"Morreu António Lobo Antunes e eu volto, sem querer, a uma entrevista radiofónica na Antena 1, a poucas horas da última final da liga dos campeões disputada pelo Benfica e ao seu relato do que foi crescer paredes meias com o Estádio da Luz. Não o de agora, montado às peças em tempo recorde e financiados por fundos de investimento, mas ao outro, que foi crescendo tijolo a tijolo fruto de muito trabalho voluntário e das contribuições suadas da massa adepta encarnada. Do tempo em que miúdos de bola no pé, a meio da semana, podiam se esgueirar e pisar o relvado do estádio e sentir cheias as bancadas vazias como cumprindo uma promessa de qualquer coisa maior do que a própria vida.
Penso nele, no Antonio Lobo Antunes, como descrevia a sua experiência de militar no chamado Ultramar, lá, embrenhado na mata, em Angola, com um gravador tosco a tossir o relato do Benfica para o breu da noite. Segundo ele, de repente, os tiros calavam-se, os insultos calavam-se, a própria morte parecia ganhar vergonha. Ficava só a voz do narrador, “José Augusto ataca pela direita”, e homens sujos, assustados, a escutar como se, naquele instante, Lisboa inteira coubesse num buraco escavado na selva. Durante noventa minutos não havia guerra. Havia faltas, golos anulados, remates por cima. E era como todo um "império" , partido ao meio, respirasse pelo mesmo pulmão.
Ele contava isto sem heroísmo, quase envergonhado, como quem fala de um segredo infantil. Mas nesse pequeno milagre, pôr o relato do Benfica a suspender a barbárie, estava tudo o que precisava de dizer sobre o clube e sobre o seu amor por ele.
Um país em guerra capaz de, por momentos, ficar em paz para ouvir um jogo não é sério, dirão. "- Isso nunca aconteceu!" . Talvez não. Mas talvez fosse a única forma de um jovem oficial do Exército Português António Lobo Antunes continuar vivo enquanto a barbárie lhe dilacerava a consciência.
E veio a sua paixão pelo Eusébio. Para o António Lobo Antunes, Eusébio não era só o melhor de todos, era uma espécie de resposta improvável a uma pergunta que ninguém tinha coragem de fazer. Como é que, desse chão pobre de Moçambique, dessa gente esmagada, nasceu um homem capaz de fazer levantar um mundo inteiro em espanto?! Quando ele falava do Eusébio, a sua voz mudava de temperatura. Havia ali um encantamento que nunca passou. O rapaz que vinha lá de baixo do continente africano, das margens do império colonial, e que entrou pela Europa adentro como um cometa vermelho... e preto.
Imagino o António Lobo Antunes adolescente, encostado ao rádio na, a ouvir o nome “Eusébio” como quem ouve o futuro.
Mais tarde, já médico, já escritor, continuou a carregar esse espanto na voz. Falava do Benfica e de Eusébio como quem fala da sua infância: com ternura, com raiva, com vergonha de sentir tanto, e ao mesmo tempo incapaz de sentir o mesmo, e incapaz de sentir menos.
Hoje, que o perdemos... penso que o Benfica também perdeu uma consciência mais profunda. Não apenas o escritor que se identificava como benfiquista, mas a do homem que sabia que um clube é, às vezes, o último fio que impede os homens de caírem no vazio.
Enquanto houver alguém a pôr um relato do futebol no meio de uma qualquer mata, seja em tempos de paz ou de guerra, o António Lobo Antunes continuará vivo, ali, entre iguais, partilhando uma paixão pelo jogo que é, e será sempre, mais forte que a própria morte."





