Últimas indefectivações

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Vermelhão: Desvantagem no primeiro objetivo...

St. Gallen 2 - 1 Benfica


Não gosto de ter razão, mas no momento da derrota dos Lagartos, no Jamor, previ extremas dificuldades, para o Benfica, nestas eliminatórias! Mesmo antes de saber o adversário, era fácil adivinhar, que um Benfica sem a maioria dos seus titulares, iria sempre ter muitos problemas em competir contra adversários de categoria inferior, mas mais focados por jogarem exactamente contra o Benfica!!!

Foram 9 os ausentes (jogadores que actualmente fazem parte do nosso plantel), praticamente todos titulares, dois estiveram no banco, mas com poucos dias de treinos, mais os outros 4 mundialistas, 1 castigado, 1 adoentado e a nova contratação, ainda fora da convocatória! São demasiados para um jogo oficial... Consequência de vários factores, que começou em Famalicão com o ladrão do apito, e passou pelos calendários absurdos que a FIFA e a UEFA promovem...

Em relação ao jogo, as declarações do Marco Silva no final da partida, foram exemplares! Contra uma equipa especialista na pressão alta, tivemos sempre muitas dificuldades na saída de bola... Nova época, mas voltámos a perder demasiadas bolas em zonas de perigo, oferecendo transições ao adversário... E golos sofridos na sequência direta de erros nossos!!!


Também criámos alguma oportunidades, mas voltámos a ser pouco eficazes... Eu sei que a cassete habitual nestes momentos, obriga a utilização de termos, como falta de atitude e afins, mas muito sinceramente não vi isso! Vi um adversário mais bem preparado fisicamente nesta fase da época, mais rápido e ganhar mais duelos, mas não vi os nossos jogadores a não quererem...

Com um 11 muito diferente daquilo que será o nosso 11 durante a época, tenho que referir o 'problema' Sudakov! Continua a cometer muitos erros, a ser pouco prático, a não segurar a bola quando deve, e ser muito lento a soltá-la quando existe espaço! A jogar assim não será titular... até o Barreiro nesta posição é mais útil!!! Mais um problema para a Direção resolver...

De todos os ausentes, aquele que para mim fez mais falta, acabou por ser o Prestianni, que nesta curta pré-época, quando entrou mudou imediatamente o jogo do Benfica, e hoje o Gouveia até não entrou mal, mas existe uma diferença... Sendo que tendo em conta o tipo de adversário, o Barreiro também fez muita falta!


Em condições normais a eliminatória estaria controlada e o jogo da 2.ª mão na Luz, daria goleada, contra um adversário voluntarioso, mas quando a linha de pressão alta é ultrapassada, abre enorme espaços e que em ataque organizado não preocupa, mas mesmo com a entrada do Araújo e do Dedic, a diferença será 'curta'... os outros mundialistas é que seria importante regressarem, pois ocupam posições deficitárias, mas mesmo que regressem aos treinos nos próximos dias, dificilmente estarão disponíveis!

O BENFICA ESTÁ DE VOLTA! ESPERANÇA EM MARCO SILVA


"1. Não conheço um Benfiquista que não tenha mostrado satisfação pela contratação de Marco Silva. Foi uma boa aposta de Rui Costa.

2. Marco Silva já deu provas de ser tecnicamente um bom treinador. Porém, como bem testemunhámos no passado recente, ser tecnicamente um bom treinador é condição necessária, mas não suficiente.

3. Marco Silva tem uma personalidade forte: que seja exigente com a estrutura, especialmente a do estádio, que imponha uma mentalidade competitiva compatível com uma equipa que quer ganhar competições, que arraste todo o clube para um patamar do qual temos andado há muito afastados.

4. Marco Silva comunica bem, é muito diferente de Mourinho, é verdade, mas, no seu estilo próprio, comunica bem. A excelente conferência de imprensa de ontem foi disso mais um bom exemplo.

5. Marco Silva é um super homem, vai sozinho dar a volta a um texto que tem sido claramente mal escrito? Não, esqueçam isso. O Benfica, todo o Benfica, a começar nos dirigentes, com Rui Costa à cabeça, tem que conseguir estar a um nível muito superior ao demonstrado nas últimas épocas.

6. Por fim, mas não por último, o Benfica não pode continuar a deixar-se comer de cebolada por arbitragens manhosas e com agenda muito bem definida. Essa luta não cabe a Marco Silva, mas todo o seu trabalho, por melhor que ele possa estar a ser feito, irá por água abaixo se a verdade desportiva voltar a ser posta em causa."

Diferenças...

