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sábado, 13 de junho de 2026

Zero: Negócio Mistério - S06E03 - Ochoa

FIFAmente !!!

O exercício 'Portugal'


"Unir as pontas soltas de um sonho exige mais do que talento. Exige um último ato de coragem. Este Mundial é oportunidade única, daquelas que raramente cruzam o destino de uma geração

Este é o meu exercício — e qualquer um de vós terá o seu — sobre aquela que deveria ser a equipa-base de Portugal no Mundial. Dificilmente encontrarão algum condicionamento por gratidão, justiça, estatuto ou clubismo. É uma equipa construída a partir dos convocados de Roberto Martínez, porque já não há outra forma, que tenta responder a problemas recorrentes e não resolvidos da Seleção durante a era do espanhol. E, atenção, lembro que há sempre vários caminhos para o sucesso e, por vezes, várias soluções para um mesmo problema.
O ponto de partida não está na baliza, uma vez que não há neste momento concorrente próximo do nível de Diogo Costa, ainda que ache que o guarda-redes do FC Porto deva trabalhar a linguagem corporal, que por vezes deixa transparecer insegurança. Quantos golos salvaram Schmeichel, Kahn, Buffon graças ao ar ameaçador com que saltavam à bola? Cerra os dentes, miúdo!

UM 'MONSTRO' NO MEIO DA SALA
Começo precisamente pelo 9, porque é aqui que, há muito, reside um dos maiores bloqueios ao crescimento coletivo. Se Martínez não o fez até aqui, muito menos o fará agora, seja em nome da estabilidade do grupo, do núcleo duro ou, simplesmente, por falta de coragem, no entanto, não retirar Cristiano Ronaldo da equação condiciona toda a equipa, da defesa ao ataque.
Com o capitão como avançado-centro e pela necessidade de fomentar algo em que este não é especialista, como o apoio frontal, o jogo interior coletivo — em que contamos com elementos do bicampeão PSG e do Manchester City — enfraquece. O que, paralelamente, obriga a que haja gente que o alimente desde os flancos: extremos. Em tese, Pedro Neto à direita e Rafael Leão à esquerda, com apoio dos laterais Cancelo (ou Dalot) e Nuno Mendes (ou Cancelo) a atacar o meio-espaço entre lateral e central. Seja direto ou após desdobramentos, o objetivo depois é cruzar para Ronaldo, que, para já, é anulado muitas vezes. Ou tem mostrado um decréscimo flagrante de qualidade da finalização.
Apesar disso, CR7 continua muito focado no golo. Na maior parte das vezes coloca-se no desfecho das jogadas. A maioria dos movimentos são feitos a pensar em si próprio e não em libertar espaço para os colegas.
Depois, sem bola, Ronaldo não é pressionante. Ainda o será menos no calor da América do Norte. E as escassas tentativas que lança têm estado desenquadradas do resto da equipa.
Gonçalo Ramos não está no melhor momento de forma, seja mental ou tecnicamente. Mas ainda assim oferece uma maior ligação com os restantes setores e um Portugal a defender com 11. Guedes apresenta uma capacidade de explosão, mobilidade e finalização que não devem ser desvalorizadas e também ele gosta de morder a construção dos adversários. E o próprio João Félix poderá ser um falso 9, pela capacidade que tem de jogar de costas para a baliza e pela inteligência no ataque ao espaço. Ainda que peque no momento defensivo. Na verdade, todas elas parecem melhores soluções.

O TRIÂNGULO IDEAL
Vitinha e João Neves não oferecem qualquer tipo de discussão. São inseparáveis e só um louco os tentará separar. A questão reside no terceiro elemento. Bruno Fernandes é o maior candidato, mas Bernardo Silva faz mais sentido. Um Bernardo com liberdade para aparecer também mais à frente, juntando-se aí sim a Bruno Fernandes, mas que, ao contrário do médio do Manchester United, fala a mesma língua que o duo parisiense. Um Bernardo que acelera no momento certo e não está sempre a querer acelerar.
Há receio de que Martínez veja aqui a necessidade de um médio-defensivo, como Rúben Neves ou Samú, sacrificando João Neves. Ou Bernardo. É necessário coragem para resistir.

ENTRELINHAS E MEIOS-ESPAÇOS
Para a maior parte dos leitores, soará a balelas táticas, mas é muito mais do que isso. Claro que há as bolas paradas, os erros, os remates de longe e as jogadas individuais, porém é aqui que se criam os desequilíbrios.
Se Portugal conseguir pressionar os meios-espaços entre lateral e central e entre centrais, o adversário tem de reagir para evitar o 1x1. O mais provável é que os laterais fechem por dentro, abrindo os corredores. Aí entram Cancelo e Nuno Mendes, com toda a sua qualidade. E com a presença na área assegurada por três ou quatro jogadores e, se o resto dos jogadores respeitar a subida coletiva, com gente à entrada da área.
Se o adversário não juntar o bloco, estará por dentro o espaço a aproveitar.
Claro, esta imagem é estática. Há dinâmicas. Mobilidade.
Se Bruno Fernandes é inegociável como falso-extremo e já discutimos o 9, faltará encontrar o homem da falsa-esquerda. E não há melhor candidato do que João Félix. Pelo momento, mas também pelo perfil, podendo funcionar como segundo homem na área e ainda também definir em passes e movimentos de rotura como ninguém.
Bernardo estará muitas vezes por aqui, podendo criar uma dinâmica própria com Bruno Fernandes.

A FALTA DE FISICALIDADE
Dificilmente também haverá dúvidas sobre os laterais titulares. Cancelo e Nuno Mendes reúnem o favoritismo de quase todos. Se estiverem bem fisicamente, estão muito à frente de todos os outros, e entre os melhores do planeta.
Rúben Dias, com época complicada a nível físico, será o xerife e faltará encontrar o ajudante. Inácio é o melhor a construir, todavia, mostrou-se novamente débil nos duelos físicos. Veiga pareceu mais sólido defensivo e mais limitado no passe. Tomás Araújo tem o mesmo problema que o sportinguista e a mesma versatilidade a construir. Quebra ainda linhas com o transporte e apresenta uma estratégia de contenção mais funcional, podendo fazer derivar Dias para a esquerda. Martínez talvez vá por Veiga, mas, estando bem, Tomás oferece mais. Sobretudo se ganhar confiança.
O exercício aí fica. A oportunidade é única, talvez irrepetível. Iremos lá com coragem. A dar a Portugal para poder dar Portugal!"

A chapada de luva branca do presidente da UEFA


"Decisões como a de nomear o árbitro somali para apitar a Supertaça não podem ser apenas um gesto de marketing; tem de representar outros valores

