O INDEFECTÍVEL
Pelo Benfica! Sempre!
Últimas indefectivações
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Comunicado
"O Sport Lisboa e Benfica informa que, no âmbito dos direitos e deveres que lhe são conferidos pelos Estatutos, reuniu esta manhã, presencialmente, no Estádio da Luz, com o grupo de investidores norte-americanos que pretende adquirir uma posição acionista na Benfica SAD.
No decurso dessa reunião, o Sport Lisboa e Benfica solicitou diversas informações adicionais, designadamente sobre aspetos potencialmente concorrenciais e estratégicos, encontrando-se agora esses elementos em fase de análise e avaliação jurídica.
O Sport Lisboa e Benfica fará valer todos os direitos que lhe assistem, em defesa dos superiores interesses do Clube, reservando para breve uma decisão definitiva sobre esta matéria."
A infame saída de jogo do Paris Saint-Germain
"Há qualquer coisa nos últimos 15 anos do PSG que parece alguém a jogar CM, mas a fazer batota: “E agora vou comprar o Messi e o Neymar e vou experimentar pôr o Cristiano Ronaldo na baliza para ver se consigo ganhar na mesma…” O PSG não tem uma história para contar. Em 2011 foi adquirido pelo fundo catari, sob a gestão de Nasser Al-Khelaïfi, e passou a juntar aquela confusão entre Estados e futebol. Hoje é um novo-rico entre novos-ricos
Lembram-se dos Pontos Negros? Pois deviam. Estão a ver os Strokes? Pois os Pontos Negros vieram de Queluz, com teclas em vez de baixo e dois vocalistas a dividir canções. O Jónatas, que é portista, está neste momento ocupado a celebrar a conquista do campeonato; o Lipe, que é cá dos nossos, está, como dizer?, mais disponível para os grandes problemas do espírito.
Diz-me o Lipe que há um problema com o Paris Saint-Germain. Eu respondo-lhe que há vários. Mas o Filipe concentra-se num em particular: o PSG sai a jogar do meio-campo com um pontapé para a frente, na direcção da linha lateral. Perante tão miserável saída, o Lipe vê logo a abominação. Compara-a às variantes americanas de bola oblonga. E tem razão. Há ali qualquer coisa de anti-futebol. Há ali um pecado contra a bola redonda.
Certamente haverá uma explicação táctica. Há sempre. A bola comprida serve para apanhar o adversário desprevenido, dirão; para empurrar o jogo para uma zona favorável, instalar pressão no meio-campo contrário, acrescentarão. Tudo muito inteligente, tudo muito laboratorial, tudo muito Championship Manager.
É que há qualquer coisa nos últimos quinze anos do PSG que parece alguém a jogar CM, mas a fazer batota: “E agora vou comprar o Messi e o Neymar e vou experimentar pôr o Cristiano Ronaldo na baliza para ver se consigo ganhar na mesma…”; “Por mais dois milhões de tokens, ganhe acesso ao jogador Maradolé, misto de Maradona e Pelé.” O pontapé para a frente vem daí. Vem dos truques que um miúdo descobre quando passa demasiado tempo fechado num quarto a brincar aos deuses.
O futebol é uma arte narrativa. Começa no instante em que a bola é entregue a outro homem, como quem acrescenta uma frase a uma história mais vasta: atravessa obstáculos, encontra desvios, procura sentido. É uma pequena epopeia sobre um campo relvado, com vinte e dois homens a fingirem que procuram apenas um golo, quando, na verdade, procuram uma justificação para estarem vivos naquela tarde. Uma equipa que, em vez de sair a jogar, se limita a despachar deliberadamente a bola para fora do campo, procurando jardas, trai qualquer coisa de essencial num desporto que pertence à ordem da ligação.
Não admira que o Lipe sinalize o problema. O Lipe é dos Pontos Negros e sabe que a narração dá sentido ao tempo. Transforma acontecimentos dispersos numa forma. Já ouviram os Pontos Negros? Os Pontos Negros contam histórias. Uma das suas canções chama-se “Conto de Fadas de Sintra a Lisboa”, e é, literalmente, um conto de fadas de Sintra a Lisboa. Aquilo diz-nos: isto vem de algum lado, percorreu um caminho, carrega uma memória, aponta para um fim.
O PSG, pelo contrário, não tem uma história para contar. Produz. E quem produz não precisa de origem nem de destino. Precisa de eficácia e rendimento. O PSG não nasce de uma comunidade, nem de uma lenta sedimentação simbólica. É optimizado, enfim, para ocupar um lugar que antes não existia organicamente. Não tem infância.
Quando se fala do PSG, é nestes termos que se deve falar. O clube começa em 1970. Não é propriamente uma fundação; é uma data de fabrico. É como se fosse a versão europeia de um clube da NASL, tipo o Cosmos, para onde as estrelas iam morrer.
Apesar de artificial, a ideia não era descabida: Paris seria talvez a única capital europeia sem um grande clube à altura. Mas só nos anos 80 ganharia o primeiro campeonato. E até 2011, a sua grande figura era o Pauleta. Nada contra o Pauleta. É bom homem, mas é também o Pauleta.
Quando, nesse ano, o PSG é adquirido pelo fundo qatari, sob a gestão de Nasser Al-Khelaïfi, passa a juntar aquela coisa assassina da confusão entre Estados e futebol. É o que aconteceu ao City, o clube mais fixe de Inglaterra. Podemos todos fingir que não estamos a ver. Mas estamos.
