Últimas indefectivações

quarta-feira, 10 de março de 2021

Decisão inevitável


"A não participação do Sport Lisboa e Benfica no Campeonato Nacional de atletismo em pista coberta tratou-se de uma decisão difícil, pelo historial do Clube e pelo elevado investimento feito na modalidade, porém a única passível de ser tomada face às circunstâncias.
O Sport Lisboa e Benfica é um dos principais promotores da modalidade no país, com atividade desportiva que remonta aos primórdios do Clube. Na última década assistimos a uma forte revitalização da competitividade das nossas equipas, assente na formação e com reflexo nos excelentes resultados desportivos obtidos (em média tivemos 328 atletas por época). Somos decacampeões nacionais de pista ao ar livre e tricampeões em pista coberta, além de termos conquistado inúmeros títulos nos vários escalões (desde 2004, 165 títulos nacionais coletivos). Fomos três vezes campeões europeus nos juniores (2 corta-mato e 1 pista) e vice-campeões europeus absolutos na pista.
Acresce a responsabilidade assumida pelo Clube, através do Benfica Olímpico, e refira-se com inegável sucesso, de ter criado e desenvolvido condições de excelência para a evolução dos atletas com vista à obtenção de resultados relevantes no panorama competitivo nacional e internacional.
Não foi, portanto, de ânimo leve que a decisão foi tomada. Pelo contrário, há razões a contribuírem para esta, que não da responsabilidade do Benfica, que a tornaram inevitável.
Ao longo do último ano, o mundo tem-se debatido com uma pandemia, a qual, apesar dos avanços recentes, nomeadamente com a disponibilização de vacinas, está longe de ser debelada. O Sport Lisboa e Benfica, assim que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial de Saúde, tomou a iniciativa de proteger todos os seus funcionários, incluindo atletas e treinadores de todas as modalidades e escalões, antecipando-se, inclusivamente, ao anúncio de medidas por parte do governo.
Face à situação em que vivemos, é incompreensível que a Federação Portuguesa de Atletismo persista na realização do Campeonato Nacional em pista coberta sem assegurar as condições mínimas de segurança, nomeadamente a da testagem anterior à realização das provas.
Sabemos que o atletismo é considerado uma modalidade de risco baixo, no entanto, no caso particular das provas em pista coberta, o risco de contágio aumenta significativamente. Aliás, não por acaso, os participantes no recém-realizado Campeonato da Europa, em que Portugal conquistou três medalhas de ouro, foram testados quatro vezes nos cinco dias de competição.
Acresce ainda o facto inusitado, tendo em conta o contexto, da duplicação do número de clubes participantes no Campeonato. Dos habituais oito passou-se para 16 em cada vertente (masculina e feminina). Considerando uma média de 25 atletas por equipa, serão cerca de 800 atletas, além de todos os elementos de apoio, juntos nos pavilhões sem que haja obrigatoriedade de testagem (com aquecimento nos parques de estacionamento...).
A solução encontrada – por imposição da autarquia de Pombal – de distribuir as provas por dois locais é demonstrativa da legitimidade da preocupação do nosso Clube. Mas essa solução não resolve o problema de base, além de criar outro eventualmente, pois há atletas que poderiam participar em provas que, agora, serão realizadas em Pombal e próximo de Lisboa.
O Sport Lisboa e Benfica manifestou à Federação de atletismo, em tempo útil, todas as suas preocupações, utilizando canais formais e informais, sem que tenha recebido qualquer resposta satisfatória. Por via informal soube-se que a testagem seria "muito cara", pelo que não se poderia optar por ela (nota: os custos de deslocação das equipas do Benfica seriam cerca do dobro do custo de testar os participantes de todos os clubes...).
São incompreensíveis a incoerência e a falta de profissionalismo e competência na tomada de decisão da realização da competição por parte da Federação. A falta de comunicação com os clubes, que são os agentes que diariamente trabalham com os atletas e os apoiam, é inaceitável. Tem de haver respeito pelos clubes e pelos atletas, além do rigor, do planeamento e da segurança exigíveis ao organizador de uma das mais importantes competições nacionais de atletismo. A comunicação entre as partes tem de existir e deveria, de uma vez por todas, haver a capacidade, na Federação, para se aprender com o que de melhor é feito por clubes, associações e outras federações. A própria reação da Federação ao comunicado do Sport Lisboa e Benfica só nos dá mais razão. Não é a poucos dias da prova que se altera o modelo competitivo e hoje, a 72 horas do início da competição, voltou a haver alterações.
Não se infira do acima exposto que se pretende uma guerra com a Federação. O Benfica quer ser parceiro da Federação e de todos os clubes na promoção do atletismo. A nossa guerra, a de todos nós, é com a pandemia. É contra a pandemia que todos devemos estar unidos.
Neste momento, a palavra de ordem no mundo é a testagem. Temos a obrigação de salvaguardar, na medida do possível, a saúde dos atletas e das suas famílias e a de todos os que trabalham diariamente em prol do desporto.
Perante tudo isto, e também do parecer do painel de especialistas clínicos do Clube, não poderia ser outra a decisão da Direção do Sport Lisboa e Benfica."