Há muito tempo que o futebol passou a fazer parte da mais alta e intrínseca geopolítica. E não é um fenómeno apenas deste século. Os mais antigos lembrar-se-ão de ver a Argentina, vivendo uma ditadura, a acolher o Mundial-1978 com a seleção anfitriã a arrecadar o título alavancada no talento de Mario Kempes e noutras situações bizarras a que o contexto não foi alheio.
Mas é indiscutível que os mandatos de Joseph Blatter foram aqueles que elevaram a organização dos Mundiais para esferas muito mais opacas. O mesmo antigo presidente da FIFA que agora se insurgiu com o tratamento dado pelos Estados Unidos ao árbitro somali Omar Artan, enviado para casa por suspeitas de associação a organizações terroristas. Estas ironias fazem parte, no fundo, deste imenso circo: processos suspeitos e investigados na atribuição dos Mundiais da Rússia (2018) e Qatar (2022), envolvendo dirigentes, ministros e até presidentes da república, chutando para canto tudo o que são critérios de transparência.
Só os mais ingénuos acreditam que o futebol poderia funcionar como acelerador de mudança e não a embraiagem. Que a FIFA teria alguma magistratura de influência na administração Trump na relação com os estrangeiros que entram no país. Os gestos, declarações e atitudes do presidente Gianni Infantino só reforçam a ideia de subjugação ao poder, pelo que nada de positivo se poderá esperar nos próximos tempos.
E porque o futebol é uma plataforma geopolítica, a decisão da UEFA em nomear o mesmo juiz africano para apitar a Supertaça Europeia entre PSG e Aston Villa é muito mais que uma provocação aos vizinhos da sede em Zurique; é mais um gesto de afirmação que a Europa tem definitivamente de assumir perante os Estados Unidos. Porque o trumpismo veio para ficar: mesmo após a saída do atual inquilino da Casa Branca (seja lá quando for), as relações com o bloco europeu dificilmente voltarão ao que assistimos nos últimos 80 anos porque há divergências de fundo que antes eram disfarçadas com a arte da diplomacia. Pelo menos Trump tem esse mérito: tirou o filtro. Dele e de uma maioria (também no voto popular) que concorda com os seus métodos e valores. O mundo MAGA.
Os europeus são acusados de serem cínicos e de nunca saírem de cima do muro na forma como lidam com Israel ou como se têm posicionado na guerra entre os EUA e o Irão. Mas este será o resultado de um bloco que é feito de muitas camadas e culturas. Mais do que nunca, gestos como a nomeação de Omar Ortan para o jogo de Salzburgo tem de simbolizar muito mais do que um ato de simpatia."

O país que não devia receber o Mundial


"FIFA não olhou a meios para ter a prova mais lucrativa de sempre. Futebol vai servir para normalizar a América de Trump. No Qatar, pelo menos, houve menos silêncio...

As imagens de jogadores de futebol, treinadores e membros do staff a serem pormenorizadamente revistados à chegada ao Mundial 2026 repetem-se por estes dias (ainda que uns mais do que outros, aparentemente). Nada de anormal nesta América securitária, por muito que os nossos olhos europeus não estejam habituados a isto (felizmente!).
Claro que não basta ser o melhor árbitro de África para entrar nos Estados Unidos para apitar a maior competição do mundo, é preciso passar no rigoroso controlo de segurança, que não é propriamente conhecido por gostar de africanos, somalis, negros. Aconteceu a Omar Abdulkadir Artan e não convém esquecê-lo, sobretudo perante a inação da FIFA. Das autoridades americanas, só uma fonte a garantir que o árbitro terá ligações a alegados membros de organizações terroristas. Já vimos este filme...
Também aconteceu a Aymen Hussein ser interrogado durante sete horas num aeroporto. Foram precisas sete horas para descobrir que o jogador não era, afinal, um outro cidadão com o mesmo nome de quem as autoridades suspeitavam. Aymen Hussein é iraquiano e não é, de longe, nem o primeiro nem o último iraquiano a ser discriminado, confundido, tratado como suspeito de terrorismo neste país só por ter esta nacionalidade. Mas tinha de acontecer a Aymen Hussein, cujo pai foi assassinado pela Al Qaeda e cujo irmão foi sequestrado pelo Estado Islâmico, estando ainda desaparecido. Digo tinha porque tudo isto parece uma inevitabilidade nesta América tão cruel (e racista).
Os próximos dias vão esbater estas histórias, porque o futebol tem esse dom (será dom? Adiante) de nos fazer esquecer das coisas mais importantes entre as mais importantes.
Também antes do Mundial no Qatar foram lembrados os problemas (perdoem-me o eufemismo) desse país e depois a bola começou a rolar e só aquela final fez-nos esquecer tudo. Com a diferença, noto, que nessa altura os protagonistas foram mais ativos. Agora é mais difícil protestar sobre os Estados Unidos de Donald Trump, logo ele que até recebeu um Prémio da Paz das mãos de Gianni Infantino - um troféu enorme, como os homens pequeninos às vezes precisam de receber para se sentirem os maiores.
Os europeus já foram mais defensores da democracia, agora estão reféns desta gente. Os outros têm mais dificuldade, ou menos peso mediático, porque são africanos ou iraquianos. Resta o Irão, que chegou entretanto ao México para lembrar que 168 crianças morreram no ataque americano a uma escola primária. Para elas não há prémios da paz.
Sucedem-se também as notícias sobre a falta de interesse do público em ir ver os jogos da fase de grupos. Os bilhetes são vendidos ao preço do ouro, porque no final disto tudo não interessam os retidos, os expulsos, os discriminados, os que assistem calados. O que vai contar é o quão lucrativa será esta prova. E o quanto irão ganhar poder Infantino e Trump.
Ainda bem que a bola já começou a rolar. Vamos à coisa mais importante entre as menos importantes."

É só lagartos em Palm Beach


"WEST PALM BEACH — Caminhar pelas ruas arborizadas de West Palm Beach, nesta contagem decrescente para a estreia da nossa Seleção, é aceitar um convívio diário com uma vizinhança peculiar. Por aqui, a natureza teima em saltar dos canteiros para o asfalto. Há uma invasão silenciosa que salta à vista de qualquer repórter: é só lagartos em Palm Beach.
Desengane-se o leitor mais clubista se pensa que há aqui alguma segunda intenção escondida na frase anterior ou que algum emblema montou sucursal nas imediações do quartel-general de Portugal. Nada disso. Trata-se de uma constatação puramente zoológica, embora a ironia do cenário seja deliciosa demais para ser ignorada por quem respira o nosso futebol.
Estes répteis tropicais transformaram-se nos verdadeiros donos do pedaço. Há-os de todos os tamanhos e feitios. Uns são minúsculos, rápidos como extremos de linha, desaparecendo num ápice entre as fendas dos passeios; outros, mais robustos e imponentes, exibem-se sem pressas sob o sol abrasador, ostentando uma pose aristocrática junto às palmeiras e aos jardins residenciais.
Andam por todo o lado, quase sempre camuflados na vegetação luxuriante da Florida, mas demonstram uma capacidade de adaptação impressionante, estando perfeitamente habituados à coexistência pacífica com os humanos. Olham-nos de soslaio, com uma indiferença felina, antes de recolherem à sombra protetora do seu próprio reino.
Em Portugal, a gíria das bancadas costuma usar o termo com contornos mais belicosos para picar um dos rivais da Segunda Circular. Mas aqui, no asfalto quente da Florida, a palavra despe-se de qualquer carga pejorativa e ganha uma leveza quase poética.
É impossível não sorrir ao ver tamanha proliferação destas criaturas verdes num Estado que serve de base de apoio à Seleção Nacional. Se o bicho é sinal de agilidade e de sobrevivência em ambientes extremos, que esta omnipresença seja um bom prenúncio. Afinal, para cruzar com sucesso esta longa rota americana, Portugal vai precisar de toda a destreza do mundo. O asfalto continua a ferver e, entre répteis e palmeiras, a caravana avança. Vai dar Portugal!"

