Últimas indefectivações

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Benfiquismo (DCCCXXXVIII)

Almoçarada ?!!!

Aquecimento... Apitos

Quinta da Bola... Entender a loucura !!!

Circus Lagartus - X episódio

A um Bruno Conhecido…

"Ao contrário do que diz Sobrinho, Carvalho não é um mero assalariado. É o responsável, pelo menos moral, pelo que se passa no Sporting e foi, com os sucessivos discursos de ódio, o instigador do actual estado do clube.

(Única sportinguista de quatro irmãos, mesmo após anos de silêncio envergonhado e imposto por mim mesma para não prejudicar terceiros, nunca me imaginei a escrever sobre o meu clube nestes termos. Quando me perguntavam porque sou do Sporting a minha resposta foi sempre a mesma: era o clube onde os fins não justificavam os meios e isso bastava-me. Até agora. Entre os designados “croquetes” e esta turba que invadiu o clube, embora legitimada por eleições, estou com os seus atletas e os verdadeiros adeptos do Sporting. Sempre. E, por pior que tenha corrido a Taça, deixo aqui o meu agradecimento aos que jogaram e aos que permitiram que jogassem, não obstante tudo. Obrigada.)
Procurando ser positiva, a única coisa boa que vislumbro no actual estado do Sporting é o desaparecimento do pequenino homem que diz ser seu Director de Comunicação e que nunca esteve à altura do seu cargo.
As últimas semanas ficarão para sempre na memória, quer pela brutalidade do ataque ao que é o principal activo do Clube, quer ainda pelo facto de um director, cuja carreira até ali chegar é desconhecida, ser suspeito nos termos em que o é, quer por último pelas lastimáveis cenas do Presidente. Uma alma que afirma que um ataque, cujos contornos são no mínimo estranhos, “foi chato” e que temos de estar habituados a conviver com o crime é alguém que nunca deveria ter chegado, sequer a sócio, quanto mais a Presidente do Sporting. Por seu turno, um Presidente de Mesa que diz uma coisa e o seu oposto num espaço de minutos é, também, alguém cuja credibilidade, num momento em que a mesma é especialmente precisa, se perdeu há muito.
A crise no Sporting é profunda e não se resolve com operações de cosmética, como as que se têm sucedido a um ritmo alucinante. É certo que Carvalho foi legitimado quando tudo indicava que não o deveria ter sido, não sem antes ter promovido a sua própria mulher. Também parece certo que alguns elogiam a gestão que fez no seu primeiro mandato, sendo que, a este título, não deixo de realçar que alguns dos despedidos por si foram substituídos pelas pessoas que temos visto ultimamente nas notícias.
Contudo, e ainda que a dita gestão do primeiro mandato fosse tão espectacular quanto dizem, o espectáculo degradante a que temos assistido não apenas justifica como impõe a demissão de Bruno de Carvalho. E para ontem porque hoje é, já, tarde demais. Ao contrário do que diz Sobrinho, Carvalho não é um mero assalariado (e, menos ainda, ao seu – dele, Sobrinho – serviço), sendo, ao invés, o responsável, pelo menos moral, pelo que se passa no Sporting e foi, com os sucessivos discursos de ódio, o instigador do actual estado do clube que lhe paga principescamente. Basta."

Conversas à Benfica - Hóquei & Andebol

Sporting: o desporto ‘off’, a SAD ‘on’

"O que se está a passar é irreal, tanto do ponto de vista desportivo, como financeiro. Como é que perante um quadro de falência iminente, as acções sobem exponencialmente?

Queremos que o Sporting seja um grande clube, tão grande como os maiores da Europa”. As palavras de José Alvalade, em 1906, concretizaram-se muitas vezes ao longo destes quase 112 anos. Do atletismo ao futsal, passando pelo hóquei em patins, até ao futebol, os leões têm feito uma boa parte da história do desporto em Portugal e ocupado um lugar essencial enquanto instituição da sociedade portuguesa.
Infelizmente, nas últimas semanas, o Sporting tem feito história noutros domínios. Não tenho memória de episódios tão violentos como os que aconteceram a semana passada na Academia de Alcochete e nem preciso detalhá-los, porque também não conseguiria com a precisão que os meios de comunicação social já o fizeram vezes sem conta.
A violência do ataque dos 50 adeptos a jogadores e técnicos do clube foi uma consequência indirecta da notória e crescente falta de capacidade da SAD – Sociedade Anónima Desportiva, em gerir emoções com bom senso e razoabilidade. E o resultado, além dos danos físicos e psicológicos para as vítimas, traduz-se em mais instabilidade para o clube.
Desde logo, uma grande instabilidade financeira, agravada pela possibilidade dos jogadores se decidirem pela rescisão de contratos por justa causa. Isto para não falar das obrigações que estão a vencer, do perdão da banca de 90 milhões em juros e dívida, dos patrocinadores que estão a quebrar contratos publicitários e a afectar receitas.
Curiosamente, é neste cenário de quase catástrofe que as acções da SAD do Sporting valorizam, nos dois primeiros dias da semana, mais do que nunca. As cotações dos últimos dois dias cresceram no global 31% (negociando acima dos 0,825 euros por acção), ao ponto de ficarem suspensas.
No comunicado do passado domingo, dia da final perdida da Taça de Portugal, a SAD informou a CMVM que, na assembleia-geral de obrigacionistas, realizada nesse dia de manhã, foi deliberado “sobre a alteração da respectiva data de reembolso de 25 de maio de 2018 para 26 de Novembro de 2018”, adiando o pagamento da taxa de juro de 6,25%, e o reembolso de 30 milhões de euros.
É tão irreal o que se está a passar no Sporting do ponto de vista desportivo, como do ponto de vista financeiro. Como é que perante um quadro de falência iminente, as acções sobem exponencialmente? Como é que a SAD está cada vez mais valiosa? Estará à beira da ruína? São muitas as questões a merecer resposta célere. Os sportinguistas e os adeptos do desporto em geral agradecem."

Desbrunizar é preciso!

"O Sporting já tem novo director-geral, novo porta-voz, renovadas promessas de bom comportamento do chefe Bruno. Perante esta aparência construtiva, pouco importa se tem o novo director Inácio, mas não sabe se ainda tem alguns dos seus principais jogadores; se tem a grave voz de Fernando Correia (já tinha saudades de o ouvir decretar pena de silêncio aos jornalistas), mas desconhece-se se vai ter dinheiro para selar os pesados compromissos.
Hoje, está prometido, é o dia ‘B’ em Alvalade. Veremos como se passa mais um dia deste Bruno de Carvalho agarrado ao poder, aos segredos e à informação financeira, que o poderão comprometer.
O caminho para Bruno de Carvalho será sempre a descer até ao valor facial da sua irrelevância, de onde nunca deveria ter saído. A decadência destas estrelas cadentes é tão rápida como a das que rasgam os céus. Antes que Bruno se apague, cabe formular três desejos:
Que o Sporting reencontre o rumo e não entre numa rota de belenensização. Que os sportinguistas encontrem uma gestão onde a liderança tenha paixão clubística, mas também bom senso, moderação, clarividência e honestidade. Que o plantel do futebol profissional mantenha qualidade para se bater com os outros dois grandes e possa aspirar a conquistar títulos, com as bancadas repletas de sonho e esperança.
O dirigismo desportivo enferma no mesmo mal da actividade política. Num e noutro campo, as convicções clubísticas ou ideológicas não são suficientes para atrair os melhores, mais aptos, bem preparados. Num como no outro caso, os momentos de maior crise levam algumas figuras, por espírito de missão, a sair do remanso das suas vidas profissionais privadas para darem o peito às balas da responsabilização colectiva. Do escrutínio público severo. Do grave risco de falhanço.
A situação que se vive no Sporting deveria ser apelo bastante para que alguns dos melhores sportinguistas se entendam a fim de endireitar o clube.
O fenómeno Bruno de Carvalho só foi possível depois de anos de decadência e gestão duvidosa, com o pináculo na presidência de Godinho Lopes e de um seu inenarrável vice, ex-agente da PJ.
A última vez que alguém se candidatou ao Sporting com um par de ideias claras e sem demagogias ou utopias foi em 2013. Então, José Couceiro prometeu falar verdade aos sócios, mas os sportinguistas só lhe deram 45% dos votos e elegeram o filibusteiro Bruno de Carvalho.
Agora, muitos se viram de novo para Couceiro. É sportinguista, inteligente, sério, e manifesta saúde mental acima da média. Seria uma boa solução para pegar no leme do clube e da SAD, nesta fase conturbada. Outros haverá, também aptos. Urge que alguém dê um passo em frente. Que, de forma honesta e profissional, aponte um caminho de união e construção aos sportinguistas."

