O INDEFECTÍVEL
Pelo Benfica! Sempre!
Últimas indefectivações
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Até vale tirar olhos!!!
Fábio Verissimo foi o arbitro do Benfica-Flamengo, num jogo que ficou assinalado pelo excesso de dureza que a equipa brasileira colocou em campo. Um jogador do Benfica, Jaden Umeh, enfrenta uma paragem de três meses devido a uma entrada durissima de Emerson. pic.twitter.com/CQ2pDJVJ0K
— Liga da Farsa (@ligadafarsa) July 15, 2026
Palha!!!
A audição parlamentar da ERC sobre a Benfica FM foi um festival de banalidades e de desculpas esfarrapadas para não deferir o pedido do Benfica para emitir em FM. Ficam aqui alguns exemplos. pic.twitter.com/JEki0QLeWI
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) July 15, 2026
António Silva: cortar o mal pela raiz com o patinho feio
"Todos sairão a ganhar com a provável venda do central por parte do Benfica. António Silva tornou-se num alvo fácil e precisa de mudar de ares o quanto antes
Há momentos na vida dos clubes e dos jogadores em que é necessário fechar ciclos (veja-se a autêntica revolução que Frederico Varandas decidiu levar a cabo no Sporting depois da desilusão que foi 2025/26) e, apesar de o Benfica não o ter sabido fazer nalguns casos no passado recente, como o de Nicolás Otamendi, estará a tomar a decisão correta ao permitir a saída de António Silva neste defeso.
Não só porque, face à relutância do central em renovar contrato, é a última oportunidade de ainda encaixar dinheiro — e, sem Champions, tão necessário que ele é para fazer face às exigências, já públicas, de Marco Silva para retocar um plantel caro mas desequilibrado —, mas também por se ter percebido que o defesa chegou ao fim da linha na Luz. Não terá sido, certamente, pela prestação aquém desejado no amigável com o Flamengo, entre uma equipa em início de pré-temporada e outra a meio da época, mas foram várias as falhas ao longo das últimas temporadas que foram deixando António Silva com espaço de manobra reduzido. Não só no Benfica, mas também na Seleção, e a ausência dos convocados de Roberto Martínez para o Mundial foi apenas mais uma das muitas machadadas na confiança que o jogador sofreu nos últimos tempos.
Como se isso não bastasse, o ex-selecionador, em mais um dos seus momentos comunicacionais de levar as mãos à cabeça, preferiu queimar um jovem de 22 anos em praça pública por causa de um episódio no Euro 2024, ao invés de o proteger e disso não fazer caso.
António Silva tornou-se numa espécie de patinho feio e o alvo para o qual é fácil apontar o dedo quando as coisas não correm bem. E, perto dos 23 anos, está numa fase crucial da carreira: ou faz o reset longe do Benfica, e vai muito a tempo disso, ou corre o risco de vir a ser mais um dos que muito prometeram mas acabaram por nunca corresponder às expectativas. Não há tanto tempo assim, com Ferro, o Benfica teve esse exemplo na mesma posição.
Perder António Silva e Otamendi de uma vez só obrigará a refazer as fundações da equipa e contratar com critério, até porque a condição física de Tomás Araújo é um constante ponto de interrogação. Com Lenglet, o Benfica ganha qualidade com bola e experiência, mas terá de acrescentar agressividade e poder físico ao companheiro de setor do francês. A águia tem ignorado o mercado interno, mas olhar para Ibrahima Ba (Famalicão) pode ser a aposta certa para a sucessão."
O orgulho de ser Portugal
"O desporto universitário português viveu mais uma página dourada da sua história em Varsóvia, com a conclusão do Campeonato Mundial Universitário de futsal de 2026. Numa competição que reúne anualmente a elite mundial da modalidade, ver as nossas Seleções Nacionais universitárias, feminina e masculina, subirem ambas ao pódio como vice-campeãs do mundo constitui um feito notável que deve encher todos de um orgulho incomensurável.
Não escondemos que o desfecho das duas finais frente ao Brasil trouxe o amargor próprio de quem compete focado em vencer, pois quem veste a camisola de Portugal ambiciona sempre o lugar mais alto do pódio. Contudo, uma análise ponderada dos resultados alcançados na Polónia leva-nos a uma interpretação mais aprofundada e justa, na qual a medalha de prata consagra um processo contínuo de excelência, resiliência e crescimento.
Estes resultados refletem um trabalho estruturado e, sobretudo, a parceria estratégica entre a Federação Académica do Desporto Universitário e a Federação Portuguesa de Futebol. Esta cooperação institucional e técnica na gestão das Seleções Nacionais universitárias de futsal eleva e prestigia enormemente a modalidade, permitindo proporcionar aos nossos estudantes-atletas condições de preparação de excelência. É este esforço conjunto que capacita as nossas equipas para competirem ao mais alto nível internacional e transportar a identidade e o ADN do futsal português para o contexto universitário mundial.
A Seleção feminina, liderada por Ricardo Azevedo e Luís Conceição, demonstrou em campo a qualidade técnica e a maturidade de quem já habituou o país a estar presente nos grandes palcos. Acabou por ser derrotada pela formação brasileira por três bolas a zero, num jogo em que a equipa portuguesa se apresentou superior na primeira parte e dispôs de oportunidades suficientes para mudar o curso da partida. Faltou lucidez na finalização nos momentos-chave, mas nunca faltaram alma e entrega por parte de um grupo renovado que honrou com distinção o legado do futsal feminino universitário.
Por seu turno, a Seleção masculina, orientada por Pedro Palas e Luís Silva, protagonizou uma notável caminhada de superação. Depois de ter ficado pelos quartos de final na edição de 2024, Portugal apresentou-se em 2026 com aquela que era, provavelmente, a equipa mais jovem do torneio. Na final, perante uma pesada desvantagem na primeira parte, estes jovens mostraram um caráter gigante, fizeram o adversário vacilar, lutaram com o coração em campo e mantiveram o jogo em aberto até aos segundos finais, fechando o marcador num expressivo, mas injusto, oito a cinco.
Ao longo de 36 anos de história, a Federação Académica do Desporto Universitário tem trabalhado arduamente para que o desporto seja uma dimensão preponderante da vida académica. A participação em Varsóvia é o espelho exato dessa missão, ao demonstrar que é perfeitamente possível conciliar a exigência do ensino superior com o rendimento desportivo de alto nível.
Como os nossos selecionadores e capitães referiram no encerramento da competição, estes torneios proporcionam o crescimento de que uma equipa jovem precisa para amadurecer. Em finais mundiais, os pormenores fazem a diferença e os erros são caros, mas é precisamente através destas lições e do sofrimento desportivo que se constrói o caminho para os títulos de amanhã.
