O INDEFECTÍVEL
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quinta-feira, 28 de maio de 2026
Não acredito!!!
Não acredito.
— OCamisola10 (@OCamisola10_) May 27, 2026
Os "diferentes" não fazem destas coisas.
Os outros todos sim, os "diferentes", não. pic.twitter.com/pkCJajnKib
Os líderes de que o futebol precisa hoje
"O futebol mudou. Mudaram os ritmos, os contextos, a forma como se comunica, a exposição mediática, a pressão competitiva e até a maneira como as pessoas vivem emocionalmente o jogo. Mas talvez a maior transformação tenha acontecido naquilo que hoje se exige a quem lidera.
Durante muitos anos, o futebol valorizou sobretudo lideranças associadas à autoridade, ao controlo e à imposição. O líder era frequentemente visto como alguém distante, duro, pouco acessível emocionalmente e capaz de decidir sozinho. Em muitos contextos, acreditava-se que liderar significava demonstrar poder permanente, criar barreiras e manter uma relação baseada essencialmente na hierarquia.
Mas o futebol atual é muito diferente daquele que existia há vinte ou trinta anos. Tornou-se mais rápido, mais complexo, mais exposto e muito mais exigente em termos humanos. Hoje, um treinador, um diretor desportivo ou qualquer elemento com responsabilidade de liderança já não gere apenas rendimento competitivo. Gere emoções, expectativas, comunicação, egos, pressão externa e relações humanas extremamente delicadas.
E isso obriga inevitavelmente ao aparecimento de uma nova geração de líderes.
Líderes mais preparados para comunicar, mais conscientes da importância da inteligência emocional, mais disponíveis para escutar e mais capazes de compreender que o rendimento de uma equipa está profundamente ligado ao ambiente que se cria dentro de uma estrutura.
Isto não significa que a exigência tenha desaparecido. Pelo contrário. O futebol de alto rendimento continua a exigir disciplina, compromisso, responsabilidade e capacidade de decisão. Mas a forma de chegar aos jogadores mudou profundamente.
Hoje, o respeito já não se conquista apenas através da autoridade do cargo. Conquista-se através da coerência, da competência e da autenticidade.
Os jogadores modernos percebem rapidamente discursos vazios, incoerências comportamentais ou lideranças construídas apenas sobre a imposição. A nova geração de atletas cresceu num contexto diferente, com maior acesso à informação, maior exposição pública e maior consciência individual. Isso obriga quem lidera a estar mais preparado não apenas tecnicamente, mas também humanamente.
Liderar no futebol atual já não é apenas escolher um onze inicial, definir uma estratégia ou preparar um treino. Liderar é criar cultura. É construir identidade. É alinhar pessoas em torno de uma ideia comum mesmo nos momentos de dificuldade.
Os melhores líderes conseguem proteger o grupo da instabilidade exterior. Conseguem manter equilíbrio quando surgem críticas, derrotas ou períodos de maior pressão mediática. Conseguem transmitir confiança sem perder exigência. E conseguem, acima de tudo, fazer com que os jogadores sintam que fazem parte de algo maior do que eles próprios.
O futebol vive hoje num ambiente de enorme desgaste emocional. As redes sociais criaram uma pressão permanente. A opinião tornou-se instantânea. Analisa-se tudo em tempo real. Julga-se rapidamente. E muitas vezes decide-se sem tempo para refletir.
Um treinador já não comunica apenas com os jogadores. Comunica diariamente com adeptos, jornalistas, dirigentes, agentes, patrocinadores e redes sociais. Qualquer gesto é analisado. Qualquer declaração é amplificada. Qualquer momento negativo gera imediatamente contestação.
Por isso, o líder moderno precisa de estabilidade emocional. Precisa de capacidade para decidir sob pressão constante sem perder clareza. Precisa de visão para olhar para além do resultado imediato. E precisa de personalidade para sustentar convicções mesmo quando o contexto se torna adverso.
Ao mesmo tempo, o futebol também se tornou mais multidisciplinar. Hoje existem departamentos de performance, análise de dados, psicologia, nutrição, scouting, comunicação e desenvolvimento individual. Isso obriga os líderes a saber trabalhar em equipa de forma muito mais integrada.
O antigo modelo de liderança excessivamente centralizador perdeu espaço. Nenhum líder consegue dominar sozinho todas as áreas do futebol moderno. Os melhores são aqueles que conseguem unir competências diferentes, criar confiança dentro das equipas técnicas e potenciar o conhecimento coletivo.
Os líderes mais fortes não são necessariamente os que falam mais alto ou os que procuram protagonismo constante. Muitas vezes são aqueles que conseguem ouvir melhor, interpretar melhor os contextos e tomar decisões mais equilibradas.
No futebol moderno, liderar também significa adaptar-se.
Cada grupo tem características diferentes. Cada geração reage de forma diferente. Cada contexto competitivo exige respostas específicas. Um dos maiores erros no futebol continua a ser acreditar que existe apenas uma única forma de liderança válida para todos os ambientes.
Os líderes do presente precisam de flexibilidade emocional e inteligência contextual. Precisam de perceber quando proteger, quando exigir, quando aproximar e quando criar distância. Precisam de compreender pessoas antes de tentar controlar comportamentos.
E isso exige preparação.
Muitas vezes fala-se apenas da evolução tática do futebol, da tecnologia ou da análise de dados. Mas talvez uma das maiores evoluções necessárias esteja precisamente na formação de líderes.
O futebol precisa cada vez mais de pessoas preparadas para gerir grupos humanos complexos. Pessoas com capacidade de comunicação, visão estratégica, equilíbrio emocional e cultura organizacional. Pessoas capazes de construir ambientes saudáveis sem perder competitividade.
Porque as equipas refletem quase sempre a qualidade das suas lideranças.
Quando existe clareza, coerência e estabilidade, os grupos tornam-se mais fortes.
Quando existe ruído, incoerência ou instabilidade emocional, isso acaba inevitavelmente por entrar dentro do balneário.
Os jogadores precisam de referências. Precisam de sentir direção. Precisam de acreditar no processo mesmo quando os resultados não aparecem imediatamente. E essa confiança nasce essencialmente da liderança.
No futebol atual, talvez já não seja suficiente ter apenas conhecimento do jogo. O conhecimento continua a ser fundamental, naturalmente. Mas tornou-se insuficiente quando não é acompanhado pela capacidade de gerir pessoas e contextos.
O líder moderno precisa de unir competência técnica com sensibilidade humana.