Benfica: duplo xeque-mate


"Ninguém gosta da silly season, mas todos nutrimos algum carinho escondido por ela. É uma espécie de sentimento agridoce e paradoxal que nos assola todos os verões, que apenas o Mundial e o Europeu podem ser capazes de contrariar. Mas quando se deu o apito final em New Jersey e os espanhóis voltaram a ser donos e senhores do futebol, rapidamente voltou a ânsia incontrolável de voltarmos aos nossos clubes, ao nosso conforto e à realidade permanente de um adepto.
Ponto prévio: oficialmente, sou primeiro sócio do Benfica do que cidadão português. Assim sendo, a espera é infelizmente mais curta e contamos apenas quatro dias entre o jogo mais importante do futebol e o jogo mais importante para quem canta Luís Piçarra semanalmente desde criança. Colhemos os frutos do que plantámos coletivamente em outubro do ano passado, acabando por terminar a época transata — mais uma vez — afastados da corrida ao título e com a agravante já conhecida da falta (dos milhões) da Champions.
Escrevo no dia em que o meu clube começa a longa caminhada para chegar à Liga Europa, uma competição onde nos devemos assumir como candidatos à vitória. No papel e na prática, o Benfica tem de estar taco a taco na pole position para voltar a conquistar um título europeu. A memória dos anos 60 é saudável, mas não se pode tornar apenas eterna e deve ser renovada. Essa ambição deve expressar-se mais dentro de campo do que através de proclamações que embandeirem em arco — exemplo máximo é o #VaiDarPortugal da FPF que se revelou uma má escolha comunicacional.
Voltando ao início, todas as pré-épocas têm o poder mágico de nos fazer acreditar. Há dias, ouvia o Alberto Miguéns, historiador incontornável do clube, afirmar que não existiu nenhum ano em que não acreditasse que o Benfica podia ser campeão. É este sentimento que nos corre nas veias e que vai beber à inevitabilidade eternizada por Mário Wilson: «Quem treina o Benfica, arrisca-se a ser campeão.»
É aqui que entra Marco Silva e o verdadeiro desafio que tem em mãos, partindo com a obrigação de se tornar no tal manager que Ruben Amorim diz precisar de ser para aceitar os seus desafios profissionais. Isto porque o Benfica entra em desvantagem desportiva, competitiva, financeira, comunicacional e institucional. É uma corrida desigual em toda a linha e que se agrava desde 2021. Corre por aí uma ideia de que alguns sócios do Benfica se tornaram profetas da desgraça profissionais — tese sobre a qual não posso discordar mais. É por isso que, em mais um dia inicial inteiro e limpo para quem acredita sempre, é importante entender o nosso ponto de partida.
A nossa paixão pelo Benfica exige-nos seriedade sem palas. Caro consócio, caro companheiro de Red Pass, caro colega com quem debato o Glorioso, esta é a reflexão que quero fazer em conjunto. Acredito genuinamente que é a nossa força inexplicável que será capaz de quebrar com o marasmo ao qual temos assistido nas últimas temporadas. Confesso-vos: estou farto de perder por norma e ganhar ocasionalmente. Cresci exatamente ao contrário. Aliás, crescemos todos. Convencidos — e com propriedade — que o Benfica ganhava por norma e perdia ocasionalmente. E é doloroso perceber que essa certeza de infância se transformou, sem darmos por isso, no seu inverso perfeito.
Já não aguentamos a roleta russa institucionalizada em que nos tornámos, onde é impossível prever onde a bola irá cair. Passámos os últimos anos a discutir bolas azaradas nos ferros, arbitragens polémicas e cabalas generalizadas — e a verdade mais desconfortável de todas é esta: os benfiquistas transformaram-se em comentadores de arbitragem porque deixaram de poder comentar títulos. Peço desculpa pela ousadia, mas isto não é o ADN do clube pelo qual todos nos apaixonámos.
E o planeamento desta temporada volta-me a preocupar pelo que revela sobre a forma como decidimos. Esta pré-época deu sinais de dúvida sobre padrões que já conhecemos de cor: contratações que parecem seguir mais o nome e o risco do que a ponderação e a certeza. E é assim, sem darmos por isso, que o maior clube do país se instala permanentemente no fio da navalha, à espera de que o rasgo individual resolva o que a estrutura devia ter resolvido antes.
Há uma definição atribuída a Einstein que descreve a insanidade como repetir exatamente a mesma coisa esperando um resultado diferente. Desde 2021, o Benfica é especialista na matéria. Um recomeço é casual. Dois, talvez ainda se explique. Seis técnicos depois, já não há explicação que resista — são fraturas expostas que não podemos ignorar. Na identidade vencedora. Na capacidade de manter (ou mesmo criar) uma base. Na coragem de dizer 'este fica mais um ano até ser campeão'. Na forma como se recebe quem chega. Na exigência de que ganhar é obrigatório, e não uma cláusula no contrato.
Talvez seja por isso que o maior erro cometido pelo Benfica nos últimos anos tenha sido outro: confundir a fidelidade dos adeptos com um plano estratégico. Não temos forma de saber se Marco Silva vai ser campeão. Sabemos apenas que chega a um clube onde os sócios se habituaram a recomeçar. E nenhum treinador consegue ganhar campeonatos num clube que vive permanentemente em modo de restart. Não existem milagreiros. Há sim oportunidades que só valem alguma coisa quando há quem as saiba aproveitar por cima dele.
E é por isso que esta é, sem qualquer margem para dúvidas, a época do sim ou sim. Não há mais desculpas disponíveis, nem mais recomeços a que tenhamos direito. Quem está no Seixal deve saber, desde já, que o tribunal da Luz assim o ditará — sem piedade, mas também sem ressentimento, porque é assim que se ama verdadeiramente um clube: exigindo dele aquilo que ele nos ensinou a esperar de si próprio.
Precisamos de ver uma Direção mais articulada, capaz de antecipar em vez de reagir, de preparar com critério em vez de correr atrás do mercado. Precisamos de sentir que existe, finalmente, um fio condutor entre o que se promete em julho e o que se entrega em maio. E, enquanto isso não acontece de forma inequívoca, cabe-nos a nós, sócios e adeptos, sermos vigilantes, atentos e exigentes. Mas nunca ausentes — porque estaremos, como sempre, a apoiar do primeiro ao último minuto, do primeiro ao último jogo.
Daqui a poucas horas, o Benfica entra em campo. Vamos sonhar antes de saber se esta equipa é boa. Vamos aplaudir jogadores sobre os quais ainda não temos certezas. Vamos acreditar, como fazemos todos os anos. Mas desta vez, temos a obrigação de exigir uma coisa diferente. Quero acreditar que a nossa fé deixa finalmente de servir para esconder os problemas e volta a servir exclusivamente para empurrar o Benfica. Porque nós fazemos sempre a nossa parte. Está na hora de quem decide fazer a dele.
Quero voltar a viver o tempo em que sentimos que os rivais jogam às damas, confortáveis com as suas falsas certezas, e o Benfica, sem medo e sem pedir licença a ninguém, joga xadrez. De preferência com duplo xeque-mate: Marquês e Frankfurt."

Zero: Mercado - Dortmund olha para Pietuszewski

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Câmara do Porto ao lado do Boavista: o que significa isto?

Observador: E o Campeão é... - Benfica mostra-se "Golias" na estreia de Marco Silva?

Observador: Três Toques - Haaland e Vozinha: quem ganhou o Mundial dos seguidores?

Vozes da Luz #2 - ANÁLISE AO FLAMENGO E AO VILLARREAL

Oliveira: Palhinha...

DAZN: F1 - Antevisão ao GP da Hungria

Apelo aos adeptos do SL Benfica


"Apoio com paixão, mas igualmente com responsabilidade e respeito pelas regras, tanto em Portugal como além-fronteiras.

O Sport Lisboa e Benfica agradece, uma vez mais, o apoio incondicional dos milhares de Benfiquistas que acompanham a equipa em todos os estádios, em Portugal e no estrangeiro. A sua paixão e o seu entusiasmo são a maior força do Clube e um fator decisivo nas vitórias.
É precisamente por reconhecermos a importância incomparável dos nossos adeptos que apelamos ao sentido de responsabilidade de todos.
O Sport Lisboa e Benfica encontra-se sob pena suspensa nas competições europeias. Assim, qualquer utilização de pirotecnia ou outro comportamento que viole os regulamentos da UEFA implicará, automaticamente, a execução dessa sanção, impedindo a presença de adeptos do Benfica no jogo seguinte disputado fora de casa.
Nenhum Benfiquista quer ver o Benfica privado do apoio dos seus adeptos. Nesse sentido, apelamos a todos os adeptos que apoiem o Benfica com paixão, mas igualmente com responsabilidade e respeito pelas regras, tanto em Portugal como além-fronteiras."

Entrar a vencer


"Em destaque na BNews, a antevisão à estreia oficial do Benfica na nova temporada, hoje, em St. Gallen, às 19h00 de Portugal Continental, e o apelo aos Benfiquistas que vão apoiar o Benfica nesta partida.

1. Apelo aos adeptos
Leia o apelo do Sport Lisboa e Benfica aos Benfiquistas que estarão em St. Gallen para ajudar o Benfica a ganhar: "Apoio com paixão, mas igualmente com responsabilidade e respeito pelas regras, tanto em Portugal como além-fronteiras."
Recorde-se que o Benfica se encontra sob pena suspensa nas competições europeias.

2. Começar bem
Marco Silva assume o favoritismo na eliminatória com o St. Gallen, mas deixa um alerta: "A dimensão do Benfica obriga a isso e encaramos essa realidade sem problema absolutamente nenhum. Mas, no futebol, ninguém ganha antes de começar o jogo. O que importa é aquilo que iremos fazer dentro das quatro linhas e estarmos preparados para o que aí vem. Queremos fazer um bom jogo e conseguir um bom resultado, sabendo que depois teremos mais um jogo no Estádio da Luz."

3. Do Benfica Campus a St. Gallen
Veja o vídeo de bastidores da viagem da comitiva benfiquista até à Suíça.

4. Informações aos adeptos
À atenção dos Benfiquistas que vão apoiar o Benfica em St. Gallen.

5. Ingressos disponíveis
Confirme como pode adquirir bilhetes para o particular entre Benfica e Belenenses agendado para a próxima sexta-feira, às 18h00, no Estádio da Luz.