Futebol: entre popular e populista

"O futebol, ainda que travestido de negócio, continuará a apaixonar multidões. Mas não pode constituir um campo inesgotável de recrutamento para lideranças populistas.

A crise instalada num dos maiores clubes portugueses encarregou-se de voltar a trazer para a praça pública a forma como tem vindo a ser gerido o futebol-negócio.
Uma realidade recente e que pouco – ou nada – tem a ver com o futebol-jogo da bola. Um espectáculo que apaixonou multidões e a que, até à chegada da televisão, muitos assistiam apenas através da rádio e das imagens dos jornais – as crónicas dos jogos só acessíveis a quem sabia ler ou contava com a boa vontade de um leitor. Circunstância que não obstou ao desenvolvimento de paixões clubísticas que faziam de cada jornada um alfobre de discussões nas tertúlias habituais: o café, a taberna, o barbeiro, o sapateiro…
Uma realidade que sofreu enormes alterações quando o acesso aos media se democratizou e os grupos de interesse se aperceberam do potencial do fenómeno desportivo. Nessa conjuntura as ligações entre o futebol, enquanto desporto-rei em Portugal, e a política e a economia estiveram na origem de uma teia relacional muito complexa. Uma situação que exige uma reflexão de cariz sociológico.
Assim, alguns pensadores – como Gabriel Tarde e Ortega y Gasset – defendem a irracionalidade da acção colectiva. Dizem que as multidões não dispõem de opinião. Porém, outros pensadores – como Marx, Weber ou Durkheim – recusam que a acção social seja irracional. Afirmam que qualquer facto social encontra explicação noutro facto social.
Esta díade teórica ajuda a compreender o que tem vindo a acontecer em Portugal no que concerne ao futebol, ou seja, de que forma um fenómeno inicialmente popular se está a transformar em populista. 
Na minha definição, o populismo representa uma forma de articulação do discurso visando a luta pela hegemonia. Um conflito que pressupõe a criação de dois corpos antagónicos – nós e eles – e que recusa qualquer tipo de negociação.
É através dessa luta que o líder se aproveita da irracionalidade das massas e se alcandora ao Poder. Também é em nome dessa luta que o líder exige a destruição dos corpos intermédios, apresentados como os grandes inimigos. Alguém que está ao serviço dos outros. Aqueles que desafiam a afirmação do grupo.
No entanto, essa destruição dos corpos intermédios é acompanhada da criação de estrutura de suporte do líder. A sua guarda pretoriana chefiada por pessoas-de-mão. Tudo, oficialmente, em nome do interesse colectivo. A defesa do “nós”.
A actuação das novas estruturas é essencial para o sucesso do líder. São elas que se constituem como o executor da vontade do chefe. O único elemento que não pode ser acusado de irracionalidade. Pelo menos ao nível da definição do objectivo central: alcançar e capturar o Poder.
Finalmente, são essas estruturas que condicionam – alterando, limitando ou impedindo – a acção do “outro”. Sobretudo daquele que, segundo o líder, deixou de pertencer ao “nós”.
O futebol, ainda que travestido de negócio, continuará a apaixonar multidões. Cabe a quem de direito tomar as medidas necessárias para que continue a gerar paixões, mas deixe de constituir um campo inesgotável de recrutamento para lideranças populistas. A menos que a promiscuidade dite a lei."

Desporto e multinacionais, "paixão" desastrosa

"A torrente de notícias, com rara informação e uma imensidade especulativa, que submergiu o país a propósito de casos diversos que envolvem clubes e dirigentes, e que atingem algumas modalidades, nas quais sobressai o futebol, anatematizam todo o desporto. O volume é tanto que só com elevado grau de resistência crítica e distanciamento de leitura se lhe resiste.
Frustrando expectativas que já adivinham uma incursão pelos terrenos do "sangue e da exacerbação" nos parágrafos que se seguem, a opção não é essa. Desculpe-se a falta de ousadia, este desprendimento face à captação de audiências, mas para ir por aí já basta o que encharca o país. Invocando palavras de Montesquieu, ausentes na superficialidade do comentário jornalístico dominante, "não se trata de ler mas de fazer pensar". Haveria tudo a ganhar seguindo-as. Também aqui não encontrará o leitor, contrariando preconcebidos prognósticos, a verberação do desporto de alta competição, incluindo o futebol, o olímpico, o federado ou o profissional. O desporto é um factor do processo de desenvolvimento que compete ao Estado promover, quer quanto à democratização da sua prática quer quanto aos valores que o devem rodear. Uma actividade que, se praticada de forma justa e não discriminatória, integra o processo de responsabilização e integração na sociedade. A observação do que tem rodeado o ambiente desportivo exige reflexão mais profunda, rejeição da espuma mediática, busca aprofundada noutras paragens do que aquelas em que a aparência do óbvio tolda a razão.
Comecemos pela mercantilização do desporto, tornado desporto-espectáculo. Olhar para o que se passa, iludindo-a, só dá tropeço na análise. A súbita "paixão" das multinacionais pelo desporto, que se confunde com a paixão por tudo que lhes assegure lucros fabulosos, induziu alterações ao nível dos conceitos, do impacto na "indústria" e na publicidade, das formas como os Estados e o capital privado intervêm e suportam a actividade económica em torno do desporto, em particular do futebol. 
Não se confinem os problemas a desvios comportamentais ou actos de gestão danosa. O domínio não é apenas o de juízos morais, mas sim o que, no plano político, ideológico e legislativo e de auto-regulação das diversas modalidades, animou práticas condenáveis. A criação das sociedades anónimas desportivas, com o que transporta de espaço de voragem financeira, de investimentos duvidosos e especulação bolsista em torno de clubes e modalidades, abriu caminho a situações de que, em geral só emerge a ponta do icebergue. Clubes desportivos transformados em placas giratórias da especulação de direitos de jogadores, janelas de oportunidade para lavagem de dinheiro, promíscuas movimentações entre capital financeiro, imobiliário e clubes, disputas nebulosas do negócio de direitos televisivos, articulados com patrocinadores e o marketing, fomentam a corte de ambiciosos "empresários" que se fundem com corpos directivos, tudo sob os holofotes de uma comunicação social sedenta de audiências. A que se adiciona os problemas induzidos pelo mercado de apostas desportivas e as práticas a ele associadas. Conter e limitar a "indústria e mercados" do desporto não significa o fim do profissionalismo desportivo. Mas há todo um campo para intervir limitando investidores institucionais, regulando patrocínios publicitários, ou questionando a propriedade ou a co-propriedade dos clubes sobre media, como canais televisivos.
Transportemos para outro plano que, se não for convocado, faltará ao que se impõe aduzir em benefício da compreensão. A instrumentalização ideológica do espectáculo desportivo, assim como sua utilização para promoção pessoal, social e política não é de hoje. O que se tem assistido, da patenteada violência ao infindável rol de suspeitas de corrupção, com as dinâmicas específicas que os envolvem, não são também separáveis das expressões antidemocráticas disseminadas na sociedade. A exacerbação clubista tem-se assumido como factor de diversão e desvio dos reais problemas nacionais. A promoção da conflitualidade gratuita entre clubes, não raras vezes baseada no enfunar do populismo ou no incentivo ao ódio, são parte de um caldo onde se alimentam projectos que corporizam concepções fascizantes e que estão muito para lá de protagonismos individuais.
A paixão pelo ​​​​​​​espectáculo desportivo não é necessariamente factor de alienação, assim como o desporto de alta competição não é necessariamente contraditório com a prática generalizada do desporto pela população. O desporto é, ou deveria ser, essencialmente uma actividade cultural. No universo das suas expressões. Sem ostracização de modalidades. O futebol profissional não é todo o futebol e ainda bem menos todo o desporto. Do muito que há a fazer, comece-se pela responsabilidade do Estado, desde logo no que lhe caberia promover no plano do desporto escolar e da escola pública na formação de valores e comportamentos éticos, e no fomento do associativismo democrático, a que os órgãos de comunicação social sob tutela pública por maioria de razão se deveriam associar."

