Últimas indefectivações

sábado, 4 de abril de 2020

Não vá. Telefone! - Cervi

#TinoHome

Neste capítulo não se consentem excepcionalidades

"Será mesmo necessário sacrificar o espírito essencial da prova - ... sem campeonatos não há campeões -, amputá-la da sua componente competitiva, só para salvar as vidas de uma administração? Parece-me uma solução exagerada e pouco democrática

Os ingleses, no intuito de levar a Premier League até ao fim, colocaram a hipótese de disputar na China as jornadas em falta. Os portugueses, não tendo a China à mão, ponderam a hipótese de achinesar o Algarve para que a nossa província mais meridional receba nos meses de Junho e de Julho as 10 jornadas restantes da Liga. Os 90 jogos do campeonato distribuir-se-iam pelos estádios algarvios, do campo do Beira-Mar de Monte Gordo ao campo do Moncarapachense, do campo do Bensafrim ao campo do Silves, passando, naturalmente por Olhão, Portimão e Vila Real de Santo António para tudo terminar, em glória, numa jornada final toda no mesmo dia e, ininterruptamente no Estádio do Algarve, com o primeiro jogo a começar às 8 da manhã, que é muito boa hora para se estar a pé, e com o último jogo a arrancar pelas 9 e meia da noite já depois do sol-posto e com o relvado num estado miserável.
O meu antigo colega e amigo de infância Rui Santos apontou, porém, outra solução 'Se salvar vidas, atribua-se o título ao FC Porto'. Chegou o dia em que nunca estive tão de acordo e, ao mesmo tempo, tão em desacordo com o Rui Santos. Entregar o título de campeão, sem que o campeonato tivesse terminado, ao FC porto salvaria de certeza, as vidas de toda a administração da SAD do FC Porto e da sua cascata de funcionários diligentes em tempo de falência à vista e de eleições com candidatos a sério e tudo. Mas será necessário sacrificar o espírito essencial da prova - é que sem campeonatos não há campeões -, amputá-la da sua componente competitiva, só para salvar uma administração? Parece-me uma solução exagerada e pouco democrática.
Na Bélgica, cheia depressa, a liga nacional não foi em Chinas nem em outros lazaretos e decidiu atribuir o título de campeão a quem ia na frente quando o vírus lá chegou. A UEFA veio ontem questionar a participação das equipas belgas nas competições da UEFA 2020/21 'dado que a participação se determina pelo resultado desportivo alcançado no final das provas nacionais dadas concluídas por completo e uma finalização prematura levanta dúvidas sobre o cumprimento dessa condição'. Se em Portugal, salvar vidas passa por dar o título já ao FC Porto, será de bom-tom perguntara Pinto da Costa e aos seus pares se, vidas por vidas, não preferem, ainda assim, tentar ir à Liga dos Campeões e açambarcar a maçaroca pela via normal que é a apontada pela UEFA, ou seja, jogando os joguinhos todos sob o nosso Sol, sabe-se lá quando.
O Benfica em Fevereiro a jogar à bola foi uma lástima. De meados de Março até este início de Abril, a cumprir a sua função de obra social o Benfica tem sido excepcional. No entanto, se quiser ser (outra vez) campeão de futebol, tem de fazer os 10 jogos que faltam. Neste capítulo não se consentem excepcionalidades."

Benfica 3-0 Celtic. A eliminatória decidida por moeda ao ar que marcou a infância de Rui Águas

"Tenho na memória um jogo que vi no estádio da Luz, quando era miúdo, devia ter uns seis, sete anos. Eu ia muito ao futebol com o meu pai, ao estádio da Luz a maioria das vezes, e tínhamos o nosso lugar, que não era marcado, mas que era sempre na mesma zona.
Recordo-me muito desses tempos, também porque o meu pai já faleceu e essas coisas acabam por ganhar maior simbolismo.
O jogo foi um Benfica-Celtic para uma competição europeia que eu acredito que tivesse sido a Taça dos Campeões Europeus. Na primeira eliminatória o Benfica tinha perdido 3-0, em Glasgow, e depois fez um super jogo no estádio da luz, conseguindo empatar a eliminatória, ganhando também por 3-0. 
Na altura terá havido prolongamento, calculo eu, e a decisão, vejam bem, foi por moeda ao ar, que é algo que não deve ter acontecido durante muito tempo no futebol, mas que na altura fazia parte das regras.
Estádio cheio e às tantas há um falso alarme positivo. Ou seja, alguém achou, ouviu ou gritou que a moeda tinha pendido para o lado do Benfica e lançou-se a euforia generalizada. Barulho, festa, aplausos, risos. 
Só que, passado algum tempo, não sei quanto tempo demorou o engano, afinal soube-se que a coisa foi ao contrário e foi uma desilusão redobrada.
Então para um miúdo de seis ou sete anos, como eu, que amava futebol, foi algo que me marcou bastante.



Benfica 3-0 Celtic (26 de Novembro de 1969, Taça dos Campeões Europeus)
Benfica: José Henrique, Messias, Malta da Silva, Adolfo Calisto, Mário Coluna, António Simões, Jaime Graça, Toni, Eusébio (45' Vítor Martins), Raúl Águas (62' Diamantino Costa) e Artur Jorge. 
Celtic: John Fallon, Billy McNeill, Jim Brogan, Jim Craig, Tommy Gemmell, Jimmy Johnstone, Tom Callaghn (90' George Connelly), Bertie Auld (90' Harry Hood), Bobby Murdoch, William Wallace e Yogi Hughes.
Golos: 35' Eusébio, 40' Jaime Graça, 90' Diamantino Costa."

O fim dos campeonatos sem mérito

"Não há condições para retomar os campeonatos de formação, mas também não podemos apagar o trabalho todo de uma época desportiva. A solução passaria pela contagem dos pontos no final da 1ª volta.

