Últimas indefectivações

quinta-feira, 25 de junho de 2026

CFT Benfica | A viagem pelos Centros de Formação e Treino

É sempre recordar!

DOIS GRANDES TREINADORES É HORA DE LHES AGRADECER


"1. Marcel Matz deu-nos um penta no voleibol, que podia ter sido um hexa se o Covid não tivesse resultado numa época sem campeão, deu-nos também vários outros títulos e participações europeias dignas de nota. Incorporou o verdadeiro espírito Benfiquista, hoje tão afastado de muitos profissionais que passam pelo clube, era vê-lo frequentemente no pavilhão a apoiar outras modalidades. O voleibol do Benfica viveu com Marcel Matz o período mais glorioso da sua história.

2. Norberto Alves, muito discreto e trabalhador, muito competente, vinha de um bis ao serviço da Oliveirense e conquistou um tetra em cinco épocas no Benfica. Devolveu, portanto, o basquetebol do clube à hegemonia da modalidade em Portugal. Muito exigente consigo próprio, tomou a decisão de partir porque era preciso "mudar o treinador, vir alguém com muita energia, com outra energia, para a equipa continuar a ganhar".

3. Os títulos conquistados são o grande atestado da competência de Marcel Matz e Norberto Alves: dois treinadores de sucesso, dois grandes campeões, dois senhores no comportamento, dois treinadores de projeto, daqueles que desejamos para todas as modalidades, dois homens que com muita pena vejo partir do Benfica. Para já deixam um vazio difícil de preencher, tal a forma como nos habituámos a vê-los dirigir as equipas de voleibol e basquetebol do clube. Só posso desejar-lhes tudo de bom - desde que não seja, claro, ao serviço dos nossos rivais."

Zero: Mercado - Leão tem novo reforço para o miolo

BF: Vendas...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Observador: E o Campeão é ... - Portugal já faz parte do lote de favoritos ao Mundial?

BolaTV: Mais Vale à Tarde que Nunca #10

Zero: Negócio Fechado - S06E05 - Nakata

SportTV: Grelha de Partida - S04E18 - Dançando Lambada

Garantir o lugar na Luz


"O tema principal desta edição da BNews é o começo da renovação dos Red Pass.

1. Arranca a renovação dos Red Pass
O período de renovação dos Red Pass para 2026/27 começou hoje e estende-se até 8 de julho.

2. Comunicado oficial
Leia o comunicado oficial da Mesa da Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica acerca das duas Assembleias Gerais agendadas para o próximo sábado.

3. Mundial 2026
Siga, no Site Oficial, o desempenho dos futebolistas do Benfica e todos os resultados e marcadores.

4. Título em análise
Pedro Henriques faz o balanço da conquista benfiquista do Campeonato Nacional de hóquei em patins.

5. Regresso ao topo
Janice Silva, MVP da final dos play-offs do Campeonato Nacional de futsal no feminino, aborda o triunfo do Benfica na competição.

6. Entrevista de despedida
Norberto Alves está de saída do comando técnico da equipa masculina de basquetebol do Benfica.

7. Anúncios
O Benfica anuncia as saídas dos treinadores da equipa masculina de basquetebol e das equipas femininas de basquetebol e futsal.

8. Saída para o estrangeiro
O guarda-redes de andebol Gustavo Capdeville despede-se do Sport Lisboa e Benfica.

9. Título nacional
Benfiquistas brilham no Nacional de Minitrampolim

10. Balanço de época vitoriosa
A temporada dos Sub-19 masculinos de hóquei em patins do Benfica, hexacampeões regionais e campeões nacionais.

11. Captação de talento
Veja as melhores imagens da mais recente sessão de captação de talento realizada no Benfica Campus, na qual participaram 167 nascidos entre 2018 e 2021.

12. Bom desempenho
Rafael Mimoso, nadador do Benfica, em destaque na Taça COMEN ao serviço de Portugal. 

13. Orfeão do Sport Lisboa e Benfica
O Orfeão do Sport Lisboa e Benfica encontra-se a admitir coralistas.

14. Gimnáguia
A 44.ª Gimnáguia é no próximo sábado, no Pavilhão Fidelidade."

Portugal, dia 2+1


"Depois do jogo com o Congo, não foi Portugal a empatar, mas sim o ‘homem estátua’, que fez, disseram muitos analistas, sobretudo internacionais, os chamados ‘pundits’, que ou são absurdamente contundentes nos comentários ou têm os dias contados, um jogo que lhes provocou vergonha alheia.
Na goleada ao Uzbequistão, quem se deu ao trabalho de ir acompanhando os principais órgãos de comunicação europeus, verificou que quem estava a ganhar folgadamente não era Portugal, mas sim Cristiano Ronaldo. Quem quiser ir atrás deste tipo de avaliações, acabará a acreditar que o polvo Paul acertou mesmo todos os resultados no Mundial de 2026.
Já o disse, e reafirmo, antes de ir à questão de fundo, que em competições de incidência planetária, apenas existem, ‘grosso modo’ dois patamares, o lugar mais alto do pódio e o caixote do lixo, e essas medidas, sem meio-termo, valem o que valem.Falemos então, para começar, da Seleção Nacional: depois de uma exibição demasiado cinzenta frente ao Congo, a equipa reagiu, e sem mudar o sistema, mudou a dinâmica, afinando ainda o posicionamento de alguns jogadores, nomeadamente Bruno Fernandes, finalmente entre linhas, e Vitinha, que depois de alguns sinais de fadiga, voltou a ser o dínamo que torna Portugal melhor.
Quando começar a fase de mata-mata, os jogos serão substancialmente diferentes e Roberto Martinez deverá retornar ao tema do equilíbrio defensivo, que mesmo contra o Uzbequistão, teve momentos em que deixou a desejar.
Finalmente, Cristiano Ronaldo. Um recorde extraordinário batido - marcou em seis fases finais do Campeonato do Mundo - e outro, de melhor marcador português em Mundiais, menos reluzente, porque Eusébio apenas fez seis jogos em 1966.
Depois (e nem eram precisos mais 90 minutos), a aposta irredutível de Martinez em Cristiano Ronaldo: se esta é uma premissa ‘sine qua non’, então há que aproveitar CR7 no melhor que ainda tem para dar. Tem de evitar sair da área adversária - inútil baixar e meter-se entre os médios - ou cair demasiado nas linhas, onde já não faz a diferença no um-contra-um. É a fixar dois adversários na zona do penálti, a ganhar o primeiro poste no cruzamentos, e a finalizar com suprema classe (o segundo golo que apontou foi sublime) que Cristiano Ronaldo deve ser mais do que uma marca global.

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…"

A melhor raposa do deserto


"Aguentei-me brilhantemente acordado durante o Jordânia-Argélia. Não porque estava empolgado com o embate, mas porque há um menino de 20 anos no meio-campo dos 'Fennecs' de que gosto particularmente. Chama-se Ibrahim Maza e começou a afirmar-se na última temporada no Bayer Leverkusen. É um jogador especial e muito iremos ouvir falar dele num futuro próximo. Maza, soube depois, foi eleito pela FIFA como o melhor jogador em campo. Algo que parecia claro à primeira vista, mesmo com todo o peso do sono, mas nunca se sabe quando a decisão vem do próprio organismo.
Os números, obviamente, impressionam, sobretudo aqueles que mal o conhecem. Foi aquele que mais toques deu na grande área contrária (6), mais remates fez (4) e mais dribles com sucesso conseguiu (5).
Ganhou metade dos 16 duelos junto à relva, porém todos os que disputou no ar, do alto dos seus 1,80 metros de altura, foram seus. Somou ainda oito passes no último terço, num total de 80% de acerto. Liguem ou não a estatísticas, Maza é brilhante com a bola nos pés, sobretudo quando a cola ao direito. Está em constante movimento, é arrogante diante da pressão e muito veloz na execução. Além disso, tem 'chegada' e definição no último momento, com golos e assistências. Mesmo que parta de um duplo-pivot. É a melhor e mais sagaz raposa do deserto. Aos 20 anos. Num mundo que continua a duvidar da força da juventude."

