrepetível lenda viva que se eterniza a cada dia que passa... Só assim se explica que aos 8 anos tenha rumado ao Andorinha para vencer. E venceu. Que aos 10 tenha rumado ao Nacional para vencer. E venceu. Que aos 12 tenha rumado ao Sporting para vencer. E venceu. Que aos 18 tenha rumado ao Manchester United para vencer. E venceu. Que aos 24 tenha rumado ao Real Madrid para vencer. E venceu. Que aos 33 tenha rumado à Juventus para vencer. E venceu. Parece fastidioso, não parece? Repetitivo, cansativo, até. Mas a sua história é assim mesmo. Chegar, ver, vencer, partir. Chegar novamente, ver novamente, vencer novamente, partir novamente. Um círculo vicioso que parece não ter fim. Lembram-se do que eu vos dizia? Há uma minoria que nunca deixa de sonhar e não reconhece limites...
Chegamos ao momento de viajar por entre os números. Tantos. Tão impactantes e numa cadência que atemoriza. Uma espécie de código binário onde está desmontada a fórmula secreta do sucesso. Se ao menos fosse assim tão simples... Mas não. Não é. Nada é simples quando se trata de ascender ao topo do mundo. Comecemos então pelo fim, que é como quem diz por Turim. Ao serviço da Juventus, CR7 está a atingir patamares nunca antes vistos. Níveis de excelência competitiva apenas ao alcance dos imortais, índices exibicionais que silenciam até os mais cépticos, e tudo isto assente em dígitos que se amontoam como uma espécie de pedestal para a obra-prima que Cristiano Ronaldo vai esculpindo jogo após jogo. Ali, no país dos mestres da táctica e do rigor defensivo, diziam os especialistas que o capocannoniere portoghese teria dificuldades para mostrar a sua veia goleadora. E tinham razão! Mas por pouco tempo... Foram três os jogos em branco no arranque da temporada. 90 minutos, mais 90 minutos, mais 90 minutos. Nem um golo. Esfregavam as mãos os seus críticos de faca afiada e aguardavam tranquilamente aqueles que sabem que Deus perdoa mas Ronaldo não. Ao quarto jogo, minuto 50, bola no fundo das redes. E novamente ao minuto 65. Um bis na recepção ao Sassuolo, nome pitoresco e de sonoridade transalpina, clube da região de Emília-Romanha que, prestes a celebrar um século de vida, entrava para a história ostentando o digno título não-oficial de ‘clube contra o qual Cristiano Ronaldo começou a desenhar a lenda da sua passagem por Itália’. Uma espécie de prémio de consolação para os Neroverdi.
De então para cá, um verdadeiro recital. Golos atrás de golos. Arrancadas fulgurantes e remates certeiros. Pé esquerdo. Pé direito. Cabeça. Dentro e fora da área. Bola corrida ou parada. A marcar ou a assistir. A servir ou a ser servido. Dá para tudo. Tudo! Em 36 jogos de Cristiano Ronaldo na Juventus, os Bianconeri aturaram 64 vezes. O português marcou 24 golos, fez 13 assistências, viu 5 golos marcados em recarga a remates seus, participou de forma determinante em 8 jogadas de golo e sofreu uma falta que deu origem à cobrança de livre direto que terminou em golo. Estamos a falar de 51 golos em 64, todos com intervenção directa de CR7. 80% dos golos da Vecchia Signora, 8 em cada 10. Uma absoluta barbaridade, mesmo para alguém que já nos habituou a derrubar todas as barreiras do impossível.
A Série A italiana está ganha. São já 18 os pontos de avanço para o Nápoles, segundo classificado. O título foi ‘carimbado’ a 3 de Março no San Paolo, casa dos Partenopei e morada eterna dos melhores anos com que Diego Armando Maradona brindou o mundo. El Pibe, esse mesmo que ainda esta semana voltou a falar de Cristiano. «Há jogadores que são tocados por uma varinha mágica. Ronaldo é um animal. É pura potência. E agora também é bruxo! Disse que ia fazer três golos. E fez». De monstro para monstro, reverência máxima, reconhecimento extremo e respeito absoluto. Nessa mesma semana em que a Juve arrumava a questão do Calcio, o Real Madrid era esmagado na Taça do Rei, afastado da luta em La Liga e humilhado na Champions. ‘Adeus e até para o ano, terão pensado os adeptos merengues ao abandonar o estádio por entre cânticos que chamavam por Cristiano Ronaldo e ecoavam pelos corredores de betão do velhinho Santiago Bernabéu. O pior de todos os cenários confirmava-se. CR7 longe mas a jogar e a marcar ao seu nível de sempre, com títulos conquistados e a encantar na sua nova casa. E o Real Madrid mergulhado num marasmo de frustração no primeiro ano pós-Ronaldo. Não podia haver sensação pior... Não podia?!? Podia!!! Apenas uma semana depois a nostalgia ganhava ainda mais força e com requintes de malvadez. Cristiano despachava o Atlético de Madrid com um hat-trick épico e deixava os adeptos do Real numa verdadeira montanha-russa de emoções. Entre a alegria de ver o eterno rival humilhado e a angústia de ver, uma vez mais, CR7 a brilhar intensamente na competição fetiche dos madridistas, a Champions League que haviam conquistado nas três temporadas anteriores...