A todas as nossas e nossos estudantes-atletas, às equipas técnicas e a todo o staff que representaram Portugal na Polónia, deixo o meu mais profundo agradecimento por terem demonstrado que o desporto universitário português tem um presente e um futuro brilhantes. Regressamos a Portugal de cabeça erguida, como vice-campeões do mundo, conscientes de que somos uma nação académica que sabe trabalhar e lutar, e que continuará a elevar o nome do país além-fronteiras."
Quando um clube histórico fecha as portas perdemos todos
"Quando um clube histórico fecha as portas, perdemos todos
Hoje o Boavista fechou as portas.
Independentemente das decisões judiciais, das responsabilidades de quem dirigiu o clube ao longo dos anos ou das circunstâncias que conduziram a este desfecho, há uma realidade impossível de ignorar: o futebol português ficou hoje mais pobre.
O Boavista não é apenas um emblema. É um campeão nacional. É um vencedor da Taça de Portugal. É um estádio cheio de memórias. É uma identidade construída ao longo de mais de um século por milhares de famílias que passaram o amor ao clube de geração em geração.
Quando um clube destes desaparece, não desaparece apenas uma sociedade desportiva.
Desaparece um pedaço da nossa história.
Infelizmente, o Boavista não está sozinho. Antes dele caíram o Vitória de Setúbal, o Beira-Mar, o Salgueiros, o Olhanense e tantos outros que fizeram parte da identidade do futebol português. Clubes que deram internacionais, encheram estádios, conquistaram títulos e escreveram capítulos que jamais poderão ser apagados dos livros.
A pergunta que devemos fazer é simples: como chegámos aqui?
Durante anos fomos convencidos de que a sustentabilidade do futebol se mede quase exclusivamente pela apresentação de declarações de não dívida, pelo cumprimento de obrigações fiscais e por controlos salariais. Tudo isso é importante. Ninguém o discute.
Mas será suficiente?
Os números dizem-nos que não.
No encerramento das contas da última época, 11 dos 18 clubes da I Liga apresentavam capitais próprios negativos. Em conjunto, acumulavam um passivo superior a 1.732 milhões de euros. Em termos contabilísticos, a maioria do futebol profissional português vive numa situação de enorme fragilidade.
Perante esta realidade, será legítimo perguntar se o modelo de controlo que seguimos há tantos anos está verdadeiramente a proteger o futebol… ou apenas a adiar problemas maiores.
Ao mesmo tempo, assistimos a um fenómeno silencioso.
Cada vez mais investidores escolhem clubes sem massa associativa, sem pressão e sem história. É uma opção perfeitamente legítima do ponto de vista empresarial.
Mas o resultado está à vista.
Temos estádios vazios. Clubes desligados das suas comunidades. Equipas que jogam a dezenas de quilómetros da cidade que representam. Recintos com capacidade para mais pessoas do que habitantes existem na própria localidade.
E, enquanto isso acontece, os clubes históricos continuam a desaparecer.
Perde o futebol.
Perdem as cidades.
Perdem as regiões.
Perdem as novas gerações, que deixam de crescer com a rivalidade saudável entre clubes que davam vida às suas comunidades.
O futebol nunca foi apenas um negócio.
O futebol é pertença.
É memória.
É identidade.
É o avô que leva o neto pela primeira vez ao estádio. É a camisola herdada do pai. É a rua cheia depois de uma subida de divisão. É uma cidade inteira que encontra no seu clube uma forma de se reconhecer.
Quando um desses clubes morre, nenhuma nova sociedade desportiva consegue substituir esse património emocional.
Falo disto também por experiência.
Quando aceitei ajudar a reconstruir o Estrela da Amadora, fi-lo porque acreditava que a história não podia terminar ali. O mérito dessa refundação pertence, antes de mais, aos seus refundadores, que nunca deixaram morrer a chama do clube. A partir dessa base, houve quem acreditasse que era possível devolver o Estrela ao lugar onde a sua história sempre o colocou.
Recuperar um clube histórico não significa apenas voltar às competições.
Significa recuperar uma identidade.
Recuperar um estádio.
Recuperar símbolos.
Recuperar memórias.
Recuperar o orgulho de uma comunidade inteira.
É um caminho longo, difícil e muitas vezes incompreendido. Mas quando se acredita verdadeiramente no valor da história, percebe-se que há patrimónios que não podem ser medidos apenas por um balanço financeiro.
Por isso, hoje não escrevo apenas sobre o Boavista.
Escrevo sobre todos os clubes históricos que lutam diariamente para sobreviver.
Porque o futebol português precisa dos seus grandes clubes regionais. Precisa das suas rivalidades. Precisa das suas cidades representadas ao mais alto nível. Precisa da emoção que só a história consegue criar.
Espero sinceramente que, tal como aconteceu com o Farense, com o Estrela da Amadora e com outros exemplos de resistência, também o Boavista encontre força para renascer.
Os clubes centenários podem cair.
Mas a sua história nunca deve morrer.
Porque há instituições que pertencem aos seus adeptos, às suas cidades e ao património coletivo do nosso país.
E enquanto houver alguém disposto a acreditar nelas, haverá sempre esperança.
Ao Boavista, deixo apenas uma palavra:
Até já."
Que significará para a Europa se a final do Mundial de 2030 for em Casablanca?
"A escolha da cidade da final do Mundial de 2030 será uma decisão geopolítica. Se a FIFA atribuir a final a Marrocos, essa escolha constituirá uma das mais simbólicas evidências da perda de influência da Europa no mundo contemporâneo.
O Mundial do centenário será disputado em seis países e três continentes. Começará na América do Sul, prosseguirá na Europa e em África. Terminará em Casablanca?
Muitos europeus diriam que a escolha de Casablanca teria resultado de interesses políticos ou de jogos de bastidores. A realidade é mais exigente. Se isso acontecer, será a consequência natural de uma transformação da ordem mundial iniciada há muitas décadas.
A Europa habituou-se a pensar que a sua história lhe garantia influência permanente. Porém, a influência nunca é um direito adquirido. Conquista-se, preserva-se e, quando deixa de existir estratégia, perde-se.
Essa dificuldade revela-se até na forma como a União Europeia escolheu representar-se. Ao fixar o seu centro político em Bruxelas, em vez de Roma, optou por uma capital administrativa e não pelo maior símbolo da continuidade histórica da civilização europeia.
Roma representa o direito, a cidadania, a administração pública, a construção de um espaço político comum e a ideia de uma vocação universal que moldou o Ocidente durante séculos. Os símbolos não governam, mas ajudam as civilizações a acreditar em si próprias. Quando deixam de os valorizar, já estão a perder muito mais do que a memória.
Durante séculos, a Europa foi o centro económico, científico, político e cultural do mundo. No século XX, duas guerras mundiais deslocaram progressivamente o centro do poder para os Estados Unidos.