O milagre dos tripés antes da goleada portuguesa em Houston


"HOUSTON — O Texas não é um estado; é uma hipérbole. Em Houston, o ar não se respira, mastiga-se, espesso de um calor que, logo às nove da manhã, já derretia as convicções de qualquer europeu. Foi nesta sauna apocalíptica que a nossa equipa de reportagem se propôs a acompanhar a fan walk portuguesa rumo ao estádio.
Um trânsito infernal, daqueles que transformam avenidas em parques de estacionamento, obrigou o fotógrafo Miguel Nunes a saltar a meio da viagem: foi a pé, de lente em riste, fundindo-se na maré vermelha e verde.
Ficámos eu e o André Carvalho. Às costas, o kit de sobrevivência do jornalismo moderno: mochilas com computadores, baterias, cabos e câmaras que pareciam pesar toneladas, microfones e o derradeiro inimigo das articulações humanas — os tripés.
Sob o aparato de segurança digno de um filme de ação, um pequeno veículo da polícia que liderava o cortejo, com uma mini caixa aberta atrás, pareceu uma miragem no deserto. Num pacto luso-americano improvisado, nós e mais duas equipas de TV portuguesas depositámos ali os tripés. Alívio imediato.
O drama começou às onze da manhã, a uns escassos 60 minutos do apito inicial do Portugal-Uzbequistão. Às portas do gigante de aço, olhámos em redor e... a carrinha? Nem vê-la. Sumira-se no éter do dispositivo de segurança. Entrámos em pânico: fazer diretos para A BOLA sem tripé, em cima da hora do jogo e com tanto Mundial ainda por reportar, é o equivalente a jogar uma final sem guarda-redes.
Iniciámos marcha atrás, lavados em suor, interpelando autoridades dignas de uma série de TV. Mas, no meio daquela imensidão, nem a mística dos Texas Rangers parecia conseguir localizar o nosso material. Até que, num golpe de teatro digno de Hollywood, a carrinha cruzou-se connosco. O polícia travou e festejou o reencontro com o mesmo entusiasmo que todos nós. 
«Ora aqui está um bom prenúncio para o jogo de Portugal», desabafou a Catarina, colega de outro canal. E que prenúncio. Completamente estourados, mas com o material a salvo, corremos para o estádio a tempo de ver o massacre: 5-0 ao Uzbequistão. Sobrevivemos ao Texas, os diretos estão garantidos e a Route 66 continua bem viva."

Formar para ganhar… ou ganhar para formar?


"Recentemente li uma reflexão atribuída a Dennis Bergkamp que me fez parar para pensar. A ideia era simples, mas profundamente relevante: a única equipa que tem a obrigação de jogar para ganhar é a equipa sénior. Todas as restantes equipas existem para preparar jogadores para lá chegar. 
Numa época em que o resultado parece dominar grande parte das conversas sobre futebol, esta frase assume uma importância especial. Porque nos obriga a questionar algo fundamental: qual é, afinal, a verdadeira missão da formação?
À primeira vista, a resposta parece evidente. A formação existe para desenvolver jogadores. No entanto, basta observarmos o futebol jovem durante alguns fins de semana para percebermos que nem sempre é isso que acontece. Olhamos para classificações, celebramos campeões, contamos vitórias e derrotas, avaliamos treinadores pelos resultados e reproduzimos análises muito semelhantes às do futebol profissional.
Muitas vezes medimos o sucesso da formação através de critérios que pouco têm a ver com a sua verdadeira finalidade.
Competir é importante. Os jovens devem aprender a lidar com a pressão, com a responsabilidade e com a exigência de procurar vencer. O futebol sem competição perderia uma parte essencial da sua identidade. Mas existe uma diferença enorme entre utilizar a competição como ferramenta de desenvolvimento e transformar a vitória no objetivo absoluto.
Quando isso acontece, o processo começa a ficar comprometido.
Muitas vezes vemos equipas de formação construídas para ganhar imediatamente. Jogam os atletas fisicamente mais desenvolvidos. Reduz-se o espaço para a criatividade. Limita-se a margem para o erro. Procura-se o resultado do próximo sábado em vez da evolução do jogador que poderá chegar à equipa principal dentro de alguns anos.
A questão é simples: o que é mais importante para um clube? Ganhar um campeonato de sub-15 ou formar um jogador capaz de integrar a equipa principal? Ganhar um torneio internacional de sub-17 ou preparar um atleta para representar uma seleção nacional?
A resposta parece óbvia. No entanto, nem sempre as decisões tomadas no dia a dia refletem essa prioridade.
Talvez porque todos gostamos de ganhar. Jogadores, treinadores, pais e dirigentes. E isso é perfeitamente natural. O problema surge quando a necessidade de vencer passa a condicionar aquilo que deveria ser o principal objetivo da formação: desenvolver pessoas e atletas.
Muitas vezes a pressão não nasce dentro das quatro linhas. Nasce nas bancadas, nos grupos de mensagens e nas comparações permanentes entre clubes, equipas e gerações. Nasce, frequentemente, na ansiedade dos adultos relativamente ao futuro das crianças.
Os pais querem ver os filhos jogar, evoluir e vencer. É natural. O problema surge quando cada convocatória, cada substituição ou cada resultado passa a ser interpretado como decisivo para o futuro. A formação exige tempo, paciência e capacidade para compreender que o desenvolvimento raramente segue uma linha reta.
A história do futebol mostra-nos que o talento não evolui ao mesmo ritmo para todos. Jovens que se destacam cedo nem sempre chegam mais longe, enquanto outros revelam o seu potencial mais tarde. Por isso, avaliar atletas apenas pelos resultados imediatos continua a ser um erro frequente.
Também os treinadores vivem um dilema difícil. Sabem que devem preparar jogadores para o futuro. Mas continuam muitas vezes a ser avaliados através da classificação.
E quando um treinador é avaliado pelos resultados, tende naturalmente a tomar decisões orientadas para ganhar. Não porque seja menos competente ou menos comprometido com o desenvolvimento. Simplesmente porque é humano.
É aqui que surge uma das maiores responsabilidades da liderança. Os dirigentes devem criar culturas que valorizem o desenvolvimento acima do resultado imediato. Devem definir critérios claros sobre aquilo que consideram sucesso e garantir que toda a organização compreende essa visão.
Uma academia não deve medir a sua qualidade apenas pelos troféus conquistados. Deve medir-se pelo número de jogadores promovidos, pela qualidade dos seus processos, pela evolução dos seus atletas e pelos valores que transmite diariamente.
Infelizmente, continuamos muitas vezes a confundir equipas vencedoras com processos vencedores. E nem sempre são a mesma coisa. Existem equipas jovens que ganham muito e formam pouco. E existem equipas que não conquistam títulos, mas que produzem jogadores preparados para competir ao mais alto nível.
As melhores academias do mundo não vivem obcecadas com títulos de formação. A sua prioridade está no desenvolvimento individual dos atletas, na aprendizagem e na criação de ambientes onde os jovens possam crescer sem medo de errar.
Porque o erro faz parte do desenvolvimento. Nenhum jogador aprende sem falhar. Nenhum atleta evolui sem enfrentar dificuldades. Nenhum talento se desenvolve plenamente se viver condicionado pelo receio permanente de cometer um erro.
Na formação, errar não deve ser encarado como um problema. Deve ser encarado como uma oportunidade de crescimento.
Talvez seja precisamente esta a maior diferença entre formar para ganhar e ganhar para formar. Quem forma para ganhar procura resultados imediatos. Quem ganha para formar utiliza a competição como uma ferramenta de aprendizagem e evolução.
Porque a formação não serve apenas para criar jogadores. Serve para formar pessoas. Serve para ensinar disciplina, desenvolver responsabilidade, criar hábitos de trabalho e transmitir valores que acompanharão os jovens ao longo da vida.
Quando falamos de formação, não estamos apenas a discutir o futuro de um clube. Estamos a discutir o futuro do futebol português.
Os jogadores que hoje treinam nos escalões jovens serão os profissionais de amanhã e, para alguns, os futuros internacionais portugueses. Cada decisão tomada numa academia tem impacto muito para além do próximo fim de semana. Tem impacto na qualidade dos nossos campeonatos, na competitividade dos clubes e na capacidade de Portugal continuar a afirmar-se como uma referência mundial na formação de talento.
Ganhar é importante. Ninguém entra em campo para perder. Mas na formação a vitória deve ser vista como consequência do desenvolvimento e não como a razão da sua existência.
Por isso, quando olhamos para um campeonato jovem, a pergunta mais importante não deve ser quem venceu no último fim de semana. Deve ser quem estará preparado para competir ao mais alto nível daqui a cinco ou dez anos.
É aí que a formação revela o seu verdadeiro valor. Porque, no futebol de formação, as vitórias mais importantes surgem anos mais tarde, quando um jovem está preparado para representar um clube, uma seleção ou a melhor versão de si próprio."

