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domingo, 21 de junho de 2026

Zero: Mercado - Benfica quer pérola espanhola

BF: Saídas...

Terceiro Anel: Diário...

Observador: E o Campeão é... - Brasil ganha fôlego, Turquia desilude com "game over"

Zero: Negócio Mistério - S06E06 - Grosso

Rola Bola: Cabo Verde e Vózinha anulam Espanha | Portugal CR7 desiludem

El dia que Maradona explicó um país

LiveMode: Late Night #1

BolaTV: Dias de Mundial...

ESPN: Futebol no Mundo #584

Ganhar, sofrer, pertencer


"Ser adepto é aceitar uma das mais belas contradições da natureza humana. É escolher um clube, uma seleção, uma camisola e permitir que algo exterior a nós passe a influenciar os nossos estados de espírito. Um golo pode transformar um dia inteiro; uma derrota pode deixar um silêncio difícil de explicar. Aos olhos de quem observa de fora, parece exagerado. Mas é precisamente nesse exagero que reside a essência da paixão.
O adepto vive entre a entrega absoluta e a necessidade de manter alguma lucidez. Apoia porque acredita, porque sente, porque se identifica. Mas também julga, critica e exige, porque o amor por uma equipa não é uma relação passiva. Queremos que aqueles que representam as nossas cores honrem a nossa confiança. E quando isso não acontece, surge a frustração.
Existe um paradoxo inevitável: prometemos estar sempre presentes, mas é na derrota que a nossa fidelidade é realmente colocada à prova. Quando ganhamos, todos queremos pertencer à vitória. Falamos no plural “ganhámos”, “fomos melhores”, “somos campeões”. A equipa torna-se uma extensão do nosso próprio sucesso. Porém, quando perdemos, muitas vezes criamos distância. Procuramos culpados, criticamos jogadores, treinadores, estratégias, como se a derrota fosse algo que pertence apenas aos que estiveram dentro de campo.
Esta reação não é sinal de falta de amor. Pelo contrário. Muitas vezes é o resultado de uma ligação tão intensa que transforma a desilusão em raiva. O adepto odeia aquilo que corre mal precisamente porque deseja profundamente que corra bem. O problema surge quando a paixão elimina completamente a razão e a crítica se transforma em destruição e o apoio depende apenas do resultado.
A verdadeira grandeza de um adepto talvez esteja na capacidade de encontrar lucidez no meio da tempestade emocional. Celebrar a vitória sem arrogância. Aceitar a derrota sem abandonar. Criticar sem esquecer o respeito. Compreender que aqueles que hoje falham são os mesmos que ontem nos fizeram sonhar.
O futebol é, no fundo, uma metáfora da própria vida. Todos queremos vencer. Todos acreditamos que o nosso esforço, a nossa dedicação e a nossa esperança merecem uma recompensa. E quando ela não chega, dramatizamos, procuramos explicações e sentimos a injustiça da derrota. Mas a vida, tal como o desporto, não é uma sucessão permanente de triunfos.
Ser adepto é aceitar esse pacto com a incerteza: amar quando tudo corre bem e continuar a amar quando tudo corre mal. É viver entre a esperança e a desilusão, entre a crítica e a lealdade, entre a emoção e a razão. Porque os títulos ficam nos livros de história. A paixão, essa, fica na alma de quem nunca deixou de pertencer."

O segredo são as boas pessoas


"O Mundial avança de forma célere e… já com tanta matéria de estudo para reflexão.
Ainda antes do pontapé de saída marcaram-me as palavras do treinador campeão da Europa, Luis de la Fuente, quando disse que escolhe sempre a ”boa pessoa”.
Seremos sempre mais fortes com bons seres humanos, sem esquecer o que são as qualidades técnicas, táticas, físicas e psicológicas que cada jogador tem. Numa sociedade que se baseia em números estatísticos, algoritmos e que vai delegando as decisões para a tecnologia, faz-me respirar de alívio que no topo se valorize o Ser Humano.
Não tão direto, Thomas Tuchel acabou por recorrer ao mesmo argumento. A frase “o Mundial é um Europeu com o Brasil e a Argentina” não podia estar mais desatualizada. O Brasil-Marrocos é a evidência de que os tempos mudaram. Palavras sábias de Carlo Ancelotti ao afirmar “que foi um bom resultado”, avisando que só a qualidade individual não chega. É preciso ideia, forma de estar e mentalidade certa para atingir o sucesso.
A tendência geral das equipas é ter um propósito. Ninguém está a jogar o torneio para entrar no discurso bacoco de ganhar mais duelos e “meter o pé”. Há propósito nestas equipas. A posse de bola não fez mal à Alemanha (65%). Tinha objetividade e deu em 7 golos. Quarenta e sete seleções vão perder, mas quando há uma sintonia e sincronização no que é feito em equipa todos ganhamos e cria-se o tão desejado espetáculo.
Messi, Haaland, Mbappé e Kane personificam o que é jogar em equipa para que naturalmente se evidenciem dos restantes. Jesse Marsch disse mesmo que “a proposta de jogo é eletrizante”. O Canadá inteiro está envolvido agora no propósito!
Os Estados Unidos dizem-se (e deram esse sinal em campo) capazes de ganhar o torneio. O México garantiu os dois primeiros jogos do “mata-mata” em casa. Tenho o Euro 2004 no coração.
Com tanto equilíbrio, tudo pode fazer a diferença e como o jogo é disputado por Homens… é impossível de prever o seu desfecho. Resta-me usufruir, aprendendo.
Nunca desistiu de sonhar/trabalhar. É boa pessoa! “Bu djoya” Vozinha!"

Martínez e a equipa sem ponto final


"Há treinadores que são autores. Olham para os jogadores que têm à disposição e escrevem uma ideia capaz de os unir. Pegam em talento e transformam-no em narrativa. Não é esse o caso de Roberto Martínez. As suas equipas parecem rascunhos sucessivamente corrigidos e páginas cheias de frases bonitas, mas que nunca chegam a formar um texto. Há posse, sempre a posse, sempre a contemporização, mas falta o essencial: um sentido.
Quando chegou à Bélgica, encontrou uma geração que parecia saída de um romance. Courtois, Kompany, Alderweireld, Vertonghen, Witsel, De Bruyne, Hazard, Lukaku. Uma constelação tão brilhante que parecia impossível regressar a casa sem uma grande taça. Regressou. O tempo passou e a geração dourada envelheceu com as mãos vazias.
Agora, em Portugal, a história ameaça repetir-se. Não porque falte talento. Talvez nunca Portugal tenha reunido tanta abundância em tantas posições ao mesmo tempo. Vitinha joga futebol como quem escreve poesia. João Neves corre como se fosse um armazém de baterias. Nuno Mendes e João Cancelo transformam as linhas laterais em avenidas. Há extremos para todas as ideias e avançados para todas as necessidades. E, no entanto, a equipa parece viver presa dentro de um labirinto desenhado pelo próprio treinador.
O empate com a RD Congo foi apenas mais um capítulo de uma história já conhecida. Portugal marcou cedo e depois perdeu-se na sua própria imagem. Tocou, circulou, devolveu, reiniciou. Como um pianista que conhece todas as notas, mas que se esqueceu da melodia.
O futebol continua a ser um jogo de áreas. E Portugal passou largos períodos a comportar-se como uma equipa fascinada pelo caminho, mas sem qualquer interesse em chegar ao destino. Uma equipa lenta, previsível e incapaz de transformar superioridade técnica em superioridade competitiva.
Depois há Cristiano Ronaldo. Talvez o maior paradoxo da era Martínez. O selecionador insiste nele como centro de toda a equipa. Mas nunca conseguiu construir um sistema que o favoreça. Ronaldo tem hoje 41 anos. Já não pode viver longe da área para depois aparecer dentro dela. Precisa de uma equipa que lhe leve a bola onde sempre foi letal. Martínez mantém-no em campo por devoção, mas não lhe oferece condições para brilhar. É uma contradição permanente. Como insistir num violino e depois escrever uma partitura para trompete. O problema não é apenas Ronaldo.
O problema é uma equipa inteira organizada em função de uma ideia que não existe. Portugal parece jogar para confirmar que sabe ter bola, mas não para ganhar.
As grandes seleções têm identidade. A Espanha de 2010 tinha uma. A Alemanha de 2014 tinha outra. A Argentina de Scaloni encontrou a sua. Mesmo equipas com menos qualidade conseguem sobreviver porque sabem exatamente quem são. Portugal continua à procura dessa resposta.
E isso é o que mais assusta. Porque os Mundiais não esperam pelas experiências sem sentido dos treinadores. Passam. Passaram para a Bélgica e estão a passar para Portugal.
Entretanto, Vitinha continua a circular com a bola, João Neves continua a correr, Nuno Mendes continua a acelerar. Os talentos multiplicam-se. Mas o futebol tem uma crueldade particular. Não guarda medalhas para as gerações que prometiam tudo. Guarda apenas memória para aquelas que conseguiram transformar talento em destino. Roberto Martínez, até agora, tem sido um especialista em desperdiçar ambos."