O filme da época já vai longo mas ainda tem capítulos por encerrar. Vários. E importantes. Para trás fica a Supertaça Italiana conquistada na Arábia Saudita frente ao AC Milan em janeiro. 1-0, golo de Cristiano Ronaldo e o seu primeiro título pela Juventus. Ficam também exibições memoráveis de CR7 em casa frente a Nápoles, AC Milan, Inter, Sampdoria e Parma. Mas também longe de Turim, como o seu emocionado regresso a Old Trafford, onde foi recebido como um filho que visita a casa onde cresceu. Ou a estreia a marcar no imponente San Siro, frente ao AC Milan. Ou ainda o bis frente ao Empoli em pleno Carlo Castellani, culminado com um míssil teleguiado e provavelmente o seu melhor golo até ao momento com a camisola da Juve. A rivalizar com esse golo, outra obra de arte frente ao Manchester United, em Turim, naquela que terá sido a primeira desilusão da época: derrota na fase de grupos num jogo que a Juventus dominou do princípio ao fim e liderou com esse golo fenomenal de Cristiano ao minuto 65. Era hora de baixar à terra e lembrar que não há equipas imbatíveis... Menos de três meses depois, novo golpe difícil de encaixar: 3-0 em Bergamo frente à Atalanta e o adeus à Taça de Itália. A equipa estava amorfa, a atravessar um momento de menor fulgor e a precisar de ser recolocada no rumo das exibições que já mostrara ser capaz de fazer. Precisava de um farol que a guiasse. Ronaldo assumiu o papel que todos lhe reconhecem e não fez por menos: 7 golos nos 7 jogos seguintes! Faixas da Série A encomendadas em Nápoles, Atlético Madrid despachado na Champions e pelo meio ainda tempo para ajudar a recuperar animicamente um dos mais talentosos jovens jogadores do mundo: Paolo Dybala. Aos seus festejos habituais, juntou a ‘máscara de gladiador’ com que o fantasista argentino celebra os seus golos, motivando desta forma um craque que a Juve não se pode dar ao luxo de desperdiçar. Cristiano a ser líder. Sempre. Como sempre. E para sempre.
Agora há que começar a disputar o apuramento para o Euro 2020, onde Portugal se apresentará pela primeira vez na sua história como campeão em título. Ronaldo junta-se aos seus já esta semana depois de um interregno estratégico de 8 meses. Regressa mas na verdade nunca saiu. O capitão e a turma das quinas são entidades indissociáveis há mais de 15 anos. E em Junho, em Portugal, há uma Liga das Nações para conquistar, competição à qual Ronaldo ainda não tomou o gosto mas na qual estará desejoso de se estrear. Mas antes, já nas primeiras semanas de Abril, seguem-se dois duelos contra o imprevisível Ajax nos quartos-de-final da Champions. Na Série A, embora já virtualmente conquistada, há objectivos em aberto que podem ajudar ainda mais a eternizar o ano de estreia de Ronaldo em Itália: conquistar o campeonato sem qualquer derrota e bater o recorde máximo de pontos numa liga europeia está ainda ao alcance desta Juventus que soma já 75 pontos em 27 jogos. Vencendo em todas as jornadas que faltam até ao final da época somaria 108 pontos e pulverizaria o recorde dos galeses do Barry Town, fixado nos 105 em 1997. Mesmo um empate nesses 11 jogos permite bater o recorde e uma só derrota permite igualá-lo. Abaixo disso, uma almofada de duas derrotas ou três empates permitem ainda igualar a melhor pontuação de sempre da Juventus e de qualquer equipa italiana: 102 pontos alcançados pelos Bianconeri em 2014. ‘É sonhar demasiado alto logo no ano de estreia’, pensará o caro leitor. Se for o seu caso, é favor reler todo este texto para perceber de uma vez por todas que há um menino chamado Cristiano que nunca deixa de sonhar. Que não reconhece limites. Que vive num mundo que é só seu e no qual se recusa a crescer. Um mundo onde os sonhos voam cada vez mais alto sem que nada os possa impedir. Nesse mundo entram crianças e desse mundo saem super-heróis. Sim. Daqueles que só existem nos sonhos. Quantas vezes é preciso repetir?"