O estranho caso de Samaris


"Atualmente é impossível falar do SL Benfica e não referir Andreas Samaris. Depois de ser campeão na Grécia pelo Olympiacos FC, e de ter protagonizado uma das suas melhores temporadas, com 38 jogos e quatro golos, mudou-se para Portugal e desde aí conquistou o coração de todos os benfiquistas. O médio defensivo representa a equipa encarnada desde 22 de agosto de 2014, data em que assinou contrato pelo clube, tendo já envergado o “manto sagrado” por 196 vezes.
Desde a época 2014/2015, até ao momento, juntou ao seu palmarés pessoal uma Taça de Portugal, duas Taças da Liga, quatro Supertaças e quatro títulos da Primeira Liga. O jogador de 31 anos foi uma das principais figuras da “Reconquista”. Participou em 19 jogos da Primeira Liga como médio ou central e, durante 1413 minutos, marcou dois golos e fez três assistências.
Na época seguinte, apesar de não ter marcado nenhum golo, continuou a ser aposta de Bruno Lage em 16 jogos da Primeira Liga, em um jogo da Liga Europa, cinco da Taça de Portugal, um da UEFA Champions League e dois da Allianz Cup, somando um total de 25 jogos.
Com a chegada de Jorge Jesus o panorama alterou-se radicalmente. Na presente época apenas participou em seis jogos da Primeira Liga, sendo que fez parte do onze titular em apenas um deles. A somar a esses seis jogos, juntam-se mais três a contar para a Taça de Portugal, onde marcou o golo da vitória frente ao U.S.C. Paredes.
Desde o início da época que o jogador é muitas vezes dispensado, quer do onze titular, quer do banco de suplentes. Esta situação não agrada aos adeptos da equipa encarnada. Para muitos, Samaris “sente o SL Benfica como ninguém” e é um elemento fundamental que deve estar sempre presente no balneário. Há vários episódios que provam o amor que o jogador tem pelo SL Benfica – as reações do grego ao longo dos jogos, quando está no camarote, não passam despercebidas e as declarações que fez numa entrevista publicada no site do clube, a 16 de junho de 2019, ainda hoje são lembradas pelos adeptos. 
Samaris confessou que o dinheiro não é tudo, que gosta muito de viver em Portugal, de jogar no SL Benfica e que não troca isso por nada, nem mesmo por mais dinheiro. Já houve até quem lhe pedisse para tirar o curso de treinador, depois de o verem a dar indicações aos colegas por diversas vezes.
Neste momento, os adeptos do SL Benfica perguntam “O que é feito de Samaris?”. Jorge Jesus explicou a ausência do grego, dizendo que este está lesionado e que há possibilidade de vir a ser operado ao tendão de Aquiles, uma vez que esta lesão crónica já o acompanha desde a época anterior.
Apesar da lesão, o jogador continua a apoiar a equipa e está presente em momentos importantes – mesmo não fazendo parte da lista de inscritos para a Liga Europa, decidiu acompanhar a comitiva encarnada até Atenas, local onde o SL Benfica defrontou o Arsenal FC, no jogo da 2ª mão dos 16 avos de final da prova.
Agora resta esperar que o jogador recupere totalmente da lesão, para voltar a jogar e pôr fim ao intitulado “estranho caso de Samaris”. Até lá, os adeptos vão certamente vê-lo a apoiar a equipa e a dar o seu contributo, seja no banco ou na bancada, porque como muitos dizem, “o Samaris faz falta ao SL Benfica. É um apaixonado pelo clube e uma referência, quer para os mais novos, quer para os mais velhos”."

