Últimas indefectivações

sábado, 7 de março de 2026

António Lobo Antunes: o benfiquista mais sensível


"Morreu António Lobo Antunes e eu volto, sem querer, a uma entrevista radiofónica na Antena 1, a poucas horas da última final da liga dos campeões disputada pelo Benfica e ao seu relato do que foi crescer paredes meias com o Estádio da Luz. Não o de agora, montado às peças em tempo recorde e financiados por fundos de investimento, mas ao outro, que foi crescendo tijolo a tijolo fruto de muito trabalho voluntário e das contribuições suadas da massa adepta encarnada. Do tempo em que miúdos de bola no pé, a meio da semana, podiam se esgueirar e pisar o relvado do estádio e sentir cheias as bancadas vazias como cumprindo uma promessa de qualquer coisa maior do que a própria vida.
Penso nele, no Antonio Lobo Antunes, como descrevia a sua experiência de militar no chamado Ultramar, lá, embrenhado na mata, em Angola, com um gravador tosco a tossir o relato do Benfica para o breu da noite. Segundo ele, de repente, os tiros calavam-se, os insultos calavam-se, a própria morte parecia ganhar vergonha. Ficava só a voz do narrador, “José Augusto ataca pela direita”, e homens sujos, assustados, a escutar como se, naquele instante, Lisboa inteira coubesse num buraco escavado na selva. Durante noventa minutos não havia guerra. Havia faltas, golos anulados, remates por cima. E era como todo um "império" , partido ao meio, respirasse pelo mesmo pulmão.
Ele contava isto sem heroísmo, quase envergonhado, como quem fala de um segredo infantil. Mas nesse pequeno milagre, pôr o relato do Benfica a suspender a barbárie, estava tudo o que precisava de dizer sobre o clube e sobre o seu amor por ele.
Um país em guerra capaz de, por momentos, ficar em paz para ouvir um jogo não é sério, dirão. "- Isso nunca aconteceu!" . Talvez não. Mas talvez fosse a única forma de um jovem oficial do Exército Português António Lobo Antunes continuar vivo enquanto a barbárie lhe dilacerava a consciência.
E veio a sua paixão pelo Eusébio. Para o António Lobo Antunes, Eusébio não era só o melhor de todos, era uma espécie de resposta improvável a uma pergunta que ninguém tinha coragem de fazer. Como é que, desse chão pobre de Moçambique, dessa gente esmagada, nasceu um homem capaz de fazer levantar um mundo inteiro em espanto?! Quando ele falava do Eusébio, a sua voz mudava de temperatura. Havia ali um encantamento que nunca passou. O rapaz que vinha lá de baixo do continente africano, das margens do império colonial, e que entrou pela Europa adentro como um cometa vermelho... e preto.
Imagino o António Lobo Antunes adolescente, encostado ao rádio na, a ouvir o nome “Eusébio” como quem ouve o futuro.
Mais tarde, já médico, já escritor, continuou a carregar esse espanto na voz. Falava do Benfica e de Eusébio como quem fala da sua infância: com ternura, com raiva, com vergonha de sentir tanto, e ao mesmo tempo incapaz de sentir o mesmo, e incapaz de sentir menos.
Hoje, que o perdemos... penso que o Benfica também perdeu uma consciência mais profunda. Não apenas o escritor que se identificava como benfiquista, mas a do homem que sabia que um clube é, às vezes, o último fio que impede os homens de caírem no vazio.
Enquanto houver alguém a pôr um relato do futebol no meio de uma qualquer mata, seja em tempos de paz ou de guerra, o António Lobo Antunes continuará vivo, ali, entre iguais, partilhando uma paixão pelo jogo que é, e será sempre, mais forte que a própria morte."

Sim, já sabemos que histórias bonitas não vendem


"O título é enganador (onde é que já vi isto?). Na verdade, se for mesmo-mesmo bonita uma história pode vender. Sobretudo se se tratar de uma história de celebridades que ninguém conhece mas todos acham que tratam por tu por causa das redes sociais. Se, no final, a princesa casar com o príncipe, em princípio está tudo bem. Mas as histórias positivas do quotidiano não vendem.
Se isto não fosse verdade todos vocês, que estão desse lado a ler o que escrevo, saberiam o que é o Cartão Branco. Confesse, caro leitor: sabia o que é? Se sim, perfeito, peço desculpa. Se não sabia, ajudo: uma espetacular iniciativa num mundo que tem mais guerras hoje do que quando ele (o cartão) foi criado. Há dez anos.

