"Se retirássemos das contas os 6
primeiros classificados do último Campeonato, a média de
espectadores nos estádios portugueses ficaria em cerca de
2500 por jogo. Número que
envergonha o futebol do país e
devia embaraçar a Liga e a FPF.
Os 16 jogos com maior assistência na temporada são do
Benfica, e, talvez por pudor, a
lista disponível no site da Liga
termina no 20.º lugar.
Ao olharmos para o mapa geográfico, percebemos que na 1.ª
Liga não existe nenhuma equipa
a sul do Tejo. Nem no distrito de
Setúbal, nem no Alentejo, nem
no Algarve. E mesmo na 2.ª, só
Farense e Portimonense representam quase metade do território nacional. Se quisermos
chegar à Liga 3, em mais 20
emblemas, poderíamos acrescentar apenas Lusitano de
Évora e Louletano.
Dos 56 clubes dos 3 escalões,
36 são de Lisboa, Porto ou
Braga, o que significa que dois
terços do futebol português disputam-se em 3 distritos.
Na 1.ª Liga apenas existe uma
equipa do interior: o Académico
de Viseu. Considerando todos os
escalões, só 10% dos clubes são
de distritos interiores.
Entretanto, mesmo nas áreas
mais populosas do litoral, em -
blemas históricos, com títulos,
adeptos e massa crítica, como
Boavista, Belenenses, Vitória de
Setúbal ou Beira-Mar debatem-
-se com crises mais ou menos
profundas, que os afastam dos
palcos principais, ou mesmo da
competição desportiva. E quando clubes representativos, com
palmarés e sócios, não cabem
num quadro onde SADs fantasma jogam em estádios vazios,
algo vai muito mal.
Nenhum destes desequilíbrios
preocupa as autoridades. Mas,
no que toca a distribuir dinheiro, está em curso um processo que visa retirá-lo dos bolsos dos verdadeiros adeptos
para engordar empresas com
capital estrangeiro, com jogadores estrangeiros, estádios
vazios e nenhum interesse
desportivo. Eis o futebol de
pernas para o ar."
"O futebol feminino emergiu tardiamente como fenómeno global, mas veio para ficar e crescer. Por isso, também em Portugal deixou de ser uma promessa
para se afirmar como uma realidade plena do desporto contemporâneo. Cresceu em qualidade,
visibilidade, participação e reconhecimento público. Atingiu hoje
um grau de maturidade que lhe
confere responsabilidades
acrescidas, nomeadamente a
nível social. Mais uma vez, o
Sport Lisboa e Benfica foi pioneiro nessa transformação, ao
fazer uma opção clara pela criação de equipas femininas nas
diferentes modalidades, afirmando na prática que o desporto não pode ser limitado pelo
género.
Concretamente, o crescimento
do futebol feminino cria novas
referências para milhares de
crianças e jovens, proporcionando uma oportunidade única
de desenvolvimento social, na
medida em que cada jogadora é
também um modelo, uma voz e
uma inspiração capaz de abrir
portas onde ainda existem desigualdades, preconceitos ou
exclusão. É aqui que o futebol
social e o futebol feminino se
encontram. Quando o desporto
chega a escolas, bairros e
comunidades mais vulneráveis,
não leva apenas uma bola, mas
confiança, pertença e igualdade.
A importância do futebol feminino mede-se também por tudo
isto, além do jogo propriamente
dito, demonstrando uma real
capacidade de transformar o
sucesso conquistado dentro do
campo numa força positiva fora
dele. E essa é uma responsabilidade que o Benfica, pela sua história e dimensão, está particularmente preparado para assumir e que a Fundação aproveita
diariamente para o seu trabalho."
"1. Na capa deste jornal O Benfica
sublinha-se no título o almejar do primeiro objetivo da
época – o apuramento para a
Liga Europa – e a ideia
expressa por Marco Silva na
conferência de imprensa em
Aarhus: na Europa com
ambição.
Contas feitas, é o desenlace
de um arranque de temporada atípico, com uma pré-época antecipada, vários
jogadores no Mundial, três
pré-eliminatórias, um treinador e um modelo de trabalho
novos. Um percurso trilhado
com sucesso, selado com
uma vitória na Dinamarca
que detalhamos nas primeiras páginas desta edição.
2. É tema de destaque neste jornal O Benfica: a entrevista a
Diana Gomes e o seu primeiro ano no Benfica. Um longo
testemunho quanto ao nível
de exigência e ambição permanentes que se vivem no
Clube. Da mesma maneira
que a vitória é o único desígnio aceitável, também é certo
que a dimensão das Infraestruturas, o acompanhamento
e o profissionalismo de toda
a estrutura envolvente na
preparação do dia a dia e dos
desafios que se impõem em
cada época são o primeiro
passo para garantir o cumprimento dos objetivos. E o
próximo, a Supertaça, é já
daqui a poucos dias. E com
toda a ambição, tão legítima
por sermos Benfica. Para
mais um título no futebol
feminino!
3. Outra reportagem que muito
enriquece estas páginas centra-se no primeiro troféu da
época conquistado pelo
andebol feminino, em Santo
Tirso. Orgulho, compromisso,
qualidade e muita festa no
final, em mais uma Supertaça conquistada para o Museu
Benfica – Cosme Damião.
O augúrio, assim esperamos,
para uma grande época.
Vamos, Benfica!"
1.
Quem não vai hoje à Luz para vibrar com o futebol ofensivo da equipa? O Benfica de Marco Silva não gere resultados, vai sempre atrás de mais. E nós gostamos disso. Aposto em mais de sessenta mil.
2.
Palhinha convocado gera grande curiosidade para vermos se joga alguns minutos. Tem ao menos que entrar para que receba a merecida ovação por tudo o que fez para vir para o clube de que é sócio desde os dez anos: é um de nós!
3.
Que bonito foi ver o pequeno Salvador entrar em campo debaixo de uma salva de palmas igual à dos maiores craques. Cumpriu um sonho, jamais esquecerá este momento no meio de todas as adversidades que a vida injustamente lhe preparou. Isto é Benfica!!!
JOGO
Apontamentos escritos em direto e publicados imediatamente após o final do jogo.
4.
Estoril de preto? O marketing inventa cada uma... De amarelo ou de preto defendem é todos atrás da linha da bola, mas já levaram com uma na barra chutada pelo Sudakov. O "dez" precisa de ganhar confiança, mas os ferros não quiseram, agora, nada com ele.