Portugal de calções


"O problema da selecção é que nunca é só a selecção. É Portugal de calções, pouco à vontade em trajo curto, exposto perante o mundo, com talento suficiente para se julgar predestinado e insegurança bastante para desconfiar da própria predestinação

Para quem gosta de futebol em Portugal, aderir à causa da selecção é sempre uma espécie de contrafacção do sentimento clubístico. É aquela altura em que todos os que não gostam de futebol, não ligam a futebol, dizem mal do futebol, aparecem de cachecol do Continente a dizer coisas como “palhaço”, “fora-de-jogo”, e, até mesmo, “golo”. Professoras de Geografia de sessenta anos proclamam: “A equipa de todos nós”. E o adepto que, jornada após jornada, sobrevive ao clube por que torce à força de antipiréticos fica acabrunhado. Há ali uma espécie de traição à ordem natural das coisas. Justificadamente, desconfia. Muito prudentemente, põe-se de parte.
Não existe no nosso país aquela alucinação argentina, aquele verdadeiro entusiasmo inglês, aquela coisa embriagada, pueril, totalizante. E é pena. Bem se tentou em 2004. Foi preciso um vídeo motivacional de um mau treinador brasileiro, mas a nação aplicou-se. Durante esse Europeu, quando os chinelos de meter o dedo pareciam anunciar uma nova civilização atlântica, andámos todos a fingir que o equívoco cromático imposto em 1910 nos dizia alguma coisa de profundo.
Correu mal. Mas já tinha corrido pior dois anos antes, no imperdoável Coreia-Japão. Ainda não havia bandeiras nas janelas. Havia apenas a selecção, nua diante da sua própria estolidez. Alguns de nós ainda não regressaram inteiramente de Suwon.
O mal sempre foi uma coisa mais íntima, mais portuguesa, mais nossa. E há qualquer coisa na selecção portuguesa de futebol que nos irrita a todos, ainda que de maneiras diferentes.
Tomemos o jogo de terça-feira. Uma crónica sobre o Portugal-Usbequistão deveria começar, fatalmente, com um “Usbequisquê?”. Exactamente. Contra essa sorte de países, onde o desporto nacional consistirá nalgum tipo de luta medieval, no arremesso do carneiro ou no derrube cerimonial de plátanos, o resultado nunca poderia ser menos do que dez a zero. Cinco é pouco. Cinco é uma cortesia protocolar.
Não deveria ser preciso explicar, mas eu explico na mesma, porque há sempre um contabilista dentro de nós. Pelo miserável e contemporâneo critério do valor de mercado dos jogadores, os dois onzes entraram ontem em campo separados por uma relação de 8,5 para 1. O onze inicial de Portugal valia seiscentos e qualquer coisa milhões; o do Usbequistão, setenta e qualquer coisa (sendo que, desse total, cinquenta pertenciam a Khusanov, o defesa central que joga no City). Segundo este nefasto raciocínio, Portugal deveria ter ganho por quarenta e três a zero. Menos do que isso não seria golear, seria perdoar.
É claro que somos nós que nos irritamos a nós próprios e, por isso, faça a selecção o que fizer, nunca ninguém estará verdadeiramente satisfeito com ela. Se perdemos, confirmamos a nossa decadência. Se empatamos, é uma vergonha. Se ganhamos por um, não convencemos. Se ganhamos por cinco, faltaram outros cinco. A selecção nunca joga apenas contra o adversário. Joga contra essa neurose nacional que nos assombra desde Alcácer-Quibir com escala em Saltillo e passagem pela mão direita de Abel Xavier. E quando, em 1966, descobrimos que podíamos mesmo ser grandes, torcer por Portugal tornou-se uma das mais previsíveis e constantes formas do embaraço nacional.
Claro que também irrita a tutela perpétua de Cristiano Ronaldo. Um atleta que é um regime. E é admirável que só quando já se ultrapassaram todos os limites do razoável, comentadores e jornalistas desportivos se tenham lembrado de escrever alguma coisa sobre o assunto. Como se, agora, se tivesse chegado à conclusão de que ter D. Sebastião em campo a tempo inteiro é só outra maneira de jogar com um fantasma a ponta-de-lança.
Irritam-se também aqueles que acham que o desdém pela selecção é pose. E também os desdenhosos se irritam por não conseguirem manter a pose (e no fundo se importarem). Tal como os ingleses e os argentinos também nós nos deixamos absorver pelo fenómeno. Só que à nossa maneira retorcida.
E, depois, claro, há o futebol. Porque, acima de todas as coisas, Portugal pratica um futebol amofinado. Igualzinho à caricatura que dele fizeram os Simpsons em 1997. Procurem. A bola circula, circula, circula, e não é preciso ser Homer Simpson para adormecer diante daquilo. O pináculo desse génio anestésico foi o Euro 2016.
Lembrar-se-ão com certeza. Ao que parece, Portugal ganhou o torneio. Está escrito, logo deve ter acontecido. Foi uma espécie de piada, elaborada de empate em empate, até ao chouriço final. Um paio ganho com um chouriço. O que irritou mais nem foi a vitória; foi o travo a impostura.
E a Geração de Ouro é, como é evidente, o conjunto de jogadores mais irritante de sempre. Tínhamos tudo e esse tudo incluía a ilusão de que a beleza acabaria por produzir justiça. Não produziu. Produziu saudade, que é a forma nacional de perder com a sensação (irritante) de que se deveria ter ganho.
O problema da selecção é que nunca é só a selecção. É Portugal de calções, pouco à vontade em trajo curto, exposto perante o mundo, com talento suficiente para se julgar predestinado e insegurança bastante para desconfiar da própria predestinação.
É uma dor de cabeça. E os grandes torneios, em que ficamos assim, diante de todos, vestidos de nós próprios, não ajudam nada. Saudades do Itália ’90."

