Últimas indefectivações

domingo, 5 de julho de 2026

SL Benfica 26/27 Away Jersey

Egos!

Zero: Mercado - Leão perto de perder capitão; Benfica de olho em avançado

BF: Kaminsky...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Observador: E o Campeão é... - Cuidado com o tubarão, Argentina! Não pegou, mas fica o aviso

Em prol do benfiquismo


"As Casas, Filiais e Delegações do Sport Lisboa e Benfica estão reunidas em Congresso no Museu Benfica – Cosme Damião. Este é o tema em destaque na BNews.

1. Congresso das Casas, Filiais e Delegações
A 4.ª edição do Congresso das Casas, Filiais e Delegações do Sport Lisboa e Benfica prossegue no auditório do Museu Benfica – Cosme Damião. Na abertura do evento, o Presidente do Clube, Rui Costa, salientou a dinâmica das embaixadas do benfiquismo: "Nesta altura vivemos uma fase muito promissora com 10 novas Casas em marcha."

2. Pré-época em marcha
Continua a preparação do plantel às ordens de Marco Silva.

3. Empréstimo
Diogo Prioste vai evoluir no Gil Vicente em 2026/27.

4. Futebol: calendários definidos
Na 1.ª jornada da Liga Betclic, o Benfica recebe o Académico de Viseu. A equipa B é anfitriã do Leixões na ronda inaugural da Liga 2.

5. Mundial 2026
Siga, no Site Oficial, o desempenho dos futebolistas do Benfica e todos os resultados e marcadores.

6. Protagonista
O entrevistado da semana é Edu Castro, treinador campeão nacional de hóquei em patins no masculino.

7. Movimentações do defeso
Foram anunciadas as saídas da futsalista Raquel Santos e da hoquista Sara Roces.

8. Chamadas internacionais
Jhonathan Andrade está convocado pela Seleção Nacional Sub-20 de basquetebol. João Bandeira Lourenço foi chamado pelos Sub-20 de andebol.

9. Museu Benfica – Cosme Damião
Conheça a programação para o 1.º trimestre de 2026/27.

10. História agora
Veja a rubrica habitual das manhãs de quinta-feira na BTV.

11. Casa Benfica Moura
Esta embaixada do benfiquismo organizou a 6.ª edição do Trail Cidade de Moura, que contou com mais de mil participantes."

Cabo Verde: uma vitória que vai muito além do futebol


"Há campanhas desportivas que transcendem os resultados e deixam uma marca na forma como um país é visto pelo mundo. A extraordinária prestação de Cabo Verde neste Mundial é uma dessas histórias.
Mais do que o mérito desportivo, esta campanha revelou organização, talento, ambição e uma enorme capacidade de superação. Demonstrou que a dimensão geográfica de um país nunca limita a grandeza dos seus sonhos quando existe competência, trabalho e identidade.
Acompanhei este percurso com um sentimento especial. Ao longo da minha vida profissional tive o privilégio de visitar Cabo Verde em diversas ocasiões, primeiro em funções no Sporting Clube de Portugal e, mais tarde, enquanto desempenhava responsabilidades nos CTT – Correios de Portugal.
Essas viagens permitiram-me conhecer muito mais do que um país. Permitiram-me conhecer um povo extraordinário: gente simples, acolhedora, trabalhadora e profundamente orgulhosa da sua identidade. Um país com enorme potencial humano, económico e social, onde se sente uma energia positiva e uma vontade permanente de crescer.
Ao ver a seleção cabo-verdiana brilhar neste Mundial, lembrei-me inevitavelmente de amigos que tanto têm contribuído para valorizar o nome de Cabo Verde.
Pensei, desde logo, no Agostinho Abade, um verdadeiro embaixador daquele país, alguém que sempre soube transmitir, com paixão e autenticidade, o melhor de Cabo Verde e do seu povo.
Recordei também o Filipe Frazão, que teve a coragem de deixar para trás uma carreira consolidada em Portugal para abraçar um projeto profissional em Cabo Verde. Encontrou ali um país onde é feliz, onde se sente realizado e onde tem ajudado a construir valor. Sempre que falamos, sinto o entusiasmo com que descreve a vida naquele arquipélago e a forma como foi acolhido. Exatamente o mesmo que me diz, sempre com brilho nos olhos, a minha amiga Berta Montalvão sobre as gentes daquele país.
Esta campanha da seleção tem também um significado especial para todos os que partilhamos a língua portuguesa. É mais uma demonstração da vitalidade da comunidade lusófona e da capacidade que os países de língua portuguesa têm para afirmar talento, competência e excelência nos maiores palcos internacionais.
O desporto tem esta capacidade única: aproxima povos, derruba fronteiras e cria pontes entre culturas. E Cabo Verde conseguiu fazê-lo de forma exemplar.
Independentemente do resultado final, esta seleção já venceu. Venceu pela qualidade do futebol apresentado, pela organização, pelo espírito coletivo e pelo orgulho que despertou dentro e fora das suas fronteiras.
O futebol mundial ganhou uma equipa. A lusofonia ganhou mais um motivo de orgulho. E Cabo Verde mostrou, uma vez mais, que a verdadeira dimensão de um país mede-se pelo talento, pelo caráter das suas pessoas e pela capacidade de inspirar os outros.
Parabéns, Cabo Verde.
Que campanha notável."

Golaço Ramos!


"Perdi a conta de quantas vezes li e escutei nos últimos meses que Cristiano Ronaldo mantém-se como titular da seleção portuguesa simplesmente porque o reserva é Gonçalo Ramos. Uma completa injustiça. 
Respeitosamente, prefiro outro raciocínio — e também as opiniões contrárias. Para mim, Gonçalo Ramos mantém-se como reserva da seleção portuguesa porque raramente recebe a merecida oportunidade.
Aconteceu na reta final de Fernando Santos, acontece também com Roberto Martínez. Há um padrão (ou um poder). O estatuto do CR7 ainda fala mais alto.
Ramos não tem, e nunca vai ter, a mesma história de Ronaldo. Ponto. Mas é revoltante quando muitos enxergam o jogador formado no Benfica como um atacante normal. Banal. É rir para não chorar.
Estreou-se no Mundial de 2022 como titular e logo fez um hat-trick (na goleada 6-1 diante da Suíça). Agora, em 2026, voltou a mostrar estrela. Foi determinante para a reviravolta, por 2 a 1, contra a Croácia.
Provou que é possível fazer um golaço de cabeça. Antes de mais, justiça seja feita: aproveitou o cruzamento perfeito de Rafael Leão. Posicionou-se bem e fez um gesto técnico digno de um goleador nato.
No PSG, mesmo no papel de suplente de luxo, teve extrema importância para Luis Enrique. Bicampeão da Liga dos Campeões. Não à toa o Milan, a pedido do recém-chegado (e muito exigente) Ruben Amorim, fez dele a contratação mais cara de sempre do Milan: pode ultrapassar os 80 milhões de euros.
Não pode ser tudo mera coincidência, tampouco obra do acaso. Gonçalo Ramos está pronto para ser a nova referência de Portugal. Isso não significa, no entanto, que Cristiano Ronaldo seja descartável. Longe disso. Blasfémia! Seria mais útil — e talvez letal — a partir do banco."

