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sexta-feira, 17 de julho de 2026
O futebol não é uma moda
"Fisicalidade introduzida por Farioli resultou no FC Porto, mas o mais importante é a convicção. E a identidade de jogo de Espanha é o melhor exemplo.
Estive a ver na terça-feira os jogos Sporting-Celtic e França-Espanha e dei por mim a pensar que a moda pode ser um risco. Considero que os bons exemplos devem ser seguidos, mas só o devem ser com convicção.
Vem isto a propósito do campeão FC Porto, particularmente como Francesco Farioli transformou num ápice uma equipa perdedora num conjunto vencedor. O italiano tem uma ideia de jogo assente no poderio atlético, na qual a capacidade física tem um peso decisivo.
Com Farioli chegaram Alberto, Bednarek, Kiwior, Froholdt, Pablo Rosario, Luuk de Jong ou Borja Sainz, que se juntaram a outros atletas poderosos fisicamente, como Samu, Alan Varela, Pepê ou Deniz Gul. Num ápice, o dragão tornou-se numa máquina fortíssima, com o treinador escolhido por André Villas-Boas a logo adicionar uma nova palavra ao léxico do futebol português: fisicalidade.
E a fisicalidade caiu em moda e até promete fazer escola. Curiosamente, foi Bruno Lage quem procurou dar o mote, assumindo que pretendia outro perfil de jogadores para o Benfica. Chegaram Manu Silva, Richard Ríos, Barrenechea, Lukebakio ou Ivanovic, mas o treinador não teve tempo para construir uma equipa à sua imagem, acabando despedido numa fase bem precoce da época.
Agora, surge o Sporting a apostar numa estratégia diferente da dos últimos anos, já com muitos reforços e uma base comum: a… fisicalidade. Altimira, Doumbia, Silas Andersen e o próprio Zalazar são jogadores fortíssimos atlética e fisicamente.
Já se percebeu que Rui Borges, enterrada a herança deixada por Ruben Amorim, pretende mudar o figurino da equipa. Quer um leão mais forte, mais agressivo e também com mais fome. É por este ângulo que observo as saídas anunciadas de Trincão, Pedro Gonçalves e Daniel Bragança, que se juntam às inevitáveis de Morita e Hjulmand. Confesso até que não me surpreenderia que mais algum peso pesado se juntasse ao rol, nomeadamente um dos defesas-centrais.
Certo é que o Sporting vai ser diferente e os indicadores que deu no particular com o campeão escocês até foram animadores. Vamos ter um leão mais arrojado, mais rápido e mais combativo, fruto do sangue novo injetado.
Nada a opor, obviamente, pois acredito que todos os reforços tenham o selo de Rui Borges, que prepara a transfiguração assente na convicção e nunca por uma questão de moda, embora esta tenha dado excelentes resultados no Dragão.
Já se percebeu que considero que a convicção é fundamental, pois só ela permite criar uma identidade. Como se constatou na meia-final do Mundial, com a Espanha a dar uma lição de futebol à favorita França. O projeto da federação do país vizinho é sólido, sustentado, assente numa ideia de jogo e transversal. O Barcelona criou o modelo e a seleção adotou-o. Com excelentes resultados. Tanto nos escalões de formação como na seleção principal. A promoção de Luis de la Fuente dos sub-21 à La Roja é só o corolário de uma lógica.
A França tem melhores jogadores — o ataque é mesmo extraordinário —, mas quem levou a melhor foi a equipa, a ideia, a convicção."
Preparação intensa
"A pré-época do futebol profissional do Benfica em destaque nesta edição da BNews.
1. Ingressos disponíveis
A venda de bilhetes para o St. Gallen-Benfica da 1.ª mão da 2.ª pré-eliminatória de acesso à fase de liga da Liga Europa reabre às 15h00.
2. Intensidade na pré-época
O grupo de trabalho às ordens de Marco Silva continua a preparar-se para a nova temporada.
3. Jogo de preparação agendado
Benfica e Belenenses encontram-se no Estádio da Luz, no dia 24 de julho, às 18h00.
4. Pré-época da B
Em jogo treino com o Lusitano GC registou-se um empate a um golo.
5. Movimentações do defeso
Alexandre Ferreira, internacional por Portugal, reforça o voleibol benfiquista. Na vertente feminina do basquetebol, Inês Faustino renova o contrato e Ana Barreto e Inês Neto juntam-se ao plantel benfiquista.
6. Sorteios
Em voleibol, o Benfica vai participar na CEV Cup no masculino e na CEV Challenge Cup no feminino. A equipa feminina de andebol participa na EHF European League.
7. Chamadas internacionais
Catarina Bernardino faz parte da seleção portuguesa no Mundial Sub-18 de andebol. A mais recente convocatória da seleção feminina Sub-19 de voleibol inclui quatro jogadoras do Benfica. E são 3 os atletas encarnados no Campeonato da Europa Sub-18 de atletismo.
8. Jornal O Benfica
A edição desta semana já está disponível para download no Site Oficial."
Prevenir em vez de remediar
"Quando fiz a minha primeira aposta, não estava a pensar em probabilidades nem em integridade. Apostei num cavalo a 33 para 1 porque corria com as cores do meu clube de futebol, o Preston North End.
Ganhou com 12 corpos de vantagem, e aquele momento provocou em mim uma sensação que passaria 17 anos a perseguir. Quando finalmente parei, tinha movimentado 5,6 milhões de euros em 93 contas e perdido quase tudo o que realmente importava. Partilho isto não para despertar compaixão, mas porque é a prova mais clara que tenho de que os danos causados pelo jogo raramente se anunciam — escondem-se à vista de todos, no interior de uma carreira, de um casamento, de uma vida que, vista de fora, parece estar inteiramente sob controlo.
A três dias do apito final, o Mundial entra no seu último acto — e o futebol tem uma oportunidade rara: não a de fiscalizar as apostas depois de o dano ocorrer, mas a de olhar honestamente para aquilo que este torneio nos mostrou sobre prevenção e para o que ainda falta construir antes do próximo.
O torneio gerou um volume extraordinário de apostas, grande parte delas legítima, outra nem tanto — o mercado negro é um risco crescente que nunca foi meramente hipotético.
A polícia francesa foi alertada para um aumento invulgar de apostas internacionais relacionadas com a possibilidade de Elye Wahi, jogador que participou no Mundial, ver um cartão no último jogo que disputou no campeonato nacional antes do torneio, o que desencadeou uma investigação a padrões suspeitos em torno da sua conduta. Casos como este são normalmente enquadrados apenas como um risco de manipulação de resultados. Mas levantam uma questão mais difícil: que formação recebeu esse jogador, e outros como ele, sobre a exposição ao jogo ou sobre integridade muito antes de qualquer investigação ter começado? Os Standards Universais da SIGA abordam, e bem, a ameaça à integridade. O interesse da EPIC situa-se na camada que lhe está subjacente — o bem-estar dos jogadores, das equipas técnicas e dos adeptos dentro de um ecossistema de apostas mais rápido, mais acessível e mais anónimo do que em qualquer outro momento da história.
O jogo online alterou o risco. Está disponível a todas as horas do dia, não exige qualquer transação visível e pode intensificar-se em privado, sem que as pessoas mais próximas se apercebam. A minha própria dependência permaneceu invisível para a minha mulher e para os meus colegas de equipa durante quase uma década — uma característica estrutural da forma como hoje se acede ao jogo e a razão pela qual a prevenção tem de estar incorporada no sistema, e não ser acrescentada posteriormente.
