Últimas indefectivações
terça-feira, 16 de junho de 2026
Lewis Hamilton venceu, por fim, na Ferrari; e a Ferrari venceu, enfim, com Lewis Hamilton
"Mais do que a vitória de Lewis Hamilton ao fim de quase dois anos, da ascensão das trevas à ribalta, é a vitória de uma lenda da Fórmula 1 pela Ferrari. Esse, sim, é o verdadeiro acontecimento. Histórico. Intocável. E arrebatador
Mais do que a vitória, quase dois anos depois, do piloto, no ativo, com mais títulos mundiais e mais triunfos em Grandes Prémios. Mais do que o fim de um período longo de dificuldade e amargura - não apenas o ano horrível que viveu em 2025, na estreia pela Ferrari, também os três últimos na Mercedes, perante a hegemonia de Max Verstappen, distante da ribalta a que estava habituado. Mais do que um regresso às luzes da ribalta após a descida às trevas, ou exorcização de todos os males numa corrida em que tudo lhe correu bem. A vitória de Lewis Hamilton no Grande Prémio da Catalunha é a vitória de uma lenda da Fórmula 1 pela Ferrari. Esse, sim, é o acontecimento. Histórico. Intocável e arrebatador.
A empatia de Lewis Hamilton com a Scuderia, com os membros da equipa, quando tocava o hino da Itália durante a cerimónia no pódio e estes o entoavam naquele estilo tão latino - que Hamilton não é e não tem -, as lágrimas de emoção, representam a ligação tão especial e emocional do piloto mais consagrado de todos os tempos com a equipa mais vencedora e icónica da Fórmula 1. A equipa que é o pináculo do desporto motorizado.
Durante meses, quase anos, o britânico foi alvo de dúvidas. Haveria ainda velocidade ou espaço para voltar a ganhar. As perguntas multiplicavam-se à medida que os resultados escasseavam. E a Ferrari continua a carregar o peso de uma história imensa e de uma ausência prolongada de títulos mundiais, numa convivência permanente entre a esperança e a frustração.
Hamilton venceu e, por momentos, pareceu que o tempo recuou. Não ao domínio avassalador dos anos dourados da Mercedes, mas a uma ideia mais simples e mais rara no desporto de alto rendimento: a de que os sonhos improváveis ainda podem concretizar-se.
Hamilton já ganhou muito. Ganhou mais do que quase todos. Mas talvez nunca tivesse precisado tanto de uma vitória como desta. Não para provar aos outros quem é, mas para recordar a si próprio que ainda podia escrever capítulos novos na equipa em que conquista da glória eleva à imortalidade."
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Ouro, Prata e Bronze
Três medalhas nos Europeus de Canoagem de velocidade, disputados este fim-de-semana em Montemor-o-velho.
O Pimenta continua a conquistar Ouro a nível internacional, desta vez no k1 5000m. Na categoria-rainha ficou-se pelo Bronze nos K1 1000m.
O Messias Baptista, no K1 200m, conquistou a Prata!
No K2 500m, com o Messias e o João Ribeiro, ficaram perto do pódio, no 4.º lugar. Tal como o K4 500m, com 4 benfiquistas, Gustavo Gonçalves, Pedro Casinha, João Ribeiro e o Messias Baptista, onde também ficaram no sempre frustrante 4.º lugar!
Desastre...
Corruptos 75 - 71 Benfica
18-17, 19-18, 18-22, 20-14
Algum dia tínhamos que deixar de ganhar, mas muito sinceramente, esta perda do título máximo, foi totalmente desnecessária! Durante a época houve muitas lesões, mas a equipa chegou toda disponível a esta Final... e o primeiro jogo, demonstrou que as condições para a vitória existiam, mas entrámos em modo relaxamento/azelhice contra um adversário com um Americano que fez três jogos praticamente perfeitos nos Triplos e com o Benfica a perder a guerra dos ressaltos do nosso lado do campo! Resultado final: desastre!
Iniciados - 17.ª jornada - Fase Final
Benfica 3 - 0 Tondela
G. Tavares, Lima(2)
Mais uma vitória, com várias estreias, na penúltima jornada do campeonato...
Rol de ladrões (o Narciso em 2.º lugar só pode ser piada)!!!
É este o plano que anunciamos há anos no NGB: o domínio da arbitragem pelas AF Porto e AF Braga.
— ShadowsNGB (@ShadowsNGB) June 14, 2026
Imaginem quem ganha com isto... pic.twitter.com/PjAflXCzM3
Marco Silva e o benfiquismo de cada um
"Chegou com a célebre frase «quem é o treinador que diz não ao Benfica?» e prontamente abraçou um acordo com uma cláusula de ética (?) para os dois lados.
Foi um dos 93 mil associados que fizeram história na primeira volta da recente eleição presidencial encarnada e fez valer o peso dos seus 20 votos.
Referiu que tinha «99 por cento de hipóteses de continuar» e abriu o coração ao revelar que «andou a carreira toda a disfarçar o que sentia pelo Benfica».
Terminou, entretanto, a ser publicamente trunfo eleitoral do Real Madrid e a aparecer com a camisa merengue no vídeo promocional de Florentino Pérez.
O benfiquismo de José Mourinho de pouco valeu ao término da temporada, assim como o contrato vigente com o clube - isso sem mencionar a (suposta) oferta de renovação que tinha em mãos.
Marco Silva poderia tranquilamente ter seguido o mesmo caminho de abertura, especialmente depois de Rui Costa anunciar a paixão do novo treinador pelas águias.
Preferiu, e bem, outro percurso. Ponderado. É verdade que não escondeu o peso do «lado emocional» no regresso a Portugal, mas em momento algum mergulhou num discurso populista.
Ser do Benfica é uma virtude, e eu compreendo - igualmente para aqueles que são do FC Porto, do Sporting, do Corinthians, entre outros. Não é, de todo, uma característica, tampouco um requisito básico para trabalhar no mais alto nível.
Sentar naquela que para muitos é a cadeira dos sonhos acaba por ser uma honra, um orgulho e uma responsabilidade. Correto. No fundo, é mais do que isso. É para quem tem qualidade e fez por merecer, o que (também) é o caso de Marco Silva."