6. Pré-época da formação
A equipa B venceu por 2-1 ante o Al-Nassr. Os Sub-23 e os Juniores tiveram mais jogo-treino.

7. Inspiradoras
O plantel feminino de futebol do Benfica já prepara a nova temporada. Seimeyeha Janet Akekoromowei, avançada nigeriana de 18 anos, é reforço.

8. Parceria renovada
Benfica e Espaço Casa (main sponsor da equipa feminina de futebol) estendem a ligação até 2029.

9. Arranca a época
A equipa masculina de andebol do Benfica já trabalha com vista à nova temporada.

10. Movimentações do defeso
Abouba, oposto internacional brasileiro, junta-se ao voleibol benfiquista. Tiago Violas, também voleibolista, renovou o contrato.
No futsal, Diogo Carrera deixa de representar o Benfica."

Lanças...


História Agora


Então obrigaram o jogador a jogar lesionado e a culpa é dos outros?!!!

Antes do campeão, a criança


"Esta é uma altura em que muitas famílias tomam decisões sobre a próxima época desportiva. Abrem-se inscrições, escolhem-se clubes, compram-se equipamentos e repetem-se as perguntas: futebol ou natação? Ginástica ou judo? Deve a criança continuar na modalidade do ano passado ou experimentar uma diferente? Fica no mesmo clube ou muda?
Frequentemente, estas decisões são guiadas pela procura da modalidade em que a criança poderá ter mais sucesso, do clube onde terá mais oportunidades de vencer ou do contexto que parece oferecer um futuro mais promissor. Contudo, talvez este não seja o melhor princípio orientador. A pergunta mais importante não deverá ser 'em que modalidade poderá ter mais sucesso?', mas 'que experiências precisa de viver para se desenvolver?'.
Trago esta reflexão porque, no momento em que se prepara a nova época desportiva, é importante recordar que a forma como, cada vez mais, olhamos para o desporto na infância parece estar a afastar-se das reais necessidades do desenvolvimento infantil e funções do desporto. As crianças não são promessas desportivas nem pequenos atletas profissionais. São, antes de tudo, crianças em pleno desenvolvimento, em cujo percurso o desporto tem, e deve ter, um papel crucial.
Na infância, o desporto não deve ser apenas um lugar de treino. Também não deve ser um tempo de especialização ou de concretização de sonhos que, muitas vezes, nem sequer pertencem à criança. Deve, sim, funcionar como um laboratório de desenvolvimento. Correr, saltar, lançar, agarrar, equilibrar, cair e voltar a levantar são experiências que ajudam a construir competências motoras fundamentais.
Cooperar, competir, respeitar regras, lidar com a frustração e encontrar soluções contribui para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Modalidades diferentes apresentam problemas diferentes ao corpo e à mente. É precisamente nessa diversidade que reside grande parte do seu valor.
Experimentar é ampliar o repertório da criança. A passagem por diferentes modalidades permite-lhe adaptar-se a novos espaços, materiais, regras e relações, descobrir aquilo de que gosta e perceber onde se sente mais competente. Permite também que uma eventual escolha futura seja informada pela experiência e não determinada antecipadamente pelos adultos.
Erik Erikson, um dos autores clássicos da psicologia do desenvolvimento, defendia que, durante a infância, a criança precisa de explorar, propor atividades, tentar, falhar, voltar a tentar e perceber que é capaz de aprender. A competência não se constrói apenas através do sucesso imediato, mas sobretudo pela possibilidade de enfrentar desafios, dominar progressivamente novas tarefas e perceber que o erro também faz parte da aprendizagem.
Nem todas as crianças precisam de escolher cedo. Algumas nem precisam de escolher uma única modalidade. O objetivo da prática desportiva infantil não tem de ser preparar uma carreira, alcançar um nível de excelência ou antecipar resultados futuros.
Temos de parar de procurar um Cristiano Ronaldo, um Fernando Pimenta ou uma Telma Monteiro em cada criança. Não está errado procurar a excelência, o que está errado é transformar essa excelência no centro da atividade desportiva infantil e numa exigência que antecede o próprio desenvolvimento da criança. Antes de pedir a uma criança que escolha um caminho, devemos permitir-lhe conhecer vários.
Antes de procurar um campeão, devemos ajudar a formar alguém autoconfiante, competente e com valores. O talento pode vir a revelar-se mais tarde. A vontade de investir também. Mas primeiro é preciso dar espaço para correr, saltar, cair, mudar e descobrir."

Messi, os argentinos, uma frase e Cristiano Ronaldo


"Mais do que golos, troféus, heróis imprevistos, surpresas, confirmações ou desilusões ou suspeitas de interferência política, uma frase marcou o meu Mundial

A Espanha foi campeã mundial, como penso que a maioria acreditasse que pudesse acontecer, Portugal foi eliminado pela Espanha, como penso que a maioria acreditasse que pudesse acontecer, houve heróis improváveis, como o guarda-redes Vozinha, confirmações, como a ascensão da Noruega, desilusões, como a eliminação sem glória da Alemanha, surpresas, como a caminhada de Cabo Verde, a suspeita de interferência política de Donald Trump e, consequentemente, do ataque à integridade do jogo, curiosamente tão estimada nos Estados Unidos nas grandes ligas de diferentes modalidades, houve euforia e lágrimas, não houve zaragatas graves fora dos estádios, mas houve algumas feias no relvado na final, houve ainda as maiores estrelas a brilhar — este megamundial teve tudo como os outros, golos bonitos e feios, e, no entanto, para mim será o Mundial de uma frase.
No programa matinal Posse de Bola do canal UOL, a jornalista Luiza Oliveira analisou a vitória dificílima da Argentina sobre o Egito, já mesmo pertinho do fim, à luz de Lionel Messi, que nesse jogo desperdiçou um penálti, marcou um golo e ofereceu outro. Recuperou então uma ideia de alguém que não conseguiu identificar. Mas fê-lo de uma forma que obrigou todos, no estúdio, e diria também em casa, a parar para pensar.
«Messi é o argentino que gostaríamos de ser. Maradona, ao contrário, é o argentino que somos», disse Federico El Negro Bulos, da ESPN Argentina. À medida que a Argentina foi progredindo no Mundial, às costas ou atrás de Messi, essa frase ganhou força. A jornalista e escritora Laura Di Marco, do jornal La Nacíon, Argentina, refletiu sobre isso e escreveu: «Um jogador de futebol na Argentina não é apenas isso: é um exemplo cultural ou, no pior dos casos, um contraexemplo opaco. E a nossa sociedade pode exibir ambos os casos.»
Identifica em Messi alguns comportamentos até de uma «humildade exagerada», mas que essa humildade o protege de tudo, privilégio de que nunca beneficiou Maradona, cuja frase que o caracteriza, para o argentino, é, segundo Laura Di Marco, «tens a lá dentro», cheia de violência sexual e característica do argentino que os argentinos não querem mais ser. Já se pode, agora, criticar o deus de um país arrasado e partido por crises económicas e que «só poderia alimentar a sua autoestima com o orgulho de ser uma potência futebolista». Maradona foi, também, mais do que isso, foi, como assinalou Luiza Oliveira, lutador e errático. Não se lhe perdoou tudo na Argentina, basta falar dele nas ruas de Buenos Aires para se ouvir depressa um «mas», sempre ligado às acusações de relacionamento e violação de uma menor.
Testemunhar o amor pelo futebol, clube ou seleção, na Argentina é, verdadeiramente, uma experiência inesquecível. Tive a felicidade de fazê-lo, em setembro de 2024, no Estádio Monumental, num Argentina-Chile, no jogo de homenagem a Di María. Faz tudo mais sentido. Já não consigo é dizer o que é Ronaldo para os portugueses, se o português que queremos ser ou se o português que somos. Provavelmente, nada disso."