Sabe quem é? Acabou a vender peixe - Neto

"Campeão europeu no Benfica, desfez o mistério do chá de Guttmann; Nas Antas a «pantufada» e o comprimido

1. Nascera a 5 de Outubro de 1935 - estava a caminho dos 23 anos, jogava na segunda divisão, trabalhava o dia inteiro na fábrica de cortiça de Manuel da Luz Afonso. No defeso da época de 1958/59, o patrão levou o Benfica a jogo ao Montijo, a sua ideia era que Otto Glória se encantasse por ele...
2. No final desse Montijo - Benfica, Otto correu a dizer que sim: que o contratassem na hora. Ofereceram-lhe 3 contos por mês, 8 era o que custava barato aparelho de TV. «Depois, o Sporting começou a pagar 4 contos, o Benfica foi atrás. Assim fui vivendo: a três ou quatro contos por mês e luvas de fazer rir. No primeiro contrato foram 15 contos de luvas, mas divididas em prestações de três em três meses...»
3. Os seus primeiros tempos na Luz foram sobretudo de treino específico: «para ganhar o músculo que não tinha» - e à sétima jornada do campeonato, Otto Glória deu-lhe a titularidade pela primeira vez, no Barreiro. O Benfica venceu por 3-1, não saiu mais da equipa - foi o ano em que o FC Porto ganhou o campeonato que fez história no «caso Calabote».
4. Duas semanas após a sua estreia no Benfica foi às Antas empatar 0-0 - e, mais de 20 anos depois, revelou a Jorge Schnitzer, em A Bola: «Fala-se muito termos sido bicampeões europeus à custa de doping, mas só uma vez fui drogado. Não foi sequer no tempo de Béla Guttmann. Era Otto Glória o treinador, estávamos a jogar com o FC Porto, Hernâni tinha-me dado uma pantufada que eu pensava que me tinha partido a perna, ao intervalo, o médico queria dar-me uma injecção - não quis. Disse-lhe que preferia que me desse antes um comprimidozito daqueles azuis - e, na segunda parte, fiquei com uma força que nunca mais parei. Foi a única vez».
5. Perdeu o campeonato para o FC Porto, ganhou-lhe a Taça de Portugal, esse seu primeiro título saiu do golo de Cavém aos 13 segundos. A época seguinte foi a do primeiro dos seus quatro campeonatos - já tinha ganho um dos cognomes que lhe marcaram a história: A Formiga do Benfica.
6. O caminho para a sua primeira final na Taça dos Campeões (em que bate o Barcelona) passou pela Escócia e no programa do Hearts-Benfica trataram-no como Senhor Movimento Perpétuo, por dar ao meio-campo o frenesim e a combatividade que lhe dava. A Jorge Schnitzer também o afiançou: «O chá do Guttmann não era doping, não! Só tomava o chá quem queria - nos treinos, ao intervalo, no fim. Eu bebia e ficava na mesma. E era o chá porque Guttmann não queria que bebêssemos água, que nos ficava a chocalhar cá dentro. Também não nos deixava tomar limão, a garganta secava-nos, parecia que morríamos».
7. Fez o percurso para lá, mas na final da Taça dos Campeões contra o Real, viu-se suplente do Cavém. «Suplente também fui na final de Londres que perdemos com o AC Milan. Aí, ainda levei 30 contos, pela vitória de Berna deram-me 22» - e a Guttmann tivera o Benfica de pagar 300 contos.
8. Schwartz não prescindiu dele ao lado de Coluna na final da Taça dos Campeões de 64/65 - «contra o Inter, a que tivemos muito azar, o Eusébio fartou-se de falhar golos». Foi a que o Benfica acabou com Germano à baliza por Costa Pereira se aleijar, tendo de voltar a Lisboa em cadeira de rodas. Mesmo perdendo, o prémio foi o maior de sempre: 50 contos - por cá havia Lamborghinis à venda por 545.
9. Guttmann regressou à Luz, pouco o utilizou - e, para a época de 66/67, Fernando Caiado levou-o para o SC Braga. «Na véspera do jogo em que ganhámos ao Benfica por 4-0, fiquei doente com um problema nos pulmões, o Caiado agarrou-se a mim a chorar, não renovaram comigo, por medo que eu estoirasse. Vim para o Montijo, ainda joguei três épocas. Tinha 33 anos, não valia a pena mais, só me davam 1100 escudos por mês».
10. Largou o futebol, o Montijo não. «Com o dinheiro que ganhei na boa, fiz um prediozito, ficou-me por 176 contos - e montei um café». Ao chegar-se a 1979, trespassou o café por 560 contos, por 60 arranjou lugar na praça. Levantava-se às cinco da manhã, ia a Setúbal esperar pelos pescadores, comprava-lhes o pescado - e, na praça, era raro não se ouvir de pai ou mãe para filho: «Ali, o senhor Zé, jogou com Eusébio, foi campeão europeu...»."

António Simões, in A Bola

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Como destruir equipa!

"E resultados no futebol nos 5 anos de BdC? Nos 4 de Soares Franco com Paulo Bento, 4 vezes no 2.º lugar e 4 Taças foi curtinho... Agora, não chega lá... E Jardim, Marco, Jesus, todos excelentes escolhas, vão saindo... a mal!

