Últimas indefectivações

terça-feira, 4 de agosto de 2020

As senhoras fugiram assustadas!

"Em 1931, o Benfica conquistava o seu segundo Campeonato de Portugal consecutivo. Ano complicado, em guerras contínuas com os órgãos federativos, mas uma vitória inatacável frente ao FC Porto, no Campo do Arnado, em Coimbra, por 3-0.

Um Benfica - FC Porto não tem o peso de um Benfica - Sporting. Falta-lhe aquele cheiro a Lisboa que a Amália cantava, o cheiro a rosmaninho das procissões, das iscas com elas e a vinho das vielas mais escondidas, das rosas a florirem na tapada, enfim, cheiros de flores e de mar. Mas é, ainda assim, um momento de disputa intensa, estóica. Dói fundo a cada um que perde o peso da derrota.
No dia 28 de Junho de 1931, houve um Benfica - FC Porto em Coimbra: final do Campeonato de Portugal. Vitória encarnada por 3-0. Era um mês de Junho como este que vivemos, cheio de sol ardente, mas havia pessoas aos magotes como agora não há por via desse mal sinistro que nos entrou pela vida e nos deixou cada vez mais distantes uns dos outros. Um tempo ainda tranquilo, embora pela Europa já pairasse o insuportável fedor a pólvora de mais uma guerra que devoraria o planeta.
'Honra ao glorioso Benfica. Nunca este adjectivo teve tanta razão de ser como agora!', lia-se nas páginas de um periódico. Afinal, as águias defendiam o título conquistado um ano antes de demonstravam cabalmente que não tinham adversário à altura. 'Para trás, detractores! Afastem-se os mal-intencionados! Aqueles que passam a vida a dizer mal de um clube lá porque defendem outras cores. Neste ano, a competição máxima foi ganha pelo melhor grupo, pelo melhor de todos, pelo melhor que nela entrou'.

Se o jornalista presente no velho Campo do Arnado viu tudo decorrer na frente dos seus olhos, como negar a sua versão dos acontecimentos? Aliás, como recusar que, com uma vitória por 3-0, o Benfica tenha sido absolutamente superior ao seu rival da Invicta? Lá está! Para trás, detractores!
'Coimbra, uma fidalga terra acolhedora, que sabe receber as pessoas que a visitam, tinha ontem o aspecto dos dias de festa, de grande festa. Além dos comboios especiais que conduziram muita gente a todo o momento, de um lado e do outro, chegavam automóveis transportando desportistas. Viam-se bandeiras azuis e vermelhas por toda a parte. E por toda a parte se ouvia gritar: 'Viva o Benfica!' 'Viva o Porto!'

Já não se escreve assim por entre as páginas dos nossos jornais desportivos carregadas de erros de ortografia e de sintaxe. Há coisas que não voltam mais...


Superioridade total!
Nem sempre é vulgar, mas, enfim, das margens do Douro às margens do Mondego a distância é mais curta que a que dista o Tejo: havia mais adeptos do FC Porto do que do Benfica. E ouviram-se mais alto, mais pujantes. Pelo menos no início, antes de o jogo começar a correr ao contrário das suas vontades. O Campo do Arnado estava pela hora da morte. Bancadas de madeira improvisadas, ameaçando ruir quando os espectadores resolviam bater com os pés, senhoras assustadas fugindo, ignorando a peleja, com medo, um medo compreensível, natural.

O Benfica não tinha Pedro Silva, lesionado. Jogou João Correira, vindo directamente das terceiras categorias. E cumpriu!

O domínio dos vermelhos foi total. Do princípio ao fim. Vá lá, durante um pedacinho do segundo tempo, os azuis e brancos equilibraram a contenda. Mas insuficiente. Completamente insuficiente!
Aos 37 minutos, 1-0. Vítor Silva tem um remate poderoso, a bola bate num poste com tanta violência, que, em seguida, vai bater no do outro lado. Parecia um jogo de flippers. Com a felicidade que fez por merecer, Vítor Silva surge por entre os defesas contrários com rapidez e, tanquilo, executa e recarga como se tivesse tido ordens divinas para tal. O FC Porto treme. Está metido numa camisa de onze varas.

Em cima do intervalo, 2-0.
Canto. A bola vai na grande área, Siska sai com bravura, o embate com Emiliano Sampaio é inevitável. A bola sobra para Augusto Dinis, que, expedito, a chuta para as redes. Os portistas reclamam. O árbitro está a pouco mais de um metro do lance. Chama-se António Palhinhas. Considera que, sendo fora da pequena área, não há motivos para castigar o avançado benfiquista.
Os encarnados entram para o segundo tempo com uma confiança inabalável. Vítor Silva era verdadeiramente supimpa: com os seus recursos extraordinários, não havia nada que não conseguisse fazer. Foi o autor do terceiro golo.
65 minutos - à entrada da área, dribla um adversário de forma tão surpreendente, que o faz tombar. De imediato aplica um pontapé forte e colocado, indefensável para Siska - 3-0.
O resto do encontro será um passeio. O Benfica descansa sobre a vantagem larga, o FC Porto equilibra as forças por alguns momentos, mas nem Lopes Carneiro, nem Raul Castro, nem o inglês Norman Hall conseguem pôr em risco a baliza de Artur Dyson.
'Honra, portanto, ao clube que soube, defendendo um título que ostentava, contra tudo e todos, colocar bem alto a região mais categorizada do foot-ball português'. Pois: é que não foi qualquer um a assinar essas palavras. Foi Tavares da Silva, um dos maiores jornalistas de sempre em Portugal, no tempo em que o jornalismo não admitia o analfabetismo nem a ignorância, como agora..."

Afonso de Melo, in O Benfica

"O Coluna das coisas simples"

"Era vaidoso, gostava de filmes de acção e de bolos e guardava com estima a bola que tinha rolado no seu jogo de despedida

Mário Coluna nasceu a 6 de Agosto de 1935, em Moçambique, e cresceu a brincar na rua. Desportista nato, deu um pezinho em várias modalidades antes de se decidir pelo desporto-rei. No início da adolescência descobriu o boxe e começou a entrar em combates amadores. Antes em Moçambique, foi um grande corredor e recordista de salto em altura e também jogou basquetebol! O futebol foi a modalidade que sempre esteve presente na sua vida, desde pequenino. O seu pai fundou o Grupo Desportivo de Lourenço Marques, uma filial do Benfica, e ali Coluna jogava a júnior de manhã e nos seniores à tarde. O seu talento chegou a Lisboa e os dois grandes, Sporting e Benfica, queriam-no nas suas equipas. A proposta foi igual: 100 contos. O factor decisivo foi o coração de Coluna, vermelho por natureza.

No dia da viagem para Portugal, Coluna sentia-se particularmente vaidoso, por isso escolheu vestir um fato de linho e até comprou uns sapatos especialmente para aquela ocasião. Mas a viagem durou umas intermináveis 34 horas e quando, finalmente aterrou, tinha o fato todo amarrotado e os pés tão inchados que não cabiam nos sapatos!
Jogou 16 épocas de águia ao peito, 7 das quais com a braçadeira de capitão. Venceu 10 Campeonatos Nacionais, 6 Taças de Portugal, 3 Taças de Honra e foi o primeiro africano a erguer a Taça dos Clubes Campeões Europeus. Mas, longe as luzes da ribalta, Coluna era um homem como os outros. Gostava de batatas fritas, de laranjas, de filmes de acção e de bolos. Numa entrevista dada ao Diário de Lisboa, no fim da sua carreira, foi apelidado de 'Coluna das coisas simples'. E era-o, de facto. Humilde, era muito apegado às memórias, mas já tinha perdido o rasto aos objectos acumulados. 'Tinha centenas de galhardetes que já nem sei onde andam', inclusivamente uma medalha de ouro, 'que o Brasil só dá por grandes feitos aos brasileiros que se tornam a modos que heróis. Eu tenho-a, deve estar por aí, numa dessas gavetas'. Mas havia um objecto que guardava com grande carinho: a bola que tinha rolado na sua festa de despedida do Benfica, autografada por todas as vedetas que foram jogar à Luz, '(...) tem um valor inestimável', confessou.

Saiba mais sobre os feitos de Coluna na área 23 -Inesquecíveis, no Museu Benfica - Cosme Damião."

Marisa Furtado, in O Benfica

Ambição à Benfica

"O novo ciclo, com o comando técnico da nossa equipa de futebol agora entregue a Jorge Jesus, não poderia ter começado da melhor forma. Os objectivos foram expressos de forma muito clara e estes passam por ganhar as competições domésticas, recuperando a hegemonia do futebol português, e devolver o prestígio internacional ao Benfica.
Na apresentação do novo treinador estiveram presentes membros da Direcção do Clube e da SAD, elementos da estrutura do futebol profissional, os capitães de equipa e alguns ex-jogadores cuja passagem pelo Benfica ficou marcada pelo sucesso sob as ordens de Jorge Jesus.
O Presidente Luís Filipe Vieira deu o mote de uma cerimónia em que sobressaiu a enorme vontade, partilhada por todos os Benfiquistas, de recolocar o Benfica no trilho das vitórias, após uma temporada aquém das expectativas.
Dirigindo-se a Jorge Jesus, Luís Filipe Vieira garantiu que tudo será feito para que a Família Benfiquista seja feliz nos próximos anos e recordou que, como em 2009, surgem novamente juntos, acompanhados por Rui Costa ("Curiosamente somos os três bairristas e o Benfica, na realidade, é o povo", realçou), para trabalharem arduamente em prol do sucesso do Clube.
Por seu turno, Rui Costa salientou que o sucesso de Jorge Jesus será o sucesso de todos os Benfiquistas e manifestou o desejo de que o nosso treinador aumente o palmarés obtido na sua passagem anterior pelo Benfica.
Jorge Jesus, igual a si próprio, foi a personificação da enorme ambição, da inabalável confiança e da máxima exigência que lhe reconhecemos desde o seu primeiro ato enquanto treinador do Benfica. Revelando-se muito satisfeito por voltar à Luz e ao Seixal, vincou que a equipa terá de jogar o triplo para atingir os objectivos preconizados, manifestou a sua crença, sem quaisquer reservas, de que lhe serão proporcionadas todas as condições para alcançar o desejado sucesso, prometeu que a equipa irá arrasar e revelou que já trabalha, com Luís Filipe Vieira, Rui Costa, Tiago Pinto e Luisão, na construção de um plantel muito forte.
Deixou ainda claro que "só um clube e uma pessoa" o podiam convencer a regressar a Portugal, que acredita que o Benfica dá todas as condições a qualquer treinador para melhor desenvolver o seu trabalho e lutar pelo triunfo em todas as competições. A união de todos os benfiquistas foi também um dos aspectos vincados pelo nosso treinador, sabendo-se que é fundamental para o sucesso. E frisou que a competência será sempre o que norteará o reforço do plantel, fazendo-se uma simbiose das várias proveniências, incluindo da Formação.
Jorge Jesus está de volta e só nos resta desejar, ao nosso novo treinador, que, como na sua primeira passagem pelo Benfica, ajude o Clube a conquistar muitos títulos e troféus!
#PeloBenfica"

Cadomblé do Vata (Jesus)

"A apresentação de Jorge Jesus.
1. Para começar, fico feliz por a cerimónia não ter decorrido no relvado da Luz... parece-me claro que só a falta de espaço evitou que ao lado dos dois "troféus" de finalista vencido da Liga Europa, não estivesse o hat trick de "títulos" de vice campeão nacional.
2. Jorge Jesus guardou para o fim a expressão orelhuda "Vamos Arrasar"... não deu foi para perguntar se era com o campeonato, com as finanças do clube ou vá, com "ambos os dois que formam um triângulo".
3. Já antes, o treinador do SLB tinha demonstrado a sua peculiar confiança, afirmando que os jogadores "vão jogar o triplo"... tendo em conta as dificuldades que tivemos este ano na meia e longa distância, eu duvido, mas somos o clube do Carlos Lisboa, portanto vale a pena tentar.
4. Excelentes noticias na constituição da equipa técnica com a inclusão do treinador de guarda redes Fernando Ferreira, agora coadjuvado pelo Paulo Lopes... isto se entretanto Jorge Jesus não o trocar pelo Muhktar.
5. "Como temes par cima da águia, um sames todes"... agora quero ver os nossos adeptos na China a dizerem isto."

"Vamos jogar o triplo"

"Hoje, 3 de Agosto, começa uma nova época. Aquilo que todos esperávamos, sem esquecer o que fica para trás, para memória e aprendizagem, mas virar a página, voltar ao trabalho, recuperar o foco e lutar pelos nossos pergaminhos: dominar em Portugal e ser grandes na Europa.
Pode ser mais ou menos consensual, uns gostam mais, outros gostam menos, mas Jorge Jesus é o eleito. Jorge Jesus é o treinador do Sport Lisboa e Benfica. Jorge Jesus é o nosso treinador. A quem desejamos toda a sorte. É hora de trabalho. É hora de união.
É hora de voltar a ser brilhante dentro de campo e inexcedível fora dele, na luta pela verdade desportiva e na defesa intransigente do SL Benfica.
O caminho é longo. E mais do que nunca, todos contam. Pelo Benfica."