5.
O Estoril não é o Rio Ave, faz faltas por tudo e por nada, algumas que o apitador de serviço ignora em nítida dualidade de critérios. O perigo ronda a baliza dos canarinhos, a nossa velocidade cria-lhes problemas, mas já passaram 25 minutos e nada... O Prestianni tem sempre pelo menos dois polícias em cima dele.
6.
Barrenechea em dificuldades físicas, assistido pela segunda vez no relvado... e, olha lá, já aí vai Palhinha para o jogo - à meia-hora, mais cedo do que se esperava. Já meteu duas em profundidade para o Bah, pelo ar.
7.
Pavlidis é animal de área, não me venham dizer que não é matador, viram como ele se virou e aproveitou aquela bola tão mal chutada pelo Dahl? Um-zero: obrigado Vangelis, tens nome de compositor, és música para os nossos... olhos! A ver se eles agora desmontam os autocarros.
8.
Bem, e quantas bolas de golo falhámos nós nestes últimos minutos da primeira parte?
9.
Vamos lá resolver isto: gosto de estar a ganhar, não gosto de estar a ganhar por um, às tantas do nada sai um chouriço e...
Épá, obrigado Lenglet, mas que goooooloooooooo: dois-zero! Um balázio destes devia valer por dois ou três, carago!
10.
A vertigem ofensiva não pára, já podia estar outra lá dentro. E mais outras, várias. Defensivamente estamos a melhorar, com Palhinha vamos ser mais fortes, agora há uma portagem, das caras, para quem transitar em contra-ataque pelo nosso meio-campo.
11.
Jogo completamente controlado, faltam 15 minutos. O apitador amarelou por fim um canarinho e teve o seu momento de glória: foi aplaudido! O redes tirou um golo cantado ao Palhinha e logo de seguida outro ao Dahl. Como é que isto ainda só está dois-zero?
12.
63.112 anunciados nas bancadas e eles a fazerem o dois-um. Do nada também se marcam golos, quem não sabia ficou a saber. Por isso é que o futebol desperta tantas paixões: é o desporto coletivo em que o mais fraco tem mais hipóteses - dizem que é por ser jogado com o pé.
13.
Ponto final no jogo. Três pontos mais do que justos. Para a semana há mais, este já está!"
"Na estreia do reforço que já foi campeão pelo grande rival da cidade, as águias derrotaram (2-1) o Estoril. Uma exibição de domínio claro só foi beliscada nos derradeiros minutos, quando a até então inofensiva equipa visitante conseguiu reduzir e manter a incerteza até ao fim
Há uma certa tendência nesta madrugada do Benfica de Marco Silva para sofrer muito tendo permitido pouco. A equipa está bem, apresenta-se, por vezes, até pujante no ataque, domina quem está do outro lado, tem conseguido ditar as regras do que sucede no relvado. No entanto, chega a dar a ideia de que basta os adversários criarem meia oportunidade para que haja um golo.
É por aí que se começam a explicar os nove golos encaixados em nove desafios. É, também, uma forma de entender que a receção ao Estoril, que passou a maior parte da noite a perseguir o Benfica sem grande êxito, tenha terminado com incerteza quanto ao vencedor.
O relógio marcava 82 minutos quando Begraoui, goleador dos que só precisam de uma nesga para festejar, assinou o 2-1. Os visitantes apresentavam-se, até ali, como meras testemunhas da superioridade encarnada, mas diz-nos o futebolês que o 2-0 é um resultado perigoso, basta um lance para mudar tudo e por aí fora. Parecia haver tempo para apertos, mas não. Foi mesmo a primeira e única vez que os da linha chegaram com sobressalto cerca de Samuel Soares.
O restante jogo foi mais um passo na construção de uma equipa que vive otimista, de sorriso na cara. Com dinâmicas já bem vincadas, um bebé em tempo de treino junta, mas já um adulto em identidade. Voltou a marcar Pavlidis, que já vai em 11 vezes na temporada, Lenglet foi uma espécie de Sinisa Mihajlović francês no 2-0. Joel Robles, guardião do Estoril, despediu-se com seis defesas no seu pecúlio, seis vezes mais que o companheiro da outra baliza. O 2-1 foi, mesmo, um resultado mentiroso, magro para o que se viu na Luz.
O encontro nem arrancou especialmente bem para o Benfica, ou para um dos seus símbolos. A águia Vitória teve problemas no seu habitual voo pré-jogo, aterrando num lugar da bancada do estádio, em vez de no poleiro que lhe é destinado. A ave lá ficou, qual espectadora, confortavelmente no assento.
As dificuldades do animal não pressagiaram qualquer problema para a equipa de Marco Silva. O treinador aplicou uma camisola preta, calças pretas e ténis brancos, indumentária diretamente vinda do topo das preferências dos bancos na Premier League. O técnico já foi o special one da Amoreira, fruto dos feitos obtidos no Estoril, que representou durante quase uma década como jogador, primeiro, e como treinador, depois, levando os canarinhos à Europa.
Antes dos golos, veio a celebração da chegada do mais mediático dos reforços encarnados. Enzo, infeliz quando vivia um bom momento, saiu lesionado, entrando João Palinha. Fortemente aplaudido pelo público, mostrou o que pode dar quando fez um corte à Palhinha contra André Lacximicant, lançando-se ao chão, recuperando e festejando de punho cerrado. Confortável a policiar muitos metros de terreno à frente da defesa, o centrocampista ficaria perto do golo após o descanso, levando Robles a efetuar uma de várias boas paradas no desafio.
Até aos 40', a primeira parte dos locais nem foi ofensivamente brilhante. Sudakov acertou na barra em tiro desviado e pouco mais. Mas bastou uma bola perdida na área, um objeto saltitante sem dono, para Pavlidis se apoderar da situação, rodar, rematar e fazer o 1-0 na primeira finalização enquadrada do Benfica. Ainda antes do segundo tempo, Barreiro, Rafa e o mesmo Pavlidis ameaçaram dobrar a vantagem.
O Estoril fez a curta viagem até à Luz na sequência de difíceis semanas de arranque de campanha, com apenas um ponto conquistado nas três primeiras rondas. A mudança de Ian Cathro para Vasco Matos é, olhando às apostas recentes de ambos os treinadores, como passar de um crente nos méritos do futebol ofensivo, nas virtudes de marcar sempre mais um que o adversário, para um profeta de um ADN mais defensivo, de atrito, como ir de um otimista idealista para um cru sofredor. A impressão inicial não tem sido feliz, com a terceira derrota seguida, desta feita com um modelo de três centrais.