Marrocos ou Uruguai: as possíveis surpresas


"Ter a oportunidade de trabalhar em vários pontos do planeta é, em muitas situações, uma vantagem. No caso do futebol, permite-nos perceber melhor as especificidades do jogo em países tão distintos como Portugal (claro), Brasil, Qatar ou Coreia do Sul. Gosto de olhar para um jogador, um treinador, uma equipa e fazer sempre uma relação direta com o seu próprio contexto e tentar entender porque adotam determinada ideia ou determinado processo. Há sempre, em qualquer escolha, um motivo que está relacionado com o sítio onde nascemos e crescemos.
O futebol é das coisas mais universais e apaixonantes que existem, mas é fundamental respeitar as especificidades que existem em cada país. De outra forma será sempre difícil entender o choque de propostas (de jogo) e realidades que existem quando 48 seleções/nações se enfrentam na mesma competição.
Acredito que estamos todos muito curiosos para ver o que vai acontecer neste Campeonato do Mundo. É verdade que é sempre assim, a cada quatro anos, mas desta vez ainda mais. Talvez porque nunca tivemos uma prova com tantos participantes e também porque, agora, há seleções estreantes, que conhecemos mal, e que podem trazer incerteza e imprevisibilidade nalguns grupos.
O habitual, até 2022 era termos um Campeonato do Mundo com 64 jogos – incluindo aquele sempre desinteressante duelo para saber quem fica em 3.º e 4.º lugar. A partir de agora, de acordo com o novo modelo da competição, vamos passar a ter 104. São mais 40 jogos!
É difícil prever o impacto que poderá ter esta alteração na qualidade da prova, mas acredito que, neste Mundial 2026, o grande desafio estará na capacidade de adaptação. Porque estamos a falar de competir em três países, com diferentes contextos ambientais. É preciso estar pronto para altitude, calor, frio e variação, também, de humidade. Pela minha experiência no Brasil, sei bem o quão difícil é esta diversidade climática. Quem melhor se adaptar pode tirar uma vantagem importante.
Principais candidatos à vitória? Por ordem alfabética: Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha, França e Portugal. De todas estas seleções, só uma ainda não foi campeã do Mundo. Quem sabe se essa “fome de títulos” também não poderá ser decisiva...
Em relação às equipas que podem surpreender e, contra a maioria das previsões, ir muito longe na competição, aposto em duas: Marrocos e Uruguai. A seleção africana já surpreendeu em 2022 e vejo-a com capacidade para voltar a ter uma grande prestação. O Uruguai, esse, tem um selecionador muito experiente (Bielsa) e uma geração que atingiu um estado pleno de maturação."

O primeiro golo do Mundial foi também um agradecimento de Julián Quiñones ao México, o país que o protegeu da violência


"Nasceu na Colômbia, numa região que faz parte da rota do crime. Aos 17 anos, mudou-se para o México, onde pela primeira vez na vida de sentiu paz e tranquilidade. Apesar dos convites para representar os cafeteros, preferiu esperar que o México o convocasse. No Mundial que o país organiza, foi ele o autor do primeiro golo. Um exemplo da eficácia que também tem demonstrado no campeonato saudita, onde marcou mais do que Cristiano Ronaldo

A pesquisa por notícias de Magüí Payán conduz-nos a uma sucessão de links sobre detenções em centros de armas de guerra, massacres, laboratórios de produção de droga desmantelados ou minas de ouro ilegais. O primeiro jogo do Mundial 2026 arredou todos os problemas para as páginas secundárias do motor de busca. Aquele foi o sítio onde Julián Quiñones nasceu e por isso lhe é dada prioridade quando se tenta encontrar mais informação sobre o município colombiano.
Magüí Payán é um lugar onde estão instalados guerrilheiros e redes de narcotráfico. Os negócios locais procuram na população quem os mantenha vivos. Também Julián Quiñones teve oportunidade – se assim se pode chamar – de seguir uma carreira no submundo. A mãe, que sozinha o criou a ele e mais três irmãs, conseguiu a difícil proeza de não normalizar perante os filhos as atividades que se desenvolviam em paralelo com o quotidiano da família.
Enquanto alguém com consciência do bem e do mal, seria difícil permanecer toda a vida “num lugar muito perigoso” e acabou por emigrar aos 17 anos. O que inicialmente era uma mera procura por realização profissional no Tigres, tornou-se numa viagem à ilha dos amores, descrita pelo jogador no canal televisivo TUDN: “O México deu-me paz mental, toda a tranquilidade com que algum dia sonhei.”
A serenidade permitiu-lhe fazer o seu trabalho quase sempre bem. Inclusivamente, foi titular pelo Tigres na final do Mundial de Clubes em 2021. O sucesso obrigou-o a tomar decisões. A Colômbia convidou-o pelo menos duas vezes para representar a seleção, no seguimento de um percurso nas equipas jovens. Quiñones ignorou as cartas. Quis esperar pelo país que o deixou expressar-se na plenitude. “A melhor forma de agradecer ao México e representá-lo.” O momento chegou em 2023.
Sendo o país da CONCACAF um dos membros da organização tríptica, a ponta do maior Mundial de sempre esteve no Estádio Azteca. Aos nove minutos de um jogo inaugural que venceu por 2-0, o extremo goleador de 29 anos que fez questão de representar o México, retribuiu com um golo no momento desportivo mais importante dos últimos anos para o país. Celebrou-o com a mesma coreografia de Tshabalala na abertura do Mundial 2010 e ganhou o prémio de homem do jogo, entregue pelo pugilista Canelo Álvarez numa clara equiparação às maiores figuras desportivas do país.
O zénite foi trazido pela brisa de uma forma assinalável. Julián Quiñones terminou a temporada com mais golos (37) do que jogos (35) no Al-Qadisiyah. Ninguém marcou mais vezes (33) do que ele no campeonato saudita. Cristiano Ronaldo, que liderou a lista de melhores marcadores na época anterior, ficou-se esta temporada pelos 28. Os números já eram motivo para os adeptos o terem debaixo de olho. A capacidade de salto e explosão são outros argumentos para que mereça ser observado.
Está num estado de maturação diferente daquele em que se encontrava em 2017, quando o Tigres o emprestou ao Lobos BUAP e teve uma altercação com um companheiro. Numa manhã de domingo, os responsáveis do clube receberam a indicação de que Julián Quiñones estava a receber assistência médica no hospital devido a uma lesão provocada um por uma faca.
Julián Quiñones e William Palacios eram colegas de equipa e vizinhos. Juntaram-se na casa do primeiro para celebrarem uma vitória, encetando algumas garrafas de álcool. Quando Palacios decidiu dirigir-se a casa, entre as 3h e as 4h segundo os relatos, Quiñones seguiu-o. A companheira de William não ficou agradada com o estado ébrio do marido e o casal começou a discutir. Na sua versão, Julián diz ter entrado em ação quando o colega demonstrou atitudes agressivas perante a mulher e, para a defender, foi buscar o objeto com o qual se acabou por cortar.
Apesar da boa intenção reconhecida pelos dirigentes – William Palacios acabou por deixar o clube –, ficou associado a um episódio de violência que o podia ter prejudicado. “Não tinha conseguido nada e já estava a perder. Esse momento pôs-me a pensar que não podia continuar a fazer aquele tipo de coisas. Tinha que me centrar no que realmente importa.”"

O primeiro herói do Mundial 2026


"O Campeonato do Mundo de futebol só começa hoje, no México, mas mesmo antes de a bola começar a rolar, já produziu o primeiro herói. A precocidade desta subida ao estrelato não se deve a estes tempos tecnológicos vividos a velocidade vertiginosa, em que o vagar se tornou um luxo.
Omar Abdulkadir Artan, árbitro impedido de entrar nos Estados Unidos depois de ter sido sujeito a um interrogatório de 11 longas horas, não obstante possuir passaporte diplomático, teve um momento de vã glória ao ser recebido no seu país, a Somália, como se tive marcado o golo que decidiu a final da prova. É possível que nem todos estejam preocupados ou interessados em futebol, pelo que importa esclarecer que o Mundial será disputado em três países: México, Canadá e Estados Unidos. O problema, claro está, reside na incapacidade de a Administração Trump conviver com o Direito Internacional e os protocolos que devem proteger quem, de alguma forma, participa nas grandes competições desportivas. Se pensarmos que os anteriores organizadores de Mundiais foram o Qatar e a Rússia, estamos esclarecidos em relação às companhias que a FIFA gosta de convidar para a mesa. Mas nenhuma supera os Estados Unidos neste triunfo da vergonha. Sentimento que, de resto, deve ser partilhado com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, que se entregou ao ridículo de oferecer a Donald Trump uma espécie de prémio da paz. Teremos oportunidade de saber se o episódio com o árbitro somali foi apenas um bloqueio isolado ou a primeira demonstração prática da hospitalidade prometida aos milhares de visitantes que atravessarão fronteiras nas próximas semanas. Se for um ensaio geral, a FIFA, com a ajuda do governo de Trump, talvez tenha descoberto uma nova modalidade para juntar ao programa oficial: a corrida de obstáculos... burocráticos. E, nesse campeonato, tudo indica que algumas seleções correm o risco de estarem condenadas a perder ainda antes do apito inicial."