O novo PSG consegue juntar aquela vulgaridade do excesso de dinheiro do Real Madrid — um clube que sempre foi grande à conta do dinheiro que tinha e tem — a uma quase total ausência de mitologia. No Real Madrid, a história ajuda a disfarçar. No PSG, nem isso. É um novo-rico entre novos-ricos. Como aqueles empresários de primeira geração que se passeiam de chinelos a dizer Gucci em letras garrafais, sem se aperceberem de que, apesar de tudo, o problema maior não é a marca dos chinelos. São os chinelos.
O Dembélé, o Vitinha, o Nuno Mendes e o João Neves mereciam todos jogar num clube com alma. Mereciam que cada passe encontrasse uma parede antiga, um fantasma de uma derrota, a estátua de uma lenda. No PSG, por melhores que sejam, parecem nomes gravados a ouro no tal par de chinelos.
Haveria uma justiça secreta se, na final da Taça dos Campeões, contra o Arsenal, o PSG perdesse. Uma justiça ética, que é, a seguir à justiça divina, a única que devia haver. Sei que os Pontos estão comigo. Lembram-se dos Pontos Negros? Os tais que eram de Queluz? Pois deviam. Os Pontos percebem mais de futebol do que o Qatar e Paris juntos. Eles, de Sintra a Lisboa, sabiam de onde vinham e que história nos estavam a contar."
E ainda goza...
"«Se alguém comprar um bilhete para a final [do Mundial] por dois milhões de dólares [€1,7 M], levo-lhe pessoalmente um cachorro e uma cola para me certificar de que passa um excelente momento.»
Gianni Infantino, presidente da FIFA
Faltam 35 dias para o início do Mundial 2026 e tudo se conjuga para uma fase final caótica, entre as dúvidas em relação à participação do Irão, as preocupações com segurança no México, os avisos de tempestade que levam à interrupção, antecipação ou adiamento de jogos nos EUA e os problemas em relação a vistos para os adeptos que queiram viajar para ver jogos. E os preços.
Sim, os preços, inflacionados em tudo, desde os mais de 100 euros para ir do centro da cidade a alguns estádios, aos mais de 300 para estacionar a quilómetro e meio de outros, desde os dos hotéis... aos bilhetes.
Não bastou a política flexível de bilheteira, que fazia com que os valores dos ingressos variassem consoante a procura, agora, no mercado secundário, legal nos Estados Unidos, começam a aparecer bilhetes por valores absurdos, como quatro ingressos para a final por 8 milhões de euros.
É verdade o que Infantino disse numa conferência em Beverly Hills, na Califórnia — o facto de alguém pedir esse dinheiro não quer dizer que seja esse o valor deles. Os bilhetes custam, na verdade, o que derem por eles.
Mas em vez de mostrar empatia com o facto de tantos adeptos do futebol, habituados a seguir as suas seleções para todo o lado, não terem dinheiro para ir aos EUA, o presidente da FIFA ainda goza, oferecendo-se para levar pessoalmente um cachorro e um refrigerante a quem pague esse valor. É preciso ter lata, e não é de cola..."
Os milagres que não acontecem
"O desporto continua a ser um dos poucos palcos sociais que ainda premeia quem mais faz por merecer a felicidade. O talento vence pouco talento, mas talento sem trabalho tem mais dificuldade em superar trabalho com talento. E quando se defrontam equipas muito talentosas, percebemos que só o trabalho sustenta o sucesso. Estruturas e culturas pouco robustas raramente atingem resultados exigentes e ambiciosos. Cesc Fàbregas, treinador do Como 1907, disse este fim de semana algo relevante sobre estes milagres e a entrega dos seus jogadores: «Se o Bola de Ouro [Dembélé, do PSG] pode pressionar a campo inteiro, todos o podem fazer.»
Os campeonatos aproximam-se do fim e existe o hábito de recorrer às palavras sorte ou azar nestes contextos de decisão, mas em competições prolongadas, entre equipas com armas semelhantes, por norma vence quem mais fez para vencer e, goste-se ou não, a maioria das classificações finais reflete aquilo que cada um fez ao longo da época.
Fica cada vez mais difícil compreender como alguns clubes ainda acreditam que a mudança de treinador a uma ou duas jornadas do fim possa provocar milagres. Salvo situações excecionais em que o próprio treinador peça para sair, estas decisões têm uma probabilidade muito baixa de sucesso. Normalmente assentam na ideia de que o clube fez quase tudo bem, exceto, e esse exceto é fulcral, a escolha do treinador. Ignora-se quando dá jeito que o recrutamento e despedimento são processos que refletem valores, rotinas, virtudes e defeitos da organização.
Estas substituições são ações de desespero, compreensíveis, mas revelam também que, época após época, muitos dirigentes não aprendem. Olhar para despedimentos na última curva remete-nos para outro processo: a escolha inicial do treinador. Todos podem errar, mas a repetição do erro e o momento em que a decisão é tomada revelam a maturidade do clube e de quem decide.
Um presidente avalia a equipa com ferramentas diferentes de um CEO ou de um diretor desportivo. O que se exige é capacidade de analisar o processo de forma abrangente, não apenas com uma visão que defende um ponto de vista, mas com informação proveniente de vários ângulos e com o máximo de informação e de detalhes.
Detalhes esses que têm muito impacto nos jogos, mas também na construção de cultura organizacional, no recrutamento, no suporte à liderança, na estrutura e no alinhamento entre áreas são igualmente determinantes. Sabemos que o desporto coletivo não é uma folha de Excel onde o orçamento define a classificação final, ainda assim, quando uma equipa que investe mais no plantel, na estrutura e em tudo o que a rodeia fica sistematicamente atrás de outras com menos recursos, mesmo com vários treinadores, não deveria ser difícil identificar onde está o problema.