Precisa de perceber que cada jogador transporta emoções, inseguranças, ambições e necessidades diferentes. Precisa de criar relações de confiança sem perder autoridade.
Precisa de saber comunicar individualmente e coletivamente.
E, acima de tudo, precisa de inspirar.
Porque no futebol de hoje já não basta comandar. As equipas seguem verdadeiramente aqueles em quem acreditam.
O futuro do futebol pertencerá cada vez mais aos líderes capazes de unir conhecimento, comunicação, humanidade, visão e equilíbrio emocional.
Porque o futebol continuará sempre a ser feito de talento, estratégia e competição. Mas continuará, acima de tudo, a ser feito de pessoas."
Pep Guardiola, o homem que mudou o jogo
"Há treinadores que conquistam troféus. Há treinadores que deixam um legado eterno. E depois há Pep Guardiola, uma figura rara que conseguiu fazer as duas coisas ao mesmo tempo com um futebol de encantar.
Quando um dia se fizer a história do futebol do século XXI, os números ocuparão inevitavelmente algumas páginas. 42 troféus em 18 temporadas como treinador principal são uma marca impressionante. Mas reduzir Guardiola aos títulos seria como tentar explicar uma sinfonia apenas contando as notas. Os troféus contam o que venceu. O futebol que criou explica o porquê de ser lembrado para sempre. Guardiola não mudou apenas equipas. Mudou a forma como o jogo é pensado.
Quando assumiu o Barcelona em 2008, herdou um clube que procurava reencontrar-se. O que construiu foi muito mais do que uma equipa vencedora. Foi uma ideia. Uma filosofia. Um modelo de futebol baseado na posse de bola, na ocupação inteligente dos espaços, na pressão alta após a perda da bola e na convicção de que a “redondinha” deveria ser uma ferramenta de criação e não apenas um objeto de disputa.
O seu Barcelona tornou-se uma obra-prima coletiva. Com jogadores extraordinários como Lionel Messi, Xavi Hernández, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, entre outros, Guardiola criou uma equipa que parecia jogar alguns segundos à frente das restantes. Não era apenas eficaz, era bela. Muito bela. E num desporto onde tantas vezes o resultado apaga a memória da forma, aquela equipa conseguiu unir as duas coisas.
O impacto ultrapassou rapidamente as fronteiras da Catalunha. A seleção espanhola que dominou o futebol internacional entre 2008 e 2012 encontrou no trabalho desenvolvido por Guardiola uma das suas maiores inspirações. O título europeu em 2008, o Mundial de 2010 e o Euro 2012 foram conquistados por uma geração extraordinária de jogadores, mas também por uma ideia de jogo que tinha raízes profundas naquilo que se via semanalmente em Camp Nou.
Mais tarde, Guardiola levaria os seus princípios para outros palcos. No Bayern de Munique continuou a desafiar convenções, reinventando posições, criando novas dinâmicas e provando que o sucesso não precisava de ser inimigo da inovação. Mas foi em Inglaterra, no Manchester City, que voltou a transformar o impossível em rotina.
A Premier League era frequentemente descrita como um campeonato incompatível com o futebol de controlo absoluto que Guardiola defendia. Demasiado física. Demasiado intensa. Demasiado imprevisível.
Ano após ano, o City tornou-se a expressão mais refinada das suas ideias. Laterais transformaram-se em médios. Médios transformam-se em laterais. Centrais passaram a construir como criativos. A pressão tornou-se uma arte. A posse de bola deixou de ser estatística para se tornar domínio emocional do jogo. E então chegou o tão desejado “Treble”.
A conquista da Premier League, da Taça de Inglaterra e da Liga dos Campeões na mesma temporada não representou apenas o auge competitivo do Manchester City. Foi a confirmação definitiva de que a visão de Guardiola podia triunfar em qualquer contexto, contra qualquer adversário e em qualquer país.
Mas os grandes legados não se medem apenas pelas vitórias. Medem-se pela influência.
Hoje, em praticamente todos os campeonatos do mundo, é possível encontrar equipas, treinadores e academias que carregam traços do pensamento de Guardiola. Alguns imitam-no. Outros adaptam-no. Muitos tentam contrariá-lo. Todos, de alguma forma, tiveram de reagir à sua presença. Porque Pep não mudou apenas a maneira de atacar ou defender. Mudou, sim, a linguagem do futebol.
Na sua despedida do Manchester City, as palavras da filha, Maria Guardiola, emocionaram muitos adeptos. Não porque falassem dos troféus, dos recordes ou das noites europeias. Mas porque lembravam algo mais importante. Por trás do treinador revolucionário existe um homem. Um pai. Uma pessoa que dedicou a vida a perseguir uma ideia de excelência no futebol. Uma família que deu a volta ao mundo em troca de um lugar privilegiado na história do desporto-rei.
E talvez seja essa a imagem que ficará quando o tempo passar. Não apenas a do treinador que ganhou tudo. Mas a do sonhador que acreditou que o futebol podia ser jogado de forma diferente.
Os troféus ficarão nos museus. Os recordes serão ultrapassados. As estatísticas acabarão por perder relevância. Mas as ideias sobrevivem. E poucas ideias marcaram tão profundamente o futebol moderno como as de Pep Guardiola. Por isso, quando se fala da sua despedida, talvez a melhor homenagem não esteja nos números. Mas sim na herança.
Porque vários treinadores vencem campeonatos. Pep Guardiola mudou o jogo."
Torreense, setenta anos debaixo de terra
"Há quem esteja convencido de que o Torreense surgiu no Domingo passado. Mas não. Esteve ali o tempo todo. Não enterrado: semeado. Plantado na terra. À espera. Até que, como uma dessas velhas árvores que um dia acordam, começou a mexer-se
Há quem tenha ficado surpreendido com o que o Torreense fez no Domingo passado. “Inédito”, “incrível”, “inesperado”, etc., etc. Mas permitam-me: só se surpreendeu quem anda há demasiado tempo distraído. Se até Napoleão se vergou em Torres Vedras, qual é exactamente o espanto com a queda do Sporting? A conquista da Taça foi, tão-somente, o reerguer de um clube que esteve setenta anos à espera, com uma Taça atravessada na garganta.
Uma surpresa vem do nada. O Torreense vem da terra. Já sei no que estão a pensar. Mas não têm razão. Não se trata aqui de mais uma apologia sentimental do “clube da terra”; é antes a descrição literal de um clube feito dos pequenos montes, das encostas suaves e dos terrenos fertilíssimos da região saloia, como li algures sobre Torres Vedras.