Benfiquismo (MCXXIII)

Também tinha jeito...!!!

Uma Semana do Melhor... Simão das Antas!!!

Benfica de Ferro

"O único critério que vigora em Portugal é prejudicar o Benfica. Que há mão neste campeonato desde o início já todos vimos

O empate com o Belenenses foi um balde de água gelada nas aspirações do Benfica. Tínhamos um empate de folga sobre o rival e não o queríamos desperdiçar no primeiro jogo, em casa, a ganhar por dois golos, logo após conseguir a liderança. Mas esta é a realidade e com ela temos de viver. Estamos em primeiro e dependemos de nós. As constas ficaram mais fáceis e os sentidos mais alerta. Há alturas da vida onde um balde de água fria pode ser benéfico. Temos de vencer os nove jogos se queremos vencer o 37. Contas fáceis, empreitada dura.
Domingo temos em Moreira de Cónegos aquele que, juntamente com a deslocação a Braga, constituiu o obstáculo mais difícil deste campeonato. É bom assinalar que Capela não marcou o penalty por mão na bola antes do segundo golo do Belenenses, o mesmo árbitro que ao minuto 95 telefonou mão igual no Belenenses - FC Porto. Critério? O único que vigora é prejudicar o Benfica.
Que há mão neste campeonato desde o início já todos vimos. Mesmo assim vamos jogar contra os adversários, contra os complexados, os incompetentes e os desonestos.
Os dois erros cometidos no jogo de segunda-feira deixam pouca margem para falar dos erros dos árbitros, mesmo quando sistemáticos e no mesmo sentido orientado. As nossas exibições têm de conter uma margem para as habilidades arbitrais, pois em jogos equilibrados irá valer tudo.
As nossas aspirações europeias vinham da Croácia com um resultado adverso e matreiro. Perder 0-1 em casa do adversário é estatisticamente preocupante.
Perceber o onze inicial, ontem, era intuir se havia vontade prioritária, ou não, de chegar mais longe na Liga Europa. Se a equipa titular deixou muitas dúvidas, as substituições ao intervalo mostraram uma ambição à Benfica.
O direito a estar no sorteio de hoje saiu ontem do banco de suplentes, mas obrigou a trabalhos suplementares, com um desgastante prolongamento.
Três grandes golos, uma boa segunda parte e um Benfica de Ferro deram uma presença nos quartos de final da Liga Europa.
Agora é assistir ao sorteio e a nossa Europa é no Comendador Almeida Freitas."

Sílvio Cervan, in A Bola

Estádio e BTV, de volta ao Clube

Foi aprovado esta noite, em Assembleia Geral da Benfica SAD, o 'regresso' do Estádio e da BTV ao Sport Lisboa e Benfica (Clube).
Excelente notícia... ficando assim, resguardo um dos Patrimónios mais importantes do Clube da imprevisibilidade dos 'mercados'!!!

Posso estar enganado, mas o Modelo da SAD, vai-se alterar significativamente... existem 'indícios' que o Benfica vai querer 'acabar' com a SAD. Será um bom dia para o Clube quando isso acontecer...!!!

Muito mau...!!!

Benfica 64 - 65 Ovarense
26-14, 18-26, 8-13, 12-12

Fim da 'linha'?!!!
Provavelmente...
Não se compreende... a decadência na forma de jogar desta equipa, tem sido evidente, e não existem quaisquer sinais de 'retoma', bem pelo contrário... Hoje chegámos a ter 17 pontos de vantagem!!!
Com esta eliminação da Taça de Portugal só falta uma competição... a jogar assim, até os Quartos com o CAB vão ser 'apertados'!!!