Na EPIC Global Solutions, que fundei depois de cumprir uma pena de prisão relacionada com a minha dependência, o nosso modelo assenta num princípio: a prevenção tem de surgir antes do dano. Cerca de metade da nossa equipa tem experiência vivida de dependência do jogo, e trabalhamos nas áreas do desporto, jogo, serviços financeiros, forças armadas, justiça criminal e educação de jovens, em mais de 30 países.
A nossa parceria com a SIGA é importante para mim a nível pessoal, e não apenas profissional. Os Standards Universais da SIGA e o trabalho de prevenção da EPIC partilham uma convicção: proteger a integridade do desporto e proteger as suas pessoas são uma única missão, observada de dois ângulos diferentes. A SIGA traz um modelo de governação rigoroso para a integridade das competições; a EPIC traz a experiência da linha da frente sobre aquilo que os danos causados pelo jogo realmente são e sobre como intervir antes de um jogador, dirigente ou adepto entrar num território mais destrutivo. Em conjunto, estamos a desenvolver ferramentas, formação e campanhas que tratam a proteção dos atletas como uma questão central de integridade, e não como uma preocupação periférica de bem-estar.
Os danos causados pelo jogo não são definidos pelo valor de uma aposta nem pelo saldo de uma conta bancária, mas pela relação entre o indivíduo e o comportamento. Um jovem jogador de academia que aposta pequenas quantias em segredo pode correr mais perigo do que um adepto abastado que aposta grandes somas de forma recreativa. Isto é verdade em todo o mercado regulado — e ainda mais nos mercados não regulados.
O Mundial foi visto por milhares de milhões de pessoas, muitas delas jovens, que formaram as suas primeiras perceções sobre as apostas ao longo de um mês de marketing associado ao torneio. Quando o troféu for erguido, federações, ligas e operadores terão a oportunidade de adotar um modelo melhor antes do próximo torneio: parcerias transparentes entre entidades de integridade e especialistas em prevenção de danos, formação dirigida aos jogadores antes de os problemas surgirem e uma conversa sobre o jogo que leve a prevenção tão a sério como a deteção.
O jogo existe há 3.000 anos e continuará a existir nos próximos 3.000. A resposta não passa por afastar as apostas do desporto, nem isso seria realista. Passa por reconhecer honestamente o risco e investir na prevenção com a mesma seriedade com que o desporto investe em medidas antidopagem ou de combate à manipulação de resultados. Todas as formas graves de perturbação de jogo com que me deparei, incluindo a minha, terminam num de quatro destinos: falência, rutura de relações, condenação criminal ou — nos piores casos — problemas graves de saúde mental. A prevenção é a única intervenção capaz de interromper esse percurso.
Há quase 15 anos, fiz a minha última aposta. Tudo o que a EPIC faz, e tudo o que a nossa parceria com a SIGA está a construir, nasce do desejo de que menos pessoas percorram a distância que eu percorri antes de alguém intervir. Agora que este Mundial chega ao fim, deixa um indicador claro pelo qual poderemos medir o próximo: proteger a integridade do desporto tem de incluir a proteção de quem o pratica, de quem o apoia e de quem o vê. A prevenção não é uma nota de rodapé da integridade — é o seu alicerce."
O fabuloso destino 'Rojo'
"A Espanha pode não ser campeã do mundo, mas De la Fuente sairá sempre por cima deste Mundial
De todos os semi-finalistas, só a Espanha tinha jogado grandes jogos até agora. França, Inglaterra e Argentina, com maior ou menor nota artística, limitaram-se a cumprir os serviços mínimos para atingir a fase das decisões.
Não chegar a esta fase da prova seria uma desilusão para todos. Terá isso feito a diferença? Em muitos jogos deu a sensação de que os jogadores franceses eram muito melhores.
Não havia dinâmica colectiva que lhes fizesse frente porque a diferença era muita. Quando o nível do adversário subiu a equipa não foi capaz de dar resposta. Creio que poucos imaginavam que a Espanha se sobrepusesse desta maneira ao grande favorito. Não temos forma de saber o que seria do jogo se Digne não tivesse cometido penálti sobre Yamal, talvez isso tenha detonado os níveis de confiança dos franceses e tenha agarrado os espanhóis ao seu plano de jogo. No entanto, registe-se como a França praticamente não teve oportunidades de golo nem remates enquadrados, o que numa equipa que começou o jogo com Mbappé, Olise, Barcola e Dembélé é impressionante.
O dado interessante é que isto esteve longe de significar que a Espanha se tenha defendido com unhas e dentes, ou talvez o tenha feito da maneira mais eficiente possível: tendo a bola, gerindo ritmos de jogo, mantendo o adversário longe da baliza. E isto foi suficiente para que os espanhóis tenham concedido apenas um golo durante os cinco jogos da competição.
Luis de la Fuente arrisca-se a passar de ilustre desconhecido a um nome marcante da história do futebol num par de anos. Mesmo sendo a Espanha uma das mais fortes seleções do torneio, é evidente que a subida de rendimento de Rodri e Yamal potenciou o crescimento colectivo da equipa. Por outro lado, substituir Pedri nunca seria uma decisão fácil, e a entrada de Fabián Ruiz catapultou a equipa para outro patamar.
Talvez tenha sido, aliás, parte do problema da selecção francesa. Sentiu-se sempre que Rabiot e Tchouaméni não chegaram para as encomendas. Rodri dominou o meio-campo e teve um papel decisivo na circulação espanhola. Oyarzabal meteu-se muitas vezes por dentro do bloco, arrastou centrais, potenciou entradas em rotura. Novamente: Rabiot e Tchouaméni ou, noutra versão, Rabiot e Koné, foram suficientes quando menos faziam falta. Quando a exigência subiu os problemas estruturais evidenciaram-se.
A Espanha pode não ser campeã do mundo, mas De la Fuente sairá sempre por cima de um Mundial que até foi iniciado aos ziguezagues. Curiosamente, como o último campeão do mundo."
Querer foi mesmo poder
"Para que não subsistam quaisquer dúvidas, sou pela competência e não tenho nenhum ‘parti pris’ contra os treinadores estrangeiros. Antes de andarmos pelo mundo a ensinar futebol, aprendemos sobretudo com os húngaros, ingleses e brasileiros, que nos levaram para patamares superiores. Devemos ter esta consciência e prestar homenagem a quem nos ajudou e nos mantém alerta para não nos deixarmos adormecer. Duas das maiores revoluções do nosso futebol tiveram o brasileiro Otto Glória e o sueco Sven-Goran Eriksson como protagonistas, pelo que só nos fica bem a humildade de reconhecer que adquirir saber, venha de onde vier, é fundamental para evoluir.
Dito isto, e tendo o Campeonato do Mundo no ponto de mira, mais uma vez será um treinador ‘nacional’ a sagrar-se campeão do mundo, Sclaloni ou De la Fuente. E quantas vezes aconteceu isto, desde 1930? Todas! Sim, nunca um treinador 'estrangeiro' se sagrou campeão do mundo. E sabem quantos treinadores 'estrangeiros' estavam nas 48 seleções concorrentes ao Mundial de 2026? Nada mais, nada menos do que 26, sendo as quedas de Ancelotti, Tuchel, Martínez, e Garcia, as mais impactantes.