Guerra! Eis o irredutível modo de agir de Bruno de Carvalho contra todo o mundo do futebol e, não menos, dentro do Sporting! Liga, Federação, Arbitragem, Disciplina, Doyen, UEFA, FIFA, Comunicação Social, Governo, Parlamento, até sportinguistas dos quais fez lista chamando-lhes sportingados. Guerra total ao mundo que não lhe diga 'Ámen'.
E vão 5 anos da sua presidência, em crescendo num ímpeto de demolição que, como também sempre foi bem previsível, tem mesmo de fazer ricochete contra BdC e contra o Sporting. Já 5 anos... - e não vislumbram possível alguém ainda admitir que ele possa mudar. E que balanço dos resultados futebolísticos? Pobrezinhos, face a enorme ambição. Agora agravados com despromoção da equipa B.
Elogios por o futebol do Sporting ter voltado a discutir título e troféus. Face ao ano imediatamente anterior a BdC, é verdade: 7.º lugar (não muito antes, quase o mesmo aconteceu ao Benfica). Mas vamos lá pôr em pratos limpos os resultados nestes 5 anos: 1 Taça de Portugal (Marco Silva); 1 Supertaça e 1 Taça da Liga (Jorge Jesus); no campeonato, 2 vezes no 2.º lugar (Leonardo Jardim e Jorge Jesus) e 3 vezes no 3.º (Marco Silva e bis de Jorge Jesus). Então, na era Soares Franco/Paulo Bento, os 4 consecutivos 2.ºs lugares (sempre FC Porto campeão), 2 Supertaças e 2 Taças de Portugal? Foi considerado curtinho. O actual balanço mais curtinho não é?!
Leonardo Jardim, Marco Silva e Jorge Jesus são muito bons treinadores, Bruno de Carvalho fez certeiras escolhas. Só que... a relação deles com BdC acaba sempre mal! Esse mal-estar foi camuflado por Jardim, na imediata saída para o Mónaco. A ponta final da guerra com Marco Silva tornou-se obscena! Jorge Jesus já recebeu oral comunicação de BdC (no início da semana rumo à final da Taça!): será despedido...
O problemão está sempre nos treinadores, vincadamente bons?! Quem quiser ir acreditando nisso...

Delírio no auge: agora, também guerra com os jogadores!!! Agora, ou virá de trás? Não creio enganar-me na ideia de ter sido por copo já transbordar que houve reacção do plantel ao incrível post presidencial (com requintes técnicos como o da incapacidade de Gelson para utilizar pé esquerdo...). Que fez BdC? Brilhante estratégia: «estão todos suspensos». Foi Jorge Jesus, erguendo-se ao nível de estadista de que o presidente tanto dista, quem salvou o Sporting da vergonha de entrar em campo com a equipa B! E, aí, ao pôr-se ao lado da sua equipa - ou líder não seria! -, JJ, em vez de ter reconhecimento presidencial, assinou a sua condenação!
Não chega para destruir uma equipa, que até embalou para 6 vitórias consecutivas? Então, aumenta-se a fogueira...
- Ia começar o derby: tochas sobre o capitão Rui Patrício!!! Deve ter sido por acaso...
- Pai do presidente ataca o treinador (e este, sujeito a pergunta, mantém calma: «o presidente decerto não se revê no que o pai disse»).
- Entrevista de BdC repleta de irónicos ataques aos jogadores e ao treinador. Na véspera d crucial jogo no Funchal! (onde o presidente prima por ausência!).
- No regresso, jogadores ameaçados, verbal e fisicamente, no parque - supostamente fechado... - de Alvalade. Da direcção, nem uma palavra de repúdio...
- Dia seguinte: todos de folga, chamados a reuniões. Jorge Jesus informado de despedimento (na semana da final do Jamor!). Jogadores devem ter gostado imenso...
- Mais um dia: ia começar treino, horror de violência sobre técnicos e jogadores no coração de Academia tão insolitamente com portões escancarados! ( e terá havido aviso de que aí vinha, com 14 minutos de antecedência). BdC tem este lamento, tão lamentável!: «Foi chato. Mas amanhã é outro dia...». Horas depois, jogadores e técnicos deslocam-se ao posto da GNR e, céus!,nem BdC nem outro dirigente os acompanha!
- E quem deu azo à violência? BdC fantástico!: foi o Rui Patrício. «Não poderia ter respondido a insultos no parque de Alvalade. Deveria ter inteligência emocional...». Seria hilariante, se não fosse trágico... como prova de quem é (ou o estado a que chegou) o presidente do Sporting! Ele que reagiu a adeptos no jogo com o P. Ferreira afirmando «vão chamar isso à família deles». Ele que insultou sportinguistas de toda a vida, chamando-lhes sportingados! Sobre falta de inteligência emocional, é vasto o rol presidencial...
Hoje, dia D? BdC já lançou campanha eleitoral. Castigos à Juve Leo (tardaram uma semana!). Grandes medidas na Academia. Regresso de Inácio. Regeneração de Coentrão. Novo porta-voz do presidente. Pertinentes perguntas: importante parte do plantel, ou BdC?; e, neste estado, quem alinha no ultra necessário empréstimo obrigacionista?"

Santos Neves, in A Bola

O nosso querido futebol português

"1. Os clubes em Portugal têm vindo a investir em conhecimento nos últimos anos. É notório o aumento de quadros qualificados em várias áreas como a medicina, jurídica ou comunicação mas ainda nos falta dar passos mais incisivos rumo à modernidade. O caso do não licenciamento para as competições europeias do Desportivo das Aves é paradigmático: só o puro amadorismo pode justificar que uma sociedade desportivo da Liga, dita profissional, não tenha levado a cabo o respectivo processo. E nem o custo serve de desculpa: são 2500 euros.
Mas pior que a incúria só mesmo a cegueira. No rescaldo da conquista da Taça de Portugal, o presidente da SAD, Luíz Andrade, veio culpar a Federação Portuguesa de Futebol, mesmo admitindo o não cumprimento das regras. Ou seja, é como preencher o boletim do Euromilhões, não o entregar no quiosque, acertar nos números e no fim culpar a Santa Casa da Misericórdia. Uma reacção destas só é compreensível à luz da frustração de ver €5 milhões a voar (a entrada directa na Liga Europa).
2. Promete ser mais uma polémica à portuguesa: seja qual for a decisão do caso Santa Clara, há o risco de o campeonato da Liga 2 emperrar na homologação. Não sendo jurista para determinar quem tem razão (e como me dizem alguns advogados, a lei tem sempre duas caras), continuo espantado com a inexistência de um mecanismo (podíamos admitir informático) que detecte, a priori, a utilização irregular de um jogador. Mais grave: que um clube o faça por três vezes.
3. Bruno de Carvalho até poderia contratar José Mourinho e Cristiano Ronaldo nem isso lhe daria legitimidade para continuar a liderar o clube. Um presidente que culpa os próprios jogadores pelo ataque de Alcochete não é um lapsus linguae; é a desculpabilização do horror. Em suma: uma vergonha."