sexta-feira, 15 de março de 2019

Sólidos

"Por vezes devemos olhar para a realidade dos outros clubes para darmos a devida importância a medidas de gestão tomadas no nosso. A situação do Belenenses, na relação com a SAD, é elucidativa quanto aos perigos de privilegiar soluções milagrosas, em nome de amanhãs que cantam, para a resolução de problemas estruturais. Para já, é ainda caso único ao mais alto nível do futebol português (havendo inúmeros exemplos internacionalmente), mas o histórico Atlético deixou-se enredar numa situação com contornos semelhantes. E nesta semana, no jornal A Bola, Dias Ferreira, conhecido sportinguista, defendeu a alienação da maioria do capital da SAD do seu clube, soçobrando perante a míngua de títulos no futebol e o crónico estado lastimoso das contas da SAD leonina.
Ora, nada disto nos diria respeito se pudéssemos assegurar que o Sport Lisboa e Benfica e as suas participadas gozariam da capacidade de perpetuar as suas excelentes situações económico-financeira e desportiva. Se hoje sabemos que quem está à frente dos destinos do clube tem provas dadas nestas e noutras matérias, não seria ajuizado supor que, no futuro, será sempre assim, até porque nós próprios já sofremos as arguras da gestão irresponsável, com as consequências que todos conhecemos.
É, portanto, indispensável frisar e reiterar a relevância da operação de transferência, na sua totalidade, da Benfica Estádio e da BTV para o clube. A robustez associativa, patrimonial e económica-financeira do clube será sempre o melhor travão a aventureirismos.

P.S. - Jogámos bem frente à Belenenses, SAD, assim como o vínhamos fazendo desde a entrada de Lage. Se mantivermos o nível exibicional, seremos campeões!"

João Tomaz, in O Benfica

Vudu

"Custou muito a noite de segunda-feira. Em vários sentidos. Custou porque o adversário chegou bem preparado, jogou sem medo, ganhou duelos, criou perigo, defendeu quando tinha de defender, queimou tempo quando precisou, e a coisa estava malparada até à hora de jogo. Foi custoso, de facto. Depois de tudo parecia tranquilo com Jonas a fazer de abre-latas brasileiro em vez de canivete suíço. E ainda melhor ficou com aquele remate de raiva de Samaris a que André Almeida deu um toquezinho. Estava resolvido, não havia dúvidas. O adversário estava em KO técnico.
Só que não.
Saído de uma encruzilhada com galinhas pretas, bonecos de vudu e garrafas de cachaça do Calor da Noite, veio um livre colocado que era fácil de defender. Vlachodimos pensou que era tão fácil, que seria melhor desviar-se para deixar a bola passar e ganhar o pontapé de baliza. Pensou mal, só acontece a quem lá anda. Ficou incrédulo - ficámos todos -, pediu desculpa, e o estádio veio abaixo num aplauso digno da Catedral.
E depois foi Rúben Dias a tocar a bola com pouca força e a oferecer o ouro ao bandido, como se tivessem puxado a perninha do boneco haitiano. E assim se foram os únicos dois pontos que o SL Benfica estava autorizado a desperdiçar até ao fim do campeonato. Andam felizes os antis. Não sei porquê, basta repetir esta serie de 9 vitórias consecutivas (interrompidas pelo empate com estes azuis que já ninguém sabe de onde são) para voltarmos ao nosso salão de festas. Eu acredito."

Ricardo Santos, in O Benfica

Afinal, estes jogadores são humanos

"Tenho tanta vontade de escrever a crónica desta semana como de ser trancado durante duas horas num quarto escuro com 20 crocodilos.
E talvez a aventura com os crocodilos fosse menos dolorosa, pelo menos psicologicamente. Isto, porque me apercebi de uma situação que julgava ser impensável: a equipa do Benfica é composta por seres humanos. É verdade, amigo leitor. Aquele grupo de rapazes que virou de 0-2 para 4-2 frente ao Rio Ave num piscar de olhos, que despachou pelo mesmo resultado o Sporting em Alvalade, números que até foram lisonjeiros para os leões, que goleou o Nacional por 10-0, e que foi ao Dragão buscar a liderança da Liga como se tivesse ido ao café buscar pão, é afinal um conjunto de comuns mortais.
É uma pena, porque eu já imaginava o Benfica a disputar competições interplanetárias em Marte e Júpiter. Seriam deslocações incríveis com toda a certeza, mas ao que parece este Benfica é mesmo deste planeta. Se, há uns meses, os jogadores se encarregaram de provar aos adeptos que podem confiar na equipa, agora chegou a hora de os adeptos provarem à equipa que podem confiar nos adeptos. Quando o Odyseeas sofrer um golo, quando o Rúben Dias falhar um passe, sempre que alguém cometer um erro, os adeptos têm, não o dever, mas a obrigação de incentivar, aplaudir, apoiar.
Se recuarmos à etapa final de qualquer um dos anos do tetra, percebemos facilmente que as conquistas apenas foram possíveis pela total simbiose entre adeptos e equipa. Faltam 9 finais, e temos de remar todos para o mesmo lado. Caramba, já tenho saudades de jogar ao quem-será-o-jogador-a-ficar-mais-bêbado-no-marquês."