Portugal: o mesmo sonho, dois discursos
"Não me parece fazer sentido que o presidente tenha um discurso e os jogadores e treinador outro. Para se ter sucesso num Mundial é necessário que todos estejam em sintonia e não existam dois caminhos diferentes dentro do grupo e estrutura da FPF.
Na sexta-feira, a nossa Seleção partiu rumo ao Mundial 2026. Em Portugal, deixa uma enorme expectativa e esperança de que este pode ser o nosso ano.
Qualidade
É difícil encontrar uma seleção com tanta qualidade e experiência como esta geração. A maior parte dos nossos convocados joga fora de Portugal e nos maiores clubes do mundo. Estão habituados a lidar com a pressão semana após semana. Chegam a este Mundial com enorme experiência em grandes provas e com muita maturidade, algo que pode ser determinante para ultrapassar os momentos mais difíceis da competição. Só para termos uma noção, oito dos 27 convocados por Roberto Martínez já venceram a UEFA Champions League.
Também é importante referir o contexto da Seleção. Estes são praticamente os mesmos jogadores que, no último ano, venceram a Liga das Nações, derrotando a anfitriã Alemanha e a poderosa Espanha na final. Esta vitória traz vários aspetos positivos. O primeiro é o aumento da confiança, da credibilidade e da certeza de que conseguimos impor-nos perante qualquer adversário. O segundo é o respeito com que os outros nos olham e analisam. Por tudo isto, hoje não podemos ter receio de nos colocarmos entre os maiores candidatos a vencer a competição.
União
O Mundial é o sonho de todos os jogadores, mas também é uma prova dura que coloca à prova todos os envolvidos. Desde logo pela ausência de férias e pelo facto de passarem um mês, ou mais, todos juntos em estágio. Esta não é uma situação fácil, porque pode originar desgaste físico e mental. Os resultados poderão amplificar os aspetos negativos, em caso de derrotas, ou atenuá-los, em caso de vitórias.
Infelizmente, nunca estive numa competição desta dimensão e, como tal, não posso falar por experiência própria. Apesar disso, tenho tido a oportunidade de ouvir testemunhos de quem lá esteve e da forma como foi ultrapassando todo o cansaço e desgaste inerentes a uma competição desta natureza. De uma forma geral, os que por lá passaram, tenham tido ou não sucesso, referem que a união é fundamental. É determinante que todos percebam que a equipa é mais importante do que o individual.
Acredito que, no momento de efetuar a convocatória, Roberto Martínez tenha tido em consideração o espírito de grupo e a forma como os convocados podem e devem interagir entre si. É importante que a equipa técnica e as pessoas responsáveis pela FPF tenham atenção à gestão dos tempos mortos, de forma a que todos se mantenham ativos e com um espírito positivo.
Nem todos vão jogar com regularidade. O importante é que os jogadores percebam que todos têm um papel no grupo e que são fundamentais para o sucesso, independentemente dos minutos que possam ter. Também é determinante que o ego de cada um fique ao serviço do grupo e não o contrário.
Gestão
Após três anos de Martínez à frente da nossa Seleção, não podemos dizer que jogamos um futebol que corresponda à dimensão do valor individual dos nossos jogadores. Ao dia de hoje, coletivamente, somos inferiores à soma das nossas individualidades. Isto significa que, em conjunto, poderíamos e deveríamos ser melhores. Ainda não encontrámos uma identidade coletiva que potencie todo o talento existente neste grupo. Isto não é uma crítica, é apenas uma constatação. Contudo, é importante referir que não é por este motivo que não podemos ser felizes nesta competição, até porque há várias formas de vencer.
Por norma, gostaríamos de ter uma Seleção que jogasse um futebol controlador, ofensivo, mais mecanizado e onde as individualidades sobressaíssem mais. Também gostaríamos de ter uma Seleção que não olhasse a nomes e que o selecionador colocasse os melhores em cada momento, em função do contexto e dos adversários. Aqui não posso fugir ao grande nome mediático da nossa Seleção, mas que já não é a nossa principal referência futebolística dentro do relvado: Ronaldo.
Ninguém coloca em causa a carreira do jogador madeirense. É o melhor jogador português de todos os tempos e um dos melhores da história. Apesar disso, não é eterno. Aos 41 anos, a destreza e os reflexos já não são os mesmos. A questão é: continua a ser útil para a nossa Seleção? A minha resposta é afirmativa.
Mas, para o ser, Ronaldo tem de perceber em que ponto está hoje e reconhecer que já não é aquele jogador que resolvia jogos sozinho. Continua a ser a maior referência fora do relvado e isso também é importante, porque atrai atenções, centra a pressão em si e liberta um pouco todos os outros. Continua a poder ser útil dentro do relvado, mediante determinados contextos e adversários.
Não tem de jogar todos os jogos nem todos os minutos. Pode, por exemplo, ser determinante a entrar nos jogos com os adversários mais cansados e pela forma como consegue mexer com o estádio. O essencial é ter esta perceção. Se a tiver, todos sairão a ganhar.
Ronaldo já bateu muitos recordes e continua a perseguir tantos outros. Não tenho dúvidas de que um título mundial será mais importante do que todos os recordes que ainda persegue.
Expectativas
Apesar de sermos reconhecidamente uma das seleções com mais qualidade e capacidade, é necessário manter os pés bem assentes no chão. De uma forma muito racional, não faz sentido sonhar com a final ou com o título. Para os intervenientes, o foco e a concentração devem estar apenas no próximo jogo. Se pensarmos assim e fizermos bem a nossa tarefa, estaremos disponíveis e preparados para o desafio seguinte, sem nunca desvalorizar qualquer adversário.
Se olharmos para a história dos Mundiais, muitas foram as seleções favoritas que ficaram pelo caminho. Por este motivo, não me parece fazer sentido apontar para um objetivo mínimo. O desejo do presidente da FPF é enorme, apesar de já ter alterado um pouco o discurso: passámos do «vamos vencer» para «o objetivo mínimo são as meias-finais». Percebo que seja importante manter todos ligados, de forma a que a exigência esteja sempre no máximo e não existam distrações.
O que não me parece fazer sentido é que o presidente tenha um discurso e os jogadores e treinador outro. A questão é perceber se esta diferença existe apenas nas palavras. Até porque para se ter sucesso num Mundial é necessário que todos estejam em sintonia e não existam dois caminhos diferentes dentro do grupo e estrutura da FPF.