« Haverá bilhetes mais corruptos que outros? »


"Todos nós nos lembramos do bombardeamento de notícias e manchetes com as palavras-chave SL Benfica + Bilhetes + Corrupção:
- «Inspetores da ASAE acusados de corrupção. Funcionários ajudavam a resolver processos em troca de bebidas e bilhetes para o Benfica»
- «Paulo Gonçalves, alto funcionário do Benfica, e um funcionário judicial foram detidos por suspeitas de corrupção. Bilhetes para jogos e merchandising do Benfica são as contrapartidas sob suspeita.»
- «Funcionários do SEF eram comprados com bilhetes para o Benfica, almoços e consertos de carros.»
- «Benfica distribuía bilhetes pelo Governo, Finanças e até pelos Tribunais.»
- «PJ está a investigar bilhetes oferecidos pelo Benfica no caso dos emails.»

Qual o ponto em comum entre todas estas notícias? A sua origem, ou seja o infame blogue 'Mercado de Benfica Polvo', onde e-mails do Clube eram ilicitamente partilhados ao dia 18 de cada mês. Entretanto Rui Pinto foi detido - no dia 15 de janeiro de 2020 - e desde esse dia o blogue deixou de publicar o que quer que seja do SL Benfica.

Como todos sabem o diretor de comunicação do FC Porto divulgava a seu bel-prazer informação privada e confidencial do SL Benfica, mas qual a audiência do Porto Canal ? Era então preciso ter uma fonte imparcial e reputada para chegar a informação ao grande público. A revista Sábado entrou também no jogo, onde o seu subdiretor, Carlos Rodrigues Lima, conhecido pelas posições anti-Benfica escrevia artigos onde a suspeição pairava no SL Benfica.

O único jornalista fora de Portugal a dar eco às notícias de SL Benfica + Bilhetes + Corrupção foi Tariq Panja, jornalista britânico e repórter do The New York Times. De onde vem os contatos e ligações ? 
Digamos que uma estratégia foi meticulosamente preparada, pois muitas pessoas adorariam ver o SL Benfica arrasado e sem credibilidade e se alguém pensa que tudo foi feito ao acaso, e sem que as pessoas pensassem sobre os prós e contras das suas ações, então estariam a apelidar terceiros de burros, estúpidos e incompetentes, algo que simplesmente não é verdade.

Paulo Baldaia, Francisco J. Marques, Diogo Faria, Pedro Bragança, entre tantos outros, partilham um profundo ódio ao SL Benfica - como é do conhecimento geral - e regozijaram-se com as pseudonotícias relacionadas com as famigeradas suspeitas ao SL Benfica. O principal objetivo era que o SL Benfica fosse julgado na praça pública. Verdade seja dita estão de parabéns, pois conseguiram-no. Só faltou receberem a devida medalha de Pinto da Costa.

Tendo em conta este enredo, digno de um blockbuster de Hollywood, perguntamos aos nossos leitores se leram as recentes notícias sobre a confirmação de pena de prisão efetiva ao antigo chefe das Finanças de Vila Nova de Gaia, que cometeu vários atos de corrupção a troco de bilhetes para jogos do FC Porto? 
 P: Sabem quantas revistas e manchetes de primeira página mereceu a exposição desta notícia com as palavras-chave “FC Porto + Bilhetes + Corrupção” ?
R: Quase tantas como os penáltis que o SL Benfica tem no presente campeonato nacional.

Esta diferença de tratamento, com dois pesos e duas medidas seria possível se o SL Benfica dominasse a imprensa, as instâncias de futebol, a justiça, o governo, etc... como implicaram ? Na verdade, fazendo uma análise equidistante e equitativa, nos casos em apreço entendemos que deveriam merecer o mesmo tratamento mediático."

Modalidades: Semanada...

Benfica After 90 - B Sad...

Visão Vermelha S2E24 - Estoril, B Sad...

O Cantinho Benfiquista #39 - Who Needs A First Half Anyway

Benfica Podcast #401 - A first half to B-Sad

Calai-vos, diz Seferovic, frio e finalizador como um ponta de lança de uma equipa candidata ao título. Chora, Paços


"Helton Leite
Parti para este jogo preparado para tudo, inclusivamente sofrer golos contra uma equipa que é quase incapaz de os marcar. Foi então que Helton Leite olhou diretamente para mim e disse “não si priocupa não, cara”.

Diogo Gonçalves
Máquina de café com moagem, meditação, um cão, receita de panquecas na Bimby, e um lateral-direito do Benfica que sabe cruzar. São as coisas que mais me têm ajudado a sobreviver a esta pandemia. 

Lucas Veríssimo
Exibição calma e confiante. Apareceu em grande nos quinze minutos à Benfica, empurrando uma daquelas assistências que só não contam como golos do Grimaldo porque a sociedade ainda não está preparada para isso.