Jorge Jesus é o maior

"O Benfica já saiu a ganhar da apresentação

Jorge Jesus assumiu que está diferente e, em boa verdade, as últimas declarações no Brasil já apontavam nesse sentido: falava mais na primeira pessoa do plural, mencionava frequentemente a equipa técnica e atribuía várias vezes o mérito das vitórias aos jogadores.
O treinador pode, por isso, ter alterado a perspectiva com que olha para as coisas. Já a gestão das expectativas, essa, permanece igual. O que é uma excelente notícia para o Benfica.
Se não, veja-se.
Na apresentação, por exemplo, Jorge Jesus disse que «jogar o dobro não chega, o Benfica vai jogar o triplo», garantiu que é «muito mais treinador do que era» quando saiu da Luz e reclamou que não está habituado a ganhar o campeonato, está habituado «a ganhar tudo».
«Não tenham dúvidas: vamos fazer uma grande equipa e vamos arrasar.»
Ora isto, meus senhores, é Jorge Jesus. Podia ser mais cauteloso e apostar num discurso mais conservador, mas aí não estaria a ser ele. Ele é assim: não sabe jogar com expectativas moderadas.
O Benfica, sabe-se depois disto, não ficará satisfeito em ser bom ou ser bonzinho. O Benfica vai ter de ser espectacular. Vai atirar lá para cima, tão alto como os sonhos possam chegar.
Para uma equipa não haverá maior motivação que essa.
Jorge Jesus é assim: chega e agita as coisas. Grita, esperneia e desassossega. Podia ser como os outros, podia ser razoável e politicamente correto.
Era seguramente muito mais cómodo e barato. Não haveria tanta cobrança, tantas críticas, tantos olhares. Provavelmente também não haveria tanta gente a querer que ele falhasse.
Mas não se chega ao céu com os pés presos na terra. E Jorge Jesus não tem medo de voar."

A importância da formação

"Já se passaram cinco anos desde que Jorge Jesus saiu do Benfica, mas parece que a ideia da aposta da formação já se esqueceu. Acho que é uma boa altura de relembrar porque é que há cinco anos começámos a apostar tanto na formação, como a aposta na formação deu bons resultados em alguns clubes e porque é que a aposta na formação não tem dado esses resultados no Benfica. O pior que o Benfica poderia fazer era deixar de apostar na formação neste momento. A formação é o único caminho para o sucesso à disposição dos clubes fora das quatro grandes Ligas.
A necessidade de apostar na formação é francamente simples de entender. As futuras estrelas do futebol mundial têm hoje 15, 16, 18 anos. Se tivermos boas condições porque é que não podem surgir no Benfica? Foi esta a pergunta que Luís Filipe Vieira fez há cerca de dez anos e os resultados estão à vista de todos. Hoje em dia, contratar um jogador que seja capaz de fazer diferença numa competição europeia custa no mínimo uns 40 milhões de euros (entre preço do jogador, salário, prémio de assinatura e comissões). O Benfica tem capacidade para ter dois ou três assim. Mas não tem capacidade para ter quinze, como a maioria dos grandes clubes tem, no mínimo. A solução é criar esses jogadores na formação. Bons jogadores da formação também têm (ou deveriam ter) salários caros, mas não se tem que pagar a ninguém para os ter. Assim é possível um clube da periferia futebolística europeia conseguir ter um plantel competitivo a nível europeu sem gastar o que grandes clubes gastam.
No passado recente tivemos alguns clubes a conseguirem ter sucesso a nível internacional graças à formação ou à aposta em jovens jogadores. Nos últimos cinco anos, houve três equipas a chegar às meias-finais da Champions League que não estamos habituados a ver lá: Mónaco 2016-17, Roma 2017-18 e Ajax 2018-19. Destas três equipas, duas tinham como base a formação. O Mónaco montou uma equipa com uma série de jovens de 18-23 anos que foi buscar à sua academia (Kylian Mbappé, Abdou Diallo e Almamy Touré) ou a academias de outros clubes (Bernardo Silva, Thomas Lemas, Fabinho, Tiémoué Bakayoko, Benjamin Mendy e Gabriel Boschilia). A estes jovens juntou jogadores experientes como João Moutinho, Radamel Falcão e Danijel Subasic e conseguiu travar o PSG, vencer a Ligue 1 e chegar às meias-finais da Champions League. O Ajax venceu a Eredivisie, a Taça da Holanda e chegou às meias-finais da Champions com uma equipa onde dos onze jogadores mais utilizados, seis tinham passado pela equipa B nos anos anteriores (Donny van de Beek, Matthijs de Ligt, André Onana, David Neres, Noussair Mazraoui e Frenkie de Jong). Além destes, quase metade dos jogadores do resto do plantel vieram da formação ou foram contratados muito novos.
A triste curiosidade, é que se formos ver os clubes com melhor resultado líquido de contratações nos últimos anos, a lista é composta precisamente por Mónaco, Ajax e…. Benfica. Ou seja, nós produzimos o mesmo talento que Ajax e Mónaco, só que não tivemos uma gestão capaz de chegar aos mesmos resultados. O problema do Benfica não tem sido apostar em demasia na formação. O problema do Benfica tem sido gestão. O Benfica cria jogadores óptimos, vende-os à primeira oportunidade e depois fica à espera que a formação crie jogadores para os substituir. Se a formação não for capaz de responder no imediato a essa necessidade, o Benfica não contrata. Este é o erro. Foi isto que aconteceu com o Renato Sanches, com Ederson, com Nélson Semedo e mais recentemente com João Félix. A solução é francamente simples também. Não podemos vender jogadores só porque fizeram uma boa temporada. Jogadores deste nível são muito difíceis de criar. Nós temos que tirar mais rendimento desportivo deles antes de procurarmos o rendimento financeiro. E quando tirarmos o rendimento financeiro, se a formação não tiver ninguém para se apostar no imediato, temos que ir ao mercado. O que não se pode fazer de todo é acelerar processos só para não gastar algum dinheiro em reforços (que foi o que aconteceu com Tomás Tavares por exemplo).
Há cerca de quatro ou cinco anos, Hélder Cristóvão disse numa entrevista à BTV que um jogador da equipa B para se graduar da equipa B e saltar para a equipa principal tinha que fazer entre 60 a 80 jogos. Nenhum dos jogadores promovidos este ano pelo Benfica tinha um quinto disso. Só se apostou nesses jogadores porque a “Estrutura” do clube não quis gastar dinheiro em reforços. O único caso bem gerido pela “Estrutura” nestes últimos anos foi o caso de Victor Lindelof - Rúben Dias. Assim que Victor Lindelof foi vendido, a formação já tinha outro jovem pronto a ser lançado - Rúben Dias. Tirando este caso, todos os outros jogadores ou ainda não foram substituídos - João Félix e Nélson Semedo - ou foram substituídos com um penso rápido e o clube só decidiu investir a sério passado mais de um ano depois: (1) Ederson - Bruno Varela - Odysseas Vlachodimos; (2) Renato Sanches - Pizzi (adaptado a médio centro) - Krovinovic - Gabriel).
A formação do Benfica está a chegar aos anos de ouro. As gerações de 1994 e 1997 foram muito boas, mas as gerações que estão a bater à porta (de 2000, 2001 e 2002) são também muito boas. É importante que o plantel da equipa principal seja curto, de maneira a que a porta esteja aberta para jogadores como Gonçalo Ramos, Tiago Dantas, Morato, Pedro Álvaro, Ronaldo Camará, Paulo Bernardo e Rafael Brito possam ter as suas oportunidades. Porque se não tiverem aqui, vai aparecer um Mónaco ou um Valência a tirar proveito deles. Quase que aposto que um desses clubes que já deve estar a esfregar as mãos chama-se Wolverhampton."

Mimados ou Privilegiados?

"A época 2019/20 terminou, finalmente terminou.
Entrámos nela cheios de ilusão, com um treinador que nos tinha apaixonado, com um grupo de jogadores que ultrapassaram os 100 golos numa época e que fizeram uma das mais memoráveis segunda volta de sempre do campeonato português.
Entre os grupos de amigos benfiquistas discute-se actualmente como terminamos esta época com uma dobradinha do FC Porto (clube que continua intervencionado pela UEFA e a viver uma complexa situação financeira).
Passado um ano, o treinador foi demitido e grande parte dos jogadores que nos fizeram sonhar são criticados e o seu valor colocado em causa.
Como chegámos a este ponto? O que mudou em tão curto espaço de tempo? Como passámos do sonho à desilusão com a maioria dos actores da época passada?
O meu texto foca-se na questão dos jogadores, uma vez que muito já se escreveu acerca do fenómeno Lage.
Voltemos a Janeiro de 2019, momento em que Lage assume a liderança da equipa principal do SL Benfica. A liderança estava a 7 pontos de distância e o jovem treinador sobe à equipa A uma mão cheia de jovens da formação. Três destacaram-se de imediato: Ferro, Florentino e a estrela em ascensão João Félix. O impacto foi imediato e entre a irreverência de um Félix que colocou toda uma equipa a jogar à sua volta e o cerrar de fileiras impulsionado por uma sequência impressionante de vitórias levou-nos a um dos campeonatos mais saborosos, principalmente por quase ninguém já acreditar nele.
Serve este parágrafo para contextualizar como iniciámos a época que agora finda. Com uma sensação de liderança e poderio face aos nossos mais diretos rivais. Sensação essa ainda mais cimentada pela histórica vitória por 5-0 ao Sporting CP que valeu a conquista de mais uma Supertaça para o nosso grandioso palmarés.
Mas o que aconteceu entre a consagração do jogo contra o Santa Clara e o jogo que nos deu a Supertaça contra o Sporting?
Durante a pré-época saíram do Benfica Jonas, Sálvio e Félix. E cedo se percebeu que Fejsa e Jardel não contavam para Bruno Lage. Entraram RDT, Vinícius e mais miúdos da formação, com destaque para Nuno e Tomás Tavares.
Entretanto o SL Benfica renovava com Pizzi, Rafa, Seferovic, Grimaldo, André Almeida, Samaris, Gabriel, até 2023 ou 2024, numa estratégia inteligente de blindagem destes jogadores, mas com novos contratos de longa duração e todos a roçar o tecto salarial do clube.
E aqui jaz, na minha opinião, o início do insucesso do Benfica 2019/20. Entre Maio e Agosto, a estrutura do clube vê saírem ou serem afastados os jogadores com mais experiência e liderança do balneário (Jonas, Sálvio, Jardel, Fejsa) e vende por valores irrecusáveis a pérola que revolucionou o futebol do clube: Félix. Em sentido oposto contrata jogadores com poucas ou nenhumas provas dadas (RDT e Vinícius) e fortalece através de renovações o peso de alguns jogadores no plantel (Pizzi, Rafa, Grimaldo, André Almeida, Seferovic, Gabriel).
De repente, os jogadores que se agigantaram em torno da genialidade de Félix e da experiência de Jonas, Sálvio, Jardel e Fejsa, tornaram-se eles a referência do plantel. Esses jogadores tornaram-se as estrelas do plantel e as caras da liderança no balneário.
E assim arrancou o campeonato. Apesar do primeiro aviso logo à terceira jornada, os resultados foram aparecendo. Jogava-se mal mas a bola ia entrando e este grupo de jogadores alcançou uma vantagem de 7 pontos face ao FC Porto. Até que chegou o dia em que viajaram ao Porto. Nesse dia podiam ter decidido o campeonato se não perdessem, mas saíram de lá derrotados (novamente) e acima de tudo com a certeza que não eram a melhor equipa.
Foi nesse momento que sobressaiu a falta de qualidade e de liderança do núcleo duro do plantel (Pizzi, Rafa, Grimaldo, André Almeida, Gabriel). Perceberam nesse momento que não eram as estrelas que a comunicação oficial do clube vendia semana após semana aos sócios e adeptos do SL Benfica. Perceberam que não iam ser capazes, que lhes faltava os alicerces que suportaram o sucesso passado e…entraram em pânico.
Desde esse dia foi um cair a pique semana após semana. De uma vantagem de 7, em poucas semanas passaram para uma desvantagem de 1 ponto face aos rivais. Casa ponto que perdiam, maior era o pânico e maior a certeza que não iriam ser capazes. E isso toldou-lhes o discernimento, contagiou o resto do plantel. Perderam o foco.
E é nestes momentos que é necessário que a qualidade apareça (já não havia um Félix) ou que os grandes líderes soltem um berro e reúnam as tropas (já não havia em Jonas ou Fejsa). E o resultado final foi este a que assistimos ao último capítulo ontem, onde uma vez mais este plantel teve de enfrentar os seus medos e fantasmas, uma vez mais falharam. Não conseguiram, gelaram de pânico quando sofreram o primeiro golo.
Por isso concluo que estes jogadores não são mimados. Simplesmente não sabem mais. Subitamente foram elevados a estrelas de um clube grandioso como o SL Benfica e não aguentaram a pressão dos maus resultados. Não conseguiram lidar com a realidade, a de que são jogadores de plantel, jogadores de qualidade inegável, mas não são estrelas. Por falta de genialidade e de liderança.
Estes jogadores são sim privilegiados, por poderem envergar uma camisola com a grandiosidade do manto sagrado. O verdadeiro Benfica, talvez não permitisse que estes jogadores fossem titulares, quanto mais as suas estrelas.
Estes jogadores não têm culpa de quem os criou, de quem alimentou os seus egos para esconder a falta de qualidade do plantel e a sua falta de ambição para conquistar títulos. Eles apenas serão eternamente gratos a um clube que lhe proporcionou serem mais do que alguma vez deveriam ter sido. Estes jogadores terão o privilégio de vestir a camisola do SL Benfica até ao final do seu contrato, porque a sua qualidade não condiz com o seu vencimento. Estes jogadores não poderão ambicionar mais que se manterem no plantel do maior clube de Portugal.
Mas eu acredito que, se lhes juntarmos qualidade e a experiência e ambição de jogadores à Benfica, habituados aos grandes palcos, confiantes no seu futebol, se voltarmos a colocar estes jogadores no lugar onde pertencem dentro do plantel, eles voltarão a dar-nos alegrias e levar o Glorioso a novas conquistas. Isto porque se verão livres da pressão de serem eles a fazer a diferença e porque terão a seu lado líderes que os irão ajudar a tirarem o máximo das suas capacidades.
Estamos assim num momento crucial do futuro próximo do nosso clube. O Benfica precisa urgentemente de jogadores de qualidade, que sejam ambiciosos, que elevem o nível do plantel. É tempo de decidirmos se queremos um Benfica focado nos títulos desportivos ou focado nos negócios. Os próximos meses serão decisivos. Está nas mãos dos sócios quem queremos que sejam as estrelas do nosso clube.
Haja ambição, porque o SL Benfica está preparado para voar e voltar a encontrar-se com o seu destino: vencer!"