Com uma substituição, Martínez ganhou uma equipa


"SOBE: o tempo mostrou que essa decisão do selecionador foi muito acertada. A desconfiança de Ronaldo e da sua legião internacional de fãs transformou-se em festa aos 90+4m. Ramos voltou a ser decisivo quando lhe foi dada oportunidade e celebrou junto de CR7. Foi bonito

Foi o momento definidor do jogo. Mais do que o golo de grande penalidade de Cristiano Ronaldo, o polémico tento anulado a Gvardiol ou até o espetacular 2-1 de Gonçalo Ramos, Roberto Martínez ganhou o duelo com a Croácia através da substituição de Cristiano Ronaldo por Rúben Neves, aos 81 minutos.
No plano tático, era uma alteração imperiosa. Após quatro substituições de uma assentada, Portugal tinha perdido a capacidade de estancar os contra-ataques croatas, deixando Bernardo Silva praticamente sozinho no meio-campo defensivo e rodeado de balcânicos sedentos. Na frente, Portugal já não tinha a mesma capacidade de pressionar o adversário, nem presença na grande área.
Gonçalo Ramos, o avançado suplente da Seleção e do PSG, já estava em campo (na posição de segundo avançado, em apoio a CR7) e, objetivamente, Ronaldo já pouco contribuía ativamente em campo naquele momento. Impunha-se que o capitão, por exclusão de partes, fosse o sacrificado. Ainda por cima, depois de já ter tido influência positiva no resultado.
E mesmo que, caso Portugal perdesse, o foco recaísse sobre essa decisão de Roberto Martínez. É importante recordar que, quando questionado sobre a confiança nos elementos mais jovens um mês antes, Martínez puxou da final do Euro 2016: «Vencemos sem o capitão». Mas era preciso passar das palavras aos atos.
O selecionador teve coragem. Ronaldo ainda gesticulou, mas compreendeu a hierarquia. Ramos ficou entregue a si próprio e Rúben Neves, médio de equilíbrios motivado por uma data especial, entrou para voltar a pôr Portugal em igualdade de circunstâncias com a Croácia. O jogo alterou-se substancialmente, favorecendo a Seleção das Quinas.
O tempo mostrou que essa decisão do selecionador foi muito acertada. A provável desconfiança de Cristiano Ronaldo e da sua legião internacional de fãs transformou-se em festa aos 90+4m: Gonçalo Ramos saltou no meio de dois defesas e desferiu um cabeceamento irrepreensível. Voltou a ser decisivo quando lhe foi dada oportunidade e celebrou junto de CR7. Foi bonito.
Esta substituição não teve apenas proveito tático. Vai significar muito para dentro e fora do grupo da Seleção – afinal, não há jogadores intocáveis. Todos, até o melhor jogador da história do futebol português, podem ser rendidos. Mesmo na ‘Last Dance’. A reação de surpresa que a maioria de nós teve ao ver o placard com o número sete a vermelho deve ser combatida com mais momentos como este.
Mostra que a meritocracia está viva dentro do grupo. Que as imagens de preleções de Martínez ao crónico suplente, durante os treinos, não foram apenas fachada. E que todos têm, efetivamente, um papel ativo na Seleção. Apenas têm de aguardá-lo e reagir com prontidão.
Tantas vezes criticado e esmiuçado (faz parte do cargo de selecionador de Portugal), Roberto Martínez teve um jogo de apostas certeiras contra a Croácia. Rafael Leão rendeu João Félix e foi um dos melhores elementos; as quatro alterações à hora de jogo vieram a resultar no 1-1; e a quinta e última substituição, a última bala da roleta russa, foi certeira. Foi um jogo ganho a partir do banco e, no processo, Martínez ganhou uma equipa."

Os que nunca deixam de jogar


"Uma nação não é feita apenas dos que respiram. É feita também dos que deixaram uma parte de si em cada um dos que ficam. Diogo Jota, a ver-nos lá de cima, continua a ajudar Portugal a ganhar. 

O futebol, por vezes, encontra formas de conversar com a memória. Portugal derrotou a Croácia num jogo imperfeito, nervoso, cheio de erros e sobressaltos. Sofreu primeiro. Respondeu depois. Esperou até ao último instante para encontrar o cabeceamento de Gonçalo Ramos. E depois esperou ainda mais. Para o VAR anular o empate croata e levar a Seleção até aos oitavos Com drama, euforia e alívio. Tudo junto um daqueles jogos em que o futebol parece esquecer a lógica para se entregar ao coração. Talvez porque o coração já estivesse em campo antes do apito inicial.
O calendário decidiu que a eliminatória fosse disputada exatamente um ano depois da morte de Diogo Jota. Há coincidências que parecem escritas por um romancista incapaz de controlar a emoção. A mesma data. O mesmo país vestido de vermelho. A mesma Seleção a recordar um dos seus e a querer oferecer-lhe a vitória. Não houve apenas táticas, mas também memória e Jota foi convocado sem precisar de receber a chamada.
Há quem acredite que os mortos partem. O futebol ensina outra coisa. Os grandes jogadores continuam a correr dentro daqueles que ficaram. Diogo Jota pode não ocupar um lugar na ficha de jogo, mas continua a marcar golos na alma de Portugal. Continua nos abraços antes do jogo. Nos olhos húmidos dos companheiros de equipa. Nas camisolas levantadas para o céu. Nas bancadas onde milhares de portugueses transformaram saudade em voz.
Muitos países vivem da eficiência. Portugal vive da esperança. Somos um povo estranho. Complicamos o simples, sofremos quando podíamos descansar, transformamos cada vitória numa travessia. Desta vez, foi igual. Porque se fosse de outra forma, nem parecia nosso.
A altas horas da noite, voltámos a sofrer com passes falhados, decisões precipitadas, momentos em que a Croácia parecia mais perto do destino.
Mas há qualquer coisa profundamente portuguesa em acreditar quando já quase ninguém acredita. Como quem enfrenta o mar sabendo que a tempestade vem a caminho. Como quem canta o fado sem esperar que a tristeza desapareça. Chamamos-lhe saudade, resistência, coração. Chamamos muita coisa. Seja lá o que for, é isso que nos faz remar e acreditar quando tudo parece perdido. E vamos. A refilar, a dizer mal, a rogar pragas a este ao ou outro, mas vamos.
O futebol gosta de explicar-se através da tática, da estatística e da ciência. Tudo isso conta. Mas há noites em que nenhuma análise consegue medir aquilo que realmente decide um jogo. Não existe gráfico para a coragem. Não existe algoritmo para a memória. Não existe inteligência artificial capaz de calcular o peso de um nome que continua a ser pronunciado por milhões de pessoas ao mesmo tempo.
Uma nação não é feita apenas dos que respiram. É feita também dos que deixaram uma parte de si em cada um dos que ficam. Diogo Jota, a ver-nos lá de cima, continua a ajudar Portugal a ganhar. Porque há vitórias que pertencem a todos e há memórias que rejeitam a morte. Enquanto o país continuar a pronunciar o seu nome, haverá sempre uma parte dele a correr ao lado da Seleção."