Don Quixote de La... Fuente


"Pena Portugal ter ficado com o espanhol errado. É impressionante o que se pode alcançar quando não importa quem leva o crédito.

No final do jogo com a Argentina, Luís de la Fuente sente-se um Don Quixote. Mas não é Cervantes que cita. É Júlio Iglésias, o cantor preferido. «Soy de aquellos que sueñan con la libertad... soy Quijote de un tiempo que no tiene edad». E maior liberdade não existe que vencer com as suas próprias convicções, sem cedências, conquistando a imortalidade, uma idade que não se mede em anos.
Aos 65 anos, Luís de la Fuente aparece amadurecido em pipas de carvalho. Como o fruto das castas da La Rioja natal, capital espanhola do vinho. Um processo lento, sem atalhos, que demorou décadas até atingir o esplendor máximo servido numa taça. A força vem do respeito pela natureza; vem da terra; da sabedoria de anos: do saber escutar os mais velhos. A força vem de olhar o céu, saber as horas pelo sol e contar as luas. Crescer no País Basco e passar peça formação no Athletic Bilbao refinou esse caráter — um clube histórico marcado pela ética de trabalho, solidariedade e forte sentido de identidade coletiva.
Esta Espanha não é feita de individualidades. Não é mais nem é menos do que a soma das partes. É a soma das partes. Não é a fúria espanhola que rompe caminho; não é o tiki-taka que desliza no relvado. É uma alquimia de redução de tudo à máxima simplicidade da eficácia. É dominar, com tranquilidade, segurança e competência, todos os momentos do jogo. É pensar e decidir bem em cada segundo. Espanha é aquele motorista que nos inspira segurança, mostra sempre que sabe o que está a fazer.
Estava a escrever este artigo quando recebo a notificação da morte de Luís Represas. Mas não são as canções que me vêm de imediato à cabeça. É o livro infantil «A Coragem de Tição», publicado em 2010. Tição é um pequeno cavalo-marinho. Vive com a sua família e amigos, rodeado de peixes perigosos e assustadores. É através do convívio e da entreajuda com os amigos que Tição descobre a força interior. Mais do que bravura física ou força, a verdadeira coragem que o pequeno cavalo-marinho demonstra vem da solidariedade, da empatia e do amor pelos outros.
Luis de la Fuente, o agricultor que, na federação, lançou a semente à terra e foi colhendo os frutos. Um líder discreto, sereno, sábio. Um excelente gestor de egos. Que me remete para uma brilhante reflexão de Harry S. Truman, antigo presidente dos Estados Unidos: «É impressionante o que se pode alcançar quando não importa quem leva o crédito.» Por norma, essas pessoas preferem desfrutar a caminhada do que o reconhecimento da meta. Até porque a meta não existe em absoluto, é sempre um ponto de partida para outra caminhada.
Seis séculos antes de Cristo nascer, já o pensador Lao Tsé defendia que «um líder é melhor quando as pessoas mal sabem que ele existe; Quando o seu trabalho está feito e o seu objetivo cumprido, elas dirão: fomos nós que o fizemos…» É esse um segredo dos mestres. Como Luis de la Fuente."

O trigo, o joio e a coragem de decidir


"Mal termina uma grande competição, começa o julgamento. Uma seleção jogou “com classe”, outra foi “desonesta”. Multiplicam-se veredictos morais nas bancadas e nas manchetes, como se a legitimidade de uma vitória pudesse decidir-se no calor da indignação. Não pode. A legitimidade desportiva conquista-se em campo e só pode ser posta em causa por prova e por processo.
Não é um detalhe. É o princípio que sustenta a credibilidade do desporto. Uma seleção é campeã porque venceu segundo regras iguais para todos. Se infringiu essas regras — por dopagem, manipulação de resultados ou corrupção — o desporto dispõe de mecanismos para o apurar e sancionar: regulamentos, arbitragem, autoridades antidopagem e tribunais desportivos. A sanção deve ser firme, mas apenas quando assente em factos demonstrados e em decisões fundamentadas. Nunca em suspeitas ou na pressão da opinião pública.
Confundir suspeita com prova é o erro que a parábola do trigo e do joio descreve há dois mil anos. Quando os servos quiseram arrancar de imediato as ervas daninhas, foi-lhes dito que esperassem pela ceifa, para não destruírem também o trigo. No desporto acontece o mesmo. Quem julga antes do tempo arrisca-se a condenar o mérito legítimo em nome de uma certeza que ainda não existe.
Esta prudência não diminui a competição; protege-a. A competição, regulada e aceite por todos, transformou a rivalidade entre povos numa forma pacífica e civilizada de confronto. É uma conquista da civilização, não um instinto a reprimir. Competindo sob regras comuns, aprendem-se disciplina, esforço, superação, respeito pelo adversário e capacidade para aceitar a derrota. Defender a integridade do desporto é, por isso, defender a própria competição.
Quem garante, então, que ao longo do tempo o mérito é reconhecido e a fraude punida, sem que uma coisa se confunda com a outra? Não são os comentadores nem a indignação do momento. São as instituições. Jean Monnet sintetizou-o de forma exemplar: «Nada se faz sem os homens, mas nada perdura sem as instituições.» Um atleta conquista uma medalha; é a instituição que garante que essa medalha terá o mesmo valor daqui a vinte anos.
Mas as instituições não existem por si. Vivem da qualidade de quem as dirige. Não falo de quem aplica mecanicamente regras estabelecidas. Falo de quem tem a responsabilidade de decidir, fazer cumprir e assumir as consequências das suas decisões. A integridade de um líder não se mede pelos discursos nem pelos comunicados. Mede-se quando chega o momento de decidir, de escolher um princípio em vez da conveniência e de sustentar essa escolha quando ela tem custos.
O maior inimigo dessa integridade raramente é a corrupção ostensiva. É o unanimismo: a tentação de adiar decisões difíceis para não desagradar, de procurar consensos vazios em vez de exercer liderança. Quem age assim não decide; contemporiza. Evita o conflito quando deveria afirmar um princípio e, ao proteger-se do incómodo, acaba por proteger quem devia responsabilizar. Não é prudência. É cobardia disfarçada de equilíbrio.
Por isso, a falha de um dirigente é mais grave do que o erro de um atleta. O atleta viola regras; o dirigente que se recusa a decidir enfraquece a autoridade das próprias regras. A maior ameaça à integridade do desporto raramente é o escândalo que chega aos jornais. Para esse existem investigação, processo e sanção. O verdadeiro risco é a erosão silenciosa provocada por decisões adiadas, compromissos oportunistas e lideranças sem coragem.
Separar o trigo do joio nunca foi tarefa da bancada. É missão de instituições suficientemente fortes para respeitar o tempo da prova e de líderes suficientemente íntegros para, chegada a ceifa, terem a coragem de fazer a colheita — mesmo quando isso significa decidir contra os seus próprios pares."