O milhão de euros que falta à saúde mental


"Olhar para as Instituições de Ensino Superior em Portugal é celebrar o sucesso dos nossos rankings académicos, a excelência da produção científica e as elevadas taxas de empregabilidade. Para elevar ainda mais este percurso de sucesso, temos a oportunidade de integrar uma dimensão igualmente importante da vida académica, que é o desporto universitário. Ao colocarmos o desporto de forma clara e ambiciosa no centro dos Planos Estratégicos das nossas universidades e politécnicos, estamos a dar um passo em frente na construção de uma academia mais completa, saudável e verdadeiramente focada no sucesso dos estudantes.
Para compreendermos o impacto real desta questão, basta fazermos as contas com base na realidade atual. Se uma instituição de ensino superior público canalizasse apenas 7,17% da propina anual de cada estudante para o investimento desportivo, estaríamos a falar de sensivelmente cinquenta euros por ano por aluno. À primeira vista, parece uma quantia modesta e perfeitamente comportável. Contudo, quando aplicada à escala de uma instituição de média ou grande dimensão com vinte mil estudantes, este pequeno teto percentual transforma-se num investimento massivo de um milhão de euros por ano.
O que se faz, afinal, com um milhão de euros anuais dedicados exclusivamente ao desporto? A resposta é simples e imediata, pois permite transformar radicalmente a experiência académica e a saúde de toda a comunidade. Com este orçamento, torna-se viável formar e contratar recursos humanos adequados, garantindo treinadores, fisioterapeutas e gestores desportivos qualificados para acompanhar os estudantes. Permite também criar e dinamizar ligas universitárias internas, alargando a prática desportiva para lá da competição formal e envolvendo o estudante comum em dinâmicas de campus saudáveis. Além disso, este montante serve para apoiar diretamente as associações de estudantes e académicas, fortalecendo o tecido associativo que tantas vezes assume sozinho, e com recursos muito escassos, a gestão do desporto.
Por fim, possibilita a construção e reabilitação de instalações, permitindo planear a médio e longo prazo para erguer ou modernizar pavilhões, ginásios e campos de forma gradual e sustentável. Isso possibilitaria que todos os estudantes pudessem utilizar as instalações desportivas ao longo do dia, determinados serviços e espaços.
Apostar no desporto é apostar diretamente na qualidade do próprio ensino superior, no bem-estar e na saúde mental. Num momento em que a saúde mental dos jovens universitários atinge níveis de alerta preocupantes, a atividade física surge como uma das ferramentas de prevenção mais eficazes de que dispomos.
O desporto promove a inclusão, combate o isolamento, melhora a resiliência psicológica e fomenta hábitos de vida saudáveis que acompanharão estes futuros profissionais para o resto da vida. O desporto universitário merece ser abraçado como uma das dimensões mais bonitas e estruturais da formação humana nas nossas academias. Canalizar uma pequena fatia das propinas para este fim não significa subtrair recursos, mas sim multiplicá-los de forma extraordinária na saúde, no bem-estar, nas infraestruturas e na coesão de toda a comunidade. É um convite para que os reitores e presidentes integrem esta visão de futuro nos seus planos estratégicos, demonstrando que com uma gestão sensível e inovadora é plenamente possível transformar pequenos contributos num legado marcante de felicidade e vitalidade para os nossos estudantes."

Inteligência artificial na medicina do futebol


"A tecnologia entrou, definitivamente, no futebol e a medicina não ficou de fora. Nos últimos anos, a inteligência artificial passou de conceito futurista a ferramenta presente, diariamente, nos clubes. Porém, no meio de tanto entusiasmo, impõe-se a pergunta: estamos perante uma verdadeira revolução ou apenas mais uma tendência com expectativas inflacionadas?
Hoje, é possível recolher uma quantidade impressionante de dados sobre um jogador. Distâncias percorridas, acelerações, desacelerações, cargas internas, qualidade do sono, histórico de lesões — tudo é monitorizado. A inteligência artificial surge como o passo seguinte: transformar esses dados em previsões, nomeadamente, na identificação do risco de lesão. Aparentemente, o potencial é enorme. Antecipar uma lesão antes de acontecer, seria uma mudança de paradigma. Ajustar cargas de treino com base em modelos preditivos pode, em teoria, proteger o atleta e otimizar o rendimento. No papel, parece simples. No terreno, nem tanto.
Quem trabalha no contexto de futebol profissional percebe, rapidamente, as limitações. O corpo humano não é um algoritmo linear. A resposta ao esforço varia de jogador para jogador e até de semana para semana. Fatores como stress, qualidade do sono, contexto competitivo ou até o estado emocional influenciam o risco de lesão e nem tudo é quantificável.
A inteligência artificial depende da qualidade dos dados que recebe no futebol, sendo, muitas vezes, incompletos ou difíceis de interpretar. Um número isolado, raramente, conta toda a história, sendo essencial o papel da equipa médica e técnica na interpretação, contextualização e decisão. É aqui que entra o papel insubstituível da equipa médica e técnica: interpretar, contextualizar e decidir.
Mais do que substituir o médico, a tecnologia deve funcionar como apoio à decisão. Uma ferramenta, não um veredicto. O risco está em confiar cegamente no modelo e ignorar sinais clínicos ou perceções que não cabem numa folha de dados de Excel.
No dia a dia de um clube, a realidade é clara: a inteligência artificial ajuda e alerta, mas não decide nem diagnostica. Pode sugerir, mas não conhece o jogador como quem o acompanha diariamente.
No futebol moderno, ganhar vantagem passa também pela forma como se usa a informação, dado que a diferença continua a estar menos no algoritmo e mais em quem o interpreta."

Então!

Copa90 - The World Cup Underdog Nobody Saw Coming

Mata - Mata - PORTUGAL VOLTOU! 🇵🇹🔥 5-0 ao Uzbequistão e resposta à Mata-Mata

Renascença - Jogos Sem Fronteira - Cabo-Verde no Mundial 2026

Terceiro Anel: Planeta #6 - LA MANITA E FIM DA 2a RONDA!! 🇵🇹🏆⚽️

Terceiro Anel: Diário do Mundial #2 - ANÁLISE DOS grupos, Melhor Equipa, Jogador, Golo, Revelação e Reflexão!

AA9: Mundial - Day 13

LiveMode: Aquece vais entrar #21

Tiki-Tasca #2 - Portugal precisa de um treinador!

No Princípio Era a Bola - Os dois movimentos de elite de Cristiano Ronaldo, num jogo em que a sociedade entre João Félix e Nuno Mendes foi decisiva para Portugal

AA9: Mundial - Day 12

Mais Unida que Nunca #2 - Uzebequistão

Observador: Minuto 90 - Mesmo apagada, Croácia arranca uma vitória ao Panamá

Observador: Minuto 90 - Portugal que se prepare! Colombia caótica pode ser problema

Observador: Minuto 90 - "Muralha Queiroz". O favoritismo não ganha jogos de futebol

Pre-Bet Show - Mundial #4 - ENTRE LENDAS E NOVOS HERÓIS | NOVOS CAPÍTULOS SE ESCREVEM NA HISTÓRIA ✍️

TNT - Convocados...

Zero: Ataque Rápido - Mundial #3 - Portugal começa a convencer...um pouco

Rabona: He's now scored in SIX World Cups & Ghana was ROBBED vs England

FIFA: Austrália...

FIFA: Paraguai...

FIFA: EUA...

FIFA: Turquia...

FIFA: Países Baixos...

FIFA: Japão...

FIFA: Alemanha,,,

FIFA: Equador...

FIFA: Curaçau...

FIFA: Costa do Marfim

FIFA: Suíça - Canadá

FIFA: Croácia - Panamá

FIFA: Colômbia - Congo

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Dói-Doí...

Concordo

Observador: Relatório do Jogo - Uzbequistão

Zero: Mercado - Julián Alvarez, a maior novela deste mercado?

BF: Extremos...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Será Lionel Messi o melhor de sempre?

Observador: E o Campeão é... - Argentina e França são as seleções favoritas ao título?