Neste momento, discutem-se, em todo o mundo, medidas de prevenção, contenção e tratamento para o novo Coronavírus (Covid19). A esta preocupação real, séria e que todos deve fazer reflectir, juntam-se medidas para atenuar a instabilidade actual, pensar e projectar o futuro, bem como para dar resposta aos projectos que ficaram suspensos com a propagação desta pandemia.
Louvo a decisão da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) em terminar, neste momento, todas as competições, uma vez que não conseguimos precisar com exactidão o fim desta pandemia. Volto a sublinhar que concordo com a decisão de término dos campeonatos, pois a segurança e saúde pública estão acima de qualquer entidade ou prova, no entanto, tenho outra opinião quanto à forma como os campeonatos finalizarão: sem subidas nem descidas, sem títulos de campeões atribuídos.
Ora vejamos, quando se planeia uma época desportiva são definidos objectivos a curto, médio e longo prazo, tal como acontece numa empresa, que se espera que no final do ano tenha atingido o lucro X com a despesa Y. No futebol também se delineiam (ou deveriam delinear-se) objectivos, assim como em qualquer um desporto.
Na próxima época, aquando da definição dos objectivos para as equipas, é provável que os técnicos e dirigentes se perguntem se os mesmos deverão ser traçados “jogo a jogo” ou, no limite, mensalmente, uma vez que, desta forma, não incorrerão no risco de não atingir — temporalmente — as metas a que se propõem.
Mas não, não é assim que deveremos trabalhar, tal como não deveria ser assim o final da época 19-20! Uma equipa que lutou a época toda, trabalhou semanalmente para conseguir uma subida, vê agora o trabalho, esforço e os fins-de-semana que perderam na companhia das famílias (porque tinham jogo), desperdiçados. Também no final da tabela encontramos um outro senão. Quem lutava para não descer, sem grandes exibições para se “manter” na divisão onde competia, chegando a deixar de acreditar na sua manutenção e, portanto, facilitando a cada jogo, vê agora a manutenção ser garantida, mesmo sem a merecer.
O Lema Olímpico é Citius, Altius, Fortius, isto é, “mais rápido, mais alto, mais forte”. O que aqui está patente é a mensagem de superação, de colocarmos o máximo esforço no que fazemos para conseguir atingir os resultados que pretendemos. As equipas, que adoptaram este lema no início de época, estão agora desiludidas e tristes com o facto do seu esforço ter desaparecido num ápice.
Outro lema informal, que muitos atribuem à motricidade humana determinada por um conjunto de regras que visa a competição, é o de que “perder ou ganhar é desporto”. Quando proferimos o conteúdo da mensagem não devemos interpretar que “ganharmos ou perdemos é a mesma coisa”, o que devemos apreender é de que temos de saber ganhar ou perder, mas que no desporto há um vencedor e um perdedor, mesmo dando o máximo esforço de si.
Sei que perante esta pandemia será difícil decidir quem vai ganhar ou, até, quais os moldes mais justos para todas as equipas. Na minha opinião, não há condições para retomar os campeonatos de formação, mas também não podemos apagar o trabalho todo de uma época desportiva. Ao todo, foram 120 treinos (para uns mais), mais de 18 jogos (oficiais), fins de semana perdidos, e acima de tudo laços criados de companheirismo e amizade que vão permanecer, mas que foram sustentados por este trajecto. O que faria, e digo eu que não tenho autoridade sobre o assunto, sendo apenas um treinador com opinião, passaria pela contagem dos pontos no final da 1ª volta de todas as equipas. Neste momento já todas as equipas jogaram entre si, já conseguimos aferir os patamares competitivos em que os clubes se encontram, assim seria mais justo, não se apagando o trabalho de uma época, mas também não seriamos injustos para aqueles que têm calendários mais desfavoráveis mediante o nível competitivo dos adversários e que já realizaram alguns jogos da 2ª volta.
É importante também reflectir sobre outro agente desportivo, muitas vezes negligenciado, o árbitro! Os profissionais do apito também estão dependes de avaliações, classificações, sujeitos a maus e bons trabalhos, uns agouram outros patamares, entretanto outros não conseguiram ter prestações de determinado nível que lhes permitam continuar nos patamares em que estão. Tal como os atletas, treinadores e dirigentes, perderam fins-de-semana, com dois a três jogos e alguns até cinco, e, caso esta época seja desconsiderada, também eles perdem o esforço de meses de trabalho.
Globalmente estão a ser tomadas medidas tendo em consideração o passado, o presente e o futuro das pessoas. No futebol também têm de ser tomadas medidas com essa índole. Não podemos fugir da realidade, nem podemos apagar o registo desportivo desta época, não podemos favorecer no futuro quem não garantiu, por mérito próprio, a continuidade em determinada divisão.
Reitero que esta minha opinião é enquanto agente desportivo, a equipa que treino não sairá beneficiada nem prejudicada com esta medida."

Salários no futebol

"Os jogadores de futebol das equipas mais ricas vão reduzir uma percentagem do seu salário: uns 30%, outros 70%, outros vários meses sem receber. Parece muito, e, é, não há dúvida nenhuma, estamos a falar de milhões em relação ao comum dos mortais.
Contudo um cidadão normal um corte de 30% tem implicações desastrosas, no seu final do mês com as contas para pagar.
Os jogadores de futebol vivem num planeta à parte, mas quem vive na Terra sabe que este corte dos salários pouca importância tem nas suas vidas. O seu problema é ganharem menos um pouco. Para quem ganha, por exemplo 10 milhões de euros, um corte de 30% equivale a um corte de 3 milhões de euros, mas ainda recebe 7 milhões. Estamos entendidos!
Os salários dos jogadores dos grandes clubes alcançaram somas obscenas e sem jogos, publicidade o dinheiro não aparece. O futebol é uma indústria que está interligada com muita coisa. A primeira é as receitas, a segunda é a publicidade, a terceira é o que recebe nas provas que realiza na Liga dos Campeões e Liga Europa.
A austeridade chegou ao futebol que parecia imparável no seu crescimento e hegemonia.
Esta foi a resposta inevitável, porque o futebol está muito stressado e dependente de liquidez. O futebol funciona em função de resultados que pode alcançar no futuro, isso, por vezes, não é a melhor estratégia de gestão.
Gianni Infantino e a FIFA vão ajudar as equipas e federações que necessitem. Estamos a falar de 2700 milhões, que pode chegar a 5.000 milhões.
É tudo muito bonito, mas com o compromisso de passados uns anos devolverem esse dinheiro. Isto é, não há almoços grátis nem no futebol.
O futebol parecia o olimpo que lidava com milhões mas a sua estrutura tem enormes debilidades e não é tão potente como se poderia pensar em função dos números estratosféricos que maneja.
O provérbio, "o rico e o porco, depois de morto", aplica-se neste caso, a Covid-19 veio demonstrar que o futebol não é assim tão rico e pujante."

À espera de um novo Bosman?