Otamendi
Um deslize apenas, mas rapidamente emendou e passou o resto do jogo a brincar à apanhada com Varela e Cassierra, deixando sempre margem suficiente para estes se convencerem de que as suas acções poderiam produzir algum efeito no mundo, até voltarem a perder o controlo do esférico. 

Grimaldo
Se o campeonato estivesse a começar agora diria que o Grimaldo tinha tudo para ser a figura da equipa esta época. E se a minha avó tivesse rodas era um camião. Sobra a excelente exibição e a triste amargura de sentir que por agora serve de pouco, mas quem sabe na próxima temporada o mister ressuscita e traz com ele o futebol a que já nos habituou. O nosso Alejandro tem tudo para ser fundamental nesse cenário, isto se entretanto não o vendermos. É dos poucos jogadores neste plantel que poderá ter valorizado esta época.

Weigl
descobri o que falta ao Julian para se tornar definitivamente ídolo da torcida. Futebol já tem. Falta aprender a falar português tão bem como o Samaris. Imaginem aquela cara simpática, o jeito civilizado que ele tem de cortar as vazas ao adversário, combinados com um “quero dedicar este título a todos vocês benfiquistas!” no Marquês de Pombal em 2022. Se, para além de tudo isto, aprender a cair quando sofre contacto dentro da área, tem tudo para ser amor eterno.

Pizzi
Pizzi sem killer instinct na cara do guarda-redes é como pizza sem queijo. Com ananás. A corrigir. Everton Algo vai mal com o nosso Neymar dos pobres quando tenho mais facilidade em lembrar-me de boas acções defensivas.

Rafa
Exibição causadora de stress pós-traumático aos seus adversários. Há jogadores desta equipa do B SAD que tão cedo não voltam a ir à queima com medo de levarem uma cueca ou um nó cego.

Waldschmidt
Se tivermos em conta que não percebe nada do que o treinador lhe diz, podemos dizer que fez uma excelente exibição. A maioria de nós percebe o idioma e teria feito bem pior.

Seferovic
Mal na primeira parte a comportar-se como o ponta-de-lança cronicamente desinspirado da equipa que disputa o 4º lugar com o Paços de Ferreira. Excelente na segunda parte a exibir a frieza e qualidade de finalização características de um ponta-de-lança de uma equipa candidata ao título. Chora, Paços. 

Pedrinho
Dele espera-se sempre a capacidade agitadora de um suplente de luxo, mas 9 em cada 10 vezes levamos com um soporífero genérico.

Taarabt
Entrou para atraabtalhar, um verbo arraçado de atrapalhar que acabo de inventar para descrever o efeito produzido pelas más exibições do Taarabt.

Chiquinho
Excelente pormenor a assistir o Seferovic para o regresso aos golos falhados. Talvez pudesse fazer mais uns joguinhos a titular para ver se o momento de forma é para levar a sério ou se devemos considerar um empréstimo ao Valência com obrigação de compra.

Gilberto
Tempo suficiente para nos fazer valorizar ainda mais o facto de termos um Diogo Gonçalves no plantel. 

Jardel
não foi a tempo de lesionar. É assim que deve ser."

Nada é por acaso. Nem na Europa. A teia é internacional

 


Arquivo da Fruta, in Facebook

Giveaway...

O Brinco do Baptista - Dossier Feminismo #2 - Catarina Pereira

A mágoa de la muchachita en flor


"Boyé, El Atomico, não gostou de Génova. Vivia com a nostalgia de Buenos Aires. Por isso, pura e simplesmente, fugiu.