Observador: Três Toques - Mundial 2026. O Bruxo do Gana e a polemica dos partos

BolaTV: Mais Vale à Tarde que Nunca #9

La Reconquista - #HóqueiBenfica

SportTV: NBA - S04E37 - Giannis está a caminho de Miami 🔥

BolaTV: Entrevista André Sousa

Norberto Alves

Cristiano Ronaldo no labirinto do ego


"Há um momento inevitável dos predestinados em que o passado deixa de conseguir resgatar o presente. Do lado de fora da Seleção, o capitão já não é indiscutível. Faltará bom senso dentro

Talvez seja a primeira vez que a ideia dos adeptos coincide com a dos jornalistas no que diz respeito a Cristiano Ronaldo e à Seleção Nacional. Embora sejam apenas sondagens feitas em ambiente digital, a verdade é que tanto uns como outros já parecem sentir-se preparados para abdicar do capitão na equipa inicial de Portugal. A imagem que Ronaldo tem apresentado em campo, sobretudo nos momentos em que era forte, ou seja na finalização, baixou dos mínimos olímpicos e justifica, para ambos, uma alteração que a análise mais aprofundada dos jogos já defendia há meses. Talvez anos. Ou seja, CR7 terá ultrapassado finalmente o limite de tolerância, esticado pelo natural sentimento de gratidão, da maior parte das pessoas.
É tudo muito bonito, mas não acredito que Roberto Martínez deixe agora cair o capitão. Foi contratado precisamente para que isso não acontecesse e não acontecerá após apenas um jogo nas Américas. A teimosia ainda tem defesa possível, na sua perspetiva. Não, o nome de Ronaldo só será riscado do onze titular se o espanhol entrar em modo de sobrevivência, tal como aconteceu no Qatar, quando ao terceiro jogo trocou finalmente um Eden Hazard, também capitão, que se arrastava na Bélgica, por Dries Mertens. Foi o melhor jogo dos Diabos Vermelhos, mas mesmo assim não conseguiram melhor do que um nulo diante da Croácia, que resultou na mais do que justificada eliminação.
Cristiano começará, sim ou sim, o encontro com o Uzbequistão. À hora do fecho desta edição, o que sabemos é que o jogador que fará a antevisão à partida não será aquele que tantas vezes foi tema ao longo dos últimos dias. Aquele que, sem qualquer provocação, reagiu mal a perguntas na zona mista. Alguém que acham que já não está a ser útil à equipa. Que usa a braçadeira — porque ser capitão é outra coisa — há muitos anos sem que seja o melhor exemplo para os colegas. Que deveria ter dado a cara, mesmo que Rúben Dias e Diogo Dalot tenham feito o seu papel o melhor possível, eles que nem um minuto somaram no infeliz empate com os africanos. Ainda que se enganem quando acham que os portugueses estão contra eles. É precisamente o contrário. Não há português que não queira vê-los triunfar. Só que não é só questão de fé.
Cristiano joga por ele. Já Messi, por exemplo, joga pelos outros, que jogam por ele. Os egos serão do mesmo tamanho, mas o argentino sabe, há anos, que não se consegue manter no topo sozinho."

Os lesados de Roberto Martínez


"Roberto Martínez nunca devia ter sido o selecionador nacional.
Fernando Gomes, então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, estava no auge do seu poder e influência e não houve quem questionasse publicamente tão bizarra escolha. Sem cair em exageros, há uns 30 treinadores portugueses melhores do que ele.
Em janeiro de 2023, Fernando Gomes, na apresentação de Roberto Martínez, revelou a razão para Fernando Santos não continuar: «Depois de um Mundial em que sentimos que poderíamos ter ido mais longe (...) Portugal pode e deve estar sempre nas decisões de grandes competições, e isso significa, pelo menos, aceder às meias-finais.»
A indústria do futebol foi a única que não se deixou contaminar pelas ideias de igualdade, diversidade ou agenda verde. A meritocracia é o critério único.
A melhor equipa que tinha treinado tinha sido o Everton. Vencera uma Taça de Inglaterra e um campeonato da terceira divisão inglesa.
O rei vai nu. No conto de Hans Christian Andersen, publicado há quase 200 anos, dois vigaristas convencem o rei que iam fazer o melhor fato do mundo e que seria invisível aos ignorantes. O desfile começou e todos elogiavam, até uma jovem criança gritar que o rei ia nu e todos perceberem o logro. Em Portugal, a criança tinha sido evacuada.
Pedro Proença manteve o objetivo. Desde o jogo com a RD Congo, expôs-se a apoiar Roberto Martínez, quando a não responsabilidade na contratação aconselhava prudência e distância.
No futebol, a culpa nunca morre solteira — é sempre do treinador.
O treinador é, de longe, o elemento mais importante numa equipa de futebol. A decisão mais importante do presidente é a sua escolha.
Na qualificação para o Mundial já houve uma tremedeira no fim. Não se ganhou à Hungria em Alvalade (2-2), pelo que o jogo com a Irlanda, em Dublin, foi a segunda oportunidade para nos qualificarmos — perdemos 0-2. No último jogo, no Dragão, com a Arménia, ganhamos 9-1, em pressão máxima. Porque é que em Portugal se faz sempre tudo no último dia? Porque no dia seguinte já não é possível.
Com a divulgação dos 26 jogadores escolhidos, a escandalosa não convocatória de Palhinha, mas também com a incompreensível ausência de Ricardo Horta e a presença de quatro laterais-direitos na lista, surgiram as primeiras críticas públicas.
A ideia de Martínez foi ter dois grupos de jogadores, um para jogar e outro para fazer número (de cara alegre).
A matilha digital, depois do primeiro jogo, dedicou-se ao linchamento dos jogadores. Até a ida à praia foi um tema central, facto surpreendente para quem almoça esporadicamente na Costa de Caparica e vê, quase sempre, jogadores a darem um mergulho em vésperas de jogos decisivos — que ganham.
Fosse o selecionador Jorge Jesus, José Mourinho ou Sérgio Conceição, as teorias da conspiração não existiriam. Mesmo com Martínez, não têm razão de ser. É ele quem toma estas estranhas decisões — por exemplo, preferir Rafael Leão contra uma defesa fechada em vez de Trincão, que marca golos e fura numa área defendida por dez adversários.
Soubesse a RD Congo contra-atacar e tínhamos perdido.
Se é fácil jogar a fase de qualificação, quando os jogadores chegam a voar das melhores equipas do mundo, será Martínez capaz de preparar uma competição em que o treino é da exclusiva responsabilidade da sua equipa técnica?
Este jogo morno que nos exaspera é uma opção ou manifestação de incapacidade? Um dia, vai haver uma alteração às regras penalizando a interminável posse de bola em zonas mortas do campo, como fizeram desportos como o basquetebol e o andebol.
Não há um português que considere que Cristiano não tem lugar na Seleção. Dividimo-nos apenas em relação à sua utilização e só Martínez acha que deve jogar os 90 minutos.

João Neves e Tomás Araújo
João Neves foi o melhor com a RD Congo e Tomás Araújo assumiu responsabilidades alheias. João Neves não é o típico português, porque está sempre com ar de bem disposto.
Saiu muito jovem de casa dos pais no Algarve e foi viver para a academia do Benfica no Seixal. Sofreu com a morte da mãe. Sempre a correr e sempre com um sorriso.
Em 1988, assisti a um jogo do campeonato no antigo Estádio das Antas. Shéu, o capitão do Benfica, fazia nesse dia o seu último jogo na carreira. Foi substituído e todos os adeptos do FC Porto se levantaram e aplaudiram. Com João Neves, seria igual, não há quem não goste muito dele.
Com 22 anos, já ganhou duas Champions e três campeonatos nacionais. Na Liga das Nações, depois de ganhar a primeira Champions com o PSG, sem qualquer queixume, jogou a lateral-direito.
Tomás Araújo fez com Renato Veiga uma improvável dupla de centrais no primeiro jogo do Mundial. Juntos, tinham 18 internacionalizações no total e uma média de 23 anos.
No Mundial de 2022 e no Europeu de 2024, os três principais centrais foram Pepe, Rúben Dias e Danilo Pereira. Em 2022, tinham uma média de 31 anos e 77 internacionalizações; no Euro-2024, 33 anos e 89 internacionalizações.
Portugal defende os cantos de uma forma inconcebível, com poucos jogadores na área. O jovem Tomás Araújo, assumindo corajosamente responsabilidades que não foram dele, protegeu a equipa técnica e Diogo Costa (o cabeceamento é na pequena área).

Padre António Vieira
«Nós somos o que fazemos», dizia o Padre António Vieira. Portugal vai ganhar ao Uzbequistão mas dificilmente ganhará o Mundial.
Só perdermos, se privarmos as crianças da alegria de viver um Mundial — com ou sem cromos. Se não correr bem desportivamente, a culpa será do selecionador. Felizmente, foi sempre assim e sempre será. Para tristezas, já basta o mundo em que vivemos."