Pedro Soares, in O Benfica

Estamos na frente

"Dois erros individuais impediram o Benfica de alcançar uma vitória que parecia certa, e que seria a 10.ª consecutiva na Liga.
Só não erra quem lá não anda. E tanto Odysseas como Rúben Dias já nos deram manifestas provas de qualidade e confiança. As suficientes para entendermos aqueles lapsos como episódios, e para ficarmos seguros de que ambos irão saber reagir com o vigor que normalmente caracteriza os grandes campeões.
Compreende-se, e aplaude-se, que Bruno Lage tenha retirado o ónus da culpa aos seus jogadores. Mas a verdade é que aquele resultado infeliz não resultou de quebra da equipa, de falha no processo de jogo, de equívoco estratégico, ou da ausência de qualquer elemento - por mais importantes que possam ser Jardel, Fejsa, Salvio, Gabriel ou Seferovic. O Benfica jogou bem, dominou toda a partida, atacou de forma certeira, marcou dois golos, podia ter marcado mais, e em condições normais teria ganho tranquilamente. Os adeptos que enchiam a Luz perceberam-no.
Como não adianta chorar sobre leite derramado, importa olhar para Moreira de Cónegos de cabeça bem erguida e com total serenidade. Importa recuperar os níveis anímicos que permitiram a recuperação de um atraso de 7 pontos até chegar ao 1.º lugar, com vitórias categóricas em Alvalade e no Dragão pelo meio. Importa perceber que somos melhores, que todo aquele azar de segunda-feira não irá decerto repetir-se, e que, continuando a jogar bem, seremos naturalmente campeões.
O que para trás está, para trás ficou. Faltam 9 jornadas, e estamos na liderança.
Ninguém nos pode tirar de lá. Só depende de nós mantê-la.
Vamos a isso!"

Luís Fialho, in O Benfica

Dedicação exemplar

"A entrega dos emblemas de dedicação e dos anéis de platina a 4267 Sócios foi um momento de exaltação benfiquista em mais uma grande organização do Clube.
O nosso Pavilhão Fidelidade rebentou pelas costuras, e o Órfeão deu o mote para um dia único. Luís Filipe Vieira sintetizou tudo numa frase - 'Os Sócios do Sport Lisboa e Benfica são o mais valioso que o Clube tem'. Nesta cerimónia, destaco três momentos especiais. Jamais esquecerei a entrega do emblema de ouro a Mário Dias. O nosso eterno vice-presidente e grande obreiro do novo Estádio da Luz mereceu a justíssima homenagem. Foi glorioso ver o pavilhão todo de pé a aplaudir o 'Pai do Estádio'. São dirigentes como Mário Dias que fazem muito falta ao SL Benfica e ao desporto nacional. Outro momento especial foi a altura em que José Bastos, antigo guarda-redes, recebeu o anel de platina pelos seus já 75 anos de Sócio. Bastos ajudou a ganhar nove títulos - três Campeonatos, cinco Taças de Portugal e a Taça Latina, a futura Taça dos Clubes Campeões. Ele foi um dos nossos 12 heróis que em 1949/50 bateram a Lazio e o Bordéus, levando o nome do Glorioso ao patamar mais alto. Bastos fechou a baliza com a habitual categoria, e Arsénio e Julinho trataram dos golos que nos deram o título que mais nenhum clube português conquistou. Outro momento especial foi a entrega do emblema de ouro a Toni, o nosso eterno campeão. Coube à sua filha e aos seus netos a honra de receberem a prova de 50 anos de dedicação de um benfiquista que, como notável jogador e capitão e como treinador exemplar, conquistou 20 títulos."

Pedro Guerra, in O Benfica

Obrigado, futebol feminino!