"A disciplina do grupo de trabalho é considerada um ingrediente fundamental do sucesso desportivo. Dentro desse espírito, os estágios de concentração bem como as viagens que antecedem e sucedem à competição tornaram-se práticas quase rituais do desporto moderno. No entanto, será que estes estágios, tal como são hoje configurados pelos clubes, e consentidos pela lei portuguesa, são compatíveis com a regulamentação europeia em matéria de organização do tempo de trabalho? Poderão os atletas, tal como permite o regime legal português, ficar ininterruptamente sujeitos a estágios de concentração que, por vezes, se prolongam por 48 ou 72 horas? E será que as viagens que antecedem e sucedem à competição, tal como são organizadas pelos clubes, com o “aval da lei”, serão compatíveis com o Direito da União Europeia (UE)?
A questão é pertinente porque, segundo a jurisprudência do Tribunal de Justiça da UE, que deve ser aplicada pelos tribunais portugueses, o conceito de tempo de trabalho abrange não só o tempo de trabalho efectivo (o tempo durante o qual o trabalhador presta efectivamente a sua prestação), mas também o chamado tempo de disponibilidade (o tempo durante o qual o trabalhador está disponível para trabalhar).
No caso do tempo de disponibilidade, determinante, para aquele Tribunal, é que a disponibilidade se manifeste no local de trabalho ou em local determinado pelo empregador. Assim, se o trabalhador estiver em casa, ainda que deva permanecer “disponível” para trabalhar e podendo ser chamado a qualquer momento, esse tempo já não será considerado tempo de trabalho. A distinção deixa-se compreender pela seguinte razão: nos casos em que está em casa (ou fora do “controlo” imediato do empregador), o trabalhador recupera alguma da sua liberdade para gerir o seu descanso o que, pelo contrário, não acontece quando deve estar disponível para trabalhar no local de trabalho ou em local ditado pelo empregador.
Partindo desta premissa, será que o regime legal dos estágios e das viagens que antecedem e sucedem à competição é compatível com esta jurisprudência? Em relação aos estágios, é preciso considerar, desde logo, que as concentrações ocorrem em local determinado pelo empregador e que os atletas, em regra, não podem ausentar-se sem autorização do clube, estando até sujeitos ao seu poder disciplinar caso o façam. Acresce que, durante esse período, o atleta deve estar disponível para o que vier a ser programado pelo clube, podendo o empregador, aliás, alterar discricionariamente a “agenda” ou “ordem de trabalhos” do estágio e, com isso, do praticante desportivo. Ainda que, durante esse período, o atleta possa dedicar-se a certas actividades de lazer (como jogar consola ou interagir com os seus seguidores nas redes sociais), está permanentemente à disposição do empregador. Tudo somado, esses tempos devem ser considerados tempo de trabalho para todos os efeitos legais, nomeadamente, para o cômputo dos limites aos períodos normais de trabalho (oito horas por dia, 40 horas por semana).
O mesmo se poderá passar no caso das viagens que precedem e sucedem à competição. Embora seja verdade que o Tribunal de Justiça da UE já tenha afirmado que os chamados “tempos de deslocação” não são considerados, em princípio, tempos de trabalho, importa considerar que, no caso dos desportistas profissionais, essas deslocações são realizadas em horário determinado pelo clube e por meios que pertencem à entidade empregadora (como é o caso do autocarro do clube) ou por ela escolhidos (por exemplo, por avião). Acresce que o atleta partilha esse tempo com os companheiros de equipa (tratando-se de desportos colectivos) e também com os representantes do clube, estando, aliás, durante a viagem, num certo sentido, sob as instruções destes. A partir do momento em que o trabalhador está obrigado a deslocar-se nos termos definidos pelo empregador, esse período deve ser considerado tempo de trabalho para efeitos legais.
No início dos anos 90, o modesto futebolista Bosman revolucionou o mundo do futebol ao discutir nos tribunais belgas a legalidade das chamadas indemnizações de transferência. A questão foi levada à apreciação do Tribunal de Justiça da UE que, decidindo a favor de Bosman, afirmou que os interesses da indústria desportiva não podem prevalecer sobre os princípios e regras do Direito da UE. Também o regime do tempo de trabalho dos desportistas profissionais não pode prevalecer sobre o Direito da UE, pelo que, certo dia, não é improvável que um novo Bosman possa aparecer nos tribunais portugueses, questionando o regime vigente em Portugal."

Benfiquismo (MCDXCII)

Fomos de 'moeda'!!!

Reflexão

"Só a soma de vontades ajudará a chegar ao fim deste pesadelo do Covid-19 com menos vítimas e menos angústia

Numa época dominada por um só tema, este maldito Covid-19 que sequestrou o mundo com as suas incertezas, discute-se a possibilidade de se terminar os campeonatos fora do calendário habitual. Primeiro era Junho, depois era Julho e agora até Agosto é hipótese para salvaguardar os principais interesses comerciais e compromissos com os patrocinadores e demais interesses económicos que financiam as competições da actual época desportiva. Não tanto por ter de haver um campeão, muito mais por haver contratos por cumprir e interesses económicos e salvaguardar.
Nesta época de reflexões e muito tempo em casa sugiro para quem tem Netflix que veja a pequena série O Jogo Inglês. Trata da origem do futebol, da sua expansão como modalidade popular, da discussão entre o amadorismo e o profissionalismo. Impressionante como 150 anos depois os temas são muito parecidos e as motivações da paixão pelo jogo também. Numa série que retrata a sociedade inglesa da segunda metade do Séc. XIX, onde as verdades não são absolutas e as questões fazem sentido, ainda hoje fica uma interessante reflexão sobre a origens (e actualidade) do futebol. Muito mais do que uma disputa entre o aristocrata Kinnaird e o proletário Suter, muito mais do que um jogo entre os Old Etonians e o Newcastle, muito mais do que um jogo, é a essência do jogo, é a génese da paixão pelo futebol que está bem retratada na série. Arrepiantemente actual.
Neste período onde não faltam exemplos de ajuda e altruísmo, onde a sociedade também tem mostrado o melhor que tem na capacidade de se entregar ao bem comum, sublinho a generosa contribuição do Benfica (como outras), primeiro com uma avultada soma financeira, depois com a doação de alimentos aos sem abrigo e agora com o contributo dado para aquisição de material e equipamento de protecção médica. A doação dos profissionais do Benfica permitiu comprar mais de 50 mil máscaras, 540 mil luvas, 750 óculos de protecção, 750 fatos térmicos e 20 termómetros infravermelhos. É a utilidade, a generosidade e o testemunho numa altura onde só a soma de vontades ajudará a chegar ao fim deste pesadelo com menos vítimas menos angústia. Uma atitude à Benfica."

Sílvio Cervan, in A Bola

Quarentena II

"Diz o povo que em tempo de guerra não se limpam armas. Curiosamente, nesta que vivemos, até convém limpá-las assiduamente, mas as do nosso inimigo, pois trata-se das nossas próprias mãos.
Já se vê, pela lógica deste pensamento, que a quarentena tem os seus efeitos. Há uns dias dei por mim farto de estar em casa e a ir até ao meu carro, onde permaneci umas horas e li parte de um livro da Anna Burns – “Milkman” – no qual é particularmente bem descrito o ambiente de terror vivido nos anos 70/80 na Irlanda do Norte, onde houve, de facto, uma guerra, no sentido clássico do termo. Nesta, que só Pacheco Pereira parece recusar-se a referir-se-lhe nesses termos, pedem-nos para ficarmos em casa, lavarmos as mãos e praticarmos distância social, o que em certos casos nem é grande o sacrifício, talvez seja mesmo uma benesse. 
Para quem tem saúde e não é obrigado a arriscá-la em nome de outrem, e ainda para quem não começa a sofrer já com a paragem da economia, além das saudades de familiares e amigos, os maiores desafios têm sido ocupar o tempo entre paredes (perdeu-se a desculpa “não tenho tempo para ler”) e estar atento aos noticiários de algumas TVs (salva-se a RTP) para se mudar de canal imediatamente antes do início da evangelização diária dos pivots de serviço, num tom que alterna entre a reprimenda e a (proto) inspiração. Como não percebo do assunto, nem me preocupo com audiências, preferiria ouvir notícias. E garanto-vos que não haverá discurso tão inspirador quanto os actos praticados por pessoas e instituições, por vezes pouco ou nada noticiados, entre os quais as doações avultadíssimas do Benfica e dos elementos da sua equipa profissional de futebol, que mereciam mais destaque."