Ambiente...

FIFA, uma piada em si mesma

AA9: MY PORTUGAL WORLD CUP 2026 PREDICITON...

LiveMode: Aquece vais entrar #9

LiveMode: Mundial #13

Observador: Sem Falta - Especial: O que muda na arbitragem no mundial?

Rabona: South Africa IMPLODES vs Mexico & S. Korea’s COMEBACK | World Cup Daily Recap

SportTV: Mundial - Florian Grillitsch

FIFA: Escócia...

FIFA: Austrália...

FIFA: Marrocos...

FIFA: Turquia...

FIFA: Brasil...

FIFA: EUA...

FIFA: Qatar...

FIFA: Suíça...

FIFA: Paraguai...

FIFA: Resumo - Canadá - Bósnia

FIFA: Resumo - Chéquia - Coreia do Sul

FIFA: Resumo - México - África do Sul

Jogos Olímpicos de Esports: A prudência do IOC e a urgência de governação partilhada


"A declaração da Presidente do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, durante a recente reunião do Executive Board, foi simultaneamente breve e reveladora: as ambições olímpicas do IOC para os esports estão "muito vivas", mas é uma questão de timing. A abordagem é deliberadamente cautelosa e consiste em ir trabalhando com especialistas, sem pressas para apresentar propostas antes de estarem verdadeiramente maduras. Esta prudência revela-se ainda mais sábia quando observamos os desenvolvimentos recentes no ecossistema global dos esports. A Federação Sul-Coreana de Esports (KeSPA), historicamente considerada o modelo a seguir mundialmente e a primeira estrutura federativa nacional de esports, entrou recentemente em conflito público com a Esports World Cup Foundation sobre alegada interferência no processo de seleção de atletas sul-coreanos para a Esports Nations Cup. Felizmente tudo se acabou por resolver, mas este episódio, longe de ser um incidente isolado, expõe uma tensão estrutural fundamental que o movimento olímpico compreende profundamente e que os esports globais ainda estão a aprender a navegar: quem representa legitimamente uma nação numa competição desportiva internacional?
A resposta que o desporto tradicional desenvolveu ao longo de mais de um século é clara: federações nacionais independentes, democraticamente governadas, que respondem perante as suas comunidades desportivas nacionais (e existem em função delas!) e perante federações internacionais sujeitas a princípios de boa governação. Este modelo não é acidental nem arbitrário. Protege três dimensões fundamentais que são facilmente comprometidas quando organizadores comerciais de torneios assumem simultaneamente o papel de representação nacional. Primeiro, a independência na seleção de atletas baseada exclusivamente no mérito desportivo, livre de considerações comerciais ou conflitos de interesse. Segundo, a proteção da identidade nacional - o nome do país, a bandeira, a cultura e os símbolos nacionais não são ativos comerciais de livre utilização, especialmente em contextos de exploração comercial de grande escala. Terceiro, a distribuição equitativa de valor gerado através da representação nacional pela comunidade desportiva que sustenta esse sistema: clubes que formam atletas, treinadores que os desenvolvem, árbitros que garantem integridade competitiva. Nos esports, os publishers ocupam legitimamente uma posição central - detêm a propriedade intelectual dos jogos que servem de base às competições - e a Esports Nations Cup demonstrou compreensão adequada desta realidade ao co-desenvolver a competição com EA, Krafton, Tencent e Ubisoft, e colocar os publishers na cúpula decisória. No entanto, se os publishers detêm o IP dos jogos, o "IP" da nação - a sua identidade, símbolos e representação - pertence à comunidade nacional, não a organizadores comerciais internacionais, por mais bem-intencionados que sejam.
O caminho sustentável para os esports globais, e eventualmente para os Jogos Olímpicos de Esports, passa necessariamente pela criação de espaços permanentes de discussão, consenso e regulação partilhada entre todos os agentes da cadeia de valor. Publishers que criam os jogos, Tournament Organizers que produzem eventos de escala mundial, marcas comerciais que investem em patrocínios, e fundamentalmente, as comunidades nacionais - atletas que competem, clubes que formam e empregam, treinadores que desenvolvem talento, árbitros que garantem integridade, e federações que existem para desenvolver e proteger interesses coletivos. Nenhum destes agentes pode ser excluído sem comprometer a sustentabilidade do sistema. Nenhum pode dominar completamente sem criar desequilíbrios que eventualmente corroem a legitimidade. A decisão do IOC de não precipitar decisões sobre esports, de aguardar que estas questões fundamentais de governação amadureçam, de trabalhar cuidadosamente com especialistas que compreendem estas complexidades, não é hesitação mas sabedoria institucional. Os Jogos Olímpicos de Esports acontecerão quando existir um modelo de governação que proteja simultaneamente os direitos de propriedade intelectual dos publishers, os interesses comerciais legítimos dos organizadores de eventos, e a representação autêntica, independente e equitativa das comunidades nacionais de esports. Construir este modelo não é tarefa para meses, mas para anos de diálogo paciente entre todas as partes. A alternativa - avançar prematuramente com estruturas que reproduzem desequilíbrios de poder ou que concentram valor e controlo em poucos atores - criaria um sistema olímpico de esports estruturalmente frágil, questionado na sua legitimidade e incapaz de cumprir a missão olímpica de unir o mundo através do desporto.
Portugal, através das suas estruturas federativas e da sua participação ativa em organizações internacionais, pode e deve contribuir para esta discussão essencial sobre o futuro da governação global dos esports."

Novas regras da FIFA


"A FIFA anunciou, em 10 de junho de 2026, uma reforma do sistema internacional de transferências de jogadores, através da revisão do Regulamento do Estatuto e Transferência de Jogadores (RSTP), com entrada em vigor prevista para 1 de janeiro de 2027.
A alteração regulamentar resulta de um processo de revisão do atual modelo aplicável às transferências internacionais, abrangendo matérias relacionadas com contratos de trabalho desportivo, circulação de jogadores, compensações e direitos dos clubes e atletas.
Entre as principais alterações previstas encontra-se a criação de um enquadramento contratual mais definido, com regras destinadas a aumentar a previsibilidade jurídica das relações entre jogadores e clubes. A nova regulamentação aborda igualmente aspetos relacionados com cláusulas contratuais, mecanismos de compensação e participação dos jogadores nos processos de transferência.
O novo sistema introduz também alterações quanto ao tratamento dos jogadores menores de idade, procurando estabelecer regras específicas para a sua proteção no contexto das transferências internacionais e da formação desportiva. Do ponto de vista jurídico, a reforma representa uma atualização das normas que regulam o mercado global de futebol, estabelecendo novos critérios para a gestão dos vínculos laborais desportivos e para as operações de transferência entre clubes de diferentes associações nacionais.
A entrada em vigor destas medidas implicará uma adaptação dos procedimentos utilizados pelos clubes, jogadores, agentes e demais intervenientes no setor, nomeadamente na elaboração e negociação de contratos e na organização das transferências internacionais.
Com esta revisão, a FIFA estabelece um novo quadro regulamentar aplicável ao sistema de transferências, com o objetivo de uniformizar regras e reforçar a segurança jurídica nas relações existentes no futebol profissional."