A valorizar: José Mourinho
Depois de uma época desportivamente desastrosa a todos os níveis, é contratado por €15 M pelo poderoso Real Madrid. Depois de tantos anos, volta a ter a possibilidade de lutar por títulos importantes."
Brasil: com aperreio ou sem aperreio?
"Durante décadas, a seleção brasileira entrava em qualquer competição com uma vantagem invisível: a sensação de inevitabilidade. Antes mesmo da bola rolar, os adversários sabiam que do outro lado estavam alguns dos melhores jogadores do planeta. Pelé, Zico, Sócrates, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho ou Kaká não eram apenas grandes futebolistas. Eram referências geracionais. Jogadores capazes de decidir um jogo, uma competição ou até uma época inteira através de um momento de inspiração.
Hoje, olhando para o plantel brasileiro, encontramos qualidade. Muita qualidade. Mas talvez não encontremos a mesma concentração de génio individual que marcou outras gerações.
E isso não é necessariamente uma má notícia. Porque este Brasil parece depender menos da inspiração de uma estrela e mais da força do coletivo. É precisamente aqui que surge Carlo Ancelotti. A chegada do técnico italiano representa uma mudança profunda. Pela primeira vez na história, a seleção brasileira entrega o comando a um treinador estrangeiro. E não a um treinador qualquer.
Ancelotti venceu em Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha. Conquistou Champions, campeonatos nacionais e ganhou algo ainda mais difícil: o respeito universal do futebol.
Num tempo em que muitos treinadores procuram protagonismo, Ancelotti sempre se destacou pela serenidade. Não precisa de ser a estrela. Não precisa de discursos revolucionários. Não precisa de convencer ninguém do seu valor.
Talvez seja exatamente isso que o Brasil necessite: menos ansiedade, menos nostalgia, menos comparação com o passado, mais clareza, mais equilíbrio, mais equipa.
Edgar Morin defendia que os sistemas complexos não podem ser compreendidos apenas através das suas partes. O valor de um sistema depende sobretudo das relações que se estabelecem entre os seus elementos. No futebol acontece o mesmo. Nem sempre vence quem tem os melhores jogadores. Muitas vezes vence quem consegue criar as melhores ligações entre eles.
O desafio de Ancelotti não passa por encontrar um novo Pelé, um novo Ronaldo ou um novo Ronaldinho. Esses jogadores aparecem uma vez por geração e não por decreto. O desafio passa por transformar talento em organização, criatividade em compromisso e individualidades em equipa.
O Brasil continua a ser uma das grandes potências do futebol mundial. Continua a produzir jogadores extraordinários. Continua a inspirar milhões de adeptos em todos os continentes. Mas este Mundial poderá dizer-nos algo importante. Se o Brasil voltar ao topo, dificilmente será pela força de uma única estrela. Será pela força da equipa.E talvez essa seja a maior transformação de todas.
E rapidamente perceberemos se este será um Mundial vivido com aperreio ou sem aperreio."
«Venham jantar a nossa casa»
"PALM BEACH — Quem anda nestas lides de cobrir a Seleção Nacional ou os grandes clubes além-fronteiras conhece bem o guião da saudade. Onde há uma bandeira das quinas, há um emigrante pronto a abrir o coração.
Ontem mesmo, o ritual cumpriu-se através do José Gabriel e da esposa, almas lusas que há 46 anos trocaram Portugal pelos Estados Unidos e que agora gozam a reforma em Palm Beach. O «se precisarem de alguma coisa, liguem» ou o inevitável «venham jantar a nossa casa um destes dias» são património afetivo da nossa diáspora, pequenos milagres em forma de café ou prato quente.
O que nenhum jornalista espera por estas paragens é que este código de acolhimento genético seja replicado, com a mesma intensidade, por quem nasceu no coração do império americano.
Na Florida, a simpatia desarmante não fala português, mas tem o mesmo sotaque de partilha. Sentimo-lo na pele logo na praia, com um grupo de jovens norte-americanas que, ao ver-nos perdidos, desenhou um roteiro minucioso no Maps com os locais obrigatórios da região.
Mas o verdadeiro queixo caído aconteceu num restaurante local. A meio de um jantar de trabalho, com as acreditações do Mundial em cima da mesa, fomos abordados pelas diretoras da área desportiva da Câmara Municipal de Palm Beach. A Michelle e a Shelley quiseram saber quem éramos, o que fazíamos e, num ápice, ofereceram-se para ser nossas guias oficiais. A conversa terminou, espante-se, com um convite formal para jantarmos com as respetivas famílias.
É o reverso da medalha da América fria e impessoal. No meio da opulência XL, há uma urgência genuína em partilhar o território.
A famosa tarte de limão do Old Key Lime House
Entretanto, pela quinta vez desde que aterrámos, insistiram para não falharmos o mítico Old Key Lime House, mesmo ao lado do hotel de Portugal, onde a lenda jura que servem a melhor tarte de limão do planeta. Se a Seleção procura a glória no relvado, nós já fomos conquistados pelo calor das gentes e, se o futebol não nos alimentar o ego, a América já nos garantiu a mesa posta."
Os Estados Unidos... que não são de Trump
"Pulisic. Balogun. Reyna. São nomes bem americanos, não são? A goleada dos Estados Unidos ao Paraguai (4-1) expôs muito mais do que uma qualidade futebolística da equipa das Stars and Stripes, que se tem refinado com os anos e hoje tem como mestre Mauricio Pochettino. Os golos assinados por Folarin Balogun, que bisou, e por Giovanni Reyna, que faturou após assistência primorosa do Capitão América Christian Pulisic, trouxeram à tona toda a riqueza multicultural de uma equipa, que acaba por refletir a realidade de um país negada por quem o dirige: um tal Donald Trump.
Enquanto Washington aperta o controlo de fronteiras e endurece o discurso, no relvado celebra-se desde o primeiro jogo a riqueza da diversidade cultural.
Os três futebolistas contam histórias profundas de migração. Giovanni Reyna nasceu em Inglaterra, mas as raízes estendem-se pela América do Sul e pela Europa. O avô paterno emigrou da Argentina e a avó, Maria Silva, tem ascendência portuguesa.
Já Folarin Balogun nasceu em Brooklyn por acaso, quando a mãe nigeriana visitava Nova Iorque. Problemas burocráticos no momento de deixar o país fizeram com que a estadia se prolongasse mais do que o esperado e o parto se desse a muitos quilómetros de casa. O avançado cresceu depois em Londres, formou-se no Arsenal e optou pela camisola norte-americana.
