Últimas indefectivações

terça-feira, 16 de junho de 2026

Benfica, desafio e obrigação


"A forma civilizada como Benfica e José Mourinho se separaram foi benéfica para ambos. Com prazos apertados, entre a segunda pré-eliminatória da Liga Europa e um Mundial a decorrer, Rui Costa tem de ser lesto a dar a Marco Silva os meios de que este necessita para colocar em marcha um projeto que pretende que seja coerente, primeiro, e ganhador, depois…

Decidida a questão do novo treinador do Benfica (refira-se que Rui Costa e José Mourinho optaram pela elevação na hora da despedida, com benefícios mútuos evidentes), os encarnados precisam de trabalhar bem e depressa, dentro e fora do campo, para poderem entrar na época de 2026/27 em modo sustentadamente ambicioso.
Tão rapidamente quanto possível, Marco Silva precisa de saber com quem conta e com quem não conta, para lançar os alicerces da equipa que quer construir, num contexto particularmente ingrato, quer pela entrada mais cedo do que o esperado (23 de julho) na Liga Europa (parabéns Torreense), quer por estarmos em ano de Campeonato do Mundo, o que levará a que seis jogadores benfiquistas (Tomás Araújo, Frederik Aursnes, Andreas Schjelderup, Amar Dedic, Dodi Lukebakio e Richard Ríos, assim permaneçam todos na Luz) se apresentem mais tarde, ou abdiquem de parte das férias (e isso paga-se mais à frente).
Quando, dentro de dez dias, o antigo treinador do Fulham, abrir a ‘oficina’ do Seixal, precisa de ter a definição do plantel (entradas e saídas) em estado de prontidão muito avançada, sendo impensável que o Benfica guarde para as calendas as tomadas de decisão.
Mas se Marco Silva, a 25 de junho, precisa de ter o grupo com que vai trabalhar já bastante estruturado, Rui Costa, que tem de enfrentar duas Assembleias Gerais (AG’s) dois dias depois, necessita igualmente de chegar ao cara-a-cara com os sócios com argumentos concretos e fiáveis, que contraditem a imagem de indeciso que a oposição interna desenhou dele.
Quer isto dizer que há uma conjugação perfeita entre as necessidades de presidente e treinador, o que pode ser motivo suficiente para o Benfica não marcar passo na parada, quando a ‘guerra’ das transferências está no auge, à semelhança do que aconteceu num passado recente.
Há ainda mais a dizer sobre esta matéria: o Benfica precisa de aprender com os erros cometidos e, dentro do orçamento disponível, deve dar a Marco Silva os jogadores que este entende necessários para levar por diante o seu projeto. O clube da Luz não pode adquirir cromos repetidos, apenas porque constituem boas ocasiões de mercado, nem dar tiros no escuro – que acabam normalmente por acertar-lhe no pé - em lugares-chave da equipa.
Sendo certo e sabido que as AG’s dificilmente correrão bem a Rui Costa (podem, isso sim, revelar um presidente assertivo, com argumentos palpáveis), e não havendo grandes dúvidas quanto ao facto do antigo «maestro» ter desbaratado algum do capital de confiança de que dispunha entre os sócios, que lhe tinha permitido uma vitória folgada sobre Noronha Lopes, a margem de tolerância ronda o zero e os resultados desportivos, sempre importantes, sê-lo-ão agora ainda mais.
Regressemos a Marco Silva: sabe o que quer e nunca na carreira facilitou com as direções ou administrações dos clubes por onde passou. Há treinadores mais propensos a aceitar sugestões que nem sempre vão ao encontro do projeto desportivo que defendem, mas Marco Silva não faz parte dessa equipa. E parece claro como água que só aceitou abandonar a Premier League porque – e de certeza absoluta que não o fez por dinheiro, antes pelo contrário – lhe deram garantias de apoio e autonomia.
O plantel do Benfica precisa de ser requalificado, em tempo recorde para que lhe seja devolvida a coerência perdida há uns anos. É esse o desafio de Marco Silva, é essa a obrigação de Rui Costa.

CARTAS
ÁS
Aleksander Ceferin
Os Estados Unidos não deixaram que um árbitro escolhido pela FIFA para o Mundial, pudesse entrar no país. Célere, a UEFA tratou de nomear o somali Omar Abdulkadir Artan para a final da Supertaça, em Salzburgo, a12 agosto, entre PSG-Aston Villa. De luva branca…

ÁS
Bernardo Silva
A imprensa espanhola é unânime ao assumir que Bernardo Silva vai ser jogador de José Mourinho (e por influência dele) no Real Madrid. A cotação do jogador luso, fica patente na qualidade dos clubes que o pretenderam. Mas parece estar mesmo destinado aa ‘Casa Blanca’.