O futebol acompanhou essa evolução. Foi aqui que nasceu o jogo moderno, onde foram fundados os maiores clubes e ainda hoje se disputam as competições mais prestigiadas. Mas uma coisa é concentrar talento, tradição e riqueza; outra, muito diferente, é conservar a capacidade de definir as regras.
João Havelange percebeu essa diferença antes de todos. Em 1974 compreendeu que, na FIFA, a história e os títulos não votavam. Votavam as federações, todas exatamente com o mesmo peso.
Enquanto a Europa continuava a olhar para a FIFA como uma extensão natural da sua superioridade futebolística, Havelange percebeu que o verdadeiro poder estava nos novos países independentes de África e da Ásia e nas federações da América Latina.
Stanley Rous, presidente inglês da FIFA e símbolo da velha ordem europeia, acreditava que a tradição e a autoridade histórica bastariam para vencer. Não bastaram.
A vitória de Havelange representou muito mais do que uma mudança de presidente. Foi a primeira grande derrota política da Europa dentro da FIFA e marcou o início de uma nova distribuição de poder que perdura até hoje.
A Europa deixou de controlar o centro de decisão. A partir desse momento, manter a influência passou a depender muito mais da capacidade de construir alianças do que da força da sua própria história.
A perda de influência começa quando se perde a estratégia. E a estratégia começa a perder-se na forma como o poder decide.
A tradição política grega valorizava o confronto de argumentos antes da decisão. Muitos dos melhores governantes romanos rodeavam-se de homens livres, independentes o suficiente para discordarem. Sabiam que as decisões mais sólidas nascem do contraditório e não da unanimidade.
O declínio instala-se quando os mais livres e competentes passam a ser incómodos e são substituídos pelos mais obedientes. O debate desaparece, instala-se o pensamento de grupo e as decisões deixam de ser verdadeiramente testadas.
O início do declínio de uma organização não é a falta de talento, é a expulsão do pensamento livre da proximidade do poder.
Hoje, Marrocos é um dos países estrategicamente mais relevantes do mundo.
É parceiro essencial dos Estados Unidos e da União Europeia no Magrebe, plataforma logística entre a Europa, África e o Atlântico e uma potência diplomática crescente no continente africano e no mundo árabe.
Percebeu igualmente que o futebol se transformou num instrumento de projeção internacional. A organização do Mundial faz parte de uma estratégia nacional muito mais ampla de afirmação geopolítica.
Também a FIFA mudou profundamente e o momento decisivo foi o FIFAGate.
Em maio de 2015, dirigentes da FIFA foram detidos, em Zurique, pelas autoridades norte-americanas. O escândalo revelou um sistema de corrupção instalado durante décadas, conduziu à queda de Joseph Blatter, afastou Michel Platini da sucessão e provocou a maior transformação institucional da história da organização.
O mais relevante não foi a corrupção revelada. Foi perceber que a FIFA deixara de ser suficientemente poderosa para viver acima da geopolítica internacional.
Gianni Infantino, eleito presidente da FIFA poucos meses depois, assistiu de perto ao colapso do antigo sistema.
No século XXI, os votos continuam a ser indispensáveis, mas já não são suficientes. Hoje, compreender a FIFA implica compreender a geopolítica.
Se a FIFA escolher Casablanca, não estará apenas a indicar onde se joga uma final, estará a reconhecer que o centro de gravidade da influência global não coincide com o centro histórico do futebol.
Mas esta reflexão não diz respeito apenas à Europa ou à FIFA.
Também o futebol português deveria fazer este exercício de consciência. As suas instituições cultivam verdadeiramente a proximidade de homens livres, capazes de discordar sem receio e de melhorar as decisões? Ou tendem a afastar quem manifesta pensamento independente, premiando sobretudo a lealdade pessoal e a conformidade?
Uma organização que transforma o contraditório numa ameaça começa, muitas vezes sem o perceber, a perder estratégia muito antes de perder resultados.
As derrotas tornam-se visíveis no dia em que chegam os resultados. Mas começam muito antes, no dia em que o poder deixa de ouvir quem pensa de forma diferente."
A equipa que falta
"Portugal nunca teve falta de jogadores.
Ao longo das últimas duas décadas habituámo-nos a ver portugueses nos maiores clubes do mundo. Tivemos Bolas de Ouro, vencedores da Liga dos Campeões, campeões europeus e jogadores que discutem, todos os anos, o lugar entre os melhores do planeta. Há poucas seleções que possam apresentar um património individual desta dimensão. Se olharmos apenas para o talento, Portugal entra em qualquer competição com legitimidade para pensar em ganhá-la.
O problema é que o futebol nunca se resolveu apenas com talento.
Uma equipa não nasce da soma dos melhores jogadores. Nasce quando esses jogadores deixam de parecer onze carreiras brilhantes e passam a parecer uma ideia comum. Quando cada um melhora o outro. Quando existe uma forma de jogar suficientemente clara para sobreviver aos dias em que o talento individual não resolve tudo.
É por isso que continuo convencido de que Portugal teve, muitas vezes, mais jogadores do que equipa.
Não é uma crítica destrutiva. É apenas uma constatação.
Seria profundamente injusto ignorar aquilo que esta geração conquistou. Ganhou um Campeonato da Europa. Conquistou duas Ligas das Nações. Habituou-nos a discutir qualquer competição com as melhores seleções do mundo. Tudo isso ficará para sempre na história do futebol português.
Mas os títulos não impedem uma reflexão.
Poucas vezes tivemos uma Seleção que impressionasse de forma consistente pelo futebol que praticava. Houve grandes exibições, naturalmente. Houve jogos memoráveis e momentos de enorme qualidade. Mas também houve demasiadas partidas em que ficava a sensação de que a qualidade individual escondia problemas coletivos que nunca chegaram verdadeiramente a desaparecer.
O Mundial voltou a deixar essa impressão.
Portugal tinha soluções para quase todas as posições, jogadores decisivos nos maiores campeonatos da Europa e recursos que qualquer selecionador gostaria de ter. Ainda assim, raramente deu a sensação de controlar os jogos através da sua própria identidade. Havia talento suficiente para dominar. Nem sempre havia uma equipa que dominasse.
Talvez seja injusto exigir isso a uma seleção nacional. Os treinadores trabalham poucos dias por ano com os jogadores. Não constroem automatismos como um treinador de clube. Não escolhem reforços. Não contratam perfis específicos. Herdam uma geração e tentam aproveitá-la da melhor forma possível.
Tudo isso é verdade.
Mas também é verdade que algumas seleções conseguem, apesar dessas limitações, criar uma identidade reconhecível. Não dependem apenas do resultado para serem lembradas. Dependem da forma como jogam.