Aproxima-se mais um fim de semana com decisões importantes. E, independentemente da ideia de que podem acontecer milagres, quando eles surgem significam, acima de tudo, que houve trabalho consistente, estruturado e de qualidade, muitas vezes invisível."
Japão: Nakata pintava o cabelo para dar nas vistas, fartou-se do futebol e foi vender saké
"Apanhou todos de surpresa, em 2006, quando anunciou a retirada aos 29 anos após o Japão ser eliminado do Mundial. Grande figura do futebol do Japão, ele próprio uma grande figura, Hidetoshi Nakata não via futebol, não lia jornais, quando chegou à Serie A nem conhecia as equipas e não dava entrevistas: preferia escrever coisas no seu site, isto antes da virada do milénio
Na Dortmund amarela, dentro do Westfalenstadion que precipita sobre o campo a maior bancada sem lugares sentados da Europa, mas quando o único de amarelo era o da canarinha, um homem escondia o pranto. Deitado de costas na relva, os joelhos fletidos, os braços atirados para trás da cabeça, Hidetoshi Nakata tapava a cara com a camisola suada por um brasileiro. O Japão acabara de perder, andor para fora do Mundial e o seu melhor jogador parecia desconsolado. Seria a derrota a arcar com a culpa, a não ser que ele soubesse algo.
Já o sabia há uns meses: era a sua última vez num campo de futebol. Tinha 29 anos.
À vista desarmada o desalento era óbvio, com óculos de ler nem por isso. Quase duas décadas volvidas, saído da obscuridade, Nakata tirou pó à bobina. Contou numa rara entrevista que o amor pelo jogo sumira, esvaziara-se o depósito do único japonês a participar nos 10 encontros que o país fizera até 2006 em Mundiais, logo um que nem gostava do meio onde estava. “Joguei sempre pela paixão. Não era fã de futebol, gostava de jogar futebol. Essa é a razão por que saí, perdi a paixão”, revelou à “The Athletic”, em 2025, já fumado o seu cachimbo da paz com a modalidade.
Assíduo frequentador de semanas da moda em capitais europeias, as fotografias mais atuais mostram-no trajado pela Louis Vitton ou seus pares da alta costura. Uma calça como se pintalgada por Jackson Pollock ou um sobretudo de gola larga que nem asa de avião; a gravata por baixo da camisa, sustida na pele do pescoço, com a perna cruzada à beira de uma passerelle para desvendar o tornozelo sem meia. Nakata faz-se hoje vistoso para dar nas vistas no meio onde as aparências predominam.
Sempre o fez, aliás. Nascido na prefeitura de Yamanashi, não longe do Monte Fuji, ainda jogava no Shonan Bellmare durante os primórdios da J-League, em 1998, quando o país se estreou em Mundiais. Desejoso por jogar na Europa, bastava-lhe impressionar com os pés, mostrar como domesticava a bola, mas quis reforçar a intenção ao pintar o cabelo todos os dias. “Era importante ser conhecido no mundo”, disse, ao reforçar que levou o hábito ao torneio porque “esperava ser reconhecido”.
Se era essa a ânsia, Nakata podia ter optado pelo beisebol, íman da loucura desportiva dos japoneses, mas deixou-se encantar pelo Capitão Tsubasa - “Oliver e Benji” em Portugal -, série mangá onde o campo de futebol era quilométrico e os personagens demoravam um episódio inteiro a ir de uma baliza à outra. Decidiu-se pelo futebol e, em 1998, o Perugia pagou €4 milhões pelo jogador, de certa forma, também ele um personagem.
Não via futebol, nem queria saber
Aos 21 anos, Nakata não via futebol, nem jornais lia. Desconhecia mais de metade das equipas da Serie A, então ainda o campeonato que mais nivelava por cima o futebol europeu. “Só queria jogar futebol.” O japonês sabia quem eram Zinedine Zidane ou Alessandro Del Piero, mas pouco mais. Mesmo assim, finda a primeira época, a France Football listou-o entre os candidatos à Bola de Ouro. Ficaria ano e meio no maior clube da região da Úmbria até se mudar para a capital, onde se pintou de giallorosso para a eternidade: conquistou o scudetto, em 2001, com a AS Roma, partilhando louros com Francesco Totti, Aldair, Gabriel Batistuta e Cafú.
Quando vai à cidade ainda lhe agradecem apesar do estatuto de suplente, pouco Nakata podia contra o ídolo que tem murais pintados paredes-meias com ruínas romanas. Durou 18 meses no Olímpico, vendido ao Parma por mais de €28 milhões ao Parma e amealhando 10 milhões de visitas no seu site oficial no dia em que a mudança virou oficial. Em tempos pré-históricos das redes sociais, o japonês já pensava adiante. “Nesse tempo, poucas celebridades, futebolitas ou empresas tinham um. Os media controlavam tudo. Queria ter a minha própria voz”, enquadrou ao “The Athletic”, numa entrevistas das que raramente dava enquanto jogava. Na virada do milénio, o hype em torno de Nakata era real.
Estavam cinco mil japoneses no estádio do Perugia quando se estreou pelo clube, uma falange impressionante que o jogador extravasou com o tempo. Na explosão da internet, Nakata criou a sua aura, alimentando a persona com o penteado descolorado, a roupa alinhada com as modas e a sua cara empolada por marcas como a Nike, a Mastercard ou a Canon. Chegado o Mundial de 2002 com deveres de anfitrião repartidos por Japão e Coreia do Sul, era ele a cara do futebol no seu país. A histeria com a ida aos oitavos de final fez companhia à que o jogador motivava.