Pois...

Terceiro Anel: Planeta - ANÁLISE FINAL DO MUNDIAL: Final, Melhor Equipa, Melhor Jogador, GR, Revelação e Reflexão Final!! 🏆⚽️

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Antevisão...

Terceiro Anel: Antevisão - Marco Silva...

Treino...

Missão: St. Gallen...

BI: Antevisão - St. Gallen...

Trafulhice em castelhano!!!

Um dos melhores...

Campeões de pré-época


"A partir de quinta-feira há uma premissa que muda para o Benfica, mas ninguém deve estar num estado eufórico ou depressivo entre Luz, Alvalade ou Dragão

Há uma crónica ideia de que o Benfica é crónico campeão de pré-época. Uma ideia assinada pelos adeptos rivais, derivado dos valores que, por norma, os encarnados colocam em cima da mesa no mercado, pelas primeiras páginas dos jornais e horas de comentário que uns merecem e outros nem tanto.
Uma ideia alimentada até por partes das estruturas desses mesmos rivais, por comparação, mas aos quais às vezes dá jeito também passar por «debaixo do radar». Veja-se a venda de Francisco Trincão que tanta atenção mereceu dos adeptos leoninos pelo valor da mesma.
Há uma certa verdade, porém, nessa ideia. Para seu bem e para seu mal, o Benfica tem uma mediatização maior que FC Porto e Sporting. É uma questão de números, simplesmente, sustentada em dados de consumo.
Essa ideia, porém, ficou à porta nesta pré-temporada. Porque o Benfica jogou pouco, em quantidade de jogos e qualidade na maioria dos 180 minutos em que o vimos em campo, porque apresentou poucos reforços até agora e porque o Sporting e o FC Porto estão no seu oposto, quer no mercado quer em campo.
Pode dizer-se que é questão de planeamento - já aqui elogiei o do leão, por exemplo -, e que por aí haverá espaço a uma crítica justa à gestão do Benfica. Mas tal como lembram adeptos leoninos e portistas a cada ilusão encarnada, não há campeões na pré-época.
Os 7-0 do Sporting com quatro reforços a marcarem são um ótimo ponto de partida, mas o mercado não se analisa na pré-época, nem nenhuma equipa dá garantias em julho de que terá sucesso em maio do ano seguinte. O Sporting, por exemplo, corre até um risco de uma remodelação de plantel quase sem precedentes. Assumido, sim, mas ainda assim um risco. Tal como é um risco contratar um jogador que nos últimos anos foi mais notícia pelos autogolos fora de campo do que golos dentro dele. Jhon Durán tem o passado que tem, pode ser um risco caro, mas também tem um potencial enorme. Na realidade, há maior risco onde? Em contratar um ponta de lança problemático ou mudar o coração, tronco e membros de uma equipa?
Não há campeões de pré-época, nem derrotados à partida. Não deve haver euforia no Sporting, nem depressão no Benfica. A partir desta quinta-feira, uma premissa muda nos encarnados. E aí, sim, começarão a valer as análises. Até lá, silly season…para o bem e para o mal de todos em geral e nenhum em particular."

Kanal: 45 minutos...

Oliveira: Jhon Durán...

Oliveira: António Silva...

Zero: Mercado - Ibrahima Ba mais perto do Sporting

BF: Onze...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Observador: E o Campeão é... - Mercado a ferver e o Braga a abrir o livro na Europa

Zero: Tema do Dia - As dúvidas no Benfica antes da estreia oficial

Observador: Três Toques - Polémica na FIFA: Cubarsí e Laporte fora do onze do Mundial

Ganhar


"Em destaque nesta edição da BNews, o Benfica Institute for Sport Excellence e a manifestação de confiança do Presidente do Clube em relação à nova época.

1. Ambição
À margem da apresentação do Benfica Institute for Sport Excellence, o Presidente do Sport Lisboa e Benfica, Rui Costa, abordou a nova temporada: "As expectativas são altíssimas. O plantel que temos à disposição oferece-nos essa garantia."

2. Benfica Institute for Sport Excellence
Está inaugurada mais uma iniciativa inovadora do Sport Lisboa e Benfica.

3. Durán integrado e dois regressos
O mais recente reforço do Benfica já treina no relvado. E os mundialistas Dedic e Tomás Araújo já estão à disposição de Marco Silva.

4. Renovação
O Benfica e a futebolista Chandra Davidson estendem a ligação até 2028.

5. Primeiro treino com bola
Juvenis preparam a temporada no relvado.

6. Movimentações do defeso
Estão apresentados mais dois reforços para o andebol masculino do Benfica.

7. Calendários
As equipas masculina e feminina de voleibol do Benfica já sabem o percurso na sua principal prova nacional.

8. Chamada internacional
Miguel Mendes vai representar Portugal no Europeu Sub-18 de andebol.

9. Revalidar o título
O Benfica quer voltar a ser campeão nacional de natação no próximo fim de semana."

Terceiro Anel: DRS #58 - SUPER ANTONELLI & HUNGRIA GP!! 🏎️🏁

DAZN: Paddock Clube - Antonelli já tem mão no título?

SportTV: Grelha da Partida - S04E22 - MotoGP versus Superbike?

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Que novela mafiosa !!!

Keegan...

“O Mundial das Chuteiras Cor-de-Rosa” — Ficha de leitura


"Resumo da obra: o Mundial de Futebol de 2026 conta a história de várias selecções que viajaram até à América do Norte com o objectivo declarado de ganhar uma taça e o objectivo real de sobreviver às expectativas nacionais, às decisões da FIFA, à interferência política, aos preços dos bilhetes e ao guarda-roupa dos dirigentes.

Identificação
Autor: FIFA, com a colaboração dos Estados Unidos da América, do Canadá e do México, bem como das quarenta e oito federações nacionais representadas no torneio.
Título da obra: Mundial de Futebol de 2026, também conhecido, para efeitos desta ficha, como O Mundial das Chuteiras Cor-de-Rosa.
Dados de publicação: Estados Unidos da América, Canadá e México, Junho e Julho de 2026. Edição da FIFA. Distribuição televisiva mundial. Preço variável, podendo um lugar na final atingir o preço de uma Yamaha TMAX 500 de 2009 no mercado de usados.
Género: Drama desportivo, comédia de costumes, espectáculo musical, campanha comercial e alegoria política.
Tema: Vinte e dois homens correm atrás de uma bola enquanto dirigentes, patrocinadores, chefes de Estado, comentadores e departamentos de marketing prosseguem objectivos distintos.
Palavras-chave: Cabo Verde; Vozinha; chuteiras cor-de-rosa; bota preta; cristiano-ronaldismo; sebastianismo; Donald Trump; Gianni Infantino; Inglaterra; estádio-malga; Madonna; seis mil euros; Espanha; monarquia.

Resumo da obra
O Mundial de Futebol de 2026 conta a história de várias selecções que viajaram até à América do Norte com o objectivo declarado de ganhar uma taça e o objectivo real de sobreviver às expectativas nacionais, às decisões da FIFA, à interferência política, aos preços dos bilhetes e ao guarda-roupa dos dirigentes.
Ao longo da obra, Cabo Verde demonstra que um país pequeno pode tornar-se, durante alguns instantes, o centro do mundo; Portugal confirma que continua a aguardar a salvação por um homem providencial; a Inglaterra joga o melhor futebol quando já não pode ser campeã; Gianni Infantino comparece de fato e ténis brancos; e Donald Trump descobre no futebol mais uma tarifa alfandegária à espera de utilização.
No final, ganha a Espanha. Mas, como sucede nas grandes obras, a vitória oficial não esgota o significado da narrativa.