‘Stand up for Luka Modric’


"Despediu-se frente a Portugal

Depois de ter representado a Croácia 202 vezes, Luka Modric, 40 anos, despediu-se, frente a Portugal, das grandes competições internacionais de seleções. Para o pequeno génio nascido em Zadar, então cidade da Jugoslávia, o apito final do norueguês Espen Eskås desencadeou uma série de emoções, que não escondeu, ficando na retina o abraço apertado a Cristiano Ronaldo, com quem partilhou balneário durante seis épocas mágicas no Santiago Bernabéu.
Durante o Europeu de 2012, quando estava a efetivar-se, por insistência de José Mourinho, a transferência de Modric dos ‘spurs’ para os ‘merengues’, assisti, na Praça do Mercado Velho, em Poznan, Polónia, na véspera do Irlanda (treinada por Giovanni Trapattoni)-Croácia a uma cena inesquecível, que vou partilhar.
Já passava das cinco da tarde, chovia, os ‘supporters’ irlandeses estavam em grande número numa esplanada coberta, e à medida que esgotavam os barris de cerveja do estabelecimento, iam cantando, pacificamente, uma lenga-lenga que, basicamente, dizia «stand up for the boys in green» [«levantem-se pelos rapazes de verde» (cor da Irlanda)]. Foi então que chegaram dezenas de adeptos croatas, o que, atendendo ao sangue quente dos eslavos e ao nível de alcoolemia dos irlandeses, tornou a situação potencialmente perigosa. Porém, mal se aperceberam da entrada em cena dos rivais, os integrantes do «Green Army» começaram a cantar «stand up for Luka Modric, stand up for Luka Modric», ao que os croatas, surpreendidos, aplaudiram comovidamente. Como não é difícil calcular, caíram nos braços uns dos outros e foi preciso pedir reforço de cerveja, para um fim de tarde que se prolongou até altas horas da noite.
Luka Modric, pés de veludo e determinação de aço, jogador de equipa por vocação, ganhou direito a ser considerado como um dos melhores jogadores do século XXI.

PS - Jamais esquecerei um cartaz que três senhoras de cabelo branco e permanentes irrepreensíveis mostraram às câmaras de televisão, depois de um Portugal-Irlanda, na velha Luz (3-0, golaço de Rui Costa), num jogo que valia o apuramento para o Euro/96, em Inglaterra - e por isso as ditas senhoras faziam parte do contingente de 30 mil irlandeses presentes no anfiteatro encarnado -, que dizia assim: «Os nossos maridos pensam que andamos às compras em Dublin.» Fabuloso!

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…"

Entre o mérito e o milagre


"Passar garante o próximo jogo, mas diz pouco sobre a evolução coletiva

O futebol é um evento fértil em análises post hoc. É uma consequência do sucesso estar dependente de um evento volátil, como a bola entrar na baliza.
Ontem, a imprensa croata ironizava com o golo anulado a Gvardiol, instantes depois de Ramos se erguer nos céus de Toronto para carimbar a passagem portuguesa: «se Matanovic fosse careca...». O golo foi validado pela tecnologia e Matanovic beneficia da posição irregular para assistir Gvardiol.
Numa dimensão paralela em que soprassem ao contrário os ventos da sorte e fosse validado, estaríamos a fazer o balanço a uma débil participação na prova. Maldiríamos as substituições de Martínez, o espaço que a equipa deu em vários momentos da segunda parte, ou a ausência de uma ideia sólida que promovesse a inegável qualidade dos jogadores. Como explicar a sonolência no golo do empate (reacção ao lançamento, defesa do corredor)? Talvez todos esquecêssemos a boa primeira parte, o golo logo a seguir às quatro substituições (talvez uma coincidência, mas Martínez foi audaz), ou até como Ronaldo fez um jogo competente.
Contudo, a vitória quase sempre inverte o paradigma, e ainda mais sendo épica. O trabalho do treinador é esse: uma análise despudorada do que foi bem e mal feito. Passar garante o próximo jogo, mas diz pouco sobre a evolução colectiva. Portugal é melhor que a Croácia e passar era uma obrigação.
Após o golo do empate, Portugal viu-se num 4-4-2 que só evidenciou as dificuldades já conhecidas. João Neves e Bernardo não chegavam para as encomendas. O meio-campo croata passou a estar em superioridade e o jogo partiu. Leão, Conceição, Ramos e Ronaldo numa ilha, e o adversário demasiadas vezes de frente para a linha defensiva. Kovacic e Modric lideraram a superioridade croata e Diogo Costa, sempre ele, foi resolvendo. Rúben Neves equilibrou a equipa e deu a Ramos o seu lugar natural, remendando o caos.
Surpreendente foi Portugal não ter perdido o jogo nesses 15 minutos até à entrada de Neves, mas o golpe de asa de Martínez foi coroado no brilhantismo técnico de Leão e Ramos. Valha-nos isso e a crença, porque não será no treino que os problemas se resolverão. Esse tempo esgotou-se.
Muito haveria a dizer sobre os índices de eficácia de Ramos, que marca ou assiste a cada 37 minutos em Mundiais. Ou ainda sobre as declarações de Martínez, muitas vezes num limbo entre a subserviência, o fervor patriótico deslocado ou análises numerológicas alucinadas a envolver Diogo Jota (!). Mas fica para outro dia... no final de contas, ganhámos!"

O dia em que o Canadá foi nosso


"TORONTO — Acordar em Toronto depois de uma noite de vertigem apoplética é perceber que há cidades que não se visitam; inscrevem-se na nossa pele. Se o dia 1 de julho guardou as celebrações oficiais do Canada Day, o dia 2 foi, por direito divino e popular, o Dia de Portugal. Esta viagem pelo Mundial de 2026 ganhou anteontem uma textura eterna, daquelas que nenhum ecrã de televisão consegue traduzir.
Tudo começou bem cedo, no coração geométrico da saudade: o Little Portugal. Caminhar por aquelas ruas na manhã de anteontem foi como tropeçar num portal tântrico que desagua algures entre o Minho e a linha de Sintra. Ali, onde pulsa uma comunidade robusta de 200 mil almas, o ar cheira a café curto e a forno quente. Há montras escritas com a grafia da nossa infância, pastelarias onde o pastel de nata é relicário e conversas de esplanada temperadas a bacalhau e leitão. É um Pequeno Portugal na escala, mas um gigante na alma.
Mas o recolhimento matinal era apenas o preâmbulo do cabo das tormentas que se avizinhava. À tarde, a pacatez canadiana foi engolida por uma parada humana absolutamente histórica. Ver cerca de 50 mil pessoas em procissão rumo ao estádio, num mar revolto de cachecóis, bandeiras ao vento e camisolas das quinas, foi de arrepiar o mais cético dos mortais. O grito estoirou uníssono, rasgando os arranha-céus: «De Portugal eu sooouuu!». Toronto nunca vira nada assim. Uma catarse coletiva, alegre, nossa.
À noite, o BMO Field encarregou-se de deitar fogo à pouca razão que nos restava. O drama contra a Croácia, o golo, o susto do VAR, o hino cantado à capela por milhares de gargantas roucas. Como esquecer Toronto? Impossível. Há dias em que o jornalismo é só o pretexto para testemunhar a beleza da nossa própria gente a fazer história do outro lado do mundo. Toronto mudou-nos. Deixou marca. Para sempre."

Ganhar à Espanha? Não com este Portugal


"Seleção continua a revelar debilidades; falta a química de um meio-campo que prometia madrugadas de música clássica; ainda há tempo?