Ainda jogaria no Bologna e na Fiorentina antes de acabar no Bolton Wanderers de Sam Allardyce, amordaçado pela rigidez do 4-4-2 e da dureza do futebol inglês. Nakata estranhou o frio, sentiu falta da comida italiana, murchou no cinzentismo inglês. O desencanto com o futebol atingira o pico. “Gosto de elegância e sou assim na vida, não só no futebol. Gosto de coisas bonitas, roupa, arquitetura, design, vistas“, admitiu. Arrumado o seu copioso choro em Dortmund, ao adeus no Mundial de 2006 fez seguir três anos quase contínuos a viajar pelo mundo.
Diz ter visitado mais de 100 países e vê-lo associado a futebol é miragem. Apaparicado pela moda, veste-se caro enquanto faz negócio de uma costela do seu Japão, dedicando-se à venda de saké, a típica bebida alcoólica de arroz fermentado, além de uma marca de chá criada pelo próprio. O seu site mantém-se na internet, vivo e em força, e a mensagem que pretende passar fica clara na sua biografia. Em nove linha, só a primeira descreve sem grande afinco quem ele foi. “Antigo membro da seleção nacional do Japão“, lê-se. E nada mais."
quinta-feira, 7 de maio de 2026
À rasquinha...
(Viti, Rodrigues)
Vitória nos penalty's, contra um adversário bastante mais fraco, em mais um jogo a eliminar, onde o Benfica voltou a abanar! Fomos superiores durante grande parte do jogo, mas não concretizámos e inclusive voltámos a desperdiçar as bolas paradas!!!
Até nos penalty's estivemos em desvantagem!
Temos que jogar muito melhor no Sábado!
Fim de época, previsível...
Juniores - 10.ª jornada - Fase Final
Jogo em atraso, com uma vitória curta, que devia ter terminado com uma goleada, tantos foram os golos desperdiçados...
Se não sabem gerir calendários, liguem para Inglaterra ou... Façam algo, por favor!
"O anúncio tardio da 33.ª e penúltima jornada é o culminar de uma época de caos logístico. Entre 'feiras' e jogos em pausas de seleções, a Liga 'esqueceu-se' de ser... profissional
Ontem, segunda-feira, dia 5 de maio, a Liga dignou-se, finalmente, a anunciar os horários da 33.ª jornada. O facto de estarmos a meros cinco dias do início da penúltima ronda do campeonato — na qual tanto se decide, da Europa às descidas — e só agora sabermos o calendário oficial é um atestado de incompetência que asfixia a nossa indústria. Esta opacidade logística não é apenas um incómodo; é um desrespeito gritante por quem faz o espetáculo.
Numa época marcada pela renovação das estruturas da Liga, com novas caras e promessas de modernidade, o que vimos foi um retrocesso organizacional sem precedentes. O futebol moderno vive de microciclos de trabalho. Cada hora de treino, cada período de recuperação e cada detalhe nutricional é planeado ao milímetro. Como se pode pedir excelência a treinadores e atletas quando estes vivem na incerteza até à última hora?
O historial desta temporada é um manual de sobrevivência ao caos. Recordamos com amargura o episódio de Arouca, onde o calendário ignorou uma Feira das Colheitas previsível há décadas, obrigando o FC Porto e o clube local a um braço de ferro vergonhoso. Assistimos à revolta legítima do Estoril, forçado a jogar desfalcado em plena pausa de seleções porque «não havia datas». Vimos o Nacional da Madeira ameaçar a falta de comparência por impossibilidades logísticas que a Liga, no seu castelo de vidro, decidiu ignorar.
Se a desculpa é a complexidade das competições europeias ou os direitos televisivos, olhemos para o lado. Na Premier League, o rigor é lei. Em junho, o adepto sabe quem joga com quem; e, com meses de antecedência (normalmente, seis a oito semanas), sabe o minuto exato do pontapé de saída de cada duelo. Lá, entende-se que o futebol é um produto que exige respeito. Aqui, tratamos o calendário como um post-it que se cola e descola ao sabor de conveniências.
A nova estrutura da Liga prometeu profissionalismo, mas entregou amadorismo disfarçado de burocracia. Se a gestão de 34 jornadas ultrapassa a capacidade analítica dos nossos órgãos decisores, o conselho é simples: liguem para Inglaterra. Estudem os modelos que funcionam. Respeitem os microciclos, a logística, os adeptos que viajam e a integridade da competição.
O futebol português não pode continuar a ser gerido com a antecedência de uma marcação de jantar entre amigos. Façam algo, por favor!"
As boas intenções na criação do VAR já estão a arder no inferno
"Ao contrário da expectativa inicial, videoárbitro não eliminou o erro com influência no resultado do jogo, muito menos a controvérsia na análise de muitos dos lances.
O VAR acabou por revelar-se tóxico e os adeptos detestam. A sua introdução, transformou o árbitro na figura central na transmissão de um jogo de futebol.
Ao contrário da expectativa inicial, não eliminou o erro com influência no resultado do jogo, muito menos a controvérsia na análise de muitos dos lances. Retirou até alguma condescendência ao erro e condicionou a explosão de alegria dos adeptos na celebração de um golo — pode ser revertido.
Eliminar o VAR não é a solução. O equilíbrio deverá ser atingido aumentando as decisões tomadas pela tecnologia (linha de golo e fora de jogo). Analisando o nível médio dos jogadores, treinadores e árbitros portugueses, a diferença do nível médio entre os melhores de cada classe é evidente.
