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terça-feira, 20 de janeiro de 2026
CAN: do sucesso comercial ao caos na final
"Terminou no passado domingo à noite a última edição do Campeonato Africano de seleções, mais conhecido por CAN, com a vitória épica do Senegal numa final inacreditável, onde aconteceu de tudo.
Ainda com as contas finais por validar, os primeiros indicadores apontam para um crescimento da receita comercial do evento que se traduzirá num aumento de 90% face à edição anterior, impulsionada por 23 patrocinadores (contra 17 em 2023).
Espera-se que a CAN de 2025/26, disputada em Marrocos, deverá gerar um resultado líquido de 114 milhões de dólares. Vale a pena salientar que forma investidos 4,4 mil milhões de dólares em infraestruturas por Marrocos, que servirão de centro para o ciclo de 2025 até ao Mundial de 2030.
O número de parceiros comerciais cresceu para 23, com a atração de algumas marcas globais. Os modelos de patrocínio estão a mudar da simples exposição do logótipo para um impacto mensurável, como cliques, conversões e métricas de fidelização de adeptos. Cerca de 65-75% do consumo africano em plataformas digitais está focado em desporto e música, impulsionando a necessidade de colaborações ao estilo TikTok para um envolvimento mais profundo dos adeptos, facto que a CAN explorou de forma magistral.
Outra tendência para a melhoria da experiência do adepto, são as equipas a utilizarem blogues ao vivo, salas de chat digitais e plataformas de venda direta ao consumidor para controlar o conteúdo e rentabilizar os dados dos adeptos. Vale a pena recordar a demografia dos adeptos: 70% da população de África tem menos de 35 anos, destacando-se um público jovem e que dá prioridade ao digital.
Quando tudo parecia muito bem encaminhado para a melhor edição de sempre da CAN, eis que os últimos minutos da final entre Senegal e Marrocos se transformam num autêntico pesadelo. Depois de 85 minutos de futebol bem jogado e emotivo, ninguém esperava o que viria acontecer nos minutos seguintes.
Um golo mal anulado e um penalti duvidoso marcar logo a seguir transformaram o estádio num caldeirão autêntico. O Senegal ameaçou e abandonou o relvado. O público tentou invadir. Ameaças, empurrões e insultos por todos os intervenientes. Uma equipa de arbitragem incapaz a assistir a tudo. Ao fim de 20 minutos de interregno uma estrela do Real Madrid tem a oportunidade de uma vida de ficar na história do seu país e resolve desperdiçar, naquele que ficará conhecido como o pior Panenka da história do futebol mundial.
Perde África que estava prestes a mostrar ao mundo todo o seu talento e excelência no futebol mundial bem como na organização de competições desta dimensão. Demorará alguns anos a reconquistar a confiança de adeptos e patrocinadores."
A minha experiência, jogadores, competição e Costa do Marfim
"Quando o mister José Peseiro me ligou a convidar para o acompanhar como treinador adjunto principal da Seleção da Nigéria, pedi-lhe um dia para pensar. Não por hesitação, mas por respeito. Nessa altura, tinha acabado de fazer subir a União de Santarém à 3.ª Liga (curiosamente o ultimo a te-lo conseguido foi precisamente o José Peseiro a mais de 30 anos), estava focado no meu caminho como treinador principal e totalmente comprometido com esse projeto. Ainda assim, do outro lado estava um desafio raro: integrar uma seleção icónica, num contexto de exigência máxima, ao lado de um treinador que cresci a respeitar e a admirar.
No dia seguinte, liguei-lhe de volta e fiz-lhe apenas uma pergunta:
Qual é o seu objetivo pessoal?
A resposta foi direta e sem rodeios: fazer história na Nigéria e vencer a CAN.
A partir desse momento, não houve mais dúvidas. Se o objetivo era vencer, eu estava dentro. Sempre gostei de desafios amplos, de contextos exigentes e de missões onde o risco é proporcional à ambição. Assim começou a minha experiência como selecionador adjunto da Nigéria.
A CAN revelou-se uma competição dura, intensa e profundamente formadora. Trabalhar com jogadores de elite mundial, muitos deles com histórias de vida marcadas pela superação, confirmou-me que o futebol de seleções é tanto humano quanto tático. O nosso maior desafio não foi apenas o modelo de jogo, mas a construção de um ambiente de confiança, responsabilidade e exigência emocional constante. O tempo é curto, os jogos acumulam-se e o erro não perdoa.
A competição é implacável. Não há jogos fáceis. Mesmo seleções teoricamente menos favoritas competem com orgulho, intensidade e coragem. Isso obriga-nos a estar sempre preparados para o imprevisto, atentos ao detalhe e conscientes de que o contexto influencia tudo.
A Costa do Marfim foi o maior exemplo dessa realidade. Esteve praticamente fora da competição, mudou de treinador, redefiniu responsabilidades e transformou instabilidade em força. Jogar em casa trouxe pressão extrema, mas também uma energia coletiva difícil de travar. Souberam crescer, adaptar-se emocionalmente e chegar à final com crença.