Mas este Campeonato do Mundo da América do Norte abre-nos outra possibilidade: Lionel Scaloni pode igualar, assim a Argentina derrote a Espanha na final, o italiano Vittorio Pozzo, até agora o único treinador a vencer dois Mundiais consecutivos (1934 e 1938)...
Quanto ao jogo de ontem entre argentinos e ingleses, confesso que comecei a torcer pelos europeus e acabei a desejar a vitória dos sul-americanos. Quis que a Inglaterra chegasse à final, porque são um país de futebol, têm adeptos (uma vez erradicados os ‘hooligans’) que respeitam a integridade do jogo, e puseram de pé o melhor campeonato do planeta, onde atuam cinco dos titulares da Argentina que ontem acedeu à final, em Atlanta. Acabei a querer que a ‘albiceleste’ vencesse porque os apóstolos de Messi juntaram a uma disciplina futebolística europeia, as ‘ganas’ que sempre os caraterizaram. Como dizem os brasileiros, não tiveram ‘sangue de barata’, ou, como dizemos nós, tiveram ‘sangue na guelra’, enquanto que os ingleses de Tuchel, mal se viram em vantagem, levaram o resultadismo à enésima potência, ‘alugaram’ um ‘Double Decker’ que colocaram à frente do magnífico Pickford, e deixaram uma imagem de equipa pequena.
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minutemen, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…"
Com Jesus isto vai ser bem mais divertido
"A Federação troca o soporífero pela cafeína... Jesus é a bebida energética que a seleção precisava. E se falharmos, será com estilo, será a tentar...
Há muitas maneiras de avaliar a qualidade de um treinador. Posso olhar para os resultados e para a qualidade estética do futebol praticado pelas equipas que comanda. Mas nada é tão completo quanto o que me dizem dele os jogadores por ele treinados. Não me refiro às declarações de atuais jogadores em entrevistas ou conferências de imprensa, mas as de antigos jogadores, em público ou privado, numa fase em que já não dependem do treinador para nada. E deixem que vos diga: em cada 10, cinco consideram Jorge Jesus o melhor treinador que tiveram; quatro entre os dois a três melhores e um diz que é apenas um bom treinador. O trabalho tático, o conhecimento do futebol e a capacidade de tirar rendimento de um jogador e colocar a equipa a jogar muito bom futebol é destacado por todos. Já 10 em cada 10 dizem também que ferve em pouca água; dá reprimendas em público se for preciso – tal como, a seguir, defende o jogador até ao limite; é obsessivo com o trabalho e se tiver de acordar alguém a meio da noite… acorda; é tão perfecionista e tão atento ao pormenor que chega a ser cansativo. Suga. Logo, a larga maioria desses ex-jogadores sempre me contou que à terceira época havia já um desgaste, mantendo-se o respeito e admiração. E não param de falar nele…
Conheci Jorge Jesus em 1998, no Estrela da Amadora. Numa altura em que os treinos aconteciam à porta aberta, bastou-me o primeiro para perceber que era um treinador diferente. A atenção ao detalhe e a qualidade do treino eram evidentes. No final, várias vezes, ficava a falar com os jornalistas. Explicava, debatia, ensinava. Anos mais tarde, num estágio de início de época do SC Braga, assisti a um treino em que uma jogada de ataque, que começou num guarda-redes e acabou num remate para defesa do outro guarda-redes demorou… 45 minutos. Jesus quase de fita métrica na mão a interromper a cada cinco segundos, a corrigir posicionamentos e decisões, a explicar tudo numa lógica de xadrezista.
Aprendi também a gostar de Jorge Jesus pela personalidade. Gingão. Divertido. Às vezes irritante. Umas calinadas no português, uma dose q.b. de arrogância. Tão genuíno. Diz que inventou coisas no futebol. Pablo Aimar concorda. Disse, após ter saído do Benfica, que com Jesus aprendeu coisas que nem sabia que existiam. E Aimar já era Aimar. E tantos outros…
Jesus é um corte com Roberto Martínez. Na personalidade, na independência, até na capacidade de fazer sangue para clarificar. Mas, acima de tudo, na capacidade de colocar a Seleção a jogar. É possível que arranje uma ou outra confusão, alguma incompatibilidade, se espalhe aqui e ali com alguma visão. É o preço a pagar por quem tem personalidade e fervilha de ideias. Pode falhar como outros. Mas falha a construir. Onde Martínez falhou por ausência a mais, Jesus pode falhar por presença a mais. Vai fazer os adeptos acreditar. E em termos de comunicação, trocamos o soporífero pela cafeína. Jesus prende-nos.
Tenho as dúvidas de muitos: uma coisa é treinar um clube, outra a Seleção. Aqui, não tem tempo para vincar novas ideias; aqui tem de partilhar as ideias que defende com as que os jogadores trazem dos clubes. Mas sei que Jesus é um grande treinador. É um personagem. Tem carisma E gosto dele. Pronto.
Esta Seleção, não tenho dúvidas, vai ser muito mais mais competente e… muito mais divertida."
Para português ver: o que é uma verdadeira grande seleção
"«A deceção é grande, mas não apaga tudo de bom que fizemos. Não tiro o mérito à seleção espanhola, que controlou o jogo»
Didier Deschamps, selecionador francês, após derrota com a Espanha na meia-final do Mundial
Didier Deschamps termina aventura de 14 anos como selecionador da França com a eliminação nas meias-finais do Mundial, uma deceção, mais uma, para aquela que foi, provavelmente, a melhor seleção da última década.
E despede-se apenas com um grande título, o Mundial 2018 (ganhou também a Liga das Nações de 2021); mas para quem regularmente coloca Portugal entre as principais seleções do Mundo, atente-se no que a França conseguiu com Deschamps.
Em quatro Mundiais, chegou aos quartos de final (2014), meias (2026), final (2022) e venceu a competição em 2018; nas três eliminações, caiu frente a Alemanha, Espanha e Argentina. Em três Europeus, perdeu em casa a final de 2016 contra Portugal, caiu nos oitavos de 2020 nos penáltis, contra a Suíça, e foi eliminada nas meias de 2024 contra a Espanha. Tirando em 2020, todas as seleções que eliminaram os bleus foram campeãs.
No mesmo período, Portugal não passou da fase de grupos do Mundial em 2014, foi eliminado nos oitavos de 2018 pelo Uruguai, nos quartos de 2022 por Marrocos e nos oitavos de 2026 pela Espanha; e no Euro, após ganhar em 2016, caiu nos oitavos de 2020 com a Bélgica e nos quartos de 2024 com a França.
Não é mau, mas em sete fases finais a Seleção chegou uma vez às meias; a França só não o fez por duas vezes. Só para pôr em perspetiva o que é uma verdadeira grande seleção."
A traição de Thomas Tuchel
"Argentina e Espanha não encontraram data para a Finalíssima e quis o destino que se enfrentem na final do Mundial. O tira-teimas entre o campeão da Europa e o bicampeão da Copa América entregará o título planetário à melhor das duas melhores equipas do torneio e, ganhe ou não, o ceptro definitivo a Messi, o último filho dos deuses, na última dança enquanto carne e osso.