O elogio ao erro


"É comum dizer-se que o erro faz parte do processo de evolução. Acredito muito nisso, tanto na vida como no futebol.
A meio da segunda ronda de jogos dos grupos, é possível identificar algumas seleções que, após uma entrada menos positiva no Mundial 2026, identificaram os erros cometidos, analisaram-nos, reconheceram-nos e decidiram promover alterações com impacto direto e positivo nas suas performances.
A Espanha mudou substancialmente de um jogo para o outro. Depois do surpreendente empate frente a Cabo Verde, Luis De La Fuente percebeu que jogar sem extremos que garantissem largura, profundidade e capacidade ofensiva no um para um havia sido um erro.
Bastaram quatro alterações para que o momento ofensivo espanhol voltasse a ter fluidez, agressividade e acutilância ofensiva. Pedro Porro, Dani Olmo e Lamine Yamal sobre a meia direita estiveram em sintonia, garantindo dinamismo e eficácia. Baena sobre a esquerda foi multifacetado o suficiente para saber quando teria de ser extremo, segundo avançado ou quarto médio quando a Espanha atacava.
O 4-0 final sobre a Arábia Saudita mostra-nos que a exibição frente a Cabo Verde poderia ter sido outra. Mas também nos mostra o reconhecimento do erro e a capacidade para encontrar soluções para o mesmo.
Ronald Koeman viu fugir dois pontos frente ao Japão depois de uma exibição pouco inspirada do ponto de vista coletivo, na qual foi evidente a falta de mentalidade competitiva para segurar a vantagem com bola e impedir o assédio nipónico.
Ao contrário do homólogo espanhol, Koeman não promoveu uma revolução tática no onze inicial. Mexeu apenas no centro do ataque, o suficiente para que o coletivo funcionasse melhor.
Com Brian Brobbey na posição 9, os Países Baixos passaram a ter quem segurasse a bola e ligasse o jogo com os médios e extremos. Tão ou mais importante do que isso, contou com Donyell Malen sobre a direita na primeira parte.
O avançado da Roma não marcou, mas soube preencher os espaços em corredor central, juntando-se a Brobbey, permitindo a Cody Gakpo, sobre a esquerda, ter mais liberdade de movimentos e um raio de ação mais alargado.
Koeman sentiu ainda que podia acrescentar algo mais e, ao intervalo, lançou Crysencio Summerville para o lugar de Mallen, dando mais imprevisibilidade ao ataque holandês.
O 5-1 sobre a Suécia diz-nos que os Países Baixos não só melhoraram de um jogo para o outro como ainda melhoraram dentro do próprio jogo. Sinal claro de humildade, inteligência e liderança por parte do seu selecionador."

O milagre por fazer depois do já feito


"Por causa de Rangnick, lembrei-me de Bielsa. De Maslov. De Wolfgang Frank. De Rappan. De Jimmy Hogan. Não Hagan, Hogan! Todos eles estão nas melhores equipas da história mesmo que não tenham ganho assim tanto com as suas.
O alemão acabou com o líbero na terra do líbero, avançou para a marcação à zona, para a linha defensiva subida e para a pressão feroz. O melhor que ganhou no país em que nasceu foi a Taça e a Taça da Liga, contudo, o seu futebol espalhou-se como um vírus e abraçou também a Áustria. O vírus e ele, agora, depois de ter sido considerado alguém banal em Old Trafford.
Maslov viveu em Lobanovskiy, Frank em Klopp e no 'gegenpressing' e Rappan em Helenio Herrera. Sem Hogan não teria havido a Wunderteam austríaca de Sindelar ou a Aranycsapat húngara, com os míticos magiares Puskás, Czibor, Kocsis e Bozsik. Sem ele, os cafés de Budapeste e Viena não teriam discutido o futebol tão apaixonadamente ao ponto de acharem que podiam desafiar a Mother of Football.
El Loco é um dos maiores influenciadores que o jogo já teve. Há Cruijff, mas o neerlandês deixaria sempre discípulos porque ganhou. O argentino fez carreira no seu país e, apesar de ser amado por quase todos nós, ganhou muito pouco fora dele. Ele, talvez o primeiro a não escolher entre o romantismo de Menotti e o pragmatismo de Bilardo, tornando-se uma síntese dos dois, está nos modelos de Guardiola, Simeone, Pochettino, Tata Martino, Berizzo, Sampaoli, Gallardo, e mesmo Nagelsmann e Tuchel.
A garra charrúa e o bielsismo pareciam mesmo feitos um para o outro. Porque o modelo de Marcelo é feito de energia e os uruguaios fazem dela a base do seu jogo há muitos anos. No entanto, o Mundial não corre como o esperado. São dois empates, diante de Cabo Verde e Arábia Saudita, e o risco da eliminação presente no último jogo diante da Espanha. É uma Celeste Olímpica sem Suárez e Cavani, com Darwin em baixa e um ala como guia. Nem Bielsa faz milagres! Ou fará? Precisa mesmo?"

Simpatia natural ou ‘gorjetadependente’?


"HOUSTON - Gorjetadependente: a palavra pode não constar nos dicionários da Porto Editora, mas devia. Nos Estados Unidos, ela resume toda uma engrenagem social. Aterrar no Mundial de 2026 é, para um português, levar com um choque cultural em várias frentes, mas nenhuma magoa tanto a carteira — ou a nossa sensibilidade europeia — como a cultura da gorjeta, o omnipresente tip.
Por cá, a linha que separa a simpatia genuína do interesse financeiro é tão ténue que quase se apaga. E nós, portugueses, criados no hábito de deixar as moedas pretas ou de arredondar a conta em jeito de mera cortesia, estamos profundamente mal habituados.
A realidade nua e crua do mercado laboral americano rapidamente nos põe na linha. Nos balcões e mesas dos restaurantes, os empregados de mesa recebem salários base miseráveis, que rondam frequentemente os 2 dólares por hora — uns ridículos 1,85 euros.
O ordenado mínimo garantido por lei simplesmente não se aplica da mesma forma a quem recebe gratificações. Sem a gorjeta, esta gente não consegue, literalmente, sobreviver. O cliente não está a dar um extra; está, na verdade, a pagar diretamente o salário de quem o serve. Por isso, o sistema é agressivo. Qualquer valor abaixo dos 20% é visto como uma afronta, um atestado de incompetência ou um insulto pessoal. Se o serviço foi terrível, a penalização máxima aceitável são os 15%. Menos do que isso é declaração de guerra.
Nós aprendemos a lição da pior maneira, logo no primeiro jantar em Palm Beach. Ignorantes da pressão social do terminal de pagamento digital, cometemos o sacrilégio de clicar no botão de «0% tip». O ambiente congelou no segundo seguinte.
A expressão e o discurso da funcionária, que até aí transbordava de uma simpatia quase maternal, mudaram para o plano oposto numa fração de segundo. O sorriso deu lugar a um esgar de desespero e raiva contida: «Como é que vou alimentar os meus filhos?», atirou, sem filtros.
A fatura, outrora entregue com vénias, voltou para trás completamente amarrotada e foi literalmente atirada para cima da nossa mesa, num misto de humilhação e revolta. Foi um banho de realidade. Percebemos ali que a simpatia americana não é necessariamente falsa, mas é, por força das circunstâncias, é, por vezes, altamente dependente do desfecho financeiro.
Em Roma sê romano, na Florida ou no Texas paga o que deves. Desde esse dia, o dedo no ecrã já não hesita: os 20% já fazem parte do custo de cobertura deste Mundial. Coisas culturais."

