Últimas indefectivações

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Da integridade do jogo


"Inglaterra espera com ansiedade o castigo que será aplicado ao Man. City por violações financeiras num período de nove épocas. Ainda podemos acreditar que lá alguma coisa acontece

O espaço mediático desportivo em Inglaterra está a ser dominado pelo anúncio de que o Manchester City foi considerado culpado, em julgamento de uma comissão independente, depois de acusação da Premier League, de 115 violações das regras financeiras. Não é para menos. É um ataque à integridade do jogo, considerado, por isso, da maior gravidade. Desconhece-se qual o castigo que será aplicado, admite-se que não será meigo, apesar de o City ter clamado inocência e anunciado o recurso.
A investigação arrancou em dezembro de 2018 e a primeira acusação da Premier League foi produzida em fevereiro de 2023. Foi, depois, criada uma comissão independente que analisou os milhares de documentos, os fundamentos da acusação e a contestação do City. Houve, naturalmente, expedientes jurídicos dilatórios que fizeram arrastar o processo. E, no entanto, a conclusão chegou. Não se brinca com coisas sérias.
O espaço mediático em Inglaterra foi dominado, ali para o meio do mês de setembro, pelo golo, em fora de jogo, que deu a vitória do City sobre o Man. United, em Old Trafford. No mesmo dia, a Pro Ref, empresa independente responsável por gerir, treinar, nomear e avaliar os árbitros e árbitros assistentes do futebol profissional em Inglaterra, esclareceu que houve um erro. Howard Webb, chefe lá dos árbitros, admitiu que o VAR cometeu um erro grave. Videoárbitro e assistente de videoárbitro foram para a jarra, essa instituição tão em desuso em Portugal. A consequência do erro foi imediata. Também aqui não se brinca com coisas sérias.
Em Portugal, o ex-Diretor Técnico Nacional da Arbitragem, Duarte Gomes, deu uma extraordinária entrevista, conduzida por Alexandre Pereira, a A BOLA, na qual, sem poder dizer tudo, revelou muitos dos males da arbitragem, nomeações ou pressões sobre árbitros, práticas, pelo menos, duvidosas de dirigentes do setor. Vale a pena espreitar o site de A BOLA para ler com atenção a entrevista.
Duarte Gomes colaborou nove anos com A BOLA e não consigo contar as vezes que trabalhei diretamente com ele. Sempre me mereceu (e continua a merecer) a maior consideração e, no entanto, aqui o critiquei em novembro, no âmbito de uma conferência de Imprensa com Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, a propósito do que disse sobre o penálti assinalado a António Silva com o Casa Pia. Essa forma de comunicar, anunciada como transparente, depressa desapareceu. Não sem antes Luciano Gonçalves ter anunciado que jarras são para as flores. Ou, acrescentaria, para esses bárbaros ingleses.
Voltando à entrevista de Duarte Gomes, é praticamente impossível não questionarmos argumentações e comportamentos atribuídos a Luciano Gonçalves, deixando claro que suspeição está longe de ser acusação e muito menos condenação. Seria o que mais faltava, ainda vivemos num Estado de Direito.
Fica mais complicado perceber, dito isto, os motivos para Luciano Gonçalves se manter em silêncio. Se a continuidade no cargo, depois de tudo o que se disse e se sabe, é um problema de consciência — e ninguém tem o direito de fazer julgamentos de consciência — o presidente do Conselho de Arbitragem só faria bem em esclarecer toda a situação, mesmo considerando os constrangimentos decorrentes de a Justiça ter pegado no caso. O mesmo se aplica ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Pedro Proença.
O que está em causa, aqui como em Inglaterra, é a integridade do jogo, bem mais precioso para todos os que ainda vamos gostando de futebol. Se não for defendido, então largos dias continuarão a ter, por cá, 100 anos.

Queixas
O presidente do FC Porto, André Villas-Boas, considerou a queixa do Benfica no Conselho de Disciplina (CD) da FPF contra Samu como «frustrações naturais», «métodos criativos para arranjar maneiras de suspender jogadores» e «condicionamento de jogadores». Foi isso que sentiu e procurou fazer quando apresentou queixas contra Luis Suárez ou Morten Hjulmand no CD?"

Óscar de melhor realizador para André Villas-Boas


"Ao nível da criatividade, o que se tem passado no Estádio do Dragão é forte candidato a ganhar estatuetas, tanto no argumento como nas categorias mais técnicas…

Não fosse a polémica em volta de Cristiano Ronaldo e ainda hoje, 11 dias depois do clássico entre FC Porto e Benfica (3-1), se estaria a fazer o rescaldo do encontro, não sobre o futebol jogado, mas sobre tudo o resto, uma terceira parte que no Dragão teima em ser uma autêntica festa, às vezes de horrores, e não apenas uma festinha como aquela que André Villas-Boas viu de Samu a Bah.
Acho que se enquadra nas frustrações, cada um busca os métodos mais criativos para arranjar maneiras de suspender jogadores do FC Porto para outros jogos. Evidentemente que nada se vai passar, porque são atos que escapam naturalmente ao juízo dos árbitros no minuto de jogo. Se calhar o VAR não tinha as imagens para analisar a festinha que o Samu fez ao Bah da forma correta e também de pouco adiantaria, porque seguramente não seria uma expulsão
Diz o presidente dos azuis e brancos que «seguramente não seria uma expulsão», curiosa certeza num jogo em que gesto de Lenglet mereceu amarelo (segundo), sendo uma festinha bem mais suave…
Não é difícil pegar numa declaração de um presidente de clube ou de outra pessoa qualquer e encontrar contradições, é até natural e todos o fazemos, mas importa recordar ao líder portista, a falar do pedestal de quem venceu o jogo, que também ele no passado usou a mesma tática que agora aponta com dedo acusatório, basta recuar à segunda metade da época passada, nem é preciso sair de 2026, para nos lembrarmos da queixa pelos dragões apresentada ao Conselho de Disciplina contra Hjulmand por suposta agressão do capitão do Sporting a jogador do Aves SAD Tiago Galletto, aos 115 minutos do jogo dos quartos de final que os leões venceram por 3-2. Ou participação disciplinar contra Gonçalo Inácio, na sequência de um lance com William Gomes ocorrido nos minutos iniciais do clássico da segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal entre leões e dragões.
Não terão sido estes dois exemplos menos criativos do que os criticados agora por Villas-Boas, que a nível de criatividade tem no clube que lidera um candidato a muitos Óscares: de melhor montagem e edição para quem pensou em colocar vídeo em loop no balneário do árbitro Fábio Veríssimo; do melhor guarda-roupa para as camisolas do Atlético de Madrid levadas por adeptos em lugares estratégicos; de melhor som para o sistema de abafar os cânticos das claques adversárias; do melhor argumento adaptado no roubo das toalhas a Rui Silva, algo visto na final da CAN; de melhor banda sonora para a música das galinhas que se ouviu na instalação sonora do Dragão no final do jogo com as águias… Enfim, um argumento todo ele digno de estatueta.
A interpretação de Samu no referido lance com Bah também mereceria Óscar para melhor ator, dada a forma veemente como um jovem espanhol de 22 anos já vestiu a pele do contra tudo e contra todos que Villas-Boas resolveu recuperar quando na chegada à presidência prometia uma lufada de ar fresco.
A direção de elenco também nestes tempos parece que está bem entregue a Francesco Farioli, há pouco mais de um ano em La Famiglia Portista, conceito adotado pelos dragões com a chegada do italiano para o comando técnico, e que desde a «imprensa do sul» ao discurso sobre arbitragens já incorporou todos os clichés e stranger things herdados do velho FC Porto pelo novo FC Porto."