Acredito que, em 1986, as Malvinas tenham passado pouco pela cabeça de Maradó, Valdano, Burruchaga e companhia, quando bateram a Inglaterra no Azteca. Mesmo que o 'Pelusa' tenha dito sobre a Mão de Deus que roubar a um inglês era ainda mais especial, ele e os colegas também confessaram ter atribuído peso relativo ao conflito. Também ontem, com mais quatro décadas em cima, apesar da eterna reivindicação territorial sul-americana, pouco terá contado. Mesmo com a faixa levantada no final. Se a viram antes, afinaram então o grito de guerra, porém serviu sobretudo para pisar ainda mais o velho inimigo já prostrado.
Houve rivalidade, agressividade de faca nos dentes e toda a emoção que os argentinos colocam em cada duelo — tremendas palavras e lágrimas de Lautaro Martínez, que sonhava com um golo num momento destes desde que a mãe lhe comprou as primeiras botas —, mas sobretudo uma alma que nasce da adversidade e que torna a Albiceleste avassaladora, sobretudo quando sente o cheiro do receio. E depois Messi, mais uma vez, com Scaloni a ajudar.
Talvez 'La Scaloneta' não tivesse chegado lá sem a ajuda de Tuchel e os quatro centrais, com um à direita, e a linha de cinco. Com o levantar do muro logo à frente de Pickford, ainda mais alto com Dan Burn. Nunca conheceremos essa realidade alternativa. O que não impede que as decisões do alemão pareçam uma traição à natureza da equipa e à qualidade dos seus atacantes. Messi olhou para o gigante de dois metros e encolheu os ombros. «Tomá lá, Lautaro!» E o planeta abanou com a vénia que todos lhe fizeram."
Tudo e todos precisam de estratégia
"Estratégia é definir uma visão para 5 a 10 anos e garantir que as decisões do dia a dia caminham todas na mesma direção.
A palavra estratégia tornou-se uma das mais utilizadas no desporto, embora uma das menos compreendidas. Surge em campanhas eleitorais, apresentações institucionais e até de treinadores.
Usando como exemplo a recente nomeação de Jorge Jesus para selecionador nacional, por si só, esta decisão não representa uma nova estratégia, por muito mediática que possa ser. Representa por si só e apenas a escolha de um treinador. Pode fazer parte de uma estratégia mais ampla, mas isso só Pedro Proença e os seus pares saberão. Para o comum dos mortais, será apenas uma especulação.
Confundimos demasiadas vezes uma decisão com uma estratégia. Contratar um treinador, mudar um diretor desportivo ou apostar na formação pode estar alinhado com uma estratégia, mas nenhuma dessas decisões, isoladamente, constitui uma estratégia. Estratégia é outra coisa.
É definir uma visão para 5 a 10 anos e garantir que as decisões do dia a dia caminham todas na mesma direção, estão alinhadas e vão ao encontro do que a cultura organizacional fomenta diariamente. É alterar modelos de funcionamento, processos, o recrutamento e a forma como a organização toma decisões. Não deve depender apenas de uma pessoa e muito menos de um treinador.
Jorge Jesus é, naturalmente, uma decisão desportiva, estrutural e política. O seu currículo, experiência e personalidade são inquestionáveis, tem uma forma peculiar de contagiar quem o rodeia (que neste caso, serão todos os portugueses) e é legítimo que o presidente da FPF pretenda ter um novo selecionador. Mas a verdadeira questão não deverá ser quem ocupa o cargo. É perceber se esta decisão vai ao encontro da visão para o futebol português que sobreviva ao mandato do presidente e do novo selecionador. Só isso será uma verdadeira estratégia.
Qualquer estratégia é medida pela consistência e coerência das decisões. E tal como num objetivo demasiado estruturante, é aí que a maioria das pessoas e das organizações falha.
Por último, este caso, que pode ser transversal para muitos outros casos no desporto, dá-nos três ideias-chave: Jorge Jesus, como poucos, tem sabido ter e gerir a sua estratégia desportiva e comunicacional, honra seja feita. Em todas as organizações, a estratégia para ter o mínimo de aspiração a ter sucesso deve ser abarcada como de todos ou quase de todos. Por último, para quem lidera, não há obrigatoriedade de incluir todos nas decisões estratégicas, mas o compromisso de todos ganha-se por alinhamento, inclusão e cultura organizacional."
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Até vale tirar olhos!!!
Fábio Verissimo foi o arbitro do Benfica-Flamengo, num jogo que ficou assinalado pelo excesso de dureza que a equipa brasileira colocou em campo. Um jogador do Benfica, Jaden Umeh, enfrenta uma paragem de três meses devido a uma entrada durissima de Emerson. pic.twitter.com/CQ2pDJVJ0K
— Liga da Farsa (@ligadafarsa) July 15, 2026
Palha!!!
A audição parlamentar da ERC sobre a Benfica FM foi um festival de banalidades e de desculpas esfarrapadas para não deferir o pedido do Benfica para emitir em FM. Ficam aqui alguns exemplos. pic.twitter.com/JEki0QLeWI
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) July 15, 2026
António Silva: cortar o mal pela raiz com o patinho feio
"Todos sairão a ganhar com a provável venda do central por parte do Benfica. António Silva tornou-se num alvo fácil e precisa de mudar de ares o quanto antes
Há momentos na vida dos clubes e dos jogadores em que é necessário fechar ciclos (veja-se a autêntica revolução que Frederico Varandas decidiu levar a cabo no Sporting depois da desilusão que foi 2025/26) e, apesar de o Benfica não o ter sabido fazer nalguns casos no passado recente, como o de Nicolás Otamendi, estará a tomar a decisão correta ao permitir a saída de António Silva neste defeso.
Não só porque, face à relutância do central em renovar contrato, é a última oportunidade de ainda encaixar dinheiro — e, sem Champions, tão necessário que ele é para fazer face às exigências, já públicas, de Marco Silva para retocar um plantel caro mas desequilibrado —, mas também por se ter percebido que o defesa chegou ao fim da linha na Luz. Não terá sido, certamente, pela prestação aquém desejado no amigável com o Flamengo, entre uma equipa em início de pré-temporada e outra a meio da época, mas foram várias as falhas ao longo das últimas temporadas que foram deixando António Silva com espaço de manobra reduzido. Não só no Benfica, mas também na Seleção, e a ausência dos convocados de Roberto Martínez para o Mundial foi apenas mais uma das muitas machadadas na confiança que o jogador sofreu nos últimos tempos.
Como se isso não bastasse, o ex-selecionador, em mais um dos seus momentos comunicacionais de levar as mãos à cabeça, preferiu queimar um jovem de 22 anos em praça pública por causa de um episódio no Euro 2024, ao invés de o proteger e disso não fazer caso.
António Silva tornou-se numa espécie de patinho feio e o alvo para o qual é fácil apontar o dedo quando as coisas não correm bem. E, perto dos 23 anos, está numa fase crucial da carreira: ou faz o reset longe do Benfica, e vai muito a tempo disso, ou corre o risco de vir a ser mais um dos que muito prometeram mas acabaram por nunca corresponder às expectativas. Não há tanto tempo assim, com Ferro, o Benfica teve esse exemplo na mesma posição.
Perder António Silva e Otamendi de uma vez só obrigará a refazer as fundações da equipa e contratar com critério, até porque a condição física de Tomás Araújo é um constante ponto de interrogação. Com Lenglet, o Benfica ganha qualidade com bola e experiência, mas terá de acrescentar agressividade e poder físico ao companheiro de setor do francês. A águia tem ignorado o mercado interno, mas olhar para Ibrahima Ba (Famalicão) pode ser a aposta certa para a sucessão."