Por fim, Pulisic nasceu na Pensilvânia, mas o passaporte croata do avô abriu-lhe as portas da Europa, mais concretamente as do Borussia Dortmund, na Alemanha.
Há ainda Tillman, Sergiño, Weah, Pepi e muitos mais. O talento não tem fronteiras e os filhos da imigração já carregam o orgulho dos Estados Unidos."
Há americanos que sabem o que estão a fazer com este Mundial
"Foram precisos dias. Um, dois, três dias à procura de qualquer coisa que fosse. Nada. Cheguei a ver até cadernos de desporto, daqueles destacáveis, sem uma linha sequer. Os jornais americanos pareciam não saber que os Estados Unidos iam receber um Mundial de futebol. Ou não sabiam, ou não queriam saber.
O silêncio era ensurdecedor.
Até que, finalmente, o Mundial arrancou e, talvez empurrados pela força das ondas, entrou nas páginas dos jornais locais. E fê-lo, na verdade, com um rigor admirável.
Nancy Armour, colunista do USA Today, rasgou o véu da ilusão. Num texto de uma lucidez desarmante, escreveu aquilo que muitos pensam, mas poucos o dizem: os Estados Unidos já perderam este Campeonato do Mundo.
«A seleção norte-americana até pode ter uma participação histórica, o Mundial pode encher-se de grandes golos e jogos super competitivos. Mas nada disso vai mudar o facto de termos mostrado sermos uma nação odiosa e gananciosa, onde os líderes só estão dispostos a acolher o mundo como eles querem vê-lo, e não como ele é.»
Genial, minha cara Nancy. Genial.
A colunista acusa os Estados Unidos de apenas querem explorar o amor do mundo pelo futebol para imporem a própria forma de ser. O Mundial que, lembra Armour, costuma ser uma celebração mágica e diferente de tudo o que os americanos estão habituados a ver, está a tornar-se num espetáculo de autoridade e tirania.
A festa dos brasileiros, as danças dos africanos, o mar de laranja dos neerlandeses, a paixão dos argentinos, enfim, os ingredientes estão todos cá, andam por aí a caminhar pelas ruas, mas em vez de celebrar o amor, a América optou por outro caminho.
«Escolhemos ser americanos detestáveis», escreve.
Fecho o jornal com uma estranha satisfação interior. Afinal de contas, eles podem não perceber nada de soccer, mas há pelo menos quem perceba exatamente o que estão a fazer com ele."
Formar crianças não é gerir resultados
"O treinador de formação precisa de ter a coragem de permitir que as crianças vivam o jogo, mesmo quando o resultado está equilibrado e a solução mais fácil seria recorrer apenas aos que oferecem resposta imediata.
No desporto é comum ouvir treinadores dizerem que, em determinados momentos do jogo, precisam de pensar primeiro na equipa e no resultado. Em contextos de rendimento, esta lógica faz sentido. O jogo exige respostas imediatas e decisões orientadas para competir.
Mas quando falamos de crianças, a pergunta talvez deva ser outra: estamos a gerir o jogo ou estamos a formar pessoas?
Na formação, o foco não deve estar apenas no resultado do fim de semana. Deve estar nas experiências que proporcionamos, nas oportunidades criadas e no desenvolvimento de cada criança.
Por isso, aspetos como os minutos de jogo, a participação, o feedback e a exposição a diferentes momentos competitivos tornam-se fundamentais. O treinador de formação precisa de ter a coragem de permitir que as crianças vivam o jogo, mesmo quando o resultado está equilibrado e a solução mais fácil seria recorrer apenas aos que oferecem resposta imediata.
Porque não se aprende apenas quando tudo corre bem.
Aprende-se quando se falha. Quando se sente a pressão. Quando se toma uma decisão errada. Quando ainda não se consegue resolver um problema.
Na formação, o erro não deve ser visto como algo a evitar, mas como parte do processo de aprendizagem. Muitas vezes, o erro não é incapacidade; é tentativa, exploração e crescimento.
Talvez uma das maiores diferenças entre formação e rendimento esteja precisamente aqui. No contexto sénior pode dizer-se que determinado jogador não serve para aquele momento. Na formação, o desafio é outro: reconhecer que a criança ainda não está preparada e assumir a responsabilidade de a ajudar a chegar lá.
O «não consegue» transforma-se em «ainda não consegue». E esta pequena mudança de linguagem altera toda a filosofia.
Talvez seja também por isso que seja injusto avaliar treinadores de formação apenas por vitórias, classificações ou troféus.
Talvez as perguntas devam ser diferentes: quantas crianças jogaram? Quanto evoluíram? Quantas continuaram a gostar do desporto? Quantas permaneceram no processo?
Porque, no fundo, esse pode ser o verdadeiro resultado da formação."
Pode um jogador ser transferido sem o acordo do clube e sem pagar a cláusula de rescisão?
"Os nomes que o futebol nunca esquece
Os amantes de direito desportivo têm vários nomes de jogadores no seu léxico, prontos a disparar (quais Lucky Luke) para rapidamente se afirmarem como conhecedores do fenómeno regulamentar. Webster, Matuzalém, Diarra... Cada nome encerra em si o peso cerimonioso de serem casos mundialmente famosos, mas que ao comum adepto passam “batidos”. Todavia, falemos no caso Paulo Assunção e a sua saída do F.C. Porto em 2008 para o Atlético de Madrid, e rapidamente vários entendidos da “bancada” tecerão diversas teorias sobre o evento.
É o efeito geográfico da tragédia: quanto mais longe, menos nos afecta; quanto mais perto, mais nos identificamos. É sintomático.
O caso Paulo Assunção
Em 2008, Portugal assistiu ao “caso Paulo Assunção”. Em síntese, Assunção era um elemento preponderante na equipa azul e branca, um “6” à antiga. Referência no meio-campo portista, era peça-chave da equipa e, como sempre, alvo de novela de mercado.
Ano após ano, o clube da mui nobre e sempre leal Invicta recusava-se a vendê-lo ao preço que as propostas surgiam. O jogador viu-se assim “bloqueado” no clube, atrasando o sonho de pisar outros palcos.