Para compreender isto é preciso recuar ao princípio, ou quase. O princípio, neste caso, não é uma fotografia de onze bigodes. É o chão. O Estádio Manuel Marques foi erguido num antigo campo de semeadura. Sabiam? Eu também não. Mas sabia Luís Manuel Santana, o sócio número um, que o disse numa entrevista dada, em tempos, ao jornal do clube. O campo do Torreense, antes de ser para a bola, era para semear. Este texto podia acabar aqui.
O Torreense nasceu no lugar onde as coisas nascem. É possível imaginar melhor certidão de nascimento? A metáfora vem pronta a usar. Basta respeitá-la.
O Torreense tem dinheiro novo, claro. Ninguém chega à final da Taça e às portas da Primeira Divisão alimentado a saudade e a bifanas. Mas há dinheiro que se injecta e há dinheiro que irriga. Num clube assim, o dinheiro não poderia cair do céu; teria de subir do solo. Depois da aventura chinesa (há sempre uma aventura chinesa), o Torreense voltou a crescer com a ajuda do ecossistema empresarial local. Nuno José Feliciano de Carvalho, ligado à Agriloja, vem daí.
Até as cores concorrem. Hoje diz-se “azul-grená”. Como hoje se diz “Oeste”. Mas a região saloia fazia parte da Estremadura. E nos estatutos de 1950 estava escrito: “camisa vermelha, calções em azul-vivo e meias pretas com canhão vermelho.” Uma equipa que vem do lugar de onde os franceses bateram em retirada, vestida com as cores da libré da Casa de Bragança, que foram também as das tropas portuguesas e do partido legitimista? De D. Miguel? Desculpem, mas isto não se interpreta com prudência.
Depois de ter perdido a final de 1956 contra o FC Porto do azul-e-branco liberal, com um penálti roubado, podia uma equipa que regressa ao Jamor para pedir contas à história vestir outra coisa? Tinha de ser azul-grená.
Até ganhar ao Sporting vem daí. De um lugar longínquo. A primeira taça contra o Sporting foi contra a versão torreense do Sporting: uma taça de cristal, assente numa peanha de madeira. Em 1955/56, o Torreense foi a Alvalade vencer contra o Sporting a sério. E em 1991/92, na última época da equipa de Torres Vedras na Primeira Divisão, os de Lisboa vingar-se-iam com um golo de Luís Figo — o primeiro do futuro Bola de Ouro na Primeira Divisão — e outro de Cadete. O Sporting de Lisboa acabou por funcionar como a possibilidade nacional da rivalidade de província. O leão do Lumiar foi, para o Torreense, o testa-de-ferro do leão saloio.
E, por esta ordem de ideias, à falta de Benfica, o Torreense fez as vezes do Glorioso contra o Sporting. Como quando, no final dos anos 90, o Torreense eliminou o Porto da Taça, em plenas Antas. Lembram-se disso? Um jovem benfiquista perdedor, como o cronista que vos escreve, sentiu-se justificado. Foi uma loucura. O Porto fazia do futebol português a sua sala de estar. Havia cães de loiça e cheiro a bafio. Era o Porto do Penta, treinado por Fernando Santos. O mesmo que uns anos antes, ao serviço do Estoril, levara oito a um do Torreense. Oito. A um. Convém repetir para fixar.
Sem saber muito bem como, fui dar com um trabalho de escola sobre o Torreense, feito em 1998. Assinam “Viviana” e “Sandra”. Nas páginas finais, ao dar com aquela parte normalmente reservada a agradecimentos e apoios, vi ali uma espécie de Lei Fundamental do Reino: os Presidentes de Junta e os Vereadores, o Sr. João Camilo e o Sr. Manuel Candeias do jornal “Badaladas”, os professores, o Nelson e o Edgar, glórias do clube, “todos os amigos e turma de desporto”, e, claro, as empresas agrícolas da região.
Antes de tudo, o Torreense pertence ao chão. Ao solo. Em 1992, na celebração dos 75 anos do clube, houve Missa na Igreja de São Pedro e, depois, romagem ao túmulo de Luís Manuel Santana, o tal sócio número um. Romagem à raiz, melhor dito. Tudo o que interessa ser dito sobre o Torreense (e sobre futebol) disse-nos este homem, numa frase que vale por uma lápide e uma tarja para os Ultras levarem para todo o lado: “Aos desafios em Torres assisto sempre, até mesmo quando resolvo deixar-me disso.” A isto chama-se pertencer. Perdão: a isto chama-se estar plantado.
Há quem esteja convencido de que o Torreense surgiu no Domingo passado. Mas não. Esteve ali o tempo todo. Não enterrado: semeado. Plantado na terra. À espera. Até que, como uma dessas velhas árvores que um dia acordam, começou a mexer-se."
Nem com muito dinheiro se quer Inglaterra: o fator vida que pesou mais que os milhões na saída de Bernardo Silva
"O dinheiro compra muita coisa no futebol moderno, resulta em títulos, infraestruturas e os melhores plantéis do planeta, mas continua sem conseguir comprar o sol, a proximidade da família e a leveza do estilo de vida mediterrânico. A saída oficial de Bernardo Silva do Manchester City, consumada este fim de semana, é o reflexo perfeito de que, para as grandes estrelas do futebol, os contratos milionários da Premier League já não bastam quando a balança pessoal exige outra qualidade de vida.
Aos 31 anos, o internacional português despediu-se em lágrimas do Etihad Stadium após nove épocas de uma hegemonia incontestável sob o comando de Pep Guardiola. Contudo, o adeus não foi motivado por divergências financeiras ou falta de espaço na equipa. Bernardo saiu porque, simplesmente, cansou-se de Inglaterra.
O peso do quotidiano britânico
Não é segredo para ninguém que a adaptação ao clima cinzento e à cultura do norte de Inglaterra sempre foi um desafio para o jogador e para a sua família. Em declarações recentes, o camisola 20 assumiu que o fator cultural e o quotidiano pesaram de forma decisiva na sua escolha.
Para quem cresceu à beira-mar em Lisboa e viveu no Mónaco, a rotina de Manchester, marcada por invernos rigorosos e dias curtos, fora o que não foi dito, tornou-se um preço demasiado alto a pagar, independentemente do salário astronómico que o City estivesse disposto a oferecer para renovar o vínculo que termina a 30 de junho. Bernardo optou por cumprir o contrato até ao fim precisamente para ter o destino nas suas próprias mãos, rejeitando a opulência britânica em busca de um quotidiano mais quente e familiar na Península Ibérica.
