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segunda-feira, 1 de junho de 2026
Jordan Santos: cair, levantar, acreditar… e voltar a vencer
"Há histórias que não cabem nas estatísticas. Não se medem em golos, troféus ou prémios individuais, medem-se no que deixam para trás: no impacto, na inspiração, no exemplo, no caminho que abrem para outros seguirem. São histórias que vão muito além das conquistas. Contam-se nas quedas, mas sobretudo na forma como se volta a levantar. Foi exatamente isso que encontrei quando conversei com Jordan Santos.
Num desporto feito de areia instável, Jordan construiu uma carreira sólida, recheada de títulos. Mas não foi um caminho linear. Foi feito de insistência, de dúvidas, de dor e de uma capacidade rara de continuar a acreditar quando tudo parece desmoronar.
A paixão pelo futebol de praia nasceu muito cedo. Cresceu junto ao mar, com a praia como cenário permanente:
− Passava os verões inteiros a jogar, de manhã à noite… muitas vezes com adultos.
Desde cedo, habituou-se a cair, a levantar e a lutar. A perder duelos físicos, a enfrentar jogadores mais velhos, a ser posto à prova. Talvez tenha sido aí que tudo começou verdadeiramente. Mais tarde, quando disse que queria ser profissional de futebol de praia, voltou a cair… desta vez no olhar dos outros. Chamavam-lhe louco.
Numa altura em que a modalidade não tinha a expressão que tem hoje, apenas nomes como Madjer, Alan e Belchior conseguiam viver do jogo. Tudo o resto era incerteza. Mas ele escolheu acreditar:
− Achava mesmo que podia ser um deles.
E aqui começa a verdadeira história de superação. Porque acreditar, quando tudo aponta no sentido contrário, é sempre o primeiro passo e muitas vezes o mais difícil.
Com 16 anos, treinava sozinho na praia. Sem aplausos, sem garantias de nada, sem certezas. Apenas com uma convicção: a de que podia chegar lá. Acreditou, insistiu e lutou.
Aos 17 anos, chega à Seleção Nacional. Mostra o seu valor. Ganha espaço. Cresce. Evolui. E, passo a passo, transforma um sonho improvável numa realidade concreta. Mas a vida e o desporto raramente permitem histórias perfeitas. Depois de atingir o topo em 2019, quando foi considerado o melhor jogador do mundo, voltou a cair. E caiu com força. Lesões graves, recuperação longa, dúvidas inevitáveis:
− No início foi a dor física… depois veio a parte mental. O ‘porquê eu?’
Depois de atingir o topo em 2019, quando foi considerado o melhor jogador do mundo, voltou a cair. E caiu com força. Lesões graves, recuperação longa, dúvidas inevitáveis:
− No início foi a dor física… depois veio a parte mental. O ‘porquê eu?’
Mais recentemente, voltou a enfrentar o mesmo cenário. Outra lesão. Outra paragem. Outra batalha invisível.
− Caí novamente no mesmo buraco. Podia reclamar, desistir ou parar. Mas a minha história já me ensinou demasiadas coisas para acreditar que acaba aqui. Voltar duas vezes torna tudo muito mais difícil. Mas também faz com que voltar a brilhar tenha ainda mais valor. Vou voltar. Mais preparado. Mais forte. E, desta vez, para ficar. Sentia que algo não estava bem. Mas não queria acreditar. Parecia injusto. Improvável. Mesmo assim, como campeão que sou, fui a jogo por Portugal. Sem ligamento. E ainda assim houve vitória e golo.
É aqui que muitas carreiras terminam. Não pela falta de talento, mas pelo desgaste invisível. Mas Jordan escolheu levantar-se outra vez:
− Nunca pensei em desistir.
A frase é simples, mas diz tudo sobre aquilo que ele é feito. Porque não se trata apenas de regressar fisicamente. Trata-se de reconstruir confiança, identidade, propósito. E isso exige mais do que treino. Exige crença.
Hoje, quando fala, sente-se essa transformação:
− Sinto-me mais forte mentalmente… estas quedas ensinaram-me muito.
Talvez seja essa a maior vitória. Porque cair faz parte. Levantar é uma escolha. Enquanto isso, à sua volta, o futebol de praia português continua a crescer. E não é coincidência. É consequência.
Recentemente, Portugal conquistou o Campeonato da Europa de Sub-20, ao vencer a Espanha por 9-3, em Viareggio. Uma vitória que mostra o presente, mas sobretudo o futuro da modalidade. Nessa equipa, surgem novos nomes que começam a escrever o seu caminho: Cristiano, eleito melhor guarda-redes, Pola, distinguido como melhor jogador, e Gonçalo Loureiro, melhor marcador com 11 golos. São sinais claros de crescimento. Mas também de continuidade. Porque antes deles, houve quem abrisse caminho. «Sinto que fiz parte desse crescimento», disse-me Jordan. E disse bem. Hoje, muitos jovens já não veem o futebol de praia como alternativa. Veem-no como destino. E isso deve-se, em grande parte, a exemplos como o dele.
Mas talvez o mais impressionante seja que, no meio de tudo isto, nada parece tê-lo mudado:
− Continuo exatamente a mesma pessoa.
Num desporto onde o sucesso pode facilmente desviar trajetos, Jordan mantém-se fiel às suas raízes. À família, aos amigos, aos valores. E é precisamente aí que encontra força para continuar:
− O que me motiva é a minha família… e a fome de ganhar.
Fome essa que não desaparece com os anos, nem com as conquistas. Pelo contrário, cresce.
No final da conversa, destacou os grandes nomes do futebol de praia português — Madjer, Alan, Belchior, Mário Narciso, Bruno Torres, Bê e Leo Martins, Pedro Mano, Rui Coimbra — e deixou uma mensagem simples, mas poderosa às novas gerações:
− Acreditem em vocês e trabalhem muito.