DUQUE
Vicenzo Montella
O italiano de 51 anos, craque da ‘squadra azzurra’, com passagens por clubes de topo, que desde 2023 comanda a Turquia, não podia ter começado o Mundial de pior forma: perder com a Austrália, não é currículo, é cadastro. Tem o Paraguai e os EUA para salvar a face…

FOTOLEGENDA
53 ANOS.
Nova Iorque esperou mais de meio século por novo título dos Knicks na NBA, e a festa foi de arromba, até o Empire State Building se vestiu com as cores da equipa da Big Apple. Em 1973, quando tinham levantado a taça pela última vez, Richard Nixon era Presidente dos EUA (por cá era Américo Tomaz), negociava-se o fim da guerra do Vietname, a Guiné-Bissau tinha proclamado, unilateralmente, a independência, o Benfica celebrava o ‘tri’ com Jimmy Hagan, e ainda faltavam dez meses para o Rádio Clube Português passar «E Depois do Adeus». Para os Knicks, a paciência foi uma virtude…

CAPA
O estatuto internacional de Amorim Não obstante a etapa de Olf Trafford não ter tido nada a ver com um ‘Teatro dos Sonhos’, o estatuto de Ruben Amorim permite-lhe ver o seu nome associado a grandes clubes mundiais. A ‘Gazzetta Dello Sport’ garante que o treinador que revolucionou o Sporting está a um passo de se tornar num ‘Diovolo Rossonero’, o que significa uma nova oportunidade para o técnico português se afirmar numa Liga das ‘Big Five’."

Rui Costa, o saco de pancada


"O presidente do Benfica é preso por ter cão e preso por não ter. É preso por respirar e preso por não fazer apneia. É preso até por ter querido receber 15 milhões...

Adoro sacos de pancada. Não daqueles que os pugilistas usam para treinar as murraças, mas sacos de pancada humanos. Aqueles a quem toda a gente bate ou tenta bater. No fundo, os que são presos por ter cão e presos por não ter. Presos por terem renovado com um treinador em março (de 2023) e presos por apenas terem querido renovar com outro em maio (de 2026). Presos por quererem receber 15 milhões de euros e presos por não terem resolvido tudo mais cedo, mesmo que isso implicasse não receber 15 milhões de euros. Presos por falarem e presos por estarem calados. Presos porque sim e presos porque não. Presos, no fundo, porque respiram e porque não sabem fazer apneia.
Falo, obviamente, de Rui Costa. Seis milhões de benfiquistas (aceitemos este número como certo) queixam-se de que o clube foi imensamente prejudicado na final da Taça de Portugal de 2025. E que foi prejudicado no último Famalicão-Benfica. E que foi prejudicado no penálti assinalado contra o Benfica e a favor do Arouca quando Otamendi, em 2024/2025, no chão e de cabeça, acertou num adversário. E que foi prejudicado no penálti assinalado contra o Benfica por mão de António Silva, já esta época. E que foi prejudicado mais não sei quantas vezes em não sei quantos lances. Aceitemos todas essas queixas como justas. Porém, muitos desses seis milhões de benfiquistas (voltemos a aceitar este número como certo) são depois os primeiros a erguer o saco de pancada à sua frente e desatam às murraças a uma só figura: Rui Costa. Faz sentido? Não.
Escolham, por favor. Escolham o vosso culpado para a derrota do Benfica na final da Taça de Portugal de 2025. Pode ser Luís Godinho. Ou Tiago Martins. Ou Renato Sanches. Ou Viktor Gyökeres. Ou Bruno Lage. Ou Matheus Reis. Ou todos juntos. Escolham os culpados do penálti de Otamendi, do penálti de António Silva e de todas as outras vezes em que o Benfica foi prejudicado. Mas, se acham que houve um culpado (ou mais) exterior ao Benfica, por que razão depois esticam o dedo na direção do mesmo saco de pancada? O desporto mais praticado em Portugal nos últimos largos meses, meus caros, não foi futebol, atletismo, andebol, padel ou bilhar. O desporto mais praticado foi um só: bater no saco de pancada.
Já sabemos que Rui Costa foi um grandíssimo jogador e está a ser, até ao momento, um presidente apenas mediano. Ganhou, em cinco anos, um Campeonato Nacional, uma Taça da Liga e duas Supertaças Cândido de Oliveira. É pouco. É muito pouco. Ganhou quatro troféus nacionais em 20 possíveis. É pouco. É muito pouco. Mas daí a ser culpado de tudo e mais alguma coisa no Benfica vai um passo enorme. Errou ao despedir Roger Schmidt tão tarde? Sim. Errou ao não segurar Bruno Lage? Sim. Errou ao esperar tanto tempo para receber 15 milhões de euros e contratar Marco Silva? Não. E, sobretudo, não errou ao não cair na tentação de fazer da apresentação de Marco Silva uma espécie de acerto de contas. Fosse ou não com José Mourinho."