VAMOS COMEÇAR PELA ARBITRAGEM


"Porque aderi ao Unum

1. Porque é entre eleições, quando o objetivo primário da caça ao voto não está em cima da mesa, que se podem - e devem! - fazer as melhores reflexões e apresentar as melhores propostas para o Clube e para o futebol português.

2. Porque o objetivo do Unum não é criticar, ninguém vai ler ou ouvir críticas dirigidas aos dirigentes do Clube ou às suas decisões. O objetivo único do Unum é estudar os assuntos mais relevantes, debatê-los abertamente e, por fim, propor medidas concretas.

3. Porque os temas que irão ser sucessivamente tratados me são particularmente gratos: o primeiro a ser colocado à discussão de todos, já na próxima terça-feira, dia 6, é um conjunto de 17 medidas muito concretas para reestruturar e reformar a arbitragem em Portugal. A verdade desportiva das competições tem que ser garantida e isso está hoje longe de acontecer - como todos sabemos.

4. Porque o Unum não pretende constituir-se como facção ou grupo oposicionista - se assim fosse não contaria com a minha participação. A direção do Clube foi e continuará a ser convidada a participar nos trabalhos de reflexão e na elaboração das propostas finais com medidas concretas sobre os temas em discussão.

5. Porque o Unum é plural e está totalmente aberto à participação de qualquer Benfiquista que pretenda envolver-se no objetivo de ajudar a fazer do Benfica maior e melhor.

6. Porque o Unum reune, à partida, um conjunto de pessoas com competências e valências várias, comprovadas nas respetivas vidas profissionais, conjunto de pessoas esse que tem independência suficiente para não precisar do Benfica ou ter como objetivo promover-se através do Benfica.

7. Porque o Unum não é limitativo das opções de ninguém que a ele adira: continuarão a ver-me na defesa do Benfica onde quer que eu possa ser chamado a intervir, nomeadamente nas noites de terças e sextas feiras no canal V+, por certo mais bem preparado sobre os temas em que participe no âmbito do Unum - o da arbitragem será já disso um bom exemplo."

ÁNGEL DI MARÍA — UMA CARREIRA ESCRITA NOS GRANDES MOMENTOS 🇦🇷❤️


"Há jogadores que passam pelo futebol.
Há jogadores que ganham títulos.
E depois há aqueles que parecem nascer para aparecer quando a história está prestes a ser escrita.
Ángel Fabián Di María Hernández pertence a essa última categoria.
Hoje, já no ocaso de uma carreira extraordinária, o “Fideo” olha para trás e vê uma história que começou muito longe dos grandes estádios europeus: começou em Rosario, onde chegou ao Rosario Central com apenas 7 anos e onde se estreou na equipa principal aos 17. Em 2007, partiu para o Benfica. O resto é uma viagem pela elite absoluta do futebol mundial.
Benfica.
Real Madrid.
Manchester United.
Paris Saint-Germain.
Juventus.
Benfica novamente.
E, finalmente, Rosario Central. Uma carreira de 20 temporadas, seis clubes e centenas de jogos ao mais alto nível. Segundo os dados mais recentes disponíveis, soma mais de 500 jogos de liga, mais de 120 golos e cerca de 170 assistências nas principais competições nacionais contabilizadas pelo FBref.
Mas os números, por si só, não explicam Di María.
Porque Di María nunca foi apenas um extremo.
Foi velocidade.
Foi técnica.
Foi inteligência.
Foi sacrifício.
Foi assistência.
Foi golo.
Foi capacidade para jogar em várias posições.
E, acima de tudo, foi um jogador para os grandes momentos. 

O HOMEM DAS FINAIS
Poucos jogadores na história tiveram uma relação tão especial com as grandes decisões.
Em 2007, campeão mundial Sub-20.
Em 2008, campeão olímpico em Pequim — e autor do golo da vitória na final contra a Nigéria.
Em 2014, protagonista do Real Madrid que conquistou a Champions League, numa final em que foi eleito Homem do Jogo.
Em 2021, marcou o único golo da final da Copa América contra o Brasil, no Maracanã.
Em 2022, marcou na Finalíssima contra a Itália.
E depois chegou o momento máximo:
a final do Campeonato do Mundo de 2022.
Contra a França, no Qatar, Di María sofreu o penálti que Messi transformou em golo e, minutos depois, marcou ele próprio o 2-0.
Mais uma final.
Mais um momento decisivo.
Mais uma vez, Ángel Di María.
A FIFA contabiliza três golos e duas assistências de Di María em 18 jogos de Mundiais, disputados em quatro edições: 2010, 2014, 2018 e 2022.
E talvez seja precisamente aí que reside uma das maiores singularidades da sua carreira:
quando a bola pesava mais, Di María parecia correr ainda mais.

A ALBICELESTE E UMA GERAÇÃO DOURADA
Pela Argentina, Di María construiu uma das páginas mais bonitas da história recente da seleção.
Foram 145 internacionalizações, 31 golos e 32 assistências, segundo os dados da CONMEBOL.
E os títulos dizem quase tudo:
🏆 Mundial Sub-20 — 2007
🥇 Jogos Olímpicos — 2008
🏆 Copa América — 2021
🏆 Finalíssima — 2022
🏆 Campeonato do Mundo — 2022
🏆 Copa América — 2024
Seis grandes conquistas com a Argentina.
E há um detalhe extraordinário: Di María marcou em todas as finais que a Argentina venceu na era Scaloni em que teve participação direta no jogo decisivo — contra o Brasil em 2021, contra a Itália em 2022 e contra a França no Mundial de 2022. A própria CONMEBOL destacou essa característica ao despedir-se internacionalmente do jogador.
Por isso, quando se fala do renascimento da Argentina, é impossível contar essa história apenas através de Messi.
Messi foi o génio.
Di María foi um dos seus grandes companheiros de batalha.
E, durante anos, foi também aquele jogador que aceitava fazer o trabalho menos glamoroso para que outros pudessem brilhar.

O TALENTO QUE NUNCA SE ESCONDEU ATRÁS DO EGO
Talvez uma das características mais bonitas da carreira de Di María tenha sido precisamente essa.
Nunca precisou de ser o centro de tudo.
Podia marcar.
Podia assistir.
Podia correr 50 metros para recuperar uma bola.
Podia jogar aberto.
Podia jogar por dentro.
Podia ajudar defensivamente.
E fazia-o.
Num futebol cada vez mais individualista, Di María construiu uma carreira baseada também na generosidade futebolística.
Era um jogador capaz de aceitar o sacrifício pelo coletivo.
E talvez seja por isso que a sua história seja tão especial.
Porque não foi uma carreira construída apenas com estatísticas individuais.
Foi construída com momentos que deram títulos aos outros.

DO ROSARIO PARA O MUNDO… E DO MUNDO DE VOLTA A ROSARIO
Há ainda outra dimensão que torna a história de Di María particularmente bonita.
Depois de conquistar praticamente tudo na Europa, voltou.
Não para um clube qualquer.
Voltou para casa.
Em 2025, depois de 18 anos, regressou ao Rosario Central, o clube onde tinha crescido e começado a sua carreira profissional.
E não regressou simplesmente para receber homenagens.
Continuou a competir.
Em 2025, Rosario Central terminou no topo da tabela anual argentina e foi reconhecido como campeão da Liga 2025.
Em 2026, já aos 38 anos, continuou a marcar, assistir e decidir jogos.
E em setembro de 2026 aconteceu mais um capítulo extraordinário: Di María marcou dois golos na vitória por 3-1 sobre o Estudiantes na final da Supercopa Internacional, ajudando o Rosario Central a conquistar mais um troféu.
É difícil imaginar um final mais simbólico.
O rapaz que saiu de Rosario para conquistar a Europa regressou à sua cidade para continuar a ganhar.