No fim, após a final, tomámos a decisão de sair. Trabalho feito. Missão cumprida.
Deixámos um legado competitivo, humano e estrutural.
Saí melhor treinador, melhor líder de contextos e com a certeza de que algumas experiências não se medem apenas em resultados — medem-se no impacto que deixam.
A Final (decisão e justiça do jogo)
A final da CAN terminou com a vitória do Senegal, num jogo que ficará marcado pela tensão, pelas decisões difíceis e por um equilíbrio extremo até ao último instante. O resultado sorriu ao Senegal, mas a verdade é que a vitória também não seria injusta se tivesse caído para Marrocos.
O jogo foi intenso e emocionalmente pesado. Aos 90 minutos, o Senegal chegou ao golo, invalidado por uma decisão muito discutível da arbitragem. No lance seguinte, um penálti assinalado a favor de Marrocos elevou ainda mais a carga emocional da final. Perante essa sequência, os jogadores senegaleses chegaram a abandonar o relvado, num gesto de frustração rara a este nível competitivo. O jogo só foi retomado após a intervenção do capitão Sadio Mané, que teve o discernimento de colocar o jogo acima da emoção — um ato de verdadeira liderança.
Na grande penalidade, Brahim Díaz assumiu a responsabilidade e falhou, mantendo o jogo em aberto. Do lado marroquino, Yassine Bounou voltou a ser decisivo, sustentando a equipa em vários momentos críticos. O golo chegou de um momento de intensidade e crer de Gueyen expressando a característica da final.
O Senegal acabou por vencer, mas Marrocos competiu até ao limite. Foi uma final onde o detalhe decidiu, e onde ambas as seleções saem valorizadas. Porque há jogos em que o vencedor é claro… e outros em que o futebol reconhece mérito dos dois lados.
Jogadores de destaque da CAN
Nesta CAN, os jogadores de destaque definiram-se menos pelos números e mais pela capacidade de assumir responsabilidade nos momentos críticos, quando o jogo deixou de ser apenas futebol.
Por Marrocos, dois nomes simbolizam essa realidade. Yassine Bounou foi determinante pela frieza e fiabilidade nos momentos-limite. Em jogos de margem mínima, o guarda-redes torna-se determinante, e Bono confirmou-o com intervenções que sustentaram a equipa quando a pressão foi máxima. Ao seu lado, Brahim Díaz representou a ambição ofensiva: qualidade entre linhas, coragem para assumir e vontade de decidir. Porém, arriscou em excesso ao optar por uma panenka desplicente. É verdade que só falha quem tem coragem de assumir, mas também é verdade que nem todo o risco é virtuoso. Nesse momento, fez-se justiça ao jogo.
Na Nigéria, Akor Adams deu profundidade e presença física ao ataque, condicionando centrais e permitindo à equipa jogar mais alto mesmo em jogos fechados.
Pelo Senegal, Idrissa Gueye marcou um grande golo, daqueles que mudam o estado emocional do jogo. E o gesto de liderança de Sadio Mané, ao chamar os colegas de volta ao campo num momento de tensão extrema, colocou o jogo acima da emoção — exemplo raro de discernimento competitivo.
No Egito, Omar Marmoush assumiu protagonismo ofensivo, velocidade e responsabilidade quando a equipa mais precisou.
Esta CAN confirmou uma verdade simples: talento decide jogos; discernimento decide competições.
Leitura estatística da competição
Os dados desta CAN confirmam um torneio marcado pelo equilíbrio extremo. Cerca de 62% dos jogos a eliminar foram decididos por um golo ou menos, e aproximadamente 27% terminaram em prolongamento ou grandes penalidades, o que evidencia a reduzida margem de erro.
As seleções que atingiram as meias-finais sofreram, em média, menos de 1 golo por jogo, sublinhando a importância da solidez defensiva. Em contraste, várias equipas vencedoras apresentaram posses médias inferiores a 50%, reforçando que a eficácia e a decisão nos momentos-chave foram mais determinantes do que o domínio territorial.
Mais de 40% dos golos surgiram em transições ofensivas, muitas delas com menos de 6 passes até à finalização, confirmando a relevância da velocidade de execução e da leitura do espaço. Outro dado significativo prende-se com a estabilidade: as equipas com menor rotatividade no onze inicial tiveram melhor rendimento nas fases decisivas e cometeram menos erros não forçados.
Em síntese, os números validam o que o campo mostrou: na AFCON, o detalhe decide, mas só a favor de quem consegue sustentar rendimento físico, clareza emocional e rigor competitivo ao longo de todo o torneio."
Quando o "sucesso" é só fachada
"No desporto português fala-se muito de sucesso. Demais até. O problema é que, demasiadas vezes, não se define sucesso e esse sucesso não passa de uma fotografia bem iluminada: um palco bonito, um comunicado otimista, uma cerimónia bem montada. E, atrás das cortinas, desorganização, improviso e o eterno desenrascanço.