João & Markus... Alemanha!

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O Regresso...

Lucas Veríssimo | O central de Jorge Jesus?

"Lucas Veríssimo tem sido um dos (muitos) defesas centrais apontados ao SL Benfica (Koch, Cabrera, Veríssimo, Leo Pereira etc). O defesa brasileiro de 25 anos fez um Brasileirão de muita qualidade, tendo sido o titular do centro da defesa do Santos FC, ao lado de Gustavo Henrique. 
Veríssimo é um jogador muito forte fisicamente. Com 1.88m de altura e 77 quilos, torna-se difícil ultrapassar o jogador em força. A nível defensivo destaca-se pelo bom posicionamento, boa marcação e capacidade de desarme. Registou 2.2 intercepções por jogo e 1.9 desarmes. Foi ultrapassado em drible apenas 0.5 vezes por jogo e realizou 4.5 alívios. Vence 62% dos duelos que disputa. Veríssimo não é um jogador nada impetuoso. Mantém-se sempre calmo e tem uma boa tomada de decisão. O espelho disso mesmo foram as zero expulsões que teve no último Campeonato Brasileiro.
O central brasileiro é um jogador bastante mais composto e concentrado do que, por exemplo, Robin Koch. Lucas Veríssimo cometeu apenas um erro que levou a um remate (no último Brasileirão), face aos quatro erros do alemão que originaram golos.
Apesar da sua elevada estatura, o camisola 28 do Santos FC tem alguma qualidade técnica com a bola nos pés. Diversos são os lances onde podemos observar o jogador a ultrapassar, com habilidade, avançados bem mais rápidos e a progredir no terreno. No capítulo da construção de jogo, apesar de ter bons números (completa 87% dos passes totais), ainda peca muito nos passes longos (completa apenas 44%) e tem alguma dificuldade em encontrar colegas em boas posições. É óbvio que tem uma grande margem de progressão, mas para já está muito longe de ser um bom “central com bola”.
O jogo aéreo é uma das grandes armas do jogador. Defensivamente é muito competente, ganhando 68% dos duelos disputados no ar. Ofensivamente é sempre uma referência a ter em conta. Marcou três golos em 2019.
Então Lucas Veríssimo é o central ideal para este SL Benfica? Depende. Veríssimo seria um excelente substituto para Rúben Dias, caso o internacional português abandone a Luz. São dois jogadores com algumas semelhanças físicas e técnicas. Seria um substituto competente!
No entanto, acho difícil que o brasileiro possa figurar ao lado do internacional português. Veríssimo é um central que usa preferencialmente o pé direito, o que pode causar muitas dificuldades na construção de jogo. Para esta posição o SL Benfica necessita de um central com maior qualidade na construção de jogo e preferencialmente canhoto. Neste sentido Koch ou Leo Pereira podiam ser opções mais viáveis, tendo até em conta a experiência europeia do alemão.
Outra questão será o valor necessário para contratar Veríssimo ao “Peixe”. O valor, segundo o que vai sendo noticiado na imprensa portuguesa e brasileira, deverá rondar os 10 milhões de euros. Esta quantia parece-me muitíssima inflacionada, tendo em conta a situação pós-confinamento que o mundo do futebol atravessa e a falta de experiência europeia do jogador.
O Southampton FC deverá pagar cerca de 12 milhões de euros por Mohammed Salisu, uma das grandes promessas do centro da defesa na Europa. Não estará o trabalho de scouting dos clubes portugueses e do SL Benfica em concreto a ficar muito atrasado?"

Complexos!


"Ambiente de excelência durante o jantar oficial de celebração do FC Porto, após a vitória frente ao SL Benfica, na Taça de Portugal.
O que os jogadores, equipa técnica e direcção do Sport Lisboa e Benfica não compreendem, é que isto só acontece de forma reiterada, ano após ano, porque nós o permitimos.
Quando decidirmos encarar o FC Porto, dentro e fora de campo, como aquilo que ele realmente é - um inimigo que de tudo faz para nos abater - e o enfrentarmos "à Benfica”, olhos nos olhos, então finalmente o ódio que eles hoje nutrem transformar-se-á amanhã em medo e acobardamento."

Voltar a ganhar

"Hoje, às 17 horas, no Benfica Campus, será apresentado Jorge Jesus, com a presença e intervenções do Presidente Luís Filipe Vieira e do administrador da Benfica, SAD, Rui Costa.
A temporada que findou no passado sábado ficou claramente aquém dos objectivos definidos, impondo-se, assim, um fim de ciclo e o início de outro. A obtenção de apenas um troféu numa época, caso não se trate do Campeonato Nacional, é escasso pecúlio para um clube como o Benfica.
É certo que conquistámos cinco Campeonatos nas últimas sete temporadas, incluindo o inédito Tetra, um feito que há muitas décadas perseguíamos e finalmente conseguimos. Nestas sete épocas, vencemos 15 dos 28 troféus em disputa, mais de metade, ou seja, mais do que o total agregado de todos os nossos adversários.
Porém, o percurso da nossa equipa, em 2019/20, não esteve à altura dos pergaminhos do Clube, saldando-se muito abaixo das expectativas, as quais eram legítimas e consonantes com o elevado investimento feito e com a ambição de todos os Benfiquistas.
Queremos ganhar sempre, nunca nos acomodamos nem viramos a cara à luta. Damos o melhor de nós para contribuirmos para o acréscimo de títulos e troféus ao nosso vasto e glorioso palmarés. E, felizmente, reabituámo-nos a vencer regularmente, algo que não acontecia desde a década de oitenta do século passado, o que muito nos orgulha e satisfaz, mas ainda mais nos responsabiliza.
Não surpreende, portanto, que, no final de uma época em que vencemos somente a Supertaça, se tenha decidido enveredar por outro caminho, não obstante o destino pretendido – ganhar, ganhar e ganhar – se mantenha.
Impunha-se uma reacção rápida à derrota e ela aí está, com o regresso de Jorge Jesus para iniciar um novo ciclo.
Trata-se de um técnico indiscutivelmente competente com provas dadas em vários clubes, nomeadamente no Benfica, pelo qual se sagrou Campeão Nacional três vezes, celebrando o Bicampeonato benfiquista 31 anos depois do anterior.
Temos os olhos postos no futuro, sabendo que contaremos com um grande treinador à frente do nosso plantel, o qual será muito bem apetrechado certamente. Sofrido um desaire, exige-se sempre uma resposta à Benfica, não tendo nós a mínima dúvida de que esta será dada o mais adequada e célere possível.
Nos últimos anos voltámos a ser, no futebol português, o Benfica que ganha mais do que perde. É este Benfica que queremos continuar a ser já na próxima temporada.
#PeloBenfica"

Recordações: Joana Ramos...

Noronha Lopes...

Finalmente, o fim da época

"Em Abril de 2019, ao percebermos que a defesa do SL Benfica nas redes sociais era praticamente nula, juntámo-nos e criámos esta página com o simples propósito de defender a verdade desportiva e expor o podre que é o futebol português.
Somos Benfiquistas independentes, que apenas querem o melhor para o Clube, daí que por duas vezes, nos termos insurgido publicamente contra os erros efectuados na preparação desta época. Logo em Agosto do ano passado, há quase 1 ano, expusemos as deficiências de planeamento e, infelizmente, tudo se veio a confirmar com o decorrer da época. Estava à vista de todos.
Ontem, finalmente, terminou este pesadelo. Com mais uma humilhação, com tão pouco Benfica. Contra um dos adversários mais fracos de sempre. Doeu muito, mas chegou ao final e agora é altura de olhar em frente.
Esperamos que não sejam cometidos os mesmo erros de planeamento e que se construa um plantel ambicioso, à nossa dimensão, e que fora do campo não sejamos displicentes como temos sido até agora.
Porque por mais #PortoaoColo que exista, o Sport Lisboa e Benfica tem de fazer a sua parte.
E Pluribus Unum"

A final da Taça de Portugal, um jogo definido por fatores emocionais e por aquela ideia tão simples que é querer ou não ficar com a bola

"A primeira reunião que Guardiola teve com Víctor Valdés, quando foi escolhido para treinar a equipa principal do Barcelona, teve um grande impacto no guarda redes espanhol. No seu escritório, em Camp Nou, o treinador preparou o quadro magnético onde colocou duas peças perto da área. Pep pergunta a Valdés se sabia que jogadores representavam aquelas duas peças, tendo obtido uma resposta negativa. Nesse momento, diz-lhe que aqueles jogadores são os defesas centrais, que vão jogar com ele dando-lhe sempre a possibilidade de uma saída curta, e que era nesse tipo de saída em que mais iam apostar.
Naquele momento, Valdés sentiu-se confuso. Ele não percebia aquela linguagem, e achou até que o treinador estava maluco. Depois da explicação do treinador, e de algum tempo que teve para reflectir sobre a informação que lhe passava, o guarda-redes responde-lhe: se os queres aí, é melhor que a queiram; porque para eles jogarem aí, onde tu queres, eles têm de ser corajosos e querer ter a bola. Em todo este diálogo a parte fundamental é a última resposta que o treinador dá e que termina com a conversa: "Tranquilo!; Disso encarrego-me eu; É o meu trabalho, e eu vou garantir que eles vão querer ter a bola".
Este relato é feito na primeira pessoa por Víctor Valdés para o documentário “Take The Ball Pass The Ball”, de 2018, ao qual ele termina dizendo que foi aí o começo de tudo.
Parece uma ideia simples e que falar nela é um exercício estéril, uma vez que assumimos que qualquer jogador joga futebol pelo contacto com a bola e por querer ser diferenciado no que pode fazer em função dela. No entanto, não são assim tantos os jogadores – sobretudo em posições mais recuadas – que têm o conforto, a coragem, e são estimulados de forma adequada para que se possam sentir livres e jogar no campo inteiro. Mas isso, como muitas coisas, é algo que faz parte da ideologia de um treinador ou não. São hábitos difíceis de mudar, e é nos momentos que se julgam menos importantes que a escolha, o conforto, o hábito de querer ficar com a bola ou não pode ser absolutamente decisivo, como foi o caso da final de sábado.
Estiveram em confronto duas equipas que sofrem quando são obrigadas a ter a bola durante muito tempo, que são rudimentares na forma como tentam desorganizar o adversário, criar espaço, e atacar a finalização de forma simples. Duas equipas que vivem dos momentos do jogo onde tudo se decide rápido (transições), ou dos momentos menos dinâmicos onde o tempo para preparar e treinar torna tudo mais imprevisível, ainda que a execução seja quase sempre muito difícil (bolas paradas).
E o jogo assim foi. Em toda a primeira parte mal jogado com bola, com as duas equipas a tentarem condicionar o adversário, e um FC Porto com dois lances onde consegue sair desse condicionamento, mas depois não conseguiu definir. Em 45 minutos, dois lances por parte das duas equipas é manifestamente pouco. A equipa de Sérgio Conceição, aliás, foi a única capaz de criar uma situação de golo, uma finalização limpa, durante esse período - falta rápida marcada por Otávio para Corona, que solicita Marega em apoio frontal. O avançado maliano segura muito bem, comprometendo Jardel e Nuno Tavares com o lance, o que criou um espaço entre Rúben Dias e o central que segurava o avançado. Com um toque de calcanhar, Marega deixa para Corona que tinha iniciado a marcha para invadir a área do Benfica. Com a oposição de Weigl, o extremo mexicano vê-se obrigado a puxar para o pé esquerdo e rematar para uma boa defesa de Odysseas.
O lance anterior ocorreu aos 3 minutos e depois disso há dois momentos que marcam o jogo de forma crítica: a expulsão de Luis Diáz, que altera por completo a dinâmica, e o corte do Jardel. A expulsão faz com que o Benfica seja obrigado a ter a bola durante mais tempo, e a estar na maior parte do jogo em ataque posicional. Ora, já sabemos que essa é e foi sempre a maior fragilidade do Benfica de Bruno Lage, ao qual Nélson Veríssimo deu continuidade. Jogar com menos um fez também com que o Porto tivesse de se resguardar mais perto da sua baliza, sem tentar condicionar em zonas adiantadas as saídas do Benfica, e mais do que isso, deu também o estímulo emocional extra do qual as equipas do Sérgio Conceição tanto precisam para se superarem na abnegação, no esforço, no compromisso colectivo.
Depois, o golo. Sair do intervalo com o treinador expulso, com um jogador a menos, e marcar na primeira ação perto da baliza do adversário, reforça tudo o que foi falado ao intervalo e eleva o estado mental “contra tudo e contra todos” para um patamar superior. Porém, antes do golo há uma acção tão simples, tão irrelevante, mas ao mesmo tempo tão determinante, que marca por completo a história do jogo. Artur Soares Dias apita para o início da segunda parte, a bola é atrasada para Pepe que de imediato tenta ligar longo, para uma zona onde o Porto tentava ter mais jogadores para atacar melhor não só a primeira como a segunda bola. O passe é impreciso e a bola segue para Jardel que está completamente só. O central corta, seguem-se duelos onde Danilo ganha a segunda bola, Gabriel ganha a terceira, Pizzi adianta a quarta, mas é novamente Danilo a recuperar, e o resto do lance é a última imagem que ficou na cabeça de todos - a abordagem defensiva de Weigl e a saída de Odysseas.
Aleatoriedade vs Controlo
(...)
É certo que Weigl errou e poderia ter abordado o lance com Danilo de outra forma, da mesma maneira que Odysseas coordenou mal a saída com os elementos da zona defensiva. Contudo, se Jardel tem tido uma ideia tão básica quanto o querer ficar no controlo do jogo, não se defender de uma perda e atirar a responsabilidade para a aleatoriedade, o lance não teria terminado daquela forma. E para quem acha que estou a culpabilizar o Jardel, desengane-se; mais uma vez, isto é trabalho dos homens do leme, que definem as intenções dos jogadores em larga medida. Numa equipa que quisesse ter a bola, Jardel matava no peito e saía a jogar, ou então, caso estivesse mais inseguro, teria atrasado para o seu guarda-redes ou tocado ao lado para Rúben Dias. Se calhar até, poderia ter optado por outras opções menos simples, mas dificilmente optaria por, num lance em que não tem pressão, entregar a bola para o duelo, para onde não se sabe quem vai sair mais forte.
Por vezes procuramos por razões tácticas e extremamente complicadas para explicar um jogo quando ele se define fundamentalmente por factores emocionais, ou por uma ideia tão simples quanto o querer ficar com a bola ou não. Diz-se que sou fundamentalista, que só olho para um tipo de jogo, que não vejo as coisas boas que outras formas de jogar apresentam; perdoem-me ser em contra-natura um fã absoluto dos jogadores, dos treinadores, dos directores desportivos, dos presidentes, e dos adeptos que, como eu, têm o atrevimento de querer ficar com a bola."