Os pequenos sinais que podem antecipar uma lesão


"Quando ouvimos falar de lesões no desporto, a tendência é olhar apenas para o momento em que o jogador cai, leva a mão ao músculo ou articulação e a forma como abandona o jogo. No entanto, a maioria das lesões não começa nesse instante. Começa dias, semanas ou até meses antes. Começa quando o corpo começa a dar pequenos sinais de que algo não está bem. Sempre que o rendimento começa ligeiramente a baixar sem motivo aparente e a recuperação entre treinos e jogos a demorar mais do que o habitual, é sinal de que algo não está bem. É nessas condições que o cansaço se acumula e, quase sempre, esses sinais passam despercebidos a quem está de fora.
Por isso, tenho duas propostas para fazer a quem nos lê. A primeira vou-vos dizer agora: na próxima vez que assistirem a um jogo, experimentem olhar para além do resultado e das estatísticas. Questionem-se se o jogador parece tão explosivo como habitualmente era, bem como se está a chegar atrasado aos lances em que normalmente se antecipava. Estejam também atentos a possíveis sinais de desgaste físico ou emocional e se a linguagem corporal transmite confiança ou fadiga.
Naturalmente, ninguém consegue diagnosticar uma lesão através da televisão. Nem é esse o objetivo. O desafio é perceber que a performance não muda de um dia para o outro, sem razão. Também na nossa vida, existem sinais silenciosos que costumamos ignorar. O cansaço persistente, a falta de concentração, a irritabilidade ou a perda de energia, raramente aparecem sem explicação. Tal como acontece com os atletas, o corpo costuma avisar antes de cobrar. O problema é que estes sinais são frequentemente normalizados.
Num calendário cada vez mais exigente, com competições sucessivas, viagens constantes e a pressão permanente dos resultados, muitos jogadores aprendem a conviver com o desconforto. A sobrecarga raramente resulta apenas de treinar demasiado. Normalmente, é o resultado da soma de vários fatores: pouco descanso, recuperação insuficiente, stress competitivo e acumulação de minutos de jogo.
É precisamente por isso que as equipas técnicas do futebol moderno, fazem a monitorização de vários indicadores de saúde e performance, que vão muito além da condição física visível. A qualidade do sono, o estado de humor, a perceção de fadiga e a capacidade de recuperação, tornaram-se ferramentas essenciais para antecipar problemas, antes que estes se transformem em lesões.
Estas indicações começaram a surgir porque se estuda cada vez mais o futebol, para além da parte técnica e tática. Desde 1998, o Centro de Avaliação e Pesquisa Médica da FIFA (F-MARC) realiza de forma sistemática a monitorização de lesões em todas as competições da FIFA e de futebol dos Jogos Olímpicos. A metodologia aplicada serviu de base para os sistemas de avaliação de lesões de outras federações desportivas.
Com o Mundial de 2026 a iniciar-se, este será um dos fatores decisivos para muitas seleções: a existência ou não de lesões, ao longo da prova. Nesta competição, não tenho receio em afirmar, que muitos jogos não serão ganhos apenas pela qualidade técnica ou pela estratégia. Serão ganhos (ou perdidos), quando a fadiga se começar a sentir na equipa. É precisamente nos últimos 30 minutos que o corpo revela aquilo que acumulou ao longo dos dias, das semanas e dos meses anteriores. Isto tem um nome científico: fadiga neuromuscular. Em termos simples, significa que a comunicação entre o cérebro e os músculos deixa de ser tão eficiente como no início da partida. O jogador continua em campo, continua a correr, mas já não reage com a mesma velocidade nem executa os movimentos com a mesma precisão. As diferenças podem parecer pequenas. Um sprint ligeiramente mais lento. Um atraso de décimos de segundo na reação. Um passe menos preciso. Uma mudança de direção menos explosiva. Mas ao mais alto nível, esses pequenos detalhes fazem toda a diferença. É aqui que Portugal terá de estar atento…
É muitas vezes nos minutos finais que surgem os erros de posicionamento, as perdas de bola evitáveis, os duelos perdidos e, não raras vezes, as lesões musculares. Quando a fadiga aumenta, a capacidade de controlo dos movimentos diminui e o risco de lesão sobe significativamente. A fadiga não surge apenas quando faltam forças para correr. Acontece quando o corpo deixa de conseguir fazer, com a mesma qualidade, aquilo que parecia simples no primeiro minuto. E é aí que muitos jogos (carreiras e também títulos) começam a ser decididos.
O corpo humano possui uma extraordinária capacidade de adaptação, mas essa capacidade tem limites. Nem sempre é uma questão de atitude. Depois de um jogo de alta intensidade, o organismo inicia um processo complexo de reparação muscular, reposição de reservas energéticas e recuperação neuromuscular. Esse processo não termina quando o árbitro apita para o fim da partida. Em muitos casos, prolonga-se durante vários dias. É por isso, que períodos inferiores a 72 horas entre jogos representam um desafio tão exigente para os atletas.
Quando um jogador entra em campo ainda com sinais de fadiga acumulada do encontro anterior, o risco de quebra de rendimento aumenta. Ao mesmo tempo, cresce a probabilidade de surgirem lesões musculares e outros problemas associados à sobrecarga. Não se trata de uma questão de vontade ou de compromisso. Trata-se de fisiologia.
Por muito talentoso ou preparado que seja um atleta, o organismo tem limites biológicos que não podem ser ignorados indefinidamente. A recuperação não pode ser acelerada apenas pela motivação. A gestão dos minutos, da recuperação e da carga competitiva poderá ser tão importante, quanto a preparação tática. Um jogador menos explosivo, mais lento na pressão, menos eficaz nos duelos ou com dificuldades em repetir ações de alta intensidade pode estar simplesmente a revelar aquilo que o calendário lhe retirou: tempo para recuperar.
A minha segunda proposta, não é sobre lesões. É acerca de ganhar. Lembro-me de ir ver a final do Euro-2004, ao Estádio da Luz, com o meu pai. Foi o meu melhor presente até ao dia de hoje. Mas não ganhámos, como bem se lembram. Por outro lado, acredito que foi esse o momento de mudança, para os bons resultados que Portugal tem atingido até agora. Elevou o país com um ambiente incrível entre jogadores e adeptos. Nunca vi o país entender tão bem uma derrota e desculpá-la, como nesse dia. Essa final, serviu para lançar as bases do sucesso atual. Portugal, neste momento, tem tudo para ser campeão. 19 de julho, será o dia Portugal. Para quem festeja o aniversário nesse dia, a minha segunda proposta é essa. Alguém que lance uma onda de apoio extra para ganharmos a competição. Só assim, conseguirão superar o presente do meu pai em 2004."

DAZN: Desporto e Nutrição by Hisense

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Rui Costa...

BI: TEMA QUENTE | Os esclarecimentos de Rui Costa

Verdade!

O crime compensa.

Falar Benfica - Conversas Gloriosas #55 - Comunicação Rui Costa & Modalidades

BI: Megafone - Voo Picado #29 - Marco Silva...

Zero: Mercado - Pote de saída: Sporting num novo ciclo?

BF: Marco Silva...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Quatro pontos sobre a despedida de Portugal antes do Mundial

Observador: E o Campeão é... - O capitão deve ser titular em todos os jogos do Mundial?

Observador: Três Toques - Diogo Jota presente no Mundial através de carta a Robertson

BolaTV: Mais Vale à Tarde que Nunca - Mundial #1

Highlights | #BasketBenfica 98-102 FC Porto | Final do Play-Off (jogo 2)

Monteiro: HAVE YOU MET BENFICA? | "Yuri Ribeiro disse-me loucuras!"