Foi por isso que gostei da escolha de Jorge Jesus.
Não porque ache que exista um treinador capaz de resolver tudo.
Também não porque acredite que uma conferência de imprensa muda o destino de uma equipa.
Gostei porque Jorge Jesus sempre me pareceu um treinador obcecado por uma ideia muito simples: construir equipas que se reconhecem.
Ao longo da carreira ganhou muito. Também perdeu muito. Teve equipas extraordinárias e outras bastante menos conseguidas. A segunda passagem pelo Benfica ficou muito longe da primeira e seria absurdo fingir o contrário. Quem acompanha futebol sabe que a carreira dele está longe de ser uma linha reta.
Mas há uma característica que nunca perdeu.
As equipas dele tinham identidade.
Podíamos preferir umas às outras. Discordar de opções, discutir substituições, questionar insistências ou criticar resultados. O debate fazia parte. O que dificilmente podíamos dizer era que aquelas equipas não tinham uma marca. Bastavam alguns minutos para percebermos o que procuravam fazer, onde queriam recuperar a bola, como ocupavam o campo e que tipo de jogo tentavam impor ao adversário.
Isso vale muito mais do que às vezes estamos dispostos a admitir.
Hoje o futebol evoluiu imenso. Os treinadores estão mais preparados, trabalham com mais informação, conhecem melhor o jogo e têm ferramentas extraordinárias à sua disposição. O conhecimento aumentou e isso tornou o futebol melhor.
Mas também tornou muitas equipas mais parecidas.
É cada vez mais difícil identificar a mão de um treinador apenas a olhar para um jogo. Muitas equipas jogam bem. Poucas parecem verdadeiramente diferentes. Poucas têm uma identidade tão forte que dispense a legenda.
Jorge Jesus sempre escapou a essa uniformização.
Não apenas nas equipas que treinou.
Também na forma como vive o futebol.
Nunca me interessou particularmente a discussão sobre as calinadas ou sobre a maneira como comunicava. Sempre achei que isso dizia muito menos sobre ele do que aquilo que acontecia ao domingo dentro das quatro linhas.
O que me interessa é outra coisa.
As equipas refletiam a personalidade do treinador.
Tinham intensidade porque ele acreditava nela.
Tinham coragem porque ele a exigia.
Tinham defeitos, naturalmente. Também herdavam algumas das timosias do treinador. Mas nunca davam a sensação de serem equipas sem rosto.
Essa coerência sempre me pareceu uma qualidade rara.
Dentro de campo havia uma identidade.
Fora dele também.
É precisamente por isso que olho para esta chegada à Seleção com curiosidade.
Não espero milagres.
Nem acredito que Portugal vá, de repente, transformar-se na melhor equipa do mundo.
O futebol não funciona assim e a história ensina-nos a desconfiar das expectativas demasiado altas.
O que espero é muito mais simples.
Gostava de voltar a reconhecer Portugal pelo futebol que joga e não apenas pela qualidade dos jogadores que apresenta.
Gostava que deixássemos de depender, tantas vezes, do momento de inspiração de um talento individual para passarmos a depender de uma ideia coletiva.
Gostava que, ao fim de dez minutos, fosse possível perceber o que esta equipa quer ser.
É uma ambição exigente.
Mas parece-me uma ambição à altura dos jogadores que temos.
Quando terminou a conferência de imprensa de apresentação de Jorge Jesus, reparei numa coisa.
Não fiquei a pensar em quem seria convocado.
Nem em quem perderia o lugar.
Nem sequer comecei a construir um onze na cabeça, como tantas vezes acontece quando muda um selecionador.
Fiquei a pensar apenas numa pergunta.
Como vai jogar Portugal?
Talvez seja essa a pergunta que devíamos ter feito mais vezes nos últimos anos.
Porque os jogadores sempre estiveram lá.
A equipa é que continua por construir."
A equipa, sempre!
"Duas ideias, duas identidades. Uma engoliu a outra. A Espanha nem precisou que a sua maior estrela, que não chegou ao Mundial na maior das condições, fosse decisiva. Mesmo quando arrancou o penálti de Digne, houve mais infantilidade do lateral do que génio do menino. Apenas matreirice. Yamal deu algumas dores de cabeça e não foi necessário mais.
A Roja quis, como sempre, a sua mais-que-tudo. Com esta, estabeleceu as condições em que se ia jogar. Diminuiu o número de situações em que podia ser ferida. Sem bola, foi agressiva, ativou a contra-pressão para recuperá-la, mas esteve sobretudo blindada. Rodri nunca perdeu de vista o melhor francês do torneio, Olise, e a entreajuda anulou sucessivamente Dembélé, Mbappé e Barcola (e depois Doué e Cherki). Unai Simón esteve fortíssimo no controlo da profundidade. E permitam-me que sublinhe novamente Olmo. Joga como se fosse sempre obrigado a provar algo e fá-lo com gosto.
Les Bleus não deixaram o relvado sem ouvir olés. E, apesar de não ser bonito, mereceram-nos. Não houve vertigem. O génio foi totalmente anulado. A equipa com maior densidade de talento por cromossoma, hiperfavorita, caiu diante de um jogar consolidado, que de tempos a tempos ressurge, com alelos um pouco diferentes, para reconquistar o mundo.
Em casa, dentro das suas fronteiras, os gauleses viram um espanhol levar o PSG ao bicampeonato continental. Só que não há nenhum Luis Enrique, um verdadeiro arquiteto, no gestor Deschamps. O selecionador terá sempre 2018 e o seu capítulo na história, ainda que tenha passado várias vezes ao lado da glória sem consequências. Virá Zidane e terá uma Geração de Ouro para trabalhar. Já Mbappé daqui a umas semanas voltará a Madrid, mas não como herói. Para uma equipa dependente do individual, ainda que com um novo treinador. E uma ideia bem coletiva no topo do ecossistema: o Barcelona."
O império do impulso
"Minuto 44 do empolgante Noruega-Inglaterra. Está 1-0 para a Noruega. De repente, uma recuperação rápida de bola e a seleção inglesa é apanhada completamente em contrapé: dois para um à entrada do meio-campo inglês! Sørloth conduz a bola pela direita. Pela esquerda está o temível Haaland. Stones vai recuando, preenchendo o espaço no meio, na expetativa de como a jogada se irá realizar. Todo o estádio e todo o mundo que assiste ao jogo antecipa o 2-0.
Stones posiciona-se entre os dois atacantes e dificulta o passe direto, mas deixa as suas costas completamente livres para um passe em profundidade que isolaria Haaland. Mas eis que Sørloth, em vez de passar a bola, dá um toque para a frente e, depois, decide caminhar para área e tentar marcar. Stones e um companheiro, que entretanto veio em seu auxílio, aproximam-se e bloqueiam o remate.