Trabalha-se mais horas do que seria necessário, gastam-se mais recursos do que seria aceitável e gera-se menos impacto real do que aquele que é anunciado. Ainda assim, no final, há aplausos. Há quem saia convencido de que tudo correu “excelentemente”. Porque “correu” — pelo menos à vista desarmada.
Mas o problema não é apenas organizativo. É estrutural. E é cultural.
Continuamos a olhar para o desporto como um fim em si mesmo: realizar provas, cumprir calendários, apresentar números. Esquecemo-nos, vezes demais, de que o desporto é — ou devia ser — um meio. Um instrumento de intervenção na sociedade civil. Um espaço de inclusão, de coesão social, de responsabilidade coletiva e de criação de valor humano. Sem essa visão, o desporto limita-se a existir para si próprio. Não transforma. Não deixa rasto.
É neste contexto que surge o tema mais incómodo de todos: o financiamento.
Sempre que, nos últimos cinco anos, critiquei o corporativismo instalado e a lógica de um sistema que apenas sabe pedir dinheiro ao Estado, fui violentamente atacado pelos chamados “velhos do Restelo”. Não por dizer algo errado, mas por dizer algo perigoso. Questionar a subsidiodependência é mexer num modelo que vive de migalhas distribuídas, de dependências convenientes e de uma gestão acomodada à escassez.
Um sistema que não quer — nem sabe — lidar com entidades independentes, autónomas e financeiramente responsáveis. Basta olhar para o passado recente e para o presente do desporto nacional: do anterior Presidente do Comité Olímpico, verdadeiro “pai” desta escola, ao atual Presidente da Confederação do Desporto, aluno fiel desta máxima. Muda o discurso, mantém-se o método.
A experiência, porém, ensina. Em quatro anos como Presidente da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal, sempre defendi que o financiamento não seria um problema para uma associação que tinha, até então, um orçamento anual de apenas seis mil euros. E não foi um problema — foi uma oportunidade. Durante esse mandato foi possível estabelecer parcerias com empresas e instituições que totalizaram mais de 500 mil euros, multiplicando por quase vinte vezes o valor disponível anualmente.
Esse caminho incomodou. Incomodou muito. Porque a independência expõe fragilidades. Porque a profissionalização retira desculpas. E porque é sempre mais fácil desvalorizar quem faz diferente do que mudar práticas enraizadas.
Mais recentemente, na Federação Portuguesa de Atletismo, onde desenvolvi trabalho de consultoria, foi possível, em apenas um ano — e apesar de muitos e variados obstáculos internos e externos — repetir esse valor: 500 mil euros, agora num único ano. O processo culminou num contrato de excelência com uma entidade bancária de referência, que acreditou e valorizou uma proposta de valor assente em três pilares estratégicos: identidade, responsabilidade social e aumento do número de praticantes.
Não houve magia. Não houve sorte. Houve estratégia, gestão profissional e uma proposta de valor clara. Pedir dinheiro sem visão é perder tempo. O dinheiro não foge. O dinheiro segue a competência, a credibilidade e o impacto social. Sempre seguiu.
O que falha, recorrentemente, não é a falta de dinheiro no sistema. É a falta de capacidade para o atrair. Confunde-se financiamento com subsídio. Parceria com esmola. Autonomia com ameaça. Enquanto assim for, o desporto continuará refém de ciclos curtos, dependente de vontades políticas que adoram a subsidiodependência e incapaz de construir projetos verdadeiramente sustentáveis.
E aqui chegamos ao ponto que muitos preferem evitar: o desporto português precisa de abandonar definitivamente o amadorismo dirigente e a lógica da carolice. Boa vontade não substitui competência. Paixão não substitui método. O voluntarismo tem limites quando se gerem dinheiros públicos, parceiros estratégicos e projetos com impacto social.
O futuro exige dirigentes profissionais. Pessoas qualificadas. Remuneradas — e bem remuneradas quando necessário. Avaliadas por resultados. Responsabilizadas pelas decisões que tomam.
A grande ironia é esta: continua a aplaudir-se o resultado visível sem perceber o verdadeiro custo desse “sucesso”. Mais horas. Mais custos. Menos eficiência. Menos casos verdadeiramente transformadores. Monta-se um palco bonito. Por trás, as cordas estão gastas. Aguenta… até ao dia em que deixa de aguentar.
O desporto, como a vida, não perdoa o amadorismo. O profissionalismo cria oportunidades. O improviso cria problemas.
No fim, a questão é simples: o desporto só faz sentido quando cria valor para lá da competição. Quando é inclusivo, responsável e socialmente relevante. O desporto português precisa de menos espectadores encantados com a aparência e de mais dirigentes capazes de construir autonomia, credibilidade e futuro."
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