Rúben Dias, o guião ficou feito até ao próximo jogo


"A presença do central na sala de imprensa foi uma boa decisão da comitiva nacional, pela liderança natural que o defesa tem e que é necessária neste momento

O empate de estreia no Mundial 2026, mas sobretudo a exibição com o Congo obrigavam a uma reação da seleção portuguesa mesmo antes de entrar em campo. Era necessário alguém falar sobre o que se viu e sobretudo o que se analisou: pelos analistas externos, mas também pelos internos, equipa técnica e jogadores.
Roberto Martínez não foi feliz nas declarações após o jogo. Disse que «falar em ganhar o Mundial não ajuda a ganhar jogos», quando o próprio assumiu o título como objetivo ainda Portugal não tinha um pé nos EUA. Antes de disputar a final da Liga das Nações, relembrou-o até. Já a presença de Rúben Dias na sala de imprensa foi das melhores decisões da comitiva.
O central do Manchester City faria sempre falta em campo pela sua qualidade técnica e tática, e pelo que se ouviu nesta sexta-feira também o fez pela liderança, qualidade que há muito se lhe reconhece. Não foi um jogador qualquer que ali esteve a falar em nome do grupo. Foi um líder. E isso é o que a seleção precisa após o 1-1 em Houston: liderança.
Liderança técnica para ajudar os futebolistas a encontrarem soluções em campo, liderança dos jogadores para transmitirem confiança uns aos outros e, obviamente, liderança comunicacional. Para dar respostas, para que o ceticismo se transforme em otimismo e desse modo encarar o Uzbequistão com um estado de espírito diferente daquele com que o país ficou depois daquele 1-1.
Rúben Dias falou como o capitão que é. Sacudiu a pressão perante a normalidade dos dias de um internacional português, de um jogador, e um dos capitães, do Manchester City. É isso que se espera de um jogador profissional. A analisar e assumir falhas, receber a crítica - e ela chega de muitas formas - saber como elas têm de ficar à porta, e impor limites. «Portugal», disse, quando lhe fizeram uma pergunta sobre o Real Madrid. Pode não se gostar de algumas respostas monossilábicas que Rúben Dias deu. Mas o central estava ali para falar o suficiente sobre os temas e não mais do que isso. Se não havia nada mais a dizer, Rúben Dias não acrescentou nenhum ponto.
Mais gente falará até ao dia do Uzbequistão, mas o guião ficou feito e o que há a acrescentar é em campo. Aí haverá, necessariamente, significativa diferença. Há pessoas que não precisam de briefing antes de entrarem numa sala de imprensa, basta lá colocá-las; ter características natas raramente chegam para se ganhar um jogo, a uma equipa convém sempre levar um roteiro."

A confusão entre gratidão e competição


"ROBERTO MARTÍNEZ.
Despertará sempre análises distintas, ideias opostas. Um selecionador, ainda para mais estrangeiro — pese toda a boa vontade em aprender português, cantar o hino e criar óbvia empatia mediática — será sempre sujeito ao imediato escrutínio, sabendo que, porque é de futebol que se trata, as paixões e os impulsos falarão muito alto e estabelecerão muito ruído.
Em rigor, o primeiro jogo de Portugal no Mundial das Américas não trouxe grandes surpresas, a não ser o golo madrugador de João Neves. Esse facto, aliás, projetou uma imagem errada do que podia vir a suceder.
Já não estamos no tempo da bola quadrada. O futebol, na sua componente científica e de conhecimento transversal, evoluiu de tal forma que, se Portugal conhece o Congo, à equipa africana também não faltam detalhes sobre os portugueses. Cada seleção joga o que pode e sabe, e é no aproveitamento das individualidades, dos que realmente podem fazer a diferença, distinguir um jogo e desequilibrar um resultado, que tudo se pode decidir.
Aqui, Martínez foi coerente, igual a si próprio, e não surpreendeu ninguém com as opções tomadas para o desafio de abertura da saga portuguesa do outro lado do Atlântico.
Esse terá sido o problema. Utilizar na equipa inicial Tomás Araújo e não sugerir a Rúben Neves que fizesse o lugar junto a Renato Veiga, foi um risco. Apostar num Bernardo Silva que pareceu mais com a cabeça em Madrid do que em Houston, tirou lugar a Francisco Conceição, o único que, quando lhe foi dada oportunidade, a agarrou com unhas e dentes. E depois… Cristiano Ronaldo. Já aqui várias vezes o escrevi: o jogador do Al Nassr não deve ser titular na Seleção Portuguesa. Tem carisma, história, peso, dimensão universal, tem de estar entre os convocados, e será uma ótima gazua para os últimos minutos de um jogo que esteja difícil de desembrulhar, pelo efeito que certamente terá na estrutura defensiva contrária.
Mas é cada vez mais previsível e cada vez menos fiável na frente de ataque portuguesa.
O problema é que Martínez o vai manter como titular frente ao Uzbequistão, num país que quase sempre confunde gratidão com alta competição…

VOZINHA.
Se outras provas fossem necessárias, a multiplicação exponencial do número de seguidores de Vozinha após a estrondosa exibição do guarda-redes cabo-verdiano no encontro frente à Espanha demonstrou a globalidade do jogo, e a força das mensagens. Um soundbite, uma defesa impossível, um adereço especial no equipamento, são elementos de notoriedade e de caraterização dos jogadores que atuam num palco de dimensão mundial.
Aos 40 anos, Vozinha fez o jogo da sua vida, quer na perspetiva da competição em que se inseria, quer pelo adversário e pela qualidade superlativa da sua atuação.
Cabo Verde merece todos os encómios, desde logo porque, sendo a qualificação surpresa do continente africano, motivou tudo e todos, e demonstrou que o sonho não terminou com o carimbo no passaporte para a prova mais desejada.
A equipa de Bubista foi, sobretudo, realista, teve a pontinha de sorte que protege os audazes, e no seu guarda-redes a muralha inultrapassável.
O episódio que levará a sua mãe aos Estados Unidos é apenas o lado mais humano da vida de quem, com a máxima humildade, deixou cair lágrimas pela distância. Ela estará, finalmente, nas bancadas a apoiar o filho e todo um país que, pelo caráter do seu povo e pela dimensão arquipelágica que tanto afasta quanto aproxima, merece inteiramente estar a viver este sonho proporcionado pelo futebol.
Os agora milhões de seguidores de Vozinha nas redes sociais serão, afinal, a parte que faltava de uma história que, para o guarda-redes e para os seus companheiros, ainda não acabou…