João Tomaz, in O Benfica

Corona de espinhos

"Não é fácil esta vida de quarentena. E não estou a falar da minha, que estou sentado em casa a escrever, com tranquilidade, boa net, frigorífico abastecido e família em segurança. Eu não me queixo, limito-me a cumprir a minha parte para que todos terminemos vencedores, como espero que vocês também estejam a fazer.
O que me anda a incomodar são outras vidas.
Imaginemos aquele senhor que tem dificuldade em manter o cuspo dentro da boca sempre que diz mal do Sport Lisboa e Benfica. Como pode ele agora comentar, insinuar, mentir, fingir, atacar, dar azo à sua loucura em directo na televisão? Com a covid-19, eu sei bem quem é que não se sentaria à sua frente com risco de apanhar uma das milhentas gotas de saliva...
Ou será veneno?
E o que dizer do outro que não vive sem dar bicadas através do passarinho azul? Sim, esse, o funcionário do mês que vai ter tantas explicações para dar em tribunal. Com os campeonatos parados, como pode ele inventar mais linhas imaginárias, desculpas de mau pagador (literalmente) e truncar e-mails para cozinhar o seu polvo, duro, ressequido, sem gosto?
Como deve estar a ser difícil a vida desta gente que precisa do Benfica para viver. Passam os dias fechados nas suas cavernas, à espera de qualquer migalha para fazer um banquete, mas não têm sorte nenhuma. Ainda se agarram à OPA ou às possíveis contratações, mas só levam com chapadas de classe: é o trabalho da Fundação, são os ventiladores, o apoio a idosos em situações de risco, as máscaras e as luvas, o capitão de voleibol Hugo Gaspar a dar lições de profissionalismo e solidariedade, as redes sociais em favor de uma causa... eu sei lá."

Ricardo Santos, in O Benfica

Uma quarentena bem divertida

"Então, estimado leitor, como vai essa quarentena? A minha tem sido produtiva. Já aprendi a falar klingon devorando The Big Bang Theory, fiz três maratonas de Harry Potter e ainda cheguei a 2050 no Fottball Manager. O Benfica já ultrapassou o Real Madrid na lista de vencedores da Liga dos Campeões; Pinto da Costa ainda é o presidente do FC Porto aos 112 anos; o Sporting foi finalmente campeão, em 2042, depois de uma vitória épica em Alvalade, na última jornada, diante do V. Setúbal, superando assim o Varzim na luta pelo título da II Liga. Rui Santos, que assumira a presidência do clube em 2039, acertou em cheio na escolha de Vítor Oliveira para alcançar o objectivo da subida, depois de Jérémy Mathieu ter falhado a manutenção dois anos consecutivos no papel de treinador-jogador. A queda para o CNS pelo menos permitiu vingar aquela eliminação da Taça frente ao Alverca em 2019, goleando os ribatejanos por 5-0 com um póquer de Manuel Fernandes, neto da velha glória leonina que actualmente é comentador residente no Você na TV! apresentado por Bruno de Carvalho. Sim, tenho o FM na versão mais completa.
Conforme o leitor pode verificar, é possível ficar em casa sem desesperar. Podemos até tornar a experiência bem divertida. Experimente ler, fazer exercício ou dar uma limpeza à arrecadação. Se nenhum destes passatempos - ou qualquer outro praticado dentro de portas - for suficiente para o leitor, lamento imenso, mas ainda assim terá de sujeitar à quarentena. Porque o dever de impedir que este vírus continue a matar não tem sequer comparação com a vontade de suas excelências irem para a praia matar saudades do mar."

Pedro Soares, in O Benfica

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Orgulho!

"Gabriel Garcia Márquez dizia que a vida é uma contínua sucessão de oportunidades para sobreviver. 
Colocados perante um dos maiores desafios deste século, eu diria que temos pela frente uma boa oportunidade para sobreviver, e de olharmos para o país com um olhar diferente daquele que nos é mais habitual – porventura demasiado céptico, porventura demasiado cáustico. Numa fase tão delicada, nunca seria excessivo destacar o orgulho que sentimos nos incansáveis e corajosos profissionais de saúde, verdadeiros soldados deste combate, que arriscam a própria vida para salvar outras vidas. Mas devemos orgulhar-nos também dos nossos políticos – e a importância de ter bons políticos mede-se nestas alturas -, quer dos que estão no governo e em cenários de tremenda incerteza dia e noite trabalham para tomar as melhores decisões, quer dos que estão na oposição e dão mostras de um sentido de estado assinalável, enterrando os machados de guerra e colaborando na duríssima empreitada que é de todos. A comunicação social, tantas vezes criticada e criticável, tem dado lições de rigor jornalístico e de serviço ao público que evidenciam o quanto é imprescindível a qualquer sociedade moderna. Merece, também ela, o nosso orgulhoso aplauso. Temos motivos para nos orgulhar igualmente de trabalhadores de muitas outras áreas, que se mantêm firmes no seu posto, exercendo funções determinantes para a comunidade, tais como caixas de supermercado, farmacêuticos, serviços de limpeza e de recolha de lixo, entre outros, e por aqui se percebe quem é verdadeiramente importante. Devemos, por fim, orgulhar-nos dos nossos concidadãos, que de uma forma generalizada têm sabido interpretar a importância do momento, e cumprir com as determinações que visam proteger vidas. As excepções apenas confirmam a regra.
Um dia isto há de terminar. O orgulho e a gratidão serão eternos."

Luís Fialho, in O Benfica

A OPA

"A Sport Lisboa e Benfica SGPS solicitou à CMVM a revogação da OPA sobre 28% de acções da SAD, lançada em Novembro do ano passado. As circunstâncias assim o obrigaram, e o comunicado da SAD é bem claro. Vivemos momentos de profunda incerteza, num estado de emergência global, e do qual a única certeza é que tudo irá mudar no mundo. Os órgãos sociais do Benfica têm pela frente um desafio complexo. Pelo que foi ajustada a decisão de desistir da OPA. Uma operação arrojada, virada para o futuro e que permitiu constatar a natureza de instituições e de certas pessoais. Por um lado, a CMVM, que demorou quatro meses a tomar uma decisão absurda. Por outro lado, algumas pessoas que têm tendência para o disparate, pois os principais objectivos da OPA era reforçar a posição do Clube como accionista da SAD, obviar eventuais tomadas significativas de posições accionistas hostis que poderiam pôr em causa os resultados positivos. Por outro lado, a OPA visava a continuidade do rumo estratégico traçado e que nos levou a atingir lucros nos últimos seis exercícios, recuperar os capitais próprios e abater a dívida. E com cinco campeonatos conquistados em seis. Estes resultados permitiram à SAD ambicionar mais altos voos, ou seja, lutamos com os mais poderosos. Só que os medíocres do costume aproveitaram este contratempo para zurzirem nos gestores que ficam na história por terem apresentado os melhores resultados de sempre. Na altura da divulgação dos resultados, os medíocres calaram-se. O Expresso, como quase sempre, apareceu na linha da frente. Que bom seria ter lido neste semanário uma análise à excelência da gestão da SAD, que apresentou lucros de três dígitos. Os 104 milhões estão atravessados a muita gente! Os 223 milhões de capitais próprios tiram o sono a muitos! E os 224 milhões de rendimentos cegam de inveja outros, nomeadamente quem passou pela direcção do clube. Perdemos uma batalha, mas não perderemos a guerra."