Bola na Rede: Entrevista - Luís Freire

Zero: Afunda - S06E48 - Knicks históricos! Spurs nas cordas

Terceiro Anel: DRS #54 - SUPER KIMI & CATALUNHA GP!! 🏎️🏁

DAZN: F1 - Antevisão GP de Barcelona

História Agora


O fantoche de Trump


"O L’Équipe não foi nada meigo, na capa desta quarta-feira, com Gianni Infantino, depois da recusa dos Estados Unidos em deixar entrar no seu território o árbitro somali Omar Artan, nomeado para apitar no Campeonato do Mundo.
A dureza da crítica é tremenda e não digo que não seja imerecida, porém o presidente da FIFA é muito mais do que isso, muito mais do que um fantoche. O que não quer dizer que tal seja bom. Não só é ele próprio que se põe a jeito, se aconchega, seduz e ajusta à mão do líder norte-americano, com o forjado e ignóbil prémio Nobel da Paz entregue entre outras regalias, como depois rapidamente ganha pele, osso e carne verdadeira quando assume o legado do organismo em toda a sua extensão e parte para a sedução de novo autocrata.
Esse é um legado de olhos fechados à perseguição política, à violência, ao crime, aos direitos dos trabalhadores e à escravidão, aos simples direitos e valores humanos, em cima dos quais os riquíssimos donos do futebol, a partir de certa altura, começaram a construir um império com regras próprias, sempre faminto para engordar os cofres, aumentando o número de equipas, os patrocínios, os bilhetes ou proibindo garrafas de água de passar os torniquetes, a fim de vender as suas dentro dos estádios.
A escolha dos Estados Unidos, com México e Canadá, fez tanto sentido como a do Qatar ou da Argentina em 1978. A FIFA não quer e nunca quis saber. Só quer saber de si própria. Não da inclusão, da política, dos jogadores ou dos adeptos. Os que realmente querem saber do jogo há muito que não têm poder. Nem conseguem influenciar, quanto mais decidir."

Mundial: Donald Trump e sua quadrilha


"O Mundial do Canadá, do México e dos Estados Unidos ainda não começou e os ecos que chegam de um dos países organizadores já o tornam único... pelos piores motivos.

O Mundial só começa hoje mas sucedem-se casos que traduzem bem os tempos sombrios que vivemos e não por acaso todos a acontecerem nos Estados Unidos, terra de liberdade agora condicionada pela ação dum presidente que tem a sensibilidade dum calhau e que transforma aquela que era tida como a democracia mais sólida num estado a caminhar para o autocrático, se não chegou já a esse destino outrora impensável.
O Mundial do Canadá, do México e dos Estados Unidos (escrevo assim por essa ordem não por ter algo contra o país, que admiro pela grandeza, liberdade, diversidade e pelo contraste, mas deixo-o para último como posição contra quem o governa, alguém desumano, egoísta e já não sei se louco…) ainda não começou e os ecos que chegam de um dos países organizadores já o tornam único.
Considerado o melhor árbitro africano da atualidade, Omar Artan vai falhar o Mundial por lhe ter sido recusada a entrada nos Estados Unidos pelas autoridades norte-americanas no aeroporto de Miami, submetido a interrogatório de 11 horas. Sendo a Somália o seu país de origem, Artan está abrangido pela proibição de entrada de cidadãos daquela nacionalidade naquele país co-organizador do Campeonato do Mundo. A organização ainda tentou reverter a situação recorrendo a um passaporte diplomático, mas o documento foi rejeitado.
Antes do jogo de preparação contra os Países Baixos, a comitiva do Uzbequistão, que integra o grupo de adversários de Portugal, foi surpreendida por uma inspeção de segurança. Toda a equipa teve de entregar as mochilas pessoais, que acabaram amontoadas pelas autoridades para serem controladas e vistoriadas por cães.
O Irão vai realizar o seu estágio no México, embora jogue toda a fase de grupos nos Estados Unidos, medida a que não é alheio o facto de os dois países estarem em conflito. Entretanto, a federação do Irão acusa os Estados Unidos de impedirem a venda de bilhetes a adeptos iranianos, o que constitui uma violação da regra da FIFA que assegura a cada federação o direito a 8 por cento da lotação dos recintos.
A Associação Internacional de Imprensa Desportiva pediu a intervenção da FIFA devido aos obstáculos na atribuição de vistos americanos a jornalistas acreditados para o Mundial 2026, afetando maioritariamente profissionais africanos e iranianos. A associação de imprensa sublinha o impacto dos vistos de entrada única, que impedem os jornalistas de regressar aos EUA caso se desloquem ao México ou ao Canadá para a cobertura dos jogos das suas seleções.
A poucas horas do início do Mundial, a política migratória de Trump e sua quadrilha põe em causa aquilo que a FIFA tanto gosta de propagandear, a universalidade e união entre os povos. Mas quem se pode admirar quando à frente do organismo está um indivíduo que em dezembro, por alturas do sorteio do Campeonato do Mundo, foi lamber as botas do presidente americano e até inventou um prémio da paz para o senhor poder exibir à falta do Nobel. Se o da estupidez existisse candidatos não faltariam…
Apesar de tudo, que comece o jogo e que no dia 19 de julho Cristiano Ronaldo levante a taça. Mas que pense na figura que fez ao ir à Casa Branca em novembro e desta vez afaste Trump dos holofotes, é que não seria a primeira vez que a figura se recusaria a sair do meio dos jogadores, qual emplastro, a levantar um troféu mundial…"

É preciso ter memória, Portugal


"Que a humildade, realismo e noções de história também embarquem amanhã para os Estados Unidos. Seleção nunca se deu bem com altos voos anunciados de fora. E de dentro.

Portugal parte com altas expectativas para o Mundial-2026. É das seleções com mais hype das 48 em prova, seja por causa dos muitos craques mundiais e em boa medida por se tratar do último Campeonato do Mundo de Cristiano Ronaldo. A ambição também tem sido alimentada pelo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, que não se cansa de colocar essa pressão interna na esperança de reforçar, nas suas palavras, uma cultura de vitória.
Mas convém ter memória. Portugal não se dá, tradicionalmente, com altos estatutos. Em 2002, por exemplo, e na sequência de um extraordinário Europeu que terminou num golo de ouro nas meias-finais, muitas casas de apostas e os mais variados analistas davam a Seleção do Bola de Ouro Luís Figo como uma das favoritas ao título na Coreia do Sul e Japão e o que aconteceu foi uma deceção; em 2018, dois anos depois da conquista do Europeu em França, o Mundial da Rússia ficou aquém do esperado e desejado; e talvez mais relevante: Portugal ainda soma menos vitórias do que não vitórias (empates e derrotas) no conjunto de todas as suas participações em Campeonatos do Mundo. Precisa de mais lastro.
É importante, pois, que a humildade e realismo também embarquem amanhã para os Estados Unidos. Em 22 edições de Mundiais, só oito países conseguiram sair vencedores e desde 2010, com a vitória da Espanha na África do Sul, que não há um novo campeão. O peso da tradição e a lei do mais forte têm vindo a impor-se numa competição que encerra, desta forma, um certo conservadorismo.
Os dois jogos particulares, frente a Chile e Nigéria, não geraram grande entusiasmo, mas em boa verdade esse não é um problema apenas de Portugal, é algo transversal. A França, por exemplo, perdeu frente à Costa do Marfim. Pouco interessa os resultados nesta fase, o fundamental é dar embalagem, rodagem e de certa forma alimentar um espírito de concorrência interno.
Daí que seja importante, fundamental mesmo, Portugal ter marcado quatro golos e nenhum ter sido apontado por Cristiano Ronaldo (Gonçalo Guedes, Bruno Fernandes, Pedro Neto e Francisco Conceição). Depender excessivamente de um jogador com um passado monumental, mas que tem 41 anos, seria um suicídio tático e estratégico. Encontrar o equilíbrio entre o que CR7 dá e tira será uma das chaves do sucesso. No Euro-2024 correu mal, na Final Four da Liga das Nações (em dois jogos) correu bem..."