LIVANO COMENENCIA.
Tem apenas 22 anos e, por força do local de nascimento dos pais, adotou a seleção da pequena ilha caribenha de Curaçau, em vez de tentar um lugar na máquina neerlandesa. É que nasceu em Breda, nos Países Baixos, e teria sempre essa possibilidade.
Porém, a história seria outra, não tão reluzente, decerto… Livano Comenencia joga nos suíços do Zurique e na seleção estreante em Mundiais e, depois de uma qualificação emocionante, teve o seu momento de glória frente a um dos melhores guarda-redes da história do futebol. Manuel Neuer nem queria acreditar quando Comenencia, rápido e incisivo, marcou o golo de Curaçau frente à Alemanha, fazendo daquele momento uma moldura que vai marcar para sempre a sua carreira, ainda que nunca mais consiga estar com a equipa da Concacaf na fase final de um Mundial.
É também destes heróis improváveis que se escreve a história do jogo. Destes momentos únicos e irrepetíveis. E do quão marcantes e significativos eles serão, inspiração quase divina, para gerações de jovens. Nas ruas de Willemstad, a deliciosa capital da ilha, ou em qualquer parte do planeta.

LIONEL MESSI.
Começa a ser muito difícil adjetivar e analisar a carreira do astro argentino. Aos 38 anos, devidamente enquadrado com os companheiros no relvado, assumindo a experiência como fator de elevado diferencial, aplicando na perfeição os pressupostos técnicos que dele fazem um dos melhores de sempre, o eterno rapaz de Rosário chega, vê e demonstra o que é, efetivamente, um iluminado pela galáxia do futebol: aproveita entrosamento mágico de que dispõe na seleção das Pampas, marca três golos e deixa claro (ele e os restantes comandados de Lionel Scaloni) que a Argentina é, de facto, não apenas campeã do Mundo, mas a principal candidata ao título, no dia 19 de julho, em East Rutherford.
Messi chega ao Mundial em ponto de rebuçado. Toda a equipa argentina sabe que é no coletivo que reside o segredo dos sucessos, e Lionel também. Joga alegre, recebe e passa, desmarca-se e dá a quem desmarcado está, olha, mede a régua e esquadro distâncias, roda e faz rodar.
A Argentina tem um modelo de jogo que não procura Messi porque se trata de Messi. Enquadra-o, potencia as suas únicas e elevadíssimas qualidades técnicas, repara na sua experiência como um farol de referência, e aproveita o que de melhor ele pode oferecer. Do lado do número 10 alviceleste, sabe que tem compromisso, alegria com e sem bola, perceção e capacidade de decisão e conclusão.
É tudo o que é preciso. Por isso Messi, com Pelé e Maradona, já está no pódio dos melhores de sempre."

A fé que obriga a um Messias


"Quando estiver a ler este texto, provavelmente o Brasil já deu a volta esperada ao Haiti e passou do oito ao oitenta que é ir do baixo astral à fé sem qualquer reserva no hexa. Ou então, ainda que tremendamente improvável, estará a menos 8 ou menos 80 na escala Macaranazo (ou Mineirazo, para os mais novos). Mas não há como não arriscar no triunfo canarinho. É praticamente impossível que isso não aconteça, por muito que nos lembrem que no futebol não há isso: tudo se pode mesmo passar dentro das quatro linhas.
Todavia, este Escrete, sem a magia de tempos de enorme riqueza no garimpo, que lhe trouxe craques como Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho e Romário — num primeiro nível pós-Pelé, Didi e Garrincha — ou mesmo Djalminha, Rivaldo, Bebeto, Adriano, Zico, Sócrates, Cafu, Roberto Carlos, Daniel Alves e Kaká — num segundo —, não está também assim tão mal. Mesmo que o esteja o suficiente para que se suspire por Neymar como um Messias, se é que me faço entender.
Ney, ainda que não este, sobretudo o do tempo do Barcelona, é desse primeiro nível. É daqueles que nasceram e alimentaram um talento de imortal. Só que não resistiu às tentações mundanas e não conseguiu, também por ter nascido na era de outros, um trono e um ceptro só para si.
O mais próximo de um semelhante que o 10 terá à sua volta é um tal de Vinicius Júnior, que tanto os companheiros procuraram quando se afundavam diante de Marrocos. Ainda respondeu com um lance de génio que acalmou os africanos, mas não é nem nunca será um líder, com coisas a mais na cabeça de cada vez que toca a bola para a frente. Vinícius e Raphinha precisam deste Neymar preso por arames e menos ágil. Mesmo que, por enquanto, tenham ainda de viver sem ele. Neste Mundial das confirmações, enquanto o Brasil suspira pelo passado, há outros que têm fé no futuro. Depois de Bouaddi e Diomande, Manzambi foi o segredo para a primeira vitória suíça. Sim, o do Friburgo, que marcou ao SC Braga. Só tem 20 anos e é craque puro."

Queria pagar a t-shirt... e a caçadeira, por favo


"Entre as praias de Miami e o quartel-general de Portugal em Palm Beach, a rubrica Route 66 faz uma paragem obrigatória no Outdoor World. Uma imersão na mega loja Bass Pro Shops que serve de autêntico banho de realidade sobre a cultura de armas de fogo nos Estados Unidos

FORT LAUDERDALE — A viagem que une os pontos nevrálgicos deste Mundial 2026 estende-se muito além das quatro linhas. Fazer a cobertura de uma grande competição em solo americano é, também, esbarrar com os contrastes profundos de uma sociedade que teima em desafiar a lógica europeia.
No trajeto de regresso de Miami para a tranquilidade de Palm Beach, onde a Seleção de Portugal prepara o embate com o Uzbequistão, a equipa de reportagem d’A BOLA fez um desvio de rota. O destino? O Outdoor World, que alberga no seu interior a famosíssima Bass Pro Shops.
O que se perspectiva como uma simples visita de curiosidade transforma-se num choque cultural avassalador. À entrada, a imponência impressiona: tetos altíssimos de madeira rústica, decorações que emulam florestas densas e quedas de água artificiais. O verdadeiro banho de realidade surge ao avançar em direção aos balcões laterais.
Nos Estados Unidos, a venda livre de armas de fogo acontece sob as mesmas luzes brilhantes com que se escolhe um boné. Ou um chocolate. Nas vitrines de vidro, mesmo à nossa frente, repousam dezenas de pistolas e revólveres com etiquetas de preços banais e, atrás do funcionário — que manuseia o telemóvel com total indiferença —, a parede ostenta caçadeiras, espingardas de alta precisão e, até, metralhadoras automáticas que pareceriam mais adequadas a um cenário de guerra.
A mecânica do processo deixa transparecer uma simplicidade que assusta quem vê de fora: é chegar, escolher e pagar. Exige-se identificação e segurança, mas a rotina do consumo retira qualquer peso dramático ao ato. Comprar uma recordação ou uma arma faz parte do mesmo quotidiano. É a banalização de um dos temas mais fraturantes do país. Enquanto a bola não rola e Cristiano Ronaldo e companhia mantêm o foco total nos treinos, a nossa jornada continua a render crónicas que vão muito além do futebol."