Cegos ?!!! Surdos?!!!


"Otávio: "O árbitro podia fazer o que quisesse que nós não perdíamos. Merecemos isto". "A jogarmos com 10? Com 10 não, eles é que jogaram com mais três e nós com menos quatro ou cinco. Mas faz parte. estava escrito que não perdíamos. Assim sabe melhor."
Ficamos à espera do castigo. Daqui a 2 anos, quando Otávio sair do #PortoaoColo pode ser que existam novidades."

"APAV, boa tarde. Como podemos ajudar?", "Sim, é a bola da final da Taça. Socorro". A final da Taça de Portugal

"Vlachodimos
A grande verdade é que uma pessoa não pode elogiar muito estes gajos.

André Almeida
Este jogo deixa-me numa situação complexa. Por um lado estou como todos os adeptos do Benfica: desapontado, deprimido, devastado por mais uma derrota sem apelo nem agravo. Por outro lado, a época chegou ao fim, o que significa que não tenho que escrever mais estes miseráveis. Copo meio cheio, amigos. De whisky, óbvio.

Jardel
Triste despedida: acabar a carreira representar um clube que só ganha campeonatos nos balancetes no qual metade dos jogadores não tem vontade de ganhar e todos recebem o salário a 100%.

Rúben Dias
Vi há pouco que um adepto do clube recebeu uma newsletter às 4:20 da madrugada com a mensagem “vamos virar a página e atacar 2020/21”. Isto é mais ou menos como sair de um funeral e alguém sugerir uma ida a um bar de karaoke.

Nuno Tavares
Acertou um cruzamento por cada espectador presente no Estádio Municipal de Coimbra.

Julian Weigl
Um dia, bem longe de terras portuguesas, este alemão vai contar aos seus netos sobre os estranhos dias que passou em Portugal a correr atrás de uma bola num relvado sem grande noção do que ele ou os seus colegas estavam ali a fazer. Talvez nessa altura o presidente seja outro. Deixem-me sonhar. 

Gabriel
Último jogo antes da Guantanamo que o espera às ordens de Jorge Jesus. Aperte com ele, mister. É como na música. Benfica, até debaixo de água. Quem não quiser que desampare a loja.

Chiquinho
Garanti-vos por 3 vezes que o Chiquinho iria marcar neste jogo. Não tenho culpa que vocês levem estes textos a sério.

Pizzi
Uma exibição mais anti-estatutária do que o emblema da nova camisola principal.

Seferovic
- APAV, boa tarde. Como podemos ajudar?
- Sim, é a bola da final da Taça. Socorro.

Cervi
É uma pena que as palavras escritas nem sempre permitam explicar-vos o que sinto. Deixo-vos com esta alternativa.

Taarabt
Vai ser giro voltar a vê-lo numa equipa que não esteja em auto-gestão. Até já, Adel.

Rafa
Penalti bem cavado e pouco mais. Valeu por ter contribuído para a fúria momentânea dos portistas, mas de pouco serviu.

Jota
Nada como perceber nos últimos minutos do último jogo da temporada que talvez o miúdo pudesse ter jogado mais do que 5 minutos por jogo. Mostrou uma coisa rara nos dias que correm: mais vontade de ganhar do que o adversário.

Vinícius
Muito bem o adjunto que não considerava este o jogo mais importante da época ao poupar o melhor marcador da equipa, para que este entrasse de férias com a máxima energia. Vinicius só cometeu um erro, que foi dar-nos esperança num desfecho menos infeliz.

Dyego Sousa
Deixem-me só acabar de beber este batido de cianeto e já vos digo o que achei da exibição do Dyego."

Um Benfica sem cor

"Lamento não poder elucidar o universo benfiquista sobre a magna questão que tem ocupado as mentes mais brilhantes nos últimos dias: que cor é aquela das novas camisolas? E não foi por falta de debate. Na primeira meia-hora da final de sábado, enquanto o Futebol Clube do Porto fazia gato-sapato daquele conjunto heterogéneo de jovens promessas do Seixal, gregos voadores, centrais na pré-reforma e avançados ligeiramente menos estáticos e tangencialmente mais eficazes do que torres eólicas, só tive olhos para as camisolas pois o que estava dentro delas não me pareceu digno da minha atenção.
A minha mulher, sportinguista inflexível, tentou ajudar-me a resolver a questão cromática, mas acabou por adormecer, creio que ainda antes do intervalo. Eu, para meu grande infortúnio, mantive-me desperto a assistir à parada de horrores parados e a pensar, à guisa de distracção, em “papaia”, “salmão”, “coral claro”, “tomate” e “terracota”. Imagino que a expulsão de Luís Diaz tenha animado alguns adeptos. Já a minha reacção fez-me lembrar a temporada que passei em Hiderabade, na Índia, quando anfitriões muito prestáveis me ofereciam comida que eu sabia ser insuportavelmente picante e acabava por aceitar com um sorriso de agradecimento contrariado e aquelas palavras de etiqueta: “não era preciso incomodar-se.” Bem sei que Soares Dias agiu correctamente, mas não era preciso incomodar-se.
Este ano, a final da Taça de Portugal teve a particularidade de ser disputada numa altura do ano que associo a serenos torneios de pré-época e a jogos amigáveis com equipas de cabeleireiros suíços do terceiro escalão e a inúmeras derrotas na Supertaça e tudo o que posso dizer em favor dos jogadores do Benfica é que eles estiveram à altura desses momentos, num futebol menos organizado do que as praias em tempos de pandemia com aquele perfume nostálgico do protector solar, de Piz Buin, do creme das bolas de Berlim, das sandes de ovo e dos pacotes de Compal de tutti-frutti. Se o jogo tivesse sido de dia, teria sentido falta da famosa bola da Nívea e das avionetas com tarjas publicitárias a sobrevoarem o campo e de Nélson Veríssimo, estendido numa toalha junto do banco, a soerguer-se, a fazer uma pala com a mão e a tentar decifrar a mensagem que naturalmente teria de ser: “adeusinho, man.”
Não quero ser severo, muito menos severíssimo, com Veríssimo, a quem coube a ingrata de guardar um corpo em avançado estado de decomposição à espera da chegada do delegado de saúde, um tal Jesus que é bom que tenha aperfeiçoado os dotes de ressuscitador. Mas era Veríssimo que estava no banco, também ele muito estival, sem nenhum do entusiasmo do interino que ainda sonha com o lugar e com todo o desinteresse ressentido dos jogadores que entram nos descontos quando a equipa está a perder por 3-0.
E o futebol que o Benfica jogou – chamemos-lhe futebol, por favor – foi nitidamente um futebol interino. É que há pouco eu dizia que o jogo me lembrava o período da pré-época, mas a verdade é que, na maioria desses jogos, sendo o futebol de fraca qualidade, há uma esperança seminal, como se estivéssemos a assistir ao nascimento, por vezes atribulado, de qualquer coisa. Neste caso, foi exactamente o contrário: o Benfica jogou como uma equipa em desintegração, um império outrora grandioso a desfazer-se em directo, um onze em, lá está, avançado estado de decomposição. Um Benfica interino, provisório, não como um estaleiro de obras de onde se espera que mais cedo ou mais tarde apareça uma coisa nova, mas provisório no sentido de precário, uma estrutura que ameaça cair ao mínimo toque.
Ontem, li no "Público" uma entrevista a um psicólogo que fez um estudo sobre a Guerra Colonial em que dizia que “os militares, quando chegavam para render outros, ficavam perfeitamente horrorizados com o olhar de louco e de perturbado dos soldados veteranos que iam embora” enquanto alguns dos veteranos olhavam para os “maçaricos” e pensavam “estás aqui todo impecável, fardado, cheio de energia, mas isto é o que te espera, vais ficar como nós.” E pensei que a equipa do Benfica que entrou em campo no sábado era uma mistura de “maçaricos” assustados e de veteranos cínicos e desgastados por anos de guerra que, de regresso a casa, se questionam sobre as razões para terem combatido e não encontram uma resposta satisfatória. Foi como se o Benfica tivesse ido para a batalha com um exército de pacifistas e objectores de consciência contra um inimigo que nunca perde tempo com considerações filosóficas sobre a natureza absurda da guerra.
Seferovic a tropeçar na bola como se lhe tivessem atirado uma granada para os pés, Nuno Tavares a avançar pelo flanco esquerdo como se procurasse negociar umas tréguas em vez de desferir um golpe no adversário, Dyego Souza a olhar para os céus não sei se a pedir clemência ou um milagre, Rúben Dias a chutar balões consecutivos como quem descarrega em pânico uma metralhadora para o vazio. Tudo triste, sem sentido, sem alma, como se nas veias daqueles jogadores não corresse o sangue vital, mas um líquido assim da cor indefinível das novas camisolas."

Será que o fair-play é a essência do desporto?

"Eric Arthur Blair, conhecido pelo pseudónimo Georges Orwell (1903-1950), escritor, jornalista e ensaísta inglês, disse que o “verdadeiro desporto não tem nada a ver com o fair-play. É cheio de ódio, de invejas, de não respeito das regras e do prazer sádico em olhar para a violência. Por outras palavras, é a guerra sem tiros”. É num artigo publicado na revista inglesa “Tribune”, de 14 de dezembro de 1945, que Georges Orwell mostra, com uma força devastadora, o carácter falacioso dos discursos sobre a nobreza do desporto.
“Eu fico sempre estupefacto ao ouvir as pessoas dizerem que o desporto favorece a amizade entre os povos (…). Ao nível internacional, o desporto é abertamente um simulacro de guerra”. Estas palavras têm que ser colocadas no seu contexto histórico, mas, de facto, algumas verdades antropológicas essenciais não devem ser esquecidas. Por um lado, o desporto tem uma relação nativa com o confronto. Por outro lado, tem (ou teve) uma função social de preparação para a guerra, estimulando e fortificando o corpo para o combate, ou seja, o tal “rebronzeamento da raça”, nas palavras de Pierre de Coubertin. A esta função junta-se a necessidade de criar os laços entre os membros de uma comunidade, pela exaltação de uma identidade colectiva.
Num outro texto, “Massacres por uma bagatela”, publicado na revista “Quel corps ?”, n.º 30-31, Junho de 1986, o filósofo Patrick Tort lembra que o “desporto tem duas lógicas: uma lógica de guerra e uma lógica de paz, e que a prática moderna do desporto não conseguiu evoluir no sentido da paz, apesar das declarações públicas mais universalistas e aparentemente mais afastadas do nacionalismo. “O desporto é uma guerra em miniatura”, reitera Michel Caillat, sua obra “Sport : l’imposture abolue” (2014) . A transgressão é a regra, a falta inteligente é, muitas vezes, saudada.
Ao contrário do que disse o filósofo Bernard Jeu (1929-1991), no seu livro “Le sport, la mort, la violence” (1975), a morte não é apenas simbólica e a violência limitada ou codificada. Ela pode ser real, como já aconteceu várias vezes. O futebol, o desporto mais popular, tem atingido por algumas catástrofes. Os estádios são locais propícios para a expressão de agressividade, de frustração e de afirmação identitária. Num universo concorrencial, o atleta, preparado física e mentalmente, deve estar motivado e ser dominador. Ele cultiva o “eu” (narcísico) e fixa os seus pensamentos num objectivo: ganhar. A violência, para muitos autores, é a essência do desporto e não o fair-play, isto é, o respeito pelas regras e pelo adversário."

domingo, 2 de agosto de 2020

“O Jesus dava muitas duras ao Matíc, ao Jardel, ao Nelson Oliveira por fechar os olhos e encher o pé. Ao Aimar dizia: ‘Já sabes tudo’”

"David Simão fez toda a formação no Benfica mas nunca conseguiu impôr-se na equipa principal, onde sente ter sido mal-tratado por António Carraça, ainda jovem. Acabou por estabilizar três anos em Arouca, depois de passar pelo Fátima, Paços de Ferreira, Académica e Marítimo. Mas foi com o início da aventura lá fora, na Bulgária, Bélgica, Grécia e Israel, que conseguiu amealhar o suficiente para tentar dar um futuro desafogado à família. Com a vida em suspenso, apesar de ainda ter contrato com os gregos do AEK, diz que o seu futuro passará sempre pelo futebol, embora esteja a estudar a hipótese de abrir um sítio especializado em francesinhas, na capital

Nasceu em França mas viveu lá pouco tempo.
Exactamente, vim bebé, tinha um ano.

O que faziam os seus pais quando nasceu?
O meu pai era construtor civil e a minha mãe doméstica.

Para além do seu irmão Bruno Simão que também é jogador, tem mais irmãos?
Sim, uma irmã mais velha.