Há sempre duas formas de analisar uma exibição como a de Portugal diante da Croácia e partir para uma projeção do que pode ser o resto do Mundial para a formação das quinas.
Em primeiro lugar, o lado negativo: a equipa não defende bem porque se desorganiza nas transições defensivas, debilidade que tem vindo a ser exposta à medida que aumenta o nível dos adversários e muito mais se, tal como ocorreu entre o minuto 62 a 81, jogou em inferioridade numérica a meio-campo, abrindo crateras que só por sorte não deram em golo; ainda há jogadores que não fizeram o transfer dos seus clubes para a Seleção, casos de Bernardo Silva, Bruno Fernandes e até mesmo o próprio Vitinha; João Cancelo oscila entre as boas iniciativas no ataque e as más abordagens defensivas; e a dupla de centrais está abaixo do nível do que Portugal teve neste século (Fernando Couto/Jorge Costa, Ricardo Carvalho/Jorge Andrade, Pepe/Rúben Dias só para citar alguns exemplos).
Em segundo lugar, o lado positivo: tal como Rui Patrício no Euro 2016, Portugal tem em Diogo Costa um guarda-redes que garante pontos; Nélson Semedo dá cada vez mais sinais de fiabilidade e por isso merece a titularidade na lateral-direita; Nuno Mendes está a crescer depois de um final de época com limitações físicas; Gonçalo Ramos não perdeu o instinto de baliza mesmo privado de minutos na fase de grupos, Cristiano Ronaldo voltou a marcar (de penálti, sim, mas o golo anulado por centímetros foi de uma execução ao alcance de poucos) e, ao ganhar o jogo já sem o capitão em campo, Roberto Martínez conquistou pontos para fora e para dentro.
Agora vem aí a Espanha, campeã da Europa e uma das grandes candidatas ao título, mesmo com um Lamine Yamal ainda a 80 por cento. Nos quatro jogos que realizou, mostrou melhor futebol que os seus irmãos ibéricos, mas ninguém se recordará do passado recente se a Seleção fizer em 90 minutos o que conseguiu em 45’ diante da Croácia: roubar-lhes a bola pela posse.
Portugal não tem outra forma de ganhar a La Roja – não é uma equipa de transições, nem fisicamente forte, nem suficientemente mortífera na bola parada. Até agora ainda não se viu a química que tantos esperavam de um meio-campo que prometia madrugadas de música clássica, mas ainda vamos a tempo. Temos sempre a final da Liga das Nações como barómetro, um dos jogos em que João Neves jogou a lateral-direito (na primeira parte). E mesmo assim correu bem…"

O que une Mbappé e Abel Xavier?...


"Avançado ciente de que está a chegar a hora de entrar para o olimpo ou ser apenas recordado como um excelente futebolista; antigo jogador de eleição tornou-se comentador de exceção. Livre e Direto é o espaço de opinião de Rui Almeida, jornalista

KYLIAN MBAPPÉ
Foi cinzenta a temporada de Mbappé no Real Madrid. Tão pouco colorida que se confundiu com um ano desportivo muito aquém das expectativas dos exigentes adeptos merengues, quer na componente doméstica, quer no cotejo internacional.
O avançado francês pareceu possuído de um vírus generalizado, que consumiu até ao tutano o grupo orientado por Xabi Alonso e, depois, por Álvaro Arbeloa, e que fez com que, no Paseo de la Castellana, se quisesse rapidamente fechar o livro de 2025/2026, tão poucas e, sobretudo, tão insignificantes foram as recordações do ano desportivo.
Pode não haver nexo de causalidade, mas o parisiense como que se libertou do espartilho blanco e mudou totalmente o foco, quando chegou ao estágio dos galos. Empertigou-se, assumiu com denodo a braçadeira de capitão, mas, acima de tudo isso, abriu o livro do seu imenso futebol, ciente de que, aos 27 anos, e sendo este (após a Rússia em 2018 e o Qatar em 2022) o seu terceiro Mundial, está a chegar a hora de entrar para o olimpo ou ser apenas recordado como um excelente futebolista.
Todas as qualidades parecem estar combinadas para atingir o apogeu nas Américas, incluindo, do ponto de vista coletivo, a melhor França da história, no torneio de despedida de Didier Deschamps. Com Olise, Dembélé, Doué, Charki e muitos outros, Kylian Mbappé assume-se como o vértice maior deste polígono de superlativa qualidade. Não lhe ficaria mal (nem à seleção francesa, pelo menos pelo que entretanto foi demonstrando), levantar a mais cobiçada taça, em East Rutherford, no dia 19 deste mês…

GONÇALO RAMOS
É o protótipo do jogador anti-vedeta e, ao mesmo tempo, da aposta segura em marés adversas. Gonçalo Ramos tem essa medida na sua vida desportiva: quando joga aplica-se, seja durante 90 ou apenas em vinte minutos. É um jogador de área, que limita a ação defensiva adversária e tem excelente posicionamento para a finalização. Foi assim no Mundial do Qatar (lembram-do Portugal-Suíça?…), foi assim nos minutos finais do imbróglio em que estava armado o compromisso com a Croácia, em Toronto.
Gonçalo não nega a intervenção num desafio aparentemente difícil. Gosta mesmo dessas missões, e parece estar naturalmente talhado e psicologicamente preparado para elas. Com todos os equívocos de Roberto Martínez, um pingo de lucidez invadiu a mente do treinador espanhol aquando da opção pelo campeão francês, vice-campeão mundial e bicampeão europeu pelo Paris Saint-Germain.
Pode até nem servir de muito para o futuro próximo da seleção portuguesa no Mundial 2026, se se mantiverem algumas discutíveis opções que já se tornaram habituais em quatro jogos. Mas Gonçalo está lá com prontidão e sede de golos. O que, nos dias que correm, já não é nada pouco…

LUKA MODRIC
Um deles tinha de regressar a casa. Cristiano Ronaldo ou Luka Modric desfalcariam a galeria dos eternos do planeta futebol após o jogo de Toronto, entre portugueses e croatas.
Deixa a competição o cérebro de Zadar, aos 40 anos. Reinventado no Milan, depois de anos de glória com a camisola do Real Madrid, o capitão croata parece nunca mais acabar de talento no passe, na visão, na leitura de jogo, na ocupação de espaços, na motivação permanente para companheiros e adversários.
Muito fez ao longo da sua carreira, e dos momentos em que colocou a Croácia no mapa, com o vice-campeonato mundial na Rússia, e o terceiro lugar no Qatar. Numa equipa em mutação geracional, com todas as reservas e dúvidas que essa situação sempre aporta, Luka Modric manteve-se como um farol de ideias e de talento, com um coração inacabável e uma energia contagiante.
Perdeu a sua last dance, mas vai ficar gravado a ouro na história do futebol do seu país. E também, claro, nos anais do futebol mundial.

MAURICIO POCHETTINO
Quando abraçou o trabalho na seleção dos Estados Unidos, Pochettino percebeu que iniciava uma espécie de travessia no deserto, por três motivos: porque saía do circuito tradicional das principais ligas mundiais de futebol, porque assumiu uma seleção periférica, dificilmente candidata a títulos, e porque estaria, na verdade, sem competir a sério durante alguns anos, até chegar o momento da verdade, perante os seus adeptos, orientando uma das seleções anfitriãs do Mundial 2026.
Na verdade, o período que antecede a competição, quando se orienta uma equipa já apurada, pode induzir em erro e acarreta imensos riscos. O argentino aceitou-o, com a crença inabalável no seu trabalho e na qualidade do grupo que escolheu, mesmo num país em que o futebol está longe de granjear os maiores encómios.
E o trabalho árduo, metódico, organizado, planeado, está mais próximo de garantir o sucesso, como o prova o excelente Mundial que os Estados Unidos da América estão a rubricar.
Muito do mérito tem a assinatura de Mauricio Pochettino e da sua equipa técnica, cientes de que também estão a ajudar a escrever uma página histórica, com uma geração de jogadores que merece amplamente o treinador que tem.

