"Recordo-me perfeitamente do primeiro jogo que vi ao vivo. Como não? O cheiro a relva molhada, a bola a ganhar velocidade ao bater no solo, o barulho de cada passe trocado entre os jogadores. Assistia a muito futebol com o meu avô na mesa do café enquanto éramos acompanhados por um cálice de sumo. Quando me estreei no estádio, fascinaram-me os detalhes que não se viam na televisão.
O encontro era um Académica-União de Leiria, disputado em 2010 no Estádio Cidade de Coimbra. A Briosa tinha na frente um jovem promissor chamado Éder, ali apenas com um átomo do reconhecimento que viria a ganhar quando deu a vitória a Portugal na final do Euro 2016. Aliás, poucos se recordarão que abandonou os estudantes sem deixar rasto quando ainda tinha contrato com o clube, razão pela qual na cidade tem uma fama um pouco diferente da que goza no resto do país. Naquele ataque, quem mais me enchia as medidas era o senagalês Sougou, velocíssimo no ataque de uma equipa treinada por André Villas-Boas.
Em criança tem-se um desejo incessante de ver futebol ao vivo. Não importa se é no Calhabé ou no Azteca. Naquele dia, devia ter vindo para casa com a sensação de dever cumprido, mas tal não aconteceu. Fiquei sem saber se os meus tímpanos toleravam os gritos de golo. O resultado foi um inerte 0-0. A experiência ficou incompleta e jurei voltar para testar os limites do meu sistema auditivo. Talvez não estivesse pronto para provar tantas emoções de uma só vez.
O 0-0 é o resultado menos nobre do futebol. Quando se acaba algo da mesma forma como se começa, há algo que fica por cumprir. O entretenimento que se procura num jogo resulta numa piada sem punchline. Toda a preparação feita para que o público usufruísse do auge da experiência foi afinal uma perda de tempo.
Os nulos são um pesadelo para quem elege o homem do jogo. Ainda assim, tenho a teoria de que os melhores MVP’s são os que recebem o prémio de melhor em campo nos encontros que encerram com este resultado. A falta de um golo que torne a seleção óbvia exige o empolar de critérios normalmente desvalorizados, tornando o reconhecimento mais valioso.
Todas as semanas, os comentadores fazem questão de alertar para o facto de estarem a escolher o homem do jogo e não o melhor em campo, tentando criar um dilema lexical entre duas expressões sinónimas. O jogador que decide um encontro é aquele que melhor atua, independentemente das ações mais relevantes que executa serem anteriores ao toque que coloca a bola na baliza. São também esses os momentos que geralmente não têm espaço nos resumos. O reconhecimento não pode depender apenas da capa.
Vivemos na era do individualismo, um momento histórico em que o jogador tem tanta ou mais força do que os clubes. Veja-se o impacto que os comentários de Kylian Mbappé tiveram na China e a antecedência com que começam as campanhas para prémios como a Bola de Ouro. Os louros pessoais são o combustível dessa cultura de exaustiva exploração do que é mais vendável.
Há duas épocas, na final da Taça de Portugal, responsáveis na Federação Portuguesa de Futebol distribuíram pela bancada de imprensa do Jamor papéis em branco para que os jornalistas presentes no Benfica-Sporting votassem no homem do jogo. Fizeram-no a cerca de dez minutos dos 90’, altura em que escrevi o nome de Álvaro Carreras. Não assistiu, nem marcou, mas conteve Francisco Trincão e ainda levou muitas vezes com Geny Catamo. Esteve impecável, tanto que se transferiu para o Real Madrid.
Dez minutos depois dos 90’, na compensação, Viktor Gyökeres forçou o prolongamento. Os votos já tinham sido recolhidos no momento em que o sueco fez o 1-1. Apesar de confortável com a confiança que eu pessoalmente tinha passado ao lateral espanhol, a organização decidiu distribuir novos boletins para o caso de alguém querer alterar o nome indicado para o futebolista que mais se destacou. Afinal, a atribuição do troféu pode influenciar a escolha. É um critério legítimo, mas que não me seduz.
O Sporting acabou por conquistar a Taça de Portugal (3-1, após prolongamento) numa polémica final que continuou a ser jogada no campo das acusações à arbitragem. O eleito foi Conrad Harder que só nas horas extraordinárias do encontro exibiu o seu impacto com um golo e com uma assistência. Ainda assim, não me convenceu mais do que Carreras.
Há muito futebol que é truncado como um vídeo curto para as redes sociais retirado de um conteúdo mais amplo. O juízo desportivo está também ele condicionado pela rendição ao algoritmo. A segmentação do jogo em highlights corre o risco de deixar esquecidos os verdadeiros melhores momentos."

