A última oportunidade de mudar
"É a minha última oportunidade de ter um desafio e algo diferente", confessou o atleta à imprensa, revelando que esta decisão já estava tomada na sua cabeça há dois anos. Mais do que fugir da chuva de Manchester, Bernardo Silva procura novas motivações desportivas numa liga que se enquadre melhor no seu estilo de vida ideal.
Com o Atlético de Madrid na linha da frente para garantir os seus serviços a custo zero, o destino do craque português parece firmemente traçado em direção à capital espanhola. Em Madrid, Bernardo encontrará a competitividade ao mais alto nível europeu que tanto exige, mas com o bónus de viver num país com raízes, clima e gastronomia muito mais próximos do seu Portugal natal.
No braço de ferro entre os milhões da liga mais poderosa do mundo e o bem-estar pessoal, Bernardo Silva provou que há coisas que o dinheiro de Abu Dhabi não consegue comprar. A Premier League perde uma das suas maiores lendas para o "modo de vida" do sul da Europa.
Esta decisão de Bernardo Silva espelha um fenómeno psicológico contemporâneo em que o sucesso financeiro e o estatuto profissional já não anulam o desgaste de um quotidiano cinzento e culturalmente distante, algo que ganha ainda mais força num mundo globalizado onde a saúde mental e o bem-estar pessoal foram redefinidos como o verdadeiro luxo. Curiosamente, este movimento do craque português faz o caminho inverso, mas partilha exatamente dos mesmos motivos, de uma tendência migratória crescente: a de cidadãos britânicos que optam por deixar o Reino Unido e escolher Portugal como refúgio de vida. Procurando escapar ao stresse urbano, ao clima rigoroso e ao custo de vida sufocante das cidades inglesas, estes imigrantes procuram em solo luso a segurança, o ritmo desacelerado, o sol e a hospitalidade que a riqueza material da Premier League ou o dinamismo financeiro de Londres simplesmente não conseguem oferecer, provando que a verdadeira qualidade de vida se mede pela harmonia entre o corpo, a mente e o ambiente que nos rodeia."
Jordânia: Amer Shafi, o guarda-redes irascível que marcou de baliza a baliza
"Em 2011 agrediu um árbitro e ficou um ano sem jogar. Sete anos depois marcou um daqueles golos impossíveis, de ponta a outra do campo. As emoções, assume, por vezes apoderaram-se de si em demasia. Amer Shafi está nas listas dos melhores guarda-redes de sempre da Ásia, mas faltou-lhe levar a sua seleção ao Mundial - a nova geração fê-lo agora.
Olhando para os dados de Amer Shafi na seleção nacional da Jordânia, há um incomum pormenor. A seguir ao 171, já de si um impressionante número de internacionalizações pela seleção asiática, que neste 2026 fará a estreia em Mundiais, surge um “1”. De golos.
É incomum ver ali um “1” porque Shafi foi guarda-redes e os guarda-redes, salvo raras exceções, não costumam marcar golos. Shafi não era bom a marcar livres e penáltis, como Chilavert ou Rogério Ceni, nem foi à área em horas extraordinárias tentar um golo salvador para a sua equipa, como Trubin, por exemplo, esta temporada na Liga dos Campeões frente ao Real Madrid.
O golo de Shafi aconteceu aos 25 minutos de um encontro de preparação frente à Índia, em 2018. Shafi viu o guardião rival ligeiramente adiantado lá do outro lado do campo e aqui vai disto: o chuto bateu à entrada da área e o ressalto transformou-se num chapéu perfeito a um desamparado Gurpreet Singh Sandhu.
Não se vê todos os dias um golo de baliza a baliza, convenhamos.
O número 1, diga-se, é ubíquo na carreira de Amer Shafi: não só foi com ele nas costas que se tornou no mais internacional de sempre pela Jordânia, como foi o número de anos que esteve suspenso, 12 meses inteirinhos, depois de agredir um árbitro em pleno jogo da liga jordana, em 2011. Talvez um perfil publicado em 2015 pelo Comité Olímpico da Jordânia tenha encontrado a definição perfeita de um homem feito das suas próprias contradições: “Às vezes sem rodeios, quase sempre controverso, mas sempre brilhante.”
Nascido em Amã há 44 anos, Amer Shafi até começou como jogador de campo no Al-Yarmouk, antes de encontrar o seu pouso natural na baliza. Relativamente baixo para a posição (1,83m), cedo se destacou pelas defesas acrobáticas, cheias de reflexos e agilidade, com uma atitude e presença forte não só entre os postes mas também como líder na seleção e no Al-Wehdat, clube que representou durante onze temporadas.
Figura de proa da seleção durante quase duas décadas - a primeira internacionalização aconteceu em 2002 e o adeus em 2021 -, Shafi, conhecido por “A Baleia”, esteve na Taça da Ásia de 2004, 2011, 2015 e 2019 e não ficou longe de conseguir o que a nova geração jordana finalmente logrou em 2026: a qualificação para um inédito Mundial. Depois de uma memorável exibição frente ao Usbequistão - curiosamente, outro dos estreantes em 2026 -, a Jordânia ficou a apenas uma eliminatória do Mundial do Brasil 2014, perdendo com o Uruguai no derradeiro play-off.
Só o nascimento dos filhos, diria mais tarde, suplantou a alegria de estar tão perto de fazer história pelo seu país.
A Europa que nunca chegou
Respeitado e admirado na Ásia, frequentemente presente nas listas de melhores guarda-redes de sempre do seu continente, Shafi nunca teve, no entanto, oportunidade de jogar na Europa, pontuando períodos no Egito e Arábia Saudita com uma carreira que se fez quase exclusivamente no seu país.
“Houve interesse [da Europa] ao longo da minha carreira, mas nunca se materializou”, confessou em 2015, culpando a falta de “agentes profissionais” de futebolistas na Jordânia como fator decisivo para o deserto de propostas concretas.
Talvez o seu temperamento, que nem sempre lhe permitia manter a calma em campo, não tenha ajudado. Shafi era tão lesto a sair a bolas como a barafustar com árbitros. Até ao dia em que agrediu um. “Eu adoro este desporto e sou mesmo muito apaixonado por futebol, pela minha equipa e pelos meus colegas e isso às vezes leva a melhor sobre mim e mete-me em problemas quando eu sinto que há uma injustiça a acontecer”, sublinhou nesse perfil escrevinhado pelo Comité Olímpico jordano, onde se assumiu fã de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi."
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Novelas...