Em vez de golo, a bola morre nas mãos de Pickford, o guarda-redes inglês. Fica Haaland a apontar para o terreno à sua frente, como que a dizer que lhe deveria ter passado a bola no espaço livre. Oportunidade perdida por uma má decisão, ninguém duvida. Aos 45+2, golpe de teatro, com Jude Bellingham, a empatar. A Inglaterra acabaria depois como é sabido, a virar o resultado no prolongamento e a passar às meias-finais.
Pouco depois as redes sociais ficaram repletas de vídeos e mensagens a criticar Sørloth. Uma autêntica avalanche. Façam scroll e vejam as centenas de vídeos. 'Foi por isto que a Noruega perdeu!', 'Puro egoísmo de Sørloth!!'. Num tom sempre muito inflamado.
Críticas, críticas e mais críticas. Mas não ficou por aqui. Ficamos a saber pela companheira de Sørloth, Lena Selnes, que houve mensagens mais intimidantes dirigidas ao jogador e também a ela. 'Diz ao teu marido para deixar a Noruega e saltar de um penhasco', 'Pega no teu namorado e morram, é a única maneira' ou 'Vou matá-lo'.
Ódio puro, à solta. Muitas vezes à boleia do anonimato. Absolutamente condenável, é certo, e condenado por vários meios de comunicação social. Porém, julgo ser importante fazer algo mais do que condenar. É algo tão aberrante que é preciso ser compreendido para sermos mais capazes na sua prevenção. Que provavelmente nunca será total, mas valerá a pena ser pensada.
Sørloth nem sequer é caso único neste Mundial. Jáminton Campaz, da Colômbia, talvez ainda mais pesado. Falhou uma ocasião de golo no prolongamento contra a Suíça. A equipa acabou depois por perder nas grandes penalidades. Resultado: ameaças de morte dirigidas a ele e à família. Campaz acabou por restringir os comentários nas redes e a não regressar à Colômbia com a equipa, como medida de segurança.
E aqui a memória trouxe-lhe com toda a certeza à mente a tragédia de Andrés Escobar, assassinado em 1994, depois de anotar um autogolo no Mundial dos EUA. Não havia redes sociais, mas já havia armas e já havia ódio. Estaremos todos, ou quase todos, de acordo que isto são coisas a erradicar. Porém, não é isso que vemos acontecer. Como os incêndios de verão, que se reacendem quando a temperatura sobe.
É tão absurdo, isto, que só apetece berrar para a humanidade que “isto é só um jogo”. Mas mesmo que fosse mais do que um jogo. São vidas humanas, e toda a vida merece-nos um profundo respeito, que aqui vemos a serem calcadas. Por isso, paro aqui um pouco para tentar perceber o que se passa na mente humana sobre estes momentos.
As reações extremadas dos adeptos revelam algo que já sabemos: antes de pensar, sentimos, e o que sentimos dita grande parte do que conseguimos pensar. Em condições normais, depois de surgir um sentimento, há oportunidade de elaboração, ou seja, usar a nossa mente reflexiva e analítica para pôr em palavras (ou noutras formas complexas de elaboração) o que de outro modo fica como afeto meramente corporizado.
Quando tal elaboração não acontece, as nossas capacidades de pensamento ficam empobrecidas. A realidade, os factos reais, passam a ser interpretados por um número muito reduzido de elementos. Reduz-se drasticamente a capacidade de raciocínio. O resultado é que o afeto se torna um impulso de muito difícil gestão e passa a tomar conta da pessoa. É o império do impulso.
É o que acontece quando a nossa equipa joga. Um jogador cai na área. É nosso? Afetivamente queremos penálti, logo pensamos que o é. É deles? Torna-se óbvio que não é. A todo o adepto acontece isto, pelo menos por momentos. As regras, a elaboração, as explicações poderão atenuar o primeiro olhar, mas a tendência é natural. Porque, de facto, a capacidade de raciocínio fica toldada pelas nossas preferências. É o nós contra eles, os bons e os maus, os amigos e os inimigos.
Voltemos a Sørloth. Aos olhos do adepto, não passar a bola deixa de poder ser outra coisa. Passa a ser uma traição. E já não é um lance que está em causa, é a pessoa inteira. O ódio não distingue entre o lance, o jogador, ou a companheira e até o filho: o afeto totalizador não conhece fronteiras entre objetos, funciona como um campo que tinge tudo o que toca. E, depois, toma conta do controlo das ações, a pessoa passa a agir de modo impulsivo, inundada com um enorme desejo de destruição.
O mais grave é que isto não se passa apenas na esfera do futebol. Não é novo, e o caso de Andrés Escobar mostra-nos isto claramente. Porém, a extensão e facilidade com que acontece é de um (pouco) admirável mundo novo. Escrevi há uns 10 anos uma outra crónica sobre o ódio andar à solta, preocupado com os tempos que estávamos a atravessar. Isso só se acentuou desde então, com a expansão contínua das redes sociais e da facilidade de contacto.
O adepto que ameaça Sørloth e o eleitor que precisa de um inimigo político estão a fazer, semioticamente, a mesma coisa. O estádio passa a ser apenas um laboratório do que se passa na sociedade.
O que fazer, então. Elaboremos. Falemos articuladamente do que se passou. Aprendamos a viver com a frustração e a lidar com os sentimentos penosos que tal acarreta. A raiva destrutiva não deve ser apenas temporariamente contida; deve haver lugar a que o adepto frustrado – ou qualquer pessoa com tal sentimento – que se expresse, que o ponha em palavras. Gradualmente, à medida que o sentimento se apaziguar, haverá oportunidade para se pensar de um modo distinto e considerar outras possibilidades de interpretar o que se passou. E finalmente, de agir de outro modo.
Porque mesmo que seja feito de modo anónimo, como disse Bakhtin, não temos álibi na existência e haverá sempre alguém que sabe o que fez: o próprio autor da agressão. E essa sombra tenderá a ser muito, muito longa e amarga."
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Imagens exclusivas...
ERClubite. Não foram capazes de justificar porque recusaram a rádio no FM. Foi isto a CPI toda! pic.twitter.com/tV0RxqBPCp
— Chica-espertice (@followforvides) July 14, 2026
Atualidade do Benfica
"Esta edição da BNews é dedicada a vários temas do quotidiano benfiquista.
1. Empréstimo
João Veloso vai evoluir no Moreirense.
2. Expectativas de uma boa época
Os Juniores já fazem trabalho de campo.
3. Movimentações do defeso
Anderson Fortes reforça o plantel de futsal do Benfica. A futebolista Matilde Matos assina contrato profissional. E José Silva deixa de representar o basquetebol encarnado após 9 temporadas.