Pedro Guerra, in O Benfica

Vai ficar tudo bem!

"'Bom dia, Senhor José, está tudo bem consigo?', pergunta o presidente do Benfica, confiante e humilde, ciente de presidir a um clube centenário e de se encontrar ali, sem filtro e sem rede, com um século de Benfica personificado num único homem.
Cem anos merecem respeito e admiração!
Do outro lado, uma voz sem idade, a um tempo frágil e robusta, um olhar sereno e sábio que tudo diz porque tudo já se viu no devir de um século inteiro de existência. José Justo Coelho nasceu no fim da Primeira Guerra Mundial em pleno pico da gripo espanhola, uma das pandemias mais temíveis de que há memória. Por essa altura, um Benfica jovem já dava que falar porque arrebatava tudo, fossem vitórias, fossem pessoas, enchia e transbordava o pequeno campo de Sete Rios e sonhava alto com um novo campo nas Amoreiras capaz de acolher todas as paixões do Clube. Ainda menino, viu chegar o Estado Novo, não tinha 10 anos feitos, e o Benfica arrebatava-lhe o coração por entre revoltas, tiroteios, ruas em estado de emergência e um mundo a contas com a grande recessão. Tudo viu serenar, excepto a fome que abrandou mais lentamente no Povo, e, quando somou 18 anos, repartindo a paixão entre o Benfica e os namoricos, viu o mundo afundar-se de novo no medo e na morte, primeiro em Espanha, depois em toda a Europa. Passou vida racionada como todos e viu sair comboios de Lisboa com 'Sobras de Portugal'. Que sobras, se ao Povo faltava tudo? Ao menos estava lá o Benfica, bem pertinho, quente no coração a vibrar com o relato sem ver o jogo, aviando fregueses de ambulante nas redondezas dos campos das Amoreiras e do Campo Grande. Por esses dias perdidos de 49, nascia quem do outro lado lhe faltava e aprendia a amar o Benfica à medida que acordava para o mundo, sem privilégios e no seio daquele Povo anónimo que enchia os campos e acendia as paixões. Foram duros os tempos para ambos, um na meninice, outro na flor da vida, mas não lhes chegou a guerra à porta. Essa viria depois, na meia-idade, em terras de África, onde o português era falado e o Benfica amado. Desencontros na História, injustiças terríveis que levam a matar-se entre si povos irmãos. Mas dali mesmo, bem para cá do Cabo das Tormentas, confirmou-se a boa esperança e encheu-se o Benfica, Portugal e o mundo com a glória de um nativo. Também filho do Povo, sem fortuna ou privilégio, mas com uma bola de trapo nos pés e uma ambição digna de um rei. O grande Eusébio foi como uma onda de esperança e orgulho que invadiu todos os corações num arrastão Benfica. E estes dois homens, que agora falam olhos nos olhos num encontro improvável, estavam lá, ambos anónimos e vibrantes a sonhar mais e mais Benfica. E estavam lá também quando se fez o grande Estádio da Luz, o primeiro e o segundo, vibrando de igual modo, o primeiro empreendendo, construindo, arriscando, vencendo. O segundo amando a grandeza de que faz parte desde sempre e enchendo a alma com o encarnado das vitórias, que sara medos e angústias, mobiliza forças e desejos e projecta cada benfiquista no futuro com a confiança de um campeão.
Também assim será agora, porque, como bem sabe José Coelho, depois da tempestade vem a bonança, e o Benfica está sempre lá, vivo, vibrante, lutando e vencendo, inspirando os seus e dando aos outros um exemplo invejável. Será sem dúvida assim, também desta vez, sabe-o bem o presidente do Benfica, porque na adversidade encontra o ânimo; na derrota, o fermento da vitória; na resiliência, o músculo do empreendedor, e no Benfica, uma razão de viver! Vai ficar tudo bem, de outro modo não poderia ser..."

Jorge Miranda, in O Benfica

A enciclopédia de Mozer

"Os tempos mudaram, no jornalismo no Mundo, e isso é ainda mais claro para quem anda nesta vida há perto de quatro décadas. A 13 de Setembro de 1992, Mozer rompeu os ligamentos do joelho esquerdo em Famalicão e tinha pela frente um longo período de recuperação. O interesse de uma entrevista com o internacional brasileiro era óbvio. A coisa resolver-se como deve ser resolvida em qualquer circunstância: um telefonema, uma pergunta e uma resposta. Mozer decidiu: na hora: Oh, vem a minha casa e amanhã a gente fala.
Mozer tinha um núcleo não muito vasto de relações. Sempre foi um grande contador de história,feito de sentido de humor refinado e graça natural. Com os amigos aproveitava para expressar parte da enciclopédia que transportava sobre o despudor com que assumia alguns duelos, falando de picardias, conflitos, malandrises e demais argumentos menos ortodoxos como fizessem parte da sua missão em campo. Naquela tarde, em véspera de completar 32 anos, Mozer foi igual a ele mesmo. Não lhe saía da cabeça o lance que deixara naquela estado: 'Fui um passarinho. Entrei sem maldade e ele (o brasileiro Freitas) foi por cima. Se pudesse voltar atrás, era ele quem rebentava o joelho. Podem ter a certeza'."

Cadomblé do Vata (38!!!)