Mas houve outra frase que me ficou ainda mais:
− O mais importante é sermos melhores do que nós próprios.
Num mundo obcecado com comparações, esta ideia é quase revolucionária. E talvez seja isso que define Jordan Santos. Não apenas o talento. Não apenas os títulos. Mas a forma como enfrenta a queda. Cai. Levanta. Acredita. E volta a vencer. Porque há atletas que não são definidos pelos infortúnios, mas pela forma como insistem em voltar a levantar-se e o Jordan, tantas vezes, já nos mostrou que o verdadeiro triunfo não é nunca cair, é nunca deixar de acreditar que ainda há um caminho para ser trilhado e muito para conquistar."
Haiti: Duckens Nazon, o viciado em golos que pôs um hat-trick à frente da mulher grávida e demorou dois dias a fugir da guerra
"O melhor marcador da história do Haiti vai chegar ao Mundial 2026 sem ritmo. Apesar de estar ligado a uma equipa do Irão, decidiu fugir do país quando viu bombas caírem a 100 metros. A busca por um refúgio não se fez sem peripécias, nomeadamente uma espera de cerca de 35 horas na fronteira com o Azerbaijão que só foi resolvida graças a um cartão SIM virtual. O avançado de 32 anos não compete desde essa odisseia.
Em vésperas de Mundial, era altura de tratar da burocracia. A equipa iraniana do Esteghlal deu dois dias de folga e Duckens Nazon decidiu viajar até França. Internacional pelo Haiti, pretendia usar o descanso para tratar de papelada no país de nascimento, de modo a que tudo estivesse em ordem na altura da convocatória.
Sentou-se dentro do avião. Enquanto o
s procedimentos de embarque decorriam, recebeu uma mensagem de um amigo a jogar em Israel. O colega disse que estava a ouvir o alarme que sinaliza ataques. Duckens considerou-se um sortudo por não estar na mesma situação. Enquanto tinha este pensamento, o capitão mandou toda a gente sair do avião. O espaço aéreo tinha sido fechado.
s procedimentos de embarque decorriam, recebeu uma mensagem de um amigo a jogar em Israel. O colega disse que estava a ouvir o alarme que sinaliza ataques. Duckens considerou-se um sortudo por não estar na mesma situação. Enquanto tinha este pensamento, o capitão mandou toda a gente sair do avião. O espaço aéreo tinha sido fechado.
Voltou ao centro de Teerão, o alvo das investidas dos Estados Unidos e de Israel no final de fevereiro, porque a equipa treinada por Ricardo Sá Pinto estava a organizar a retirada dos jogadores estrangeiros. Pelo caminho, viu bombas caírem a 100 metros. Nazon esperou sete horas pelo veículo que o levou à fronteira com o Azerbaijão e demorou nove horas a completar o percurso. Quando chegou, eram 4h30.
De manhã, carimbaram-lhe o passaporte e preparava-se para seguir caminho. Porém, a travessia não seria assim tão fácil. Supostamente, precisava de um código para continuar. Duckens encontrava-se incontactável e, no Irão, a internet estava em baixo. Com um cartão SIM virtual de que, por acaso, era proprietário, fez um milagre com a pouca rede azeri que conseguia obter. Mesmo com dificuldades, falou com a mulher e acionou o embaixador francês no Azerbaijão. Ainda assim, esteve entalado entre os dois países aproximadamente 35 horas.
Desde aí, não voltou a jogar no Irão, país que, entretanto, suspendeu as competições. Apesar do pouco ritmo competitivo, o nome de Duckens Nazon consta da convocatória do Haiti para o Mundial 2026. Seria difícil que tal não acontecesse. O avançado tem 44 golos em 80 encontros, números que fazem dele o melhor marcador da história da seleção que esteve presente pela última vez no torneio em 1974. Mais seis encontros e isola-se também como o jogador com mais internacionalizações pelo Haiti.
Se tiver decidido escrever crónicas de viagens, certamente que tem material de apetecível leitura. Aos 32 anos, já jogou em oito países. Começou a carreira nos escalões inferiores de França antes de emigrar pela primeira vez. Estava na Índia quando o Wolverhampton demonstrou um súbito interesse no ponta de lança. Acabaria por não se estrear na equipa principal e continuar a carreira em países como Bélgica, Escócia, Bulgária e Turquia.
Durante o drama passado no Irão, a mulher estava a acompanhar a situação à distância. Junto a si, tinha os quatro filhos. Um deles nasceu há menos de um ano. A companheira de Duckens tinha uma cesariana marcada para o dia seguinte ao Costa Rica-Haiti, jogo de qualificação para o Mundial. Porém, o risco de o tempo de vida do bebé começar a contar antes do previsto era alto.
O jogador percebeu que não ia ser titular e decidiu questionar o treinador. Os dois tinham ideias divergentes sobre a situação. O técnico preferia que Nazon entrasse na segunda parte para dar um impulso à equipa. Desagradado, o jogador transmitiu que não estava disponível, porque queria estar junto da mulher durante o nascimento da criança. O selecionador argumentou que a sua presença era “importante para o espírito de equipa” e Duckens reclamou. “Não sou um comediante”, contou em entrevista à FIFA.
Ainda assim, o goleador acabou convencido e comunicou à mulher que ia assumir o risco de não assistir ao nascimento para estar no jogo frente aos costa-riquenhos. Duckens Nazon entrou na segunda parte e marcou um hat-trick, contributo fundamental para o empate (3-3). No final, a esposa entristecida com a decisão acabou por ter companhia na hora H."
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