Frustrado pelas consecutivas inglórias investidas, o jogador decidiu terminar o seu contrato de forma unilateral e avançar para um novo clube, sem o acordo do Futebol Clube do Porto e sem pagar a sua cláusula de rescisão, à luz do então artigo 17 do Regulamento do Estatuto e Transferências da FIFA.
A lógica da FIFA e o Período Protegido
Como sempre, qualquer ato gera uma consequência. A rescisão unilateral sem justa causa de Paulo Assunção gerou — obviamente — consequências, que foram, todavia, mitigadas. No futebol, a FIFA distingue situações consoante a rescisão ocorra ou não durante o chamado «Período Protegido». Este corresponde, em termos gerais, aos primeiros anos de contrato e funciona como uma fase de maior proteção para os clubes, em que a estabilidade contratual é especialmente valorizada.
Mas...o que é afinal o “Período Protegido”? Sem grandes delongas, o período correspondente às três (3) primeiras épocas desportivas completas ou aos três (3) primeiros anos de vigência de um contrato de trabalho desportivo, consoante o que ocorra primeiro, quando esse contrato tenha sido celebrado antes de o jogador completar 28 anos de idade.
Ainda, caso o contrato seja celebrado após o jogador completar 28 anos de idade, o «Período Protegido» corresponderá às duas (2) primeiras épocas desportivas completas ou aos dois (2) primeiros anos de vigência contratual, consoante o que ocorra primeiro.
(Neste momento, acredito que muitos aficionados estejam a consultar as bases públicas de registo de contratos de jogadores para entenderem quão calmos podem estar este verão.)
Consequências dentro do Período Protegido
Durante esse período, uma rescisão sem justa causa pode ter consequências mais pesadas: para além da indemnização ao clube, o jogador pode ser suspenso de competir durante alguns meses e o clube que o contrata pode também ser sancionado, sobretudo se tiver tido um papel ativo na rutura do contrato.
O regime fora do Período Protegido
Já quando a rescisão acontece depois do Período Protegido, o sistema é mais flexível.
Nesses casos, em regra, deixam de existir sanções desportivas e a questão passa a ser sobretudo financeira, ou seja, focada na indemnização devida pelo fim antecipado do contrato.
Essa compensação tem — tendencialmente — como base o valor que faltava pagar até ao fim do contrato, sendo ajustada caso o jogador já tenha assinado por outro clube e esteja a receber novo salário nesse período.
No fundo, o sistema procura equilibrar duas ideias: por um lado, proteger a estabilidade dos contratos no futebol; por outro, permitir alguma flexibilidade na carreira dos jogadores.
O equilíbrio do sistema e a sua evolução
Este equilíbrio entre proteção contratual e compensação económica mantém-se como eixo central do sistema, sendo expectável que, a partir de 2027 (quando o novo regulamento da FIFA entrar em vigor), se verifique um reforço significativo da gravidade das sanções aplicáveis, em particular no que respeita às infrações ocorridas durante o Período Protegido, com um enfoque acrescido no efeito dissuasor e na preservação da estabilidade contratual no futebol profissional.
Importa, no entanto, clarificar que o regime da FIFA evoluiu entre o tempo do caso Paulo Assunção e a abordagem mais recente, mas mantém um ponto essencial comum: fora do Período Protegido, a regra geral continua a ser a inexistência de sanções desportivas para o jogador ou para o clube que o contrata, concentrando-se o sistema sobretudo na compensação económica pela rutura contratual. A diferença está no grau de sofisticação do modelo atual, que passou a densificar os critérios de cálculo da indemnização e a responsabilização do novo clube, enquanto em 2008 o sistema era mais simples e casuístico, resolvendo-se essencialmente a questão no plano financeiro, sem efeitos disciplinares relevantes fora desse período de proteção."
domingo, 14 de junho de 2026
Vantagem
Benfica 3 - 2 Sporting
Vitória apertada, numa partida onde fomos superiores, quase sempre, com os golos do Sporting a aparecerem contra a corrente, mas que obrigou ao Benfica terminar o jogo a sofrer!
Será importante vencer na Quarta, e marcar terreno, levar esta Final para uma potencial negra é muito perigoso!
Marco Silva
"Gosto de Marco Silva. Não precisa de apresentações nem de campanhas de marketing para justificar a sua escolha. É, sem dúvida, um bom treinador.
Mas chega também ao Benfica num dos momentos mais delicados do clube. É o sexto treinador em apenas cinco anos. Um número que, por si só, diz quase tudo o que há para dizer sobre a forma como o futebol do Benfica tem sido gerido.
Marco Silva terá de recuperar uma equipa que vem de uma época dececionante, gerir a pressão permanente de um clube que vive da exigência da vitória e enfrentar uma massa associativa cada vez mais impaciente perante a distância entre o investimento realizado nos últimos anos e os resultados alcançados.
E é aqui que surge a verdadeira questão: quando chegarem as primeiras tempestades, as palavras de apoio de Rui Costa manter-se-ão? É que os discursos de confiança têm sido abundantes e repetidos, treinador após treinador. A paciência, é que não.
Marco Silva merece tempo. Merece condições.
Ontem, Rui Costa assumiu que Marco Silva não era a primeira escolha. É verdade, e isso em nada diminui o currículo de Marco Silva. O que Rui Costa não disse é que a primeira opção foi Ruben Amorim, e não José Mourinho. Há muito tempo que Rui Costa não queria Mourinho. O Real Madrid foi uma bênção.
Dito isto, Marco Silva até podia ter sido a sexta opção. Continua a ser um bom nome e já se percebeu que vive bem com isso. Esperemos que tenha o apoio e uma estrutura competente e capaz à sua volta, algo de que os seus antecessores não tiveram.
Já agora, se o director de comunicação puder fazer prova de vida durante toda a época, e não apenas de ano a ano na aprensentacao dos novos treinadores, isso também ajudará."
Mensagem...
0 aparecimento de Mário Branco na fotografia foi uma das grandes novidades da apresentação de Marco Silva como treinador do Benfica. Pela sua intervenção decisiva na contratação do treinador e porque esta é verdadeiramente a primeira temporada preparada por si. pic.twitter.com/JGtsNrfQQr
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) June 13, 2026
Chamem a polícia...
Os últimos dias trazem de volta os sinais que a farsa a que chamam liga portuguesa está pronta para mais um ano de adulteração da verdade desportiva. Gustavo Correia é apanhado a mentir no relatório, depois de ter roubado a Champions ao Benfica, em Famalicão.