Novas regras testadas durante o Mundial: um clássico


"Portugal começou o Mundial frente ao Congo. Não começou da melhor forma, mas também não é caso para alarmes. A Espanha também empatou com Cabo Verde, que entrou na competição em grande! Percebo Roberto Martínez: «Falar em ganhar o Mundial não ajuda a ganhar jogos.» Hoje segue-se o Uzbequistão. Uma vitória vai acontecer, confio. Boa sorte para a equipa de todos nós.
Os Mundiais têm servido, nos últimos anos, como laboratório da FIFA para testar novas regras. Este campeonato não é exceção. Vale a pena olhar para algumas delas e perceber o que podem trazer ao futebol. A primeira novidade é que o jogo passou, na prática, a ter quatro interrupções oficiais. Além do tradicional intervalo, surgem duas pausas para hidratação. Ou, sendo rigorosos, duas pausas para publicidade. Ou dois descontos de tempo como em muitas modalidades de pavilhão. Nesta coluna chamamos as coisas pelos nomes. Quem financia o espetáculo são os patrocinadores e a FIFA precisa dessas receitas. Gasta muito dinheiro, nem sempre bem e nem sempre no futebol. Dois intervalos adicionais representam milhões. A lógica aproxima-se cada vez mais da NBA ou do futebol americano. Bom? Mau? Diga-me, caro leitor!
Talvez por este Mundial se disputar nas Américas, a competição parece mais americanizada. Não apenas pelos intervalos publicitários, mas também pelo espetáculo que envolve os jogos. Como acontece na NBA ou no Super Bowl, a partida é apenas o centro de um grande evento onde cabe música, celebridades, influenciadores e entretenimento permanente. Estamos, afinal, na terra do show business.
A FIFA acredita que o público mais jovem procura mais ação e menos tempo perdido. Daí as novas limitações temporais. Os lançamentos laterais têm agora cinco segundos para ser executados; os pontapés de baliza idem. No primeiro caso, a demora entrega a bola ao adversário; no segundo, resulta em canto. As sanções parecem equilibradas: combatem a perda de tempo sem alterar a essência do jogo.
Também as substituições passam a estar mais controladas. O jogador substituído deve abandonar o relvado pelo ponto mais próximo. Se não o fizer, o substituto só pode entrar um minuto depois, deixando temporariamente a equipa reduzida a dez jogadores. Saolução simples, eficaz e com lógica competitiva.
Menos convincente é a proibição de tapar a boca durante as conversas em campo. A chamada regra Prestianni parece um exagero. O futebol vive de comunicação constante entre jogadores, treinadores e árbitros. Essa comunicação sempre teve uma dimensão privada. A evolução tecnológica permite captar imagens e até interpretar movimentos labiais a grande distância. A partir do momento em que se proíbe um jogador de proteger uma conversa, abre-se a porta a polémicas intermináveis. Uma instrução tática ou apenas um bocejo? A UEFA, que já tratou mal o caso Prestianni, insiste agora numa solução que levanta mais dúvidas do que resolve, mas que já deu uma expulsão.
Por outro lado, o alargamento das competências do VAR parece funcionar. Os cantos podem ser revistos e os segundos amarelos também. Para já, sem grandes sobressaltos. A câmara do árbitro, outra novidade, tem igualmente mostrado potencial para aproximar os adeptos do jogo.
Esta semana o Direito ao Golo é, primeiramente, para Manuel Kape, o lutador luso-angolano do UFC derrotou Horiguchi por KO e vai ter direito a lutar pelo título. Fantástico! E para Fernando Pimenta, que conquistou mais um título europeu na canoagem e continua a engrandecer o desporto português. Isto sem esquecer a seleção de Cabo Verde no Mundial: dois empates com sabor a vitória!"

A verdadeira descoberta da América é encontrar a porta de saída


"Sempre brinquei que Lisboa está para o país como os Estados Unidos estão para o mundo: fora das fronteiras, ninguém conhece mais nada. O que é um exagero, claro: uns conhecem o Alentejo e o Algarve, outros conhecem o Caribe, onde vão passar férias.
Brincadeiras regionalistas à parte, é verdade que sempre gozámos com os americanos por serem um desastre a geografia: daquelas pessoas capazes de apontar para a África quando se lhes pede para encontrar determinado país europeu num mapa. Agora, a viver este Mundial por dentro, finalmente fez-se luz e percebi a raiz do problema.
Não é que eles ignorem o resto do planeta, eles simplesmente não conhecem o próprio bairro.
Como é que podemos exigir que saibam onde fica Cabo Verde se eles não fazem a menor ideia de onde fica a Porta 7 do estádio onde trabalham?
A prova dos nove está na organização (ou falta dela) nos recintos. Pedir indicações para qualquer coisa é um exercício de futilidade absoluta. Há poucas placas, o staff não sabe de nada, mas o mais fascinante é a confiança inabalável com que te mandam para o lado errado.
Um americano pode não saber como se sai pela Porta 6 ou onde se apanha o shuttle, mas vai dar-te indicações detalhadíssimas, cheias de certezas, sempre repetidas uma, e outra, e outra vez. São tão convictos que até te fazem duvidar de que não sabem nada.
Tentar entrar ou sair de um estádio, portanto, transforma-se numa autêntica peregrinação a Santiago de Compostela, mas sem setas amarelas a indicar o caminho e sem um único albergue para descansar as pernas.
Anda-se quilómetros em círculos, guiados pela simpática ignorância local, a expiar os nossos pecados no asfalto, até percebermos que a verdadeira descoberta da América, por estes dias, não é chegar cá.
É conseguir encontrar a saída."

O Mundial da diáspora


"Com as migrações no centro do debate político em vários países, as seleções competem por atrair os muitos jogadores elegíveis para representar diversas nações. A Europa consolida-se como grande centro formador de talento, mas há cada vez mais futebolistas que optam por representar a terra dos pais ou dos avós

Vamos jogar a um jogo? Vamos.
Suíça-Bósnia. Protagonista do encontro? Johan Manzambi, natural de Genebra, pais de Angola e da República Democrática do Congo. Canadá-Suíça. Autor de um hat-trick? Jonathan David, nascido em Nova Iorque, filho de haitianos, foi para Port-au-Prince aos três meses, imigrou para o Canadá aos seis anos.
Inglaterra-Croácia. Último golo ingês? De Marcus Rashford, jamaicano do lado do pai, São Cristóvão e Neves da parte da mãe. Portugal-RD Congo. Herói dos africanos? Yoane Wissa, vindo ao mundo em Épinay-sous-Sénart, um subúrbio parisiense.
Áustria-Jordânia. Quem selou o triunfo europeu? Marko Arnautovic, cidadão de Viena, com pai sérvio e mãe austríaca. França-Senegal. Quatro golos? Bem, os autores dos remates certeiros poderiam, todos, representar outras cores: Mbappé os Camarões ou a Argélia, Barcola o Togo, Ibrahim Mbaye a própria França ou Marrocos.
Estes encontros realizaram-se todos ao longo dos últimos dias, mas mais exemplos haveria, casos vindos de todos os continentes e confederações. Talvez o expoente máximo se tenha visto em Monterrey, quando Yasin Ayari abriu o marcador no Suécia-Tunísia e não festejou, pedindo desculpas, como quem marca à ex-equipa. Razão? O médio é de Solna, mas o pai é tunisino e a mãe marroquina. Já agora, ao apontar o definitivo 5-1, Ayari decidiu que, bom, não é todos os dias que se bisa num Mundial, então o melhor é mesmo festejar.
Olhe-se para onde se olhar, é inegável: este é o Mundial da diáspora. O Mundial em que boa parte dos jogadores poderia vestir outra camisola, a competição em que muitos não representam o país de nascimento e outros, representando-o, poderiam optar pelas terras de onde saíram os seus ascendentes. É o Mundial onde seduzir os filhos da diáspora se torna uma tarefa tão importante para as federações como desenhar programas de formação ou escolher os selecionadores.
É, também, o Mundial da diáspora porque as migrações, algo tão humano como ir em busca de um sítio com melhores recursos naturais ou mais paz ou melhor emprego, estão no centro do debate político global. Donald Trump, cujas políticas de entrada e permanência nos Estados Unidos marcam a competição — é o torneio em que o melhor árbitro africano foi barrado —, apontou, há dias, o risco de, “importando pessoas de países do terceiro mundo”, os EUA se transformarem “num país do terceiro mundo”.