Além da barreira cultural ( é precisa coragem para se ser árbitro, o que limita muito o universo de recrutamento), a diferença na exigência do treino na formação e a elevada taxa de abandono no percurso, faz com que apenas tendo uma enorme quantidade na base da pirâmide se conseguirá ter um conjunto alargado de árbitros de qualidade nas competições profissionais.
Mas se a questão do VAR e do nível médio dos árbitros das competições profissionais não se resolve em pouco tempo, a APAF deixar de querer que a classe que representa seja a única que não pode ser criticada numa democracia liberal da União Europeia já é algo que não se pode aceitar e que é urgente. E se uma classe, corporativista, o tenta fazer, compete a quem faz o regulamento disciplinar não permitir essa exceção.
Alguém imaginaria multar um treinador por criticar um seu jogador? E tentar amordaçar essa crítica, só a amplifica. Faz o assunto continuar vivo durante a semana, quando outros já o teriam submergido naturalmente. Querer multar agentes desportivos que criticam árbitros é querer parar o vento com as mãos — em 2026, a crítica já não se circunscreve aos colegas de trabalho e familiares — há dezenas de programas de televisão diários que competem ferozmente por audiências e precisam de polémicas, porque notícias há poucas.
De um grande, a regra é que um treinador só sai vendido ou despedido
Entre um presidente e um treinador a tensão é permanente. Contribuem decisivamente para a estabilidade da relação os resultados, a solidariedade, a lealdade do treinador e um pequeno círculo de pessoas que estão à volta dos dois, filtrando desabafos e ajudando a esbater diferenças de opinião.
É por isso rara a situação em que um treinador de um grande chegue ao fim do contrato. Jorge Jesus (2009-2015, no Benfica) e Vítor Pereira (2013 no FC Porto) foram exceções. O futebol moderno é complexo — quando cada época começa, as receitas correntes são muito inferiores às despesas correntes. Só se equilibra o saldo com vendas de jogadores. Para essas vendas se realizarem, é preciso ter bons jovens jogadores — e que joguem. E que a equipa também esteja bem. A sintonia entre a administração e a equipa técnica é decisiva.
André Villas-Boas renovou contrato com Farioli num momento decisivo da época, e em que a vitória no campeonato não era uma certeza. Ganhou, pelo que todos reconhecem o acerto da decisão. Se Farioli fosse despedido daqui a um ano e meio, iria dizer-se que a renovação tinha sido um erro? O FC Porto ganhou o campeonato na 1.ª volta e na 2.ª não o perdeu.
Farioli não foi campeão no Ajax, mas fez 78 pontos. Na época anterior, o Ajax tinha feito 56, e a duas jornadas do fim esta época tem 55 — pode fazer 61, no máximo. Rui Borges, por exemplo, foi o treinador que mais contribuiu para a subida de Portugal no ranking da UEFA, com o Vitória de Guimarães em 2024/2025 e o Sporting em 2025/2026.
Nas próximas três semanas, vai ter dois jogos da Liga e a final da Taça com o Torreense, que é uma excelente equipa— vai ser um jogo muito difícil de preparar e de ganhar. Nos últimos 15 anos, o Sporting perdeu duas finais que pareciam ganhas antes do jogo: Académica e Aves. E começou o século XXI a ganhar uma final ao Leixões, que jogava no 3.º escalão, apenas por 1-0.
O Torreense vai ser um adversário muito perigoso e mentalizar os jogadores do Sporting da dificuldade do jogo vai ser difícil de conseguir — uns a pensar no Mundial e todos a pensar nas férias. E os adeptos no Jamor a contar com um jogo fácil.Em um ano e meio, Rui Borges conseguir ser campeão nacional, ganhar duas Taças de Portugal e ter chegado aos quartos de final de uma UEFA Champions League será um desempenho excecional.
A disponibilidade da ministra Margarida Balseiro Lopes
A ministra Margarida Balseiro Lopes, nas negociações do orçamento de Estado, conseguiu um valor recorde para o desporto em 2026, aproximadamente 70 milhões de euros. É igual ao da SAD do SC Braga em 2024/25, mas muito inferior ao que será o de 2025/26, com a inclusão dos €32 M da venda de Roger e da receita obtida com a brilhante prestação europeia.
A passagem do Desporto do ministério da Educação para o da Cultura, permite que a disponibilidade e atenção do ministro seja muito maior. Perto de metade do orçamento da Cultura, destina-se à RTP, que é tutelada por outro ministro, António Leitão Amaro. O financiamento da RTP é assegurado através das verbas obtidas com a taxa de contribuição audiovisual, que é paga na conta da luz, mesmo por quem não tem televisão. Sobre esta taxa, de 2,85 euros mês, ainda incide 6% de IVA! Isso mesmo, à taxa acresce IVA. Desde 2016 que a estratégia tem sido deixar que o tempo resolva (não se atualiza o valor da inflação) — o valor já foi reduzido 23% em termos reais.
Se é certo que nenhuma destas habilidades foi perpetrada por este Governo, também não surpreende que não as resolva e que continue tudo na mesma. A disponibilidade da ministra para os temas do Desporto não pode ser desperdiçada."
Alinhamentos...
O Rui Costa é um líder fraco? Sem dúvida. Tem resultados sofríveis como Presidente? Sem dúvida. Falta-lhe pulso e gente de qualidade à volta, em especial nos vice-presidentes? Sem dúvida.
— ShadowsNGB (@ShadowsNGB) May 6, 2026
Estou à vontade porque nunca louvei o Rui Costa dirigente, só reconhecendo a jogada de…
Critérios...
Arbitro falha contra o Sporting. Semana inteira de lamentações e até investigações aos árbitros se pediram. Arbitro falha contra o Benfica. O Otamendi é que se meteu a jeito.