— Liga da Farsa (@ligadafarsa) June 13, 2026
Marco Silva apresentado
"A apresentação do novo treinador do Benfica é o destaque nesta edição da BNews.
1. Ambição
No Museu Benfica – Cosme Damião, Marco Silva partilha o que sente: "A honra, o orgulho e a responsabilidade. É o maior desafio da minha carreira. Quem entra nesta casa tem de acreditar que está aqui para ser campeão." E acrescenta sobre a Liga Europa: "O Benfica tem de ser um candidato. Sem dúvida."
2. A conhecer os cantos à casa
Marco Silva fez a primeira visita ao Estádio da Luz enquanto treinador do Benfica, onde visitou as áreas dos vários serviços de suporte, o espaço onde laboram os meios de comunicação do Sport Lisboa e Benfica e o estúdio da Benfica FM.
3. Mundial 2026
Siga, no Site Oficial, o desempenho dos futebolistas do Benfica e todos os resultados e marcadores.
4. Em vantagem
O Benfica ganhou ao Sporting por 2-1 no jogo 1 da final dos play-offs do Campeonato Nacional de futsal.
5. Em desvantagem
No jogo 3 da final dos play-offs do Campeonato Nacional de basquetebol, o Benfica foi derrotado pelo FC Porto (87-63). Disputada à melhor de 5, o Benfica perde 1-2.
6. Jogos do dia
Na Luz, às 15h00, começa a final dos play-offs do Campeonato Nacional de hóquei em patins no masculino entre Benfica e Sporting.
Às 21h00, a equipa feminina de futsal do Benfica visita o Nun'Álvares. Em caso de triunfo benfiquista, as águias sagram-se campeãs nacionais.
7. Em destaque em Toulon
Vários jogadores do Benfica ajudaram Portugal a chegar à final do prestigiado torneio para seleções Sub-20, entre os quais João Rego, que bisou.
8. Campeonatos da Europa de canoagem de velocidade
Acompanhe, no Site Oficial, a prestação dos canoístas do Benfica. Fernando Pimenta alcançou o bronze em K1 1000 metros.
9. Cosme Damião faleceu há 79 anos
A efeméride foi assinalada ontem."
O meio-campo e a fórmula 1+3
"Uma forma de potenciar ao máximo Vitinha, João Neves, Bernardo Silva e Bruno Fernandes
Diz o ditado futebolístico que os jogos se ganham no meio-campo. Independentemente da opção por um estilo de jogo mais direto ou mais associativo, por norma, quem controla melhor as ações sobre o corredor central tende a estar mais próximo da vitória.
Olhando para todas as seleções presentes neste Mundial 2026, parece-me claro que Portugal tem o meio-campo mais inteligente, complementar e potencialmente decisivo de todo o certame.
Um meio-campo capaz de proporcionar inúmeras soluções técnico-táticas a Roberto Martínez, mas que, a meu ver, deveria operar a partir da fórmula 1+3: sendo Vitinha o médio mais defensivo, Bernardo Silva o médio interior direito, Bruno Fernandes o médio centro e João Neves o médio interior esquerdo.
Esta configuração, além de potenciar a utilização de uma dupla de avançados (beneficiando Portugal na chegada às zonas de finalização), seria ideal para extrair o melhor rendimento de cada um dos quatro principais médios da seleção portuguesa. Tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista coletivo.
Vitinha e Bernardo Silva seriam os principais dínamos da fase de construção e da fase de criação. Perfilados lado a lado ou em posições mais assimétricas, nos half spaces ou em linhas diferentes mediante o que fosse necessário, seriam garantia de qualidade, critério e limpeza na forma como Portugal sairia a jogar apoiado desde trás.
Bruno Fernandes e João Neves, pese embora as diferentes características e capacidades inatas, têm ambos uma forte apetência para chegar às zonas de finalização. E teriam muito mais liberdade e facilidade em avançar até às mesmas estando menos envolvidos na fase inicial do momento ofensivo lusitano.
Com esta fórmula 1+3, Portugal poderia finalmente passar a ter jogo interior e um ataque posicional que favorecesse as características dos médios lusos, bem como a conexão com a dupla de avançados e a ligação com o jogo exterior dado pela projeção dos laterais.
E no momento defensivo, quem iria defender?
Acredito que melhor forma de defender é saber ter bola e impedir que o adversário a tenha. Com um ataque organizado e posicional funcional, alicerçado por este meio-campo 1+3 inteligente e criterioso, Portugal teria sempre os jogadores bem posicionados e com as distâncias ideais para reagir rapidamente à perda de bola e evitar transições defensivas que obrigassem a correrias de 50 ou 60 metros para trás."
O mês em que voltamos a ser crianças
"Começou o Mundial. Nas próximas semanas, o mundo voltará a parecer maior e mais pequeno ao mesmo tempo. Maior, porque cabem nele todos os sonhos. Mais pequeno, porque cabem todos dentro de uma bola.
Começou o Mundial. E, como acontece, de quatro em quatro anos, o mundo voltou a fingir que é uma aldeia. Durante um mês, as fronteiras tornam-se linhas desenhadas a lápis, as diferenças políticas escondem-se atrás das bandeiras e milhões de pessoas que nunca se cumprimentariam na rua partilham o mesmo nervosismo perante uma bola que rola.
Será o último de Cristiano. O último de Messi. O capítulo final de uma história que nos acompanhou nas últimas duas décadas. Há crianças que aprenderam a ler quando eles já eram os melhores do mundo. Há adultos que envelheceram ao ritmo dos seus golos. E agora chegam aqui como os velhos pistoleiros nos filmes do Oeste. Ainda perigosos. Ainda respeitados. Mas já acompanhados pelo rumor da despedida.
Nenhum Mundial começa apenas no presente. Começa também na memória.Cada adepto transporta consigo um álbum invisível. Pelé a correr numa fita que começa a preto e branco e que continua num filme a cores. Maradona a desafiar a lógica e os deuses. Romário e Bebeto abraçados como dois gémeos de mães diferentes. Zidane a rodopiar em versos escritos num relvado. Os Mundiais não pertencem ao calendário. Pertencem à infância.Talvez seja por isso que continuamos a amá-los. Porque nos devolvem uma versão de nós próprios que julgávamos perdida.