Fernando Urbano, in A Bola

Estão a chegar dias de tempestade

"Esperemos que não, mas em cada dia que passa adensam-se as nuvens negras sobre Alvalade, prometendo uma tempestade de consequências imprevisíveis.
Hoje, a tal reunião que poderia marcar o dia D, caso houvesse, pelo menos, o bom senso de haver uma decisão final. A verdade é que tudo indica que a reunião termine em duas decisões que já estavam tomadas. Não apenas contraditórias, como inconciliáveis: a decisão da Mesa da Assembleia Geral, que avançara para uma reunião magna de sócios com vista à destituição de Bruno de Carvalho e do seu grupo resistente; e outra decisão, a do próprio presidente do clube, no sentido de não recuar um milímetro.
É um nó cego, que só se irá desfazer em convulsão e em perturbação. Com os dias em que lhe foram dados por Marta Soares, Bruno de Carvalho fez avançar os seus peões. Inácio está de regresso, com contrato prolongado, para se defender do que der e vier. O que ajuda a confirmar que Jorge Jesus está de saída. De facto, nem Bruno quer que ele fique nem Jesus aceitaria ficar com este presidente. Juntam-se os conhecidos processos judiciais, a prisão preventiva de vinte e três adeptos acusados de invadir Alcochete e agredir jogadores e técnicos do clube e, ainda,a ameaça de rescisões unilaterais de contratos.
Nestas dramáticas condições, a realização de uma assembleia geral assume, de facto, contornos muito perigosos. Quem lá for, não irá para ouvir, mas para se impor. A bem ou a mal.
Dificilmente se poderá esperar uma decisão democrática e muito menos uma decisão que evite que o clube fique partido em dois. Como já está."

Vítor Serpa, in A Bola

Pior é possível

"As próximas horas vão ser decisivas para o futuro do Sporting. A marcação de uma assembleia geral para votar a destituição da direcção do clube assume-se como inevitável. Já ninguém espera um volte-face e confia que Marta Soares passe das palavras aos actos. O processo de degradação do Sporting não tem sido apenas penoso, chega a ser atroz quando lemos os relatos feitos à polícia pelas vítimas do ataque a Alcochete.
O cerco a Bruno de Carvalho apertou-se nas últimas horas. Foi conhecida uma participação disciplinar ao Conselho Fiscal, subscrita por 40 associados, e divulgado um comunicado do Grupo Stromp a pedir a demissão do presidente do Sporting. A juntar às declarações públicas de figuras sportinguistas proferidas diariamente, não faltam apelos ao líder para que saia pelo seu próprio pé. Sem se condoer com estes pedidos, e mesmo que a imagem seja a de quem está encostado à parede, Bruno de Carvalho mantém-se irredutível e firme no lugar. O presidente leonino joga com o anúncio de regressos e reforços numa luta pela sobrevivência que já ninguém acredita ser possível.
Possível é que aconteça algo pior. Tudo indica que vários jogadores vão mesmo avançar para as rescisões por justa causa. O dano será brutal e deixará o clube numa posição tão delicada quanto inimaginável."

'Apartheid' económico no futebol europeu

"O modelo de distribuição de verbas da Liga dos Campeões e da Liga Europa no ciclo 2018-21 está a preocupar a generalidade das ligas profissionais. O inevitável resultado deste modelo é fácil de antecipar: a criação de um regime de 'apartheid' económico entre as ligas de maior projecção internacional e as demais.
Os critérios de distribuição, de acordo com um ranking que beneficia um grupo restrito de clubes de um grupo restrito de ligas, constituem uma ameaça à maioria dos clubes europeus, conforme tem denunciado a Liga Portugal pela voz do seu presidente, Pedro Proença, tal como Javier Tebas, seu congénere espanhol.
Esta elitização do futebol europeu obriga-nos a redobrado trabalho na missão do reequilíbrio económico e financeiro, em conjunto com as restantes ligas membros da EL (European Leagues), de modo a recuperar modelos e critérios para o próximo ciclo 2021-24.
A manutenção do actual modelo votaria o futebol europeu a uma lenta asfixia económica, com danos irreparáveis na competitividade. É fácil encontrar exemplos de clubes da mesma competição nacional que, apurando-se ambos para a mesma competição europeia, receberiam valores absurdamente díspares em virtude da aplicação de um coeficiente histórico que não corresponde necessariamente ao seu desempenho desportivo actual.
O efeito sistémico de critérios que fomentam a elitização provoca 'terramotos' nas ligas nacionais, não só porque as mesmas perdem poder económico global face às ligas mais fortes, como, dentro das próprias ligas, aumenta o fosso entre os emblemas internos.
Esta será a missão da Liga Portugal e da EL nos próximos tempos: o equilíbrio competitivo é o garante de competições interessantes para os nossos adeptos e para a valorização do nosso desporto."

Administradores de uma SAD

"1. Quem pode ser Administrador de uma SAD- Sociedade Anónima Desportiva?
Desde Janeiro de 2013 que temos em Portugal uma legislação que diz que (Art. 15º) o órgão de administração da sociedade é composto por no mínimo um ou de dois gestores executivos, consoante se trate de uma sociedade desportiva unipessoal por quotas ou de uma sociedade anónima desportiva. Diz também que esses membros executivos dos órgãos de gestão, devem dedicar -se a tempo inteiro à gestão das respectivas sociedades. Quanto à identificação dos mesmos, ou seja, ao conhecimento público de quem são e o que fazem (que competências e deveres têm), o Decreto-Lei em causa diz que, a sociedade desportiva deve comunicar anualmente à entidade organizadora das competições desportivas profissionais, em termos a definir pela mesma, a identidade dos respectivos gestores executivos. Ou seja, a lei, pública, deixa à Liga Portuguesa de Futebol Profissional a responsabilidade de decidir (ou melhor, aos próprios Clubes…) como, quando e onde, devem cumprir essa transparência, "privada".
2. As obrigações de comportamento que existem na lei, aplicam-se a todos os Gestores de um Clube Profissional (de Futebol, Andebol, Basquetebol, ou outra modalidade)?
Sim, mas com uma particularidade: a legislação diz que (Art. 16º), não podem ser administradores ou gerentes de sociedades desportivas: a) Os titulares de órgãos sociais de federações ou associações desportivas de clubes da mesma modalidade; b) Os praticantes profissionais, os treinadores e árbitros, em exercício, da respectiva modalidade. A questão que fica para melhorar, numa opinião de autor, prende-se com a possibilidade real de Dirigentes (como já sucedeu em um passado recente), Árbitros, ou até Treinadores, poderem fazer parte de SADs, desde que não estejam "em exercício de funções". No limite, será possível um Dirigente de um Clube-SAD demitir-se hoje, assumir depois uma função numa Associação Distrital, para posteriormente voltar a integrar a Administração da SAD de onde saiu temporariamente…"

Intoxicação pelo futebol

"O futebol transformou-se, entre nós, num lamentável instrumento de deseducação e de alienação (para não dizer mais).