29 TÍTULOS NA EUROPA. E AINDA MAIS NA MEMÓRIA.
Antes do regresso à Argentina, a CONMEBOL contabilizava 29 títulos conquistados por Di María, incluindo a Champions League e o Mundial de Clubes pelo Real Madrid.
Na Europa, ganhou praticamente tudo:
🏆 Champions League
🏆 Mundial de Clubes
🏆 Campeonatos nacionais
🏆 Taças nacionais
🏆 Supertaças
Foi campeão em Portugal, Espanha e França.
Foi protagonista no Real Madrid.
Foi uma das grandes figuras da história recente do Paris Saint-Germain.
E mesmo quando mudou de clube, a sua qualidade permaneceu.

SERÁ DI MARÍA O TERCEIRO MAIOR ARGENTINO DE SEMPRE?
Esta é uma discussão inevitável.
Messi e Maradona ocupam, para a esmagadora maioria dos argentinos e dos amantes do futebol, um lugar absolutamente singular na história do país.
Depois deles, começa uma discussão muito mais aberta.
E há quem coloque Di María nesse terceiro lugar, pela longevidade, pelos títulos, pela importância na seleção, pelo peso nas finais e pela carreira de elite construída durante duas décadas. Essa avaliação foi publicada, por exemplo, na sequência da sua despedida da seleção em 2024.
Não é uma classificação oficial — e dificilmente poderia existir uma classificação objetiva deste tipo.
Mas é perfeitamente legítimo perceber por que razão o nome de Di María entrou nessa conversa.
Porque são poucos os argentinos que podem apresentar uma combinação semelhante de:
talento + longevidade + títulos + seleção + Champions + Mundial + ouro olímpico + protagonismo em finais.
E, sobretudo, são poucos os que podem dizer:
“Eu marquei nas maiores finais da minha geração.”

O ÚLTIMO CAPÍTULO
Agora, no crepúsculo da carreira, talvez seja altura de olhar para Di María não apenas como o extremo veloz que corria pela esquerda.
Mas como aquilo que realmente se tornou:
uma lenda.
Um jogador que saiu de Rosario ainda menino.
Que atravessou a Europa.
Que vestiu algumas das maiores camisolas do mundo.
Que caiu.
Que foi criticado.
Que perdeu finais.
Que sofreu lesões.
Que continuou.
Que voltou a perder.
E que continuou novamente. 
Até chegar ao ponto mais alto.
Campeão da América.
Campeão do Mundo.
Campeão olímpico.
Campeão europeu.
E, finalmente, de volta ao clube que lhe ensinou a amar o futebol.
Di María não precisou de ser sempre o protagonista.
Mas quando a história chamou por ele… ele apareceu.
E talvez essa seja a melhor definição de Ángel Di María:
não foi apenas um jogador que ganhou títulos. Foi um jogador que ajudou a escrever alguns dos momentos mais importantes da história do futebol argentino.
Do pequeno “Fideo” de Rosario ao campeão do mundo.
Do menino que sonhava com o futebol ao homem que conquistou quase tudo.
Obrigado, Ángel.
Por cada corrida.
Por cada assistência.
Por cada golo.
Por cada sacrifício.
Por cada final.
E, sobretudo, por nunca ter deixado de jogar pelos outros.
Ángel Di María.
Um dos grandes.
Um dos inesquecíveis.
Um homem das finais. ❤️⚽"

BF: Tomás...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Cristiano, The End: a cronologia de um escândalo

Observador: E o Campeão é... - O adeus de Ronaldo à Seleção é culpa de Jorge Jesus?

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Zero: Saudade - S05E03 - Rui Bento - Parte I

Cristiano Ronaldo, Dorian Gray e Nureyev


"Deixemo-nos de minudências e passemos, desde já, à questão de fundo: este Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, não tinha lugar na Seleção de Portugal. Podia contribuir com carisma, experiência e alguns minutos, para o grupo de Jorge Jesus. Contudo, um ego desmesurado não o deixou ver a realidade e fê-lo sair pela porta dos fundos…

Nos últimos 23 anos, Cristiano Ronaldo jogou 268 vezes pela seleção A de Portugal, num total de 21.110 minutos, que renderam, além de 164 golos, um Campeonato da Europa e duas Ligas das Nações. Números fantásticos e muito provavelmente irrepetíveis, de um jogador que ficará na história do futebol mundial como um dos melhores de sempre, ao lado de Pelé, Maradona e Messi. Mas como não há bela sem senão, Cristiano Ronaldo não soube envelhecer, não percebeu que devia ter dito adeus à Seleção em 2022, e manteve a presunção de que continuava a ser, em termos desportivos, quem um dia havia sido. Nos últimos quatro anos, apesar da conquista da Liga das Nações com Roberto Martínez, Ronaldo foi mais problema do que solução para a turma das quinas, mantido ligado à máquina da titularidade em função dos proventos que a sua fama ainda permitia arrecadar.
Estou particularmente à vontade para falar sobre este tema porque, após o Mundial do Catar, publiquei um longo artigo em A BOLA sobre este assunto que tinha por título «Cristiano Ronaldo, obrigado e adeus.» Obrigado, porque nunca tive memória curta e sei o que devemos a CR7, que durante anos a fio andou com a Seleção às costas, sendo o principal responsável pelas receitas que entraram na FPF; adeus porque era visível a olho nu que o que a mente queria o corpo já não acompanhava, e a fabulosa geração que cresceu à volta de um Ronaldo transformado em eucalipto rendia muito aquém do potencial que tinha.
Há uns meses, após o Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá, comparei Cristiano Ronaldo a Rudolf Nureyev, o príncipe dos bailarinos clássicos, que após ter brilhado no São Carlos voltou, anos depois, a Lisboa, para atuar no Coliseu dos Recreios: na primeira vez esplendoroso, na segunda, penoso.Infelizmente, como Dorian Gray, mas sem retrato, não aceitou a lei escrita pelo tempo, e quis ser, como cantaram Dylan e os Alphaville, jovem para sempre.
À medida que os anos passaram, a relação de CR7 com a bola, que chegou a ser íntima, foi-se deteriorando, à custa de tanta musculação, e a velocidade, atributo que o fazia competir com Usain Bolt, desapareceu. Surgiu então uma versão caricatural de um ex-grande jogador, empenhado em mostrar que os anos não passavam por ele, sem entender que só era mantido à tona internacionalmente pelos seguidores que tinha nas redes sociais e pelo número de camisolas que continuava a vender.
Do espanto que provocou quando começou a dar nas vistas no Sporting, à entusiasmante jornada no Manchester United - Sir Bobby Charlton dizia que cada vez que lhe passavam a bola levantava-se de imediato porque sabia que algo de extraordinário ia acontecer -, à conquista do mundo em Madrid e a duas excelentes épocas em Turim, seguiu-se um declínio que se iniciou na última época na Serie A, prosseguiu na segunda passagem em Old Trafford, e encontrou refúgio na Arábia Saudita, longe dos tempos em que era protagonista, com Lionel Messi, no maior dos clássicos de Espanha. Mas não foi só no Al-Nassr que CR7 encontrou um ambiente propício.
Também na Seleção Nacional, apesar de não ter rendimento desportivo que o justificasse, continuou a ser navio-almirante, com direito a tudo: no Mundial de 2026 só não jogou dez dos 450 minutos realizados por Portugal!