Quando vieram para Portugal foram viver para onde?
Fomos viver para a Abóboda, na zona de São Domingos de Rana.

A infância foi toda passada aí. Gostava da escola?
Nem por isso [risos]. Nunca fui um aluno muito exemplar e nunca gostei muito da escola. Mas era um miúdo calminho, gostava era muito de jogar à bola, de resto não era de armar muita confusão. O meu irmão foi o pior de nós os três.

O que dizia que queria ser quando fosse grande?
Desde a escola que era ser jogador. É aquela inocência de criança de vermos na televisão e de um dia querermos estar ali. Nunca a pensar que podia tirar dividendos, ganhar dinheiro com o futebol, mas na ingenuidade de gostar daquilo que via, de jogar à bola que era o que fazia na escola e de querer ter pessoas a ver-me jogar à bola.

Quem eram os seus ídolos?
Nunca tive grandes ídolos. À medida que vou crescendo vou olhando com mais atenção para os jogadores. Sei lá, o Zidane, o Figo porque era português, apesar de não ser da minha posição, o Rui Costa, esses jogadores mais mediáticos, mas um dia era um, no outro dia era outro.

Era adepto de que clube?
Sempre do Benfica. Quando nasci o meu pai e a minha mãe já eram ferrenhos pelo Benfica, depois passou para a minha irmã, para o meu irmão e, quando crescemos nesse meio, vamos na corrente. 

Costumava ir ver a bola?
Sim, costumávamos ir ao estádio da Luz em família ver os jogos. Depois o meu irmão entrou para o Benfica com uns nove anos; eu tinha cinco e com essa idade já andava ali no meio do Benfica. Comecei a ter memória do viver dentro do clube muito cedo.

Mas começa por jogar no Abóboda, não é?
Exactamente. Aquilo era ao lado da minha casa. O meu pai também era lá meio treinador e pronto acabou por levar-me. Eu conhecia as pessoas, eram pessoas com quem privava no meu dia a dia, era um clube muito familiar a um minuto de casa, até podia ir a pé.

Isso com que idade?
Com seis já estava na equipa mas só pude jogar uns joguitos. Agora há muitas escolinhas onde começam com três ou quatro anos, na minha altura, não. As escolinhas de competição começavam com nove anos, eu tinha seis mas quando fiz sete comecei logo na competição. Nas escolinhas do Benfica.

Como se dá a passagem para o Benfica?
Eu saía da escola e nunca tive em ATL's, nem queria, preferia ir com a minha mãe aos treinos do meu irmão. Enquanto ele treinava, eu dava uns chutos atrás da baliza, levava sempre a minha bola ou pedia uma emprestada, já era uma cara familiar ali, e eles começaram a ver que eu podia ter algum jeito. Também havia os olheiros nos clubes e já me tinham visto jogar no Abóboda. Foi assim, de forma natural. Juntado os olheiros com o que eles iam vendo naqueles treinos, falaram com os meus pais e perguntaram se eu não queria começar no Benfica, porque achavam que eu tinha muitas possibilidades de ficar. Fiz um treino e fiquei.

Fez toda a formação no Benfica. Chegou a viver no centro de estágios do Benfica?
Eu fiquei no Seixal mais tarde, já era juvenil. Tinha uns 15 anos, lembro-me que ainda estava na escola. Levantava-me às sete e meia, ia à escola, quando saía a minha mãe deixava-me no comboio, mas depois ainda tinha que apanhar o barco para o Seixal, treinava e voltava a altas horas. Andava cansado e um dia disse à minha mãe: "Se quero fazer disto vida eu assim não estou a aguentar. Nem consigo treinar em condições, nem consigo estar na escola em condições, quero ir viver para lá". E fui.

Como foi sair da casa dos pais, sair do ninho?
Ao início é um choque. O chegar ao fim do dia e não estar com os meus pais, com os meus irmãos, coisa a que estava habituado, foi difícil, mas o resto foi bom. Eu já conhecia toda a gente, vivia com jovens da minha idade que gostavam de brincar, gostavam de jogar PlayStation, gostavam de fazer traquinices, ou seja, era quase uma brincadeira diária. Almoçamos com os nossos colegas, jantamos com os nossos colegas.
Usando as suas palavras, qual foi a maior traquinice que fez?
Foi faltar à escola para ir ao cinema uma vez, no Seixal. Fui logo castigado por causa disso e fiquei cheio de medo.

Ainda se lembra qual era o filme?
[riso] Não, não me lembro qual era o filme. Mas lembro-me qual foi o filme que me fizeram [risos]. O António Carraça fez-me um filme que até pensei que tinha matado alguém. Mas sentia que era uma coisa mais pessoal, como veio a confirmar-se. Sempre tive problemas com o António Carraça, o meu irmão teve problemas com ele também… Mais tarde, na equipa B, foi ele que me afastou - apesar de eu também não querer ficar na equipa B -, mas foi ele que me afastou na equipa B.

Percebeu a razão?
Não, mas também não tenho interesse. Se há pessoa que não tenho interesse em falar no meio do futebol, e acho que deve ser a única, é ele. Porque foram ditas coisas completamente fora do contexto que não me esqueço. Bem sei que nós muitas vezes temos atitudes reprováveis, como essa de não ir à escola e ir ao cinema, mas eu era uma criança com 15 anos. Senti sempre que aquilo era uma coisa pessoal e mais tarde veio-se a comprovar, porque eu já era um homem feito, já tinha jogado na primeira divisão, e, na equipa B, voltou a tentar humilhar-me perante todos os jogadores.

Conte lá isso melhor.
Foi um ano em que comecei a pré época com a equipa B, antes já tinha feito parte da equipa principal do Benfica, entretanto tinha sido emprestado à Académica. Quando regresso no fim da época, não ia fazer a pré-época com a equipa principal, mas também não queria ficar na equipa B, porque tinha jogado na I divisão, tinha acabado de ganhar a Taça de Portugal. E falei com o mister Norton de Matos, porque por um breve período foi proibido o empréstimo entre equipas da I divisão. Eu já tinha mais ou menos as coisas alinhavadas com o Marítimo, mas nesse mês, enquanto as coisas não ficaram resolvidas, comecei a pré-época na equipa B do Benfica. Estava lá o Miguel Rosa, que também tinha a intenção de sair, e eu comentei com ele: “Já sei que vou sair, esta lei não vai seguir em frente e portanto já tenho as coisas mais ou menos alinhavadas com o Marítimo". Não sei o que é que foi dito depois por trás, mas um dia antes de um treino, eu até já estava equipado, o António Carraça entrou no balneário, quis fazer uma reunião e disse uma série de coisas: "É preciso ter valores para jogar no Benfica, coisa que tu não tens, estás a tentar desestabilizar os teus colegas para ninguém querer ficar na equipa B". Eu nem tive oportunidade para me defender porque ele falou, falou, falou e disse "Agora podes desequipar-te e ir embora".

O que fez?
Na altura eu tinha uma boa relação com o Rui Costa, é uma pessoa que dispensa apresentações, e eu até já tinha falado com o Rui e ele, o António Carraça, ainda disse: "Se quiseres vai falar com o teu amiguinho Rui, fazer as queixas que quiseres, mas aqui no Benfica não treinas mais, podes tirar o equipamento". Não me chamou à parte, não tentou perceber o que é que se estava a passar... tentou logo humilhar-me em frente aos meus colegas. Felizmente consegui falar com o mister Norton de Matos e ele percebeu, porque eu disse-lhe: “Fui sempre muito claro, não quero ficar ficar na equipa B mister, eu joguei na equipa principal, joguei na I divisão e a minha intenção é continuar na I divisão, já tenho as coisas mais ou menos fechadas com o Marítimo”. Íamos jogar a Liga Europa, era um projecto que achei que era bom para mim. "Enquanto eu estiver aqui, você pode contar comigo - porque era um projecto muito inicial, a equipa B - para ajudar no que for preciso, já sou dos que têm mais experiência - era um dos capitães na pré época, eu e o Miguel Rosa -, agora, a minha intenção não é continuar". E como tive sempre essa abertura com o treinador, ele percebeu o que se estava a passar. Expliquei-lhe que tinha falado com o Miguel Rosa, não com o intuito de ele sair, mas ele perguntou-me e eu fui completamente aberto com ele. As coisas com o treinador e com todo o staff do Benfica ficaram bem esclarecidas, menos com esse senhor. Disse muita coisa de que não me esqueci.

Como por exemplo.
Já na altura em que ele me castigou quando eu era miúdo, disse-me: "Tens dois anos de contrato de formação, meto-te a treinar à parte nesses dois anos e se no fim desses dois anos alguém te quiser, eu passo as informações todas negativas a teu respeito". Como é óbvio eu com 15 anos, senti-me com muito medo, em choque, fartei-me de chorar nesse dia. Ele até proibiu-me, e aí tudo bem compreendo, de ir a casa, mas o que foi dito... E no fim, em tom de brincadeira, ainda disse: "Olha, vais jogar para o Povoense com o teu irmão, ele faz cruzamentos para ti. É o que vocês dois merecem" e coisas assim deste género que não têm nada a ver. Portanto é uma pessoa de quem não guardo boas recordações. Felizmente, a maior parte das pessoas partilham da mesma opinião que eu, pelo menos as pessoas com quem falei e que privaram com ele.

Estava a dizer que fez a sua formação quase toda no Benfica, qual foi o treinador que mais o marcou nesse período e porquê?
O José Paisana, porque foi o primeiro no Benfica e porque tinha um discurso bom. Hoje sou pai e consigo entender. Hoje um dos problemas do futebol de formação são os pais e ele chamou-os logo e disse-lhes: "Vocês são os pais e mandam nos vossos filhos, mas para dentro deste portão quem manda somos nós. Portanto não quero ver por fora os pais a dizer vais para a esquerda, vai para a direita, aqui quem manda somos nós”. Deu logo um passo muito importante para a nossa formação enquanto homens. Havia regras, como na vida há regras, e havia regras a partir dos nove anos e tínhamos essas regras muito claras na nossa cabeça. No início de formação é muito mais importante formar o homem do que o jogador, porque estamos ali para nos divertir, é claro que já começamos a ter alguns conceitos de futebol, e no Benfica, Sporting ou Porto muito mais, porque é uma formação diferente, como é no Braga hoje em dia, mas acho que é muito mais a formação de homens, e por isso esse treinador marcou-me. Depois fui tendo alguns bons treinadores, o mister João Couto, o João Paulo, que está agora no Canal 11 a comentar e que esteve em Angola... Tive o mister Bruno Lage. Lembro-me de um episódio em que ele pedia ao Romeu Ribeiro, que está no Penafiel, para me dar porrada de propósito porque achava que eu era muito molinho, e então que tinha que ganhar um bocado de nervo, de sangue [risos]. Eu dizia-lhe: "Então mister o que é isto?! Eu nem tinha bola...". E ele: "Contigo eles podem fazer o que quiserem" [risos]. Mais tarde comecei a perceber exatamente aquilo que ele queria com aquela atitude.

Tem mais algum episódio de relevância durante a formação?
O último ano de júnior, em que o campeonato coincidiu com uma invasão de campo em Alcochete, marcou-me pela negativa porque era um ano que... Eu nunca fui campeão nacional na formação e, nesse ano, nesse jogo, precisávamos de um empate. Aos 25 minutos, que foi mais ou menos quando o jogo foi interrompido, estávamos empatados e portanto não conseguimos ser campeões não por culpa própria mas de terceiros. Acabaram por entregar o título ao Sporting, porque disseram que a culpa era dos adeptos do Benfica que tinham invadido Alcochete. Portanto, se calhar esse episódio não me deixou ganhar um título nacional e obviamente isso marca.

Quando assina o primeiro contrato e começa a ganhar dinheiro com o futebol?
No Benfica, como júnior, tinha 17, 18 anos. Mas tive contrato de formação; com 15 anos já recebia uns €250, se calhar.

Recorda-se do que fez com o primeiro ordenado?
Eu guardava o dinheiro para comprar prendas e jogos. Até ali eram sempre os meus pais que me compravam tudo e então eu ficava orgulhoso de poder comprar os meus jogos, a minha roupa por vezes. Acho que foi muito por aí. Lembro-me também de dar uma prenda à minha irmã, assim mais cara, e ficar super orgulhoso. Aliás ainda hoje sou muito mais de dar, do que de receber.
Quando começam os primeiros namoros e as primeiras saídas à noite?
Se calhar por volta dessa altura, com 14 anos. Na escola onde eu andava, antes de me mudar para o Seixal, comecei com os namoricos, nada de muito sério. Nunca fui muito de sair à noite, só quando comecei a ter idade para isso, idade legal; até lá tinha ido àquelas matinés que iam até à meia noite, com colegas que estavam mais habituados do que eu. Para mim aquilo era uma loucura, sair até à meia noite [risos]. A minha mãe estava à minha espera fora da discoteca. Mais a sério, só quando tive idade, com 18 anos. Mas, como disse, nunca fui muito de sair à noite, até porque conheci a minha mulher tinha 17 anos.

Como é que ela se chama e onde é que a conheceu?
Chama-se Lara e conheci-a através de uma colega que é a mulher do Josué [jogador de futebol]. Nessa altura, elas viviam juntas. O que ela fazia, estudava? Não, já trabalhava, ela é oito anos mais velha do que eu. Trabalhou alguns anos na noite e também em lojas. Quando eu tinha 17 anos ela já conduzia, levava-me aos treinos e esperava por mim.

Quando é chamado pela primeira vez à equipa principal do Benfica e por quem?
Acho que foi pelo mister Camacho. Com ele fui convocado para alguns jogos, lembro-me de fazer uma eliminatória com o Getafe para a Taça UEFA, fomos eliminados, ainda com a equipa do Rui Costa, Di Maria, Makukula, Nuno Gomes...