As incongruências de Rui Costa


"Explicações procuraram resgatar a imagem de um Benfica proativo, mas as contradições do discurso e a letargia no mercado expõem outra vez um planeamento inexistente ou feito à pressa

É verdade que já passaram uns dias, mas há palavras de Rui Costa que ainda ecoam no universo encarnado nas explicações sobre José Mourinho e Marco Silva. Não digo que o presidente do Benfica não se tenha preparado e comunicado com clareza sobre o que lhe foi perguntado, nem que também não me pareça importante dar o benefício da dúvida a um treinador que, além do excelente trabalho nos últimos anos, fez mais na determinação do rumo que quer para a equipa do que o líder: para Marco Silva, o Benfica tem de ser uma equipa dominadora. Rui Costa nem isso soube fazer. Primeiro com palavras, depois com decisões, que na maioria visaram precisamente o contrário.
O técnico deixou mais ou menos claro que só a partir da oficialização passou a alinhavar ideias com os encarnados, quando o presidente tinha dito o contrário e até afirmado mais: que o clube não tinha ficado parado sem treinador. Isto depois de ter sublinhado que Mourinho seria o timoneiro esta época se não se tivesse decidido pelo Real Madrid.
Primeiro, ainda não saiu nenhuma decisão da direção desportiva a não ser vender um jovem central, quando a equipa precisa de dois. Depois, mesmo que a anuência de um treinador seja importante, há jogadores que são transversais a qualquer um e a decisão pode e deve passar pelo clube. Sabendo-se da forte probabilidade de ser o último ano de Otamendi, as águias não fecharam um único negócio, nem como prevenção, ainda durante a temporada, nem depois da decisão do argentino. Para quem não esteve parado, disfarçou muito bem.
Por fim, Mourinho. Ainda que me pareça que não tenha sido bem assim, Rui Costa assumiu que o Special One iria ter mais um ano ou, pelo menos, começar a nova temporada. Só isso é preocupante. Revela falta de sensibilidade ou fraqueza na tomada de decisão para quem precisa de reforçar uma cultura vencedora que se tem esboroado nos últimos anos. É retirar responsabilidade da má época, que nem Liga dos Campeões garantiu, a quem se sentou no banco. E cujo fracasso, mesmo chegando a momentos de decisão onde costumava ser implacável, foi além da desculpa de sempre, a arbitragem, ou das de circunstância, o tal plantel que não teve à sua medida.
Rui Costa irá agora sentir que já fez o que era preciso e sair de cena, voltando para a sombra. Como sempre fez. À espera, pela enésima vez, que as coisas batam certo. Que Marco Silva sozinho consiga preencher tamanho vazio."

Pois...

Fundação: 1.ª meia-final IRS Challengea

Terceiro Anel: Bola ao Centro #206 - O INÍCIO DE UMA NOVA ERA!!! 🦅🔴

Falar Benfica #249 - Marco Silva

João Diogo Manteigas // A época desportiva 25/26 e as próximas AGs

Zero: Mercado - Lista de compras do Benfica ganha um novo nome

BF: Médios...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Quatro desafios para Marco Silva no Benfica

Observador: E o Campeão é... - Amorim no Milan: sonho milionário ou casa a arder?