A ERA JESUS
Quando Jesus, vindo do Al-Nassr, onde tinha sido campeão da Arábia Saudita com Cristiano Ronaldo como capitão de equipa, sucedeu a Roberto Martínez na Cidade do Futebol, houve quem pensasse que a Seleção Nacional continuaria a ser CR7 mais dez. As primeiras declarações de ambos apontaram nesse sentido, Jesus a reconhecer o estatuto de Cristiano e a evidenciar a importância que ele tinha no grupo e CR7 a dizer que estava disponível para tudo pela Seleção: jogar, ser suplente ou entrar quando o treinador entendesse.Porém, estou certo de que há muito Jorge Jesus tinha percebido que nenhuma Seleção levantaria taças a jogar apenas com nove jogadores de campo, exatamente o que sucedia quando Cristiano Ronaldo não se envolvia no trabalho defensivo, obrigando a equipa a recuar e marcar à zona, nem tinha produtividade atacante, por falta de velocidade, destreza técnica e reflexos.
No primeiro jogo de Jesus, Ronaldo foi titular, e jogou ao nível que pode, pouco; no segundo, ficou no banco, Gonçalo Ramos marcou o golo da vitória, e o caldo entornou-se muito rapidamente.Haverá quem perca tempo em busca de explicações para este facto, se foi o que Jesus fez, se foi o que Jesus disse, ou se foi o ego insuflado de Cristiano Ronaldo a tramá-lo. Não é relevante.
A única coisa verdadeiramente importante é que o tempo de Ronaldo passou e, manifestamente, o capitão do Al-Nassr não joga o suficiente para ser titular de Portugal, e só se deveria admitir a sua inclusão no grupo alargado se estivesse disposto a somar, juntando carisma e experiência, e não a subtrair, como sucedeu no momento em que virou as costas à equipa e aos adeptos em Oslo.Hoje há jogo em Copenhaga, e embora o impacto do dia mais louco do futebol português - 30 de setembro de 2026 - tenha sido grande, caberá aos jogadores escalados por Jesus começarem a provar uma verdade universal do futebol: ninguém ganha nada sozinho, chame-se como se chamar. Sempre grato pelo que Ronaldo fez, ciente de que (para lá do marketing) era já um peso que puxava Portugal, desportivamente, para o fundo, lamento esta saída pela porta dos fundos. Mas a sensação com que fico é a de que Ronaldo e a bolha onde vive pensam que se trata do mesmo jogador que um dia, a 19 de novembro de 2013, na Friends Arena de Solna, ganhou lugar no panteão dos melhores de sempre…"

O pecado capital de Cristiano Ronaldo


"Capitão deixou a Seleção; a divergência com Jorge Jesus nunca poderia ser técnica; falta perceber o que tem para dizer e o que pensam os colegas

Foram mais de duas décadas de entrega, onde a camisola das quinas se transfigurou graças ao talento, disciplina e ambição do camisola 7. Copenhaga reservou um capítulo final demasiado triste. A tempestade desencadeada no estágio culminou numa imagem que fica muito longe do que devia estar preparado há algum tempo: uma saída em celebração e agradecimento a Ronaldo. Por colegas e pelo povo.
Após o choque com a autoridade de Jorge Jesus, Cristiano desapareceu num jato privado e num post nas redes sociais, no qual anunciou a saída da Seleção. Também prometeu dizer a verdade sobre o que o levou fazê-lo. Deixemos um espaço, então, para as razões de Cristiano, que pode revelar algo que não sabemos. Porque pelo que sabemos, o problema não podia residir na divergência técnica. Só o treinador está mandatado para tomar decisões desse tipo.
JJ anunciou desde o primeiro dia que iria estar na Seleção como esteve sempre no caminho que o trouxe até ao topo do futebol nacional: com as suas ideias, doa a quem doer, fosse qual fosse o estatuto. Na conferência de imprensa, Jesus não teve segredos. Confirmou que tinha planeado utilizar Ronaldo em dois dos quatro jogos, o primeiro e o último, que lhe dissera que talvez jogasse na Noruega e até assumiu que ter um atleta daquele estatuto a aquecer tanto tempo poderia tê-lo melindrado. O que Jesus nunca deixou de ser, porém, foi o treinador que é: fiel à sua liderança. É ele quem tem de ler o jogo, quem tem de atuar perante as circunstâncias. Foi o que fez em Oslo.
O capitão podia ter ficado descontente, mas se achou que merecia explicação, podia ter interpelado Jesus na privacidade do balneário. Mas a personalidade de Ronaldo impede-o de recato, precisa do holofote para se alimentar, seja no sucesso ou na frustração. É assim há anos, não pode surpreender ninguém, nem mesmo colegas de equipa, já habituados a que o mediatismo de uma vitória seja ultrapassado pela dimensão de um gesto do capitão.
Tentaram aproximar-se as partes, Proença ocorreu em urgência - até porque há um lado financeiro que o presidente da FPF tem de cuidar - e tudo parecia apaziguar-se após uma conferência sincera de Jesus. O que ouviu ou não ouviu Ronaldo que não gostou é o que não sabemos. Mas sabemos também qual é o pecado capital num desporto coletivo. Nunca se abandona a equipa. E sobretudo não se abandona por uma decisão técnica. Porque isso rompe o contrato moral com a equipa, com os colegas, que também trabalham e têm a mesma responsabilidade de representar Portugal. Faltará perceber o que vai na alma dos jogadores. Algo que, provavelmente, nunca saberemos porque o futebol português é perito no desporto do «politicamente correto» e no compromisso de circunstância.
Para quem construiu uma carreira sob o lema da superação e do profissionalismo irrepreensível, ver esse percurso terminar na pista de um aeroporto, à espera de um voo particular para abandonar os seus pares, é um espetáculo deprimente. A grandeza de um atleta mede-se na forma como domina os grandes palcos, mas consolida-se na capacidade de compreender o declínio da sua própria hegemonia. Ao recusar aceitar a inevitabilidade da rotação ou um papel secundário em prol do coletivo, Ronaldo permitiu que a sua monumental herança fosse ensombrada por um ato de inconformismo que, à falta dessas revelações que promete, parece imaturo."