ABEL XAVIER
Nem sempre um antigo jogador de eleição resulta num comentador de exceção. Abel Xavier ajudou a marcar uma época no futebol português, desde a geração que, em 1991, ganhou o título mundial de sub-20, até às presenças no Euro 2000 (na Holanda e na Bélgica), e no Mundial 2002 (na Coreia do Sul e no Japão).
Entretanto encartado treinador, chegou a exercer o cargo de selecionador nacional de Moçambique.
É um dos nossos convidados, na SuperSport (a segunda maior estação mundial de televisão desportiva), para a análise do Mundial 2026, e mostra que, ao jogador de raça e dificilmente ultrapassável na defesa, sucede um analista de mão cheia.
Conhecedor, detalhado, preparado na generalidade e com conhecimento específico de cada equipa, de cada situação e de cada jogador, analítico e entendedor do jogo, Abel Xavier, se não quiser continuar a ser treinador, tem carreira internacional assegurada como um dos melhores comentadores de futebol em língua portuguesa. O que, para mim, que com ele partilho horas de estúdio este Mundial 2026, é um ensinamento e um privilégio."

João Cancelo: muito para lá do futebol


"Vivemos na era das estatísticas. Nunca soubemos tanto sobre os jogadores. Sabemos quantos quilómetros percorrem durante um jogo. A velocidade máxima a que sprintam. A percentagem de passes certos. O número de ações defensivas. Os mapas de calor. Os índices físicos. As métricas de rendimento. Conhecemos tudo. Ou, pelo menos, gostamos de acreditar que sim. Mas continua a existir uma pergunta para a qual o futebol raramente procura resposta. Quem é verdadeiramente a pessoa que entra em campo?
O futebol moderno tornou-se extraordinariamente competente a medir rendimento. Mas continua surpreendentemente limitado a compreender seres humanos. Talvez seja por isso que, tantas vezes, confundimos um jogador com os noventa minutos que acabámos de assistir. Se joga bem, transformamo-lo num herói. Se erra, julgamo-lo como se conhecêssemos toda a sua história. A verdade é que quase nunca conhecemos.
Decidi escrever este artigo há algumas semanas, quando o João Cancelo conquistou a LaLiga e se tornou no primeiro jogador a vencer as principais ligas europeias. Um feito absolutamente extraordinário e sem precedentes no futebol. Enquanto o via levantar o troféu, não pensei apenas no título. Dei por mim a recordar as críticas que tantas vezes o acompanham, as dúvidas que continuam a surgir sempre que muda de clube e a facilidade com que, tantas vezes, se confunde esse percurso com falta de estabilidade, apesar de ter deixado um rendimento consistente e um contributo decisivo por onde passou. Mas, mais do que tudo isso, a memória levou-me até uma manhã de há mais de dez anos. À Igreja de São Lourenço, em Almancil. Numa manhã tranquila, visitei aquela que é uma das igrejas mais emblemáticas do Algarve. Um lugar onde os azulejos azuis e brancos parecem contar histórias em silêncio e o tempo abranda sem pedir licença. Quando saía, cruzei-me com o João Cancelo - Portugal jogaria apenas algumas horas depois no Estádio Algarve. Não trocámos uma palavra. Vi apenas um jovem futebolista que procurava alguns minutos de tranquilidade antes de representar o seu país. Nada mais. Cada um seguiu o seu caminho.
Algumas semanas mais tarde, ao conhecer melhor a sua história, aquele encontro ganhou um significado completamente diferente. Percebi que aquela visita talvez tivesse sido muito mais do que um simples momento de tranquilidade antes de um jogo. Talvez fosse um momento de silêncio. De recolhimento e proximidade. Uma pausa antes de entrar em campo com um peso que ninguém à sua volta conseguia ver.
Porque escrevo este artigo agora? Quis publicá-lo no primeiro fim de semana depois de 1 de julho. Para a maioria das pessoas, será apenas mais uma data no calendário. Para mim, é um dia que regressa todos os anos para me lembrar de que há acontecimentos capazes de dividir uma vida em duas partes: antes e depois. Talvez tenha sido essa experiência que me permitiu reconhecer, na história de João Cancelo, muito mais do que um futebolista de excelência. Vi um homem de família, moldado pela adversidade, pelo sacrifício e por valores que nenhuma estatística consegue medir.
Nenhum jogador nasce apenas do talento — nem mesmo os extraterrestres Cristiano Ronaldo e Messi. Um jogador nasce da educação que recebeu. Dos exemplos que teve. Das dificuldades que enfrentou. Das pessoas que lhe ensinaram, muitas vezes sem uma única palavra, o verdadeiro significado de esforço, responsabilidade e resiliência.
Há jogadores que aprendem primeiro a ganhar. Outros aprendem primeiro a perder. João Cancelo pertence claramente ao segundo grupo e, para compreendê-lo, é preciso começar no Barreiro. Numa casa onde o pai passava grande parte do ano emigrado, na Suíça, e onde a mãe acumulava três empregos para garantir aos filhos novas oportunidades.
Começou no futsal. Depois dedicou-se ao futebol. Enquanto muitos viam apenas um rapaz talentoso com uma bola nos pés, havia uma mãe que saía de casa antes de nascer o sol e regressava já noite dentro. Limpava um café. Trabalhava numa escola. Terminava o dia noutro emprego. Ao sábado continuava a trabalhar. Muitas vezes, João Cancelo via-a apenas ao domingo, quando ela marcava presença nos seus jogos.
Foi ali, muito antes de aprender a defender ou a atacar, que João Cancelo percebeu que nada de verdadeiramente importante se conquista sem sacrifício. A maior lição da sua infância nunca aconteceu dentro de um campo de futebol. Aconteceu em casa, nos dias em que via a mãe sair antes de nascer o sol e regressar já noite dentro. O pai, pela sua família, passava grande parte do ano emigrado, na Suíça. Não precisou de discursos. Bastou-lhe o exemplo dos pais.
São histórias como estas que raramente aparecem nas estatísticas. E, no entanto, são elas que explicam quase tudo. Costumamos dizer que o desporto forma pessoas. Mas talvez a verdade seja exatamente a inversa. Já pensaram nisto? São, na minha opinião, as pessoas que acabam por explicar os jogadores. A infância não ensina apenas valores. Não ensina apenas a viver. Constrói personalidade. Ensina a levantar depois de cair. Ensina a lidar com a frustração. Com a espera. Com a responsabilidade. Com a capacidade de continuar quando tudo parece difícil. Competências essas que, anos mais tarde, aparecem disfarçadas daquilo a que chamamos «mentalidade vencedora».
Mas houve um momento em que tudo mudou. Há acontecimentos que dividem uma vida em duas partes: antes e depois. Para o João Cancelo, esse momento chegou demasiado cedo. O acidente que vitimou a mãe não foi apenas uma perda familiar. Foi uma rutura definitiva na forma de olhar para o mundo. Nas suas palavras permanecem imagens impossíveis de esquecer: o grito da mãe, o choro do irmão, a tentativa desesperada de a retirar debaixo do carro, a fatídica notícia que recebeu no hospital. Memórias que nenhum filho deveria transportar. Memórias que o tempo não apagou. Memórias que ele foi obrigado a aprender a viver com elas.
A partir desse dia, teve de crescer demasiado cedo. Teve que assumir responsabilidades. Cuidar. Liderar. Proteger e lutar. O futebol nunca substituiu a mãe. Tornou-se num lugar onde a dor encontrava, por momentos um intervalo. Deixou de ser apenas um sonho. Passou também a ser uma forma de continuar. De resistir e, principalmente, de honrar a memória de quem sempre acreditou nele.
Há uma tendência para romantizar estas histórias, como se a adversidade fosse condição necessária para o sucesso. É frequente ouvirmos dizer que as grandes adversidades fazem nascer grandes campeões. Nunca gostei dessa ideia. O sofrimento não torna ninguém melhor. A dor não é uma escola. A tragédia não é um privilégio escondido. Há perdas que deixam cicatrizes eternas, mas é a forma como escolhemos caminhar com essas cicatrizes que acaba, muitas vezes, por definir quem somos.
Há, ainda, um fenómeno curioso no desporto de alto rendimento. Admiramos a força mental dos grandes campeões, mas raramente nos perguntamos de onde ela nasceu. Não nasce quando se assina pelo primeiro grande clube. Não nasce quando chegam os títulos. Muito menos quando aparecem os aplausos. Constrói-se muito antes. Nas dificuldades. Nos sacrifícios. Nas perdas. Nas ausências. Nas pequenas batalhas que ninguém vê. A verdadeira força nunca foi e nunca será a ausência de sofrimento. Foi, é e será a capacidade para continuar apesar dele.
Há uma frase que me surgiu no pensamento enquanto escrevia este artigo: a mochila invisível. E é verdade. Todos nós carregamos. Há quem carregue inseguranças. Há quem carregue perdas. Há quem carregue culpa. Há quem carregue saudades. E depois há quem, apesar desse peso, continue a correr. Talvez seja por isso que nunca devêssemos julgar alguém apenas pelos noventa minutos que vemos dentro de campo. Porque nunca conhecemos o peso da mochila que transporta.
Hoje, um erro ou uma má prestação, já não termina quando o árbitro apita para o término do jogo. Continua nas redes sociais. Nos vídeos. Nos reel’s. Nos comentários. Nos debates. Nos memes. Nunca os jogadores viveram tão expostos. E, paradoxalmente, talvez nunca os conhecêssemos tão pouco. O futebol habituou-nos a avaliar rendimento. Mas rendimento nunca será sinónimo de identidade. Há muito mais por detrás de um atleta do que aquilo que vemos durante um jogo. Há famílias. Há perdas. Há medos. Há responsabilidades. Há histórias invisíveis.
Um dos maiores desafios do futebol moderno é precisamente este: aprender a olhar para os jogadores como pessoas antes de os avaliarmos como profissionais. Porque os títulos explicam e engradecem carreiras. As estatísticas explicam rendimento. Mas são as histórias que explicam pessoas.
Ao longo da carreira, o João Cancelo vestiu algumas das camisolas mais exigentes do futebol mundial. Jogou perante milhões de pessoas. Foi aplaudido. Foi criticado. Marcou golos e fez assistências. Cometeu erros. Tomou decisões que dividiram opiniões. Como qualquer jogador de elite. Mas a sua mochila nunca desapareceu. Apenas aprendeu a transportá-la. É essa mochila que torna tão injusta a facilidade com que é julgado. Focam-se no gesto técnico ou no erro tático, mas nunca percebem o caminho que levou aquele ser humano até ali. Nunca têm consciência das conversas que ficaram por ter. Dos abraços que já não podem ser dados. Dos conselhos que já não voltarão a ser ouvidos. Das pessoas que gostariam de estar na bancada e já não estão.
Hoje, quando vejo o João Cancelo entrar em campo e a apontar para o céu, continuo a ver um dos melhores futebolistas da sua geração. Não é um lateral tradicional. É um jogador que utiliza a posição como ponto de partida e nunca como limite. Tem uma capacidade invulgar jogar com os dois pés e para interpretar o jogo em diferentes espaços. Tecnicamente muito evoluído. Não joga para cumprir a posição. Joga para transformar a forma como a posição pode ser interpretada. Mas vejo também o exemplo que ele é enquanto ser humano e algo que passa completamente despercebido a muitos: a sua mochila.
Talvez seja essa a maior lição que o João Cancelo nos deixa em todos os jogos. O futebol ensinou-o a vencer partidas e a conquistar trofeus. A vida ensinou-o a vencer muito mais do que isso. É aí que, na minha opinião, está a diferença entre um grande jogador e uma grande pessoa. Os grandes jogadores ficam na história pelos títulos que conquistam. As grandes pessoas inspiram e permanecem na memória pela forma como enfrentaram as derrotas que a vida lhes impôs. Porque, depois de terminar a carreira, ninguém se lembrará apenas dos clubes por onde passou ou dos troféus que levantou. Lembrar-se-ão, sim, da forma como continuou a caminhar quando tinha todas as razões para parar."