4. Contributo internacional
Gabriela Fernandes ajudou Portugal a vencer o Campeonato da Europa Sub-20 da Divisão B de basquetebol.
5. Chamadas internacionais
Tiago Silva e Tomás Natário Teixeira estão convocados pela seleção nacional de voleibol. Na mesma modalidade, os Sub-19 portugueses contam com quatro atletas do Benfica.
6. Taça do Mundo de velocidade
Fernando Pimenta alcançou duas medalhas de ouro. O canoísta do Benfica está empenhado em obter o apuramento para os próximos Jogos Olímpicos já este ano.
7. Judo – Cerimónia de Graduação
"É um dos momentos mais importantes da época", realça Telma Monteiro, coordenadora do judo do Benfica."
Tomada de decisão
"Exemplos de como os detalhes importam
Tomada de decisão. Além de ser um dos atributos mais importantes do futebol moderno, é também uma das terminologias mais utilizadas por treinadores, analistas e comentadores de futebol. Por norma, associa-se aos momentos com bola, mas também se tomam decisões sem ela. Tal como se tomam decisões a partir do banco de suplentes.
Bernardo Silva e Bruno Fernandes decidiram contestar a decisão do árbitro que havia assinalado falta sobre Mikel Merino. A contestação levou-os a perder o foco durante breves segundos, o suficiente para o mesmo Merino repor rapidamente a bola em jogo. A jogada desenrolou-se, Diogo Dalot focou-se apenas na bola enquanto Rúben Dias decidiu encurtar sobre Ferran Torres. Todos sabemos o que a soma destas decisões sem bola custou a Portugal – um golo e o adeus ao Mundial.
Gabriel Magalhães, velho conhecido de Haaland na Premier League, decidiu afundar para proteger o espaço junto à baliza de Alisson. Sem bola, não orientou os apoios de forma a poder disputar o duelo aéreo e, pior do que isso, focou-se apenas na bola. Perdeu a noção do espaço à sua volta que poderia ser atacado por Haaland, perdendo igualmente a referência na marcação. Schelderup cruzou com conta, peso e medida, o goleador norueguês fez o que melhor sabe e abriu as portas do adeus canarinho ao Mundial 2026.
Sorloth será o rosto mais visível da importância de uma boa tomada de decisão com bola por parte de um jogador. A Noruega vencia por 1-0 e, prestes a fechar a primeira parte, Oddegard isolou Sorloth em contra-ataque. A vantagem numérica e posicional favorável à Noruega pedia o passe de Sorloth para Haaland. O nº 7 norueguês decidiu resolver a jogada individualmente. Perdeu tempo e espaço. Não criou perigo. Minutos depois Bellingham empatava a partida.
No banco, Carlo Ancelotti decidiu lançar Neymar em campo quando ainda havia 0-0 no marcador frente à Noruega. Optou ainda por derivar Endrick para o corredor lateral direito, de modo a não expor Neymar. O Brasil nunca mais criou perigo e Haaland fez o resto.
Thomas Tuchel perdia ao intervalo frente à Noruega. Optou por deixar Rice e Madueke nos balneários, lançando Eze e Saka nos seus lugares. A Inglaterra instalou-se definitivamente no meio-campo ofensivo, operou a reviravolta e obrigou a Noruega a regressar mais cedo a casa.
E ainda que a tomada de decisão possa ser treinada e que o contexto seja fulcral para a mesma, nada importa mais do que a cabeça do decisor. Seja ele jogador ou treinador."
E afinal que portugueses ficam no Mundial até ao fim?
"Estão nas meias-finais do Mundial as quatro melhores seleções — mesmo — e... já agora os 13 melhores árbitros. Um deles é português, embora isso pouco nos orgulhe por cá
Entramos na reta final do 23.º Campeonato do Mundo com a reconfortante sensação de que chegam à fase decisiva as quatro melhores equipas quer do torneio quer da atualidade. Claro que os oitavos de final souberam a pouco aos portugueses, mas patriotismos e preferências à parte será difícil não interpretar o naipe de semifinalistas com uma sensação de justiça apurada. França, Espanha, Argentina e Inglaterra são mesmo as melhores seleções do Mundo nos dias que correm.
Brasil e Alemanha, os outros colossos eliminados, pouco mostraram que justificasse outro fim. Percorrido o mapa de eternos favoritos (e tendo em conta que a Itália não veio sequer a jogo), importa olhar para a segunda linha de candidatos.
Sobre Portugal, que até eliminou a Croácia, há pouco a acrescentar. A Bélgica e os Países Baixos foram mais ou menos iguais a si próprios, ou ao que têm sido nos últimos anos, e o Uruguai há muito que saiu deste lote
Do lado das boas surpresas temos Cabo Verde (à sua escala, que nos nossos afetos é maior e ainda bem), Estados Unidos, Marrocos, Suíça e Noruega.
Se pensarmos que a Suíça, de 2016 para cá e falando de Europeus e Mundiais (a Liga das Nações é uma coisa muito portuguesa, ainda), fez o mesmo que Portugal nas fases finais, sobra então a Noruega como melhor não-semifinalista deste torneio. De longe, diria.
Mas o futebol do Mundial não são só as seleções e aí Portugal tem um motivo de orgulho ao qual liga pouco e se for preciso ainda despreza: neste momento, João Pinheiro e os assistentes Bruno Jesus e Luciano Maia são os únicos portugueses que ainda podem sonhar com a final.
Ao que se sabe é improvável tal acontecer, mas estar entre os 13 árbitros que ficam até ao fim, sendo que oito serão nomeados para os quatro jogos (árbitro e quarto árbitro), é proeza à qual estamos a dar muito pouca importância.
Chamado como árbitro principal para três jogos até ao momento (mais um como quarto árbitro), teve decisões de risco para tomar e tomou-as todas de forma correta, com ajuda do VAR.
Podem contestar-se as regras e os protocolos (eu também tenho um fraquinho nostálgico pelo futebol sem VAR, confesso), mas questionar o que é óbvio perante a tecnologia e as normas existentes não é, de todo, sensato.
João Pinheiro e a respetiva equipa devem orgulhar Portugal, sim. Mesmo que nos preparemos para mais um ano inteiro a dizer mal deles e dos colegas todos, na maioria das vezes como justificação fácil para insucessos e grãos de areia para os olhos dos adeptos."
Há aí algum abraço para Sorloth?
"O futebol é feito de ‘ses’, mas nenhum deles fica para a história, por maior que seja. Não há realidades alternativas, apenas uma, ainda que possa ser formada por várias versões. No intervalo de todas elas, estão os factos, o que deve continuar a ser contado de geração a geração, ainda que com liberdade criativa. Porque é nessa dimensão que habitam os heróis e nós, sem eles, demoramos mais tempo a conseguir ser melhores humanos.