O 2-0 chegaria num lance em que ninguém terá dado pela hipótese de surgir um golo. Lenglet caminhou, sereno e sem risco, com a bola, bem distante do alvo. Subitamente, mirou as redes e sacou uma bomba que deixou colegas com as mãos na cabeça. Golaço.
O último técnico do Estoril a pontuar em casa do Benfica no campeonato foi, justamente, Marco Silva, num 1-1 em 2012/13 que foi o prólogo de Kelvin, a igualdade que abriu portas ao descalabro de Jorge Jesus e terminou com a carreira de Carlos Martins no clube.
Nada desses traumas visitaram a casa das águias. Mesmo sofrendo perto do apito de conclusão da contenda, o sofrimento deu-se meramente pela margem mínima, não pela capacidade alheia em levar problemas para o setor recuado. Já com os cortes em carrinho de João Palhinha, o Benfica segue em evidente crescimento."
"Os sentimentos são abstratos mas a exibição do novo ai-Jesus dos adeptos encarnados foi bem realista. O grego Pavlidis coloca o Benfica a dançar como Zorba
Samuel Soares (5) — Bem poderia ter levado uma cadeira para assistir ao jogo e poucas vezes precisaria de se ter levantado. Teve uma noite bastante tranquila, dada a inépcia ofensiva do Estoril até à reta final do encontro, momento em que Begraoui o bateu num remate em que não teve qualquer hipótese.
O melhor em campo: João Palhinha (7)
É o novo ai-Jesus dos adeptos benfiquistas, não tivesse ele sido formado no arquirrival e estado no pensamento dos dirigentes do outro lado da Segunda Circular. Mas os sentimentos são abstratos e a exibição de João Palhinha não foi um filme de Buñuel ou um quadro de Salvador Dali, mas sim do realismo que a todos habituou. Portanto, o palco pode ter mudado mas o médio foi de sempre: intenso, físico, líder e organizador. Podem mudar as cores, não muda a atitude. Foi a primeira amostra, mas os tubos de ensaios não partiram na experiência. Não entrou de início mas entrou diretamente para o coração dos seus novos apaixonados. Parece incontestável que está encontrado o titular para a posição 6. O investimento encarnado foi forte, porém, a rentabilidade desportiva será, ao que tudo indica, alto. Mas foi só o primeiro jogo...
Bah (6) — Muita propensão ofensiva a dinamizar o flanco direito, sem demonstrar ter saído de um período de paragem prolongada. Não é um lateral dado a grandes espalhafatos, no entanto, cumpre com eficácia.
Tomás Araújo (5) — Passou ao largo de trabalhos forçados e até deu bons indicações na capacidade de construção. Contudo, falhou no posicionamento no golo canarinho, visto que era o responsável por fechar a marcação a Begraoui.
Lenglet (6) — Ninguém lhe retira o mérito do golo marcado, daqueles para ver e rever incansavelmente. Todavia, a principal missão de um defesa continua a ser defender, e na abordagem a Begraoui demonstrou excessiva brandura. Com maior contundência (e sem arriscar o penálti), poderia ter travado o remate certeiro do franco-argelino.
Dahl (6) — Participou no lance do primeiro golo e soltou-se na fase final do encontro, obrigando Joel Robles a uma grande defesa (77’). Numa altura em que ganha ritmo e confiança, chega El Karouani para aumentar a concorrência. Mas assim é a vida de um futebolista.
Barrenechea (6) — Estava a funcionar como a placa giratória do meio-campo, aplicando variações de jogo interessantes, até ao instante em que sofreu um choque e ficou lesionado. Ainda tentou continuar em sacrifício, mas o corpo cedeu e teve de ser substituído, acabando com o prémio limão pelo azar. Porém, a julgar pela amostra, terá de evoluir bastante para discutir a titularidade.
Leandro Barreiro (5) — Menos intenso do que o habitual e com pouca presença em zonas de finalização. Manteve a entrega exemplar de costume, mas pecou na falta de lucidez. Numa avaliação escolar, não passaria de um 'suficiente'.
Rafa (5) — Sem o espaço habitual na profundidade para explorar as costas da defesa adversária, foi tentando criar perigo, mas desta vez até os passes saíram sem a precisão habitual. Louve-se o empenho, mas a exibição ficou-se por aí.
Sudakov (5) — Continua a acusar um problema já antigo: as ideias são excelentes, mas a execução deixa a desejar. E a prática é o critério da verdade, pouco mais há a dizer sobre a exibição do ucraniano. Nota positiva, ainda assim, para a fluidez que conferiu à circulação de bola, embora longe das imediações da área.
Prestianni (7) — Se a FIFA criou a ‘Lei Prestianni’ por causa do célebre jogo com o Real Madrid, o argentino assina agora uma nova norma no universo encarnado: a da qualidade de jogo constante e tomadas de decisão acertadas, ainda que sem o brilhantismo fulgurante demonstrado frente ao Aarhus.
Pavlidis (7) — Tal como no clássico do cinema 'Zorba, o Grego', em que Anthony Quinn imortalizou uma dança marcante, este Benfica também se exibe ao ritmo da música grega de Vangelis Pavlidis. Trabalha incansavelmente para o coletivo e, quando a equipa entra em apuros, surge o golo do camisola 14 a desbloquear a partida. Já soma 11 tentos esta temporada.
Schjelderup (5) — Colou-se à ala esquerda e teve reduzido impacto na partida. Ofereceu mais vertigem, mas revelou muito menos critério do que Prestianni.
Gonçalo Moreira (4) — Denotou muita vontade, mas faltou-lhe discernimento nos momentos de decisão.
Durán (5) — Bastante rotação e correria, contudo esteve pouco em jogo.
Lukebakio (3) — Uma exibição inconsequente e pontuada por demasiada displicência."
"O Benfica ainda não tinha apanhado, esta época, pela frente, um 'autocarro' clássico. Se a isto juntarmos uma exibição mais esforçada e menos fulgurante dos encarnados (fizeram sete jogos no mês findo) e uma série de golos falhados, ao Estoril, mesmo sem ter apostado, podia ter-lhe saído o Euromilhões…
Liga Portugal Betclic
Por muito que Marco Silva se tenha esforçado em rodar a equipa, a verdade é que a fatura dos seis jogos ‘excedentes’ que o Benfica fez para aceder à Liga Europa, tinha, forçosamente, de chegar.