O genótipo alemão perdido


"Nem sempre foram altos, fortes e louros, mas não desistiam e moviam montanhas graças a uma fé sem limites em si próprios. A mesma que reergueu por duas vezes o país dos escombros. A técnica resumia-se à receção, ao controlo e ao remate. O drible só surgia em velocidade. Qualquer toque em excesso fora banido do seu genótipo. Eram racionais e objetivos, muitas vezes implacáveis, não ofereciam tréguas em nenhuma circunstância. Foi essa a mentalidade que os levou a três títulos mundiais, já que o quarto teve influência tremenda daquilo que até aí tinha sido o seu contrário: o drible e o tecido que saía de um tear de passes atrás de passes.
Em 2000, quando a Mannschaft foi destroçada por um Portugal B no Euro, a Alemanha entrou em modo revolução. Olhou para dentro, sentiu que tinha batido no fundo e escolheu um novo fussballspieler. Mergulhou ainda no scouting e na formação de jogadores e treinadores. O alemão mais técnico, de ascendência hispânica, nasceu. Treze anos depois, Guardiola, a partir da Säbener Strasse, deu-lhes sentido. E a Alemanha, aproveitando também a mudança de ciclo em Espanha, ganharia no Brasil o tetra.
No entanto, entre 2000 e 2013, um outro raio caía no mesmo sítio. Wolfgang Frank, Rangnick e a Escola de Estugarda, primeiro, depois Klopp e outros, riscavam o líbero, adiantavam a defesa para comprimir o campo com a armadilha do fora do jogo e mudavam para marcação zonal e pressão feroz. A vertigem e a fisicalidade tomaram conta dos clubes, enquanto a seleção desesperava pela pausa e a técnica. O genótipo do alto, forte e louro caiu e, com este, também o ponta de lança demolidor. Já não há Hrubesch ou Seeler. Klose ou Gomez. Duas revoluções não fizeram uma. Poderiam criar nova tese, com uma ideia a complementar outra. E não foram além da cópia, sempre pior do que o original."

E Cabo Verde veio em socorro de Infantino.