A importância do ruído


"Há alguns anos tive a oportunidade de estar dentro do Barcelona, convivendo com treinadores como Pep Guardiola e Tata Martino e observando de perto alguns dos melhores jogadores da história do futebol. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol e tantos outros talentos que marcaram uma geração. Como treinador, procurava compreender o que diferenciava aqueles jogadores extraordinários dos restantes.
Esperava encontrar respostas na técnica. Na tática, na preparação física, mas encontrei algo diferente. A capacidade de conviver diariamente com o ruído. O ruído das expectativas, o ruído dos adeptos, o ruído dos media, o ruído da pressão para ganhar constantemente.
Uma das pessoas que mais influenciou a minha forma de pensar o treino e o jogo foi Paco Seirul·lo. Tive o privilégio de aprender com ele e de construir uma relação de amizade ao longo dos anos.
Entre muitas aprendizagens, houve uma ideia que ficou comigo. O rendimento não depende apenas da qualidade individual. Depende sim da forma como todas as estruturas do jogador e da equipa interagem perante os desafios que encontram.
A forma como pensam, a forma como sentem, a forma como comunicam, a forma como se relacionam, a forma como respondem à adversidade.
Anos mais tarde voltei a encontrar essa realidade de forma muito clara na Taça das Nações Africanas de 2024, a Nigéria chegava à competição como uma das principais candidatas ao título. Tínhamos jogadores de enorme qualidade, muitos deles protagonistas nos melhores campeonatos europeus.
Mas o primeiro jogo terminou com um empate frente à Guiné Equatorial. Para quem observava de fora, surgiram imediatamente as dúvidas. As críticas, as análises, as opiniões. 220 milhões de Nigerianos. O ruído aumentou. No entanto, dentro do balneário aconteceu algo diferente, os jogadores aproximaram-se.
As conversas tornaram-se mais honestas, o capitão assumiu a liderança. Pedimos mais compromisso, pedimos mais responsabilidade, pedimos mais entrega. Percebemos que não bastava ter bons jogadores. Era necessário sermos uma equipa melhor. Tornámos o nosso jogo mais fluido, mais agressivo na recuperação. Mais competente no controlo do espaço, mais assertivo no ataque ao espaço.
Não combatemos o ruído. Utilizámo-lo. Poucos dias depois enfrentámos a Costa do Marfim, anfitriã da competição e uma das favoritas ao título. Vencemos por 1-0. A confiança cresceu, a identidade fortaleceu-se. A equipa começou a acreditar ainda mais em si própria. Jogo após jogo fomos crescendo até chegar à final da competição.
Foi aí que percebi algo que continua a acompanhar-me enquanto treinador, o problema nunca é o ruído, o problema é a forma como reagimos a ele. As grandes equipas não vivem protegidas da pressão, vivem rodeadas por ela.
A diferença está na capacidade de transformar essa pressão em energia coletiva, talvez por isso os Mundiais sejam tão fascinantes, porque não testam apenas a qualidade técnica dos jogadores. Testam a maturidade emocional das equipas.
No futebol de alto rendimento, não vence quem elimina o ruído. Vence quem aprende a transformá-lo em força."

Mundial em alerta vermelho: os desafios ambientais para a saúde e no desempenho dos jogadores


"Pela primeira vez, o campeonato do Mundo de futebol decorre em três países, Estados Unidos, México e Canadá, abrangendo uma vasta área geográfica, com cidades anfitriãs separadas por milhares de quilómetros.
Esta dispersão expõe os atletas a uma combinação única de fatores ambientais com potencial para influenciar a saúde e o desempenho competitivo. Entre os principais desafios destacam-se o calor extremo, a altitude, a poluição atmosférica, bem como as exigências associadas às viagens. Nenhuma edição anterior do Campeonato do Mundo reuniu simultaneamente estes quatro fatores de risco.
Embora alguns dos desafios ambientais identificados tenham estado presentes em anteriores Campeonatos do Mundo, como o calor no Campeonato do Mundo no Brasil em 2014 ou a altitude na África do Sul em 2010 e no México em 1970 e 1986, nunca uma única edição reuniu uma combinação tão complexa.
Os encontros da Seleção portuguesa frente à República Democrática do Congo e ao Uzbequistão, agendados para Houston às 13h00, poderão decorrer sob condições de calor intenso. A análise utiliza o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), uma medida que combina temperatura, humidade, radiação solar e vento para avaliar o risco térmico para a atividade física. A situação poderá ser mais preocupante no encontro entre Colômbia e Portugal, último jogo da fase de grupos marcado para Miami às 19h30, esperando-se um WBGT de 30 °C.
As recomendações internacionais para a prática de exercício em ambientes quentes variam entre organizações. O American College of Sports Medicine (ACSM) sugere limitar ou cancelar atividade física intensa quando os valores de WBGT atingem valor superiores a 30 ºC, enquanto a FIFA prevê pausas de hidratação e arrefecimento durante os jogos quando o WBGT ultrapassa os 32 °C.
Por outro lado, a Federação Internacional de Futebolistas Profissionais (FIFPRO) adota uma posição mais conservadora, recomendando pausas a partir dos 26 °C WBGT e o adiamento ou suspensão de jogos quando os valores ultrapassam os 28 °C.
As projeções para o Mundial 2026 são particularmente preocupantes. Dos 16 locais de competição, 14 apresentam habitualmente valores de WBGT superiores a 28 °C durante os meses de junho e julho, sendo que seis cidades poderão atingir valores máximos entre 30 °C e 35 °C.
Com base nos registos históricos: cerca de 56% dos estádios poderão ultrapassar os limites recomendados pela FIFPRO para adiamento ou suspensão de jogos; 25% dos estádios poderão exceder o limiar da FIFA para pausas obrigatórias de hidratação e arrefecimento; cerca de 30% dos estádios poderão ultrapassar os limites de segurança definidos pelo ACSM.
Estas projeções poderão ainda ser agravadas pelo aumento da frequência, intensidade e duração das ondas de calor associado às alterações climáticas. Embora alguns estádios disponham de coberturas retráteis e sistemas de climatização capazes de reduzir o stress térmico, o calor extremo continuará a representar um dos maiores desafios para atletas e equipas durante o torneio.
Perante este cenário, a vantagem competitiva poderá não depender apenas da qualidade técnica ou tática das equipas. A capacidade de gerir a temperatura corporal, acelerar a recuperação e adaptar os jogadores às condições climáticas poderá transformar-se num fator decisivo ao longo do torneio.
A elevação da temperatura corporal tem implicações importantes para a saúde e o desempenho dos jogadores, tais como: saúde: temperaturas corporais superiores a 39 °C aumentam o risco de doenças relacionadas com o calor, incluindo exaustão pelo calor; desempenho físico: a capacidade de realizar sprints repetidos e ações de elevada intensidade, normalmente decisivas no futebol, diminui à medida que a temperatura corporal aumenta;desempenho cognitivo: funções cognitivas complexas, como a tomada de decisão, a atenção e o acompanhamento simultâneo de múltiplos estímulos, deterioram-se quando a temperatura corporal e da pele se elevam; desempenho técnico e tático: os jogadores tendem a adaptar o seu comportamento em campo, reduzindo a intensidade do jogo para preservar o rendimento global.
Em condições de calor extremo, as equipas costumam apresentar também uma maior percentagem de posse de bola e maior eficácia de passe, adotando um estilo de jogo mais controlado e menos baseado na pressão constante sobre o adversário. Complementarmente, estratégias de arrefecimento antes e durante os jogos podem limitar o aumento da temperatura corporal e contribuir para a proteção da saúde e manutenção do desempenho dos jogadores.
As estratégias de arrefecimento constituem uma das principais ferramentas para reduzir o impacto do calor na saúde e no desempenho dos jogadores. O arrefecimento pode ser obtido por métodos externos, como a aplicação de frio sobre a superfície corporal, ou por métodos internos, através da ingestão de bebidas frias. Estas estratégias devem ser implementadas antes e durante os jogos.
O principal objetivo do arrefecimento pré-jogo é criar uma reserva térmica antes do início do exercício, reduzindo a temperatura corporal e aumentando o tempo necessário para que os jogadores atinjam valores de temperatura associados a riscos para a saúde e para o desempenho. A imersão em água fria é considerada a estratégia mais eficaz para remover calor do organismo. Contudo, a sua aplicação em contexto competitivo apresenta dificuldades logísticas significativas, exigindo infraestruturas específicas, como banheiras com controlo de temperatura e disponibilidade de gelo.
Como alternativa mais prática, os coletes de gelo têm demonstrado resultados promissores. Uma conhecida marca, criou uma tecnologia em que o interior dos referidos coletes contém um gel especial, que é congelado antes da sua utilização e posteriormente, é sobreposto sobre as camisolas. O gel vai descongelando e refresca o tronco, no sentido de baixar a temperatura corporal.
Outra abordagem eficaz consiste na combinação de estratégias internas e externas, como a ingestão de gelo triturado associada à aplicação de bolsas de gelo nos principais grupos musculares dos membros inferiores. Apesar dos benefícios, é necessário evitar um arrefecimento excessivo.
A redução exagerada da temperatura muscular pode comprometer a capacidade de realizar ações explosivas no início do jogo. Da mesma forma, o arrefecimento interno muito agressivo pode atrasar o início da sudorese, reduzindo a capacidade natural de dissipação de calor.
Por outro lado, Portugal teve a sorte até ao momento de evitar a altitude. Competir entre 1500 a 2500 metros de altitude (casos de Guadalajara e Cidade do México) exige um período de preparação de cerca de duas a quatro semanas, no sentido de promover adaptações fisiológicas importantes, como o aumento da quantidade total de hemoglobina e o consumo máximo de oxigénio.
Estas adaptações hematológicas melhoram a capacidade aeróbica, tornando esta abordagem eficaz para a adaptação antes de competições disputadas em altitude. Contudo, a sua aplicação prática é frequentemente limitada pelas restrições temporais associadas ao calendário competitivo. A nossa Seleção está muito mais habituada ao calor do que a altitude. Pode ser que o único treino em altitude seja levantar o troféu de campeão no lugar mais alto do pódio."