Elsa Boyé não era feliz em Itália. Gastava a agulha do gramofone na repetição das músicas que lhe afogavam de lágrimas os olhos negros de baquelite:
«Mi Buenos Aires querido
Cuando yo te vuelva a ver
no habra más penas ni olvido...».
Pena e olvido. A vida de Elsa estava cheia de pena e de olvido. Uma dor cortante, de bisturi, exatamente no lugar onde batia, apressado, o coração. Arritmia, diagnosticaria o médico chamado com frequência inusitada. Podia ter dito saudade, se a palavra existisse em castelhano ou em italiano, mas assim não sendo ficou-se por nostalgia.
«Mi Buenos Aires, tierra florida
Donde mi vida terminare
Bajo tu amparo no hay desengaños
Vuelan los años, se olvida el dolor».
As ruas estreitas de Génova apertavam Elsa como se fossem cordas de nylon, rasgavam-lhe a pele, destruíam a brancura do seu sorriso alvo, perfeitamente medido, amarravam-na ao cais da absoluta tristeza enquanto ela via chegar e partir os barcos que demandam todos os portos menos o da vida não doer, como dizia Pessoa numa carta a Mário de Sá Carneiro.
O casal Boyé habitava uma vivenda espaçosa na Via Malta, mas a continua ausência do marido, Mario Emilio, arrastou Elsa para a fronteira da depressão. Tinha a companhia da sogra e era publicamente nítido que não existia grande simpatia entre ambas. Mario deixava-se, por sua vez, levar pela melancolia da mulher ao ponto de não ser mais El Atomico, alcunha ganha no Barrio de La Boca, quando jogava pelo Boca Juniors em La Bombonera e enlouquecia os hinchas com o seu pontapé assassino que era capaz de fazer a bola viajar a 300 mil quilómetros por segundo, que é a velocidade da luz. A sua chegada a Itália, em 1949, fora bombástica. O Génova, cansado de anos de mediocridade, sentia necessidade de voltar a ser grande. De uma vez só, encomendou três argentinos: Boyé, a estrela, pago a vinte milhões de liras, e Aballay e Alarcon que para pouco mais serviram senão para fazer número.
Mario também era um nostálgico. E tinha medo da nostalgia, daquele buraco que, por vezes, se lhe abria no peito, mais ou menos no lugar onde devia haver uma alma, se ela existisse. Por isso trouxera com ele para a Europa a sua jovem noiva, Elsa, para que juntos pudessem revisitar as lembranças que passavam pela caravana da memória.
Um dia qualquer, pouco importa, Mario e Elsa tinham planeado uma tarde de cinema. Mas, em cima da hora, Boyé foi chamado para um treino supranumerário. A cabeça de Elsa explodiu como uma tempestade numa tarde de Verão. Deixou de ser quem fora até aí, uma mulher recatada, às voltas e às voltas como o disco riscado do gramofone do qual saía a voz de Carlos Gardel:
«Las ventanitas de mis calles de arrabal
Donde sonrie una muchachita en flor
Quiero de nuevo yo volver a contemplar
Aquellos ojos que acarician al mirar».
Elsa, la muchachita en flor, amargou como a folha do cardo. Uma raiva sufocada libertou-se das grades onde a havia fechado e um azedume avinagrado subiu borbulhando até à superfície.
No dia 22 de janeiro de 1950, o Génova foi a Roma ser triturado: 0-3. Boyé não pareceu levar a derrota muito a sério. A cabeça estava longe. Limitara-se a estar em campo, como um cartucho vazio de papel pardo, vogando ao sabor do vento, ignorando a bola tantas vezes sua companheira inseparável. Mais tarde, no hotel onde a equipa estava hospedada, Elsa e a mãe de Mario surgiram carregadas de malas. Boyé, que jogava às cartas com um companheiro, largou o seu jogo sem trunfos sobre a mesa, despediu-se e, juntamente com as duas mulheres, apanhou um táxi em direção ao aeroporto. No Rio de Janeiro, na escala que antecedia o seu destino de Buenos Aires, limitou-se a responder a um jornalista: «Não aguentava mais. Se quiserem mandem-me prender». Em Génova, os credores arrancavam os cabelos de desespero: Elsa deixara dívidas em todas as joalharias e costureiras da cidade.
Na Argentina, o Racing, que estava nas mãos do poder por via do seu presidente, Ramon Cereijo, Ministro das Finanças do governo de Perón, e era treinado pela velha glória Guillermo Stabile, recebeu-o como um príncipe. Para evitar chatices com a FIFA, pagou ao Génova 300 mil pesos com a promessa de um jogo amigável com a receita a caber ao vendedor. Os italianos aceitaram sem reclamar. O golpe da fuga de Mario, montado por Elsa, fora demasiado humilhante e tivera implicações financeiras violentas, além de deixar os adeptos verdadeiramente scattenati.
No dia 16 de fevereiro, o Racing, campeão argentino, desembarcou em Génova para cumprir o jogo amigável que ficara prometido. O estádio encheu. Mendez, avançado do Racing, marcou um golo formidável e o resultado ficou assim: 1-0. Boyé não compareceu. Ficara com Elsa, em Buenos Aires. Foram ao cinema..."

Fever Pitch - João & Juanjo... Itália!

Fever Pitch - João & Markus... Alemanha!

Fever Pitch - João & João... Espanha!