"O tão criticado futebol português deu uma boa resposta no início da Crise do Vírus. Ameaçou jogos à porta fechada, mas rapidamente desistiu dessa infeliz ideia e fechou para férias. Do aconchego do confinamento caseiro surgiram apelos à sociedade civil e doações de monta para o combate à pandemia. Foi bonito o início, mas soprado para longe o fumo do fogo de artifício inicial, os responsáveis do pontapé na bola nacional parecem decididos ao regresso à catadupa de decisões infelizes.
Ninguém tem dúvidas que o campeonato será retomado. Contudo ninguém sabe como. Aparentemente, é imprescindível eleger um campeão nem que o mesmo saia de um buraco cavado à picareta. Mais importante do que definir um campeão, parece apenas ser garantir que se saca o dinheiro aos patrocinadores e televisões, para garantir a sobrevivência dos clubes, que ao que consta não passa pela existência de adeptos nas bancadas.
Se há coisa que o Covid-19 tornou bem clara é esta mesmo: o adepto não serve para nada no futebol. Podemos emigrar todos para a Lua, que o espectáculo irá continuar. As campanhas de angariação de sócios e as chamadas de adeptos aos estádios são merda. Nós não contamos para o totobola do futebol. Quanto muito, estamos ali a mais porque protestamos quando nos sentimos defraudados pelos dirigentes, treinadores ou jogadores. Somos o elemento dispensável da indústria. Não interessa que estejamos fora da arena. A partir do momento em que o detentor dos direitos de transmissão televisiva possa filmar e difundir em directo para o Mundo os logos dos patrocinadores, o futebol nacional está salvo.
O meu protesto pelo regresso martelado das Ligas Profissionais não seria mais do que um desabafo de um ingénuo, se não houvessem factos que tornam esta insistência na disputa de 91 jogos de futebol uma bizarria. Reparem: as autoridades anunciaram que se calcula o pico da pandemia para meados de Maio, esperando-se que o mesmo seja "achatado". O Primeiro Ministro disse que ainda temos pela frente 2 ou 3 meses "no túnel". Perante isto, a LPFP acha concebível o regresso aos treinos no final de Maio e jogos em Junho. Mais, num momento em que todo o Mundo raciona ou racionaliza testes ao Covid-19, propõe-se escavacar 2 ou 3 mil exemplares (fazendo contas por baixo) em jogadores, staff, dirigentes, árbitros e restantes intervenientes nos jogos.
A boa imagem que o futebol deixou no início da tragédia, vai-se diluir totalmente na estupidez do regresso à competição. Com FC Porto campeão ou campeonato anulado, a temporada tem que ser dada por terminada, os jogadores e técnicos libertados da ânsia do regresso sem data para se preocuparem exclusivamente com as respectivas famílias e faça-se uma preparação atempada da próxima temporada, para não se colocarem em causa 2 épocas. Basta que se pense: vão se disputar um Derby Eterno e um Clássico com o eco dos gritos dos jogadores e o som dos carros que passam lá fora. Quem raio vai festejar golos nesta altura? Quem vai cantar "We are the Champions" ufano e de peito cheio?
Benfica Benfica Benfica... Dá-me o 38... Na Próxima Temporada."

O Passado Também Chuta: Rui Costa

"De quando em vez, os deuses do futebol enviam para a Terra verdadeiros génios que possuem um toque de bola que não pode ser chamado outra coisa senão divinal. Rui Manuel César Costa é um desses exemplos. Lenda do futebol nacional, e do Sport Lisboa e Benfica, Rui Costa é daqueles casos unânimes, um daqueles de que é impossível não gostar.
Dono de um drible de outro mundo, curto e veloz, senhor de um remate forte e portentoso, criador de passes de fazer inveja a qualquer médio desta e de qualquer outra geração. Senhoras e senhores, o “Maestro” era tudo isto!
Ver Rui Costa a jogar era como ver poesia em movimento, um daqueles jogadores em que o dinheiro do bilhete era bem gasto, pois para além de ver futebol, ainda se tinha direito a um espectáculo de magia. E que bom era ver tal coisa! Um 10 puro, como já não se vê hoje em dia.
No glorioso esteve (apenas) três anos no plantel principal, depois disso teve de mostrar o seu génio por terras italianas, para onde se transferiu para representar a ACF Fiorentina. Por lá chegou, viu e conquistou o coração dos adeptos “viola”.
De Florença mudou-se para Milão para representar o AC Milan, fazendo parceria com nomes como Paolo Maldini, Andrea Pirlo, Shevchenko, Filippo Inzaghi e Clarence Seedorf. Nomes incontornáveis da história do futebol italiano e europeu.
Com o passar dos anos, e com o término da carreira como jogador a aproximar-se, Rui Costa voltou ao “seu” clube. Tinha então 34 anos e mais duas temporadas pela frente.
Na Luz, mesmo já sendo um veterano, mostrou que a qualidade não havia desaparecido e realizou um desfecho de carreira incrível. A título de exemplo, na sua última temporada como profissional, o “Maestro” disputou 45 partidas e apontou 10 golos.
Mas havia chegado o dia em que os relvados perdiam um pouco de magia. Foi a 11 de maio de 2008 que o internacional português se despediu definitivamente da carreira de jogador profissional de futebol.
Fora dos relvados, o craque nascido na Amadora, ingressou na estrutura do SL Benfica, onde desempenha o cargo de administrador da SAD encarnada até ao dia de hoje.
No total foram 780 as oportunidades que os adeptos tiveram para ver Rui Costa a espalhar o seu charme e classe pelo relvado. Em 780 jogos como profissional marcou não só 121 golos, como a memória dos amantes do desporto-rei.
No seu palmarés conta com dez troféus conquistados entre Portugal e Itália. Ao serviço dos encarnados conquistou um campeonato nacional e uma Taça de Portugal. Em Florença conquistou mais três troféus: duas Taças de Itália e uma Supertaça italiana. Milão foi onde mais conquistou, tendo vencido uma Liga dos Campeões, uma Supertaça Europeia, a Serie A, a Taça de Itália e mais uma Supertaça italiana.
Na selecção nacional portuguesa, Rui Costa perfilou-se como uma das peças fulcrais do meio campo, até à chegada de Deco, pertencendo à famosa “Geração de Ouro”. Também ao serviço da selecção das “quinas” o “Maestro” conquistou, tendo sido fundamental na conquista do Mundial de sub-20 em 1991 que se disputou em Portugal.
Rui Costa era, então, o “Maestro” e cada jogo era um recital. Um jogador que certamente deixa saudades a quem teve oportunidade de o ver jogar. Era diferenciado e foi, sem qualquer dúvida, um dos melhores jogadores a passar pelo Sport Lisboa e Benfica."