França, o berço do Mundial
Uma das maravilhas da modalidade mais popular da história da humanidade é a capacidade de gerar craques nos locais mais improváveis. Há qualidade a brotar de Barrancas, na Colômbia caribenha, como Luís Diaz, ou em Bushehr, no Irão que mira ao golfo pérsico, como Mehdi Taremi. Ter como ponto de partida Taskhent, na Ásia central, não impediu Abdukodir Khusanov de chegar ao Manchester City.
Não obstante, este Mundial consolida uma tendência: é na Europa, nos grandes centros de formação do continente, nas máquinas de produção quase industrial de jogadores, que se forja a maioria dos profissionais das botas calçadas. França, Países Baixos, Inglaterra e Alemanha, particularmente estes quatro países, pegam nos seus jovens — parte deles filhos da imigração — e levam-nos para o topo.
Esta mistura entre capacidade de formação e ser um país recetor de vagas de migração leva a França a destacar-se como grande berço do torneio. Há 98 futebolistas presentes nos EUA, Canadá e México a terem o hexágono como maternidade, o suficiente para formar quase quatro seleções e cerca de 7,9% da totalidade de participantes. Em segundo lugar surgem os Países Baixos, com 67, cifra muito auxiliada pelos 25 homens de Curaçau com nascimento neerlandês. Segue-se a Alemanha, com 48, com o quarto posto partilhado entre Espanha e Bélgica, com 36.
Buenos Aires, São Paulo, Londres ou Lisboa, e respetivas áreas metropolitanas, são grandes urbes de onde vêm destacadas figuras. Ainda assim, Paris e os seus gigantescos subúrbios afirmam-se como o local mais provável para ser a casa de quem pisa o relvado. Há 53 futebolistas do Mundial 2026 naturais da capital francesa e das suas áreas circundantes.

Colonialismo... e não só
Estes dados contam-nos uma história das relações de poder dos últimos séculos. O colonialismo é, obviamente, um fator decisivo neste Mundial da diáspora. Dos 76 naturais de França que representam outras seleções, a maioria (43) tem raízes em cinco Estados que deixaram de ser colónias francesas entre 1956 e 1962: Marrocos, Tunísia, Argélia, Costa do Marfim e Senegal.
O "The Guardian" notava, já durante a competição, que o Reino Unido invadiu, ocupou ou tomou ações militares contra 44 dos países em ação no campeonato.
Em Curaçau, apenas um dos 26 chamados nasceu no território. Marrocos, a certa altura do confronto diante do Brasil, tinha 11 jogadores em campo nascidos fora do país africano, três em Espanha, dois na Bélgica, quatro em França, um no Canadá, outro nos Países Baixos.
A República Democrática do Congo tem 11 naturais de França e cinco da Bélgica. A Argélia tem 13 vindos de França, o Haiti tem 12, o Senegal apresenta 10, a Costa do Marfim conta com oito, a Tunísia leva sete. Cabo Verde, por sinal, não conta com um domínio do antigo colonizador, mas sim dos Países Baixos, com seis. Há três nascidos em França no conjunto de Bubista, três em Portugal, um nos EUA e outro na República da Irlanda.
Mas não é só o colonialismo o único fator a considerar. Os iraquianos são a segunda maior comunidade na Suécia, algo que muito se deve aos refugiados que foram para o país escandinavo na sequência da invasão norte-americana no arranque do século XXI. Consequentemente, há quatro futebolistas do Iraque com naturalidade sueca.
As deslocações forçadas com motivos bélicos também influenciaram nações europeias, nomeadamente nos Balcãs. Há 17 membros da Bósnia que abriram os olhos pela primeira vez num outro local, com histórias como a do jovem talentoso Esmir Bajraktarević, de 21 anos, cujos pais sobreviveram ao genocídio de Srebrenica, em 1995, o qual vitimou o avó e quatro tios. A família descolou-se enquanto refugiada para a Suíça, primeiro, e depois para os EUA, onde Esmir nasceu.
A Alemanha destaca-se especialmente enquanto ponto de acolhimento da imigração europeia. De lá são quatro futebolistas que representam a Bósnia, cinco da Turquia e três da Croácia.
As diferentes políticas de acolhimento de refugiados são, portanto, outra causa da proveniência de talento. O primeiro golo da Austrália no Mundial 2026 foi de Nestory Irankunda, nascido num campo de refugiados na Tanzânia, em fuga da guerra do Burundi. Também nos socceroos milita Awer Mabil, ex-Paços de Ferreira, que viveu até aos 10 anos num campo de refugiados no Quénia, filho de escapados do Sudão do Sul. Outra jovem esperança da equipa é Mo Touré, original de um campo de refugiados na Guiné, com pais à procura de proteção da guerra civil da Libéria. As famílias Irankunda, Mabil e Touré beneficiaram das portas abertas australianas.

O poder de atração
A multiplicidade de origens atesta-se por haver três pares de irmãos que defendem conjuntos diferentes. Os Souttar são de Aberdeen, produto da relação entre um escocês e uma australiana. Harry defende a Austrália, John a Escócia. Os Williams assentaram no País Basco, na sequência de uma história de superação, com ascendência ganesa. Nico representa Espanha, Iñaki o Gana. Os Doué têm mãe francesa e pai costa-marfinense. Désiré é atacante pela França, Guéla é lateral-direito na Costa do Marfim.
Se França ou Inglaterra são centros de formação, os seus jogadores não deixam de contar estas narrativas de deslocação de seres humanos. Com efeito, 20 dos eleitos por Tuchel poderiam atuar por outra seleção que não a inglesa, enquanto 21 dos homens de Deschamps tinham a opção de defender outro país.
Os gauleses, epicentro deste Mundial da diáspora, estão recheados de gente que tem múltiplas raízes: Saliba tem pai libanês e mãe camaronesa, Cherki poderia ter representado Itália ou a Argélia, Dembélé tem mãe da Mauritânia e pai do Mali, nas veias de Mbappé corre sangue camaronês, do lado paterno, e argelino, da parte materna. Todos são cidadãos franceses, nascidos em França.
Perante este paradigma, as federações protagonizam uma verdadeira corrida para convencer os jogadores. É uma disputa de sedução, de convencimento, com os mais variados argumentos, desde o apelo que pode ser feito ao coração — há histórias de dirigentes que foram falar primeiro com os pais, com maiores ligações às terras de origem , para estes depois incentivarem os filhos — até razões mais desportivas. Veja-se como, em março, Portugal tentou convencer Eli Juniour Kroupi, mas sem êxito. Luís Freire já falou sobre a atenção que a FPF dedica a este trabalho, começando nas seleções jovens.
Um dos principais destaques da ronda inaugural do Mundial, Ayyoub Bouaddi, jogou, em março passado, pelos sub-21 de França. Marrocos, capaz de convencer craques que caberiam em grandes seleções europeias, acenou com uma titularidade no maior dos palcos e obteve um reforço de luxo.
Responsáveis de Cabo Verde têm mencionado que um dos principais fatores de crescimento desta histórica participação é o acréscimo de atratividade para a causa cabo-verdiana. Com hipóteses reais de pisar grandes palcos, é mais fácil convencer quem seja internacional jovem neerlandês ou português. Para Haiti ou Curaçau, estas funções — facilitadas pelo alargamento — são vitais para a competitivade nacional.
Um dos maiores artistas presentes no Mundial é Michael Olise, o fantasista do Bayern Munique. Conhecido pelas escassas palavras, o canhoto nasceu em Inglaterra, filho de um britânico-nigeriano e de uma franco-argelina. Olise fala pouco, mas, sobre este assunto, foi contundente: “De onde sou? Sou de quatro países: França, Argélia, Nigéria e Inglaterra. Sinto-me sortudo por ter essas quatro partes, todas me enriqueceram.”"