O orgulho de ser Portugal
"O desporto universitário português viveu mais uma página dourada da sua história em Varsóvia, com a conclusão do Campeonato Mundial Universitário de futsal de 2026. Numa competição que reúne anualmente a elite mundial da modalidade, ver as nossas Seleções Nacionais universitárias, feminina e masculina, subirem ambas ao pódio como vice-campeãs do mundo constitui um feito notável que deve encher todos de um orgulho incomensurável.
Não escondemos que o desfecho das duas finais frente ao Brasil trouxe o amargor próprio de quem compete focado em vencer, pois quem veste a camisola de Portugal ambiciona sempre o lugar mais alto do pódio. Contudo, uma análise ponderada dos resultados alcançados na Polónia leva-nos a uma interpretação mais aprofundada e justa, na qual a medalha de prata consagra um processo contínuo de excelência, resiliência e crescimento.
Estes resultados refletem um trabalho estruturado e, sobretudo, a parceria estratégica entre a Federação Académica do Desporto Universitário e a Federação Portuguesa de Futebol. Esta cooperação institucional e técnica na gestão das Seleções Nacionais universitárias de futsal eleva e prestigia enormemente a modalidade, permitindo proporcionar aos nossos estudantes-atletas condições de preparação de excelência. É este esforço conjunto que capacita as nossas equipas para competirem ao mais alto nível internacional e transportar a identidade e o ADN do futsal português para o contexto universitário mundial.
A Seleção feminina, liderada por Ricardo Azevedo e Luís Conceição, demonstrou em campo a qualidade técnica e a maturidade de quem já habituou o país a estar presente nos grandes palcos. Acabou por ser derrotada pela formação brasileira por três bolas a zero, num jogo em que a equipa portuguesa se apresentou superior na primeira parte e dispôs de oportunidades suficientes para mudar o curso da partida. Faltou lucidez na finalização nos momentos-chave, mas nunca faltaram alma e entrega por parte de um grupo renovado que honrou com distinção o legado do futsal feminino universitário.
Por seu turno, a Seleção masculina, orientada por Pedro Palas e Luís Silva, protagonizou uma notável caminhada de superação. Depois de ter ficado pelos quartos de final na edição de 2024, Portugal apresentou-se em 2026 com aquela que era, provavelmente, a equipa mais jovem do torneio. Na final, perante uma pesada desvantagem na primeira parte, estes jovens mostraram um caráter gigante, fizeram o adversário vacilar, lutaram com o coração em campo e mantiveram o jogo em aberto até aos segundos finais, fechando o marcador num expressivo, mas injusto, oito a cinco.
Ao longo de 36 anos de história, a Federação Académica do Desporto Universitário tem trabalhado arduamente para que o desporto seja uma dimensão preponderante da vida académica. A participação em Varsóvia é o espelho exato dessa missão, ao demonstrar que é perfeitamente possível conciliar a exigência do ensino superior com o rendimento desportivo de alto nível.
Como os nossos selecionadores e capitães referiram no encerramento da competição, estes torneios proporcionam o crescimento de que uma equipa jovem precisa para amadurecer. Em finais mundiais, os pormenores fazem a diferença e os erros são caros, mas é precisamente através destas lições e do sofrimento desportivo que se constrói o caminho para os títulos de amanhã.
A todas as nossas e nossos estudantes-atletas, às equipas técnicas e a todo o staff que representaram Portugal na Polónia, deixo o meu mais profundo agradecimento por terem demonstrado que o desporto universitário português tem um presente e um futuro brilhantes. Regressamos a Portugal de cabeça erguida, como vice-campeões do mundo, conscientes de que somos uma nação académica que sabe trabalhar e lutar, e que continuará a elevar o nome do país além-fronteiras."
Quando um clube histórico fecha as portas perdemos todos
"Quando um clube histórico fecha as portas, perdemos todos
Hoje o Boavista fechou as portas.
Independentemente das decisões judiciais, das responsabilidades de quem dirigiu o clube ao longo dos anos ou das circunstâncias que conduziram a este desfecho, há uma realidade impossível de ignorar: o futebol português ficou hoje mais pobre.
O Boavista não é apenas um emblema. É um campeão nacional. É um vencedor da Taça de Portugal. É um estádio cheio de memórias. É uma identidade construída ao longo de mais de um século por milhares de famílias que passaram o amor ao clube de geração em geração.
Quando um clube destes desaparece, não desaparece apenas uma sociedade desportiva.
Desaparece um pedaço da nossa história.
Infelizmente, o Boavista não está sozinho. Antes dele caíram o Vitória de Setúbal, o Beira-Mar, o Salgueiros, o Olhanense e tantos outros que fizeram parte da identidade do futebol português. Clubes que deram internacionais, encheram estádios, conquistaram títulos e escreveram capítulos que jamais poderão ser apagados dos livros.
A pergunta que devemos fazer é simples: como chegámos aqui?
Durante anos fomos convencidos de que a sustentabilidade do futebol se mede quase exclusivamente pela apresentação de declarações de não dívida, pelo cumprimento de obrigações fiscais e por controlos salariais. Tudo isso é importante. Ninguém o discute.
Mas será suficiente?
Os números dizem-nos que não.
No encerramento das contas da última época, 11 dos 18 clubes da I Liga apresentavam capitais próprios negativos. Em conjunto, acumulavam um passivo superior a 1.732 milhões de euros. Em termos contabilísticos, a maioria do futebol profissional português vive numa situação de enorme fragilidade.
Perante esta realidade, será legítimo perguntar se o modelo de controlo que seguimos há tantos anos está verdadeiramente a proteger o futebol… ou apenas a adiar problemas maiores.
Ao mesmo tempo, assistimos a um fenómeno silencioso.
Cada vez mais investidores escolhem clubes sem massa associativa, sem pressão e sem história. É uma opção perfeitamente legítima do ponto de vista empresarial.
Mas o resultado está à vista.
Temos estádios vazios. Clubes desligados das suas comunidades. Equipas que jogam a dezenas de quilómetros da cidade que representam. Recintos com capacidade para mais pessoas do que habitantes existem na própria localidade.
E, enquanto isso acontece, os clubes históricos continuam a desaparecer.
Perde o futebol.
Perdem as cidades.
Perdem as regiões.
Perdem as novas gerações, que deixam de crescer com a rivalidade saudável entre clubes que davam vida às suas comunidades.
O futebol nunca foi apenas um negócio.
O futebol é pertença.
É memória.
É identidade.
É o avô que leva o neto pela primeira vez ao estádio. É a camisola herdada do pai. É a rua cheia depois de uma subida de divisão. É uma cidade inteira que encontra no seu clube uma forma de se reconhecer.
Quando um desses clubes morre, nenhuma nova sociedade desportiva consegue substituir esse património emocional.
Falo disto também por experiência.
Quando aceitei ajudar a reconstruir o Estrela da Amadora, fi-lo porque acreditava que a história não podia terminar ali. O mérito dessa refundação pertence, antes de mais, aos seus refundadores, que nunca deixaram morrer a chama do clube. A partir dessa base, houve quem acreditasse que era possível devolver o Estrela ao lugar onde a sua história sempre o colocou.
Recuperar um clube histórico não significa apenas voltar às competições.
Significa recuperar uma identidade.
Recuperar um estádio.
Recuperar símbolos.