Contra um Estoril-Praia que fez profissão de fé no 5x4x1 em frente a Robles, os encarnados não conseguiram ser asfixiantes como noutras alturas, circularam a bola com maior lentidão e previsibilidade, e o tempo foi-se escoando com o guarda-redes espanhol dos canarinhos a ter uma primeira metade quase toda de descanso. Sem hipótese de defesa, quer no golo de Pavlidis, quer na bola que Sudakov à barra, Robles esteve de férias até aos 45+2 e a seguir, em dois minutos fez três defesas de bolas-golo, uma de Pavlidis, outra de Rafa e outra de Barreiro.
O Benfica, que tinha assinado uma primeira parte sonolenta, foi para o intervalo a dever-se uma vantagem mais dilatada, contra um Estoril que se limitava a manter as linhas baixas e juntas, povoar a zona central, e defender, defender, defender…Mas houve alguma modificação tática no conjunto encarnado dos jogos anteriores para este? Nenhuma. Apenas se alterou a dinâmica, e este ‘apenas’ teve muito que se lhe dissesse. Com algumas unidades abaixo do que habitualmente rendem, especialmente Barreiro, que se deixou antecipar a meio-campo demasiadas vezes e Rafa, que não esteve nas suas noites, e outras, como Sudakov, na alternância bom-mau do costume, o Benfica controlou sem entusiasmar até ao toque a rebate já nos minutos de compensação.
Quando a equipa da Luz marcou (40) pensou-se que o Estoril ia deixar o autocarro na cabina e afoitar-se um pouco mais. Não foi essa a opção de Vasco Matos, que entendeu que qualquer bola parada ou ressalto favorável à sua equipa podia dar em golo. Ao intervalo trocou Xeka, lesionado, por Holsgrove, e não perdeu com a troca porque o escocês deu mais critério e poder físico ao meio campo dos canarinhos. Quem também não perdeu com a troca foi Marco Silva quando mandou a jogo, na sequência de uma lesão de Barrenechea aos 30 minutos (o futebol pode ser muito cruel!), João Palhinha. O internacional português entrou bem, apoderou-se de um raio de ação bastante vasto e tivesse ele um Leandro Barreiro mais inspirado no duplo-pivot e o andamento do Benfica seria outro.
'Monsieur' Lenglet
Estavam os benfiquistas a dizer mal da vida, porque a sua equipa não regressara do descanso com a mesma pedalada alucinante da fase derradeira da primeira metade, quando Clément Lenglet, em pezinhos de lã, subiu no terreno e a 29 metros do risco de golo arrancou um petardo a 108 Km/h (a tecnologia é fantástica) que tornou infrutífera a estirada de Joel Robles.
Com 2-0, parecia evidente que o Estoril tinha de trocar o autocarro por um veículo ligeiro. Nada. Tudo na mesma, e quando, aos 71 minutos, mandou a jogo Peixinho, Fabrício e Pedro Carvalho, foi Tsoungui a baixar para central, porque o 2-0 para o Benfica podia ser reversível, o 3-0 já não.
Aliás, Vasco Matos sabia bem como empatara, ao serviço do Santa Clara, na Luz, no jogo que abriu o caminho para o despedimento de Bruno Lage, dias depois, após uma derrota com o Qarabag. Do outro lado, porque nem com Schjelderup a criatividade vinha à tona, a melhoria não era grande, mas suficiente para ir tornando Robles na figura do Estoril, evitando que o marcador se avolumasse (que grande defesa a remate de Dahl, 77, com a Luz a gritar golo!).
Marco Silva, aos 80 minutos, lançou Lukebakio para espevitar as alas, Durán para dar mais luta na área e Gonçalo Moreira para ter bola, na expetativa de um avanço no campo do Estoril, então já sem nada a perder. Porém, na primeira jogada de perigo dos forasteiros, Begraoui fez de Pavlidis (golos semelhantes) e encurtou distâncias.
Estavam jogados 82 minutos e viram-se entrar no relvado da Luz todos os fantasmas de desaires passados nos minutos finais, que bem caro custaram aos encarnados. As bancadas gelaram e um nervoso miudinho apoderou-se de mais de 60 mil almas benfiquistas, temerosas não daquilo que o Estoril estava a fazer (não criou qualquer oportunidade), mas daquilo que podia acontecer. Vasco Matos, tal com há um ano, em que Otamendi teve um erro garrafal e o Santa Clara chegou a desoras ao empate, tentou que lhe saísse novamente o Euromilhões sem fazer qualquer aposta, e manteve os caminhos da baliza de Robles fechados, à espera de que a ansiedade encarnada lhe permitisse chegar ao ponto desejado. Porém, com um raio não cai duas vezes no mesmo sítio, o Benfica acabou, justamente, com os três pontos.
Principal ilação que Marco Silva deve tirar? Há jogadores que precisam de uma cura de repouso, depois de um mês de agosto com sete jogos oficiais, uma violência que já está a passar fatura. Boa notícia da noite para o técnico encarnado? João Palhinha, em estilo veni, vidi, vici, pegou na batuta e, pela sua forma de atuar, que tanto dá para ser terceiro central como um seis que tem um alcance XL, irá permitir outras aventuras a quem jogar sob sua proteção. Uma nota para Sudakov: está melhor, mas não suficientemente melhor para ser o playmaker do Benfica à velocidade que Marco Silva quer que a sua equipa jogue. Vamos ver o que nos diz o fim do mercado e as opções de que o ex-treinador do Fulham passará a ter. Porque com a equipa a dar naturais sinais de pouca frescura, ou o plantel tem profundidade e qualidade, ou opções difíceis terão de ser feitas mais lá para a frente…"
Mais um jogo com um marcador mentiroso, mas ao contrário da primeiro jogo na Luz, ganhámos, apesar das muitas oportunidades perdidas, e da super-eficácia do adversário! Um Estoril, sem estratégia ofensiva, se tinham, o Benfica nunca os deixou sair a jogar... apostaram tudo na defesa, com um duplo-autocarro! O Benfica voltou a sentir dificuldades em ultrapassar o 'muro', mas as oportunidades acabaram por aparecer...