O Benfica já deve conhecer o seu novo treinador e possivelmente já trabalha com ele na próxima temporada. As novelas que se fazem na comunicação social servem apenas para ganhar audiências e manter pressão sobre o clube. Da mesma forma que Mourinho já trabalha com o Madrid.
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) May 26, 2026
Entre a imoralidade e a 'chico-espertice'
Como é, Estrela? pic.twitter.com/vkMHQVgPLf
— Fever Pitch (@Fever_PitchFC) May 26, 2026
30 dias
"Época terminada. Tempo para repousar, para reflectir... e daí talvez não.
"Obviamente que saio insatisfeito [com esta época]. O Benfica não sendo campeão, deixa-me sempre insatisfeito, como é natural, tal como acontece com todos os Benfiquistas. Uma palavra de apreço para todos os Benfiquistas que aqui estiveram hoje. (…) Isto é o Benfica, e, por isso mesmo, também por esta grandeza, a exigência do Benfica. Dentro dessa exigência, é natural que esta época tenha sido completamente negativa, porque não atingimos os objetivos que queríamos. (…) Finalizando, e como já disse, nesta semana farei o balanço da temporada e falarei aos sócios do Benfica."
— Rui Costa, presidente do SL Benfica, 17 de Maio de 2026
A época do futebol sénior do Benfica terminou a 16 de Maio, e vai recomeçar daqui a um mês. É que graças à vitória do Torreense na final da Taça de Portugal, o Benfica irá entrar na 2.ª pré-eliminatória da Liga Europa. Com 90.000 pontos de coeficiente UEFA acumulados, o Benfica é, provavelmente, a equipa com melhor ranking de sempre a participar nesta fase de qualificação da prova secundária da UEFA. Para entrar na fase de liga da competição, o Benfica terá de disputar 3 eliminatórias sendo que o primeiro jogo está agendado para 23 de Julho. Por outras palavras, os adeptos irão ver o Benfica em acção 4 dias após o Mundial FIFA. Para quem gosta de futebol, são óptimas notícias. Para quem gosta do Benfica, nem por isso. É que os benfiquistas estavam descontentes com a época que agora terminou, até saberem que afinal têm menos de um mês até começarem a ficar descontentes com a época que se avizinha.
A pré-época do Benfica começa com o Mundial em andamento. Mais precisamente, 2 dias depois do 2.º jogo de Portugal na competição (entre a 2ª-3ª jornada do Torneio). O clube tem 8 jogadores na competição, fora outros que também irão competir em amigáveis ou selecções mais jovens. Ou seja, o treinador não terá toda a equipa à sua disposição no recomeço dos trabalhadores, o que está longe de ser ideal. Mas os problemas não acabam aqui.
Para um treinador que conhece o plantel, este problema não seria tão impactante. O problema está em saber se o Benfica terá um treinador que conhece o plantel. Para isso seria importante definir rapidamente o treinador para a próxima temporada que, relembro, começa daqui a 30 dias. E é esta indefinição que prejudica o Benfica.
Saber quem é o treinador da próxima época é essencial. À falta disso, saber quem não será o treinador da próxima época também seria importante. Mas o futebol sénior masculino do Benfica vive neste limbo, onde o clube se vê refém da decisão do actual treinador em continuar ou não. E a decisão do actual treinador está associada ao resultado das eleições de outro clube. Ou seja, o Benfica está dependente de terceiros para saber como preparar a próxima temporada. E entretanto o tempo vai passando, e potenciais treinadores que o clube tenha em mente para assumirem as rédeas da equipa poderão tomar outros rumos, de outros clubes que já tenham definido o projecto que querem para 2026-27 e os contactem para esse propósito. E quem diz treinadores diz jogadores, visto que é normal, antes de se transferirem, de quererem saber se são uma escolha do novo treinador e que projecto há em mente. O processo de decisão está afastado das mãos do clube. Isto não augura nada de positivo.
Abordado pela RTP no rescaldo da final feminina da Taça de Portugal, o Presidente do Benfica disse que "até prova de contrário", o Benfica ainda tinha treinador. Em jeito de remate, disse igualmente que "em relação a tudo o resto" iria, "durante esta semana, falar aos sócios do Benfica para explicar a época e fazer o balanço". Isto aconteceu a 17 de Maio. Entretanto, não houve qualquer entrevista, não houve qualquer balanço. A justificação é óbvia: o Benfica ainda não sabe quem será o treinador da próxima temporada, porque tal como referido anteriormente, está dependente de outros. E quando não há capacidade de decisão nem controlo do processo em andamento, existe o risco de vir para a televisão fazer promessas que não vão ser cumpridas.
O Benfica acabou uma época onde ficou aquém das expectativas, no 3.º lugar e atrás dos nossos maiores rivais. É o próprio presidente do clube que classifica esta época como "completamente negativa". Eu sou daqueles que acham que mais do que ganhar tudo, tem de haver mínimos olímpicos. E nem me considero tão exigente como alguns dos benfiquistas com quem privo (ou vou lendo por aí). Não exijo que o Benfica tenha sempre de lutar pela Champions. Apesar do coração sentir que sim, não exijo que o Benfica seja campeão todos os anos. Para mim, a cada época que acaba, o Benfica tem de estar em todas as fases de decisão até o mais tarde possível. E é imperativo que no decorrer da época (e não apenas no final), se faça uma análise profunda não só aos resultados, mas sobretudo ao projecto, ganhe-se ou não. É que uma análise implica que se está a pensar nos problemas, em vez de se estar a reagir aos problemas. É inadmissível, a este nível e com esta magnitude financeira, não haver um projecto, uma ideia que se possa defender.
As pessoas que estão à frente de um clube têm obrigação de saber mais de futebol que o comum dos adeptos. Os adeptos querem ganhar a curto prazo, e para muitos, ganhar é a prioridade, jogue-se bem ou não. Quem não ganha tem a cabeça a prémio. Mas quem está à frente do clube tem de pensar para além disso. Tem de mostrar preparação, prever em vez de reagir. Tem de saber controlar os momentos, ter capacidade (e coragem) para certas decisões difíceis. Não pode ceder a terceiros e abdicar do controlo dos acontecimentos. Tem de saber comunicar com os adeptos, fazer-lhes ver que apesar dos resultados, há uma ideia de fundo, um projecto em curso que assegure os benfiquistas que o futuro trará melhores dias. Por outras palavras, os adeptos querem poder acreditar que não se precisam de preocupar mesmo quando a época não corre como esperado. O Benfica tem 30 dias para tomar decisões difíceis e preparar uma nova época que tem obrigatoriamente de ser melhor do que esta. O que leva à seguinte pergunta: a actual direcção causa preocupação?"