No Noruega-Inglaterra, mais do que o bis de Bellingham ou o erro de Nyland, expiado com quem mais interessa, mulher e filhos, naquele abraço coletivo em que cada um segurava o próximo para que não caísse ao abismo, o que permanece é a encruzilhada em que Sorloth se despistou. Porque aquele «o que seria se tivesse passado a Haaland, e este feito o 2-0?» ecoou depois a cada rugido dos Três Leões até ao final.
E nós até os protegemos. Se fosse um médio, nada seria mais imperdoável, mas um avançado, que se alimenta dos golos que marca, já tem direito a uma dose considerável de egoísmo. É verdade que a decisão pode ser trabalhada, mas quem decide é quem tem a oportunidade. Um treinador pode escolher o jogador que decide sempre bem e, ainda assim, num jogo, este pode errar.
Sorloth engasgou-se nessa fome num 1x1 forçado, em que O’Reilly só teve de apostar no mais provável. Fechou-lhe o melhor pé e a jogada perdeu-se.
Há quem culpe os dois pontas de lanças em simultâneo. A tal teoria do egocentrismo. Em superioridade, no 2 para 1, Sorloth apostou em si. Ainda não tinha marcado no Mundial, não conseguia lidar com mais dias de ressaca. Todavia, pode não ter sido só isso. Será que o gigante não congelou e se embrulhou na solenidade do momento?
Onde ao lixo da humanidade é permitido sê-lo sem restrições, sucederam-se ameaças e insultos. Ninguém lhe ofereceu um abraço que o sustente sobre o próprio abismo. Sorloth pareceu demasiado egoísta para tê-lo realmente sido."
Os heróis do Mundial
"Um guarda-redes que faz um arquipélago sonhar; um treinador que usa o microfone para não deixar esquecer um genocídio; um mago da bola que combate o racismo sem hesitações. Os heróis de um Mundial nem sempre são os que levam a taça. Às vezes são os que lembram as bancadas de que o futebol continua ligado à vida real e que a maior competição do planeta não serve só para marcar golos.
Vozinha - pequeno no nome, gigante nas redes. Espantou o Mundo e pôs metade dele a torcer por Cabo Verde. Levou um país de meio milhão de habitantes agarrado às luvas e, contrariando todas as probabilidades, defendeu o orgulho nacional como Cesária Évora ou Amílcar Cabral. O nome que tem nas costas vem do tempo em que era menino e levava pancada dos rapazes mais velhos no futebol de rua. Ia de cara trancada de volta para a casa da avó que o criou quando as coisas não lhe corriam bem. Os outros riam-se do mau perder. "Vai lá ter com a avozinha", diziam. E assim ficou: Vozinha. Passaram quase 40 anos desde esses tempos na ilha de São Vicente e hoje a dona Maria já cá não está, mas o resto do Mundo esteve na vez dela. Vozinha não é o rosto da Adidas, não promove casas de apostas, não faz publicidade à Linic nem tem encontros na Casa Branca. Não leva o estilo de vida estratosférico dos ídolos milionários do mundo da bola. É só um homem comum com mãos firmes, que ajudou a seleção que representa a chegar onde nunca antes tinha chegado.
Hossam Hassan - técnico de coragem. Conseguiu interromper o ruído do futebol para lembrar um silêncio ensurdecedor. Enquanto os outros treinadores falavam de esquemas táticos, lesões ou arbitragens, o selecionador do Egito aproveitou os holofotes das conferências de Imprensa para lembrar o horror de Gaza. Não pediu penáltis, pediu humanidade. Não reclamou tempo de compensação, reclamou tempo para olhar para quem continua a viver entre bombas. "Eu imploro, deixem o povo palestiniano viver! É só isso que eles querem", disse antes de defrontar a Argentina. Sabe que o futebol não trava uma guerra, mas também sabe que um Mundial oferece um palco para se ser visto. Ele preferiu ser ouvido.
Kylian Mbappé - craque dentro e fora de campo. Após a derrota do Paraguai para a seleção francesa, a senadora Celeste Amarilla fez um chorrilho de comentários racistas sobre a origem e educação do jogador francês. Chamou-o de "camaronês colonizado" e insinuou que havia crescido na selva, rodeado por macacos. Sem surpresas, Mbappé foi capitão fora das quatro linhas e virou o jogo, apontando o lado da vergonha, da indignidade e do "racismo descarado". "É indigna do seu cargo. Não representa o Paraguai, que demonstrou paixão e honra ao longo de toda a competição", respondeu.
Os campeões escrevem a história do futebol. Os heróis escrevem a história das pessoas."
Vamos a isto!
"1. Terminou sem glória a expedição da equipa da
Federação Portuguesa e Futebol ao Mundial de
futebol. Uma fase de grupos cumprida burocraticamente, um mata-mata com a Croácia em que a
seleção foi quase sempre inferior ao adversário
tendo a seu favor a sorte do jogo, a simpatia do VAR
que anulou três golos aos croatas e, por fim, a
cabeça de Gonçalo Ramos para tudo se acabar na
segunda-feira, frente aos espanhóis, tal como era
de esperar.
2. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol
já tratou de se desresponsabilizar. Fê-lo rapidamente atirando para Fernando Gomes, o seu antecessor, os créditos pela contratação de Roberto
Martínez. “Quando assumimos a FPF, tínhamos
plena consciência de que esta não era a nossa
opção”, disse com aquele oportunismo que o
caracteriza.
3. Realmente foi um grande azar para Pedro Proença
a vitória de há um ano na Liga das Nações que
impediu o despedimento do selecionador nacional
Martínez tal como estava programada. Mas o presidente da FPF não é o sujeito mais azarado destas
digressões da seleção nacional, façamos-lhe justiça, até porque Proença tem, cá por casa, imensas
coisas com que se preocupar, como, por exemplo,
o que fazer com aquele árbitro-mentiroso que vicia
relatórios e que vem atuando sem vergonha na
Liga principal do nosso futebol.
4. Voltemos ao sujeito mais azarado das comitivas
nacionais. Trata-se de Gonçalo Ramos, um jogador
formado no Benfica, normalmente convocado para
as aventuras da seleção. Estreou-se no Mundial do
Catar fazendo um hat-trick contra a Suíça e foi logo
substituído não fosse atrever-se a fazer um
póquer. Depois desse desaforo nunca foi um jogador regularmente titular na seleção.
5. Quando joga, marca, é verdade. Leva 11 golos em
1031 minutos distribuídos por 27 presenças na
seleção. Sem penáltis. Este Ramos é um perigo.
É tão perigoso que não pode ser titular da seleção.
É este o seu azar. E o nosso, claro.