Recuperar memórias.
Recuperar o orgulho de uma comunidade inteira.
É um caminho longo, difícil e muitas vezes incompreendido. Mas quando se acredita verdadeiramente no valor da história, percebe-se que há patrimónios que não podem ser medidos apenas por um balanço financeiro.
Por isso, hoje não escrevo apenas sobre o Boavista.
Escrevo sobre todos os clubes históricos que lutam diariamente para sobreviver.
Porque o futebol português precisa dos seus grandes clubes regionais. Precisa das suas rivalidades. Precisa das suas cidades representadas ao mais alto nível. Precisa da emoção que só a história consegue criar.
Espero sinceramente que, tal como aconteceu com o Farense, com o Estrela da Amadora e com outros exemplos de resistência, também o Boavista encontre força para renascer.
Os clubes centenários podem cair.
Mas a sua história nunca deve morrer.
Porque há instituições que pertencem aos seus adeptos, às suas cidades e ao património coletivo do nosso país.
E enquanto houver alguém disposto a acreditar nelas, haverá sempre esperança.
Ao Boavista, deixo apenas uma palavra:
Até já."
Que significará para a Europa se a final do Mundial de 2030 for em Casablanca?
"A escolha da cidade da final do Mundial de 2030 será uma decisão geopolítica. Se a FIFA atribuir a final a Marrocos, essa escolha constituirá uma das mais simbólicas evidências da perda de influência da Europa no mundo contemporâneo.
O Mundial do centenário será disputado em seis países e três continentes. Começará na América do Sul, prosseguirá na Europa e em África. Terminará em Casablanca?
Muitos europeus diriam que a escolha de Casablanca teria resultado de interesses políticos ou de jogos de bastidores. A realidade é mais exigente. Se isso acontecer, será a consequência natural de uma transformação da ordem mundial iniciada há muitas décadas.
A Europa habituou-se a pensar que a sua história lhe garantia influência permanente. Porém, a influência nunca é um direito adquirido. Conquista-se, preserva-se e, quando deixa de existir estratégia, perde-se.
Essa dificuldade revela-se até na forma como a União Europeia escolheu representar-se. Ao fixar o seu centro político em Bruxelas, em vez de Roma, optou por uma capital administrativa e não pelo maior símbolo da continuidade histórica da civilização europeia.
Roma representa o direito, a cidadania, a administração pública, a construção de um espaço político comum e a ideia de uma vocação universal que moldou o Ocidente durante séculos. Os símbolos não governam, mas ajudam as civilizações a acreditar em si próprias. Quando deixam de os valorizar, já estão a perder muito mais do que a memória.
Durante séculos, a Europa foi o centro económico, científico, político e cultural do mundo. No século XX, duas guerras mundiais deslocaram progressivamente o centro do poder para os Estados Unidos.
O futebol acompanhou essa evolução. Foi aqui que nasceu o jogo moderno, onde foram fundados os maiores clubes e ainda hoje se disputam as competições mais prestigiadas. Mas uma coisa é concentrar talento, tradição e riqueza; outra, muito diferente, é conservar a capacidade de definir as regras.
João Havelange percebeu essa diferença antes de todos. Em 1974 compreendeu que, na FIFA, a história e os títulos não votavam. Votavam as federações, todas exatamente com o mesmo peso.
Enquanto a Europa continuava a olhar para a FIFA como uma extensão natural da sua superioridade futebolística, Havelange percebeu que o verdadeiro poder estava nos novos países independentes de África e da Ásia e nas federações da América Latina.
Stanley Rous, presidente inglês da FIFA e símbolo da velha ordem europeia, acreditava que a tradição e a autoridade histórica bastariam para vencer. Não bastaram.
A vitória de Havelange representou muito mais do que uma mudança de presidente. Foi a primeira grande derrota política da Europa dentro da FIFA e marcou o início de uma nova distribuição de poder que perdura até hoje.
A Europa deixou de controlar o centro de decisão. A partir desse momento, manter a influência passou a depender muito mais da capacidade de construir alianças do que da força da sua própria história.
A perda de influência começa quando se perde a estratégia. E a estratégia começa a perder-se na forma como o poder decide.
A tradição política grega valorizava o confronto de argumentos antes da decisão. Muitos dos melhores governantes romanos rodeavam-se de homens livres, independentes o suficiente para discordarem. Sabiam que as decisões mais sólidas nascem do contraditório e não da unanimidade.
O declínio instala-se quando os mais livres e competentes passam a ser incómodos e são substituídos pelos mais obedientes. O debate desaparece, instala-se o pensamento de grupo e as decisões deixam de ser verdadeiramente testadas.
O início do declínio de uma organização não é a falta de talento, é a expulsão do pensamento livre da proximidade do poder.
Hoje, Marrocos é um dos países estrategicamente mais relevantes do mundo.
É parceiro essencial dos Estados Unidos e da União Europeia no Magrebe, plataforma logística entre a Europa, África e o Atlântico e uma potência diplomática crescente no continente africano e no mundo árabe.
Percebeu igualmente que o futebol se transformou num instrumento de projeção internacional. A organização do Mundial faz parte de uma estratégia nacional muito mais ampla de afirmação geopolítica.
Também a FIFA mudou profundamente e o momento decisivo foi o FIFAGate.
Em maio de 2015, dirigentes da FIFA foram detidos, em Zurique, pelas autoridades norte-americanas. O escândalo revelou um sistema de corrupção instalado durante décadas, conduziu à queda de Joseph Blatter, afastou Michel Platini da sucessão e provocou a maior transformação institucional da história da organização.
O mais relevante não foi a corrupção revelada. Foi perceber que a FIFA deixara de ser suficientemente poderosa para viver acima da geopolítica internacional.
Gianni Infantino, eleito presidente da FIFA poucos meses depois, assistiu de perto ao colapso do antigo sistema.
No século XXI, os votos continuam a ser indispensáveis, mas já não são suficientes. Hoje, compreender a FIFA implica compreender a geopolítica.
Se a FIFA escolher Casablanca, não estará apenas a indicar onde se joga uma final, estará a reconhecer que o centro de gravidade da influência global não coincide com o centro histórico do futebol.
Mas esta reflexão não diz respeito apenas à Europa ou à FIFA.
Também o futebol português deveria fazer este exercício de consciência. As suas instituições cultivam verdadeiramente a proximidade de homens livres, capazes de discordar sem receio e de melhorar as decisões? Ou tendem a afastar quem manifesta pensamento independente, premiando sobretudo a lealdade pessoal e a conformidade?
Uma organização que transforma o contraditório numa ameaça começa, muitas vezes sem o perceber, a perder estratégia muito antes de perder resultados.
As derrotas tornam-se visíveis no dia em que chegam os resultados. Mas começam muito antes, no dia em que o poder deixa de ouvir quem pensa de forma diferente."
A equipa que falta
"Portugal nunca teve falta de jogadores.
Ao longo das últimas duas décadas habituámo-nos a ver portugueses nos maiores clubes do mundo. Tivemos Bolas de Ouro, vencedores da Liga dos Campeões, campeões europeus e jogadores que discutem, todos os anos, o lugar entre os melhores do planeta. Há poucas seleções que possam apresentar um património individual desta dimensão. Se olharmos apenas para o talento, Portugal entra em qualquer competição com legitimidade para pensar em ganhá-la.
O problema é que o futebol nunca se resolveu apenas com talento.