No Princípio Era a Bola - A elasticidade tática e dinâmica ofensiva dos Estados Unidos que está a encantar o Mundial

AA9: Mundial - Day 9

Rabona: Vinicius Jr. Masterclass & Türkiye FAILS AGAIN! | World Cup Day 9 Recap

LiveMode: Aquece vais entrar #17

LiveMode: Mundial #21

Observador: Sem Falta - Primeira semana de Mundial: os árbitros e as novas regras

FIFA: Irão...

FIFA: Uruguai...

FIFA: Cabo Verde...

FIFA: Nova Zelândia...

FIFA: Egipto...

FIFA: Bélgica...

FIFA: Arábia Saudita...

FIFA: Espanha...

FIFA: Alemanha - Costa do Marfim

FIFA: Países Baixos - Suécia

FIFA: Turquia - Paraguai

FIFA: Escócia - Marrocos

sábado, 20 de junho de 2026

O verdadeiro Capitão...

Letal...

Demência...

Zero: Mercado - Benfica com alvo sonante para o Ataque

BF: Mercado...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Cristiano Ronaldo, prós e contras

Observador: E o Campeão é... - Mentalidade Martinez vai mudar no jogo com o Uzbequistão?

Observador: Três Toques - Queiroz é o "avô" vencedor e Yoane o pesadelo de Portugal

BolaTV: Mais Vale à Tarde que Nunca - Mundial #7

No Principio Era a Bola - Para Portugal abandonar os erros repetidos, Roberto Martínez terá de fazer escolhas difíceis

Tailots - Final Cut - Especial - Óscar Botelho - Congo...

Comercial: O Meu Clube é o Maior - Filipa Galrão: "Pelo Benfica, acho que nunca chorei de tristeza, só de alegria."

Zero: Afunda - Especial - Trade Deadline

DAZN: Bernardo: Adeus, Manchester #2

Reportagem - Formação à Benfica por todo o país

Lutar por dois títulos


"O objetivo da obtenção de dois títulos nacionais amanhã na Luz é o tema em destaque nesta edição da BNews.

1. Foco em vencer
No sábado, o Benfica tem a oportunidade de conquistar dois Campeonatos Nacionais na Luz. Às 15h00, é a vez do hóquei em patins no masculino no jogo 3 da final dos play-offs com o Sporting. Às 20h00, em futsal no feminino, é a negra com o Nun'Álvares.

2. Parceria assinada
Acordo entre Sport Lisboa e Benfica e LiveModeTV no âmbito do Mundial 2026.

3. Mundial 2026
Siga, no Site Oficial, o desempenho dos futebolistas do Benfica e todos os resultados e marcadores.

4. Final arranca domingo
O jogo 1 da final do Campeonato Nacional de hóquei em patins no feminino entre Benfica e Gulpilhares é no domingo, às 12h00, na Luz. No mesmo dia e também na Luz, às 21h00, há o jogo 3 da final dos play-offs do Campeonato Nacional de futsal no masculino.

5. Treinador anunciado
Anders Hallberg é o novo treinador do andebol benfiquista.

6. Reforço no voleibol no feminino
Gabiru, zona 4 internacional brasileira, junta-se ao plantel benfiquista.

7. Entrevista de despedida
A voleibolista Alice Clemente deixa o Benfica após 5 temporadas. Nota ainda para o anúncio das saídas de Veronika Djokic, Cansu Çetin e Kyra Holt.

8. Gimnáguia
A 44.ª edição é no dia 27 de junho no Pavilhão Fidelidade e os bilhetes estão à venda.

9. Concerto agendado
O Estádio da Luz é o palco do concerto de Luan Santana, agendado para 26 de junho de 2027.

10. História Agora
Veja a rubrica habitual das manhãs de quinta-feira na BTV.

11. Jornal O Benfica
A edição desta semana está disponível para download. 12. Casa Benfica Grândola Esta embaixada do benfiquismo celebrou o 30.º aniversário."

História Agora


Comercial: Ricardo...

Qual o momento mais icónico de Portugal em Mundiais? | Top ou Nem Por Isso

Celebridades!!!