Não vá. Telefone! - Taarabt

509259740

Mensagem do director do jornal O Benfica, José Nuno Martins

"Vanguarda cívica.
Estranho combate, este, em que ao homem comum não é exigido mais do que cumprir uma completa inacção e observar o mais absoluto recato. Como se, afinal, fosse possível que indivíduos, famílias, comunidades ou países pudessem escapar, por milagre, à ameaça da inexorável pandemia…
Da inconsciência inicial acerca da natureza e do poder maléfico do vírus que por toda a parte foi apanhando os países desprevenidos e impreparados, passar-se-ia a uma conjunção de incredulidade geral: a inaudita virulência progredia a uma velocidade tal que, fosse onde fosse e fossem quais eles fossem, os recursos disponíveis cedo deixavam de parecer suficientes para conter ou retardar o pesadelo.
Agora, mais de um terço da humanidade se encontra em confinamento mais ou menos assumido; e, apesar disso, a peste continua a disseminar-se insidiosamente, afinal devastando de modo implacável todas as condições de vida, em todas as geografias.
Inseguros, frágeis e indefesos, alguns – os que continuavam entretidos com as pequenas incidências e competições do quotidiano – só demasiado tarde se dariam conta das fatais vulnerabilidades dos sistemas de defesa individuais e colectivos.
Em todo o caso, em órgãos de Estado, como em entidades públicas em que o espírito comum já era forte, houve quem, aqui e ali, tendo sabido ler os sinais que chegavam do extremo oriente, pôde tomar a tempo algumas providências que um realismo prospectivo deles decorrente logo aconselhavam.
Os sólidos canais de relação que a pulsão universalista do Sport Lisboa e Benfica estabelecera com a grande nação chinesa durante a última década, terão certamente sido contributivos para que a Direcção de Luís Filipe Vieira tivesse percepcionado a gravidade do cenário desde os primeiros dias de Março, antes de qualquer outro clube em Portugal, de modo a assumir um primeiro prudente conjunto de informações e medidas. Poucos dias depois, o Benfica anunciava uma segunda leva de resoluções mais abrangentes e firmes, cujo impacto se revelaria determinante além das fronteiras da Família Benfiquista, e terá ficado como um novo exemplo da vanguarda cívica que o Benfica sempre representou na sociedade portuguesa.
Fosse pela capacidade de mobilização dos recursos adequados, fosse pela determinação adoptada em todas as instâncias do Clube e do Grupo empresarial – e em especial na Fundação, como nas Casas do Benfica – ou, até mesmo, ao nível das próprias estruturas competitivas que naturalmente se mantêm em situação de confinamento, o conjunto de medidas adoptadas desencadeou e fortalece o mesmo solidário sentimento geral da responsabilidade social que os Benfiquistas sempre avocam nos momentos mais difíceis da nossa História contemporânea.
Carlos Moia, o responsável da Fundação Benfica, sintetizou de forma lapidar o contexto em que vivemos no Clube: "O Benfica reagiu com força, músculo financeiro e dimensão. É admirável a grandeza deste Benfica que, perante a enormidade deste embate universal, mobiliza todas as suas energias e actua a uma só voz, directo, incisivo, grande!"
E, se nestes momentos, nos sentimos talvez verdadeiramente "todos juntos" como nunca, porque, por enquanto, ainda é mais urgente estarmos todos no "mesmo clube", já ninguém tem dúvidas de que, no dia de amanhã, sairemos deste pesadelo ainda mais fortalecidos, mais solidários e mais úteis. Ao Benfica. E a Portugal.

José Nuno Martins"

#EstamosJuntos

Clã Pizzi !!!

O meu Benfica

"Nasci há 18 anos e sou, com um enorme orgulho, o sócio nº 37948 do Sport Lisboa e Benfica. Quando vim ao mundo, estava destinado que o vermelho e branco me iria acompanhar para sempre e fazer parte do meu crescimento, de tal forma que, como um bom pai deve fazer, fui primeiro registado no Estádio da Luz do que no Registo Civil.
Vejo o Benfica com olhos de ver desde a época 2009/10 e, por isso, tenho a sorte de não ter acompanhado os dolorosos tempos de Vietname. Contudo, é extraordinário constatar que o nosso clube é tão grande que na sua mais de centenária história, o momento mais baixo que teve é comparado à mancha mais negra de um dos maiores países do mundo… Maior que Portugal, não é verdade?
Assim, cresci, a ouvir falar dos 3-6 do JVP em Alvalade, este que apesar de nunca o ter visto, de tanto o saber de cor é o jogo da minha vida. Para mim, isto é a maior magia que o Benfica me trouxe. Passar dias a ouvir do meu pai que o Isaías precisava de 5 oportunidades para marcar mas que quando era preciso a bola estava lá dentro. Saber, desde que me lembro de mim mesmo, que no Glorioso jogava o número 10 da selecção brasileira, o gigante Valdo. Isto para mim, é Benfica.
Diga-se o que se disser, é muito mais do que futebol. É uma ligação emocional inexplicável, que passa de geração em geração, como se de um testemunho se tratasse e é criada dia após dia, assente numa saudade imensa de algo que nunca (ou quase nunca experienciei). O Benfica, que nasce nas traseiras de uma pequena (mas tão grande) farmácia, desde cedo se percebeu que era demasiado grande para o nosso querido Portugal.
Por isso, diria que é praticamente obrigatório para qualquer benfiquista que se preze, ouvir os tratados que têm passado pelo excelente programa Benfica de Quarentena, onde se dá lições daquilo que é este clube. O meu Benfica não são os 120 milhões do João Félix ou o melhor resultado financeiro da história do clube.
O meu Benfica, é o 3-2 ao Barcelona, é o 5-3 ao Real Madrid, é ir ganhar ao Olímpico de Roma, é o ombro (até prova em contrário) de Vata e é bater-me de igual para igual com o Milan de Arrigo Sacchi. O meu Benfica, é perder Paulo Sousa e Pacheco para uns meses depois ver a subtileza do JVP a deixar passar a bola para o Isaías e silenciar todo um estádio. Já dizia o enorme Cosme Damião: “No imediato, o dinheiro vence a ambição. No futuro, a dedicação goleia o dinheiro”.
Este, sim, é o meu Benfica, apesar de nunca o ter visto presencialmente. Que aprendamos com estes senhores que nos têm banhado de benfiquismo e de mística por estes dias para chegarmos novamente onde pertencemos. Que haja coragem de afirmar aquilo que somos e pelo qual fomos reconhecidos e que não nos deixemos contentar com idas ao Marquês no final da temporada, que tanto nos tentam vender.
Desejo com isto, reacender novamente a chama das noites europeias, dos grandes jogos contra os nossos rivais e sonhar, que num futuro próximo de todos nós, os índios partam de Norte a Sul, passando pelas ilhas e por todo esse mundo vermelho e branco e que caminhemos novamente entre sol, chuva, ou neve, mas lá iremos em busca daquilo que nos tem faltado nos últimos anos.
Grande, incomparável, extraordinária massa associativa. Que seja ela a trazer de volta a orelhuda para a Luz."