Uma equipa não nasce da soma dos melhores jogadores. Nasce quando esses jogadores deixam de parecer onze carreiras brilhantes e passam a parecer uma ideia comum. Quando cada um melhora o outro. Quando existe uma forma de jogar suficientemente clara para sobreviver aos dias em que o talento individual não resolve tudo.
É por isso que continuo convencido de que Portugal teve, muitas vezes, mais jogadores do que equipa.
Não é uma crítica destrutiva. É apenas uma constatação.
Seria profundamente injusto ignorar aquilo que esta geração conquistou. Ganhou um Campeonato da Europa. Conquistou duas Ligas das Nações. Habituou-nos a discutir qualquer competição com as melhores seleções do mundo. Tudo isso ficará para sempre na história do futebol português.
Mas os títulos não impedem uma reflexão.
Poucas vezes tivemos uma Seleção que impressionasse de forma consistente pelo futebol que praticava. Houve grandes exibições, naturalmente. Houve jogos memoráveis e momentos de enorme qualidade. Mas também houve demasiadas partidas em que ficava a sensação de que a qualidade individual escondia problemas coletivos que nunca chegaram verdadeiramente a desaparecer.
O Mundial voltou a deixar essa impressão.
Portugal tinha soluções para quase todas as posições, jogadores decisivos nos maiores campeonatos da Europa e recursos que qualquer selecionador gostaria de ter. Ainda assim, raramente deu a sensação de controlar os jogos através da sua própria identidade. Havia talento suficiente para dominar. Nem sempre havia uma equipa que dominasse.
Talvez seja injusto exigir isso a uma seleção nacional. Os treinadores trabalham poucos dias por ano com os jogadores. Não constroem automatismos como um treinador de clube. Não escolhem reforços. Não contratam perfis específicos. Herdam uma geração e tentam aproveitá-la da melhor forma possível.
Tudo isso é verdade.
Mas também é verdade que algumas seleções conseguem, apesar dessas limitações, criar uma identidade reconhecível. Não dependem apenas do resultado para serem lembradas. Dependem da forma como jogam.
Foi por isso que gostei da escolha de Jorge Jesus.
Não porque ache que exista um treinador capaz de resolver tudo.
Também não porque acredite que uma conferência de imprensa muda o destino de uma equipa.
Gostei porque Jorge Jesus sempre me pareceu um treinador obcecado por uma ideia muito simples: construir equipas que se reconhecem.
Ao longo da carreira ganhou muito. Também perdeu muito. Teve equipas extraordinárias e outras bastante menos conseguidas. A segunda passagem pelo Benfica ficou muito longe da primeira e seria absurdo fingir o contrário. Quem acompanha futebol sabe que a carreira dele está longe de ser uma linha reta.
Mas há uma característica que nunca perdeu.
As equipas dele tinham identidade.
Podíamos preferir umas às outras. Discordar de opções, discutir substituições, questionar insistências ou criticar resultados. O debate fazia parte. O que dificilmente podíamos dizer era que aquelas equipas não tinham uma marca. Bastavam alguns minutos para percebermos o que procuravam fazer, onde queriam recuperar a bola, como ocupavam o campo e que tipo de jogo tentavam impor ao adversário.
Isso vale muito mais do que às vezes estamos dispostos a admitir.
Hoje o futebol evoluiu imenso. Os treinadores estão mais preparados, trabalham com mais informação, conhecem melhor o jogo e têm ferramentas extraordinárias à sua disposição. O conhecimento aumentou e isso tornou o futebol melhor.
Mas também tornou muitas equipas mais parecidas.
É cada vez mais difícil identificar a mão de um treinador apenas a olhar para um jogo. Muitas equipas jogam bem. Poucas parecem verdadeiramente diferentes. Poucas têm uma identidade tão forte que dispense a legenda.
Jorge Jesus sempre escapou a essa uniformização.
Não apenas nas equipas que treinou.
Também na forma como vive o futebol.
Nunca me interessou particularmente a discussão sobre as calinadas ou sobre a maneira como comunicava. Sempre achei que isso dizia muito menos sobre ele do que aquilo que acontecia ao domingo dentro das quatro linhas.
O que me interessa é outra coisa.
As equipas refletiam a personalidade do treinador.
Tinham intensidade porque ele acreditava nela.
Tinham coragem porque ele a exigia.
Tinham defeitos, naturalmente. Também herdavam algumas das timosias do treinador. Mas nunca davam a sensação de serem equipas sem rosto.
Essa coerência sempre me pareceu uma qualidade rara.
Dentro de campo havia uma identidade.
Fora dele também.
É precisamente por isso que olho para esta chegada à Seleção com curiosidade.
Não espero milagres.
Nem acredito que Portugal vá, de repente, transformar-se na melhor equipa do mundo.
O futebol não funciona assim e a história ensina-nos a desconfiar das expectativas demasiado altas.
O que espero é muito mais simples.
Gostava de voltar a reconhecer Portugal pelo futebol que joga e não apenas pela qualidade dos jogadores que apresenta.
Gostava que deixássemos de depender, tantas vezes, do momento de inspiração de um talento individual para passarmos a depender de uma ideia coletiva.
Gostava que, ao fim de dez minutos, fosse possível perceber o que esta equipa quer ser.
É uma ambição exigente.
Mas parece-me uma ambição à altura dos jogadores que temos.
Quando terminou a conferência de imprensa de apresentação de Jorge Jesus, reparei numa coisa.
Não fiquei a pensar em quem seria convocado.
Nem em quem perderia o lugar.
Nem sequer comecei a construir um onze na cabeça, como tantas vezes acontece quando muda um selecionador.
Fiquei a pensar apenas numa pergunta.
Como vai jogar Portugal?
Talvez seja essa a pergunta que devíamos ter feito mais vezes nos últimos anos.
Porque os jogadores sempre estiveram lá.
A equipa é que continua por construir."
A equipa, sempre!
"Duas ideias, duas identidades. Uma engoliu a outra. A Espanha nem precisou que a sua maior estrela, que não chegou ao Mundial na maior das condições, fosse decisiva. Mesmo quando arrancou o penálti de Digne, houve mais infantilidade do lateral do que génio do menino. Apenas matreirice. Yamal deu algumas dores de cabeça e não foi necessário mais.
A Roja quis, como sempre, a sua mais-que-tudo. Com esta, estabeleceu as condições em que se ia jogar. Diminuiu o número de situações em que podia ser ferida. Sem bola, foi agressiva, ativou a contra-pressão para recuperá-la, mas esteve sobretudo blindada. Rodri nunca perdeu de vista o melhor francês do torneio, Olise, e a entreajuda anulou sucessivamente Dembélé, Mbappé e Barcola (e depois Doué e Cherki). Unai Simón esteve fortíssimo no controlo da profundidade. E permitam-me que sublinhe novamente Olmo. Joga como se fosse sempre obrigado a provar algo e fá-lo com gosto.
Les Bleus não deixaram o relvado sem ouvir olés. E, apesar de não ser bonito, mereceram-nos. Não houve vertigem. O génio foi totalmente anulado. A equipa com maior densidade de talento por cromossoma, hiperfavorita, caiu diante de um jogar consolidado, que de tempos a tempos ressurge, com alelos um pouco diferentes, para reconquistar o mundo.