6. Vamos, então, ao que interessa, o Sport Lisboa e
Benfica e às suas atualidades. Neste defeso, por
exemplo, mudou-se de treinador. Saiu José Mourinho a troco de 15 milhões de euros e entrou Marco
Silva, a quem não haverá um único benfiquista que
não deseje as maiores felicidades. Neste momento,
o Benfica tem três jogadores no Mundial. Andreas
Schjelderup e Fredrik Aursnes ao serviço da
Noruega e Dodi Lukebakio ao serviço da Bélgica.
Boa sorte a todos!
7. O primeiro jogo não-oficial da temporada aberto ao
público é um Benfica-Flamengo no Algarve. É uma
bela maneira de arrancar na temporada de
2026/27. Vamos a isto!"
Leonor Pinhão, in O Benfica
Um adeus expectável
"A equipa sénior masculina da
Federação Portuguesa de Futebol encerrou a sua participação
no Mundial 2026. Perdeu com a
Espanha e tudo está dentro da
normalidade. As exibições nos
jogos disputados em Houston,
Miami e Toronto não deixaram
grandes dúvidas: um grupo de
bons jogadores não faz uma
equipa.
Faltou quase tudo em campo,
sobrando sempre muito fora
dele – entrevistas, reels, praia,
fait divers e excesso de confiança. Após a primeira ronda de
jogos, percebeu-se bem quem
tinha unhas para tocar guitarra.
Quem eram os treinadores que
recorriam a todo o plantel e
quem estava sem ideias. Roberto Martínez sai do cargo e também está tudo dentro da normalidade. A ver se o próximo selecionador vai à manicure antes
de entrar ao serviço, porque a
guitarra anda desafinada e há
ali cordas que precisam de ser
usadas. Já chega da cantilena
de dois acordes com que fomos
brindados nos últimos anos.
Dizem que o próximo homem do
leme virá do desemprego,
depois de umas temporadas na
Arábia Saudita. É só uma questão de tempo para se perceber
se Bernardo Silva vai ser convocado para lateral-direito.
Enquanto quase todas as equipas que demonstraram qualidade seguem em competição (um
abraço aos incríveis cabo-verdianos que ficaram pelo caminho), o foco já se vai alterando. O
Sport Lisboa e Benfica voltou ao
trabalho e prepara-se para
estrear a versão Marco Silva
frente ao Flamengo, neste sábado às 19:30, no Algarve. No
fundo, é só isso que importa e é
só disso que estamos todos à
espera. Sim, é um início de
época prematuro, mas pelo
menos que sirva para termos as
alegrias que o Mundial 2026 não
permitiu."
Ricardo Santos, in O Benfica
The End
"Um fabuloso filme de Billy Wilder, realizado em 1950 e chamado “Sunset Boulevard”/“O
Crepúsculo dos Deuses”, mostra-nos uma antiga estrela do
cinema mudo (representada
magistralmente por Gloria
Swanson, ela própria oriunda
desse período), que vive em
isolamento e entra numa espiral de decadência por se recusar a aceitar sair do seu próprio passado.
Lembrei-me várias vezes deste
filme durante o Mundial, ao ver
uma antiga estrela arrastar-se
em campo, sem perceber que o
seu tempo acabou, sem saber
sair de cena, e sem que ninguém, a bem ou a mal, o consiga
convencer da realidade.
Cristiano Ronaldo foi um dos
melhores futebolistas de sempre. É, seguramente, o cidadão
português mais conhecido em
todo o mundo. Arrasta consigo
multidões de fãs (não necessariamente verdadeiros adeptos
de futebol), vende camisolas, dá
audiências, faz girar dinheiro,
ou seja, tudo o que nos dias de
hoje acontece com uma celebridade de âmbito global.
Talvez essa bolha mediática,
essa fama desmedida, ou a
natural bajulação dos que lhe
são mais próximos (e ainda
alguns golos que vai conseguindo no meio de defesas sauditas), não lhe permitam perceber
que, aos 41 anos, já não é o
melhor jogador do mundo, já
não é sequer um dos melhores,
e só com boa vontade podia
caber, ainda, nos convocados de
uma selecção como a portuguesa. E Roberto Martinez revelou
absoluta incompetência na gestão do tema, comprando artificialmente uma paz podre que
levou a equipa portuguesa e ele
próprio a caírem com estrondo.
Sem perdão, atendendo a que
Portugal se apresentava, neste
momento, com um dos melhores plantéis da sua história, e
com legítimas ambições de
alcançar um título mundial.
Ver Portugal perder é sempre
doloroso. Quando percebemos
que o motivo da derrota podia
ter sido evitado, a dor transforma-se em indignação."
Luís Fialho, in O Benfica
Pertencer
"Pertencer a uma comunidade é
fazer parte, contribuir, ser alguém.
Não é coisa pouca ser respeitado e
reconhecido pelos que nos rodeiam e que connosco partilham o
espaço urbano. É certo que as
relações de vizinhança são cada
vez mais difusas, mas nos bairros
sociais mantêm uma força especial, ligando famílias e vizinhos
numa vivência do espaço público
mais intensa do que noutras áreas
urbanas. Por isso, os jovens interagem mais entre si e tendem a
construir a sua socialização sobretudo nesse contexto, o que pode
limitar o contacto com outras realidades e contribuir para alguma
segregação no uso do espaço
comum. Ninguém beneficia de
bairros disfuncionais ou limitadores da vida comunitária. Pelo contrário, os desafios socioeconómicos atuais tornam ainda mais
importante a existência de solidariedades vicinais, familiares e
intergeracionais. E a contribuição
de todos para o bem comum é
determinante. Por isso há que promover um espaço público adequado à convivência positiva e dinamizar a vida comunitária para que
todos possam viver em harmonia.
Viver em família e pensar em
comunidade são condições essenciais para uma vida equilibrada.
Embora se fale frequentemente do
afastamento dos jovens das suas
comunidades, a realidade é mais
complexa.
Na maioria dos casos,
não falta vontade de participar, faltam oportunidades, estímulos e
formas eficazes de concretizar
essa participação. É aqui que a inovação social assume um papel
decisivo, tal como todas as ferramentas capazes de comunicar com
os jovens, motivando-os para a
reflexão e para a ação. Nesse contexto, o futebol tem um poder
único. E quando esse poder se
junta ao prestígio dos seus protagonistas e ao compromisso social
do Benfica, os resultados fazem-se
sentir. É o que acontece há vários
anos através de uma parceria feliz
entre a Fundação Benfica e a Gebalis, que já produziu muitos e bons
resultados na cidade de Lisboa.
Por tudo isto levámos os vencedores da liga Community Champions à ilha da Madeira e, ao
mesmo tempo que lhes proporcionamos justo prêmio, demonstramos localmente o interesse e
potencial deste projeto para que
possa o mesmo ser reproduzido.
Fica o desafio!"
Jorge Miranda, in O Benfica
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