Portugal e o caso que não era um caso


"Há situações que surpreendem pelo que acontece e outras pela forma como são conduzidas. Esta reúne as duas. Se se confirmar a saída definitiva de Cristiano Ronaldo nestas circunstâncias, estaremos perante um dos episódios mais tristes e lamentáveis da história da Seleção Nacional. Não porque um jogador não possa sair, mas porque a forma como se gere esse momento também faz parte da história que fica.
Não vou centrar esta reflexão na saída de Ronaldo do relvado, no jogo com a Noruega, antes dos colegas e sem agradecer aos portugueses presentes nas bancadas. Foi uma reação correta? Claro que não. Consigo compreendê-la? Sim. Compreender não é concordar. Mas quem nunca reagiu mal à frustração? Quem nunca precisou de alguns minutos para recuperar o equilíbrio entre aquilo que sentia e aquilo que deveria fazer? Reconhecer que um comportamento foi inadequado não nos impede de compreender a emoção que o antecedeu. Também não vou entrar na discussão sobre egos, onde me parece residir o busílis da questão. Prefiro olhar para aquilo que vimos e ouvimos na conferência de imprensa de Jorge Jesus, enquanto exercício de comunicação em crise. Porque, independentemente do que se passou entre treinador e jogador, havia uma situação pública que precisava de ser esclarecida e uma equipa que precisava de serenidade.
Jorge Jesus foi ele próprio. Isso não surpreende. O seu estilo é conhecido, a sua frontalidade também e o seu discurso atabalhoado é um registo característico. E esta análise não pretende em momento algum colocar em causa a competência do selecionador. A questão é perceber por que razão uma situação desta sensibilidade não mereceu uma preparação comunicacional mais cuidada. Alguém deveria tê-lo acompanhado, preparado ou, se necessário, enquadrado o assunto perante os jornalistas antes da sua intervenção. A responsabilidade de comunicar numa crise não pode ficar entregue apenas à espontaneidade do selecionador.
Comecemos pela negação. Não havia um caso, não havia um problema, não havia nada para resolver. Contudo, ao longo da mesma conferência, surgiu a informação, já antes conhecida, de que tudo tinha ficado resolvido depois do jantar. Afinal, o que foi resolvido se nada havia para resolver? Pode ter existido um desentendimento pontual, entretanto ultrapassado, sem que isso represente uma rutura. Mas era precisamente essa distinção que precisava de ser explicada. Negar repetidamente o problema enquanto se descreve a sua resolução fragiliza a mensagem. Em comunicação de crise, reconhecer uma dificuldade não significa perder autoridade. Pode, pelo contrário, demonstrar capacidade para a gerir.
Depois, a tentativa de limitar as perguntas. Duas seriam suficientes, três seriam demais. Só que a conferência prosseguiu, o limite não foi mantido e o assunto continuou a ocupar o discurso. A polémica não se encerra por contagem. Encerra-se, ou perde intensidade, quando as dúvidas encontram respostas claras e consistentes. Além disso, a repetição de uma mensagem só é útil quando ajuda a compreender. Quando se repetem negações, justificações e referências ao mesmo episódio, sem acrescentar clareza, corre-se o risco de prolongar aquilo que se pretende encerrar. A Dinamarca era apresentada como o verdadeiro foco, mas o discurso continuava preso a Ronaldo ou ao estatuto quando a pergunta era outra.
Junta-se a isto a forma de responder aos jornalistas. Uma pergunta pode ser incómoda, insistente ou assentar numa interpretação discutível. Procurar desqualificar, descredibilizar ou hostilizar quem pergunta não resolve nenhuma dessas dificuldades, pelo contrário, acrescenta um confronto. E, numa crise, cada confronto desnecessário oferece um novo motivo para continuar a falar do assunto. O mesmo acontece quando se responsabiliza a comunicação social pela existência do problema. A imprensa pode amplificar uma situação, mas quem comunica continua a ter a responsabilidade de esclarecer os factos. Sobretudo porque pouco tempo depois, o próprio selecionador reconhece a frustração do atleta e explica-a, algo que não fez inicialmente e que pode ter aguçado a “crise”. Transferir a discussão para o comportamento dos jornalistas deixa por responder aquilo que interessa e aumenta a tensão em torno de quem deveria estar a reduzi-la.
Ninguém precisa de contestar a legitimidade do selecionador para decidir quem joga. Mas insistir em «quem manda sou eu» e em que nenhum jogador alterará as suas decisões, num contexto de tensão com Cristiano Ronaldo, permite que essas palavras sejam recebidas como um recado ao capitão. Não podemos afirmar que essa foi a intenção. Podemos reconhecer que essa interpretação era previsível. E antecipar interpretações é parte fundamental de comunicar numa crise.
Por fim, a garantia de que Ronaldo treinaria foi contrariada pela sua ausência da sessão. Isso não prova que o jogador se tenha recusado a treinar, nem que Jesus tenha faltado deliberadamente à verdade. Mostra, contudo, o risco de apresentar como certo aquilo que ainda pode mudar. A diferença entre o anúncio e o acontecimento deixou novas dúvidas precisamente quando se procurava transmitir normalidade. Uma conferência de imprensa não é apenas uma conversa com jornalistas.
É uma mensagem para os adeptos, para os jogadores e para todos os que acompanham a Seleção. As palavras que saem daquela sala também entram no balneário. Podem proteger relações, estabilizar expectativas e devolver o foco à competição. Podem igualmente aumentar a exposição e tornar mais difícil a gestão interna de um desentendimento."

Vozinha está mesmo a precisar de beber um grogue em Santo Antão


"Desabafo do guarda-redes de Cabo Verde é a prova de que ninguém tem de ser feliz a viver o sonho dos outros.

Quando Vozinha desabafa que preferia a vida antes da fama, há um soco no estômago. Como pode o guarda-redes cabo-verdiano não estar a aproveitar o sonho cujas portas foram escancaradas no Mundial? E é aqui que surge logo o primeiro equívoco: este não era o sonho de Vozinha, era o nosso sonho, e ninguém ó obrigado a ser feliz por viver o sonho dos outros.
Vozinha é o nosso Cinderela Man. O exemplo de que aos 40 anos, sem clube, se pode estar no maior palco do mundo e ver a vida mudar num único jogo. O que se passou em termos mediáticos por causa de um único jogo, com a Espanha, é tão raro e foi tão impactante que a fama derrubou com estrondo a porta de ferro da fortaleza de Vozinha sem sequer pedir licença e sem se assegurar que Vozinha queria ou estava preparado para todo o mediatismo que se seguiu. Já para nós, simples mortais, Vozinha passou a ser o exemplo que um dia, contra todas as probabilidades, a nossa vida também pode mudar. E empurrámos Vozinha para viver o nosso sonho. Por isso e tão desconcertante ouvi-lo agora dizer que preferia a vida que tinha antes da fama.
Em vez de encontrar a liberdade, Vozinha encontrou a «prisão» que resulta da completa falta de privacidade. Talvez passe a desejar que nos esqueçamos dele. Talvez queira mergulhar os pés na Praia da Laginha ou esconder-se no Monte Cara, em São Vicente, procurando no pé descalço as memórias felizes de um sonho que, percebe-o agora, já vivia e ainda nem sabia.
João Félix também foi empurrado a viver um sonho que era mais nosso do que ele. A certeza de que era possível a um jovem fazer seis meses ao mais alto nível ter que pagasse 120 milhões por ele. E foi quando ele decidiu escolher o Al Nassr, que a todos nos escandalizou pela falta de ambição, que se reencontrou e surge agora como a principal figura da seleção. De facto, ninguém tem de ser feliz a viver o sonho dos outros. E às vezes o caminho para a felicidade faz-se de escolhas que não são óbvias para quem as testemunha mas fazem todo o sentido na mente de quem as toma.
Renato Sanches foi também lançado para um sonho que era nosso. O sonho de um Golden Boy que aproveita a lesão de Bernardo Silva para ter a vaga no Europeu de 2016. E que de repente está no Bayern. Mas o nosso sonho foi, a seguir, o pesadelo de todos nós, como se sonhar fosse punido com dureza. E pouco têm pago um preço tão alto quanto Renato Sanches.
Segundo Jorge Palma, «na terra dos sonhos podes ser quem tu és». E essa é a condição primária para podermos chamar sonho ao que nos acontece na vida: podermos ser quem somos, na imensa liberdade de fazer o que gostamos sem obrigação de agradarmos a quem quer que seja. Gastamos demasiado tempo e energia a fazer coisas que não nos fazem felizes para impressionar pessoas que nem sequer gostamos. Que, quantas vezes, nem sequer conhecemos. Um sonho só é sonho quando nos sentimos em casa.
Vozinha: vamos caminhar no Vale do Paul e beber grogue admirando a paisagem singular de Santo Antão. Lá, poderás ser quem quiseres, ninguém te leva a mal. Nha Terra, Nha Cretcheu."

Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e pouco espelho para tamanho narcisismo


"Seguramente, nunca vamos ter todos os elementos do que exatamente aconteceu entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Vai existir sempre uma ponta solta aqui ou ali. A verdade de hoje é a mentira de amanhã. E vice-versa.
Estamos a falar de dois egos imensuráveis. O maior jogador da história do futebol português contra aquele que provavelmente acredita ser o maior treinador português de todos os tempos.
Uma sala de espelhos infinitos seria minúscula para suportar uma relação mais espinhosa envolvendo duas figuras geniais e também geniosas. Imiscíveis por natureza.
Com ou sem uma promessa de jogar 30 minutos contra a Noruega, com ou sem um pedido público de desculpas, a razão acaba por ficar do lado de quem tem a missão de decidir o melhor.
Ao «barrar» Ronaldo, Jesus colocou os interesses coletivos acima dos interesses individuais. Ponto. Fez o que tinha de ser feito (há anos). Não há intocáveis simplesmente por pura gratidão.
CR7, por sua vez, agiu como uma criança mimada. Birrenta. Abandonou a seleção e os seus companheiros. Uma postura que nada tem a ver com um líder, tampouco com um capitão.
É uma pena — e um completo desperdício — que um ídolo indiscutível não consiga aceitar, mesmo aos 41 anos, a possibilidade de ser importante, sem a necessidade viciosa de ser o eterno protagonista.
Nada nem ninguém vai apagar a brilhante história de Cristiano Ronaldo. É um gigante. Monstruoso. Mas o glorioso passado não pode nunca servir como justificativa para determinar o presente.
O tempo chega para todos. A fila anda. É preciso reconhecer a hora certa de parar (por cima e com justiça). Sair merecidamente pela porta grande, não bizarramente pela porta pequena."