O treinador português ainda está na moda?
"Principais técnicos lusos estão na iminência de mudar de ares mas, à exceção de Mourinho, nenhum deverá ser o escolhido para um grande clube do 'top' 5 europeu
Os jogadores são os principais ativos do mercado de transferências, mas as próximas semanas prometem muitas mudanças de treinadores, num daqueles alinhamentos cósmicos e com efeito de roda dentada, com entradas e saídas dependentes e interligadas.
Não é vulgar, por exemplo, termos um defeso com tantos técnicos portugueses de nomeada na iminência de mudar de ares - e alguns disputando os mesmo lugares. Partindo do pressuposto de que José Mourinho tem o futuro reservado (será o Real Madrid, mais semana menos semana) é curioso verificar que Jorge Jesus, Sérgio Conceição, Marco Silva ou Rúben Amorim estão em simultâneo no mercado, numa lista que pode estender-se eventualmente a Nuno Espírito Santo.
O que têm estes homens em comum? Todos passaram pelos três grandes de Portugal e à exceção do (ainda) líder do Fulham só um pode mesmo ser opção para o mercado de topo nacional. Os outros deverão manter-se pelo estrangeiro, mas dificilmente assumirão os principais clubes do Velho Continente, confirmando uma tendência recente: é difícil vermos um treinador português assumir o comando de um gigante de um dos cinco principais campeonatos europeus.
Mourinho será uma exceção e fruto de um contexto muito específico relacionado com a grande proximidade ao atual presidente dos blancos, Florentino Pérez, que busca desesperadamente alguém que ponha um balneário em ordem - é até redutor para Mourinho ser apontado ao lugar apenas e só pela personalidade e menos pelo que pode fazer do ponto de vista puramente técnico, tático e estratégico.
Recordando o que foi a temporada 2025/26, temos apenas os casos de Paulo Fonseca no Lyon (levou a equipa à pré-eliminatória da Champions e esteve muito tempo em zona de acesso direto numa luta em que o PSG não dá espaço à concorrência), Luís Castro que conseguiu o milagre de garantir o Levante na liga espanhola e o trio Marco Silva/Vítor Pereira/Nuno Espírito Santo na Premier League que andou entre o meio da tabela e o fundo (NES não evitou mesmo a descida do West Ham). E depois a experiência falhada de Amorim no Manchester United.
Começa a ser cada vez maior o fosso que separa a tão elogiada escola de treinadores portugueses, por exemplo, da espanhola - de longe, a melhor do mundo na atualidade. Porque o efeito-Mourinho de há 20 anos já passou: agora só abre a porta para ele."
Torreense: André Sabino e a ciência prática das decisões no futebol
"André Sabino, aos 34 anos, representa uma rara combinação entre juventude e maturidade decisional num contexto em que o futebol profissional tende a premiar a reação em detrimento da reflexão. A sua intervenção enquanto Diretor Desportivo do Torreense, observada na participação no programa Futebol Total do Canal 11 a 25 de maio de 2026, impressionou.
André Sabino revelou um perfil profundamente pragmático, orientado para objetivos claros de sucesso sustentado e assente num processo estruturado, sem nunca perder de vista a sensibilidade humana do atleta.
A forma como articula decisões não decorre de impulsos, mas de uma lógica interna coerente em que cada escolha parece servir um propósito maior. No futebol moderno, com a pressão do imediato frequentemente a distorcer prioridades, este tipo de clareza não é apenas uma competência. É um ativo estratégico.
O impacto deste perfil torna-se ainda mais evidente quando se observa o percurso recente do Torreense e a forma como a equipa se posicionou em jogos de alta exigência, incluindo a final da Taça de Portugal frente ao Sporting. Independentemente do resultado, há uma leitura estrutural que transcende o jogo: a construção de uma equipa que responde a uma ideia consistente de competitividade, sustentada por organização interna e pragmatismo coletivo.
Pelo que foi possível observar na sua participação no canal 11, o que distingue André Sabino não é apenas a capacidade de definir objetivos, mas a forma como os traduz em comportamento organizacional. A sua liderança não se impõe pelo ruído, mas pela direção. Não depende da instabilidade emocional do contexto, mas de uma matriz de decisão que privilegia continuidade, adaptação e foco.
Ressaltou também um outro elemento particularmente relevante no seu perfil: a gestão da relação humana dentro do rendimento. Num ambiente em que o atleta é frequentemente reduzido a métrica, a sua abordagem preserva a individualidade sem comprometer a exigência. Esse equilíbrio cria condições para que a performance não seja apenas episódica, mas sustentável.
O que se observa, em última análise, é uma arquitetura de liderança em que a estratégia, processo e pessoas não competem entre si. Complementam-se. E é precisamente essa integração que explica a evolução competitiva do projeto e a sua capacidade de se afirmar em cenários de elevada pressão.
O melhor exemplo desta lógica está na forma como, no programa do Canal 11, André Sabino sublinha a qualidade da equipa integrada que assegura a dimensão física dos atletas. Não é por acaso que a frescura física acontece nos momentos decisivos: ela resulta de uma construção cuidada, em que o detalhe operacional é tratado como parte essencial do desempenho global.
Num futebol cada vez mais acelerado, em que muitos decidem tarde e poucos decidem bem, a diferença está em quem consegue manter coerência quando tudo à volta pede exceção. André Sabino demonstra precisamente essa capacidade de permanência racional e intocável na linha do objetivo, mesmo quando o contexto exige algum improviso. O futuro não tem limites para um jovem como o André Sabino."
Os americanos e o Benfica
"No passado dia 23 de abril, a Entrepreneur Equity Partners assinou um acordo para a compra dos 16,38% da Benfica SAD detidos pelo Grupo Valouro e pelo seu acionista José António dos Santos, conhecido no universo benfiquista como o rei dos frangos.
Trata-se de um fundo de investimento norte-americano ligado ao desporto e ao entretenimento, com participação na gestão de arenas desportivas e espaços de espetáculo. Com esta operação, investidores americanos passam a deter mais de 21% da SAD encarnada, uma vez que a Lenore Sports Partners já havia adquirido 5,24% do capital em 2025.
Importa, porém, clarificar uma questão essencial: o Benfica clube continua a controlar a SAD. Detém cerca de 67% do capital e é o único titular das ações de categoria A, que conferem direitos especiais. As ações agora adquiridas pertencem à categoria B e não atribuem esses privilégios. Este é um ponto importante.