A identidade nacional para lá das quatro linhas


"Há uma diferença que todos sentimos, mesmo quando não a sabemos explicar: a paixão por um clube e a mobilização em torno da Seleção Nacional pertencem à mesma família emocional, mas não são a mesma coisa. Ambas convocam pertença, memória, ritual, sofrimento e celebração. Ambas nos fazem gritar por onze jogadores como se gritássemos por nós. Mas há nelas uma diferença essencial: o clube é paixão, divide para unir; a Seleção é identidade e comunhão, une apesar das divisões.
O clube é uma identidade escolhida, herdada ou territorializada. É, muitas vezes, a primeira grande pertença simbólica fora da família. Herdamo-lo do pai, da mãe do avô, do bairro, da cidade, da camisola vista na infância, do primeiro jogo no estádio, do primeiro herói. Na psicologia social, Henri Tajfel e John Turner explicaram isto através da teoria da identidade social: uma parte daquilo que somos nasce dos grupos a que pertencemos. O nós constrói-se sempre por oposição a um eles. No futebol de clubes, esse mecanismo é evidente. Ser de um clube é também não ser dos outros e tê-los como rivais. O adepto organiza o mundo em cores, cânticos, rivalidades, injustiças, memórias e feridas.
A Seleção funciona de outro modo. Não apaga as rivalidades clubísticas, mas suspende-as quase na totalidade. Durante alguns dias, o jogador que era insultado passa a ser celebrado, mesmo que continue a não ser a nossa eleição. O defesa do rival transforma-se em nosso. O avançado adversário passa a carregar a bandeira comum e só queremos que marque. É aqui que entra a sociologia da nação. Benedict Anderson chamou às nações «comunidades imaginadas»: não porque sejam falsas, mas porque a maior parte de nós nunca se conhecerá pessoalmente e, ainda assim, imagina-se parte do mesmo corpo coletivo. A Seleção dá rosto, corpo e dramaturgia a essa comunidade imaginada. A bandeira deixa de ser abstração. O hino deixa de ser protocolo. O país passa a ter camisola, onze titulares e banco de suplentes.
Nos clubes, a paixão é mais íntima, mais intensa, mais quotidiana, mais tribal. Vive do hábito, da rivalidade, da classificação, da deslocação fora, da discussão no café, da injustiça arbitral que dura décadas. Na Seleção, a emoção é mais rara e, por isso, mais concentrada. Não há campeonato todos os fins de semana. Há momentos. Há torneios. Há verões. Há noites que ficam. Há penáltis que suspendem a respiração de milhões. Por isso a Seleção não mobiliza apenas adeptos de futebol. Mobiliza avós que não sabem explicar o fora de jogo, crianças que decoram nomes antes de saberem capitais, emigrantes que choram diante de uma televisão num café distante, famílias que raramente vêem jogos de clubes mas que se juntam quando joga Portugal. O clube pede fidelidade semanal; a Seleção convoca pertença existencial. O clube pergunta: de que lado estás? A Seleção pergunta: quem somos nós?
Esta distinção ajuda a perceber por que razão uma vitória da Seleção tem uma carga emocional diferente, pode até ser menos intensa, mas é mais coletiva. Reforça o orgulho nacional. As conquistas da Seleção Nacional não são apenas resultados que nos colocam na frente de uma tabela classificativa, cada vitória, cada taça, cada título é um ritual de reafirmação coletiva, de glorificação de uma nação e é por isso que por algumas horas, um país disperso se reconhece numa narrativa comum.
Émile Durkheim falaria aqui de «efervescência coletiva»: aqueles momentos em que uma comunidade, reunida em torno de símbolos partilhados, sente mais do que a soma dos seus indivíduos. O futebol internacional é uma das grandes máquinas contemporâneas dessa efervescência. A praça, o café, a sala de estar, o estádio e as redes sociais tornam-se extensões do mesmo corpo emocional. A alegria já não é apenas minha, é nossa. A ansiedade também. O golo liberta porque parece libertar um país inteiro. A Seleção, quando vivida no seu melhor, oferece uma forma luminosa de patriotismo, não a superioridade arrogante, mas a alegria de pertencer. Não o ódio ao adversário, mas o orgulho numa história comum e a celebração de uma identidade feita de diversidade, diáspora, sotaques, memórias e contradições.
Em Portugal esta identidade nacional é normalmente exaltada em competições da Seleção Nacional e o nosso tamanho e história podem explicar. Portugal é um país pequeno, antigo e com uma identidade nacional muito consolidada. As fronteiras portuguesas são das mais estáveis da Europa, e isso cria uma ideia de continuidade histórica, onde podemos ser poucos, mas somos nós. No desporto, essa pequena dimensão ganha uma força emocional especial. Quando Portugal bate países maiores, mais ricos ou historicamente mais poderosos, a vitória parece exceder o futebol. É quase uma compensação simbólica. O campo torna-se o lugar onde o país pequeno pode ser grande.
Como se tem ouvido nos últimos dias «Vem Mundial que a taça é nossa, a taça é nossa, de Portugal», e como o povo é quem mais ordena, seja feita a sua vontade!"

Dedicar o Mundial à Rute


"Há pessoas que fazem o caminho das pedras e transformam cada passo num brinde à vida. A esposa de Diogo Jota é uma delas.

Comoveu-me profundamente a carta que Rute Cardoso escreveu a Andy Robertson, capitão da Escócia e antigo companheiro de equipa de Diogo Jota no Liverpool. Robertson dedicou o apuramento escocês para o Mundial à memória do amigo português. Rute respondeu-lhe com palavras de rara beleza: agradeceu o gesto e pediu-lhe que mantivesse viva, durante o Mundial, a memória dos sonhos que ambos partilharam, sabendo que aquele seria o primeiro Campeonato do Mundo de Diogo Jota. E, na verdade, continua a sê-lo.
Quanto mais conheço de Rute Cardoso, mais a admiro. Pelas palavras que diz. Também pelas que escolhe guardar. Pelo recato, pela dignidade, pela serenidade com que tem atravessado o luto. A dor. As perguntas para as quais não encontra respostas. Foi através dela que percebi melhor a beleza daquela relação: uma cumplicidade rara, luminosa, quase improvável em tempos tão apressados. Tão jovens e tão adultos.
Rute não se deixa definir pela tragédia. Define-se pelos valores que partilhou com o homem que ama e que hoje transmite aos filhos. Há pessoas que transformam a dor em amargura; outras transformam-na em legado. Rute escolheu o caminho das pedras. É mais difícil, mas mais belo. Por isso, tenho um pedido a fazer à Seleção: dedique este Mundial não apenas à memória de Diogo Jota, mas também à presença silenciosa de Rute Cardoso. À sua coragem, à inteligência, ao imenso coração, à luta diária para preencher vazios. Enterrar quem mais amamos é talvez a mais dura das derrotas que a vida nos impõe. Levantar-se na manhã seguinte, cuidar dos filhos, honrar a memória de quem partiu e continuar a acreditar no futuro é uma das maiores vitórias que um ser humano pode alcançar.
Quando António José Seguro pediu aos jogadores que jogassem por Diogo Jota e que cuidassem uns dos outros, acredito que é exatamente isso que acontecerá. Porque há equipas que são mais do que um conjunto de atletas; tornam-se famílias. E poucas seleções no mundo possuem um sentido de pertença tão genuíno como a portuguesa. Acreditem no que vos digo. Pelo que vi ao longo da minha carreira de jornalista, com destaque para o Europeu de 2016; pelo que me contam outros jornalistas e jogadores; e pelas informações que fui recebendo por portas travessas de quem me podia contar o que se passava no ciclo privado da seleção.
Brindemos, pois, à Seleção. Brindemos ao Diogo. Brindemos à Rute. E brindemos também a todas as mulheres anónimas que, longe dos holofotes, enfrentam diariamente as suas batalhas, transformando cada gesto, cada escolha e cada passo num brinde à vida. Para Kahlil Gibran, escritor libanês e americano (1883-1931), «quanto mais fundo a dor escava o vosso ser, mais alegria podereis conter.» E talvez seja essa a mais difícil e mais bela vitória dos que veem partir quem amam: continuar a viver de modo que o amor permaneça."