Como foi entrar pela primeira vez no balneário sénior?
Era um sonho para mim. Cresci a ser do Benfica, cresci a ser apanha-bolas no estádio. Portanto, para mim, estar ali com essas figuras todas, era estar a viver um sonho. Claro que jogar era o que eu queria, mas só entrar no autocarro, ter aquela festa toda - o Benfica, como é sabido, move muita gente, nos jogos aonde vai tem sempre os estádios cheios - e portanto para mim era sempre uma satisfação estar ali. Ver aquela multidão, sempre à nossa espera, ficava super orgulhoso de mim próprio e depois era sempre um desfrutar do dia-a-dia.

Não foi praxado?
Tiveram algumas brincadeiras, nomeadamente uma que já contei algumas vezes, do autocarro. Um dia íamos jogar, eu entro no autocarro, salvo erro era a primeira vez que estava a viajar com a equipa, fiquei em pé durante algum tempo e depois perguntei onde é que me podia sentar. Apontaram para aqueles lugares de quatro que têm uma mesa, disseram-me: "Eh pá senta-te aqui, estás à vontade". Era o Nuno Assis e o Nuno Gomes e já não me lembro se também o Quim, eram daqueles com mais moral. Estava um lugar livre e eles: "Senta-te aqui". Eu naquela inocência sentei-me. Quem é que faltava? O Rui Costa [risos]. O Rui Costa entra, o lugar que eu tinha ocupado era de costas para a entrada, eles começam-se a rir, eu começo a achar aquilo estranho, olho para trás, está o Rui Costa de mãos na cintura: "O que é que estás a fazer, miúdo?!". "Ah, eles disseram que eu podia sentar aqui...". "Sabes quem é que é aí?". "Você", que na altura tratava-o por você. "Sou. Vá sai daí senão nunca mais cá pões os pés. Põe-te a andar". Fiquei vermelho, fiquei de todas as cores [risos].

Estava a contar que foi chamado pelo Camacho e fez alguns jogos com ele. Chegou a apanhar o Chalana e o Fernando Santos?
Nesse jogo, de que estava a falar de Getafe, o treinador já era o Chalana e depois deixei de ir. Com o mister Chalana fui a esse jogo, porque já vinha a ser convocado há uns cinco, seis jogos consecutivamente. Mas depois deixei de ir e já não apanhei o mister Fernando Santos. Fiz alguns treinos com o mister Quique Flores, não me lembro se cheguei a jogar com ele, mas ainda treinei com ele.

Notou muita diferença entre o Quique Flores e o Camacho?
O Camacho era mais afável, de melhor trato. Pelo menos para mim, enquanto jovem, o Camacho falava mais comigo. O Quique Flores, com aqueles jogadores mais velhos, com mais moral...Também me parecia uma pessoa acessível, mas comigo, o mister Camacho pareceu-me mais próximo. Aliás, eu comecei a ser chamado depois de lhe ter dado uma bolada na cara.

Como assim?
Estávamos a fazer um jogo de treino de juniores contra seniores, eu atirei a bola à cara sem querer, ele ficou com a cara vermelha e eu fiquei outra vez de todas as cores [risos]. Fui lá a correr: "Ei, desculpe mister". "Vá lá, não é nada, segue, segue". Se calhar foi com a potência da bola, ele gostou do meu pé esquerdo e começou a chamar-me [risos].

Na época seguinte volta aos juniores com o João Alves.
Sim.

O que achou dele como treinador?
Achei que não era um treinador de formação. Acho que há treinadores de formação e treinadores de homens, de seniores. Acho que ele não é um treinador de formação. Tem mais jeito para lidar com homens. Eu já o conhecia, o meu irmão jogou com o filho dele, com o Ivan, e eu já o conhecia. O meu pai, que era da construção, teve alguns negócios com o João Alves. Mas fiquei sempre com um bocadinho de mágoa digamos, porque, lá está, algumas pessoas falavam que eu mais tarde podia ser jogador do Benfica, mas depois nas duas fases finais de júnior, numa delas fui o melhor marcador da equipa, não jogava. Aconteceu-me isto duas vezes com ele, e portanto fiquei com uma mágoa grande com ele, porque depois também soube que na transição para seniores, com o Rui Vitória, ele tentou levar outro jogador para lá. Pediram-lhe informações sobre mim, porque ele tinha sido o meu último treinador, e ele tentou que levassem o Leandro Pimenta. Disse que eu era muito conflituoso, tinha um feitio mais difícil. Felizmente, o mister Rui Vitória continuou com a ideia de vir buscar-me. Acabámos por fazer um excelente ano no Fátima e continuei com o Rui Vitória, no Paços de Ferreira.

Quando vai para o Fátima, ficou desiludido por não ter sido chamado à equipa principal do Benfica? 
Tendo em conta que essa fase final passei toda sem jogar, já não esperava. Se nos juniores não jogo, como é que vou fazer uma pré época com os seniores? Tirou-me um bocadinho dessa ambição e dessa expectativa. Eu estava até com algum receio de como iria ser o meu futuro. Acho que é um ano importante, o da transição de júnior para sénior, e tinham sido uns meses muito difíceis para mim. Estava com medo de não arranjar nada, ou de ser algo ainda mais abaixo do que a II liga. Mas acabamos por fazer um excelente ano e ficámos em 7.º ou 8.º lugar, salvo erro.

Vai sozinho para Fátima ou com a namorada?
Nessa altura já estava com a Lara; ainda não vivíamos juntos, mas namorávamos. Eu fiquei a viver em Lisboa. Ia e vinha diariamente como quase a equipa toda.

Com que opinião ficou do Rui Vitória?
É uma pessoa excepcional. Ajudou-me bastante nessa fase de transição de júnior para sénior, joguei sempre com ele. Joguei numa posição que nem era a minha, como extremo-direito, um falso extremo-direito. Como treinador fez excelentes trabalhos e por isso é que está onde está e chegou onde chegou. Tinha uma equipa técnica também espectacular, com o mister Arnaldo Teixeira, mais tarde o Sérginho, que durante a época jogava connosco e que depois acabou por integrar a equipa técnica do mister Rui. Estivemos dois anos seguidos juntos. Ele levou-me para Paços de Ferreira, diziam que era meu pai [risos]. E acabou por me dar essa mãozinha.

E para Paços também foi viver sozinho ou já foi com a namorada?
Aí já fui com a Lara. E nasce o Martim, o meu primeiro filho, quando estava em Paços. Ou seja, há nove anos.

Assistiu ao nascimento do seu filho?
Assisti, sim. Foi depois de um jogo em Alvalade, há muitas pessoas que falam das luas, de quando é lua cheia que vai nascer, e eu estava a ver o relvado, já não me lembro com quem, olhámos para cima e um deles disse: "Olha está lua cheia, ainda vais ter o teu filho enquanto estás a jogar aqui". "Não, ele espera que eu chegue e depois nasce, não te preocupes". Curiosidade: no dia a seguir era folga, fomos para uma consulta de rotina e quando chegamos lá de manhã a médica disse: "já trouxe as coisas todas para ter o Martim?". “Não, não trouxemos nada". "Então fazem assim, vão até casa, vão almoçar e por volta das três horas estejam aqui". Fomos, almoçámos no shopping lá em Paços, ainda apanhámos dois ou três colegas e eles perguntaram à minha mulher: "Então quando é que vai nascer?". E ela disse-lhes "Vai nascer daqui a nada" e eles começavam-se a rir. Chegámos lá às três e às 20h45 já tinha nascido. Os dias do nascimento dos meus filhos, foram os melhores dias da minha vida. Dias que tenho guardados quase minuto a minuto. Este dia aconteceu há nove anos e lembro-me perfeitamente onde é que fomos, a que horas fomos, como fomos, são coisas que estão bem marcadas nas minha cabeça.

Foi a sua primeira época na I divisão. Era o que estava à espera ou achou mais difícil do que que supunha?
Achei que ia ser muito difícil do que na realidade foi. Talvez pela conjuntura, foi um "casamento". O clube era super familiar, eu já tinha muito à vontade com a equipa técnica. Quando nós sabemos que o treinador confia… Só para dar um exemplo: eu escolhi o número 21, que era o número que tinha no Fátima, e o mister Rui Vitória disse "não, tu vais ser o número 10". Foi ele que me atribuiu o número. O número 10 é sempre o número com mais peso e era a minha primeira época na I divisão, era um rapaz quase desconhecido. Porque há uns anos a formação não tinha o eco que tem hoje em dia. Hoje, um jogador dos juniores toda a gente conhece em Portugal, porque é falado nos jornais, e vai para aqui e tem propostas de 10, 15 milhões, sobretudo do Benfica, mas na minha altura era-se muito desconhecido. E só aquele gesto passa logo confiança. E depois apanho um grupo fantástico, com que mantenho contacto até hoje. O Pizzi, o Nelson Oliveira, o André Leão, tantos... o Olímpio, o Manuel José, o Filipe Anunciação, que agora é adjunto do Petit. Tenho ali um misto de pessoal já mais velho e de jovens que ligou muito bem. Perdemos a final da Taça da Liga, mas foi uma excelente época.

Depois do Paços de Ferreira o que aconteceu? O Benfica chamou-o?
Sim, nesse ano fiz parte do plantel.

Com o Jorge Jesus.
Sim.

Que tal?
Muito bom. Levei muitas duras, mas acho que ele está melhor em tudo o que lhe apontavam, que era a questão do feitio.

Por que razão levou muitas duras dele?
Porque ele é muito de detalhe. Àquele nível, sem desprezar os outros clubes, para ele era inconcebível um avançado estar à frente da baliza, fechar os olhos e encher o pé. Para ele isso não existe. Ele dizia muitas vezes ao Nelson Oliveira, que era bem mais novo e vínhamos os dois de Paços de Ferreira: "Ó Nelson, isto já não é o Paços de Ferreira, já estás noutro nível". Ele dá muitas duras, porque depois não gosta de repetir. Ele acha que, estamos no Benfica, eu não tenho que estar a explicar como se estivesse na II ou III divisão. Ali o nível é alto, a exigência dele é alta, ou seja ele dizia muitas vezes ao Aimar: "A diferença de ti para os outros, é que eu para ti não preciso de explicar, tu já sabes. E há alguns a quem tenho de explicar duas e três vezes". E era esse explicar duas e três vezes que o tirava do sério, não era o ensinar, porque o ensinar ele gosta e tem prazer depois de ver as coisas replicadas no jogo, mas chateava-se muito ter de explicar consecutivamente e os erros voltarem a ser os mesmos. Ele até ao Mika... Num exercício faltava-nos um defesa esquerdo e o Mika, o guarda-redes, foi para defesa esquerdo e ele deu-lhe um berro: "Mika, tu não estás a ver que estás a meter toda a gente em jogo, olha a linha". Ele era um guarda-redes [risos]. Mas a exigência dele e o estar tão vidrado no treino e tão no pormenor... Seja quem for, ou melhor, não é bem seja quem for.

Como assim?
Porque há alguns que é preciso chamar muito menos a atenção do que outros, até pelo estatuto que têm. O Luisão já sabia de trás para a frente aquilo que ele queria, portanto, por vezes, podia falhar aqui ou ali, mas não era chamado à atenção como é óbvio, pelo estatuto. Mas, por exemplo, lembro-me que o Jardel e o Matic sofreram bastante até serem o Jardel e o Matic de hoje. Se o jogador perceber que não é uma coisa pessoal, porque depois podemos debater ali com ele dois, três minutos, e está tudo bem a seguir, a seguir ele está a dar um abraço e acabou. Portanto, se o jogador conseguir perceber que isto é o feitio de querer ganhar, de querer a perfeição e às vezes um bocadinho de falta de paciência mas, se nós percebermos isto e não levarmos para o lado pessoal, vamos perceber que é uma forma de estar no futebol, não é pessoal. Ele tem aquelas ideias e enquanto elas não forem atingidas, aquele patamar não for atingido, para ele não está bom. Está a ganhar 4-0 e continua a gritar.

Mas disse que ele entretanto mudou…
Sim, ele está melhor, fui vendo algumas entrevistas dele e ele falou sobre isso, sobre a forma de estar dele. Depois da passagem pela Arábia Saudita, ele percebeu que tem um papel nos jogadores e nas equipas muito maior que aquilo que ele achava que tinha. Na Arábia Saudita foi chamado à atenção porque pagavam-lhe tanto dinheiro e ele não podia ter atitudes daquelas, tinha que ser também um exemplo para as crianças, para toda a gente. Acho que isso acaba por marcá-lo positivamente. E a forma como ele se despede agora do Flamengo, a forma fácil como ele diz aos jogadores "amo-te", não é o Jorge Jesus a que nós estávamos habituados aqui no Benfica, muito mais frio, muito mais distante, muito mais dos mind games. Acho que hoje é muito mais humano, chegado aos jogadores, acho eu.

Estava à espera que JJ regressasse ao Benfica tão cedo?
Eu acho que era uma vontade dele muito grande. Acho que ele assim que saiu do Sporting, sempre teve vontade de voltar ao Benfica.

Porquê?
Ele é muito competitivo e é muito de família também. É muito patriota também, portanto ele está mais perto de ganhar hoje em dia, se estiver no Benfica do que se estiver no Sporting, certo? Ele sabe que o Benfica vai ter muitas condições, e ele cá está próximo da família, porque ele vive a 20, 15 minutos do Seixal. Há ali uma conjugação de factores. E ele sempre nos dizia: "Já tive propostas do Milan, já tive propostas..." Ele não se sente benfiquista, vamos assumir isso, mas sempre teve o Benfica em grande consideração. Eu também não sou portista, mas era um orgulho jogar no FC Porto. Não sendo portista, respeito o Futebol Clube do Porto, é um excelente clube, um dos maiores clubes em Portugal, se não for o maior nestes últimos anos. E ele sempre reconheceu grande valor ao Benfica. Fala-se que vem ganhar um grande salário, mas se fosse por dinheiro, ele tem muitos outros clubes que lhe pagam muito mais do que o Benfica, muito mais. Agora é óbvio que está num patamar alto, como é o Flamengo, não pode vir para o Benfica só por amor à camisola, tem que ter algumas condições para voltar. Como, por exemplo, o salário. E se o Benfica acha que é compatível, acho que sim, acho que é um bom casamento. Se calhar exagerou uma ou outra vez nas palavras que proferiu, mas temos de perceber, ele estava a defender um clube e muitas vezes para ficarmos bem com o nosso clube...