Concordo...

Ignorância...

Zero: Ataque Rápido - Extra - Live React: Polémica CR7 e Dinamarca-Portugal

A bola é minha, Eu é que sei - Isto NUNCA Pode Ser a Atitude de um Capitão! (CR7)

The Seleção Podcast #120 - It Didn't Have To End This Way

Santana: (ultima hora) CAPITÃO (Ronaldo) RENUNCIA À SELEÇÃO

Bola na Trave - FIM DE CRISTIANO RONALDO !

TNT - Melhor Futebol do Mundo - CRISTIANO RONALDO DEIXA A SELEÇÃO DE PORTUGAL EM MEIO À CRISE COM JORGE JESUS

ESPN: Futebol no Mundo - SELEÇÃO DE PORTUGAL AINDA PRECISA DE CRISTIANO RONALDO?

DeLetra #55 - ⚽ Jorge Jesus no Benfica, ídolo no Rangers e anos na Turquia

DAZN: F1 - Antevisão ao GP do Bahrain

As ‘bets’, os vulneráveis e a tentação da política fácil


"O Brasil acaba de proibir as bets (apostas desportivas), poucos anos depois de ter criado um mercado regulado para elas, com operadores autorizados e supervisão própria. A Medida Provisória de 25 de setembro extingue as autorizações existentes e proíbe a exploração, a oferta e a publicidade das apostas de quota fixa.
O governo invoca o endividamento das famílias e 71% dos brasileiros apoiam a proibição. Os danos são reais e proteger os mais expostos é uma obrigação. Mas a medida surge a poucos dias das eleições presidenciais, e é justamente quando uma causa é popular, moralmente apelativa e envolve pessoas vulneráveis que devemos exigir mais rigor, e não menos.
Há uma tentação conhecida na política contemporânea: pegar num problema real, apontar um culpado evidente e oferecer uma solução simples. As bets são o culpado, a proibição é a solução.
Em junho, no balanço de um ano de regulação, Carlos Renato Xavier, subsecretário da Secretaria de Prêmios e Apostas, classificou o modelo como bem-sucedido e garantiu que o governo não ia recuar na regulação, mas intensificar o combate aos operadores ilegais. Três meses depois, acabou com ela. O que mudou? Foi uma das perguntas centrais do SIGA Ibero-American Sports Betting Integrity Forum, que moderei terça-feira em Lisboa, à margem do SBC Summit. E talvez a mais importante não seja porque é que o Brasil proibiu, mas o que acontece a seguir. O problema não desaparece…
O jogador endividado, a dependência e a procura continuam a existir depois de fechada a plataforma legal. E onde há procura, há oferta. Num mercado regulado, o Estado sabe onde está o operador, impõe regras, exige mecanismos de proteção, controla a publicidade, fiscaliza transações e recolhe informação. Num mercado ilegal, perde aquilo de que mais precisa: visibilidade.
O governo responde com um comité de combate à exploração ilegal e com a criminalização da atividade. É necessário, mas não suficiente. Até abril, o Brasil já tinha bloqueado mais de 39 mil domínios ilegais. É essa a dimensão de um mercado que está fora da jurisdição, não protege ninguém e não partilha dados com ninguém.
Isto é decisivo para a integridade desportiva. Combater a manipulação de competições exige monitorização e que operadores, reguladores, polícias e organizações desportivas partilhem informação. Sem mercado regulado, esse sistema perde uma das suas principais fontes de alertas. O fenómeno não acaba. Fica mais difícil de ver.
Nada disto é uma defesa das bets, ou seja, das casas de apostas licenciadas. Muitos operadores licenciados num país operam ilegalmente noutras jurisdições, e quem os autoriza não pode ignorá-lo. O que está em causa é uma regulação suficientemente exigente para não confundir legalização com permissividade. Os operadores têm responsabilidades. A publicidade exige limites, e os 79% de brasileiros que os pedem têm razão. A proteção de menores e de jogadores vulneráveis não pode ser uma nota de rodapé. E o desporto não pode receber receitas das apostas sem assumir responsabilidade proporcional pela integridade das competições. Regular não é deixar fazer.
Mas o Estado que abandona o seu próprio modelo deve explicar o que falhou, que alternativas avaliou e porque é que a proibição protegerá melhor. Anunciar a proibição é fácil. Explicar como se protege o jogador vulnerável, como se combate o mercado ilegal e como se monitorizam apostas suspeitas é muito mais difícil. É essa a diferença entre governar um problema e explorá-lo politicamente. O jogador vulnerável merece proteção, não instrumentalização."

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Exclusivo!

O Nuno Luz tem 'seguidores'!!!

Circo...

Quem foi o Chibo?!

Lagartos bêbados !!!

Últimos minutos fatais...

Benfica 0 - 3 Bayern


Resultado pesado, contra uma equipa superior, onde o Benfica defendeu durante muito tempo bem, onde até criámos algumas jogadas de perigo, não fomos eficazes e o Bayern perto do fim desbloqueou a partida com um grande golo... Com a lesão da Pauleta e a substituição da Cisik, ficámos sem meio-campo, o jogo ficou partido, e até podíamos ter sofrido mais alguns golos...

Na próxima jornada vamos a Londres jogar com o Arsenal, outro jogo complicadíssimo... mas mais importante é perceber a condição física da Pauleta, pois com a lesão da Valente, o plantel naquela posição ficou muito curto e como ficou provado hoje, as nossas outras jovens centro-campistas, podem ter qualidade técnica, mas fisicamente estão muito longe do nível exigido para este nível...

BF: Echeverri...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Jesus e Ronaldo: causas e consequências da polémica

Observador: E o Campeão é... - Jorge Jesus e Ronaldo: há mesmo crise na Seleção?

Observador: Três Toques - Cheque sem cobertura: o City foi mesmo apanhado

SportTV: Peças do Jogo - Catarino: O impacto de João Palhinha no plantel do SL Benfica

Rabona: The Likelihood Of Every Punishment Man City Could Actually Face

Kanal: Era Só Isto...

Embate europeu na Luz


"O Benfica recebe o Bayern Munique no Estádio da Luz (20h00) a contar para a fase de liga da Liga dos Campeões de futebol no feminino.

1. Ambição
Ivan Baptista, treinador da equipa feminina de futebol do Benfica, releva o foco na vitória, não obstante o valor do adversário: "Não podemos encarar o jogo de forma diferente daquilo que encarámos a Juventus. Também era favorita e fomos a Turim para jogar o nosso jogo sempre que possível. Este grupo tem uma confiança tal que vai entrar para disputar todos os pontos. A nossa ambição, ninguém mexe nela."
A guarda-redes Lena Pauels manifesta confiança e conta com o apoio dos Benfiquistas: "Os adeptos significam muito para nós. No Estádio há sempre um ambiente fantástico. Talvez seja o dia de conseguirmos também vencer uma das melhores equipas da Europa. Como disse, sinto que a equipa está num bom momento. Por isso, por que não?"