De Eusébio a CR7 na rota de 1966


"WEST PALM BEACH — Hoje as rotativas param para finalmente saudar o arranque oficial do Mundial 2026. É o pontapé de saída na maior aventura planetária do futebol e esta crónica diária assume, desde já, o asfalto da ambição. Batizei este espaço de Route 66 por duas razões magnas que se cruzam na perfeição no mapa da nossa esperança.
Primeiro, pela imensa geografia mítica que molda o imaginário americano: a mais famosa e longa estrada dos Estados Unidos, a Mother Road, que rasga o continente ao longo de quase quatro mil quilómetros. É uma artéria de asfalto lendária que liga quase costa a costa, unindo Chicago a Santa Mónica, na Califórnia, atravessando oito estados americanos e dando vida a cidades como Oklahoma City, Amarillo ou Flagstaff. É o símbolo maior da travessia, do desassossego e da descoberta de um novo mundo.
Segundo, e infinitamente mais importante para a alma lusitana, o número 66 remete-nos diretamente para a nossa própria génese futebolística: o ano de 1966.
Foi o verão em que Portugal se estreou em fases finais de Mundiais e assinou, com o King Eusébio e os eternos Magriços, a melhor prestação de sempre da nossa história, conquistando um honroso e inesquecível terceiro lugar em Inglaterra.
Sessenta anos depois, a coincidência numérica serve de farol espiritual para a armada que amanhã aterra em solo norte-americano.
Esta rota que hoje iniciamos quer ligar a nostalgia romântica daquele passado glorioso à modernidade musculada de um grupo de trabalho que ambiciona, sem falsas modéstias, o topo do mundo. Cruzar a América profunda exige estofo mental, pulmão de aço e uma crença inabalável em cada quilómetro percorrido.
Do calor sufocante e húmido que encontrámos aqui na Flórida aos palcos gigantescos que se seguem no torneio, o caminho será longo e sinuoso, mas o destino final está bem traçado na mente de todos os portugueses. Que a mística dos heróis de 66 guie Cristiano Ronaldo e companhia nesta imensa autoestrada americana rumo à glória. O motor já arrancou. Vai dar Portugal!"

Alguém devia dizer a verdade a Ronaldo


"Mete-se pelos olhos dentro que, apesar da sua longevidade espantosa como jogador, aos 41 anos Ronaldo já não está ao nível que se exige para a titularidade na seleção.

Nos dois jogos de preparação para o mundial, frente ao Chile e à Nigéria, vimos um Cristiano Ronaldo muito diferente daquele que ainda existe na cabeça de muitos portugueses.
Mais lento, menos explosivo, sem a capacidade de ser letal a que nos habituámos. Nalguns momentos foi mesmo desastrado, sempre ineficaz.
Se foi assim com adversários de segunda linha, como será contra uma grande equipa?
Mete-se pelos olhos dentro que, apesar da sua longevidade espantosa como jogador, aos 41 anos Ronaldo já não está ao nível que se exige para a titularidade na seleção. Mas há quem recuse ver o óbvio – ou finja não ver – e continue a olhar para Ronaldo como se ainda fosse o melhor jogador do mundo.
Comentadores, jornalistas, adeptos contribuem para essa espécie de ficção ou de cegueira coletiva.
E, depois, à sua volta todos lhe devem dizer: ‘Tens de jogar’, ‘Tu és fundamental’, ‘És o melhor do mundo’, etc., etc., etc. Até porque Ronaldo é uma marca que gera milhões e com certeza dá milhões a ganhar a muita gente.
Mas alguém devia dizer-lhe a verdade e explicar-lhe que não é bom para ele arrastar-se em campo, falhar golos relativamente fáceis, perder bolas que noutros tempos não perderia.
Por outro lado, esta obsessão coletiva com Cristiano Ronaldo – basta ver os títulos dos jornais – está objetivamente a prejudicar a seleção. Só para dar um exemplo: por que há de ser o jogador que não marca um golo de livre direto há não sei quantos jogos que continua a apontar os livres mais perigosos quando temos excelentes batedores de livres, como Bruno Fernandes? Porque Ronaldo tem recordes para alcançar? Porque quer chegar à marca dos mil golos?
Ou será que nós, portugueses, lhe devemos alguma coisa? A fortuna, as casas, os carros, os fãs, a fama não serão ainda suficientes?!
Ronaldo é o maior futebolista português de sempre, está entre os cinco melhores do mundo de todos os tempos. Não deixaria de o ser se neste mundial começasse alguns jogos no banco, onde poderia ser muito mais útil à equipa. O que já conquistou ninguém lho tira. Mas, se continuar a fazer exibições a este nível, pode sair com a sua imagem muito desgastada. O fosso entre o Ronaldo que existe na cabeça de muitos portugueses e o Ronaldo real aos 41 anos é cada vez maior.
A Seleção Nacional não pode ficar refém de um homem, mesmo que seja o seu maior símbolo, nem pode dar-se ao luxo de andar com ele ao colo, em detrimento do coletivo. Mais do que a tentar bater recordes para sua glória pessoal, Ronaldo mostraria a sua verdadeira grandeza dando lugar a outros jogadores. Também eles merecem ter a sua oportunidade."

A América que lhes deu tudo (ou os portugueses e Donald Trump)


"Atravessaram o Atlântico quando a vida ainda lhes fugia pela algibeira rota dos calções. Tinham cinco, seis anos. Hoje, o sotaque deles é uma valsa curiosa, e fica-lhes bem. Cresceram aqui, trabalharam aqui, integraram-se de forma absoluta na cultura deste lado do Atlântico.
Trazem nos movimentos vagarosos a serenidade de quem já pagou a fatura da vida. Quando lhes pergunto se pensam voltar de vez a Portugal, a resposta é quase sempre a mesma: um sorriso nostálgico, seguido de um abanar negativo de cabeça.
Amam Portugal, adoram os almoços de cozido, bolinhos de bacalhau, pataniscas ou carne à alentejana e emocionam-se com o hino. Mas a terra deles é esta.
Têm a vida toda deste lado e têm sobretudo a família: os filhos e os netos. A pátria é um lugar sagrado, mas a casa - a verdadeira casa -, é onde os netos correm pelo quintal.
O regresso é uma miragem bonita para as férias, não é um plano de vida.
Trazem as mãos calejadas, mas as reformas são boas. Afinal de contas, a América deu-lhes tudo e eles deram tudo à América. E é nessa altura que introduzo o tema que muitos preferem não abordar.
Gosta desta América de Trump?, pergunto.
O tom de voz desce, o rosto fica mais sério. Falar de política é pisar ovos, mas a confissão acaba sempre por sair: os poucos com quem falei sobre isso mais abertamente - afinal de contas, estamos entre amigos -, inclinam-se para Trump.
Não é um apoio cego, longe disso. Fazem questão de sublinhar que não concordam com muitas das suas atitudes, torcem o nariz à forma como fala e criticam as vezes que se contradiz. Mas apesar disso tudo, dizem que era o homem que a América precisava nesta altura.
Não escondo o meu ar de surpresa: eles próprios também foram emigrantes. «Mas nunca fui ilegal», respondem.
Tento fazer de advogado do diabo e falo das guerras. «Quais guerras?», pergunta-me. No Irão, por exemplo. «Mas você falou de guerras, no plural. Que mais guerras ele fez?». Falo da operação na Venezuela, da ameaça sobre Cuba. «E já foram demasiado tarde. Deviam ter acontecido há mais tempo.»
Desisto.
Nisto de política sou apenas um observador, não julgo ninguém. Oiço, aponto e observo. Não há certo nem errado nestas mesas cheias de comida e saudade.
Mas eles têm mais alguma coisa a dizer. Falam do aproveitamento do sistema e dizem que quem trabalha não tem nada a temer. A conversa fica por ali. Sinto que não tenho argumentos para quem atravessou um oceano sem nada, para conseguir alguma coisa da vida."