Os primeiros minutos até foram estranhos, com o Estoril a parecer que queria 'disputar o jogo', mas foi só uma sequência de lançamentos laterais ocasionais! Contra este tipo de adversário, não temos Alas desbloqueadores, precisávamos de Extremos que fossem à Linha, sem o pé trocado, e dum 2.º Avançado, com presença na área, com capacidade de jogar entre-linhas, com tabelinhas rápidas tipo Jonas! Os nossos Laterais, ofensivamente também tiveram muitas dificuldades em ultrapassar os adversários, o Bah quando recebe a bola 'parado' não consegue driblar, e o Dahl normalmente cruza de 'olhos fechados'!!! E com o Sudakov, a decidir quase sempre mal no momento de assistir... o nosso jogo ofensivo, contra estes esquemas defensivos do Tugão, fica previsível...
Mesmo assim, principalmente nos últimos 10m da 1.ª parte, o Estoril começou a abrir brechas, o cansaço começou a afectar os movimentos, e além do golo do Pavlidis, podíamos ter ido para o intervalo, com um resultado mais confortável... Já agora, alguém é capaz de me explicar, como é que os meninos das estatísticas, dos site da especialidade, chegaram ao fim deste jogo, e conseguiram 'assinar' que o Benfica, além dos dois golos, só criou mais duas oportunidades claras de golo?!
O outro problema do Benfica, nestes jogos, é a falta de ameaça de longa distância! Os nossos adversários estão tão pouco preocupados com os nossos remates de longe, que deixaram o Lenglet jogar à vontade em zona de remate, e ainda bem... que golão!!!
Mais uma vez, não recuámos, continuámos à procura do 3.º golo, a equipa não pode ser acusada de ter facilitado. A atitude manteve-se... Continuámos a criar e a desperdiçar golos, e sem fazer nada por isso, praticamente no 1.º remate com intenção do Estoril, sofremos um golo!!!
Com os recorrentes traumas que temos tido nas últimas épocas, com perda de pontos nos últimos minutos, os jogadores sentiram o 2-1, mas nestes últimos 12 minutos, o Estoril não criou uma jogada de perigo! Tentaram, com ajuda do apitadeiro, inventando várias faltas, mas nem assim...
Dito isto, o momento da noite, acabou por ser entrada do Palhinha!!!! Uma lesão do Enzo, que não parece ser grave, e o Palhinha acabou por entrar muito mais cedo, do que estava planeado! E entrou bem, com personalidade, fisicamente pareceu-me bem, com alguma velocidade e mobilidade! Nos últimos minutos do jogo, faltou-lhe algum pulmão, algo normal, dado as circunstâncias da pré-época que fez!!! Agora, ficou claro que principalmente nestes jogos, contra estes adversários, a sua presença é fundamental... dá capacidade física, na recuperação de bola, mas também na posse de bola, pela forma como sabe usar o corpo para proteger a bola...
Outro jogo onde não houve uma grande exibição individual, mas não fosse a estreia do Palhinha, o Pavlidis provavelmente seria o MVP! Pelo golo, mas não só... E se os canarinhos praticamente não atacaram isso muito se deveu à boa exibição dos nossos Defesas, os Centrais defensivamente estiveram muito bem, arriscaram muito, foram atrás dos avançados contrários, deixaram muito espaço nas suas costas, mas sempre que a bola foi lá colocada, conseguiram recuperar e ganhar os duelos... No passe, o Araújo esteve irreconhecível! Arriscou muito, é verdade, mas não é normal falhar tantos passes...
O Barreiro foi muito importante na pressão e nas recuperações de bola, fez muitas faltas, mas quase sempre necessárias, agora ofensivamente acabou por não ter o impacto normal, muito porque acabou por ter direito a uma marcação individual, sempre que se aproximava da área adversária!!!
Gosto da 'banda sonora' sempre que o Samu agarra ou soca uma bola, nos cruzamentos! Estamos tão mal habituados, que ter um guarda-redes que não tem medo dos cruzamentos e que é de facto bom no jogo aéreo, que as nossas ansiedades não aguentam ficar em silêncio!!!
Arbitragem horrível. Ainda não vi os lances, por isso não vou discutir os potenciais penalty's e cartões, mas só a forma como o critério técnico foi completamente torto, é suficiente para tirar a pinta a este Lagarto asqueroso! Já o ano passado, foi uma vergonha, em todos os jogos que apitou do Benfica! O critério 'largo' é só para os nossos adversários... os nossos adversários, qualquer piscina é imediatamente falta! Hoje, a maioria das faltas do Estoril foram agarrões, cínicos, sem qualquer intenção de disputar a bola... fizeram mesmo muitas faltas longe da bola, agarrando ou bloqueado os nossos jogadores, quando eles tentavam desmarcar-se... chutaram ou agarraram a bola, após a falta ser assinalada reiteradamente, para retardar o marcação da falta pelo Benfica, impunemente, durante o jogo todo! Este tipo de faltas, em Inglaterra são Amarelo imediatamente, no Tugão, contra o Benfica, podem fazê-lo dezenas de vezes, durante os 90 minutos, e nada acontece!
Antes da viagem ao Funchal, o Mercado vai fechar, finalmente! Além das potenciais Entradas, ainda podem existir saídas: Trubin, Ríos ou Lukebakio são os 'favoritos'! Saindo algum destes jogadores, alguém terá que entrar... Além da questão 'Sudakov' que parece estar encaminhada, a questão da Ala Direita, para mim é um problema tão 'grave'! Hoje, o Rafa jogou como um falso Ala Direito, jogando no Interior deixando a Ala para o Bah, o problema é que o Rafa não é o avançado para 'desmanchar' este tipo de 'autocarros'... e neste momento, não existem rumores sobre esta posição! Na questão do Trubin, obviamente que ter um activo destes, com um ordenado muito alto, no banco não é a solução ideal, mas ao contrário da aparente maioria, acho que o Samu tem um potencial enorme, e tem estado muito bem...
Regresso aos Barreiros, contra uma equipa muito lutadora, que nos vai criar problemas no início duma semana onde vamos ter 3 jogos em 8 dias, com duas viagens longas pelo meio! Seria uma boa ideia, fazer alguma rotação, e temos jogadores para isso, mesmo sem as putativas contratações! Cuidado com o relvado... pelo que tenho visto, a relva dos Barreiros continua horrível, muito solta, cheia de buracos, aliás no final dos jogos, parece existir mais buracos do que relva!!!
"Benfica e Estoril encontram-se, hoje às 20h15, no Estádio da Luz. Este é o tema em destaque na BNews.