O que quer dizer com isso?
Quando ele falava bem do Sporting e metia o Sporting acima do Benfica, para os adeptos do Sporting ele estava a fazer uma super coisa, estava quase a rebaixar o Benfica. Mas ele naquela altura tinha que defender os seus e tinha que atacar os outros porque é a forma dele estar. Não tenho dúvidas nenhumas que ele hoje no Benfica se tiver de rebaixar o Sporting que é o clube dele, o vai fazer e vai defender o Benfica. Ele foi sempre profissional por onde passou, pelo menos é a ideia que eu tenho. Gostem mais, gostem menos, ele foi profissional. E ao que se sabe ele não sai do Benfica por vontade própria. O Benfica entendeu que tinha acabado um ciclo, entendeu assim e ele teve que seguir a vida dele. E por ser patriota, se calhar na altura tinha outras opções, mas pensou: estou aqui num grande clube também, estão a dar-me um grande salário, estou perto da minha família, vou trocar porquê? Vou sair do meu país para quê? Eu acho que as pessoas que falam, podemos discutir depois a forma como foi feito, mas as pessoas que falam, 90% se tivessem na mesma situação, tinham decidido de igual forma.

O David acaba por fazer só dois jogos com ele.
É por isso que pedi para sair. O Benfica tinha uma super equipa e estar ali ao lado do Pablo Aimar, Saviola, Rodrigo, Cardoso...

Era uma concorrência de peso.
Exactamente. Há algum tempo saiu qualquer coisa que eu disse que os jogadores do Benfica, estes jogadores, não tinham lugar na minha equipa do Benfica. Atenção que eu não me referia a todos, como é óbvio. Não me referia a todos, mas acho que é simples se olharmos para uma equipa e para a outra e ver que havia mais qualidade na altura. Mas claro que o Pizzi cabe em qualquer equipa.

Pede para sair do Benfica, vai para a Académica e ganha a Taça de Portugal, com o Pedro Emanuel como treinador.
Sim. Para mim foi o dia mais feliz da minha carreira desportiva.

Gostou do Pedro Emanuel como treinador?
Bastante. É alguém super humano, por isso as coisas tornam-se mais leves durante o ano. Gostei muito de trabalhar com ele.

Foi viver para Coimbra?
Fui, mas fui sozinho.

Então?
Porque eram seis meses e, na altura, a minha mulher estava a trabalhar e achámos que não fazia sentido. Não era um contrato de longa duração, não fazia sentido ela perder o trabalho.

A vossa base era em Lisboa?
Na Charneca da Caparica.

Entretanto, regressa à equipa B, mas já tem as coisas encaminhadas com o Marítimo, como já contou, e há o episódio com o António Carraça. Para o Marítimo também vai sozinho ou leva a família? 
Depois, fui sempre com a família.

Gostou do Pedro Martins como treinador?
Sim, outro bom homem, com uma sensibilidade boa para jogadores. Também tem feito excelentes trabalhos, a nossa equipa jogava muito bem.
Dessa época no Marítimo o que é lhe ficou marcado?
Foi jogar a fase de grupos da Liga Europa. Foi a primeira vez em que participei activamente, porque por vezes estamos no plantel, como era o caso no Benfica, mas depois não jogamos e acabamos por nos sentir um bocadinho "um peixe fora de água". Mas ali eu joguei mesmo a fase de grupos da Liga Europa. E jogar numa competição que não é a maior de todas, mas é uma competição importante, jogar em estádios como o Newcastle em Inglaterra com um ambiente fantástico, foi o que mais me marcou.

Como surge o Arouca? É convite do Pedro Emanuel?
Sim, foi um convite do Pedro Emanuel. Para ser sincero, eu não aceitei porque já tinha a ideia de sair para fora, pela questão monetária como é óbvio, mas também para experimentar coisas diferentes... 

Acabava o contrato com o Benfica?
Não, ainda não acabava esse ano e por isso é que fui "obrigado" a passar o contrato de três anos, que ainda tinha, para o Arouca.

Quando diz "obrigado" o que é que isso quer dizer?
Quer dizer que eu inicialmente não queria ir para o Arouca. Era um clube que nunca tinha estado na I divisão, ou seja, era uma incógnita muito grande. Eu não conhecia nada do clube, que podia subir ou descer, e eu não tinha interesse. Era um clube que na verdade não me atraía. Depois, estavam algumas situações a andar, monetariamente muito melhores para mim.

Para onde?
Na altura, estava a falar com um clube da Rússia. Um projecto maior, que me iria dar uma estabilidade financeira que nunca tive em Portugal. As pessoas têm uma ideia errada do que é jogar na I liga, acham que os jogadores ficam ricos, mas não é nada disso. Veja agora o caso do Aves, infelizmente. Se calhar, há jogadores que passam dificuldades ao fim do mês para poderem dar comida às famílias. Mas, estava a dizer, foi a única solução que o Benfica me deu: foi mandar-me para o Arouca ou então voltar à equipa B. Preferi ir para o Arouca e tentar fazer uma boa época para dar o salto. A verdade é que não aconteceu: fiquei três anos em Arouca, excelentes pessoas, uma vila muito simpática, tive ali bons momentos, pude estabilizar com a minha família e durante três anos estivemos todos juntos e não andei com a casa às costas como tinha andado até ali. Aliás, foi o clube onde joguei mais anos seguidos, tirando a formação do Benfica. Acabo por sair em grande, com uma qualificação para a pré-eliminatória da Liga Europa, pois ficámos em 5.º lugar.

Com o Vidigal não foi?
Sim, com o mister Lito, que acaba por ser quase campeão. Em Portugal uma equipa como o Arouca ficar em 5.º lugar é como ser campeão.

Muito diferente o Lito Vidigal do Pedro Emanuel?
Sim, bastante. Um treinador já mais distante, trabalha muito, um volume de trabalho muito grande, são treinos de duas horas, duas horas e meia por vezes. Mas a verdade é que deu excelentes resultados. Nunca podemos dizer que nunca mais vai acontecer, mas ficar em 5.º no Arouca... não perspectivo que seja do dia para a noite.

Quando acaba essa época já estava em conversações com o CSKA, da Bulgária?
Na verdade, foi um bocadinho ir para onde havia. Fiquei um bocado desiludido com os projectos que me apareceram. Não apareceu nada de especial; poderia ter continuado em Portugal, mas a minha vontade era mesmo sair, era a primeira vez que me via sem contrato e portanto nós perspectivamos: acabas um época, és 5.º lugar no Arouca pensas, bem, vai-me aparecer alguma coisa boa. E a única coisa que me apareceu de melhor foi o CSKA. Acabei por ir.

Como foi o primeiro impacto quando chega à Bulgária?
Eu tinha lá colegas, isso amenizou um bocadinho o impacto. Tinha colegas que vinham de um clube, o Litex, que se uniu com o CSKA, ou seja, eles vinham de uma cidade que era quase fantasma e depois chegaram a Sofia, a capital, e disseram-me que era bom. Foi giro, foi a nossa primeira experiência familiar fora, a minha filha acabou por nascer nesse ano.

Nasceu na Bulgária?
Não, nasceu em Portugal e também consegui assistir ao parto. Deram-me permissão para me ausentar dois, três dias. O Martim ficou com as mulheres dos meus colegas Rui Pedro e Arsénio, porque não fazia sentido estar a fazer a viagem com ele para estar dois dias e voltar. A minha mulher é que tinha ido para Portugal ter a Maria. Curiosamente, no jogo antes do parto, lesiono-me, uma lesão que ia-me dar para algum tempo. Tive que dizer uma mentirazinha à minha mulher para fazer-lhe a surpresa. Disse-lhe que ia ser operado ao tornozelo, que ia desligar o telefone durante umas horas. Falei com os meus colegas e pedi-lhes para lhe ligarem a dizer que a operação tinha corrido bem e tal, isto enquanto eu voava. Ela ficou super contente quando me viu. Já tinha tudo combinado com a mãe, para ser a mãe a assistir ao parto, mas claro quando cheguei, fui eu porque são dias que...O futebol dá-nos algumas e tira-nos muitas coisas. Essa era uma coisa que eu não queria perder. Desde cedo, falei com o meu treinador e com os responsáveis do clube e disse que era um dia que não iria perder quer me deixassem, ou não. Mesmo que me fizessem pagar multa, eu assumiria a responsabilidade, mas queria estar presente no dia de nascimento da minha filha, caso não tivesse jogo. As pessoas perceberam e não houve problema.
Adaptou-se bem ao futebol búlgaro?
Muito mais fraco do que o português. Adaptei-me relativamente bem. A maior parte dos jogos fui jogando. Mas era um futebol que não me atraía. Tanto que quis vir embora no início do 2.º ano. Fui ganhar um bocadinho mais do que ganhava em Portugal, como é óbvio, porque se não fosse assim não tinha ido. Mas se calhar, se fosse hoje, na verdade, não tinha ido. Foi uma experiência engraçada, porque até vivia numa cidade relativamente boa sem ser espectacular. Era uma capital e tínhamos restaurantes, o meu filho andava numa escola inglesa e adaptou-se super bem.

Do que gostou mais e menos nos búlgaros?
Menos: o facto de não serem nada profissionais. Isso em Portugal nós temos em todo o lado. Ali não têm hábitos de um profissional, não têm hábitos de refeições de um profissional, não têm hábitos de descanso profissionais, muitas coisas que vão falhando. Eu estava num dos maiores clubes da Bulgária e por vezes nem uma marquesa tinha para levar uma massagem. Um bocadinho de falta de profissionalismo, de brio, de cultura; acho que é um bocado cultural porque eles têm meios e dinheiro. Os salários são melhores do que os dos clubes médios em Portugal, mas em tudo o resto que não tem a ver com o dinheiro, as pessoas em Portugal são muito mais profissionais do que lá.

Como foi com a língua, percebia alguma coisa?
Safei-me com o inglês e a determinada altura jogava eu, o Rúben Pinto, o Arsénio, o Diogo Viana e o Rui Pedro, de cinco para a frente era só portugueses, por isso quase que comunicávamos só em português, era fácil. Com o resto do pessoal era em inglês e algumas palavras soltas de búlgaro.

Só esteve uma época na Bulgária.
Sim, depois acabo por ter a possibilidade de ir para o Boavista. Foi num dia à noite, estava com a minha mulher na cama, tinha mandado mensagem ao Maciel, que trabalhava para o Boavista, a perguntar se havia alguma possibilidade, porque depois de eu acabar contrato com o Arouca ele já me tinha tentado meter no Boavista, mas eu estava mesmo virado para ir para fora. Falei com ele, falámos de valores e disse-lhe: "por X, vou". Ele disse: "OK, vou ver, acho que por isso pode ser possível". Foi uma coisa muito rápida, ele liga a dizer: "Tá feito, podes vir". Acordei logo a minha mulher e disse vamos embora, vamos para Portugal.

Quando chega ao Boavista quem está à frente da equipa?
É o Miguel Leal. Tenho logo uma impressão muito má, para ser sincero. Porque ele chama-me com uma ficha na mão e diz-me: "Olha, mete aqui o teu nome e em que posição é que tu jogas". E eu, não, não acredito, então o meu treinador que deu o aval supostamente para eu ser contratado, está-me a perguntar em que posição é que jogo? Aquilo chocou-me logo. Pronto, já vi que vim aqui parar de pára-quedas. Depois do 1.º jogo, em que vou para o banco, um jogo em Guimarães, ele sai. Entra o Jorge Simão, para o jogo com o Benfica que ganhámos em casa, no Bessa. Ele disse que ia manter a última equipa que tinha chegado, porque não tinha tempo para trabalhar nem ver nada. Entrei ao intervalo e a partir daí fui titular em todos os jogos.

Tem um episódio marcante com o Jorge Simão. Pode contar?
É público que o meu irmão Bruno teve um acidente grave e, no dia em que aconteceu, eu estava num jantar de equipa. Fui logo ter com ele, chamei-o à parte e disse-lhe: "Mister, o meu irmão está em coma, hoje já não vou porque é muito tarde, mas amanhã quero ir para Lisboa". E ele disse: "David vai e fica à vontade tens os dias que quiseres, volta quando te sentires preparado para voltar". Fui, estive dois dias em Lisboa, volto, e temos o jogo com o Marítimo. Foram talvez os meus piores 45 minutos no Boavista. Falhei um penálti, que acaba por dar golo, mas falhei o penálti. E quando vou a entrar para o balneário, o mister dá-me um toque nas costas e mete-me dentro do balneário dele. E diz: "Sei que tiveste uma semana difícil. Chora aqui o que não choraste até hoje, porque estou a ver que estás de rastos". Aquelas palavras tiveram efeito imediato, comecei a chorar compulsivamente, chorei muito mesmo, ele abraçou-se a mim, comoveu-se também comigo. Estivemos ali cinco minutos em que eu nem conseguia falar e ele disse: "É uma semana difícil para ti mas eu não te vou tirar, preciso de ti, esta equipa precisa de ti, a equipa contigo joga de uma forma e sem ti joga de outra, e sei que nos vais ajudar, que vais marcar um golo ou fazer uma assistência na 2.ª parte. Alguma coisa vais fazer. Eu confio em ti, os teus colegas confiam em ti. Vais dar a volta por cima". Estava 1-1 a o intervalo e aquelas palavras vão-me marcar para o resto da minha vida. Acabámos por ganhar 2-1, eu faço uma assistência para o 2.º golo. Se eu já tinha um respeito e uma admiração gigantes por ele, a partir desse dia duplicou ou triplicou. Porque foi uma atitude que nem tinha que ter comigo - eu não estava a jogar bem, não conseguia dominar uma bola, não conseguia fazer nada, bastava ele chegar e dizer sais e entra o Joaquim ou Manuel e siga. Mas teve esse cuidado de me abraçar quase como um pai e de perceber que eu estava num momento complicado e difícil. Tenho uma relação com ele próxima e com os adjuntos dele, nomeadamente com o Leandro Morais, que é quase como um irmão mais velho para mim.