Os recentes acontecimentos num determinado clube têm mostrado, de forma espantosa, até onde pode ir a intoxicação pelo futebol. Não nego a gravidade dos incidentes ocorridos em Alcochete, mas, para além de tudo mais, verificam-se em Portugal e no mundo situações muito mais graves, preocupantes e complicadas de que quase se não tem falado ou de que deixou mesmo de se falar.
No tempo de Salazar, dizia-se que o futebol era uma forma de afastar as pessoas da política. Agora, ao fim de mais de quarenta anos de democracia, o poder do futebol atingiu níveis insuspeitáveis. Basta reparar no número de jornais diários a ele dedicados; no espaço e no tempo que ocupa nos outros órgãos de comunicação social, em particular na televisão; no relevo dado, nos noticiários da rádio e da televisão, aos seus dirigentes, treinadores e jogadores, muito superior ao atribuído a outros agentes da nossa vida colectiva e a dirigentes políticos; nas transmissões frequentes de jogos (até entre equipas estrangeiras) nos chamados horários nobres; nos cafés e restaurantes, por esse país fora, abertos para acompanhar os jogos ou os treinos.
O futebol transformou-se, entre nós, num lamentável instrumento de deseducação e de alienação (para não dizer mais).
Tem que se reconhecer que o fenómeno, em maior ou menor escala, se observa igualmente em todos os países europeus e da América Latina; que os campeonatos internacionais vêm adquirindo uma importância também política imensa; que a FIFA acaba por ser um importante centro de influência e de poder. Apenas duvido de que, em qualquer outro país, aqueles acontecimentos e as vicissitudes subsequentes no referido clube ocupassem horas e horas, dias e dias em todas as estações de rádio e de televisão e que até titulares de órgãos de soberania fossem chamados a pronunciar-se.
Em vez disso, que atenção tem prestado a RTP, estação oficial, paga pelos contribuintes, a questões como a da OPA de uma empresa estatal chinesa sobre a EDP, fundamental empresa estratégica portuguesa? Quanto tempo tem dedicado à situação do serviço nacional de saúde ou da justiça, às desigualdades do interior, à crise do sistema ferroviário? Quantos debates entre especialistas tem promovido acerca da paternidade responsável, da gravidez de substituição, da eutanásia? Que atenção tem prestado aos dramas dos Palestinianos e dos venezuelanos, às guerras na Síria, no Afeganistão ou na Somália? Como tem discutido a vaga de nacional-populismo em vários Estados da União Europeia? Como tratou dos ataques terroristas a igrejas na Indonésia?
A RTP – e, designadamente, a RTP1 (o seu canal generalista e o mais visto pelas pessoas) tem de se reorientar e mudar. Tem (sem prejuízo da RTP2) de se abrir à cultura, com programas periódicos (mais ou menos breves ou longos, consoante os casos) sobre a língua portuguesa, sobre os museus e monumentos, sobre as artes, sobre o folclore, sobre a história, sobre o mar. Deveria contribuir para a sensibilização ambiental. Deveria estar mais voltada para a realidade religiosa, na diversidade de crenças e de vivências, não deixando de ser uma estação laica. Deveria acompanhar mais de perto os trabalhos do Parlamento, em plenário e em comissões dentro do pluralismo político.
Não se trata, resta acrescentar, de fugir ao futebol, em especial quando se aproxima mais um Campeonato do Mundo. Trata-se apenas de lhe dar o lugar que num Estado democrático empenhado constitucionalmente em promover a efectivação dos direitos económicos, sociais e culturais, lhe pode caber. Tudo com conta, peso e medida. Tudo com equilíbrio.   "

Democracia, futebol e populismo

"1. Desta vez, quis o destino que o malfadado protagonista fosse o presidente do Sporting! Intoxicada pelo discurso de ódio incansavelmente debitado pelo presidente, a claque encheu-se de brio e os mais impacientes e afoitos, sem querer saber da final da Taça - em que eram favoritos! - ou, porventura, com medo que lhes arrefecesse o ânimo, planearam um ato de terror contra o seu próprio clube, em Alcochete, vandalizaram o balneário, agrediram os jogadores, a equipa técnica e todos os que se atravessaram no seu caminho. Para máximo espanto, uma semana depois, à hora a que escrevo estas linhas, o presidente ainda não tinha renunciado ao lugar, nem os órgãos competentes do clube o tinham demitido.
2. No "Público" de domingo, Vicente Jorge Silva apontava as consequências políticas desta criminosa complacência: "Se o futebol se tornou um reflexo das derivas do funcionamento das sociedades, enquanto domínio imune, tantas vezes, à própria legalidade, o caso Bruno de Carvalho fez-nos confrontar, em Portugal, com um fenómeno corrosivo que desejaríamos iludir: o populismo. A partir do momento em que um país ficou refém de tal caso e tal personagem, importa extrair rapidamente as conclusões desse sequestro que, pela sua amplitude mediática e social, ultrapassou claramente as fronteiras futebolísticas. Não podemos continuar a dormir se não queremos que os Brunos de Carvalho se reproduzam noutras espécies - sociais e políticas - e os bandos de arruaceiros das claques antecipem as brigadas fascistas e nazis de sinistra memória."
3. (...)
4. (...)"

Aves


"O Clube Desportivo das Aves é um clube humilde, mas simpático, com parcos recursos, que sabe jogar à bola, com gente com muito valor, sediado na freguesia de Vila das Aves, concelho de Santo Tirso, sendo um clube do Norte longe do centro do poder em Lisboa.
O Aves é um clube que ao longo dos anos foi subindo à 1.ª divisão e descendo. Foi campeão nacional da 2.ªdivisão em 84/85 com o professor Neca, e agora, cometeu a proeza de vencer a Taça de Portugal com José Mota e garantir a manutenção no escalão máximo. O Aves também é conhecido pela apresentadora da televisão, Júlia Pinheiro ser sua adepta.
José Mota mostrou-se agastado pela forma como o Aves foi tratado, sempre passado para segundo plano e, teve toda a razão. Mas se calhar a focagem nos problemas do Sporting foi positivo para o desempenho do Aves. Tiveram uma semana calma, sem pressão, para preparar o jogo no Jamor, o brio e labor em campo de demonstrarem que mereciam outro tratamento.
O Aves foi um justo vencedor, o guarda-redes Quim merecia esta vitória pelo seu historial, assim como, o avançado Guedes pela sua brilhante actuação. José Mota preparou muito bem o jogo e o Aves funcionou como um bloco.
O Aves venceu em campo, mas perdeu na secretaria. O Aves não cumpriu os requisitos e está fora da Liga Europa. Quem beneficiou foi o Sporting com entrada directa na fase de grupos e o Rio Ave que está na pré-eliminatória.
Inacreditável que aconteça uma coisa destas! O Aves não se licenciou em tempo útil para poder participar na prova da UEFA. Todavia o Aves não se fica e vai enviar um documento à UEFA para expor o caso.
A UEFA tem a mania do quero posso e mando e burocrata quanto baste. Aconteceu com De Gea que não foi transferido do Manchester United para o Real Madrid porque o prazo tinha expirado do fax enviado, por muito pouco tempo. Adrien não pode jogar no Leicester logo que foi transferido de o Sporting pelo prazo ter expirado.
Todavia os prejuízos da não participação de um clube na Liga Europa são muito maiores do que a transferência de um jogador.
O que é que anda a fazer a Federação Portuguesa de Futebol? Não é admissível o Aves ficar de fora da Liga Europa. A FPF deve, até ao dia 30 de Novembro de 2017 ao da época a licenciar, remeter a todas as sociedades desportivas, a documentação necessária para a inscrição do processo de licenciamento.
A FPF fê-lo? De quem é a culpa? Não há hipótese de alongar o prazo? Porque é que a lei é tão taxativa?
Compreendo que o Aves nunca lhe passou pela cabeça vencer a Taça de Portugal, todavia é mais um caso no futebol português de incúria e falta de respeito por um clube pequeno, mas que tem tanto direito como os outros de participar, de jogar, e até, ganhar como se verificou na final da Taça de Portugal.
Decididamente o futebol português é só para alguns e para os maiores. Os clubes mais pequenos não passam de verbo de encher."


Logo à noite se verá

"Os mais recentes desenvolvimentos dão-nos conta de iniciativas que revelam toda a determinação ao actual Presidente de se manter em funções, sem dar qualquer importância a todo o ruído que se escuta à sua volta.