De chorar por mais
Não tenho tema para esta rubrica, confesso. Se alguém encontrar um e se der ao trabalho, o email está lá em cima.

No ponto
O Gil Vicente perdeu com Benfica (e bem) mas já não vai perder o estatuto de melhor notícia desta Liga 2025/26.

Insosso
Ganhe ou perca, Mourinho tem sempre uma palavra sobre arbitragem. E até já mete pedidos de desculpa pelo meio.

Incomestível
FC Porto e Sporting são quem melhor futebol joga em Portugal. Era preciso serem tão maus a relacionar-se?"

Transparência e integridade no futebol


"O International Football Association Board (IFAB) reuniu-se no País de Gales para a realização da assembleia geral anual, que ficará marcada pela aprovação de um conjunto de alterações significativas às Leis de Jogo. As mudanças, que entrarão oficialmente em vigor a 1 de julho, mas que poderão vir a ser aplicadas no Mundial de 2026, confirmam a intenção de tornar mais fluído o desenrolar do jogo e desincentivar perdas de tempo que em nada beneficiam o espetáculo futebolístico.
Comecemos pelo que é mais evidente e necessário: o combate declarado às perdas de tempo útil de jogo. O IFAB aprovou a introdução de contagens decrescentes para os lançamentos laterais e pontapés de baliza, com penalizações claras para quem incumprir os timings de reposição. Se a bola não for reposta em jogo no final da respetiva contagem, o lançamento reverte para o adversário; no caso do pontapé de baliza, a equipa infratora acaba por oferecer um pontapé de canto à equipa oponente. A mesma lógica aplicar-se-á às substituições: o jogador substituído disporá de dez segundos para abandonar o retângulo de jogo, sob pena de o seu substituto ter de aguardar um minuto adicional antes de poder entrar. Estas medidas são, em si mesma
s, um incentivo à celeridade do desenrolar das incidências dentro do relvado. O comum adepto de futebol tem hoje a perceção de que o tempo útil jogado é substancialmente inferior quando comparado com outras modalidades (basquetebol, hóquei em patins, etc.) e que a delonga na avaliação de eventuais lesões, ou os passeios até à linha lateral e os lançamentos propositadamente demorados se tornaram quase ferramentas táticas tão comuns quanto a marcação de um livre previamente ensaiado.
No entanto, há algo de profundamente revelador no facto de ser necessário criar todo um aparato regulamentar para impedir comportamentos que deveriam ser simplesmente desincentivados pelo bom senso e pelo espírito de competição positivo.
O alargamento do protocolo do VAR também mereceu uma reflexão no mesmo encontro. A partir da próxima época, o videoárbitro poderá intervir em casos de segundos cartões amarelos manifestamente incorretos, corrigir situações de confusão com a identidade de jogadores admoestados e, opcionalmente, rever a atribuição errada de pontapés de canto, desde que a análise seja efetuada no imediato. A FIFA confirmou, entretanto, a intenção de aplicar esta última alteração regulamentar no Mundial deste ano. São ajustamentos razoáveis que reconhecem as limitações evidentes do sistema atual, e que ilustram a necessária evolução tecnológica no contexto do futebol.
Ainda assim, a medida mais ambiciosa, e porventura a mais reveladora do sinal dos tempos, é a decisão de avaliar sanções a jogadores que tapem a boca ao falar com adversários ou colegas. O gesto, que se tornou omnipresente nos últimos dias, existe por uma razão óbvia: com a cobertura de câmaras em todos os ângulos do estádio e especialistas em leitura labial sempre atentos nos órgãos de comunicação social, os profissionais de futebol perceberam que qualquer palavra pode transformar-se em parangona noticiosa ou, até mesmo, desencadear um procedimento disciplinar. A prática ganhou maior visibilidade após o incidente que envolveu Prestianni e Vinícius Júnior no jogo da primeira mão do play-off da Liga dos Campeões, no Estádio da Luz, em que o jogador argentino do Benfica tapou a boca com a camisola enquanto, alegadamente, dirigia palavras insultuosas ao atleta brasileiro, que posteriormente o acusou de insultos racistas. Provavelmente este caso terá funcionado como catalisador para a discussão no âmbito do IFAB.
Subsiste, ainda assim, uma correlação difícil de conjugar entre a evidente necessidade de transparência e privacidade, e a responsabilização e vigilância permanente das ocorrências dentro do terreno de jogo. Com esta decisão, o IFAB assume ab initio que, se os jogadores pretendem esconder o que dizem, é porque dizem algo de condenável. Mark Billingham, diretor-executivo da Federação Inglesa e membro do IFAB, foi ainda mais longe ao afirmar que «há muito poucas circunstâncias em que os jogadores precisam de tapar a boca quando confrontam adversários». É uma posição arrojada, ainda que compreensível, sobretudo num contexto em que o combate ao racismo e a outras formas de discriminação no futebol se assumiu como uma prioridade institucional.
Contudo, não deixa de ser discutível transformar em infração disciplinar um gesto que, na sua essência, é neutro. Tapar a boca não é, em si, ofensivo. O que pode ser ofensivo é o conteúdo das palavras proferidas, e esse conteúdo nem sempre será passível de verificação. Institui-se, assim, uma presunção de culpa baseada na forma e não na substância, o que pode levantar questões até do foro legal. É a materialização da ideia de que onde há fumo há fogo, o que — bem sabemos — poderá conduzir a conclusões injustas, desde logo por comportar o risco de penalizar jogadores que simplesmente pretendem manter conversas legitimas ou comentários privados, seja para coordenar ou corrigir aspetos técnico-táticos do jogo, seja para resolver eventuais desentendimentos menores, sem a necessária exposição mediática.
No seu conjunto, as decisões do IFAB refletem um futebol que tenta, simultaneamente, modernizar-se e moralizar-se. Promover menos tempo morto e mais tempo útil. Menos espaço para comportamentos ocultos e maior transparência.