Observador: Três Toques - Onde tudo começou: as origens dos 27 convocados da Seleção

Zero: Negócio Mistério - S06E04 - El-Hadji Diouf

Zero: 5x4 - S06E40 - Benfica na frente; Mistério FC Porto

Zero: Afunda - S06E49 - O título dos Knicks, Brunson e o futuro

Tailors - Final Cut - Maria João Matos

Os adeptos não são todos iguais


"Durante muito tempo falámos dos adeptos como se fossem todos iguais. Quem gosta de futebol vê futebol. Mas o estudo que desenvolvemos no IPAM sobre o impacto económico do Mundial 2026 mostra que essa ideia já não corresponde à realidade.
Hoje existem diferentes tipos de adeptos, com comportamentos muito distintos. E essa diferença explica onde e como o futebol gera dinheiro.
O primeiro perfil é o adepto casual. É aquele que aparece nos grandes momentos. Vê os jogos da Seleção, sobretudo quando são decisivos, junta-se à família ou aos amigos e escolhe o café do bairro ou a sala de casa. Compra cervejas no supermercado, uns petiscos, talvez uma pizza, e pouco mais.
Se o entusiasmo crescer, pode comprar uma camisola da Seleção numa loja da Sport Zone ou da Decathlon. No total, este adepto pode gastar entre 40 e 100 euros durante o Mundial. Parece pouco, mas são muitos. É este perfil que enche cafés, aumenta o consumo de marcas como Super Bock, Sagres, Sumol, Continente, Pingo Doce ou Lidl nos dias de jogo.
Depois há o adepto intensivo. Este vive o Mundial todos os dias. Vê vários jogos, mesmo quando Portugal não joga. Organiza jantares em casa, vai mais vezes a restaurantes, acompanha debates, compra merchandising oficial, coleciona cromos da Panini, subscreve a Sport TV ou plataformas digitais, e pode até apostar de forma ocasional.
Em alguns casos, viaja para ver jogos ao vivo ou faz férias alinhadas com a competição. É o adepto que compra camisolas da Nike, Puma ou Adidas, que passa semanas com o Mundial como prioridade. Este perfil pode gastar entre 350 e 3.500 euros, dependendo do grau de envolvimento. É o grande motor do consumo tradicional.
O terceiro perfil é o adepto digital, o que mais cresce e melhor explica a transformação do futebol. Este adepto vê o jogo, mas faz muito mais do que isso. Comenta no X, no Instagram ou no TikTok, partilha vídeos, cria memes, reage em tempo real, consome highlights no telemóvel, segue jogadores, marcas e influenciadores.
Pode gastar menos em restauração, mas gera valor através da atenção. É este comportamento que explica porque cerca de 23% do impacto económico do Mundial já vem do digital. Plataformas, redes sociais e conteúdos já representam quase um quarto do valor total. Este adepto pode gerar entre 200 e 1.500 euros em impacto económico direto e indireto, mesmo sem sair de casa.
O ponto central é simples: o futebol já não vale apenas pelo jogo. Vale pela forma como é vivido. O impacto económico constrói-se em milhares de decisões pequenas como ir ao café, comprar uma camisola, jantar fora, comentar um lance, partilhar um vídeo. Somadas ao longo de várias semanas, transformam-se em centenas de milhões de euros.
Nem todos os adeptos consomem da mesma forma. Mas todos contam. E perceber estas diferenças é hoje essencial para entender o verdadeiro negócio do futebol."

Um eterno regresso à infância


"O meu primeiro sonho foi ser jogador de futebol. Via o meu Pai jogar à bola como um craque, misto de velocidade e técnica, e tentava fazer como ele. Com o tempo percebi que só terei herdado dele metade do jeito, embora grande parte do gosto e da paixão pelo jogo.
Pelo início da adolescência, ali pelos 13 anos, fiz outra descoberta: não valia a pena tentar ser um futebolista mediano, mas a minha vocação para o jornalismo fez-me acreditar que talvez valesse a pena escrever sobre Futebol.
E assim foi.
Comecei no jornalismo aos 15, corria o ano de 1993, ainda "A Bola" tinha formato "broadsheet" e saía quatro vezes por semana. Não foi há muito tempo: foi noutro planeta. Um planeta em que era possível na edição de quinta-feira entrar um jogo que se realizara na segunda ou na terça. Um planeta sem internet, sem redes sociais, em que a TV em Portugal estava a abrir-se aos privados, mas mantinha o monopólio dos "generalistas", a vários anos de distância dos canais por cabo.
Um Campeonato do Mundo de Futebol é um radar temporal que me reencontra com o passado. Nascido em 1978, o Espanha-82 tem para mim memórias muito vagas. Esparsas. O México-86 foi o meu "primeiro Mundial". Tinha oito anos, os jogos que começavam às 23h na nossa hora eram proibidos para ser ver em direto. Lembro-me de só ter sabido do golo do Carlos Manuel à Inglaterra quando acordei no dia seguinte. E também só soube do descalabro com Marrocos no "day after" do fracasso luso. Mas vi em direto o golaço do Josimar, lateral do Botafogo, à Irlanda do Norte, e um extraordinários 4-3 num Bélgica-URSS decidido no prolongamento. E dos dois golos de Maradona à Inglaterra (o "slalom" e a "mão de Deus"), numa tarde televisiva entrecortada entre o Argentina-Inglaterra e um Grande Prémio da Fórmula 1.
Quatro anos depois, no Itália-90, tinha 12 anos e escrevia para mim, em textos batidos à máquina, crónicas dos jogos que via. Os golos de Schillaci, o penálti de Brehme na Final. Em 1994 (nos EUA!) já trabalhava em jornais. Lembro o jogaço em que a Roménia de Hagi eliminou a Argentina.
A cada Mundial de Futebol teremos sempre uma oportunidade de regressar à infância."