1. Ganhar com os adeptos
Marco Silva salienta a importância de ter os Benfiquistas junto da equipa: "Jogamos em casa, queremos ser fortes, queremos ser dominadores, queremos ganhar o jogo. Vai ser a primeira vez que os adeptos do Benfica vão poder ver a equipa a jogar para o Campeonato no Estádio da Luz. Têm sido espetaculares nesse sentido de apoiar a equipa sempre e de fazer do Estádio da Luz aquilo que queremos realmente, que nos sintamos em casa e que seja um palco muito difícil para os nossos adversários."
2. Calendário
O jogo de estreia do Benfica na fase de liga da Liga Europa é em Milão.
3. Reforço integrado
O primeiro dia de trabalho de João Palhinha no Benfica Campus.
4. Ouro a dobrar
Canoístas do Benfica em evidência nos Mundiais de Velocidade, com destaque para as conquistas de Fernando Pimenta, vencedor de duas medalhas de ouro, João Ribeiro e Messias Baptista, que alcançaram a medalha de prata, e ainda Gustavo Gonçalves, João Ribeiro, Messias Baptista e Pedro Casinha, que asseguraram o bronze.
Nas mensagens de felicitações, o Presidente do Sport Lisboa e Benfica, Rui Costa, refere Fernando Pimenta como: "Um exemplo dos valores que queremos ver associados ao Sport Lisboa e Benfica: talento, trabalho, ambição e uma permanente vontade de vencer."
5. Resultados – formação
A Equipa B foi derrotada, por 1-0, pelo Amarante. Os Juniores venceram, por 5-0, ante a União de Leiria. Os Juvenis ganharam, por 0-2, no reduto do Amora. Os Iniciados triunfaram frente ao Portimonense (5-0).
6. Outros resultados
As equipas masculina e feminina de andebol registaram vitórias ante Águas Santas (34-23) e Feirense (46-12), respetivamente.
Em futsal no masculino, o Benfica ganhou ao Jimbee Cartagena (5-2) e perdeu com o Palma Futsal (2-3) no International Masters Futsal. E, no feminino, as águias conquistaram a Copa Ibérica.
A equipa feminina de futebol bateu o Racing Power por 3-1 num jogo de preparação.
7. Entrevista
Michaely Bihina, atleta do Benfica considerada a melhor guarda-redes da Taça das Nações Africanas, fala sobre a conquista pelos Camarões e do regresso ao trabalho no Benfica Campus."
"Durante muitos anos, os árbitros reuniram-se, discutiram, reivindicaram e procuraram melhorar as condições em que exerciam a sua atividade. Muitas vezes fizeram-no via APAF, outras diretamente junto dos seus responsáveis. Houve até momentos em que levámos preocupações a responsáveis governamentais. Hoje o problema surge quando aquilo que foi conquistado no passado passa a ser confundido com aquilo que está assegurado no presente
Tento sempre resistir à tentação de dizer “no meu tempo é que era bom“. Penso que não é justo para aqueles que são de eras diferentes.
Quando fui árbitro tínhamos outras limitações, cometíamos os mesmos (ou mais) erros e trabalhávamos num futebol que, em muitos aspetos, estava mais atrasado do que o atual. Também por isso não sou entusiasta de discursos saudosistas nem da ideia de que as gerações anteriores eram melhores do que as atuais.
Mas há uma coisa que guardo com orgulho desse tempo: o espírito de classe que existia entre os árbitros. Não falo de corporativismo no sentido mais pobre. Falo de consciência coletiva.
Durante muitos anos, os árbitros reuniram-se, discutiram, reivindicaram e procuraram melhorar as condições em que exerciam a sua atividade. Muitas vezes fizeram-no via APAF (Associação Portuguesa de Árbitros Profissionais), outras diretamente junto dos seus responsáveis. Houve até momentos em que levámos preocupações a responsáveis governamentais (aconteceu quando, por exemplo, esteve em causa a nossa segurança ou a das nossas famílias).
Nem todas as batalhas foram sobre dinheiro. Falava-se sobretudo de condições de treino e de assistência médica, de fisioterapia e de equipamentos, de viagens e seguros, de alojamentos e projeção de carreira, de preparação física e de acompanhamento técnico. Falava-se de avanços que hoje, por estarem minimamente assegurados, parecem naturais.
A maioria dessas conquistas aconteceu devido à insistência, ao diálogo e à perseverança de muitos árbitros. Houve momentos em que foi preciso negociar, ceder e esperar e houve outros em que foi preciso dizer “não“, ser intransigente e não desviar um milímetro do caminho traçado.
Recordo-me de que vivemos intensamente essa fase. Se calhar mais do que devíamos, face à responsabilidade maior que tínhamos.
Nessa altura, a maioria de nós - de geografias, sensibilidades e personalidades distintas - discutia arbitragem bem para lá das quatro linhas. Fizemos dezenas e dezenas de reuniões que demoravam horas a fio e que nos obrigavam a deslocações demoradas. Mas no fim havia sempre fumo branco. Discutíamos, votávamos e fazíamos. Todos envolvidos, todos a participar, todos pela classe.
Sabíamos que éramos competidores em campo, queríamos as melhores nomeações e classificações, mas nunca ultrapassámos a fronteira que punha em causa a dignidade da função. Nunca confundimos ambição pessoal com o que achávamos ser o melhor para o grupo.
Talvez seja precisamente aqui que valha a pena fazer uma reflexão comparativa.
Penso que parte desse espírito perdeu alguma força nestes tempos. Isso não significa que os árbitros de hoje sejam menos solidários, corajosos ou interessados na classe. Nada disso. Significa apenas que nasceram e cresceram numa realidade diferente. Significa que pertencem a outra geração, formada noutro contexto social e cultural.
O problema surge quando aquilo que foi conquistado no passado passa a ser confundido com aquilo que está assegurado no presente. Nada está verdadeiramente garantido numa atividade como esta.
Acho que o verdadeiro espírito de classe não pode servir apenas para reivindicar aumentos ou melhores condições materiais. Serve para isso e para proteger carreiras, para defender melhores meios e condições de formação, exigir mais ética e respeito institucional, uma liderança transparente, genuína e presente. A dar a cara, a mostrar o que pretende. Serve para salvaguardar o futuro, para projetar o que se fará depois de se pendurar o apito.
O desafio atual não é recuperar o passado, mas encontrar uma nova forma de reconstruir esse sentimento coletivo perdido num tempo em que tudo é cada vez mais difícil de pensar e fazer."