"O Mundial deveria ser a maior celebração da universalidade no desporto. A ideia de que o futebol tem a capacidade única de aproximar povos, derrubar barreiras e criar pontes onde a política tantas vezes constrói muros é uma narrativa poderosa. E, acima de tudo, uma narrativa comercialmente valiosa.
O problema é que a realidade da primeira semana do Mundial colidiu frontalmente com esse discurso.
A competição começou mal. Começou pesada, envolta em casos graves, problemas de vistos, restrições de entrada, constrangimentos com seleções, árbitros e adeptos, e com a FIFA a repetir uma explicação burocrática que tecnicamente pode ser verdade, mas que, reputacionalmente, é insuficiente. Um Mundial que se anuncia como universal não pode começar com a sensação de que nem todos entram pela mesma porta.
Perante estes incidentes, há uma questão que começa a ganhar relevância: até que ponto as marcas associadas ao Mundial estão dispostas a ignorar o problema?
Durante muito tempo, os patrocinadores limitaram-se a comprar exposição mediática. Hoje compram também valores. Ou, pelo menos, a associação a determinados valores. As grandes multinacionais investem milhões em campanhas construídas em torno da diversidade, da inclusão, da igualdade de oportunidades e da proximidade entre culturas. E, já agora (outro valor de referência) uma competição ambientalmente neutra, coisa que as múltiplas viagens diárias de Infantino contraria.
Neste caso as marcas são inevitavelmente arrastadas para o debate. Veremos qual será a reação destas para edições futuras.
Depois apareceu Cabo Verde.
E Cabo Verde devolveu ao torneio aquilo que a primeira semana lhe tinha retirado: emoção, pureza, surpresa e sentido. A sua campanha atenuou o impacto negativo porque obrigou o mundo a olhar outra vez para dentro do campo.
Naturalmente, um Mundial alargado continuará a produzir alguns jogos de menor qualidade. Isso é inevitável. Mas basta uma história como a de Cabo Verde para justificar a aposta. Porque o Mundial nunca foi apenas um campeonato para encontrar o melhor do mundo. Sempre foi também o palco onde países pequenos podem sonhar, surpreender e, durante algumas semanas, competir em igualdade com os gigantes.
A grande ironia é que aqueles que viam na expansão apenas um risco para a qualidade acabaram confrontados com a maior prova do contrário. O maior argumento a favor do Mundial de 48 equipas não veio de um dirigente da FIFA nem de um estudo estatístico. Veio de uma pequena nação com pouco mais de meio milhão de habitantes, que lembrou ao mundo que o futebol continua a ser o desporto onde a dimensão do sonho vale, muitas vezes, mais do que a dimensão do país."

Dêem-me uma espada e vão ver


"A geração Z pode não conseguir imaginá-lo, mas num tempo não muito distante havia poucas coisas tão cansativas como ser português em dias de Mundial.
Ninguém queria saber de nós. Porque não existíamos. Éramos o comparável na atualidade a uma Itália, por exemplo.
Raramente íamos a uma grande competição e, quando o fazíamos, só tínhamos dois resultados possíveis: ou perdíamos com dignidade ou conseguíamos uma vitória moral.
Há uma geração inteira que foi educada para a desgraça. É por isso que a glória pura e simples ainda nos desorienta.
Hoje, por exemplo. Depois de chegar por volta da meia noite ao hotel, tive de acordar cedinho para voar para Miami. Saí à rua ainda o dia mal tinha nascido e já os canadianos me davam um banho ao ego absolutamente delicioso.
Há dias em que acordar português devia dar direito a passadeira vermelha à porta de casa. Ou, no meu caso, do hotel.
Hoje é um desses dias.
Se estivéssemos um pouco mais a sul, nos Estados Unidos, a coisa passaria ao lado. Para o americano comum (aquele que não tem costela de emigrante), o soccer continua a ser apenas uma atividade extracurricular dos filhos.
No Canadá, porém, é diferente. O canadiano não é apenas educado. O canadiano percebe e vive o Mundial: vê os jogos, sabe quem é quem e entende a grandeza do que está a acontecer na terra dele.
E é por isso que hoje o nosso peito se enche de um orgulho desmedido. No balcão do check-in levas com um sorriso rasgado: «What a game yesterday!» Vais comprar qualquer coisa para comer: «Congratulations. Portugal was great!». Chegas à porta de embarque: «Portuguese? You must be happy today. Let’s go Ronaldo!»
E nós? Nós aceitamos os parabéns com a maior das vaidades, acenando com a cabeça como se tivéssemos sido nós a cabecear aquela bola de Gonçalo Ramos.
É um elogio maravilhoso à nossa portugalidade: hoje somos nós que aquecemos as ruas com este sorriso feliz que não nos sai da cara. É uma vaidade boa que nos abraça tão longe de casa.
Para quem se habituou a tão pouco, dêem-me uma espada que hoje sinto-me capaz de conquistar novamente Ceuta aos espanhóis."

Rola a Bola - Mundial #4 - Orgulho enorme | Ramos para a vitoria

BolaTV: Dias de Mundial...

Observador: Minuto 90 - Eles mostraram ao mundo que são mesmo Tubarões!

Observador: Minuto 90 - Marrocos quer mostrar que 2022 não foi um acaso

LiveMode: Aquece vais entrar #31

Terceira Parte #7 - Portugal Campeão? Os Novos Logos e a Escolha das Seleções

Terceiro Anel: Planeta #10 - PROEZA CROATA & OITAVOS DE FINAL! 🇵🇹🏆⚽️

LiveMode: Late Night #12

TNT - Convocados...

Bola Na Trave - NÃO HÁ VOLTA A DAR, PORTUGAL PASSA !

AA9: Mundial - Day 23

Futpédio #16

ESPN: Futebol no Mundo #598

Santana: Mundial #8 - GANHÁMOS!!!! BORA!

The Seleção Podcast #115 - Reaction to Portugal's R32 World Cup Match vs. Croatia

AA9: My 2026 World Cup Round of 16 Predictions...

Rabona: 2026 World Cup Round of 16 Predictions: WHO SURVIVES?

No Princípio Era a Bola - Voltámos ao futebol puro e por isso temos de agradecer a Cabo Verde, o campeão do mundo dos nossos corações

Quezada: Cabo Verde...

FIFA: Brasil...

FIFA: México...

FIFA: Inglaterra...

FIFA: Noruega...

SportTV: Paraguai - França

SportTV: Canadá - Marrocos

SportTV: Colômbia - Gana

SportTV: Argentina - Cabo Verde

sábado, 4 de julho de 2026

Dia 5

BI: Lenglet...