Sinal mais: FC Porto B
Depois de um início de época muito exigente, recuperação notável do FC Porto B na II Liga. Atualmente no 4.º lugar da competição, com 37 pontos em 24 jogos disputados."

Pedro Proença: um plano sem estratégia


"Um ano depois, Pedro Proença apresenta um plano para 12 anos. Revolucionário? Nem por isso. Mudanças fulcrais? Nada. O futebol português continua à espera de um verdadeiro líder

O primeiro aniversário de Pedro Proença na Federação foi há 15 dias, mais coisa menos coisa, e devem ter-me escapado todos os elogios feitos à obra, já que fotos com o presidente-que-ia-e-vai-mudar-isto-tudo são um bocadinho como era Marcelo com as selfies. Aparece uma debaixo de cada pedra em que tropeçamos. Aqui, mudará o lado de quem a pede e pouco mais.
Um ano depois, ironias à parte, o que há de novo é um plano. A 12 anos. E que apanha Proença entre corridas, como qualquer bom governante que se preze, agora ou bem lá para trás no passado, a fim de chegar a tempo da celebração do sucesso.
É que, ao contrário da quinta anterior, por muito que nunca pudessem ter sido maturados em 365 dias, há agora finalmente vencedores e potenciais vencedores, na formação e nas seleções de futebol, futsal e futebol de praia, a quem pode colar a imagem. Para que UEFA e FIFA vejam. De Portugal, com amor! Na verdade, o dirigente-estrela do futebol português continua a dar tudo para que Infantino e Ceferin o encarem como o herói que acha que é — e que tenta que todos comprem, nem que seja porque tem mesmo de ser. E que pretende fazer virar olhares de admiração de cada vez que aparece atrás de uma porta que se abra.
Na verdade, o Plano, o Estratégico, faz honra ao seu génio. Absorve as conquistas que terão até mais do antecessor do que de si próprio e diz-se embebido de uma cultura de vitória, que só poderá ter sido transplantada há doze meses de um lugar desconhecido para a Cidade do Futebol. Como se o passado recente, ainda com o rosto de uma bruxa não totalmente caçada, tivesse acontecido afinal numa realidade paralela que nada tem que ver com a sua. Uma versão tornada obsoleta da história.
Esse documento de várias centenas de medidas e resoluções, quiçá compradas ao peso e esgotadas no mercado — Uns cinco quilos devem chegar, mas se receber mais avise-me, que venho buscar ou mando cá alguém — promete-nos um admirável mundo novo ao fim de três mandatos. Melhor, a utopia das utopias!
Não deixa de ser irónico que, neste país, onde toda a gente, seja aspirante a Presidente da República, o próprio hóspede do Palácio de Belém ou um mero operário que nem conseguiu terminar a quarta classe, entende que percebe imenso de futebol, Proença acredite que precisemos de uma Universidade do género. Se calhar, é a minha má vontade. Pode ser que seja interessante para as discussões nos cafés, um puxar de galões entre uma meia de leite e um pastel de nata.
No entanto, o mais preocupante é que, tal como antes tinha medido o seu sucesso na Liga com a recuperação financeira do organismo, o que para as necessidades do futebol português vale zero, queira agora apontar para títulos no futebol e derivados o grande objetivo para 12 longos anos. Não posso deixar de sublinhar a receita já aqui falada: agora, que Portugal transpira talento, que a sua formação parece ter ganho algum tempo e espaço para chegar mais bem preparada mais cedo, Proença queira já colher os frutos de um trabalho que chegou bem antes da sua chegada. E se Fernando Gomes também não foi o líder disruptivo que precisávamos, como apontei no seu tempo, pelo menos tem o mérito de ter criado condições para tornar mais forte quem lhe garantia patrocínios e bons acordos: a Seleção.
Também não será despiciendo lembrar que a primeira grande decisão preparada para a Seleção — a substituição de Roberto Martínez por José Mourinho — desapareceu tão depressa quanto surgiu nos bastidores. A vitória na Liga das Nações ofereceu ao espanhol o estado de graça que tornou politicamente impossível mexer. E isso diz muito sobre a forma como se tomam decisões por cá: menos estratégia, mais gestão de momento.