De Saltillo a Palm Beach


"Há 40 anos, Portugal foi um mês antes para o México. Em 2026, a Seleção foi das últimas a chegar ao continente americano

Muito se tem falado sobre Saltillo. Tem sido interessante perceber o que levou ao desastre português nesse fatídico ano de 1986. A efeméride dos quarenta anos e o regresso da prova a solo mexicano justificam a revisita. Entre os problemas amiúde descritos, trarei um: a Seleção aterrou no México um mês antes da prova. Em retrospectiva, todos consideram ter sido demasiado tempo.
Tudo mudou em quarenta anos. Nenhuma selecção se concentrou tão cedo, nem o calendário o permitiria. Os meios de viagem, treino e descanso são incomparáveis. Ao analisar o planeamento de cada equipa, percebe-se que Portugal voou para Palm Beach excecionalmente tarde. A comitiva aterrou no local a cinco dias do primeiro jogo. É uma exceção: a campeã do mundo, Argentina, voou 16 dias antes. Suécia, Tunísia e Nova Zelândia fizeram-no duas semanas antes. No pólo oposto, os ingleses voaram a quatro dias da sua estreia para Missouri. Contudo, as restantes 46 equipas viajaram mais cedo que os portugueses.
Confrontado com o tema, Martínez alegou que o fuso horário, a altitude e a humidade foram trabalhados em março, acrescentando que os dois primeiros jogos serão num estádio fechado.
Sobre esta decisão, há também que levar em conta factores que impactam o bem-estar dos jogadores. Talvez as condições sejam melhores e mais familiares na moderníssima Cidade do Futebol do que na Flórida. Existe a proximidade da família e o maior controlo das variáveis inerentes à preparação.
Ainda assim, impõe-se a pergunta: porque escolheram tantas selecções um caminho diferente?
Sair mais cedo pode ajudar a aumentar níveis de concentração e a criar um atempado espírito de missão. Partir tão tarde faz parecer uma realidade mais distante do que aquela que realmente é.
Por outro lado, embora os jogos sejam em recinto fechado, treinos e recuperação não o serão. Em Houston estarão cerca de 35.º e elevada humidade. O torneio distribui-se por quatro cidades, separadas por 4500 km e quatro fusos horários. Entre o segundo e o terceiro jogo, Portugal fará 1500 km. É um contraste gigante com o Mundial no Qatar, e distâncias pouco habituais para quem joga na Europa. Por outro lado, a adaptação à altitude e à temperatura não se faz em março para competir em junho.
Com as cinco horas de diferença entre Lisboa e Palm Beach, em que condições estarão os jogadores portugueses nos primeiros dias de trabalho? Estará Martínez a apostar numa adaptação progressiva já com a bola a rolar, protegido por um início frente a adversários mais acessíveis?"