Os estatutos da SAD foram desenhados precisamente para garantir esse controlo. O clube tem direito de preferência na transmissão das ações, pode amortizar ações de categoria B em determinadas circunstâncias, dispõe de poder de veto nas decisões estruturantes e pode nomear um administrador com direitos reforçados no conselho de administração.
Em resumo: enquanto mantiver a maioria do capital e o controlo dos órgãos sociais, quem manda na SAD é o Benfica. Mas isso não significa que os novos acionistas sejam irrelevantes. Muito pelo contrário.
A SAD está cotada em bolsa, depende de financiamento externo e necessita de preservar credibilidade junto de investidores e credores. Quem investe cerca de 40 milhões de euros não o faz para assistir da bancada. Quer influência, informação e capacidade de participação nas grandes decisões estratégicas.
Aliás, basta olhar para os números: a cotação bolsista recente avaliava a SAD em cerca de 170 milhões de euros, mas esta operação implicou uma valorização próxima dos 250 milhões. Quem paga muito acima do valor de mercado acredita que o ativo vale bastante mais e, como é lógico, espera retorno.
É difícil imaginar que estes investidores estejam interessados apenas nas receitas televisivas ou nas mais-valias desportivas. O potencial do chamado Benfica District, os naming rights do estádio, a expansão internacional da marca ou até futuras operações relacionadas com jogadores deverão fazer parte da equação.
A entrada de acionistas com experiência no mercado desportivo mais sofisticado do mundo pode, aliás, representar uma oportunidade. Os americanos dominam como ninguém a indústria do entretenimento e do espetáculo desportivo. Podem trazer novas competências de gestão, inovação comercial, profissionalização e valorização da marca.
O problema é outro. José António dos Santos há muito dava sinais de querer vender a sua participação. Perante esse cenário, teria sido desejável que a Direção do Benfica tivesse antecipado o processo, procurado investidores alinhados com uma visão estratégica para o clube e conduzido a operação em vez de apenas reagir a ela.
No FC Porto, e também no atual Sporting, dificilmente uma situação destas teria acontecido desta forma. Mais uma vez, a liderança de Rui Costa parece correr atrás dos acontecimentos em vez de os controlar. Reage, adapta-se, tenta limitar danos, mas raramente define o jogo. E tem mais probabilidades de perder.
E no futebol, como na gestão, quem passa o tempo a correr atrás da bola dificilmente consegue controlar o jogo.
O Direito ao Golo desta semana vai para o Torreense. Extraordinária e merecida vitória na Taça de Portugal. Parabéns aos de Torres Vedras pela inédita conquista: um clube da segunda divisão ganhar a Taça não tem precedente! E também para Afonso Eulálio, o ciclista português liderou a Volta a Itália durante nove dias, e está agora no segundo lugar da classificação geral. Fantástico!"
Do princípio ao fim
"1. Terminou para o Benfica a temporada oficial de
2025/26, que começou tão bem, em pleno verão
algarvio, com a conquista da Supertaça na decisão
com o Sporting. O Benfica chegou a essa decisão
na qualidade de finalista vencido da anterior edição da Taça de Portugal, num jogo inesquecível
pelo volume de erros da arbitragem e da videoarbitragem, erros claríssimos que mancharam a
final e que adulteraram o resultado do jogo.
2. Sim, foi há um ano que isso aconteceu no Jamor.
Alimentou uma semana de conversa pública de
todos os participantes e, na semana seguinte, deixou de ser assunto. Consequências não houve.
Penalizações aos protagonistas de situações
inadmissíveis no relvado também não houve.
Suspensões ou afastamento dos protagonistas de
decisões inadmissíveis naquela assoalhada no
complexo daquilo a que se chama Cidade do Futebol também não houve.
3. Continuou tudo igual no futebol português.
E, quando continua tudo igual, é de esperar que os
resultados sejam os mesmos. O Benfica não vai
estar na final da Taça de Portugal de 2026 e
pedem-nos agora que torçamos pelo nosso rival
de sempre, no domingo, no Jamor, para evitarmos
o incómodo de começar a temporada de 2026/27
mais cedo por conta das pré-eliminatórias e do
playoff de acesso à Liga Europa. Pois, pois…
4. Voltemos ao início da conversa. A temporada de
2025/26 começou muito bem com a conquista da
Supertaça, mas o balanço só pode ser negativo
porque será sempre negativo o balanço quando,
numa época desportiva, a equipa principal de
futebol do Benfica apenas vence 1 dos 4 troféus
internos pelos quais tem de lutar em Portugal.
Foi o que aconteceu.
5. O Benfica chegou à antepenúltima jornada no
2.º lugar e perderia esse lugar com uma arbitragem e uma videoarbitragem que o Conselho de
Arbitragem da FPF viria a julgar como duplamente
“insatisfatórias”. Que uma coisa destas não sirva
de consolo a ninguém, por favor. Até porque, na
próxima temporada, haverá mais destes momentos. Haverá os que forem necessários.
6. Saiu a lista de convocados para o Mundial. Não é
um assunto que diga respeito diretamente ao
Benfica, mas não há como não comentar uma
explicação do selecionador Martínez sobre as
suas escolhas: “António Silva? Não é ele que sai,
mas sim o Tomás Araújo que entra.” Pensando
melhor, perante semelhante raciocínio… comentem os caros leitores.
7. Parabéns ao futebol feminino do nosso Clube.
As hexacampeãs nacionais arrastaram milhares
e milhares de adeptos até ao Jamor para as ver
conquistar a Taça de Portugal ao FC Porto. Foi
tudo à Benfica do princípio ao fim."
Leonor Pinhão, in O Benfica
Antes dos ídolos, houve Brito
"EM 1942, CARLOS BRITO
TORNOU-SE NO PRIMEIRO
MOÇAMBICANO A VESTIR
DE ÁGUIA AO PEITO
Ser o primeiro de uma terra distante a partir para um palco
maior é, ao mesmo tempo, um
ato de coragem e um fardo
silencioso. Não se leva apenas talento
na bagagem, leva-se a esperança de
muitos. Cada passe, cada golo, cada
erro deixa de ser apenas individual
para passar a representar um povo
inteiro. Se resulta, abre-se caminho. Se
falha, fecha-se uma porta que muitos
sonhavam atravessar. É o peso de uma
nação nos ombros de um só homem!
Em 1942, Carlos Brito chegou a Lisboa para desafiar o destino e vestir a
camisola do Benfica. Vinha de Lourenço Marques, onde representava o
Desportivo. Tal foi a honra de ter
atraído o interesse dos encarnados
que “o seu ‘custo’ terá sido o da passagem para Lisboa”.