Há algo que Proença sabe mais do que outros. A comunicação e a imagem neste mundo incrível em que vivemos valem bem mais do que a meritocracia. Assim, também como escrevi antes, criou uma máquina de propaganda que trabalha há muitos anos no mesmo sentido, a alimentar-lhe o ego sim, mas também em criar-lhe camadas de profundidade que na verdade não existem. E o documento que apresentou, agora com 300 medidas, inúmeros autoelogios e muitos números de crescimento de praticantes federados, árbitros e adeptos, além da melhoria da componente financeira, é outro exemplo dessa capacidade para vender uma ideia, que não só está longe de depender de si como não explica (porque talvez não saiba) realmente o caminho para se lá chegar. Talvez não o seja para vós, mas isto deveria preocupar-nos a todos. Se é este o plano revolucionário, como o próprio classificou, para 12 anos, tenho muitas dúvidas de que nessa altura estejamos sequer melhor do que estamos hoje.
Se há área em que o presidente da Federação não se pode esconder atrás de planos estratégicos é precisamente no clima que rodeia o jogo. É aqui que se mede liderança. Não deixou de ser sintomático que poucos dias depois do aniversário e mais uns quantos após situações inanarráveis no Dragão, André Villas-Boas e Frederico Varandas tenham voltado a levantar toda a poeira à volta do futebol em Portugal. E quem fala desses terá de lembrar também Rui Costa. Os três têm mostrado declarações e comportamentos pouco dignos, à anos 80, apesar de, supostamente, serem atores de um futebol mais moderno e menos tribal.
O que espero do presidente da FPF é de alguém que lidere na luta contra a constante guerra que vivemos, não tenha medo de tomar decisões difíceis e seja de facto revolucionário num futebol que precisa urgentemente de mudar, ainda mais quando a montra do Mundial 2030 está a chegar. Que saia debaixo do guarda-chuva furado que são os direitos televisivos e não se importe de se molhar. As bancadas têm de encher e para isso a qualidade do futebol tem de melhorar, tal como o ambiente, o conforto e o sentimento de pertença. A justiça não pode ser constantemente bloqueada por providências cautelares, os clubes têm de ser penalizados por falharem obrigações. O campeonato precisa de ser repensado, e não a Taça ou, pela enésima vez, a Taça da Liga ou a Supertaça. As verdadeiras estrelas e os super-heróis são aqueles que inspiram com coragem."

Conflito no Médio Oriente e estabilidade contratual: um novo regime excecional da FIFA?


"A decisão da FIFA de instituir, em 2022, na sequência da invasão da Ucrânia pela Federação Russa, um regime excecional aplicável a jogadores e treinadores vinculados a clubes da Ucrânia e da Rússia constituiu um momento de inflexão no direito internacional do desporto.
Pela primeira vez, a instância reguladora máxima do futebol interveio de forma direta e supracontratual na estabilidade das relações laborais desportivas, criando um mecanismo de suspensão ope regulamentar que representou uma derrogação temporária do princípio do pacta sunt servanda consagrado no Regulamento sobre o Estatuto e Transferência de Jogadores (RSTP).
Pese embora a gravidade do cenário, a FIFA absteve-se de qualificar a situação como «força maior», optando por uma engenharia regulamentar autónoma, vertida no Anexo 7 do RSTP, que permitiu a suspensão contratual e a inscrição temporária de jogadores e treinadores noutros clubes - inclusive fora das janelas de transferência - sem ativação automática do regime indemnizatório previsto no artigo 17.º do RSTP.
Face à atual escalada militar no Médio Oriente - envolvendo o Irão e ataques a países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein -, este precedente constitui hoje um parâmetro comparativo incontornável, suscitando a questão da potencial necessidade de uma nova resposta regulatória excecional e análoga.
A suspensão imediata e por tempo indeterminado da liga iraniana, a paralisação de todas as competições no Qatar (ameaçando inclusivamente a Finalíssima entre Argentina e Espanha, agendada para 27 de março em Doha) e o adiamento de jogos da Liga dos Campeões Asiática pela Confederação Asiática de Futebol - a par do encerramento de espaços aéreos e das restrições de mobilidade de atletas, treinadores e árbitros -, evidenciam que o conflito já transbordou o plano geopolítico e abalou o ecossistema competitivo do futebol internacional.