"Para quem está em liberdade é difícil imaginar o peso das rotinas diárias de uma prisão que se acumula, numa penosa repetição, com aquele outra da privação e com a vida que passa lá fora indiferente a tudo isto. Mas para quem vive a situação há que aceitar e viver um dia de cada vez com a esperança toda num projecto pessoal de melhoria e reabilitação a pensar na vida que há de vir enquanto nesta se gastam os dias a expiar a culpa, companheira da angústia, sempre presentes.
A privação de liberdade, por compreensível reacção defensiva, eleva ainda mais a importância de todos os espaços informais em que a individualidade de cada uma pode manifestar-se. É o caso dos tempos de recreio nos pátios, das celebrações de datas festivas e das actividades desportivas em que se queimam energias e soltam angústias.
Os resultados desportivos, os casos e as vitórias, como as derrotas, têm o condão de unir a comunidade prisional em torno das suas preferências e de criar espaços de comunicação e interacção positiva entre reclusas, guardas e técnicas do estabelecimento prisional. É terreno neutro sobre o qual se constroem pontes e se estreiam laços de extrema importância para o equilíbrio socioemocinal das reclusas e para o ambiente construtivo e regenerador que, a par do rigor, se pede a um estabelecimento prisional moderno.
Por isso, quando se vê jogar futebol, esquece-se nomeadamente a dureza das realidades vividas e atenua-se o tédio opressor das rotinas. Por isso, quando se joga futebol, esbatem-se tensões e aprofundam-se solidariedades, experimenta-se e promove-se o cultivo da regra, da cooperação, do fair play e da superação individual e grupal.
Mas quando se recebe, duma assentada, a visita de uma equipa A de futebol, para mais jogado no feminino, é uma explosão de alegria e um viver (recordar) sensações que recordam a vida plena em sociedade e acentual a motivação, criando sinergias com o trabalho de reabilitação a que, de forma exemplar, toda a comunidade prisional do EP Tires nos habituou, dos guardas ao corpo técnico e direcção.
Só por isso mereceram a visita, e é bem certo que as nossas jogadoras trouxeram tanto consigo quanto lá deixavam: enriqueceram-se pessoalmente a verbalizaram-no.
Obrigado!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Pontos cardeais

"A geografia que se aprende na primeira escola concede-nos, cedo na vida, os primeiros fascínios sobre a dimensão do mundo, sem que, nessa altura, tenhamos sequer a mais remota percepção de todos os lugares a que mais tarde possamos aceder e conhecer. Em criança, apenas nos restava a intangível fantasia de imaginar outros espaços, outros sítios, outros ambientes para além dos que conhecíamos e nos eram familiares...
Com os visionários de 1904, no Benfica também pareceria que viria a ser assim. Então, certamente não lhes terá sido possível fazerem mais do que conjecturar vagamente acerca da evolução que a própria ideia fundacional do restrito grupo de amigos determinados poderia vir revestir, já que as primeiras necessidades de subsistência e da consolidação do agregado que criavam, teriam de ser prioritários. Na humildade dos seus propósitos e estando sobretudo concentrados em fortalecer o convívio no sentido de uma actividade competitiva e ganhadora, muito menos terão percepcionado a dimensão da expansão que esse conceito primordial atingiria, para eles, era mais importante assegurar, por exemplo, a assiduidade às sessões de treino, a conformidade dos equipamentos que usavam para jogar o jogo do foot-ball, ou as contas comuns e os registos para memória futura. Não terão, pois, pensado tanto em geografia...
Cento e quinze anos mais tarde, a realidade é outra. O Grande Benfica, hoje, é o próprio mundo todo. Dos confins de Trás-os-Montes ao último quilómetro de estrada na ilha do Corvo. Da primeira aldeia de Marrocos ao Cabo da Boa Esperança; da praia mais afastada de São Tomé até aos confins da Somália. Do último porto do Alasca à cidade de Ushuaia, no longínquo meridão das Américas. Sempre e onde houver portugueses, lá estará bem vivo o Benfica. E, no entanto, esta (outrora inimaginável) dimensão planetária do Benfica fez-se dos homens que um dia foram crianças a sonhar com os espaços e as forças ainda nunca experimentados. Cresceu consistentemente, isso, sim, com a cuidada transmissão de uma persistente ideia-forte que todos quiseram transportar e desenvolver cada vez mais.
Hoje, o Benfica é de todos os pontos cardeais da estrela-dos-ventos. A sul, no centro e no norte de Portugal: onde joga o Benfica, lá estão os Benfiquistas! Indefectíveis, solidários e sempre presentes e felizes, a jogar com a sua equipa. Como agora vai acontecer, nesta fase tão decisiva de uma época difícil em que todos ardentemente queremos reconquistar o que - apesar de contrariedades e 'alianças' contra a natureza - há de voltar a ser nosso, porque esse é o nosso desígnio permanente.
Ao Benfica, desta vez na região nortenha, para a conquista de autênticos pontos cardeais naquele rectângulo de escassos 37x105 Km, compreendido entre Moreira de Cónegos, Vila da Feira, Braga e Vila do Conde, não vai faltar o supremo sopro do maior grito de todas as gargantas: - 'Benfica, Benfica, Benfica!' Porque, ao contrário dos ouros lados, nós sempre crescemos a ganhar muito naturalmente, sem termos, sequer, de pensar em geografias..."