Alguns, certamente poucos, acreditam que logo à noite sairá fumo branco da reunião marcada para Alvalade, durante a qual o Presidente da Assembleia Geral colocará sobre a mesa propostas cujo teor se desconhece. Por enquanto.
No domínio da especulação, há aqueles que tentam adivinhar os propósitos de Marta Soares.
E, assim, vão adiantando que a Bruno de Carvalho será apresentado o ultimato segundo o qual deverá apresentar a sua demissão para deste modo abrir espaço a novas eleições, tornando assim os sócios do leão detentores do único poder que deveria haver no seu reino.
No entanto, os mais recentes desenvolvimentos dão-nos conta de iniciativas que revelam toda a determinação ao actual Presidente de se manter em funções, sem dar qualquer importância a todo o ruído que se escuta à sua volta.
Em dois escassos dias, foram anunciadas medidas que, em circunstâncias normais, levariam semanas a gizar e a pôr em prática.
Porém, como a mata está a arder, convém tudo fazer para estancar o fogo, que, a não ser combatido eficazmente, tenderá a adquirir muito maiores proporções.
Resta aguardar pela noite que vem aí, com a certeza de que até que o sol desapareça no horizonte ainda muita água vai correr sob as pontes."

Alvorada... do Martins

Benfiquismo (DCCCXXXVII)

Discutir o futuro...

Lanças... Sacos !!!

Circus Lagartus - IX episódio

Como proteger a democracia da loucura?

"Uma das formas de se exercer a liderança é através da loucura. Certos transtornos de personalidade são benéficos para a capacidade de reunir apoios e traçar caminhos.

Nos últimos tempos temos assistido a diversos exemplos de eleições democráticas em que a loucura tem ganho terreno. Nada disso é novo. O passado está cheio de situações em que os loucos ascenderam ao poder.
A verdade é que uma das formas de se exercer a liderança é através da loucura. Certos transtornos de personalidade são benéficos para a capacidade de reunir apoios e traçar caminhos. Egomaníacos, mitómanos, megalómanos e sociopatas partilham, muitas vezes, certas características que os tornam especialmente propensos a abraçarem as aventuras do poder e a serem capazes de cativar as massas. 
Esses loucos são extremamente convincentes, porque acreditam nas mentiras que dizem, fazem promessas tentadoras, não têm medo de arriscar e são capazes de usar todos os ardis para chegarem ao poder e lá se manterem, nomeadamente a conspiração, a intimidação psicológica e a violência física.
E não se pense que este fenómeno se verifica apenas relativamente aos grandes poderes. Aparece em quase todos os locais onde há poder, mesmo quando esse poder é menor – seja num condomínio, numa cooperativa ou numa associação de estudantes.
Obviamente que tudo se torna mais perigoso quando se fala da liderança de países, de organizações supranacionais, de grandes clubes desportivos ou mesmo em organizações não democráticas como empresas ou igrejas.
No caso das empresas, são já inúmeros os estudos que demonstraram que a psicopatia é uma característica muito comum em CEO. Graças ao desprezo que têm pelos sentimentos alheios, tornam-se altamente capazes de traçar planos de poder individual, passando por cima de subordinados e colegas hierárquicos, tudo fazendo em nome dos resultados desejados.
Nas igrejas, sabemos bem dos fenómenos de alienação de massas que muitos líderes espirituais têm conseguido, construindo fortunas e impérios de poder em torno das igrejas que lideram (muitas vezes conseguindo imiscuir-se directamente no poder político, vide os EUA ou o Brasil).
Quanto às lideranças políticas, a capacidade de convencer com um discurso, ora assertivo ora exaltado, prometendo sempre o fabuloso através de palavras simples com elevada carga emocional (ex. “make America great again”) são ingredientes típicos para o sucesso inicial e ascensão ao poder de certos demagogos loucos.
No mundo desportivo, ainda mais fácil se torna a tomada do poder por parte dessas personagens que, apelando ao lado mais emotivo dos adeptos, e sistematicamente com o apoio musculado das claques dos clubes, convencem tudo e todos com as suas promessas de vitória e de esmagamento dos adversários (internos e externos).
O que não podemos esquecer é que, muitas vezes, este tipo de líderes consegue apresentar resultados satisfatórios no curto/médio prazo, principalmente pela sua propensão ao risco e poder motivacional. 
O problema surge sempre depois, dado que todas essas estratégias estão condenadas ao fracasso no médio/longo prazo. E quando tudo começa a correr mal, torna-se mais visível o monstro que está instalado no poder, disposto a enterrar consigo a organização que lidera e as pessoas que o acompanham, transformando logo em inimigos aqueles que, entretanto, o abandonam.
A História demonstra-nos que estes líderes acabam por arrastar as comunidades que lideram para a desgraça, desde Hitler que levou o povo alemão à morte, mas antes tinha-o tirado da fome e do desemprego, passando por gurus religiosos que levam as suas comunidades ao suicídio em massa, até dirigentes de clubes que quase destroem os mesmos, em nome de não abdicarem do poder.
A questão difícil diz respeito à forma como nos poderemos proteger destes loucos. Sendo que, tantas vezes, têm carisma e conseguem resultados de curto prazo, o que fazer para evitar estes logros?
Penso que existem duas ferramentas principais para combater esse mal.
1. Educação das massas: quanto mais os indivíduos estiverem educados, em particular alertados para os discursos demagógicos e para a detecção dos sinais da loucura, menos capacidade terão esses indivíduos para iludir o povo;
2. Desenhos institucionais complexos, mas transparentes, onde existam diversos órgãos de fiscalização cruzada e de distribuição do poder: quanto mais representativa e proporcional for uma democracia, mais eleições directas e intermédias existirem, maior for o número de representantes do povo com poder nas organizações e maior for a transparência exigida nos actos de gestão, mais difícil se torna a tomada e exercício do poder por parte destes loucos que, ainda por cima, são dos que mais procuram esses lugares, devido ao seu narcisismo e megalomania.
Os exemplos desta maleita social que proliferam em pleno século XXI, mostram-nos que temos ainda muito que fazer no combate a esta terrível doença."

De Alcochete para o mundo

"Situações como as que aconteceram são e serão inevitáveis se nada mudar, desde logo na cúpula dos clubes. Todos perdemos.