Um VAR para os donos do VAR


"A polémica entre Duarte Gomes e Luciano Gonçalves mostra que Pedro Proença não está a conseguir reforçar a defesa da arbitragem, ao contrário do que seria de esperar

Ainda sou do tempo em que era preciso esperar pelo início da época para assistir a casos de arbitragem. Agora até a época do caracol convida a tais polémicas, ainda que o foco não esteja propriamente nos homens do apito, pelo menos aqueles que estão ainda no ativo, mas sim em quem os lidera(va).
A demissão do Diretor Técnico, Duarte Gomes, resultante de desavença séria - ao fim de pouco mais de um ano - com Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, deixa evidente que o setor, eterno parente pobre do futebol português, não está com as defesas reforçadas, ao contrário do que seria de esperar, tendo em conta que a representação na estrutura federativa nunca foi tão vincada, desde logo na figura do presidente. 
Mesmo com os jornalistas ali à mão, entre Palm Beach e Toronto, Pedro Proença não teve reação firme e imediata ao caso, mas nem sempre podemos esperar pelos momentos oportunos para dizermos aquilo que queremos, e como queremos. O silêncio não é a melhor forma de afastar a ideia de que os árbitros, por vezes tão corporativistas, podem ser os maiores inimigos de si próprios.
Forte abalo para a liderança de Proença, o caso é também outro abre-olhos para todos aqueles que ainda depositaram fé numa nova geração de dirigentes recrutada no terreno de jogo. Se Rui Costa, André Villas-Boas e Frederico Varandas têm desapontado no relacionamento institucional, agora constatamos que nem os (ex-)árbitros confiam uns nos outros.
Por mais ferramentas que sejam introduzidas, no futebol e no desporto em geral, a reputação da arbitragem será sempre proporcional à integridade e idoneidade daqueles que a representam, dentro de campo ou fora dele.
Os erros fazem parte do jogo, e a suspeita será impossível de erradicar, mas a margem para duvidar da intenção tem de ser mantida num patamar mínimo.
Se a desconfiança vem dos principais responsáveis do setor, entre si, então como podem os árbitros sentir que estão protegidos?
Perante tudo isto, qualquer dia teremos clubes a pedir acesso aos áudios e vídeos das reuniões que os rivais tiveram na Cidade do Futebol, seja com o Conselho de Arbitragem ou com outros responsáveis federativos.
Muito mal estaremos quando for preciso implementar o VAR para controlar precisamente aqueles que são donos do VAR."

Babalu anda a tomar drogas?!!

Papagaios...

Limpeza...

A voz do dono...!!!

Entrevista Paulo Almeida...

Zero: Mercado - Benfica atrás de extremos chileno

BF: Osório...

5 Minutos: Diário

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Portugal sofreu, mas venceu

Observador: E o Campeão é... - A bola tem chip, o Ramos tem golo e o "Ruca" tem sorte

BolaTV: Mais Vale à Tarde que Nunca . Mundial #17

Zero: Negócio Mistério - S06E12 - Ahn

DAZN: Diogo Jota: O Trajeto e a História | Premier League Stories

Zero: Afunda - S06E51 - Lebron, Brown, Morant etc: os dias loucos

SportTV: NBA - S04E39 - Neemias renova com os Celtics por 4 anos

Prossegue a preparação


"A pré-época futebolística e o Congresso das Casas em destaque na BNews.

1. Lenglet integrado
Continuam os trabalhos de pré-época do plantel às ordens de Marco Silva, o qual já conta com o internacional francês Lenglet.

2. Mundial 2026
Siga, no Site Oficial, o desempenho dos futebolistas do Benfica e todos os resultados e marcadores.

3. Congresso das Casas
Em entrevista à BTV, Domingos Almeida Lima, vice-presidente do Sport Lisboa e Benfica, explicou como vai decorrer o 4.º Congresso das Casas Benfica, que se realizará nos dias 3 e 4 de julho no Estádio da Luz.

4. Tridecacampeonato em análise
Paulo Almeida, treinador da equipa feminina de hóquei em patins do Benfica, fala sobre o 13.º título nacional consecutivo em entrevista à BTV.

5. Movimentações do defeso
Foram anunciadas as saídas do hoquista Lucas Ordoñez e dos basquetebolistas Koby McEwen e Temidayo Yussuf."

A época desportiva


"No passado dia 30 de junho terminou mais uma época desportiva, para a maioria dos desportos organizados em Portugal. Mas, afinal, o que é a 'época desportiva'? Podemos encontrar uma definição no Regime Jurídico do Contrato de Trabalho do Praticante Desportivo (Lei n.º 54/2017, de 14.07), concretamente no n.º 6 do artigo 9.º que refere que «Entende-se por época desportiva o período de tempo, nunca superior a 12 meses, durante o qual decorre a atividade desportiva, a fixar para cada modalidade pela respetiva federação dotada de utilidade pública desportiva».
Com efeito, cada federação desportiva tem liberdade — condicionada ou não pelas respetivas federações internacionais — para determinar o início e fim de cada época desportiva. Tipicamente, a mudança de época, na maioria das federações, ocorre no período do verão. Por exemplo, no futebol e futsal a época desportiva termina a 30 de junho e a seguinte inicia-se a 1 de julho, enquanto no futebol de praia a época tem um período distinto, em virtude das especiais características das competições dessa variante.
Contudo, o fim e início de uma época tem consequências para além das desportivas. Por exemplo, os seguros obrigatórios para a prática desportiva federada têm por referência o período de uma época desportiva, estando diretamente ligada aos próprios registos e inscrições dos atletas, assim como os contratos que jogadores e treinadores celebram com os seus respetivos clubes — sendo a regra a de que o contrato de trabalho desportivo não pode ter duração inferior a uma época desportiva nem superior a cinco épocas.
Também o Regime Jurídico das Federações Desportivas se refere a este conceito quando menciona, no artigo 34.º, n.º 4, que «A aprovação de alterações a qualquer regulamento federativo só pode produzir efeitos a partir do início da época desportiva seguinte, salvo quando decorrer de imposição legal, judicial ou administrativa»."

O perigo da dependência na motivação externa


"Há uma realidade no futebol moderno que me preocupa. Equipas que só despertam quando estão a perder, jogadores que apenas aumentam a intensidade quando sentem o resultado em risco. Como se a frustração fosse o gatilho para competir.
Este Mundial volta a mostrar-nos isso. Bélgica, Inglaterra e outras seleções revelaram momentos em que a urgência do resultado libertou uma versão mais intensa das suas equipas.
A pergunta é inevitável. Porque não competir assim desde o primeiro minuto?
Enquanto treinador, esta é uma reflexão que me acompanha há muitos anos. A psicologia distingue a motivação extrínseca da motivação intrínseca.
A primeira depende do exterior: do resultado, das críticas, dos elogios, dos prémios ou do medo de perder.
A segunda nasce do interior: do compromisso, do orgulho, da responsabilidade e da vontade permanente de melhorar. É esta que procuro desenvolver.
Um jogador que representa a sua seleção nacional não pode depender de estímulos externos para competir. O privilégio de vestir a camisola do seu país deveria ser, por si só, uma fonte inesgotável de motivação.
Competir por Portugal, pela Nigéria ou por qualquer outra seleção é um dos maiores reconhecimentos que um jogador pode alcançar. Quem chega a esse nível não pode esperar pelo sofrimento para encontrar energia.
No alto rendimento, a excelência não pode depender das circunstâncias. Tem de depender da identidade.Da disciplina. Do compromisso com a equipa. Da exigência consigo próprio.
A motivação externa pode iniciar um comportamento. Mas raramente o sustenta. É a motivação intrínseca que permite manter a concentração quando tudo corre bem e continuar a trabalhar quando ninguém está a olhar. Por isso acredito que uma das maiores responsabilidades de uma equipa técnica não é fazer grandes discursos antes dos jogos.
É construir uma cultura onde cada treino tenha significado, cada tarefa tenha intenção e cada jogador compreenda profundamente porque faz aquilo que faz. Porque, no final, a verdadeira liderança não cria dependência. Cria autonomia.
Afinal, o treinador não existe para motivar permanentemente. Existe para ajudar o jogador a construir uma motivação que sobreviva à sua ausência."