José Nuno Martins, in O Benfica

Trocar esforço por confiança

"O Benfica retificou o desaire de Zageb e marcou lugar no sorteio dos quartos de final da Liga Europa. Precisou de 120 minutos, é certo, para retirar dúvidas quando a uma superioridade futebolística que não devia ter sido posta em causa, mas prestigiou o nome do clube na UEFA e ajudou a um melhor ranking português, num contexto em que o nosso mais directo adversário, a Rússia, perdeu os derradeiros dois representantes, Zenit e Krasnodar.
Bruno Lage viu-se obrigado a gerir recursos, poupou até poder Grimaldo, Jonas e João Félix, mas acabou por ter de recorrer aos seus préstimos, tão notória era a incapacidade de vislumbrar sucesso sem uma verdadeira capacidade atacante. Por um lado, poderá dizer-se que, de olhos postos no difícil jogo do próximo domingo, em Moreira de Cónegos, a contar para a competição que mais interessa ao Benfica ganhar na presente temporada, o desgaste a que essas pedras nucleares do Benfica foram chamadas constituiu um desvalor. Mas por outro, mais importante do que o primeiro para quem conhece os movimentos mais profundos de um balneário, recuperou o elã vitorioso que encalhara em Zagreb e frente ao Belenenses SAD, criando, a montante e a jusante, razões de optimismo que tornam um grupo mais forte. Na gíria do futebol, há uma máxima que diz que «vitórias puxam vitórias», salientando-se nela a importância de um astral positivo nos sucessos pretendidos. E foi isso que o Benfica ontem, acima de tudo, conseguiu: a equipa de Bruno Lage investiu algum esforço físico suplementar, esperando um retorno feito de juros altos, em forma de confiança reforçada..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Os actores principais

"Benfica ainda apanhou dois sustos, mas justificou plenamente a passagem aos quartos

Desligados e longos
1. Fiel à identidade que está a tentar construir mas também percebendo-se que há uma hierarquia de objectivos, Bruno Lage apresentou um onze com muitas novidades, com destaque para a estreia de Jota. Com o resultado de 1-0 e sabendo que a atitude do adversário seria defensiva, o Benfica tentou ultrapassar o Dínamo sem colocar em questão o seu principal horizonte, o campeonato nacional. Mas não correspondeu na primeira parte, com a equipa, sem largura, a ser incapaz de fazer jogo exterior. Os encarnados apresentavam-se desligados no último terço, demasiado longos, com pouca criatividade, sem criar ocasiões de golo. E com pouca presença na área.
O Dínamo ainda tentou pressionar a primeira fase de construção da águia, mas quando não conseguiu baixava imediatamente. As excepções nesta fase do jogo foram Pizzi e Rafa, com o Benfica a ganhar maior largura quando Pizzi aparecia num dos flancos. Face a este cenário, o Dínamo sentia-se confortável, com Dani Olmo a revelar qualidade e a tentar o desequilíbrio.

Um livre em movimento
2. Bruno Lage percebeu que para a segunda parte tinha de ir buscar os actores principais e chamou Jonas e Grimaldo, aos quais mais tarde se juntou João Félix. Coincidência das coincidências, Jonas marcou um excelente golo e Grimaldo executou um livre em movimento. Com a entrada destes dois jogadores toda a equipa melhorou, os níveis de intensidade subiram, houve maior pressão, o Benfica não deixou o adversário respirar. Assim, este período foi de autêntico domínio territorial, embalando para uma exibição mais acutilante mas nem sempre esclarecida. No entanto, os encarnados apenas fizeram um golo e acabaram por ir a prolongamento, no qual resolveram a partida. O Benfica ainda apanhou dois sustos mas justificou plenamente a passagem, sobretudo face à exibição da segunda parte.

Um Rafa de Ferro
3. Em termos de destaques individuais, nota para a exibição de Ferro, que fez um passe para Pizzi, que posteriormente assistiu Jonas para o primeiro golo e fez o segundo de forma extraordinária. Julgo estarmos na presença de um grande central, sóbrio. Além disso, Pizzi, pela exibição que fez, merecia um golo e Rafa está num momento muito bom, destacando-se a profundidade que dá à equipa e a velocidade com bola. Grimaldo também esteve muito bem, tal como Jonas. No fundo, colectivamente, após duas exibições menos conseguidas, o Benfica na segunda parte regressou ao passado recente daquilo que tem sido a era Bruno Lage."