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) May 6, 2026
Cambada de hipocritas.
O maior jogo de Portugal em 2030 não se joga no relvado
"Em 2030, Portugal vai jogar um dos jogos mais importantes da sua história recente. E talvez nem se dispute dentro das quatro linhas.
O Campeonato do Mundo que vamos coorganizar com Espanha e Marrocos, o primeiro Mundial transcontinental da história, representa muito mais do que futebol, estádios cheios e noites de celebração. Representa uma oportunidade rara de afirmação e projeção internacional, num tempo em que a reputação dos países se constrói tanto pela narrativa como pelos resultados. Durante algumas semanas, os olhos do mundo estarão sobre Portugal. Mas o essencial não está apenas no que acontece durante os 90 minutos de cada jogo. Está naquilo que se passa antes e fica depois da competição desportiva.
O futebol tornou-se uma das formas mais eficazes de projeção internacional. Os megaeventos desportivos deixaram de ser apenas competição para passarem a ser vitrinas globais de modernidade, capacidade organizativa, hospitalidade, segurança e visão estratégica. É aqui que ganha força o conceito de soft power, desenvolvido pelo politólogo norte-americano Joseph Nye: a capacidade de um país influenciar os outros pela atração, pela confiança e pela legitimidade, e não pela força. A Alemanha percebeu-o em 2006, ao usar o Mundial para projetar uma imagem de abertura e hospitalidade; a África do Sul fê-lo em 2010, ao afirmar-se como nação moderna e capaz de acolher o Mundo; o Brasil reforçou-o em 2014 através da projeção global da sua cultura e diversidade; a Rússia, em 2018, procurou reposicionar a sua imagem externa; e o Qatar, em 2022, mostrou como um megaevento pode simultaneamente ampliar visibilidade e influência, mas também expor tensões reputacionais ligadas à sustentabilidade e aos direitos humanos.
Em 2030, Portugal terá essa mesma oportunidade e essa mesma responsabilidade perante uma audiência global sem precedentes. Mais do que receber jogos, receberá um teste à sua capacidade de transformar exposição internacional em prestígio e confiança duradouros. Um Mundial bem organizado pode fazer mais pela perceção internacional de um país do que anos de campanhas promocionais ou diplomacia tradicional. Pode alterar a forma como milhões de pessoas olham para um destino, reforçar a sua notoriedade e criar uma ligação emocional entre públicos globais e um território.
A capacidade de acolhimento, a segurança, a qualidade urbana, a gastronomia, a paisagem, a cultura e a própria relação do país com o futebol oferecem uma base excecional para consolidar a marca Portugal no mundo. Mas esse acolhimento não se resume às infraestruturas ou à logística. Mede-se também na forma como os residentes recebem quem nos visita, no orgulho com que mostram a sua cidade e no sentimento de pertença a um momento histórico.
É por isso que este impacto não se mede apenas na forma como o mundo nos vê. Mede-se também na forma como os portugueses vivem o país depois de 2030 e na perceção que têm dos benefícios de acolher o evento. Se os residentes sentirem melhorias reais nas acessibilidades, nos serviços, na requalificação urbana, nas oportunidades económicas, na valorização dos territórios e na autoestima coletiva, tornam-se os primeiros embaixadores do sucesso do Mundial.
Quando um megaevento é bem pensado, o legado não termina no apito final, permanece nas cidades, nos serviços, nos espaços públicos e na memória positiva de quem lá vive. Permanece também na forma como um país aprende a organizar-se melhor e a promover a cooperação entre instituições e nações.
O sucesso de 2030 dependerá da capacidade de transformar o Campeonato do Mundo de Futebol num verdadeiro projeto nacional, onde Federação Portuguesa de Futebol, clubes, Liga Portugal, autarquias, setor do turismo, empresas, comunidades locais e cidadãos estejam alinhados em torno de uma visão comum. Esse alinhamento coletivo terá reflexos diretos no próprio ecossistema do futebol português. O Mundial pode acelerar investimento em academias, centros de treino, inovação tecnológica, qualificação de recursos humanos, profissionalização da gestão e valorização internacional dos clubes e das competições nacionais. O legado não deve ficar apenas nos estádios que recebem jogos, mas irradiar para a formação, para o futebol feminino, para os escalões jovens e para os territórios que vivem o jogo longe dos grandes centros. Porque estará em jogo a forma como Portugal se apresenta ao Mundo e melhora a vida dos seus residentes.
Mas há uma nuance essencial: a visibilidade não se transforma sozinha em reputação duradoura. A atenção mediática é apenas o início. O verdadeiro impacto depende da forma como essa atenção é convertida em experiência, narrativa, legado e memória coletiva. Cada transmissão televisiva, cada imagem partilhada por adeptos, cada reportagem internacional sobre a experiência de estar em Portugal e cada comentário positivo sobre mobilidade, organização ou ambiente urbano contribuem para uma construção simbólica que vai muito além do torneio.
O maior legado pode surgir depois do apito final: mais desejo de visita, maior reconhecimento internacional, reforço da confiança externa e uma imagem ainda mais sólida de Portugal enquanto destino turístico e país moderno, aberto e confiável. Num contexto internacional competitivo, essa vantagem pode ter efeitos muito concretos e prolongados.
Há, porém, uma condição que hoje decide a credibilidade de qualquer megaevento: a sustentabilidade. O mundo já não avalia estes acontecimentos apenas pelo espetáculo. Avalia o impacto nas comunidades, a utilidade futura das infraestruturas, a responsabilidade ambiental, a gestão dos recursos públicos e a coerência entre discurso e prática.