2. Assina a petição
Junta-te aos mais de 40 mil e assina a petição. Impede o Benfica de perder mais de 20 milhões de euros com a centralização.

3. Contributos internacionais
Acompanhe a prestação dos jogadores do Benfica ao serviço das seleções.

4. Chamadas internacionais
Várias futebolistas do Benfica convocadas por seleções nacionais. No futsal, há mais uma jogadora do Benfica no contingente português que vai disputar o apuramento para o Europeu. E no hóquei em patins no masculino são 7 os atletas do Benfica que vão marcar presença no Mundial.

5. Derrota caseira
O Benfica sofreu um desaire na receção ao BM Torrelavega (24-31) na 1.ª jornada da fase de grupos da EHF European League.

6. Apresentação
A equipa masculina de voleibol do Benfica apresenta-se aos sócios e adeptos na próxima sexta-feira, às 20h15, na Luz frente ao Leixões.

7. Rescaldo de uma conquista
Joana Soeiro fala sobre o triunfo da Supertaça de basquetebol no feminino em entrevista à BTV.

8. Stadium & Museum by Night
Veja as melhores imagens de mais uma edição das visitas noturnas ao estádio e ao museu benfiquistas.

9. Casa Benfica Canas de Senhorim
Esta embaixada do benfiquismo celebrou o 23.º aniversário."

Felizmente há Ronaldo!


"Cristiano Ronaldo é o jogador perfeito para a Liga das Nações. Numa competição cuja primeira fase consiste, essencialmente, em quinze dias sem futebol, um jogador que já não o tem é o jogador certo: quer jogue, quer não jogue, contribui sempre para a singularidade não-futebolística da quinzena

Quando alguém pronuncia as palavras “pausa para as selecções”, o adepto reage logo. Reage logo, mas reage breve. É preciso estar atento. Na maioria das vezes, só o olho mais treinado é capaz de captar o fenómeno: uma brevíssima retracção dos lábios, um ligeiro recuo do queixo e da nuca, um piscar de olhos só um pouco mais lacónico do que o habitual. Coisas mínimas. O adepto sente-se despojado. Atravessa-lhe a alma uma morrinha, qualquer coisa banza, uma saudade.
Quase de certeza que já disse isto aqui e, se não disse, é como se já o tivesse dito, tal a recidiva da ideia: sempre que a Selecção Nacional joga há uma fada que morre na Terra do Nunca.
Pronto, estou a ser injusto. Ou talvez não. Ou nem tanto? Não interessa. O ponto é este: o adepto quer ver o seu clube jogar e não o deixam. Persevera durante a pré-temporada e durante os certames que a nossa selecção teima em disputar. Mas só quer ver Agosto chegar, esse mês de praia, peixinho e futebol. É uma maravilha. Este ano foi duro, mas ao menos valeram-nos as cadernetas. Pois agora servem-nos Liga das Nações ou, como diz o meu amigo Vasco, que toca bateria e sabe o que diz: “Essa grande competição sem objectivo nenhum.”
Não há nada mais desmoralizante para o adepto. São quinze dias, amigos. Quinze dias. Uma vida. Em quinze dias um homem escreve um romance, monta um puzzle de 103 mil peças, vai à Nova Zelândia e regressa e, em certos casos de excepcional capacidade de organização, faz as três coisas ao mesmo tempo. Entretanto, algures na Dinamarca, na Turquia ou na Eslovénia, vinte e cinco infelizes — ou talvez não tão infelizes, consideradas as respectivas folhas salariais — são arrancados aos clubes e postos a correr atrás de uma bola.
É o hat-trick da estultícia: primeiro, adeptos frustrados porque ficam sem os seus clubes; segundo, um torneio menos do que morno; terceiro, um conjunto de jogadores talentosos que regressará estoirado aos respectivos emblemas.
Felizmente, temos Cristiano Ronaldo!
Cristiano Ronaldo é o jogador perfeito para a Liga das Nações. Se não fosse ele, este lamento tinha acabado, sem remissão, no parágrafo anterior. Numa competição cuja primeira fase consiste, essencialmente, em quinze dias sem futebol, um jogador que já não o tem é o jogador certo: quer jogue, quer não jogue, contribui sempre para a singularidade não-futebolística da quinzena.
Jorge Jesus, por seu turno, é o pior treinador possível para uma competição com estas características. O nosso seleccionador nacional, coitado, sofre daquela bizarra condição que aparece em adeptos e treinadores e dá pelo nome de “gostar de futebol”. É uma doença cada vez mais rara. Mas existe. E um dos sintomas desse estranho padecimento é escolher para jogar os que jogam melhor e deixar sem jogar os que jogam pior. Mesmo num torneio desta natureza — ou talvez sobretudo num torneio desta natureza — seria inevitável que o número sete acabasse no banco.
Mas o número sete não gostou. E a Liga das Nações começou.
“Cristiano Ronaldo abandona o relvado.” “Cristiano Ronaldo não agradece aos adeptos.” “Cristiano Ronaldo não treina e regressa ao hotel.” “Cristiano Ronaldo deixa um coração seguido das letras pê e tê nas redes sociais.” “Portugal: réunion de crise organisée en urgence pour Cristiano Ronaldo!” “Cristiano Ronaldo skips the family trip as Georgina Rodríguez and the kids enjoy Céline Dion.” Pode não haver futebol. Cristiano, multiplica-se.
É admirável. Com bola, sem bola, em campo, no banco, em alta, em baixa, Cristiano Ronaldo factura e faz facturar. Já não é um homem. É uma economia. O que é um problema: um homem reforma-se, uma economia entra em recessão."

Quanto vale pintar o futebol de marrom?


"A coerência comunicacional de André Villas-Boas será discutível, já o propósito final da estratégia em marcha é bastante mais consistente e fácil de perceber. Fica a impressão de que não são os factos que determinam a teoria, mas é a teoria que, a cada momento, escolhe a cor mais conveniente para pressionar nos bastidores.