Vítor Manuel, in A Bola

A noite mágica de Leverkusen

"Os meus caros leitores nascidos antes da década de 1990, certamente se lembrarão da velhinha Taça dos Clubes Vencedores de Taças. Nessa época, os nomes das competições ainda cumprem o que prometem: entre 1960 e 1999, apenas os vencedores das respectivas taças nacionais dos seus países disputam esse troféu. Depois da Taça dos Campeões Europeus, a „Taça das Taças“ foi na altura a segunda mais importante competição do nosso continente.
Para a minha grande alegria, o sorteio dos quartos-finais da „Taça das Taças“ em Março de 1994, determina dois jogos entre o Benfica e o Bayer Leverkusen. Os 220 quilómetros da minha casa em Offenbach até Leverkusen, não são mais do que um agradável pulinho, comparado com as viagens a Lisboa.
Depois da primeira mão frente a oitenta mil adeptos no antigo Estádio da Luz, o apuramento para as meias-finais está ainda por completo em aberto, uma vez que o jogo entre as duas equipas em Lisboa termina com um empate por 1:1. Markus Happe colocou a „Werkself“ na liderança, Isaías empatou no último minuto da partida.
Duas semanas depois, a segunda mão trará a decisão. No dia 15 de Março, Benfiquistas de todos os cantos da Europa estão a caminho de Leverkusen. Largas horas antes do pontapé de saída, já estamos em frente ao estádio de Leverkusen. „E tu... de onde vens?“, é uma das perguntas mais frequentes, enquanto brindamos com uma ou outra cerveja à saúde do Glorioso. Mais tarde, já dentro do recinto, uma das bancadas laterais do antigo Estádio Ulrich Haberland está quase por completo em mãos dos Benfiquistas.
Quando o Benfica chega ao recinto, duas horas antes do pontapé de saída, os jogadores do Glorioso vêem apenas uma enorme multidão em vermelho. Anos depois, Rui Costa recordará o momento numa entrevista para o site Maisfutebol: „Era a cor do Bayer e achámos que se o estádio estava cheio com tanta antecedência ia ser um ambiente infernal. Mas depois fomos pisar a relva e percebemos que havia tantas faixas de adeptos do Benfica como de alemães.“
Rui Costa e os seus companheiros de equipa bem que precisam de forte apoio Benfiquista nessa noite, porque a „Werkself“ do treinador Dragoslav Stepanović tem naquela época um plantel de luxo e joga com vários estrelas, como Ulf Kirsten, Bernd Schuster ou Andreas Thom.
À entrada das duas equipas em campo, os Benfiquistas nas bancadas, transformam o estádio esgotado com 21 mil espectadores, num mar de tochas e fumos. Mas depois da fumaça desaparecida, jogam apenas os anfitriões. Ulf Kirsten inaugura o marcador aos 24 minutos, Bernd Schuster aumenta após 58 minutos para 2:0.
Enquanto o ambiente nas bancadas entre os Benfiquistas oscila entre esperança e ansiedade, começa a meia hora mais incrível, que alguma vez vivi, em todas estas décadas com o Benfica. Apenas um minuto depois do 2:0, Abel Xavier marca com um remate de longe o primeiro golo das Águias nessa noite. O jogo fica empatado 60 segundos mais tarde. Depois de um canto da esquerda, João Vieira Pinto marca de cabeça mesmo em frente à baliza. A partir de agora, o jogo fica totalmente impróprio para cardíacos, até que Vassiliy Kulkov aproveita um contra-ataque aos 78 minutos e marca o 2:3. Já está!
Mas ainda não estava, pois os jogadores do Bayer por enquanto, não se dão por vencidos. Nos próximos 240 segundos, Ulf Kirsten e Pavel Hapal viram o resultado de novo para 4:3. O ambiente entre os Benfiquistas balança agora entre desespero e histeria. Apenas três minutos mais tarde, João Vieira Pinto passa a bola para Kulkov e o russo marca de onze metros de distância o 4:4. Agora é que está mesmo, é a loucura total. Toda a gente cai em cima uns dos outros. Mesmo semanas depois, ainda são visíveis as nódoas negras que levo da noite mágica de Leverkusen.
O Glorioso está nas meias-finais da Taça dos Clubes Vencedores de Taças, onde será eliminado pelo AC Parma. Depois de ter vencido a primeira mão na nossa Catedral por 2:1, o Benfica perde o segundo jogo na Itália por 1:0. A regra dos golos marcados fora de casa, que ajudou as Águias a voar até às meias-finais, impede-os agora na participação em mais uma final europeia. Mas o que verdadeiramente fica na memória desta temporada de 1993/94, é a noite mágica de Leverkusen. 
Mesmo na Alemanha, a euforia é tão grande, que um mês depois do jogo, um grupo de emigrantes, que também tiveram o privilégio de estarem presentes no Ulrich-Haberland-Stadion, fundam a Casa do Benfica de Groß-Umstadt. A primeira e, até hoje, a única Casa do Benfica em terras germânicas."