Em 2030, Portugal não será apenas observado como organizador. Será avaliado como modelo. E essa avaliação dependerá também da coerência entre ambição internacional e benefícios reais para as populações. A singularidade desta edição aumenta ainda mais a exigência. Portugal dividirá a narrativa global com Espanha e Marrocos, dois países com identidades, posicionamentos turísticos e enquadramentos institucionais distintos. Essa complexidade faz do Mundial 2030 um exercício raro, mas também uma oportunidade única para Portugal afirmar a sua própria narrativa dentro desta coorganização transcontinental. Ser anfitrião é um facto; transformar essa condição em valor estratégico é outra coisa.
Quando faltam apenas quatro anos, a pergunta mais importante não é «vamos ganhar o Mundial?». A verdadeira questão é se Portugal está, já hoje, a fazer tudo o que é necessário para transformar esta oportunidade histórica numa vantagem real, coletiva e duradoura.
É aqui que se decide a diferença entre evento e transformação. O Mundial de 2030 pode ser o palco onde Portugal confirma a sua maturidade institucional, a qualidade dos seus territórios, a força da sua hospitalidade e a capacidade de alinhar desporto, turismo, sustentabilidade e visão estratégica numa mesma narrativa de país. Num tempo em que a reputação se constrói na experiência vivida, cada detalhe contará: mobilidade, segurança, ambiente urbano, eficiência organizativa e legado útil às comunidades. No fundo, o maior troféu que Portugal pode conquistar em 2030 talvez não seja apenas uma taça, mas uma posição reforçada no mapa mental e emocional do mundo."
Tomas Rosický, o Mozart checo
"Tomas Rosický foi um daqueles futebolistas raros que pareciam jogar com o tempo a um ritmo diferente. Médio elegante, de toque refinado e com uma visão de jogo privilegiada, fez da inteligência em campo a maior arma.
Formado no Sparta de Praga, cedo se percebeu que havia ali algo especial. Ainda muito jovem, já comandava o meio-campo com uma maturidade invulgar, sendo peça-chave na conquista de títulos nacionais. O salto para o Borussia Dortmund confirmou o talento à escala europeia. Na Alemanha, Rosický encantou os adeptos com a capacidade de condução, passes milimétricos, remates de meia distância e golos memoráveis, sendo um dos rostos do título da Bundesliga, em 2001-02.
A classe levou-o até ao Arsenal, onde viveu alguns dos momentos mais marcantes da carreira. Em Londres, sob a batuta de Arsène Wenger, tornou-se símbolo de um futebol fluido e técnico. Houve jogos em que parecia dançar com a bola, como aquele inesquecível golo em Anfield, onde deixou a sua marca com um remate perfeito por cima do guarda-redes.
Podem ver e rever o golo. Remate de primeira, parece fácil. O camisola 7 dos Gunners simplificava o futebol. No entanto, foi também em Inglaterra que o seu percurso ficou profundamente marcado pelas lesões.
Longas paragens, regressos adiados e a frustração constante de não poder estar em campo impediram-no de manter a consistência que o talento merecia. Ainda assim, cada regresso era recebido como um pequeno milagre. E Rosický fazia questão de retribuir com a mesma elegância de sempre, como se nunca tivesse estado ausente.
Pela seleção da Chéquia, foi igualmente uma referência. Capitão e líder, representou o país em Europeus e Mundiais, com o 10 nas costas, e sempre com a mesma entrega e criatividade que o caracterizavam. Era mais do que um jogador. Era o cérebro da equipa, o elo entre a disciplina tática e a inspiração.
No regresso ao Sparta de Praga, já na fase final da carreira, fechou o ciclo onde tudo tinha começado. Não com a explosão física de outrora, mas com a mesma paixão pelo jogo. E até aí Rosický é diferenciado. Prometeu que voltaria a jogar pelo seu clube e cumpriu.
O futebolista checo esteve 18 meses afastado dos relvados após lesões sistemáticas. Ainda assim, a sua frase de despedida, após mais de 600 jogos como profissional, diz tudo:
«Apesar de todos os obstáculos, a minha carreira foi muito bonita. Vivi momentos magníficos, mas também vivi outros muito negativos. Acima de tudo, sou alguém que ama profundamente o futebol e que nunca joguei pela glória ou pelo dinheiro.»
Este futebolista deu-nos magia, precisão e definição. E escreveu mais um belo poema sobre superação."
Escócia: John Thomson, o “príncipe dos guarda-redes” com um destino fatal
"Trabalhou em minas de carvão enquanto adolescente, foi contratado pelo Celtic por 10 libras, muitos opinam que foi o melhor guardião que defendeu as redes dos católicos. No entanto, a sua vida terminou aos 22 anos, na sequência de um choque com Sam English, jogador do Rangers. O multitudinário funeral uniu no luto adeptos dos dois gigantes de Glasgow.
John Thomson cresceu habituado à escuridão. Sabia o que era a claustrofobia do subsolo, a Terra pronta a esmagá-lo, a pouco natural vida a fingir ser uma toupeira.
Vindo ao mundo em 1909, John era de Cardenden, uma comunidade mineira, sítio de gente habituada à dureza que a própria luta pela subsistência implicava. Foi em Cardenden, perto do Mar do Norte, virada para Edimburgo, que se travou o último duelo até à morte registado em solo escocês. Seria em 1826, terminando com um banqueiro, George Moran, morto à custa das feridas de uma bala disparada por David Landela, um mercador.