A primeira estrela é marroquina


"Só será revelação para quem não o conhece, para quem ainda não o descobriu, com os seus 18 anos e maturidade de adulto, a impulsionar o meio-campo do Lille, um emblema que motiva pouco interesse junto dos portugueses, sobretudo nesta fase da sua história. Não é que os grandes clubes precisassem vê-lo nos grandes palcos, ainda que por vezes cedam à tentação de esperar por um Mundial para confirmar nomes na lista de compras, se o scouting estiver a funcionar como deveria.
Ainda mais porque uma competição tão curta e concentrada, com motivações especiais, já mostrou ser, no passado, fértil para más decisões. Quem não se lembra de Schilacci, El-Hadji Diouf, Kléberson, Oleg Salenko ou Asamoah Gyan? Todos brilharam e falharam depois. Isso não irá acontecer, garanto, com Ayyoub Bouaddi, que destroçou um meio-campo com Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá, saindo em drible ou em velocidade, recuperando a bola e lutando em inúmeras divididas. As estatísticas confirmam-no: 91% de eficácia no passe, mas 100% no último terço, 6 recuperações de bola, 5 interceções, 9 duelos ganhos. Uma master class diante de uma equipa vampiresca, a tentar sugar talento que já não tem de tudo o que vê à sua frente.
Não jogou sozinho. Teve do seu lado o mais brasileiro dos brasileiros: Brahim Díaz, tormento para um Escrete que ainda tem de evoluir antes de parecer ameaçador. Não o será este Brasil de quatro centrais, dois a fingir como laterais, sem ninguém a dar largura à direita e com um trio de médios tão permissivo na defesa quanto inócuo na criação. Marrocos ficou perto de escrever história e chocar o mundo."

Não, senhores, nós não estamos aqui de férias!


"PALM BEACH - Basta um vislumbre do Four Seasons Resort Palm Beach, o luxuoso quartel-general de Portugal plantado em cima da areia fina do Atlântico, para que o telefone comece a vibrar com as habituais piadas vindas de Lisboa.
Os amigos (e até alguns leitores), meio a brincar, meio a sério, partilham da mesma ilusão: a de que estamos todos aqui de férias. Jogadores e jornalistas, unidos num imenso retiro de lazer sob o sol da Florida. Afinal, Palm Beach é sinónimo planetário de praia, resorts e dolce fare niente.
A realidade do terreno, contudo, fica nas antípodas desse postal ilustrado. A vida de um enviado especial a um Campeonato do Mundo é uma engrenagem trituradora que não dá tréguas ao corpo nem ao cronómetro.
A equipa de reportagem d'A BOLA — composta por mim e pelos superprofissionais Miguel Nunes e André Carvalho — cumpre uma rotina quase militar. O despertador toca invariavelmente por volta das 7 horas da manhã locais e as luzes só se apagam bem depois da meia-noite, já madrugada profunda em Portugal.
Entre estes dois polos, o dia resume-se a um fluxo contínuo de trabalho: recolha de material, edição de vídeos, reportagens escritas, diretos televisivos, conferências de imprensa e um bombardeamento constante de notícias para o site, jornal e redes sociais. O almoço e o jantar são conceitos abstratos, despachados a correr entre um relvado e uma zona mista.
É claro que é um privilégio absoluto e incomparável cobrir um Mundial, um prazer e uma felicidade profissionais sem igual na carreira de qualquer jornalista. Mas a mística desvanece-se quando passas três horas na praia junto ao hotel, debaixo de um sol escaldante e um calor insuportável, carregando quilos de material às costas, vestido a rigor e a suar a bica para conseguir a melhor história.
Estar num Mundial é épico, sim, mas é o oposto do descanso. Quem quiser férias que compre um bilhete para as Bahamas; nós por cá continuamos a dar o litro no asfalto."

O Mundial 2026 vê-se na vertical


"Olho à volta na zona de imprensa e sinto-me um dinossauro. Que raio aconteceu ao mundo? Houve um tempo em que a cobertura de um Campeonato do Mundo não se fazia sem um bloco de notas todo gasto do tempo. Havia os sons clássicos do bater furioso nas teclas do portátil e das vozes a anunciar: “um, dois, três, gravar”.
Hoje já ninguém anuncia que vai gravar. Desconfio até que hoje já ninguém grava. O jornalismo foi tomado de assalto pelos diretos para as redes sociais. O som destes nossos tempos é o do zumbido dos estabilizadores de imagem.
No primeiro treino da Seleção Nacional, por exemplo, havia gente do Brasil, de França, do Panamá, da Costa Rica, da Colômbia, da Bolívia, enfim, uma autêntica legião de repórteres armados apenas com um stick, um smartphone e um microfone de lapela. A falar ininterruptamente e a mostrar tudo o que estava a acontecer em direto.
Ora isso levou-me a outra evidência: o Mundial de 2026 já não se consome nas páginas do dia seguinte e acho que há cada vez menos paciência para esperar pelo programa da noite. O Mundial 2026, hoje, consome-se em vídeos de quinze segundos.
A análise tática e a crónica de fundo estão a perder terreno para o engagement, para o POV e para o áudio que está a bater no TikTok.
Será que são eles que estão errados? Há quem diga que é uma moda passageira, como já diziam da internet em 2001 ou do Facebook em 2008.
Eu tenho sérias dúvidas. Acredito que isto ainda é tudo muito recente e, como todas as novidades, precisa de amadurecer. Mas não tenho dúvidas de que o jornalismo tradicional vai ter de aprender a conviver com os criadores de conteúdo. É que a bola continua a ser redonda, mas cada vez mais gente quer vê-la na vertical."