Na pretérita semana, o Portugal Football Summit, organizado pela Federação Portuguesa de Futebol, reuniu na Cidade do Futebol os principais dirigentes e protagonistas da modalidade para discutir os desafios da indústria, refletindo, em particular, sobre a melhor forma de tornar o nosso futebol num produto mais competitivo, mais valorizado e mais sustentável.
A centralização dos direitos televisivos, os modelos de financiamento, a profissionalização da arbitragem e a conquista de novos públicos estiveram entre os temas em debate. Importa que estas reflexões tenham consequência para lá dos palcos da Cidade do Futebol, uma vez que proclamar o futuro tem sido relativamente fácil. Mais difícil tem sido romper com práticas e condutas anquilosadas e corresponder com atos coerentes com as palavras vocalizadas nesses palcos.
A centralização dos direitos televisivos merece particular atenção. O presidente da Liga Portugal, Reinaldo Teixeira, apresentou as etapas para a comercialização centralizada, apontando para a conclusão do processo de venda até ao final do ano civil de 2027, no pior dos cenários. Mas centralizar não pode significar apenas negociar em conjunto aquilo que antes os clubes negociavam e vendiam separadamente.
Tem de contribuir para criar melhores condições para a competição, melhores realizações dos jogos, para que mais clubes possam contratar e reter bons jogadores, formar equipas mais capazes e acrescentar qualidade de jogo ao nosso campeonato. São os protagonistas, jogadores e treinadores, que dentro das quatro linhas poderão transformar melhores condições financeiras em melhores espetáculos.
Também na arbitragem se discutiram mudanças estruturais, com José Fontelas Gomes a apontar a criação de uma entidade externa de gestão como instrumento crítico para a profissionalização do setor. O plano para a arbitragem deve assentar em prioridades claras: capacitar os seus agentes, dotá-los de melhores meios, incluindo com recurso à mais avançada tecnologia, repensar as condições e a preparação dos árbitros, repensar o modelo de carreira para atrair recursos de elevado nível, no fundo, uma revisão ampla de todo o setor da arbitragem. O caminho deve ser este para que se reduza o erro ao mínimo, de modo que se possa considerar admissível mesmo nos dias em que é cometido em prejuízo do nosso clube.
A conclusão que retiro destes debates é que a sustentabilidade do futebol português não se resolve exclusivamente despejando mais dinheiro proveniente da negociação futura dos direitos televisivos. Precisamos de maiores e melhores receitas, mas acima de tudo de introduzir novos comportamentos e de exigir mais dos protagonistas de fora do campo.
A credibilidade da competição não é um assunto lateral, que possa ser entregue ao departamento de marketing e comunicação, enquanto os donos da bola se concentram em destruí-la com declarações insidiosas e de permanente suspeição. Com efeito, não faz sentido pedir aos investidores que acreditem num campeonato que os seus próprios líderes apresentam, com demasiada facilidade, como indigno de confiança, justificando assim os seus insucessos junto dos associados.
Sucede que, enquanto se discutia o futuro, André Villas-Boas encontrou a oportunidade para, mais uma vez, brindar-nos com discursos obsoletos do passado. No editorial da revista Dragões, divulgado a 24 de setembro, sob o provocatório título «Quanto vale um Pote?», o presidente do FC Porto avançou com a nova tese sobre um «manto marrom», associando verde e vermelho numa alegada concertação contra o seu clube. Pelo meio da sua dissertação, foi ao extremo de pontuar a sua tese sobre a hipótese de fundação de um novo clube na segunda circular e num «pacto de sangue».
Passámos a saber que André Villas-Boas não enferma de daltonismo, parecendo dispor de uma acuidade que vai além de uma visão tricromática, logrando ver aquilo que um comum mortal não vislumbra. Aparentemente, segundo o líder do FC Porto, a maior e eterna rivalidade em Portugal, entre Sporting e Benfica, não passara de um mero equívoco ao longo de décadas, que aguardava o douto esclarecimento de um presidente que julga saber de tudo, incluindo de relações alheias.
Já aqui me ocupei da narrativa do alegado manto verde e da tentativa de transformar a permanente suspeição sobre a arbitragem num instrumento competitivo para ganhar ascendente e influenciar decisões em jogos críticos. Agora, subitamente, ou talvez porque anteveja este ano uma disputa mais direta com o Benfica, a narrativa do presidente do FC Porto ganhou outra cor. O que me parece revelador não é a mistura cromática, mas a elasticidade da sua teoria: muda o adversário a visar, mas a suspeição mantém-se disponível como instrumento de pressão.
Quando interessa concentrar o ataque, por se identificar um rival prioritário, individualiza-se o inimigo; quando passa a ser conveniente alargar o cerco, por efeito da disputa a três, juntam-se os rivais. A coerência comunicacional será discutível, já o propósito final da estratégia em marcha é bastante mais consistente e fácil de perceber. Fica a impressão de que não são os factos que determinam a teoria, mas é a teoria que, a cada momento, escolhe a cor mais conveniente para pressionar nos bastidores.
Esta forma de exercer a liderança e de se relacionar com os adversários diretos não passa de uma versão ligeiramente mais sofisticada do que aquela que conhecêramos com o seu antecessor, Pinto da Costa. A pretensa lufada de ar fresco anunciada por quem merece o máximo respeito e malogradamente já não se encontra entre nós, não se tem vindo a confirmar. As palavras de Jorge Costa criaram uma expectativa de renovação e de mudança de postura que não têm encontrado respaldo nos atos e atitudes de André Villas-Boas.
Frustradas as ambições no primeiro campeonato sob a sua liderança — numa das piores prestações da história recente do clube —, Villas-Boas parece ter encontrado no velho mecanismo de mobilização do «nós contra eles», do Norte contra o Sul e da hostilidade artificialmente alimentada no Dragão, um atalho para recuperar o sucesso. Em vez de demonstrar que era possível vencer de outro modo, como prometera quando se candidatou, preferiu recuperar a receita de quem o precedeu.
Este editorial é tanto mais intempestivo quanto surge na sequência de um clássico em que, os eventuais erros de arbitragem que possam ter existido, acabaram a favorecer o FC Porto. Quem exige rigor e uniformidade de critérios deve começar por aplicá-los nas suas próprias avaliações, independentemente de cores e da camisola beneficiada.
O desafio de uma liderança moderna deveria passar por construir um clube vencedor, sem recorrer ao condicionamento permanente da arbitragem ou à anacrónica narrativa do cerco. A anunciada «lufada de ar fresco» pressupunha uma mudança de fundo, porém, Villas-Boas começa a revelar-se uma versão 2.0 de Pinto da Costa: mais sofisticado na forma como se apresenta, mas demasiado semelhante nos seus métodos.
De pouco servirá discutir no Portugal Football Summit como valorizar o nosso futebol se, concomitantemente, os seus dirigentes continuarem a revestir de modernidade os velhos vícios que há décadas o desvalorizam."

Ronaldo forçou Proença a marcar 'Summit' na Escandinávia


"A única coisa que surpreende, na polémica resultante da não utilização de Cristiano Ronaldo na Noruega, é que o primeiro arrufo entre o capitão e o novo selecionador tenha surgido tão cedo

«Nunca falei para tanta gente ao mesmo tempo», dizia Cristiano Ronaldo há uma semana, na invulgar conferência de imprensa inserida no Portugal Football Summit. Nesse dia, o capitão da Seleção garantiu que Jorge Jesus, sentado a seu lado, era «a escolha perfeita» para selecionador e podia contar com ele para o que fosse preciso. «Para jogar, sair, entrar ou não jogar», especificou Cristiano, disposto a ajudar tanto dentro do campo, como fora dele, «por ser o capitão, conhecer muitas dinâmicas da Seleção e poder ajudar o grupo».
Bastaram quatro dias para que a postura de Cristiano entrasse em contradição com o discurso. Suplente não utilizado na Noruega, Ronaldo recolheu aos balneários logo após o apito final. Não foi aos críticos que virou costas, mas sim aos colegas, que mereciam um cumprimento no relvado, e aos adeptos, que fizeram o esforço de marcar presença em Oslo.
Ninguém diz que Cristiano já não é digno da braçadeira. Os erros acontecem ao melhor, mas não pode reclamar direitos e esquecer deveres. É um exemplo, e quanto maior a exposição, maior o impacto de tudo aquilo que faz. Foi o próprio, não a comunicação social, a criar um caso logo ao segundo jogo da campanha.
Dentro do esforço incómodo para não valorizar o sucedido, Jesus não renunciou — pelo menos publicamente — à sua liderança. Assumiu uma decisão técnica e reconheceu que tinha apresentado ao avançado o cenário de jogar 30 minutos na segunda parte, mas que tinha mudado de ideias devido ao desenrolar do jogo.
Ironicamente, foi o tratamento diferenciado que Cristiano Ronaldo fez por merecer — mas que jamais deve ser privilegiado — a dar origem a esta situação altamente desconfortável.
Terão sido várias as conversas entre Ronaldo e Jesus. Antes do jogo, antes da convocatória, talvez até antes da própria contratação do técnico, que teve direito a estágio com o capitão no Al Nassr. Esses bastidores ajudariam a entender o compromisso, mas não justificam que Ronaldo vire costas a colegas e adeptos.
A única surpresa neste arrufo é ter surgido tão cedo. Selecionador e capitão conversaram entretanto, mas Pedro Proença já se tinha feito ao caminho — depois de evitar os jornalistas, uma vez mais — para uma Summit na Escandinávia."