Durante quatro anos somos pessoas demasiado ocupadas para visitar a criança que um dia fomos. Pagamos contas. Cumprimos horários. Fazemos promessas que não cumprimos. Carregamos preocupações que não acabam. Depois chega um Mundial e voltamos a ter dez anos. Voltamos a acreditar que um remate pode mudar uma vida. Que um golo aos 90 minutos pode corrigir uma injustiça antiga. Que o impossível não é uma palavra definitiva.
O Mundial é uma máquina de fabricar a beleza da infância dentro de adultos que se esqueceram como se sonha. E talvez seja por isso que perdoamos tanto. Perdoamos a hipocrisia. Perdoamos os discursos vazios. Perdoamos os dirigentes que falam de igualdade enquanto se ajoelham perante o dinheiro. Perdoamos uma organização que há muito escolheu dormir ao lado do poder. A FIFA muda de cenário, muda de slogan, muda de anfitriões, mas mantém uma estranha vocação para confundir influência com virtude e riqueza com mérito.
Sabemos tudo isso.
Sabemos demasiado. Mas também sabemos que existe um instante em que a cerimónia termina, os discursos desaparecem e a bola começa a rolar. Nesse momento, a política perde volume. Não desaparece. Nunca desaparece. Mas fica em silêncio. E então entra em campo a parte mais poderosa da humanidade. A imaginação. Porque o futebol é uma das poucas coisas capazes de unir o sol e a sombra. A beleza e a miséria. O cinismo e a inocência. O negócio e a arte.
Durante um Mundial, um rapaz desconhecido pode tornar-se eterno numa tarde. Um país pequeno pode desafiar um império. Um remate pode transformar-se numa recordação que sobreviverá décadas.
É por isso que continuamos aqui. Não por Infantino. Não pelos patrocinadores. Não pela falsidade e hipocrisia nos bastidores do poder.
Estamos aqui por aquele instante raro em que o coração chega antes da razão.
Estamos aqui porque ainda acreditamos nos heróis, mesmo sabendo que são humanos. Estamos aqui porque o futebol continua a ser a mais bela desculpa para sonhar acordado.
E porque, algures entre a corrupção dos homens e a pureza da bola, existe um território onde a infância resiste.
Começou o Mundial. Nas próximas semanas, o mundo voltará a parecer maior e mais pequeno ao mesmo tempo. Maior, porque cabem nele todos os sonhos. Mais pequeno, porque cabem todos dentro de uma bola."
A moda tem quase sempre racional
"O Mundial arrancou e da melhor maneira para aqueles que odeiam as novas modas e, de certa forma, também o futebol moderno. O México colocou-se na frente aos 9' e, assim que a bola entrou, as câmeras foram à procura de Sphephelo Sithole, que tinha cometido o grave erro que tudo precipitou.
Os adeptos do chutão, alguns deles também chutões no seu tempo, terão logo ido às redes sociais mostrar os dentes. Outra vez? — terão perguntado. Amigos, vocês chutavam porque não tiveram um treinador que achasse que poderiam evoluir, estes tiveram, só que, como todos, cometem erros. É tão simples quanto isso.
E o erro nasce da estratégia e não da moda. Hugo Broos, treinador belga da África do Sul, quis dividir os aztecas, criar espaço entre linhas e, sobretudo, projetar os alas. Mas não se joga sozinho e o velho lobo Javier Aguirre terá estudado bem o adversário, apresentando um 4x4x2 no momento sem bola que bloqueava esse atrair para ferir e gerava também um redemoinho pressionante perto da área.
É aí que surge o médio Sithole, de costas para a pressão, sem espreitar o ângulo morto antes de receber. Gatilho para o rival assim que se mostrou ao seu guarda-redes, tornou-se depois presa fácil pelo primeiro toque, realmente deficiente. Daí até ao golo de Julián Quiñones foi tudo demasiado rápido.
A estratégia só se tornou inadequada a partir do momento em que houve contra-estratégia. E a esta os sul-africanos não reagiram. Ronwen Williams estava de frente e podia ter diminuído o risco com um destinatário mais projetado. Ou então chutado para a frente, que, na prática, era também reconhecer que essa batalha estava ganha pelos mexicanos."
Viver na terra do XL
"PALM BEACH — Aterra-se nos Estados Unidos com a ilusão de que o cinema exagera. Duas horas depois de circular pelas avenidas da Florida, a caminho do quartel-general de Portugal, percebe-se que Hollywood é, afinal, um retrato minimalista. Por aqui, a moderação é um conceito europeu sem visto de entrada. Tudo, absolutamente tudo, é desenhado à escala do impensável.
Se na Europa conduzimos carros, aqui os locais tripulam autênticos couraçados de asfalto; as pick-ups normais têm o tamanho de camiões e as motas que rugem junto aos semáforos parecem naves espaciais sobre duas rodas.
É o triunfo do gigantismo norte-americano, uma filosofia de vida onde o tamanho não é apenas um detalhe, mas sim uma declaração de poder.
Esta cultura do excesso estende-se ao prato com uma violência calórica desconcertante. Entrar num restaurante em Palm Beach para pedir um almoço rápido é receber uma bandeja que alimentaria uma equipa de futebol americano da Florida.
As doses são monumentais, os bifes parecem desafiar as leis da física e as bebidas — mesmo o mais inocente café ou refrigerante em tamanho pequeno — chegam à mesa em baldes de plástico que obrigam a usar as duas mãos.
Há um orgulho indisfarçável nesta estética do XL, uma obsessão pelo desperdício que choca o recém-chegado e fascina o cronista.
Até a forma como os americanos comunicam segue esta bitola hiperbólica. Não há conversas em surdina; tudo é projetado com uma expressividade ruidosa, um entusiasmo sonoro onde cada banalidade do quotidiano é saudada como se fosse a descoberta da pólvora.
É neste cenário de proporções bíblicas que a nossa Seleção Nacional vai ter de se movimentar nas próximas semanas. Portugal, um país moldado no detalhe e na contenção, terá de saber manter a identidade no meio deste turbilhão onde o ego e as porções competem pelo mesmo espaço.
Para vencer na América, os comandados de Roberto Martínez não precisam de engolir doses XL, mas vão ter de jogar à escala deste país: gigantes. Vai dar Portugal!"