"Bruno Fernandes teve dois pequeninos azares: saiu do Sporting em janeiro de 2020 e chegou ao Man. United em janeiro de 2020. Espero que ainda vá a tempo de ser campeão...
Bruno Fernandes completa 32 anos daqui a pouco mais de uma semana. Entre os 30 jogadores mais internacionais por Portugal, apenas três nunca se sagraram campeões nacionais por nenhum dos clubes onde alinharam: Rui Patrício, Bruno Fernandes e William Carvalho. Os três somaram passagens longas pelo Sporting, clube ao qual chegaram demasiado cedo relativamente ao período de regresso aos títulos de campeão.
Os três vestiam de leão ao peito em maio de 2018, quando se registou o episódio mais infame da história do Sporting: o ataque à Academia de Alcochete. Rui Patrício rescindiu e saiu de Alvalade logo a seguir, passando, desde 2018, por Wolverhampton, Roma, Atalanta e Al Ain. Ainda foi a tempo de conquistar, ao serviço do emblema romano, a Liga Conferência. Mas nada mais. William Carvalho saiu na mesma altura e representou, desde 2018, Betis e Pachuca, rumando agora ao Palm City, contando no seu palmarés com a conquista de uma Taça do Rei. Mas nada mais.
Diferente é a história de Bruno Fernandes. Em dois anos e meio no Sporting esteve em 137 jogos e marcou 63 golos. Saiu do Sporting em janeiro de 2020 com uma Taça de Portugal e duas Taças da Liga na bagagem. Saiu, na perspetiva leonina, demasiado cedo: apenas 35 dias depois de ter assinado pelo Manchester United (29 de janeiro), Rúben Amorim assumia o comando técnico do Sporting (4 de março). E a partir daí foi o que se viu em Alvalade: três campeonatos.
Bruno Fernandes está há seis anos e meio no Manchester United. Leva 110 golos em 329 jogos pelos red devils. Se saiu do Sporting demasiado cedo, chegou a Manchester demasiado tarde. Ganhou uma Taça de Inglaterra e uma Taça da Liga. Se tem chegado três anos antes, tinha uma Liga Europa no bolso. Se tem chegado em 2013, era campeão.Nunca chegará ao patamar lendário de Charlton, Best ou Law (anos 60), nem ao de Giggs, Rooney, Cantona, Scholes, Keane, Schmeichel, Robson ou Beckham (fim do século XX e início do XXI). Mas nos últimos seis anos e meio, digam o nome de um jogador mais importante na história do Man. United. Maguire? Não. Pogba? Não. Cavani? Não. Mata? Não. Rashford? Não. Ronaldo? Não. Casemiro? Não. McTominay? Não. Lisandro Martínez? Não. Matheus Cunha? Não. Resumidamente: não, não, não, não, não, não, não, não, não, não.
Não acredito que seja esta época que Bruno Fernandes deixará de integrar o trio Patrício-William-Bruno. Aliás, aos quase 32 anos, dificilmente vencerá a Premier League no Manchester United, a não ser que os red devils aproveitem as falhas de reconstrução de Manchester City e Liverpool, a eventual falha de confirmação do campeão Arsenal e mais falhas na construção de Chelsea e Tottenham. O excecional futebolista que é Bruno Fernandes teve dois pequeninos azares: saiu cedo do Sporting e chegou tarde ao Man. United. Espero que ainda vá a tempo."
"Treinador português ganhou muito e não se cansa de o dizer. O estilo é sempre o mesmo e resultou quase sempre. Veremos agora em Madrid quem será o vilão, porque sim, tem de haver um...
VI o documentário sobre José Mourinho que está disponível numa plataforma de streaming (no link abaixo pode ler a entrevista ao produtor) e a principal conclusão que retirei é que o próprio tem pouco a dizer sobre si.
Penso que não estarei a ser demasiado redutora se resumir as palavras de Mourinho a «ganhei muitos títulos», «faço tudo para ganhar» e várias formas de culpar outros, sejam eles árbitros, jornalistas, jogadores, donos de clubes, ou até a antiga médica do Chelsea. O estilo é sempre o mesmo: direto, convencido, arrogante até. E a verdade é que há toda uma carreira a provar que isto resultou, como podemos ver não só nas imagens de arquivo, como também nos atletas de renome entrevistados ao longo do documentário, que não poupam elogios à forma como o português os convenceu que iam ganhar, contra tudo e contra todos.
É uma boa oportunidade também para recordarmos como isto resultou rapidamente em clubes que tanto tinham a provar em determinado momento, mas depois deu lugar a saídas, despedimentos e confusões quando o tempo passou e o desgaste era evidente para todos. Mourinho chegou, venceu e depois teve de partir.
As raízes, a família e a personalidade fora dos bancos não foram muito exploradas - e a entrevista de A BOLA ao produtor explica-o: o técnico não quis falar disso. Há também pouco do Tottenham, da Roma, do Fenerbahce e do Benfica, mas ficamos a perceber melhor essas escolhas (a determinada altura, fica claro que Mourinho precisava apenas que gostassem dele).
Agora está de volta ao Real Madrid e, do streaming para a realidade, já vemos o português a defender Vinícius Júnior. Pode ser confuso quando diz praticamente o contrário do que afirmou quando treinava Prestianni, mas não é surpreendente que mude consoante precisa de defender os seus jogadores. Nos últimos dias também advogou a Bola de Ouro para Mbappé, ou não tivesse o francês marcado um hat trick importante para a equipa (e para o treinador). É assim José Mourinho: faz tudo para ganhar. E ganhou de facto muito.
Veremos quem será o vilão da sua segunda estadia em Madrid, pois agora não tem Pep Guardiola ou Casillas, e porque sim, tem sempre de haver um vilão na história de Mourinho. É, aliás, a falar desses vilões que o português mostra mais emoções ao longo do documentário. Provoca, ri, conta um ou outro pormenor novo. Se a intenção do Real foi ir buscar um treinador que derrube o Barcelona, então escolheram o que quer mais isso mesmo."
