"Há jogadores que defendem jogos. Outros que os decidem. E depois há Higuita, que não só defende e é decisivo, como sobretudo mudou a forma como o jogo é pensado.
Num fim de semana em que o futsal europeu decide o seu campeão de clubes, com o Sporting na final da Liga dos Campeões frente ao Palma Futsal, olhar para Léo Higuita é olhar para uma das maiores transformações de sempre na modalidade. Mais do que um guarda-redes, o brasileiro naturalizado cazaque tornou-se um princípio de jogo.
Durante décadas, o guarda-redes de futsal era visto como o último reduto defensivo. Higuita mudou essa lógica. Transformou a posição num espaço de criação, liderança e influência direta no jogo ofensivo.
Nascido no Rio de Janeiro, como Leonardo de Melo Vieira Leite, encontrou cedo no futsal o palco ideal para uma forma de jogar fora dos padrões tradicionais. O apelido Higuita surgiu pela semelhança com o irreverente guarda-redes colombiano, de futebol, René Higuita. Mas o tempo acabaria por mostrar que o futsal ganharia o seu próprio Higuita com uma identidade própria.
A sua afirmação acontece no Cazaquistão, primeiro no Tulpar e depois no Kairat Almaty. A partir daí, deixa de ser apenas um guarda-redes com participação ofensiva para se tornar uma verdadeira arma tática. A capacidade de jogar fora da área, de criar superioridade numérica e de participar ativamente na construção ofensiva alterou profundamente a forma de entender o jogo. O chamado guarda-redes avançado já existia, mas nunca com esta consistência, coragem e impacto competitivo. Higuita é uma versão 2.0.
Mais do que os golos, muitos deles decisivos, ou as defesas de alto nível, o que distingue Higuita é a influência coletiva. Ele obrigou as equipas a reagir. Obrigou o jogo a evoluir.
As conquistas acompanham essa inovação: múltiplos títulos nacionais, a UEFA Futsal Cup (atual Liga dos Campeões de futsal) e várias distinções individuais, incluindo cinco prémios de melhor guarda-redes do mundo. Pela seleção do Cazaquistão, ajudou a transformar uma equipa emergente numa presença constante entre as melhores da Europa.
Mas o seu verdadeiro legado não está nos troféus. Está na forma como mudou o jogo. Hoje, o futsal moderno já não se entende sem a influência do seu modelo. Os guarda-redes são mais completos, mais técnicos e mais participativos. Muitos cresceram a vê-lo assumir riscos, sair da baliza e decidir jogos com os pés.
Se Ricardinho marcou pela magia e Falcão pela arte, Higuita marcou pela estrutura. Talvez esse seja o maior elogio possível: depois dele, o jogo nunca mais foi o mesmo.
Entre aqueles que melhor o conheceram dentro de campo está Carlos Ortiz, uma das maiores referências da história do futsal mundial. Figura central do Inter Movistar e do Barcelona, onde conquistou quatro Ligas dos Campeões, e antigo capitão da seleção espanhola, com 215 internacionalizações e quatro títulos europeus, Ortiz cruzou-se inúmeras vezes com Higuita ao longo da sua carreira ao mais alto nível do futsal mundial. Sobre o impacto do guarda-redes do Kairat Almaty, não hesita em sublinhar o papel transformador que teve na modalidade:
— Foi um verdadeiro pioneiro, juntamente com o Cacau enquanto treinador, na redefinição do papel do guarda-redes. Transformou-o num jogador ativo na construção e na finalização Durante muitos anos, a sua forma de jogar obrigou equipas e treinadores a adaptarem estratégias defensivas especificamente para enfrentar as suas equipas.
Ortiz recorda mesmo uma eliminatória da Liga dos Campeões frente ao Kairat:
— Obrigou-nos a treinar especificamente para o enfrentar. Tivemos que repensar profundamente muitos aspetos defensivos. Tivemos de nos adaptar ao seu estilo de jogo e encontrar novas soluções para o tentar controlar. Preparámos durante três meses uma estratégia de pressão alta pensada especificamente para anular a influência do Higuita no jogo. Curiosamente, sofremos um golo logo na primeira jogada, mas acabámos por vencer o jogo e conquistar o título europeu. A partir desse momento, começámos a utilizar essa abordagem sempre que enfrentávamos guarda-redes com características semelhantes e, mais tarde, acabámos até por adaptá-la à seleção espanhola, porque os resultados eram muito positivos.
Na síntese da sua avaliação, o antigo internacional espanhol deixa ainda uma apreciação clara sobre o legado do guarda-redes:
— Uma das lendas do futsal mundial. Um grande guarda-redes que domina aspetos que outros não dominam. Brilhante no jogo com os pés e muito forte entre os postes. Talvez não valorizemos suficientemente o quão bom ele é enquanto guarda-redes por tudo aquilo que acrescenta ao jogo da sua equipa como mais um jogador. A sua forma de jogar obrigou-nos a todos a sermos melhores. Foi um orgulho competir tantas vezes contra ele.