Mundiais: uma viagem pela evolução tática


"O futebol de seleções tem sido, década após década, o maior espelho das diferentes revoluções táticas que o jogo foi vivendo. De Mundial em Mundial, treinadores e federações foram colocando na montra as suas ideias mais avançadas, umas vezes criando tendências de sucesso, outras demonstrando apenas incapacidade de acompanhar a evolução.
Nos anos 50 e 60 largou-se o famoso 'WM' para começar a entrar em estruturas mais organizadas, com os exemplos do 4-2-4 e do 4-3-3, começando a privilegiar-se a criatividade individual (vista no Brasil de 1958 e 1962), bem como o famoso 'catenaccio' italiano ou mesmo o pragmatismo inglês de 1966.
Os anos 70 trouxeram uma revolução mais profunda, com o surgimento do Futebol Total assente em posicionamentos dinâmicos, trocas posicionais e jogadores a atuarem em diferentes posições. É certo que a ideia não foi premiada com o título, mas ficou plantada uma semente para o futuro. A Argentina de 1978 e a Itália de 1982 voltaram a fazer jus a um futebol mais defensivo, de organização e rigor.
Nos anos 90, o pragmatismo instalou-se na maior parte das seleções, com o aparecimento de meios-campos povoados, médios-defensivos destruidores de jogo e transições rápidas a definirem os mundiais de 1990 e 1994.
Com a chegada do século XXI, o futebol entrou num ritmo ainda mais alucinante de evolução, com o ‘tiki-taka’ espanhol (2010) a privilegiar posses prolongadas, pressão alta e reação forte ao momento da perda. A Alemanha de 2014 respondeu com uma versão muito mais vertical e intensa desse jogo organizado de pressão constante e transições. O ‘pressing’ alto passou a ser regra e não exceção.
No Qatar (2022), Marrocos provou que é possível ter sucesso e eliminar seleções de topo partindo de uma ausência de pressão ao portador, baixando e juntando linhas, castigando nas transições. Uma lição de organização e inteligência.
A expetativa para este Mundial é elevada, podendo já verificar-se que a versatilidade tática e posicional é cada vez mais vista no terreno, com jogadores a desempenharem diferentes funções em diferentes momentos, e o jogo posicional a ser facilmente anulado por pressões individuais a campo inteiro.
Por outro lado, esta ideia de pressões híbridas, que alternam entre pressão alta a campo inteiro e blocos mais compactos, obriga a que o jogador seja extremamente evoluído na sua dimensão física. Se a esse facto acrescer o aumento do número de equipas e o exigente e variado clima norte-americano, os 26 convocados de cada seleção assumem extrema importância em detrimento do tradicional 11 que foi sendo decorado de mundial em mundial.
As fichas estão lançadas."