A estreia não tardou: na 1.ª jornada da segunda volta do Campeonato
de Lisboa, frente ao Atlético. O avançado iniciou o encontro nervoso, querendo desfazer-se da bola rapidamente. Com o passar dos minutos,
ganhou confiança e, antes do intervalo,
apontou o segundo golo do Benfica. Os
encarnados acabaram por vencer por 5-2 e o
moçambicano mereceu elogios por parte da
imprensa: “É batalhador, não fugindo ao
embate com a defesa contrária. Eleva-se
muito bem, pulando com facilidade. Não
tem, contudo, características de avançado-centro.” Nos jogos seguintes, marcou a
todos os adversários distritais: CUF de Lisboa, Fósforos, Sporting e Belenenses.
Manteve o registo nos jogos de preparação
para o Campeonato Nacional, mas só foi
opção para a competição na 4.ª jornada, frente à CUF. Aproveitando a indisponibilidade de Julinho, apesar
da forte oposição do defesa
Lino, marcou o primeiro golo da
vitória benfiquista por 3-2.
Remetido depois para as reservas, apenas voltaria a atuar pela
equipa de honra em jogos oficiais na partida da segunda
volta, novamente frente à CUF.
Esses encontros foram suficientes para integrar a lista de campeões nacionais.
Nas três épocas seguintes,
atuou maioritariamente pelas
reservas, com aparições esporádicas ao serviço da equipa de
honra, que lhe valeram mais um
título em 1944/45. Na temporada
1946/47, ingressou no Futebol
Benfica, onde permaneceu durante três épocas, regressando
depois a Lourenço Marques.
Carlos Brito talvez não tenha
sido a estrela maior, mas foi a
faísca inicial. Foi ele quem mostrou que o talento africano podia
vestir de encarnado e vencer. Por
isso, “quando, na Luz, o público
se levanta para aplaudir o Costa
Pereira, o Coluna, o Eusébio,
algumas dessas palmas também
são devidas, por direito de conquista, a um homem que teve a
coragem” de vir jogar no Benfica.
Saiba mais sobre este e outros jogadores
do Benfica oriundos de Moçambique na
mostra temporária Etnografia do Golo –
O Património Cultural de Moçambique no
Futebol, patente no piso 2 do Museu Benfica
– Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica
A Taça é nossa
"Não, esta crónica não é sobre a
Taça de Portugal masculina da
época passada – que era nossa,
devia ser nossa, mas alguém
exterior ao campo de jogo en -
tendeu encaminhar para outros
destinatários. Também não é
sobre a Taça de Portugal masculina desta temporada, a cuja
final chega uma equipa que não
devia sequer ter passado dos
oitavos, mas a quem, 12 minutos de observação vesga, e uma
subsequente decisão estapafúrdia, ofereceram a eliminatória nos Açores. Não é, ainda,
sobre a Taça de Portugal masculina de há dois anos, em cuja
meia-final foi anulado um golo
limpo a Di María, o qual acabou
por nos impedir de disputar a
final. E cabe aqui um parêntesis
para sublinhar o quanto estas
evocações nos elucidam sobre
a subversão do palmarés futebolístico deste país.
Não. Esta crónica é sobre a
nossa brilhante equipa feminina, e a Taça conquistada no
Jamor, perante mais de 22 mil
pessoas, naquele que foi o primeiro clássico Benfica-FC
Porto da história do futebol
feminino. Dois golos de Caroline
Møller arrumaram a questão
ainda na primeira parte. Houve
algumas oportunidades desperdiçadas, mas o resultado
não se alterou. A Taça é nossa!
A dobradinha é nossa!
O futuro vai dar-nos, um dia, a
real medida e o alcance destas
conquistas. Agora, estiveram
presentes 22 mil pessoas. Não
tenho dúvidas de que, em
breve, estas equipas esgotarão
um estádio. Essa é uma tendência inelutável, que valorizará os
triunfos de quem a entendeu
antes de todos os outros. Desde
que a nossa equipa feminina foi
criada, com a pandemia pelo
meio, somamos já 17 troféus.
E é para continuar.
Do último fim-de-semana, não
podemos deixar de realçar
também a vitória do râguebi,
que, 25 anos depois, voltou a
sagrar-se campeão nacional.
E, não sendo propriamente
novidade, mais um campeonato
de polo aquático feminino – o
7.º consecutivo!"
Luís Fialho, in O Benfica
Crescer
"É isso que faz o projeto Para ti Se
não faltares!: vai ao encontro dos
jovens, desperta a sua atenção,
incentiva a sua ambição e esforço, e ajuda cada um deles a crescer dentro do seu ideal de vida.
Este projeto acontece na escola
porque, na verdade, a escola,
com todos os defeitos que muitos
teimam em apontar-lhe, continua
a ser a grande instituição que alimenta as sociedades com cidadãos que as compreendem, que
as fazem funcionar e que lhes
dão sentido na sua pertença e
identidade.
A escola oferece uma porta aberta
para o conhecimento, mas também se posiciona cada vez mais
como um complemento da família,
como um motor de desenvolvimento económico e um elevador
social. É disto que falamos quando
pronunciamos, de uma só vez, a
palavra escola. Não é coisa pouca,
é, na verdade, muito, e os países,
as sociedades, em particular a
portuguesa, devem à escola muito
do que são na atualidade, bem
como a preservação da sua
memória e projeção no futuro.
Infelizmente, a escola é massificada, porque tem de atingir as
massas, e não consegue chegar
da mesma maneira a todos, por
mais que tente, e tenta muito. Por
isso, é preciso aumentar a atratividade da escola, garantir que
toca todos da mesma maneira e
ajudar esta instituição fantástica a
fazer o que faz melhor: desenvolver o potencial de cada um de nós.
Mas também é preciso atuar do
lado dos jovens para que entendam a importância desta instituição e entendam o inestimável
valor que ela tem para cada um
destes jovens extraordinários.
Ora, é isso mesmo que faz a Fundação Benfica com o projeto Para
ti Se não faltares!: pega na bola,
junta-lhe o Benfica na sua totalidade, do futebol à mística, vai ao
encontro dos jovens e permanece
na sua escola, fala com as famílias, incentiva e premeia, ajuda-os
a levantar quando tropeçam, e a
voar sempre mais alto. É o Benfica a ser Benfica e a dar a Portugal
de volta um pouco do tanto que
Portugal lhe dá!"
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