O que a FIFA precisa para intervir?
Ora, foi precisamente em resposta a um quadro de disrupção sistémica que irrompeu o regime instituído pela FIFA para o eixo Ucrânia/Rússia, alicerçado em três pressupostos cumulativos que fundamentaram o seu cariz excecional: (i) a impossibilidade objetiva de execução contratual em território afetado por conflito armado; (ii) o risco sério para a integridade física dos praticantes; e (iii) a necessidade de salvaguardar o direito ao trabalho e a continuidade das carreiras.
No contexto Irão-Golfo, a implementação de um regime excecional dependerá da consolidação de um cenário de verdadeira impossibilidade estrutural.
Enquanto os constrangimentos permanecerem episódicos ou reversíveis, qualquer intervenção regulamentar excecional poderá revelar-se materialmente desproporcionada, por implicar compressão prematura do princípio da estabilidade contratual - pedra angular do RSTP e da lex sportiva - que só admite derrogação mediante fundamentação material particularmente qualificada, ancorada em circunstâncias objetivamente graves e duradouras.
Não obstante, se a escalada militar conduzir à paralisação prolongada das ligas domésticas, à inviabilidade das competições continentais e à retirada sistemática de jogadores estrangeiros, a estabilidade contratual transformar-se-á numa mera ficção normativa. Nesse cenário, o artigo 27.º do RSTP, relativo a «casos não previstos», fornece à FIFA a base jurídica necessária para intervir, legitimando a decisão da instância máxima sobre situações extraordinárias.
Acresce que, a configuração geopolítica do atual conflito afigura-se mais complexa que a frente Ucrânia/Rússia: a sua natureza difusa e regional, envolvendo múltiplas federações e sem delimitação territorial inequívoca, complexifica a definição do âmbito subjetivo de eventual medida excecional. A ausência de um critério uniforme poderá expor a FIFA a críticas por discricionariedade seletiva, com risco de erosão do princípio da igualdade de tratamento.
Neste ensejo, a criação de um novo regime excecional apenas poderá justificar-se mediante demonstração inequívoca de impossibilidade estrutural, objetiva e duradoura de execução contratual. Fora desse perímetro de necessidade qualificada, qualquer intervenção regulamentar arriscará transmutar uma solução de exceção num precedente de erosão normativa."

O combate à violência


"Os acontecimentos recentes no desporto português devem servir como alerta para a necessidade de reflexão séria sobre o combate à violência nos recintos desportivos. O desporto deve ser espaço de celebração, de convivência e de paixão saudável, e não palco para episódios de intolerância, agressividade ou comportamentos que afastam adeptos.
Neste contexto, torna-se fundamental olhar com atenção para os dados. Os relatórios da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) oferecem retrato da realidade nacional. Uma das dimensões que não pode ser ignorada é a melhoria das condições nos recintos desportivos. Estádios e pavilhões mais seguros, confortáveis e preparados para receber adeptos são passo essencial para promover ambiente positivo.
Ao mesmo tempo, é importante tornar os horários das competições mais apelativos, favorecendo a presença de famílias. Impõe-se ainda discussão séria sobre a legislação em matéria de combate à violência, intolerância e xenofobia no desporto. A lei representa instrumento importante, mas deve ser permanentemente avaliada e ajustada à realidade.
Entre os temas que exigem atenção está a questão da pirotecnia, frequentemente presente nos recintos e que levanta desafios de segurança. Outro ponto que merece debate é a eventual criação de sistema de identificação de adeptos, inspirado em boas práticas já utilizadas em provas da UEFA e FIFA. Importa, pois, garantir que esta discussão é feita de forma inclusiva, envolvendo clubes, adeptos, autoridades e organizadores de competições."