King

Não deixem cair Kane e a Inglaterra


"É sempre o nome que cai. Lembrei-me disso quando ontem elegíamos a equipa da primeira jornada do Mundial. Não tem a aura de Mbappé e Haaland, e ainda menos a ainda mais ofuscante de Messi, e por isso ainda que alguém tenha dito 'o Kane também podia entrar aí' (e não fui eu, confesso) na verdade voltou a ficar de fora.
O bom do Harry Kane fez uma temporada incrível, não sei se a melhor, mas sem dúvida uma das melhores da carreira. Num Bayern que falhou a conquista continental, mas chegou a ameaçá-la ao ponto de estar entre os três (ou mesmo dois) mais fortes candidatos, marcou 61 golos em 51 encontros, somando apenas sete assistências é certo, mas ligando inúmeros ataques sempre que baixava até ao meio-campo ou para lá dele, passando em segundos de 'wide receiver' a 'quarterback', se não nos importarmos de por momentos confundir os dois 'futebóis'. E não foi só. Houve muito que ofereceu aos bávaros no momento defensivo, não se preocupando com a eventualidade de lhe faltar energia para o resto. Para a sua profissão de matador.
É por Harry, mas também pelo resto da seleção da Inglaterra, que possui um dos melhores plantéis de todo o Mundial e que há muito ameaça voltar a levar um grande caneco para casa — 4.º no Mundial 2018, vice-campeão europeu em 2020 e 2024 —, ao que se junta uma ideia e organização a partir do banco, pela mente do alemão Thomas Tuchel, que não podemos retirar do lote de favoritos a equipa dos Três Leões. Quem tem Kane, mas também Bellingham, Rice, Anderson, Gordon, Saka e Rashford, tem meio caminho andado para ganhar quase todos os jogos."

ADN, identidade, rotinas


"É comum dizer-se que uma equipa está bem trabalhada quando são notórias as suas rotinas, sejam elas defensivas ou ofensivas. Terminada a 1.ª jornada do Mundial 2026, há duas equipas que se destacaram das demais no que toca às rotinas – Argentina e Inglaterra.
Nenhuma delas é perfeita. Mas ambas dominam a maioria das fases e dos momentos do jogo. Por estarem rotinadas graças a um ADN vincado e uma identidade assumida.
Scaloni mantém a aura que o levou a ajudar Messi a ser campeão mundial. A sua Argentina continua a ter uma ideia de jogo coletiva, solidária sem bola (muita energia e predisposição mental na reação à perda) e multifacetada com ela.
Assente num 1x4x4x2 Losango, concentra jogadores sobre o corredor central para dominar e controlar o jogo a partir desses posicionamentos. Ao contrário do habitual, não atrai dentro para ligar e chegar por fora. Atrai dentro para fixar marcações e permitir a Messi surgir entrelinhas e em condições de pensar os metros finais do ataque argentino.
Apesar de reconhecida a influência e a importância de Messi na manobra ofensiva da equipa, não se limita a procurar o seu capitão em todo e qualquer momento. De Paul, Enzo Fernández, Mac Allister, Almada e Lautaro Martinez também assumem o jogo. Também pensam o jogo. Também procuram definir os lances. Não têm o dom messiânico de Messi, mas são parte ativa do momento ofensivo albiceleste.
Tuchel fez a convocatória com base numa ideia clara: ser protagonista através do controlo e do domínio do jogo com bola, ser agressivo na reação à perda e na transição defensiva. A Inglaterra mostrou precisamente isso frente à Croácia. Quis ter bola, soube ter bola e venceu num dos jogos mais bem disputados deste Mundial até ao momento.
Apesar do pouco tempo de trabalho quando em comparação com Scaloni, o treinador alemão rapidamente definiu que identidade pretendia ver na seleção inglesa. O 1x4x2x3x1 é o ponto de partida tático de um jogo posicional no qual Harry Kane assume importância vital.
O avançado joga e faz jogar, ataca e defende, assiste e finaliza, sempre dentro de uma ideia de jogo coletiva, a qual respeita as características dos jogadores ingleses.
É precisamente neste ponto que Scaloni e Tuchel coincidem. Ambos sabem o que têm em mãos. Ambos definiram um caminho claro de acordo com o que têm em mãos. Ambos treinam de acordo com o caminho definido tendo em conta o que têm em mãos.
Não espanta por isso que ambos tenham seleções com ADN, identidade e rotinas."

É hora de falar menos e jogar mais (e Ronaldo é só um dos problemas)


"RD Congo foi uma brutal e necessária chamada à realidade. Cristiano Ronaldo é um grande problema, sim, mas não é o único. Já alguém viu uma seleção ganhar um Mundial antes de o jogar?

Foram meses, anos de soberba: em 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, era tudo nosso. Afinal, temos os melhores jogadores do Mundo, nas melhores equipas europeias, praticamente todos no seu pico de carreira e com a última oportunidade da glória num Mundial. Ia dar Portugal, de certeza. Pelo menos, até a bola começar a rolar. Pedro Proença não admite menos do que voltar para Portugal com o troféu na bagagem, Roberto Martínez agora já diz que a Seleção nem precisa de ganhar o Mundial, que tem é de jogar bem, e que a constante conversa sobre o favoritismo a vencer a prova perturba mais do que ajuda. Quem diria? O problema é que, com o espanhol a selecionador, jogar bem também tem sido mais difícil do que encontrar água no deserto.
O deprimente 1-1 frente à RD Congo foi um valente alerta à navegação. E ainda bem que aconteceu em fase tão precoce da competição, porque ainda há tempo de emendar o que muito de mal se está a fazer. Haja coragem para isso, nomeadamente para chamar Cristiano Ronaldo à parte e fazê-lo perceber de uma vez que a Seleção é, hoje, melhor sem ele em campo.
O tempo é um adversário imbatível e os números que fizeram de CR7 o melhor jogador da história de Portugal são, hoje, cruéis: o avançado não marca há 10 jogos em fases finais de Europeus ou Mundiais e, nesse caminho, enfrentou adversários de nível bem inferior ao de Portugal, como Coreia do Sul, Suíça (o titular, Gonçalo Ramos, fez um 'hat trick'), Chéquia, Eslovénia, Turquia ou Geórgia. Não há volta a dar e continuar com Ronaldo em campo, neste momento, não servirá para mais do que prolongar a angústia de esperar por algo que já não existe faz muito tempo e alimentar as novelas das suas irmãs. O passado está lá atrás, é grandioso e ninguém o apaga, mas já não marca golos nem faz assistências.
Já chega. á estávamos mal o suficiente se a estreia tivesse mostrado Cristiano como o único problema, mas o mal é bem maior e não vai ser resolvido a dar as mãos e a ter muita fé. Portugal precisa de muito mais Nuno Mendes, Vitinha, Bruno Fernandes ou Bernardo Silva — qual é a ideia de o colocar a extremo nesta fase de carreira? — para poder sequer sonhar. O Mundial está farto em surpresas, o futebol cada vez mais equilibrado e longe vão os tempos em que as seleções europeias podiam desvalorizar os adversários de outros continentes. Há que agir e mudar rapidamente, sob pena de o 'vai dar Portugal' arriscar-se a ficar nas páginas negras da história da Seleção."

Obrigado por tudo, Cristiano. Agora é tempo de sair!