"1- José Mourinho é o protagonista do documentário «Mourinho». Abre a sala de troféus, a casa em Setúbal, outras casas pelo mundo, mas vemos ali o verdadeiro Mourinho? Penso que não. Em conversa com Miles Coleman, um dos produtores da série de 3 episódios que pode ser vista em streaming, sabemos que vemos um concentrado do que acedeu a mostrar em horas de entrevista - o treinador, aquilo que o identifica no Mundo, mais do que o homem. Nem mais se poderia esperar, como Mourinho diz, «quiseram fazer um documentário com um treinador ganhador», e foi isso que tiveram. Trata-se de alguém, que habituado a semanas a fio do lado do que tem de dar respostas em conferências de imprensa, sempre teve controlo da narrativa. Quando o assunto foi tática, o Chelsea, o conflito com então dono do clube, Abramovich, houve sorrisos. Quando o assunto era mais íntimo, como a relação com a família - que, chega a dizer, se diverte mais quando ele não está - a morte do pai, ou a ‘maldição’ do terceiro ano, a concha fechava. O verdadeiro Mourinho ele guarda para si, o que por um lado é uma pena, por outro respeito, algo que Miles tinha plena consciência. Refere que em almoços - por exemplo em Setúbal, onde se come bem - Mourinho põe todos a rir. Isso não se vê no documentário, apenas o que o português quis mostrar. Como sempre fez.
2- O anúncio da gravidez da jogadora Diana Silva, do Benfica, foi dado pelo clube, um sinal a registar. Num vídeo, uma nervosa Diana dá a novidade às companheiras de equipa. O treinador Ivan Baptista sublinha «um ato de coragem que não devia ser». É a primeira vez que um grande clube em Portugal lida com esta condição numa atleta, algo sublinhado pela diretora Mónica Jorge, resta saber se a porta se escancara para que mais possam sentir-se à vontade para dar esse passo."
"Na última semana fui acompanhando com um misto de incredulidade, fascínio, preocupação e, claro, também alguma jocosidade, os feitos dos robôs humanoides nos Jogos Mundiais dos ditos cujos na China, em que máquinas feitas de metal, chips e fios condutores conseguiram a proeza de, por exemplo, correr mais rápido do que Usain Bolt nos 100 metros, saltar mais alto do que o mítico cubano Javier Sotomayor, ainda hoje detentor do recorde mundial do salto em altura, ou jogar uma partida de ténis com um humano.
Por momentos, aterrorizei-me com a possibilidade de aquilo ser “O” futuro, assim com ó grande. Será que daqui a alguns anos o desporto será isto? Será que os feitos das máquinas vão raptar o interesse de quem assiste a uma prova desportiva? Esse momento de trevas esfumou-se num par de segundos, não mais que isso, segundos.
(Isto do ponto de vista meramente desportivo, porque a possibilidade destes humanoides engordarem sem alma ou questões éticas uma máquina de guerra deixa-me para lá de apavorada.)
Deixou de me preocupar porque aos robôs faltará sempre uma condição humana que, no fundo, é o que nos faz ficar agarrados a uma televisão ou de pé num estádio a assistir a uns Jogos Olímpicos ou outra qualquer competição desportiva. Porque dos robôs esperamos que apenas melhorem, apenas façam coisas cada vez mais impressionantes, que se tornem inevitáveis. Dos atletas humanos também esperamos tudo isso, mas sabendo sempre que pode acontecer um dia mau, um azar, uma preparação que correu menos bem, a inclemência do tempo e das naturais fraquezas de quem é feito de músculos e alma e não de fibra de carbono ou placas de titânio. As pessoas não vão ligar desportivamente aos feitos dos robôs humanoides da mesma forma que desprezam um atleta que se dopa.
Tudo isto tornou-se subitamente real quando, este fim de semana, Tadej Pogačar, o mais sobre-humano dos ciclistas, talvez até de todos os desportistas, perdeu uma Volta a Espanha que estava virtualmente conquistada.
À 4ª etapa, logo à 4ª etapa da Vuelta, uma das três grandes voltas de três semanas do ciclismo, a única que falta ao palmarés obeso do curvilíneo Pogačar, escrevi que “só uma calamidade, uma queda, um azar” poderia roubar a sua primeira vitória em Espanha, tal era o domínio avassalador do esloveno, fosse a desferir ataques a 50 quilómetros da meta ou a ser mais rápido que todos os outros contra o relógio.
E essa calamidade, essa queda, esse azar acabou mesmo por acontecer.
Já Pogačar tinha três etapas no bolso e quase quatro minutos de vantagem para uma incapaz concorrência quando, numa anónima etapa em linha, sem qualquer dificuldade, construiu-se uma daquelas sequências de acontecimentos que só é mesmo possível atribuir aos ditames das coincidências. Pogačar ia tranquilamente no pelotão quando resolveu beber água - coisa que os robôs não necessitam. Surgiu então uma pedra, da qual o esloveno se tentou desviar, sem sucesso. Caiu, foi de cara ao chão e as suas capacidades sobre-humanas tornaram-se subitamente mais humanas: de nada vale ter uns pulmões e um coração de grande capacidade e uma mente sólida quando se tem uma fratura na clavícula esquerda, outra numa vértebra e uma concussão. Para tratar de tamanhas mazelas, não bastará mudar uns fios e umas placas, como quando os robôs alucinam e batem contra paredes: serão meses e meses de paragem para um atleta que dominou como quis as últimas temporadas do ciclismo.
Não há, portanto, nunca, em tempo algum, vencedores antecipados no desporto, porque quem o pratica é humano e coisas humanas podem sempre acontecer. O azar de Pogačar explica porque é que o desporto nunca será dos robôs, será sempre dos homens que ganham, mas que também podem falhar, ter uma lesão, um revés inesperado. As histórias de superação, de recuperação, mas também as de queda, de infortúnio e desventura serão sempre muito mais fascinantes para o ser humano do que a evolução tecnológica, por muito que ela faça parte do desporto.
De Tadej Pogačar já escrevemos vezes sem conta sobre os seus feitos, recordes, a forma como revolucionou o ciclismo, a sua fome e capacidade de ganhar em todas as grandes competições, sejam clássicas ou nas grandes voltas. Agora está na hora de contar a história da sua recuperação e regresso. Tudo isto é muito humano, de tudo isto se faz a paixão humana pelos desportos.
E, dentro do azar de uns, abrem-se novas narrativas, daquelas que um robô nunca terá a capacidade de protagonizar. Sem Pogačar, o líder da Vuelta passou a ser Enric Mas, maiorquino que arrancou a temporada com uma exibição pálida na Volta a Itália, que lhe valeu críticas públicas da sua equipa, a Movistar. Agora, quando muitos já o consideravam acabado, aquele que foi em tempos uma das esperanças do ciclismo espanhol pode escrever uma incrível história de resistência e surpresa. Tenta lá isto, robô humanoide."