Comentário crítico
O Mundial de Futebol de 2026 é uma obra irregular. Tem momentos de verdadeira grandeza, sobretudo quando os jogadores conseguem escapar ao dispositivo comercial e político construído à sua volta. Cabo Verde é a sua personagem moral; a Inglaterra, a personagem trágica; Donald Trump, a personagem inevitável; Gianni Infantino, a personagem que se julga autor.
Estilisticamente, a obra oscila entre a epopeia, o anúncio de televisão, a cimeira internacional e a cerimónia de lançamento de uma nova marca de batidos de proteína. A excessiva duração e a profusão de interesses secundários prejudicam a unidade narrativa. Ainda assim, sempre que a bola começa a rolar, a obra ameaça tornar-se boa.
O seu principal defeito é confundir escala com grandeza. O seu principal mérito é mostrar que o futebol continua, em certos momentos, a resistir àquilo que fizeram dele.
A escolha do estádio da final merece igualmente registo. A opção por um recinto aberto constitui uma excepção relevante à tendência contemporânea para a construção de espaços fechados. A configuração do recinto em forma de malga reforça a adequação formal entre princípio e fundamento. O modelo adoptado preserva ainda a relação tradicional entre o futebol e o exterior, permitindo a interferência dos elementos atmosféricos e, em circunstâncias favoráveis, de Deus. Confirma-se, assim, que o futebol beneficia de uma abóbada celeste em detrimento de um tecto retráctil.

Relações e contexto
A obra deve ser relacionada, em primeiro lugar, com o sebastianismo português. Cristiano Ronaldo desempenha o papel do homem providencial que não vem do nevoeiro porque nunca chegou a desaparecer.
Relaciona-se também com o ocaso da bota preta e com a transformação do futebol numa exposição permanente da individualidade: das tatuagens aos festejos coreografados. O fenómeno culmina no paradoxo das chuteiras cor-de-rosa: centenas de indivíduos ansiosos por serem únicos acabam calçados da mesma maneira.
No plano da recepção, o impacto da participação de Cabo Verde pode medir-se pela rápida conversão de «Vozinha» de nome próprio em cognome futebolístico. O fenómeno encontra confirmação doméstica em Sebastião Barbosa de Matos, filho do autor desta ficha e guarda-redes nas tardes de futebol do Clube Naval do Funchal, que passou a ser designado por «Vozinha». A promoção onomástica constitui, neste caso, um indicador seguro de consagração.
Importa ainda notar que a animação do intervalo da final deve ser entendida no quadro mais amplo das diferenças culturais entre a Europa e os Estados Unidos da América. A sobriedade europeia reagiu com previsível desconforto à exuberância do Novo Mundo. A crítica parece, contudo, excessiva. A entrada de Madonna, conduzida por Ronaldo e Ronaldinho — respectivamente identificáveis pelos dentes e pela pausa —, restituiu ao espectáculo uma dimensão de fantasia que o próprio torneio raramente conseguiu produzir.
No plano político, o Mundial confirma que o futebol deixou de ser apenas apropriado pelo poder, tendo passado a ser uma das suas formas de expressão. Trump trata-o como instrumento; Infantino põe-lho à disposição em sinal de deferência.
Finalmente, a vitória espanhola permite estabelecer uma relação com a permanência da monarquia no mundo contemporâneo. Num torneio dominado por falsos reis — dos golos, da pop, das assistências e dos frangos —, foi reconfortante encontrar em campo o chefe de Estado espanhol.

Conclusão
Cabo Verde ganhou a glória. A Inglaterra ganhou o futebol. A FIFA ganhou dinheiro. Trump ganhou mais uma ocasião para ser Trump. Infantino ganhou a oportunidade de usar um fato com ténis brancos diante do mundo inteiro.
A Espanha ganhou a taça.
Valeu pelo rei.
A próxima edição encontra-se prevista para 2030."