"O Mundial começou mal para Portugal. Não apenas pelo resultado ou pela exibição diante do Congo, mas sobretudo pela sensação de que a Seleção Nacional entrou na competição sem uma ideia clara, sem capacidade de reação e sem a liderança que um palco desta dimensão exige. A convocatória de Roberto Martínez já tinha deixado dúvidas. A opção por levar um número excessivo de guarda-redes, a aparente descompensação entre laterais e centrais e a ausência de jogadores com características específicas para determinados momentos do jogo, como João Palhinha, suscitaram interrogações legítimas. O problema é que essas dúvidas não desapareceram com o primeiro encontro. Pelo contrário, ganharam força.
Portugal apresentou-se previsível, lento e incapaz de encontrar soluções perante um adversário organizado e competitivo. Mais preocupante do que o resultado foi a incapacidade demonstrada para interpretar aquilo que estava a acontecer em campo. Faltou leitura do jogo antes do apito inicial, durante os noventa minutos e até depois de o encontro terminar. Quando uma equipa repete erros sem que existam correções visíveis, o problema deixa de ser circunstancial e passa a ser estrutural.
A isso juntou-se a estranheza provocada pelas revelações sobre a saída do cargo do Selecionador na véspera do jogo com o Congo, alimentando discussões sobre o seu futuro num momento em que toda a atenção deveria estar concentrada exclusivamente no Mundial. Em vez de estabilidade e foco, instalou-se ruído. E em torneios desta dimensão, o ruído raramente ajuda quem pretende vencer.
Mas existe uma questão ainda mais delicada. Chama-se Cristiano Ronaldo. Escrevo estas linhas com profunda gratidão. Cristiano é, para mim, o maior futebolista da história de Portugal e um dos dois maiores jogadores da história do futebol mundial. Deu-nos títulos, recordes, momentos inesquecíveis e uma projeção internacional que nenhuma geração anterior conseguiu alcançar. O país inteiro está em dívida para com ele. Precisamente por isso, custa assistir a este final de ciclo. Aos 41 anos, Cristiano já não é o jogador que foi aos 31. Não poderia ser. O tempo, adversário imbatível, afeta-nos a todos e aos atletas profissionais mais ainda, independentemente da sua grandeza. E aquilo que durante duas décadas foi uma evidência — a condição de principal referência da Seleção — deixou de o ser.
O primeiro responsável por esta situação é o próprio Cristiano, por não reconhecer que, por mais duro que seja aceitá-lo, chegou o momento de se reformar da equipa de todos nós. O segundo é Roberto Martínez, que, subserviente, nunca demonstrou capacidade ou autoridade para gerir esta transição da forma que o interesse coletivo exigia. O condicionamento psicológico e tático provocado pela presença de Ronaldo continua a ser visível. Muitos jogadores procuram-no em excesso, muitas jogadas acabam por ser construídas em função dele e a equipa perde espontaneidade. O jogo de preparação com o Chile foi um exemplo esclarecedor. Após a saída de Cristiano, ao intervalo, Portugal tornou-se mais móvel, mais imprevisível e acabou por desbloquear o resultado. Não se trata de desrespeitar uma lenda. Trata-se de reconhecer uma realidade competitiva.
Há ainda uma terceira responsabilidade: a daqueles que rodeiam Cristiano Ronaldo e continuam a alimentá-lo com a ideia, falsa, de que ainda pode carregar sozinho a Seleção Nacional às costas, como tantas vezes aconteceu durante as últimas duas décadas. Não podem. Nem ele, nem ninguém.
Por tudo isto, deixo um apelo sincero. Cristiano Ronaldo já não tem nada a provar. Nem aos portugueses, nem ao futebol, nem a si próprio. A sua dimensão histórica está garantida para sempre. É chegado o momento de sair de cena com a mesma grandeza com que entrou. Por respeito a si próprio, aos seus colegas, à Seleção Nacional, ao Clube que o formou — o Grande Sporting Clube de Portugal —, para dar o exemplo aos milhares miúdos que dão os primeiros pontapés na bola e que, tal como este quase idoso, o têm como ídolo, e por respeito aos milhões de portugueses que cresceram a admirá-lo.
As lendas não deixam de o ser quando param. Pelo contrário. Muitas vezes, tornam-se ainda maiores quando sabem escolher o momento certo para dizer adeus."

Cristiano Ronaldo: a memória curta de um país que exigiu sempre mais


"Há algo de curioso na relação entre Portugal e Cristiano Ronaldo. Durante mais de duas décadas, exigimos dele o impossível. E, de forma quase inacreditável, muitas vezes ele entregou-o. Agora, quando os anos passam e o futebol continua a lembrar-nos que nenhum atleta vence o tempo, parece que muitos escolheram esquecer.
Esqueceram quem colocou Portugal no mapa do futebol mundial de forma permanente. Esqueceram quem transformou uma seleção talentosa numa seleção respeitada e temida. Esqueceram quem bateu recordes atrás de recordes, quem carregou a camisola das quinas em centenas de jogos, quem esteve presente nos momentos de glória e também nos momentos de dor.
Cristiano Ronaldo não é perfeito. Nenhum atleta é. Nenhum ser humano é. Mas a facilidade com que alguns procuram reduzir a sua carreira a um penálti falhado, a uma exibição menos conseguida ou a um resultado dececionante revela mais sobre a nossa memória coletiva do que sobre o próprio jogador.
No futebol existe uma verdade simples: ninguém ganha sozinho. Quando Portugal venceu, venceram os treinadores, os colegas, as equipas técnicas, as estruturas federativas e, naturalmente, os jogadores dentro de campo. Mas se ninguém ganha sozinho, também ninguém empata sozinho. Ninguém perde sozinho.
Quando a Seleção Nacional falha um objetivo, a responsabilidade é coletiva. É injusto e intelectualmente desonesto transformar um único jogador, mesmo sendo Cristiano Ronaldo, no rosto exclusivo do sucesso ou do insucesso.
Durante anos, Ronaldo foi criticado por não ganhar títulos com Portugal. Depois conquistou o Europeu e a Liga das Nações. Foi criticado por depender da equipa. Depois acusaram-no de querer resolver tudo sozinho. Foi criticado quando chorou. Foi criticado quando não chorou. A verdade é que muitos dos seus críticos não procuram equilíbrio; procuram apenas um novo motivo para atacar.
O legado de Cristiano Ronaldo ultrapassa os golos, os troféus e os recordes. É um exemplo raro de disciplina, longevidade e profissionalismo. Um jovem da Madeira que saiu de casa ainda adolescente, enfrentou os maiores desafios do futebol mundial e alcançou o topo através de trabalho obsessivo e dedicação diária.
Num tempo em que tantos talentos se perdem pelo caminho, Ronaldo tornou-se uma referência global. Elevou o nome de Portugal em todos os continentes. Levou milhões de pessoas a olhar para o nosso país com admiração. Inspirou gerações de jovens atletas a acreditarem que o talento sem esforço não chega.
Também fora de campo, manteve uma ligação constante às suas origens, à sua família e à sua identidade portuguesa. Nunca renegou o país que o viu nascer. Pelo contrário, fez dele uma bandeira.
Um dia, Cristiano Ronaldo deixará de jogar. Esse dia está mais próximo do que mais longe. E quando acontecer, Portugal perceberá aquilo que tantas vezes só percebe quando já é tarde: que testemunhou uma carreira irrepetível.
A crítica faz parte do desporto. Deve existir. Mas a ingratidão não deve ser confundida com exigência. Podemos discutir decisões, exibições e momentos de forma. O que não devemos fazer é permitir que a emoção do presente apague a dimensão histórica do que Cristiano Ronaldo representa.
Porque os resultados passam. Os recordes podem ser batidos.
Mas há figuras que transcendem o jogo. Cristiano Ronaldo é uma delas.
E Portugal faria bem em não se esquecer disso."