Benfica de Quarentena #25 - Pedro Nunes

Futebol à porta fechada

"Futebol à porta fechada: tem pairado no ar essa possibilidade nos últimos dias. O momento é de grande incerteza e engloba todas as áreas da sociedade. O futebol não foge à regra e em Portugal, como por toda a Europa, tudo se encontra em suspenso, à espera que a tempestade passe.
Com a confirmação do adiamento do Campeonato Europeu de Futebol para 2021, abre-se uma janela para se poderem disputar as restantes dez jornadas da Primeira Liga, que Pedro Proença, presidente da Liga de Clubes, admite realizar, ainda que à porta fechada. Contudo, estará sempre dependente do que decretarem as instâncias governamentais sobre a matéria.
Para já, a hipótese em cima da mesa é terminar a temporada a 30 de Junho, pelo que é nesta janela de três meses que tudo tem que acontecer. Na óptica de Pedro Proença é fundamental que se termine a época desportiva, de modo a serem apurados os campeões da liga e perceber-se quem sobe e quem desce, para que depois a temporada de 2020/2021 possa decorrer dentro da normalidade.
Actualmente apenas um ponto separa FC Porto e SL Benfica na classificação, com os dragões no comando da liga. Mais abaixo, SC Braga e Sporting CP disputam o último lugar do pódio, separados por quatro pontos, lugar que dá acesso directo à Liga Europa. Na luta europeia encontram-se ainda Rio Ave SC, Vitória SC e FC Famalicão. Abaixo da linha d’água estão CD Aves e Portimonense SC, que há muito fazem contas à vida,e que são nesta altura os principais candidatos à descida. E agora? 
O campeonato está parado há mais de três semanas e as equipas impedidas de treinar, pois também estão sujeitas às medidas de isolamento social, pelo que a preparação física dos jogadores é sobretudo de cariz individual. São por isso levantadas algumas questões quanto à condição em que aparecerão os atletas, que dificilmente terão margem para uma espécie de pré-época, uma vez que o calendário será seguramente apertado.
Na jornada 25, o campeão nacional Benfica recebe o CD Tondela no Estádio da Luz. Com uma média de 52 479 espectadores por jogo, as águias são líderes do ranking de assistências na liga. O chamado “Inferno da Luz” costuma ser arma importante para empurrar a equipa para a vitória, um ambiente efervescente e por mais que uma vez elogiado tanto pelos próprios jogadores, como por adversários. Os restantes oponentes do Benfica em jogos em casa são: Santa Clara, Boavista, Vitória SC e Sporting. O dérbi que marca o fim do campeonato e que pode ser decisivo no desfecho final será também jogado sem público, o que em jogos desta natureza pode muito bem ser decisivo.
Com 35 625 espectadores em média por jogo, o Porto segue no segundo lugar do ranking de assistências e conta receber no Estádio do Dragão: CS Marítimo, Boavista FC, Belenenses SAD, Sporting CP e Moreirense FC. Em 12 jogos disputados em casa, o Porto apenas perdeu contra o Braga, na altura orientado pelo agora treinador dos leões Rúben Amorim, o que demonstra bem a força dos azuis no seu território. Com as bancadas despidas de público será interessante ver se mantêm a mesma consistência, com especial destaque para a jornada 32, um clássico à porta fechada. 
O Braga é apenas sexto no ranking de assistências, com uma média de 10 587 espectadores por jogo, no entanto é um clube muito acarinhado pela sua massa associativa. Há duas jornadas que podem ser decisivas para as contas finais do campeonato, a 28 e a 34, com Vitória SC e Porto como respectivos adversários. A rivalidade entre os de Braga e Guimarães é sobejamente conhecida e representam por norma jogos escaldantes, com a atmosfera criada pelo público a transferir-se para o rectângulo de jogo. Também aqui será interessante perceber o comportamento de ambas as equipas em resposta ao silêncio nas bancadas.
O Sporting, terceiro deste ranking, com uma média de 30 234 espectadores por jogo, poderá ser o clube que, no plano teórico, retira maior vantagem da situação. Para além das supramencionadas deslocações às casas dos dois maiores rivais, a próxima jornada ditou a visita a Guimarães, com os leões frente a frente à turma de Ivo Vieira, equipa que com uma assistência média de 16 910 espectadores se posiciona como quarta classificada no ranking, sendo o Berço tradicionalmente um terreno difícil para as equipas adversárias.
Este cenário é, claro, hipotético e está dependente dos mais diversos factores. A acontecer, colocará todos os adeptos agarrados às televisões, em suas casas, sozinhos ou com as suas famílias. Terá de ser assim, pela segurança de todos. Há ainda a questão das receitas de dia de jogo, que sem adeptos é inexistente, mas os prejuízos de não se terminar a temporada serão seguramente maiores do que haver futebol à porta fechada.
Com o prolongamento do estado de emergência, as pessoas continuam limitadas no que podem fazer e a possibilidade de ter futebol seria uma boa forma de se manterem entretidas. É um tema que certamente continuará a marcar a actualidade desportiva e em breve deveremos saber mais novidades sobre o assunto."

A alimentação e a excelência do atleta

"Já Pitágoras na Grécia antiga defendia que os atletas deviam ter uma alimentação específica para atingir as suas façanhas olímpicas. Em vez da dieta tradicional mais rica em hidratos de carbono com figos, cerais e queijo, Pitágoras introduziu alimentos ricos em proteína como a carne.
Nos tempos modernos, de modo a optimizar os seus desempenhos, os atletas são assediados por diferentes padrões alimentares, como as dietas vegan, paleo, ceto e alimentos pobres em hidratos de carbono. 
Actualmente, considera-se que um padrão alimentar de excelência envolve diversidade de práticas alimentares, permitindo sustentar o treino e a competição, considerando os três pilares da nutrição desportiva: especificidade, periodização e personalização.
Afinal, o que é que os atletas devem comer? Esta especificidade resulta do tipo de esforço, isto é, das necessidades metabólicas das diferentes modalidades desportivas. Por exemplo, se se trata de um jogador de futebol, que realiza repetidos sprints de alta intensidade, este tem de ter especial atenção à ingestão de creatina, de forma a repor as reservas musculares de fosfocreatina entre sprints. Em provas de meia-distância de poucos minutos, a subida de acidez muscular é um problema que pode ser mitigado pela ingestão de bicarbonato de sódio ou beta-alanina.
Quanto à periodização, a nutrição tem de acompanhar os objectivos do treino, considerando que todos os dias são diferentes. O atleta talvez necessite de uma maior ingestão de hidratos de carbono e calorias num dia de treino intenso, em comparação com dias de treino mais leve.
Uma outra forma de periodização nutricional envolve a disponibilização deliberada de poucas reservas de energia, que vão promover maiores e melhores adaptações ao nível celular. No entanto, aumentam o stresse, desenvolvendo o risco de doença e de fadiga, pelo que esta estratégia só traz benefícios se for periodizada.
A nutrição desportiva mudou muito nos últimos anos. Personalizar a alimentação dos atletas de elite é primordial, uma vez que estes são diferentes de todos os outros atletas, não apenas porque treinam mais, mas também porque têm traços genéticos específicos para a modalidade, pelo que não respondem da mesma forma que a maioria dos atletas. Esta personalização deve considerar as expectativas, as experiências anteriores de sucesso e insucesso e também a interacção específica das biomoléculas existentes na alimentação com o organismo de cada um dos atletas. Por exemplo, a suplementação com o sumo de beterraba, que aumenta a capacidade de captação de oxigénio, não é tão eficaz nos atletas de elite, devido à diferente composição das suas fibras musculares resultante do grande volume de treino.
Em conclusão, uma alimentação de acordo com os três pilares da nutrição desportiva, ser específica, periodizada e personalizada, pode não tornar um atleta mediano num atleta de elite, mas, garantidamente, se não assegurar estes princípios, o atleta que poderia vir a ser de elite nunca passará de um atleta mediano."

Benfiquismo (MCDXCI)

Pronto...