Do maior Mundial ao Portugal de Jorge Jesus


"O maior Campeonato do Mundo de sempre terminou com a Espanha justamente coroada campeã e com uma primeira conclusão que não deve ser contaminada, nem pelo conservadorismo daqueles que resistem a qualquer mudança, nem pelo deslumbramento institucional de quem confunde o crescimento da competição com o progresso.
O alargamento a 48 seleções não destruiu o Mundial, não diminuiu a importância do título e não transformou a prova numa sucessão interminável de jogos sem interesse. Pelo contrário, trouxe mais países, mais geografias, mais multiculturalismo e uma representação mais próxima da dimensão verdadeiramente universal e democrática do futebol.
É também aqui que o alargamento encontra a sua melhor justificação: permitir que o Campeonato do Mundo pertença um pouco mais ao mundo, que outros povos deixem de assistir à festa pela televisão e passem a fazer parte integrante dela, que uma criança na Praia, em Willemstad ou em Tasquente possa ver a sua bandeira erguida no mesmo palco onde jogam os países que, durante décadas, monopolizaram o acesso às grandes competições. O mérito do novo formato não se deve resumir aos milhões de receita, está nessa democratização da esperança e do sonho.
Importa, porém, reconhecer que, numa fase de grupos em que 32 das 48 seleções seguiam em frente, houve encontros em que o risco de eliminação demorou demasiado tempo a tornar-se verdadeiramente presente. Houve jogos com notório desequilíbrio competitivo, deslocações longas e exigentes, jogos realizados sob temperaturas difíceis e pausas de hidratação que, em demasiadas ocasiões, serviram mais a finalidade comercial dos patrocinadores do que propriamente a preservar a integridade física dos jogadores, além de terem quebrado muitas vezes o ritmo do jogo e o ascendente de quem melhor jogava.
Ainda assim, este Mundial confirmou que é possível alargar sem desvirtuar, mas também mostrou que não há crescimento sem as inerentes consequências menos positivas. Compete agora à FIFA resistir à tentação de transformar o sucesso desta edição numa licença permanente para acrescentar equipas, jogos, fases e produtos comerciais. O futebol precisa de crescer, mas precisa igualmente de saber onde deve parar.
Portugal encerrou a sua participação no Campeonato do Mundo nos oitavos de final, com duas vitórias, dois empates e uma derrota, oito golos marcados e três sofridos. Os números são aparentemente equilibrados, mas escondem uma realidade menos confortável: cinco dos oito golos foram marcados no mesmo encontro, diante da frágil equipa do Uzbequistão, significando que Portugal marcou apenas três vezes nos restantes quatro jogos.
Ter sido eliminada pela margem mínima diante daquela que viria a ser campeã do mundo não constitui, no final da competição, uma vergonha ou uma demonstração de inferioridade estrutural. Mas chegar apenas aos oitavos de final, com a qualidade individual disponível e depois de a própria Federação ter assumido publicamente a candidatura à vitória final, representa um resultado aquém das expetativas criadas.
O fim do ciclo tornou-se, assim, compreensível e inevitável não porque tudo tivesse sido mal feito, mas por se ter consolidado a sensação de que Portugal tinha chegado ao limite daquilo que podia evoluir dentro de um modelo preconizado por Roberto Martínez, sem ter uma matriz de jogo trabalhada e consistente.
É neste contexto que surge a opção por Jorge Jesus, uma escolha reivindicada por muitos, entre os quais me incluo e que assumo sem reservas. Não somente por ser um treinador português, ou pelo currículo recheado de conquistas, fruto de uma carreira construída de baixo para cima, mas também porque representa exatamente aquilo que faltou demasiadas vezes à nossa Seleção: uma ideia de jogo própria, assumida e reconhecível, num futebol empolgante e atrativo que caracteriza as equipas por si orientadas.
Jorge Jesus não é um treinador que se limita a escolher os melhores jogadores e a esperar que o talento organize espontaneamente a equipa. É um verdadeiro líder de balneário e, sobretudo, um treinador de campo: da repetição, do posicionamento, da correção permanente, do trabalho minucioso e de uma atenção quase obsessiva com o detalhe. Pode apreciar-se mais ou menos a sua personalidade, a forma exuberante como comunica, ou a segurança quase absoluta com que defende as suas convicções, mas ninguém pode acusá-lo de chegar a uma equipa sem saber aquilo que pretende fazer dela.
Na apresentação, deixou duas mensagens essenciais. A primeira, expressa na divisa viemos para vencer, transportando para a realidade da Seleção Nacional a ambição que sempre o definiu. A segunda é, talvez até, mais importante: Portugal terá de jogar muito mais para poder ganhar e chegar à discussão das finais e dos títulos. Jorge Jesus afirmou que a equipa terá de «jogar o dobro», deixando claro que a sua ideia não será uma continuação disfarçada do modelo anterior.
É desta frontalidade e desse estilo genuíno que particularmente gosto, colocando sobre si mesmo a responsabilidade de acrescentar valor ao jogo da equipa, exponenciando os jogadores individual e coletivamente com o seu processo de treino.
Jorge Jesus é um treinador criador e de ideias novas, estando identificadas um conjunto delas atualmente praticadas e copiadas por outros treinadores. Podemos contar com uma identidade de jogo bem vincada, uma equipa mais vertical, mais intensa, muito bem trabalhada defensivamente, particularmente com as linhas compactas, os quatro defesas subidos, com um controlo da profundidade quase perfeito e a colocação dos adversários em situação de fora de jogo, menos tolerante com uma posse inofensiva, com maior entrada na área adversária e ainda uma organização ofensiva gizada não apenas para marcar golos, mas também para estar mais bem posicionada no momento da perda da bola.
Portugal não precisa que Jorge Jesus descubra novos jogadores, dispondo de um naipe alargado de jogadores talentosos, numa geração com a titularidade nos melhores clubes e campeonatos do mundo. É preciso, sim, dar sentido coletivo às individualidades, dotar a equipa de uma organização e uma identidade partilhada por todos, passando a ser uma seleção reconhecida por uma clara definição da ideia do seu jogo.
Jorge Jesus, aos 71 anos, confessou estar mais tolerante do que no passado. Talvez esteja precisamente aí a chave do seu sucesso: conservar a obsessão tática, a exigência no treino e a ousadia das suas ideias, juntando-lhes a serenidade necessária para gerir jogadores de estatuto mundial, com personalidades fortes e egos inevitáveis, num balneário onde a liderança não pode ser exercida da mesma forma com todos, ainda que as regras devam valer por igual.

PS: Cristiano Ronaldo tem o direito exclusivo de escolher o quando e como abandonará a nossa Seleção, num diálogo leal com o novo selecionador. Merece o máximo respeito, sendo como escrevi no passado o símbolo maior do nosso futebol e a bandeira em pessoa do nosso país pelo mundo fora.
O Portugal-País de Gales, no próximo dia 24 de setembro, no Estádio José Alvalade, seria o palco perfeito para se despedir, no estádio do clube que o lançou para o futebol e perante os portugueses que tanto o admiram e acarinham. E é precisamente por a Seleção ter tanto a perder com a sua saída que o adeus deve estar à altura de tudo aquilo que Portugal ganhou com Cristiano Ronaldo."