Em casa, dentro das suas fronteiras, os gauleses viram um espanhol levar o PSG ao bicampeonato continental. Só que não há nenhum Luis Enrique, um verdadeiro arquiteto, no gestor Deschamps. O selecionador terá sempre 2018 e o seu capítulo na história, ainda que tenha passado várias vezes ao lado da glória sem consequências. Virá Zidane e terá uma Geração de Ouro para trabalhar. Já Mbappé daqui a umas semanas voltará a Madrid, mas não como herói. Para uma equipa dependente do individual, ainda que com um novo treinador. E uma ideia bem coletiva no topo do ecossistema: o Barcelona."
O império do impulso
"Minuto 44 do empolgante Noruega-Inglaterra. Está 1-0 para a Noruega. De repente, uma recuperação rápida de bola e a seleção inglesa é apanhada completamente em contrapé: dois para um à entrada do meio-campo inglês! Sørloth conduz a bola pela direita. Pela esquerda está o temível Haaland. Stones vai recuando, preenchendo o espaço no meio, na expetativa de como a jogada se irá realizar. Todo o estádio e todo o mundo que assiste ao jogo antecipa o 2-0.
Stones posiciona-se entre os dois atacantes e dificulta o passe direto, mas deixa as suas costas completamente livres para um passe em profundidade que isolaria Haaland. Mas eis que Sørloth, em vez de passar a bola, dá um toque para a frente e, depois, decide caminhar para área e tentar marcar. Stones e um companheiro, que entretanto veio em seu auxílio, aproximam-se e bloqueiam o remate.
Em vez de golo, a bola morre nas mãos de Pickford, o guarda-redes inglês. Fica Haaland a apontar para o terreno à sua frente, como que a dizer que lhe deveria ter passado a bola no espaço livre. Oportunidade perdida por uma má decisão, ninguém duvida. Aos 45+2, golpe de teatro, com Jude Bellingham, a empatar. A Inglaterra acabaria depois como é sabido, a virar o resultado no prolongamento e a passar às meias-finais.
Pouco depois as redes sociais ficaram repletas de vídeos e mensagens a criticar Sørloth. Uma autêntica avalanche. Façam scroll e vejam as centenas de vídeos. 'Foi por isto que a Noruega perdeu!', 'Puro egoísmo de Sørloth!!'. Num tom sempre muito inflamado.
Críticas, críticas e mais críticas. Mas não ficou por aqui. Ficamos a saber pela companheira de Sørloth, Lena Selnes, que houve mensagens mais intimidantes dirigidas ao jogador e também a ela. 'Diz ao teu marido para deixar a Noruega e saltar de um penhasco', 'Pega no teu namorado e morram, é a única maneira' ou 'Vou matá-lo'.
Ódio puro, à solta. Muitas vezes à boleia do anonimato. Absolutamente condenável, é certo, e condenado por vários meios de comunicação social. Porém, julgo ser importante fazer algo mais do que condenar. É algo tão aberrante que é preciso ser compreendido para sermos mais capazes na sua prevenção. Que provavelmente nunca será total, mas valerá a pena ser pensada.
Sørloth nem sequer é caso único neste Mundial. Jáminton Campaz, da Colômbia, talvez ainda mais pesado. Falhou uma ocasião de golo no prolongamento contra a Suíça. A equipa acabou depois por perder nas grandes penalidades. Resultado: ameaças de morte dirigidas a ele e à família. Campaz acabou por restringir os comentários nas redes e a não regressar à Colômbia com a equipa, como medida de segurança.
E aqui a memória trouxe-lhe com toda a certeza à mente a tragédia de Andrés Escobar, assassinado em 1994, depois de anotar um autogolo no Mundial dos EUA. Não havia redes sociais, mas já havia armas e já havia ódio. Estaremos todos, ou quase todos, de acordo que isto são coisas a erradicar. Porém, não é isso que vemos acontecer. Como os incêndios de verão, que se reacendem quando a temperatura sobe.
É tão absurdo, isto, que só apetece berrar para a humanidade que “isto é só um jogo”. Mas mesmo que fosse mais do que um jogo. São vidas humanas, e toda a vida merece-nos um profundo respeito, que aqui vemos a serem calcadas. Por isso, paro aqui um pouco para tentar perceber o que se passa na mente humana sobre estes momentos.
As reações extremadas dos adeptos revelam algo que já sabemos: antes de pensar, sentimos, e o que sentimos dita grande parte do que conseguimos pensar. Em condições normais, depois de surgir um sentimento, há oportunidade de elaboração, ou seja, usar a nossa mente reflexiva e analítica para pôr em palavras (ou noutras formas complexas de elaboração) o que de outro modo fica como afeto meramente corporizado.
Quando tal elaboração não acontece, as nossas capacidades de pensamento ficam empobrecidas. A realidade, os factos reais, passam a ser interpretados por um número muito reduzido de elementos. Reduz-se drasticamente a capacidade de raciocínio. O resultado é que o afeto se torna um impulso de muito difícil gestão e passa a tomar conta da pessoa. É o império do impulso.
É o que acontece quando a nossa equipa joga. Um jogador cai na área. É nosso? Afetivamente queremos penálti, logo pensamos que o é. É deles? Torna-se óbvio que não é. A todo o adepto acontece isto, pelo menos por momentos. As regras, a elaboração, as explicações poderão atenuar o primeiro olhar, mas a tendência é natural. Porque, de facto, a capacidade de raciocínio fica toldada pelas nossas preferências. É o nós contra eles, os bons e os maus, os amigos e os inimigos.
Voltemos a Sørloth. Aos olhos do adepto, não passar a bola deixa de poder ser outra coisa. Passa a ser uma traição. E já não é um lance que está em causa, é a pessoa inteira. O ódio não distingue entre o lance, o jogador, ou a companheira e até o filho: o afeto totalizador não conhece fronteiras entre objetos, funciona como um campo que tinge tudo o que toca. E, depois, toma conta do controlo das ações, a pessoa passa a agir de modo impulsivo, inundada com um enorme desejo de destruição.
O mais grave é que isto não se passa apenas na esfera do futebol. Não é novo, e o caso de Andrés Escobar mostra-nos isto claramente. Porém, a extensão e facilidade com que acontece é de um (pouco) admirável mundo novo. Escrevi há uns 10 anos uma outra crónica sobre o ódio andar à solta, preocupado com os tempos que estávamos a atravessar. Isso só se acentuou desde então, com a expansão contínua das redes sociais e da facilidade de contacto.
O adepto que ameaça Sørloth e o eleitor que precisa de um inimigo político estão a fazer, semioticamente, a mesma coisa. O estádio passa a ser apenas um laboratório do que se passa na sociedade.
O que fazer, então. Elaboremos. Falemos articuladamente do que se passou. Aprendamos a viver com a frustração e a lidar com os sentimentos penosos que tal acarreta. A raiva destrutiva não deve ser apenas temporariamente contida; deve haver lugar a que o adepto frustrado – ou qualquer pessoa com tal sentimento – que se expresse, que o ponha em palavras. Gradualmente, à medida que o sentimento se apaziguar, haverá oportunidade para se pensar de um modo distinto e considerar outras possibilidades de interpretar o que se passou. E finalmente, de agir de outro modo.
Porque mesmo que seja feito de modo anónimo, como disse Bakhtin, não temos álibi na existência e haverá sempre alguém que sabe o que fez: o próprio autor da agressão. E essa sombra tenderá a ser muito, muito longa e amarga."
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