O que o faz sair do Boavista?
O jogador de futebol é mesmo assim. Estamos mal ou não jogamos e queremos sair porque queremos jogar e, se jogamos muito bem, queremos ir para níveis superiores e ganhar mais dinheiro. O jogador de futebol nunca está bem com o que tem. Foi isso que aconteceu, porque eu estava num ótimo período, mas também porque chegaram propostas ao Boavista, eu nunca forcei a saída. Agora, a partir do momento em que tinha propostas para sair, que eu achava que podiam ser boas para mim, falei com os responsáveis. O Boavista na altura era um clube que precisava de fazer vendas e acabou por ser bom para mim e para o clube. Ao fim da 1.ª época com o Jorge Simão, eu nunca me senti tão jogador e tão bom jogador. Eu jogava contra qualquer equipa e achava que estava ao nível deles ou até superior, para ser sincero. Nunca senti isso noutros clubes durante quase dez anos de carreira em Portugal. Naquele ano, eu voava dentro do campo, sentia-me super capaz. E os meus empresários também dizem até hoje que não conseguem perceber como é que naquele ano não houve propostas para mim.

Acaba por ir para a Bélgica.
No ano a seguir. Ou seja, ainda faço mais meio ano no Boavista e só no ano a seguir é que vou para o Antuérpia da Bélgica. Estive próximo de ir para o Vitória de Guimarães.

E não foi porquê?
Porque na altura o Antuérpia subiu a proposta para o Boavista e também porque me disseram que Boavista e Guimarães são clubes rivais - e o Boavista dizia que, no entender deles, não fazia sentido vender os dois melhores jogadores deles para o Vitória de Guimarães. O Rochinha já estava fechado e eu sei que o Vitória de Guimarães tinha feito uma proposta de um pacote para os dois, mas depois com a proposta do Antuérpia e esta questão da rivalidade... Tudo acabou por me conduzir para o Antuérpia.

Foi com a família?
Não, a partir daí comecei a ir sozinho, porque o meu filho já estava na escola. A 1.ª classe fez em inglês, mas o 2.º ano em português, e com dificuldades, por isso, optamos estabilizar a família. O meu filho hoje diz que está muito contente porque finalmente tem amigos, ou seja, ele tinha amigos de ocasião, amigos de seis meses ou um ano e depois trocava. Hoje ele sabe que é ali que vai viver, ao lado da Abóboda, onde eu cresci a minha vida toda. Comprei um apartamento também lá e estou a construir a minha casa lá. Acho que vai ser ali a minha vida pós futebol.

Quando chegou à Bélgica como foi o impacto?
Eu gostei muito da Bélgica. Não o país em si, que é cinzento e frio, e eu sou muito mais de festa, calor, esplanada, mas do campeonato. Campeonato super forte. Eu chego nos seis meses em que era entrar no play off final com as seis melhores equipas, Standard Liége, Genk, Gent, Brugge, Anderlecht e nós o Antuérpia. Portanto, só apanhei jogos de alto nível, estádios sempre cheios, um futebol muito forte.

E apanhou o Bölöni como treinador.
Sim. Ele trabalha forte, mas era um treinador que não se adequou aquilo que era o meu perfil enquanto jogador. Eu sou um jogador de posse, de ter a bola, e ele era muito mais um treinador de jogar em contra-ataque, de defender, ter homens fortes no meio e sair rápido em contra-ataque. Portanto não se adequava muito ao meu futebol. Para além de eu achar que seis meses é sempre curto para fazer uma adaptação. Tirando isso, a equipa estava a fazer uma boa temporada, não havia razão por que mudar e o estilo de jogo claramente não era o meu. Acabei por entrar em muitos jogos, mas nunca fui um titular da equipa.

É por essa razão que não fica?
Sim. Andámos ali em negociações muito tempo e, no dia em que chega a proposta da Arábia Saudita para trabalhar com o mister Jorge Simão outra vez, chega ao mesmo tempo uma proposta de compra do AEK de Atenas, do mister Miguel Cardoso. Uma proposta de três anos, enquanto que a da Arábia era de um ano de empréstimo. Deixou-me um dia ou dois a pensar muito. Porque por um lado está o treinador e a pessoa Jorge Simão com quem me senti um jogador muito bem, ao nível dos melhores, e do outro lado um projeto de um grande clube da Grécia, um clube com projeção europeia que no ano transato tinha participado na Liga dos Campeões, no grupo do Benfica. Portanto eram dois bons projetos, cada um à sua maneira. Acabei por decidir ir para o AEK, porque é na Europa, porque é o AEK, e por pensar que me podia dar estabilidade, que era um contrato de três anos. No conjunto, por ser três anos, ia ganhar mais no AEK.
Porque é que as coisas não correm bem na Grécia?
Porque o Miguel Cardoso é despedido ao fim de uma jornada. O director-desportivo, que foi responsável pela minha contratação também foi despedido, houve uma reestruturação e o novo treinador, um grego, logo à partida optou por outros jogadores. Começou-me a faltar jogo, coisa que tinha na pré-época e nos primeiros jogos da época, e acaba por ser isso.

Resolvem rescindir?
Não, eu tenho ainda dois anos de contrato com o AEK. Eu fui emprestado depois. Acabam por aparecer-me algumas situações na Europa, mas que não me agradaram de todo. E depois surge Israel, que já era um namoro antigo.

Quando vai para Israel há um choque ou não?
Não há um choque, porque o Miguel Vítor já esta lá há muito tempo e acabou por me facilitar a adaptação. Apesar de a Grécia ser um pais convidativo - e especialmente aquele sítio onde eu vivia me levasse a sair mais do que eu estava habituado, ou seja, a ir beber um café à rua em vez de estar em casa no sofá a descansar - em Israel vivia numa vivenda num condomínio privado muito bom. As pessoas têm uma ideia muito diferente de Israel daquilo que realmente é. Pensam que é só bombas, mas a verdade é que nunca apanhei nenhum susto, senti-me sempre super protegido e à vontade. Tínhamos diferentes religiões na nossa equipa, judeus, muçulmanos, etc., mas super bem resolvidos, respeitavam-se uns aos outros. Aliás, eram amigos uns dos outros. Não tive problema. E eu mal chego... entramos em quarentena por causa da Covid-19. A maior parte dos dias fui comer a casa do Miguel. Estava lá a esposa dele, que me acolheu super bem. Era um ambiente familiar. O Josué acaba por se isolar um bocadinho nessa fase. Quando cheguei, até foi ele que andou mais comigo a mostrar-me as coisas, mas depois com a quarentena ele ficou assustado e optou ficar mais em casa, enquanto que eu e o Miguel mantivemos mais o contacto, até a treinarmos juntos. Acabei por ter um tempo muito bom com o Miguel e a família, a quem estou agradecido. Sem eles teria sido especialmente difícil. Eles ampararam-me e fizeram sentir como se estivesse em casa.

Ficou sempre em Israel durante a quarentena.
Sim, eles não deixaram viajar para Portugal. Eu só venho para Portugal depois do final da Taça. Só cheguei no dia 15 de Julho. Foi muito difícil viver este período longe da família? Sim, isso foi o mais fácil. Eu já não via a minha família desde Fevereiro. São muitos meses. Mesmo não vivendo com eles, eu tinha muito maior contacto do que aquele que tive agora. Não poder estar com eles, a minha filha com três anos, a crescer, notei bastante diferenças, sobretudo ao nível da fala da minha filha. São coisas que vou perdendo, infelizmente, mas acho que em prol de um bem maior que será uma vida mais desafogada no futuro.

Já sabe como vai ser a próxima época?
Não. Acredito que dentro de algumas semanas vá saber qual é a intenção do AEK, se faço a pré-época, se vão querer emprestar-me outra vez, se vai haver algum clube... Porque nesta altura não tenho nenhuma opção, tenho apenas o AEK.

Se pudesse escolher o que preferia?
Não sei. A questão do AEK tornou-se um bocadinho difícil e eu não sei se vai haver possibilidade de voltar, porque entretanto colocaram-me a treinar à parte.

Porquê?
Pois, também não sei. Estive com o Francisco Geraldes durante dois meses, ambos a treinar sozinhos, à parte, sem nenhuma explicação. Embora ele não tivesse vontade de continuar, porque depois da sadia do Miguel Cardoso o insucesso da equipa caiu-lhe um bocadinho em cima e ele deixou de sentir-se confortável lá; eu nunca pedi para sair, sempre tive vontade de ter minutos, não consegui. Estive um mês e tal a treinar à parte e nunca me deram uma explicação, isto antes de ir para Israel. Portanto, não sei se vai haver possibilidade de voltar. Agora, é certo que tenho dois anos de contrato com o AEK. E se não tiver nenhum projecto que ache que seja bom para mim, até porque a questão do salário nesta altura é importante, tenho 30 anos, em Portugal nunca ganhei grandes salários, e não quero abdicar destes dois anos de salário no AEK. Todas essas coisas vão contar. Acredito que, se não tivesse havido a pandemia, o Hapoel Beer Sheva ter-me-ia comprado, porque joguei sempre. Mas com isto, o budget no próximo ano é muito menor e eles fizeram-me uma oferta muito baixa, completamente fora daquilo que é o meu salário. Vamos ter que arranjar um projecto que seja bom, que possa cobrir o meu salário, ou chegar a um entendimento com o AEK - ou se o AEK quiser dar-me uma nova oportunidade lá.

Ganhou uma Taça em Israel, as comemorações foram muito diferentes do que estava habituado?
Foi, porque não podemos comemorar. Havia adeptos na rua. À semelhança do que aconteceu na Académica, foi a segunda taça do clube, já não ganhava a taça há 23 anos. Quando estamos a chegar à cidade, o que acontece é que a polícia mandou-nos parar quase num descampado, e tivemos que ir quatro em cada carro para nos levar a casa, porque não queriam que nós festejássemos com os adeptos. Na verdade, acaba por ser um bocadinho triste. Tivemos que festejar só entre nós jogadores. O mais importante do futebol são os jogadores, acho eu, mas a seguir são os adeptos e queríamos partilhar com eles, ainda por cima depois do ano difícil que foi em que a dona do clube também abandonou o clube.

Já pensou no futuro pós carreira de futebolista?
Tenho pensado cada vez mais. Vou jogando até me sentir confortável e quando achar que é altura de me retirar, porque monetariamente já não me compensa ou porque não quero andar mais fora e quero estar junto da minha família... Bom, não tenho uma meta. Mas penso cada vez mais no futuro, sim. 

Sabe o que vai fazer?
Quando estava no Boavista estava a tirar o nível I do curso de treinador, infelizmente acho que vou perder esse meio ano porque me faltava agora o estágio. As regras, a meu ver são muito estúpidas, porque diz que tenho quatro anos para acabar o curso. Mas se eu faço um contrato fora eu não posso estar em Portugal a acabar o curso, não é? Eu não deixei de ir ao curso, eu não posso é estar no curso. Uma coisa é uma pessoa que vive em Portugal e que deixa de ir ao curso, outra coisa é eu ser comprado, estar fora de Portugal e agora quando voltar vou ter de iniciar novamente o curso.

Está disposto a isso?
Não sei. Mas tenho que fazer algo liga ao futebol. Eu cresci no mundo do futebol, eu vivo no meio do futebol. O papel de director-desportivo é uma área que me fascina bastante, a questão da organização dos clubes. O lado do empresário, a questão da negociação, de descobrir, de oferecer, também me fascina. Lá está, tudo o que tem a ver com o futebol eu gosto. Vou tentar formar-me em alguma coisa, mesmo lá fora consigo fazer alguns workshops para director-desportivo, por exemplo. O importante é formar-me e ter cada vez mais conhecimento. 

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No AEK.

Investiu no quê?
Em imobiliário. ainda não me meti noutros negócios, mas estou a pensar em avançar com algumas coisas, nomeadamente em algo que tenha a ver com cuidados a idosos, não um lar, propriamente. Por outro lado, gostava de de apalpar terreno para ver se na região de Lisboa há mercado para uma pequena coisa de francesinhas. Eu sei que é muito cultural, mas a verdade é que em Lisboa não conheço nenhum sítio especializado nessa área.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Acho que nada. Sou uma pessoa discreta, não sou de grandes extravagâncias. Acho que peça mais cara que tenho é uma mala Louis Vuitton que custou mil e tal euros, exactamente por isso, porque gosto, porque podia e queria.

Superstições?
Zero.

Tatuagens?
Tenho a cara do meu filho e a da minha filha.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Já joguei, no Benfica.

Se não tivesse sido jogador de futebol teria sido o quê?
Se calhar um empresário no ramo da construção. Um bocadinho seguindo o meu pai.

Pensa ter mais filhos?
Não. Eu na verdade tenho três filhos porque a minha mulher já tinha um filho, o Ruben, e vivo com ele desde os seis anos de idade dele. Ele é meu filho também.

Tem algum hóbi?
Ir à praia, que a minha mulher odeia [risos]. E gosto de ver séries também.

Quais as preferidas?
“Prison Break”, “Narcos” e “Fauda”.

Tem algum outro desporto que goste de praticar ou seguir?
Vejo um bocadinho de tudo. Só não sou muito de basquetebol. Gosto de jogar voleibol na praia."