1. É-me difícil escrever sobre o futebol português nestes tempos de miséria moral e de indigência ética. Não porque seja um sonhador que julga que este reino do futebol seria sempre o reino das maravilhas. Não porque me ache no direito de ser juiz implacável de tudo o que observamos, tantas vezes com perplexidade. Mas porque os tempos de agora nos estão a aproximar dos antípodas do futebol que, menino e moço, aprendi a saborear, e no qual a busca vigorosa da vitória e a constatação sofredora da derrota eram simplesmente a expressão da ideia finalista de qualquer competição. Lembro-me da ideia da rivalidade aguerrida, mas contida dentro dos limites da urbanidade. Recordo-me da dialéctica quase ingénua na defesa dos nossos clubes, da ironia dos vencedores para os derrotadas e da réplica da desforra. O mundo do futebol era saudavelmente bipolar, quase inocentemente maniqueísta, partindo do princípio básico da alternância de quem ganha e perde. Na minha terra, havia uma barbearia que era um feudo do Benfica. A 50 metros havia outra que era portista. Entre as duas, o café de um leão indomável. E eu, depois de ler A Bola, deambulava entre barbeiros, ainda não cabeleireiros, e o café onde preenchia a minha caderneta de cromos de jogadores, e assistia, gostosamente, às discussões tão empenhadas quanto leais entre rivais. Não havia inimigos, mas adversários. Não havia ódio, mas disputa. Não havia a ditadura do dinheiro, mas a medida do amor à camisola. Não havia claques, mas apoiantes misturados numa festa. Não havia palavras e palavrosos, mas balizas e golos. Não havia poderes, mas deveres. Não havia violência, mas entusiasmo. Não se sabia quem era fulano, sicrano ou beltrano numa qualquer estrutura (palavra que não 'existia') de um clube. Vi o Benfica, como o Sporting e o Porto, em Coimbra, no Calhabé, onde o meu Pai me levava a ver estes jogos com a Académica, apesar de, na altura, o meu coração ser já benfiquista. Em 1956, assisti, com um familiar portista, ao jogo nas Antas em que o FCP se sagrou campeão vencendo por 3-0 a Académica, e assim impedindo o meu Benfica de o ser (2.º, com os mesmos pontos). Quando o Beira-Mar subiu à primeira divisão não perdia nenhum jogo dos 4 grandes (então ainda com o Belenenses) no agora velhinho e desprezado 'Mário Duarte'. O futebol era o jogo e tudo o resto se dissolvia nele. Éramos nós que buscávamos o futebol-delícia, não era o futebol-totalitário que agora nos aprisiona, todos os dias, todas as horas, como se nele estivesse a essência da vida.
Falo destas memórias não para dizer que sou saudosista. Sei que o mundo mudou vertiginosamente no e em redor do desporto. Mas o que mais me assusta, nos dias que correm, é a negação da exemplaridade de muita gente que nele e dele vive. Imagino uma criança assistindo a toda esta parafernália quase patológica num país suspenso a cada hora por qualquer facto ou parvoíce futebolística. Receio o modo como muitos jovens absorverão, na sua personalidade, esta fragmentação ética despudorada onde impera o lema de que para se atingir um fim (efémero) valem todos os meios lícitos ou ilícitos, legítimos ou ilegítimos, louváveis ou censuráveis. Na televisão (quase) tudo é bola, ou melhor é bola sem bola. Violência verbal a suscitar violência factual. Ódio indisfarçado a promover os piores valores relacionais para vidas futuras. Será que a ideia da convivência, o princípio da lealdade, a alegria da competição, a sinceridade da relação, a humildade da aceitação, a decência do comportamento, o direito do dever, a coerência da sensatez, a prudência dos limites, o orgulho de pertença são agora pontos enterrados no lamaçal do dinheiro, do ódio, da retaliação, da vaidade, do poder pelo poder, da manipulação comunicacional, da mentira?

2. Tudo já foi dito sobre os acontecimentos relacionados com o Sporting. Não vou aqui falar de tão degradante e dissolventes situações. Na terça-feira da semana passada, quando, em casa, assistia ao culminar da violência em Alcochete, senti-me envergonhado. Sei que, neste ambiente sórdido em que vivemos, há quem pense que quanto mais problemas houver num rival, tanto melhor para nós. Recuso-me a pensar assim e a educar a minha descendência nesse ambiente. Situações como as que aconteceram são e serão inevitáveis se nada mudar, desde logo na cúpula da responsabilidade dos clubes. Agora a questão já não é se podem ocorrer é, infelizmente, apenas saber quando e com que magnitude acontecem. Todos perdemos. Considero que não há ninguém mais benfiquista do que eu. Amo até ao tutano da alma o meu clube. Mas, racionalmente, procuro não perder o discernimento tantas vezes toldado pela química emocional. Fiquei desgastado com o que aconteceu em Alcochete e logo escrevi a dois bons amigos sportinguistas uma mensagem: 'Hoje sou sportinguista', em plena solidariedade que põe de lado as baias da rivalidade. No entanto, sei que haverá quem, lendo estas palavras, as ache 'blasfémias'. Se for o caso, paciência.
Neste contexto, não posso deixar de dizer quando me entristeceu a ausência de qualquer gesto dos rivais do SCP. Bem sei que já houve uma 'guerra de comunicados' entre o SLB e o FCP, a propósito da (grave) suspeita de corrupção para as bandas de Alvalade. Bom seria terem-na precedido por uma atitude de reprovação firme perante a horda de vândalos que espalhou o terror em Alcochete.

3. A quase totalidade dos sportinguistas e comentadores afectos vieram proclamar, ainda que com cambiantes, o seu inegociável afastamento do presidente do SCP. Bem-vindos à claridade do dia! Para muitos deles, pessoas experientes, inteligentes e com inabalável sportinguismo, custa perceber terem precisado de 5 anos e de um acto de vandalismo e cripto terrorismo para se darem conta do que era evidente! Cada qual com a sua razão, mas todos com a mesma desculpa. Há em tudo isto algo que me faz lembrar o súbito rompimento entre Sócrates e seus incondicionais amigos e colegas que precisaram de uma década ou mais para enxergar o que a 'ética do rosto' tão esplendorosamente evidenciava.

4. E eis que, de supetão, também todas cadeiras do poder se levantaram. A uma só voz, os órgãos de soberania. A um só 'comunicado' entidades públicas ligadas ao desporto, a Liga de futebol e outras organizações. O Primeiro-ministro anuncia uma nova Autoridade - mais uma! - para fazer o que as que existem fingem que fazem. É sempre assim no nosso país. As coisas só mexem (ou fingem mexer) nos dias do pós-acontecimentos graves e com repercussão pública. Mas, perante tudo o que de mal vem acontecendo há muito no futebol, o certo é que continuamos num quase 'dolce far niente'. Temos punições ridículas de uns míseros euros, púdicas admoestações ou a perda de uns pontinhos para prevaricadores, corruptores e corrompido e para actos de pura violência. Tudo numa boa. Um centro de árbitros é alvo de um quase sequestro com ameaças psicológicas e físicas e nada se passa. Temos agentes do desporto que sofreram actos de vandalismo nas suas casas e com as suas famílias e tudo se esquece. Temos descargas de tochas incendiárias e não há punição, a não ser os tais quase simpáticos euros de multinhas. Temos claques ditas organizadas e claques ditas irregulares a quem tudo é consentido num contexto de vandalismo, vícios sociais e de permuta de favores e interesses e assobia-se para o lado. Temos programas onde (vimos há dias) além da barbárie de insultos chegámos ao ponto de, em directo, haver ameaças físicas, com a hipócrita e pseudo-moralista indignação de quem dirige tais programinhas de sangue e escárnio, como se os escolhidos não o tivessem sido por terem tais características e os clubes nada fazerem (às vezes, bem pelo contrário) para afastar essas pessoas.
Banalizou-se a apologia da dívida e da antecipação de receitas futuras como forma de procrastinar os problemas, aceitou-se, sem consequências, que as SAD falidas ou pré-falidas vivam desrespeitando a lei que as levaria à dissolução. Enfim, podemos hoje constatar que o reino do futebol é habitado por muita gente não aconselhável e afasta as pessoas sérias, decentes e urbanas. No dia em que um clube, grande ou pequeno, seja despromovido por batota ou banido por causa da violência dos seus adeptos, talvez voltemos a enxergar alguma limpidez neste desporto. Haja coragem de banir péssimas práticas e de afastar pessoas indignas. Precisamos de algo em que acreditar, mesmo que por via dolorosa.

P.S. 1 - Lamentável a quase total desconsideração pelo D. Aves na maioria dos canais televisivos, antes da final da Taça. Parecia que o SCP ia jogar contra não sei quem...
P.S. 2 - Uma palavra de sincera solidariedade para Rui Patrício, grande profissional que tudo mereceria no seu clube."

Bagão Félix, in A Bola