O impacto de Higuita no futsal moderno não se limita às vozes da Europa. Também do outro lado do Atlântico, Marquinhos Xavier, selecionador do Brasil e atual campeão do mundo, destaca o impacto estrutural de Higuita no jogo moderno. Para o técnico brasileiro, enfrentar Higuita exige uma preparação muito específica, tanto no plano tático como mental:
— Enfrentá-lo exige um nível de concentração tática e mental muito elevado. O principal cuidado que a nossa equipa sempre teve era a gestão da ansiedade na marcação. Como ele joga praticamente como um quinto jogador de campo, criando superioridade numérica constante no ataque, a defesa não pode perder a organização nem se precipitar na pressão.
Marquinhos sublinha ainda a importância da leitura de jogo para lidar com a sua influência constante:
— É essencial termos uma leitura muito clara dos momentos: quando pressionar para o forçar ao erro e quando baixar linhas para fechar os espaços de passe e, sobretudo, de finalização, já que ele tem um remate muito potente de média distância. Outro ponto fundamental é a transição defensiva. Qualquer erro ofensivo ou perda de bola pode significar uma aceleração imediata do jogo por parte dele, quer com os pés quer com as mãos. Por isso, o equilíbrio da equipa e a disciplina são fundamentais.
E não tem dúvidas na definição:
— É um guarda-redes revolucionário. Não é apenas um excelente defensor da baliza, com reflexos rápidos e grande envergadura, é também um verdadeiro construtor de jogo. Ele quebrou por completo o paradigma tradicional da posição e obrigou o futsal mundial a adaptar-se a uma nova forma de jogar. A sua principal característica é a coragem aliada à enorme qualidade técnica. Tem uma visão de jogo de um fixo ou de um ala construtor, uma precisão de passe extraordinária e uma confiança inabalável para assumir riscos fora da sua área. Além disso, é um líder nato, que contagia tanto a seleção do Cazaquistão como os seus clubes com uma energia competitiva muito forte. O Higuita não se limita a defender a sua equipa, ele também ataca o adversário. É, sem dúvida, um dos nomes que ficará marcado para sempre na evolução tática do nosso desporto.
Luizinho Cruz, treinador de guarda-redes que trabalhou com Higuita durante cerca de uma década no Kairat e na seleção do Cazaquistão, reforça a mesma ideia. O primeiro contacto, ainda no Brasil, já revelava um perfil fora do comum: confiança, risco e participação ativa no jogo ofensivo. Mas a verdadeira transformação acontece na Europa, onde passa a ser decisivo em equipas de topo:
— Deixa de ser apenas um guarda-redes integrado para se tornar um jogador decisivo. Influencia o ritmo, a posse e a construção.
Para o treinador, o segredo está no equilíbrio:
— Ele defende e ataca com a mesma intenção competitiva. Com eficácia. Transforma cada intervenção numa vantagem coletiva.
Para o próprio Higuita, o futuro da posição já não é projeção, é realidade:
— O futuro é hoje.
A inclusão do guarda-redes na construção e nas transições tornou-se, segundo o brasileiro, uma exigência do futsal moderno. A participação ativa na criação de superioridade e na progressão ofensiva é já estrutural.
Ao mesmo tempo, reconhece a evolução física da posição:
— O jogo está mais rápido, mais vertical e mais físico. Exige mais velocidade e capacidade de decisão em transição.
Ainda assim, acredita que a evolução será inevitável:
— Dentro de alguns anos, todos os guarda-redes terão de dominar esta função.
No futsal contemporâneo, há quem defenda, quem marque e quem organize. Mas há também quem transforme tudo ao mesmo tempo. Higuita pertence a essa raríssima categoria.
Num jogo cada vez mais rápido, complexo e exigente, não acompanhou apenas a evolução da modalidade: empurrou-a para a frente. E quando um guarda-redes passa a ser também um princípio de jogo, deixa de pertencer apenas à sua posição. Passa a pertencer à história.
Para fechar, e olhando para o palco onde este fim-de-semana se decide mais um campeão europeu, fica também a referência a quem procura escrever a sua própria história: o Sporting CP, liderado por Nuno Dias, chega pela sexta vez consecutiva à final-four da Liga dos Campeões de futsal e já conquistou a prova por duas ocasiões. Num grupo onde se destacam nomes como Zicky, Merlim, João Matos, Tomás Paço e companhia, fica a ambição de voltar a erguer o troféu e trazê-lo novamente para Portugal, num símbolo de continuidade da excelência do futsal nacional ao mais alto nível europeu."