O campeão foi a Espanha. O vencedor foi uma ideia de jogo


"Durante semanas analisámos sistemas, debatemos escolhas, discutimos convocatórias, avaliámos desempenhos individuais e tentámos antecipar quem teria qualidade suficiente para conquistar o Campeonato do Mundo. No final, foi a Espanha quem levantou o troféu. Mas reduzir esta conquista ao resultado de um mês de competição seria uma enorme simplificação. A Espanha não ganhou apenas um Mundial. A Espanha confirmou uma ideia.
O futebol tem tendência para explicar o sucesso através do momento. O treinador que encontrou a fórmula certa, a geração de jogadores mais talentosa, a decisão tática que fez a diferença ou até o detalhe que decidiu uma final. Tudo isso influencia. Tudo isso conta. Mas nenhuma dessas razões explica, por si só, aquilo que vimos ao longo da competição.
A verdadeira diferença estava muito antes do apito inicial.
Estava na forma como aqueles jogadores cresceram, aprenderam e foram preparados para interpretar o jogo. Estava numa identidade construída durante anos e que resistiu a mudanças de treinadores, de gerações e até de resultados. Uma identidade suficientemente forte para sobreviver ao tempo.
É precisamente aqui que, na minha opinião, reside a maior lição deste Mundial.
A Espanha não joga sempre da mesma forma porque tem sempre os mesmos jogadores. Joga da mesma forma porque todos os jogadores compreendem a mesma ideia de futebol.
Existe uma enorme diferença entre repetir comportamentos e compreender comportamentos. Repetir pode ser fruto do treino. Compreender resulta da aprendizagem. Quando um jogador percebe verdadeiramente a lógica do jogo, deixa de executar movimentos decorados e passa a tomar decisões consistentes, mesmo perante contextos diferentes.
Foi exatamente isso que se observou durante todo o torneio.
Independentemente do adversário, da pressão competitiva ou do momento do jogo, a seleção espanhola procurou sempre assumir a iniciativa. Adaptou nuances, naturalmente. Nenhuma equipa pode ignorar completamente as características do adversário. Mas nunca abdicou daquilo que define a sua identidade.
Essa coerência não nasce durante um estágio de três semanas.
Também não aparece apenas porque existe talento.
É construída durante muitos anos, através de uma linguagem comum que acompanha os jogadores desde os escalões de formação até à seleção principal. Cada treino reforça princípios. Cada convocatória confirma comportamentos. Cada geração transmite à seguinte uma forma de interpretar o jogo que acaba por se tornar cultura.
É por isso que, quando observamos a Espanha, dificilmente sentimos que onze jogadores estão simplesmente a cumprir instruções. O que vemos é um coletivo onde cada decisão parece encaixar naturalmente na seguinte.
Há uma frase que resume, melhor do que qualquer análise tática, aquilo que distingue as equipas que conseguem construir uma identidade duradoura.
Todos os jogadores sabem o que têm de fazer, quando o têm de fazer e, sobretudo, porque o têm de fazer.
É este último ponto que faz toda a diferença.
O porquê transforma comportamentos em convicções.
Quando um jogador compreende apenas o que deve fazer, depende constantemente da orientação exterior. Quando compreende por que razão o faz, passa a reconhecer sozinho os momentos certos para agir. O jogo deixa de ser uma sequência de ordens e passa a ser uma sucessão de decisões inteligentes.
É precisamente aí que nasce a verdadeira autonomia coletiva.
As melhores equipas do mundo não são aquelas que têm onze jogadores permanentemente dependentes do banco. São aquelas em que os jogadores conseguem interpretar o jogo em conjunto, porque partilham a mesma visão, os mesmos princípios e a mesma linguagem futebolística.
É isso que permite manter estabilidade quando o contexto muda, quando surgem dificuldades ou quando o plano inicial deixa de funcionar.
Mais do que executar, sabem interpretar. Mais do que obedecer, sabem decidir. Mais do que reagir, conseguem antecipar.
Foi exatamente isso que a Espanha demonstrou ao longo deste Campeonato do Mundo. Nunca tivemos a sensação de que a equipa dependia exclusivamente da inspiração de um jogador ou da capacidade do treinador para corrigir constantemente o que acontecia dentro de campo. A resposta surgia quase sempre dos próprios jogadores, porque todos partilhavam a mesma interpretação do jogo.
Esse é, talvez, o maior objetivo de qualquer processo de formação. Não criar jogadores que executam mecanicamente aquilo que lhes é pedido, mas formar jogadores capazes de compreender o jogo, resolver problemas e tomar boas decisões sob pressão.
É por isso que a identidade não pode ser um conceito reservado só à seleção principal. Tem de nascer muito antes. Nas academias, nos centros de treino, nas equipas de formação e na forma como cada clube pensa o desenvolvimento dos jogadores. Quando existe cultura sólida, as mudanças de treinadores, de gerações ou até de sistemas deixam de representar ruturas profundas. A identidade permanece.
Naturalmente, cada país tem a sua história, a sua cultura e as suas características. Não se trata de copiar o modelo espanhol nem de procurar reproduzir exatamente a sua forma de jogar. O verdadeiro desafio passa por construir uma identidade própria, coerente e sustentável, que seja reconhecida por todos aqueles que fazem parte do futebol nacional.
Portugal possui talento, competência técnica, excelentes treinadores e uma formação reconhecida internacionalmente. Tem todas as condições para continuar a competir ao mais alto nível. Mas este Mundial recorda-nos que o talento, por si só, raramente chega para criar uma cultura vencedora. O que verdadeiramente diferencia as melhores equipas é a capacidade de manter uma ideia ao longo do tempo, resistindo às mudanças, às derrotas e até às inevitáveis críticas.
No futebol moderno fala-se muitas vezes de modelos de jogo. Talvez devêssemos falar mais de modelos de desenvolvimento. Porque os títulos conquistam-se em poucas semanas, mas constroem-se ao longo de muitos anos.
Mais do que procurar repetir aquilo que a Espanha faz, importa compreender porque o faz tão bem. O verdadeiro desafio não passa por copiar um modelo, mas por construir uma identidade própria, consistente e transversal a todo o futebol português. Porque as ideias podem evoluir, os sistemas podem mudar e os protagonistas também. Aquilo que nunca deve desaparecer é a clareza de uma cultura que orienta, une e dá sentido ao jogo, com consistência.
A Espanha conquistou justamente o Campeonato do Mundo porque foi a melhor equipa da competição. Mas aquilo que verdadeiramente venceu foi algo muito mais difícil de construir e muito mais difícil de manter: uma cultura futebolística, uma identidade coletiva e uma ideia de jogo partilhada por todos.
No fim, o campeão foi a Espanha.
Mas o verdadeiro vencedor foi uma ideia de jogo."

O Mundial mais eletrodigital de sempre


"Portugal não venceu o Mundial. Tínhamos jogadores para aspirar a mais e a eliminação precoce soube a pouco face às expectativas legítimas de um país que raramente reuniu tanto talento numa só geração.
Mas, se a nossa Seleção Nacional não foi campeã, houve quem saísse deste torneio com uma vitória indiscutível: a indústria eletrodigital.
O Mundial de 2026, disputado nos Estados Unidos, no Canadá e no México, foi o mais monitorizado, o mais conectado e o mais tecnológico de sempre. Foi, numa palavra, o Mundial mais eletrodigital da história.
Comecemos pelo mais visível: a arbitragem. A bola oficial transporta no seu interior um sensor que mede o movimento quinhentas vezes por segundo e transmite os dados, em tempo real, para a sala do videoárbitro.
É ele que fixa o instante exato em que a bola é tocada, decisivo nos foras de jogo, nas mãos na bola e nos golos duvidosos. À volta do relvado, câmaras de alta resolução seguem até 29 pontos do corpo de cada jogador; antes do torneio, os 1.248 atletas das 48 seleções foram digitalizados para criar avatares tridimensionais que permitem traçar a linha de fora de jogo com precisão de centímetros.
Os foras de jogo claros passaram a chegar diretamente aos árbitros assistentes, por áudio, em segundos. E, pela primeira vez, os árbitros usaram câmaras corporais em todos os 104 jogos.
Mas a dimensão eletrodigital deste Mundial não se esgotou no apito; estendeu-se ao negócio. As novas pausas de hidratação, três minutos obrigatórios em cada parte, em todos os jogos, incluindo nos estádios cobertos e climatizados, criaram mais de duzentas interrupções previsíveis ao longo do torneio: mais de dez horas de tempo televisivo adicional, vendido a peso de ouro.
Um anúncio de trinta segundos nestas pausas chegou a custar mais de meio milhão de euros, cerca de dez vezes o valor habitual. A justificação oficial é a saúde dos jogadores, e o calor norte-americano é real. Mas jogadores, treinadores e adeptos perceberam depressa que o tempo do futebol passou também a ser um ativo comercial.
E depois há os painéis publicitários, talvez o exemplo mais revelador de como a tecnologia transformou o que parecia imutável. Os painéis LED que rodeiam o relvado já não mostram a mesma publicidade a toda a gente. Através de sobreposição virtual e de sistemas sincronizados com as câmaras de transmissão, um mesmo jogo pode gerar entre quatro e oito emissões publicitárias distintas: o espectador alemão vê marcas alemãs, o asiático vê marcas asiáticas, o americano vê as suas.
O mesmo painel físico é vendido várias vezes, para vários mercados, em simultâneo. A publicidade que julgamos partilhar com o resto do planeta é, cada vez mais, uma imagem construída para o nosso ecrã.
Nada disto acontece por magia. Por trás de cada uma destas inovações está a indústria eletrodigital: os sensores e os semicondutores, as câmaras e os sistemas óticos, os painéis LED e os ecrãs gigantes, as redes de comunicações que transportam os dados, os centros de dados que os processam, a inteligência artificial que os transforma em decisões em frações de segundo.
Um estádio do Mundial de 2026 é, na prática, uma infraestrutura eletrodigital com um relvado no meio.
Há nisto uma lição que ultrapassa o futebol. A indústria eletrodigital passa despercebida à maioria; e, no entanto, esteve no centro do maior espetáculo do mundo, a decidir golos, a proteger atletas, a multiplicar o valor de cada segundo de emissão para uma audiência acumulada de milhares de milhões de espectadores.
Está nos estádios como está nos hospitais, nas redes de energia, nas fábricas e nas nossas casas: presente em tudo, visível em quase nada.
O futebol continuará a decidir-se com pés, cabeça e coração. Mas tudo o resto, do apito ao ecrã, decide-se cada vez mais com eletrões. Portugal não venceu este Mundial; a indústria eletrodigital venceu. E essa, felizmente, também joga cá."