Naquele local cinzento não havia muito tempo para não se ser adulto. Não ser adulto significava não trabalhar e não trabalhar significava uma despesa adicional. Com 14 anos, John foi para a mina de carvão onde o pai também trabalhava. O dever do adolescente acontecia a 300 metros de profundidade, tendo de desengatar os ganchos das correntes dos vagões que transportavam o carvão da mina para a superfície.
O ofício deu-lhe força nos braços. John não era alto (1,75 metros), a escassez associada ao quotidiano fizeram-no magro, mas o corpo ganhou, lá nas profundezas, calo para outro tipo de desafios.
Quando não estava na mina, Thomson era guarda-redes. A sua mãe, para quem o filho estar a trabalhar na indústria do carvão com 14 anos era algo tão natural como as leis que regem a natureza, não gostava que o rapaz jogasse futebol, muito menos na baliza. Era demasiado perigoso, alegava, preocupada. E premonitoriamente.
A perícia do guardião levou-o a ganhar fama em ligas regionais. Não obstante, seria quase por acaso que chegaria o salto que definiria a carreira de futebolista.
Willie Maley, lendário técnico do Celtic - orientou os católicos de Glasgow durante uns formidáveis 43 anos, entre 1897 e 1940, erguendo 30 títulos -, enviou um olheiro para assistir a um encontro do campeonato local onde John Thomson atuava. A intenção era ver um guarda-redes da equipa adversária, mas seria o talento do rapaz que trabalhava nas minas a fascinar o caça-talentos. Aos 17 anos, o adolescente trocou a vida debaixo da terra por um contrato com o Celtic, que pagou 10 libras ao Wellesley Juniors, modestíssimo emblema, pelo jovem.
Fama e morte
O mineiro feito futebolista rapidamente ganhou estatuto de titular em Glasgow. Na final da Taça de 1927, Thomson ergueria um de dois desses troféus a eliminar que obteria. Eram anos de domínio do Rangers, pentacampeão entre 1927 e 1931, somando a parte protestante da cidade mais um tricampeonato entre 1933 e 1935. Pelo meio o melhor da bola escocesa foi o Motherwell, erguendo um raríssimo título para um conjunto de fora de Glasgow, Edinburgo ou Aberdeen - só sucederia mais uma vez desde o começo do século XX até 2026, com o Kilmarnock em 1965.
A aparente pequena estampa física para defender as redes era compensada por elegância e reflexos. Willie Maley, o dono do banco do Celtic durante 43 anos, sublinhou a “capacidade única de defender os mais potentes remates com suavidade e graciosidade“, agindo sempre com “equilíbrio e beleza“; Desmond White, presidente do clube entre 1971 e 1985 que crescera com John como keeper, classificou-o como “o melhor guarda-redes“ da história dos verde e brancos, realçando a “elasticidade de bailarino“; a imprensa popularizou a alcunha “príncipe dos guarda-redes“ e os adversários várias vezes o aplaudiram, como os ingleses, em Londres, num encontro em 1930.
Já internacional escocês casaria, em 1930, com Margaret Finlay. Os dois planeavam abrir uma loja de vestuário em Glasgow. Nesse mesmo ano, uma espécie de aviso: um embate violento contra um avançado levou-o a perder dois dentes e fraturar o maxilar e várias costelas. A mãe repetiu o pedido dos tempos da adolescência: retira-te, filho.
Thomson continuo a jogar até setembro de 1931. Tinha 22 anos e aí disputaria o 188º e último encontro pelo Celtic. Naquela tarde, 80 mil pessoas deslocaram-se a Ibrox para o Rangers-Celtic. Os tempos eram de enorme agressividade entre os adeptos de ambos os clubes - o Rangers com a sua base protestante, o Celtic, fundado por um padre irlandês, ancorado na comunidade católica -, com violentos conflitos.
Ao começar a segunda parte, um lance fortuito, sem intenção, mancharia o dérbi. Sam English, do Rangers, correu para tentar chegar à bola. No movimento contrário, John Thomson, destemido, saiu aos pés do adversário, cujo joelho acabaria a chorar, com violência, contra a cabeça do guarda-redes.
Há crónicas de jornais que asseguram que, na bancada principal, o impacto gerou um instante de silêncio entre a multidão. No meio do mutismo, escutou-se um grito. Era Margaret Finlay, a mulher daquele jovem de 22 anos, ela própria com apenas 19.
Thomson foi levado de maca. A opinião generalizada, ainda assim, apontava apenas para um choque mais agressivo. No entanto, James Marshall, futebolista do Ranges e estudante de medicina, comentou imediatamente que algo mais sério se passava.
Tinha razão.
A vítima foi levada para o hospital. Sofrera uma fratura do crânio com rotura da artéria temporal direita. Às 17h, sofreu uma convulsão intensa. Foi levado para ser operado de urgência, mas sem êxito. Hora da morte: 21h25.
O funeral do “príncipe dos guarda-redes“ seria um caso raro de união entre adeptos do Celtic e Rangers. Quarenta mil pessoas, muitas do lado protestante de Glasgow, foram às cerimónias fúnebres. O local onde Thomson está sepultado é, ainda hoje, lugar de peregrinação para as gentes do Celtic. Na comunidade onde John cresceu, as crianças de hoje, já sem o hábito de trabalhar em minas quando mal têm barba, disputam, todos os anos, o John Thomson Trophey.
Sam English, protagonista involuntário da tragédia, ficaria profundamente afetado pelo sucedido. Ainda jogaria no Liverpool, sendo dono de um respeitável percurso no futebol. No entanto, ao retirar-se, confessou: “Vivi anos de carreira infeliz e sem alegria a partir daquele momento.”"
Subscrever:
Mensagens (Atom)