Será que o torto se endireita?
"1. Omar Artan
Muito já foi dito e escrito sobre o jovem árbitro da Somália. Um dos melhores valores africanos, com imensa experiência internacional, sobretudo ao nível das competições de clubes da CAF, mas também a mostrar qualidades na fase final da CAN-2025, que se disputou há meio ano em Marrocos.
Sem surpresa designado, há três meses, para integrar o contingente continental de juízes para o Mundial. Repito, há três meses. Um tempo de construir sonhos, respirar futebol, preparar corpo e mente para a exigente tarefa de dirigir encontros nas Américas.
Um sonho tornado realidade, que Artan nunca escondeu ser o objetivo de uma vida e de uma carreira profissional.
A FIFA tem, nos seus oficiais, uma das classes mais importantes e decisivas para dignificar as principais competições e, para mais, um Mundial reforçado em número de equipas, de países organizadores, de cidades e de estádios. Tem obrigação de cuidar dos seus árbitros de modo transversal e inequívoco.
Independentemente da intransigência dos processos de admissão de estrangeiros em território dos EUA, competiria sempre ao organismo gestor do futebol mundial a responsabilidade de assegurar que todos os seus integrantes do setor da arbitragem teriam salvo-conduto para ultrapassar burocracias.
Se é verdade que, em comparação com o que sucedeu há oito anos, na Rússia (Vladimir Putin liberou fronteiras para permitir uma verdadeira festa do futebol mundial), Donald Trump fecha o país a sete chaves e coloca em causa a credibilidade do segundo maior evento desportivo mundial (e, atenção, em 2028 o primeiro terá lugar em… Los Angeles!), é igualmente certo que a imagem de Gianni Infantino sai muito chamuscada desta situação. E ainda estamos apenas no terceiro dia de Mundial…
2. Claudia Scheinbaum
Para muitos, terá sido um incidente diplomático. Para todos, foi uma surpresa. E uma bofetada de luva branca à FIFA: a presidente do México não esteve no Estádio Azteca, para a partida inaugural do Mundial, entre a equipa do seu país e a África do Sul. Preferiu, de acordo com o seu gabinete, juntar-se à população mexicana anónima, vendo o jogo e celebrando a vitória da tricolore num centro desportivo comunitário.
É, evidentemente, um sinal, um poderoso sinal dado por Claudia Scheinbaum, num momento em que as relações entre México e Estados Unidos da América já conheceram melhores dias, e em que o Mundial tem acrescentado pepitas de discórdia entre os organizadores, justamente devido à política diversa de admissibilidade de estrangeiros nos respetivos países, para diversas funções na competição.
Scheinbaum já não gostara da atribuição, à sua frente, em Washington, do FIFA Peace Prize a Donald Trump, manifestando visível desconforto.
Encontrou agora, na legitimidade do seu exercício presidencial, o modo ideal de mostrar à FIFA que há múltiplas formas de celebrar o belo jogo. Infantino, sozinho na primeira fila da tribuna, ganhou mais um motivo para começar a questionar algumas das ações pelas quais se responsabiliza.
3. João Pinheiro
Aproxima-se a estreia do mais cotado árbitro português da atualidade. João, Bruno e Luciano, o trio inseparável, será muito brevemente designado para o seu primeiro jogo. A ansiedade sobe, na exata medida e proporção da dimensão mundial da competição.
É natural que, respeitando a neutralidade continental que tem caraterizado Pierluigi Collina, o primeiro encontro da equipa de arbitragem portuguesa seja entre seleções não europeias, o que fará com que Pinheiro regresse ao Chile, onde apitou, o ano assado, na fase final do Mundial de sub-20.
A presença do árbitro português será, evidentemente, bem recompensada do ponto de vista financeiro. É um ponto alto de carreira para profissionais altamente treinados e especializados, com dimensão e visão mundiais, e de alcance global.
Portanto, e na exata medida das previsões financeiras muito favoráveis já reconhecidas pela FIFA, era só o que faltava que os árbitros não fossem bem pagos.
Terão de o ser, e é muito bom que a tripla lusa ganhe ainda mais, com acréscimos previstos para os juízes que dirigirem partidas da fase a eliminar (a partir dos 16 avos de final), porque isso, evidentemente, significaria o prolongar do trilho de sucesso e competência na fase final do Mundial das Américas.
Tudo o que João Pinheiro já conseguiu ilustra bem o princípio de que o esforço e a dedicação, aliados a um profundo estudo teórico e a uma condição física de atleta de alto rendimento, são referência e caminho. Devem ser motivo de orgulho para os portugueses, exatamente como a sua seleção ou os seus ídolos do pontapé na bola. O apito nunca será menos importante.
4. Cristiano Ronaldo
Portugal, nos últimos anos, tem um problema: confunde gratidão com lucidez.
Cristiano Ronaldo, como já múltiplas vezes escrevi e disse, é, para muitos, o melhor jogador da História do futebol e, para todos, será sempre um dos melhores.
É um atleta de eleição, pelo modo como tem gerido a sua carreira e por chegar aos 41 anos com uma vitalidade que muitos trintões (ou até mais jovens…) já não têm para o alto rendimento.
CR7 é uma marca. No campo, fora dele, no marketing, na publicidade, no planeta futebol, nas redes. Incontornável, única, indissociável de um ícone do desporto mundial.
Ninguém o nega, nem tem como negar. Só temos, enquanto amantes do desporto-rei, de nos sentir recompensados por tudo o que o astro madeirense construiu, ao longo da sua brilhante carreira.
Posto e dito isto, do ponto de vista competitivo, Cristiano já não é a mais-valia que, durante muitos anos, constituiu para o onze português. É um pilar de balneário e uma fonte de agregação e motivação, mas isso não quer dizer que tenha de ser titular.
Fica evidente, em diversos momentos de demasiados jogos, que Portugal é mais fluido e oferece diferentes possibilidades de exponenciar características de outros grandes jogadores, quando o avançado do Al Nassr não está em campo.
Será sempre um ótimo trunfo, uma explosão de alegria para a equipa e de respeito para os adversários, se jogar trinta a quarenta minutos. Sublinho: não creio que se justifique, neste momento e com o grupo à disposição de Roberto Martínez, a sua titularidade.
Tenho, porém, quase a certeza que a terá. Mas gratidão não pode, por si só, rimar com lucidez."
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