Há um buraco enorme no meio da Seleção


"Portugal estagnou na geometria estéril de um modelo sem entrelinhas nem rasgo. Entre a circulação previsível e o estatuto intocável de Ronaldo, a equipa simplesmente congelou

Falar depois é fácil, dir-me-ão vocês. A questão é que já não é de hoje e foi referido inúmeras vezes antes. Até aqui. Não se trata sequer de desestabilizar o que já está desestabilizado, além do pouco que isso diz a quem tem de manter a imparcialidade sobre qualquer que seja o tema, sendo-lhe este mais ou menos querido. A crítica construtiva não tem momentos próprios, é uma obrigação e a opinião, para aqueles que não o sabem e muito protestam sem sabê-lo, um género jornalístico.
A conclusão que se tira — mesmo depois de uma Liga das Nações conquistada com mérito, mas perante adversários que, pela sua força, fazem naturalmente baixar os momentos de ataque posicional da Seleção e a transformam numa equipa de transição — Portugal pouco ou nada evoluiu no modelo desde que Roberto Martínez assumiu o comando. Se, no plano futebolístico, a razão pela qual foi contratado está diretamente relacionada com a qualidade do futebol ofensivo, para que a Seleção pudesse dar um passo à frente em relação ao seu passado ainda recente, é aqui precisamente que pouco tem mudado.
Não vou escrever sobre as idas à praia, nem da mulher de César que tem de ser e parecer séria, ou da suposta falta de atitude que sempre se atira para a fogueira da discussão. Nem sequer da adaptação ao clima alegadamente feita há quase três meses, nos jogos com México e Estados Unidos. Dou o benefício da dúvida de que possa haver justificações científicas para tal. Já me parece mais improvável que se consiga explicar o 1x4x0x6 persistente durante todo o desafio. Que ninguém desde o banco foi capaz de corrigir.
Portugal desistiu das entrelinhas, esqueceu-se de que existiam, ainda que tenha tentado pressionar os meios-espaços, ou seja os canais entre os defesas — lateral e central, e entre centrais — através de Bruno Fernandes, Cristiano, Bernardo e João Neves, por vezes. A ver o jogo de frente, com o passe vertical a ser bastante arriscado para a defesa ou para Vitinha, o Congo tinha o jogo controlado. Bastava ser paciente e não entrar em grandes aventuras.
De que valeu desenhar um triângulo teórico (sem Bernardo) ou um quadrado (com Bernardo) no meio-campo quando estes jogadores passaram a maior parte do tempo bastante longe uns dos outros. Incapazes de combinar, de criar rotações posicionais. Sem ninguém nas entrelinhas e perante um meio-campo muito povoado por parte do rival, o passe vertical tornou-se um risco demasiado elevado. O transporte também. Tomás não arriscou. Renato Veiga não tem sequer esse argumento. A posse foi tão alta em percentagem quanto estéril.
Quando montava o cerco, ou o desenhava pelo menos, Portugal congelava. Tentava apenas combinações para libertar o extremo pela direita, a fim de este pudesse cruzar, mas na área já todos esperavam o passe — o mesmo na esquerda, com Neto e depois Rafael Leão a partir para o 1x1. Só uma vez os africanos se deixaram surpreender com o cruzamento para trás, porém aí a fome cega de Ronaldo impediu o golo feito a Bruno Fernandes. Faltavam movimentos de rotura para surpreender ou arrastar marcações, todos procuravam colocar-se a jeito para a finalização e, obviamente, todos estavam marcados. E se atacas mal posicionalmente também defendes mal. Até as bolas paradas parecem demasiado simples e inócuas para quem tem um especialista para o efeito.
Chegamos a Cristiano Ronaldo. O capitão não é solução e claro que só isso o transforma num problema. Não é o único, todos o sabemos. E não é deste Mundial. É-o há muito tempo. Os golos antes ainda compensavam a passividade defensiva, agora não marca e condiciona todo o ataque. Mentalmente, com os colegas a quererem servi-lo mesmo quando há melhores opções, mas também figurando qual corpo estranho de todo o processo ofensivo. Passou a falhar golos fáceis. Vários por infelicidade. Outros porque o corpo já não lhe permite chegar lá tão rápido (e, como tal, equilibrado) como antes. Ao passe, ao remate.
Martínez viu isto e entendeu que mesmo com João Neves, Bruno Fernandes, Neto, Bernardo Silva e os laterais a aparecerem nas alas, Portugal tinha um problema de largura. E lá o vazio se estendeu até ao banco. Ronaldo, mesmo mal, ficou em campo. «Não fazia sentido tirá-lo de campo a ele, o melhor marcador da história, quando estávamos à procura de golos», justificou o selecionador, dizendo o que toda a gente sabe: está em campo por gratidão e não pelo que está a jogar. Porque não marca há dez partidas em fases finais de grandes torneios. Os números são duros. Impositivos.
Seria lógico sim, usando a mesma expressão que Martínez, fazer entrar um avançado diferente no 11. Gonçalo Ramos não atravessa grande momento, mas enquadra-se mais no futebol associativo que se pretende jogar e atribui maior responsabilidade na rotação posicional e na fase de criação aos criativos. Além do que pode acrescentar numa pressão estruturada, que com Ronaldo não existe. Há também Guedes, ainda mais móvel, a precisar de algum espaço para explodir, e que pode fazer sentido ao lado de Ramos em algumas fases. João Félix também pode jogar aí, privilegiando os apoios frontais, mas Martínez, ainda que não se tenha apercebido, precisa dele para o que lhe falta atrás, nas entrelinhas. Não percebê-lo é grave.
Portugal irá qualificar-se, ainda mais neste cenário em que se apuram terceiros classificados. Não acontecer seria o maior escândalo da nossa história. É provável que melhore também — não na perspetiva de Cristiano, mas na do resto do ataque — quando aparecer o espaço que as melhores equipas libertam porque arriscam mais. No entanto, aumenta a dependência da transição ofensiva.

P.S. Nesta altura parece já ser um segredo mal guardado e não deixa de ser preocupante. Este triângulo que se vai inverter para tudo ficar na mesma, de Jorge Jesus no lugar de Roberto Martínez na Seleção e de Martínez no lugar de Jesus no Al Nassr, está mais uma vez à medida de Ronaldo. E da Federação, pelos milhões que recebe em patrocínios. O futebol ficará uma vez mais em segundo plano?"

Os americanos querem que a malta se constipe, só pode!


"PALM BEACH GARDENS — Viver um Mundial de futebol nos Estados Unidos é uma constante lição de sobrevivência que vai muito além das táticas de Roberto Martínez ou da condição física dos jogadores. A verdadeira batalha, aquela que ameaça dizimar as equipas de reportagem portuguesas antes mesmo de a fase de grupos terminar, não se joga nos relvados escaldantes do Texas ou da Florida. Joga-se, sim, no interior de cada edifício, táxi ou centro de imprensa que ousamos pisar. A conclusão é inevitável e unânime entre os camaradas de luta: os americanos querem que a malta se constipe, só pode!
É perfeitamente compreensível que, perante o bafo sufocante e a humidade extrema que encontramos em Houston ou em Palm Beach, as mentes locais procurem o conforto do fresco. O problema é que a engenharia térmica deste país não conhece o conceito de meio-termo. Onde quer que se entre, os ares condicionados estão invariavelmente programados para temperaturas siberianas, capazes de conservar criogenicamente um mamute. Passar da rua para o interior de um pavilhão é o equivalente a uma viagem relâmpago do deserto do Saara para o coração da Antártida em menos de dois segundos.
A certa altura, a rotina dos jornalistas portugueses transformou-se num bizarro desfile de moda de inverno. Tornou-se perfeitamente normal ver companheiros de redação a vestir casacos dentro das salas de trabalho, enquanto lá fora o asfalto derrete. O guarda-roupa tornou-se um jogo de paciência: veste o casaco lá dentro para não congelar, despe o casaco mal se cruza a porta giratória para não desfalecer com os quarenta graus à sombra.
Nesta Route 66 de contrastes absurdos, as farmácias locais já faturam com a nossa comitiva. Entre um drible de Cristiano Ronaldo e uma bifana no Texas, a verdadeira vitória passa por chegar ao fim do dia sem uma contratura muscular ou uma valente gripe. Alguém que avise os americanos que o bom senso também se treina."