Entre o controlo e a liberdade


"Sempre que se aproxima uma grande competição como o Mundial, o olhar do mundo volta-se não apenas para aquilo que acontece dentro do terreno de jogo, mas também para o que acontece nas equipas durante a sua preparação. O local e o tempo de concentração, as regras estabelecidas e a forma como cada selecionador gere a relação entre a equipa e o mundo exterior tornam-se temas de discussão.
Procura-se muitas vezes a fórmula perfeita para alcançar o sucesso, e muitas pessoas constroem opiniões assentes em supostas fórmulas de sucesso. A história dos grandes torneios ensina-nos que não existem verdades absolutas. Existem ideias, convicções e diferentes caminhos para chegar ao mesmo destino. Cada selecionador transporta uma visão própria do jogo e da liderança, construindo o seu ambiente de trabalho de acordo com a cultura que deseja criar e com as características humanas dos jogadores que lidera.
Há quem encontre no isolamento e numa maior reserva durante o estágio uma forma de proteger o grupo, fortalecer os laços internos e direcionar todas as energias para a competição. Outros acreditam que confiar no jogador e permitir-lhe maior autonomia na gestão do seu tempo pode ser igualmente uma demonstração de exigência. Afinal, a liberdade também pode ser uma forma de responsabilidade.
Um grupo mais fechado não está, por si só, mais próximo de conquistar um Mundial, tal como conceder maior liberdade não significa reduzir o compromisso. Para muitos jogadores, manter pequenas rotinas pessoais, contactar com pessoas importantes para a sua estabilidade ou encontrar momentos de descontração é essencial para equilibrar a pressão de um palco onde cada decisão pode ficar marcada na história.
Esta reflexão ganha ainda mais importância quando observamos o momento em que os jogadores chegam às seleções. Após épocas de grande densidade competitiva, de elevada exigência física e emocional, os jogadores também necessitam de recuperar. Antes de serem jogadores de alto rendimento, são pessoas que transportam meses de pressão e responsabilidade. 
Preparar uma equipa para um Mundial não significa apenas escolher jogadores, organizar treinos, definir estratégias ou controlar cada minuto do dia. Significa compreender o estado físico e emocional dos jogadores e criar um contexto onde possam reencontrar equilíbrio e chegar preparados ao momento competitivo. O verdadeiro desafio da liderança vive precisamente nesse espaço invisível entre o controlo e a liberdade, entre a disciplina e a confiança. Porque, no fim, o sucesso raramente pertence a quem controla mais, mas a quem melhor compreende as pessoas que tem à sua frente."

Verdade!

BolaTV: Dias de Mundial...

Renascença: Bola Branca - Tertúlia - Portugal-RD Congo, Cristiano e memórias de 1994

No Princípio Era a Bola - Países Baixos e Japão são duas equipas a ter em conta, mas terão de crescer no Mundial

ESPN: Futebol no Mundo #578

Segundo Poste - Mundial #1

AA9: Mundial - Day 4

Rabona: Day 4 Insanity: Germany 7-1 re-run & Japan's BIG Comeback | World Cup Daily Recap

LiveMode: Aquece vais entrar #12

LiveMode: Mundial #16

Simples: Países Baixos - Japão

Terceiro Anel: Mundial - Grupo H

Terceiro Anel: França...

Terceiro Anel: Mundial - Grupo G

78: Grupo H

FIFA: Iraque...

FIFA: França...

FIFA: Argélia...

FIFA: Argentina...

FIFA: Jordânia...

FIFA: Noruega...

FIFA: Resumo - Egipto - Bélgica

FIFA: Espanha - Cabo Verde

FIFA: Resumo - Costa do Marfim - Equador

Lewis Hamilton venceu, por fim, na Ferrari; e a Ferrari venceu, enfim, com Lewis Hamilton


"Mais do que a vitória de Lewis Hamilton ao fim de quase dois anos, da ascensão das trevas à ribalta, é a vitória de uma lenda da Fórmula 1 pela Ferrari. Esse, sim, é o verdadeiro acontecimento. Histórico. Intocável. E arrebatador

Mais do que a vitória, quase dois anos depois, do piloto, no ativo, com mais títulos mundiais e mais triunfos em Grandes Prémios. Mais do que o fim de um período longo de dificuldade e amargura - não apenas o ano horrível que viveu em 2025, na estreia pela Ferrari, também os três últimos na Mercedes, perante a hegemonia de Max Verstappen, distante da ribalta a que estava habituado. Mais do que um regresso às luzes da ribalta após a descida às trevas, ou exorcização de todos os males numa corrida em que tudo lhe correu bem. A vitória de Lewis Hamilton no Grande Prémio da Catalunha é a vitória de uma lenda da Fórmula 1 pela Ferrari. Esse, sim, é o acontecimento. Histórico. Intocável e arrebatador.
A empatia de Lewis Hamilton com a Scuderia, com os membros da equipa, quando tocava o hino da Itália durante a cerimónia no pódio e estes o entoavam naquele estilo tão latino - que Hamilton não é e não tem -, as lágrimas de emoção, representam a ligação tão especial e emocional do piloto mais consagrado de todos os tempos com a equipa mais vencedora e icónica da Fórmula 1. A equipa que é o pináculo do desporto motorizado.
Durante meses, quase anos, o britânico foi alvo de dúvidas. Haveria ainda velocidade ou espaço para voltar a ganhar. As perguntas multiplicavam-se à medida que os resultados escasseavam. E a Ferrari continua a carregar o peso de uma história imensa e de uma ausência prolongada de títulos mundiais, numa convivência permanente entre a esperança e a frustração.
Hamilton venceu e, por momentos, pareceu que o tempo recuou. Não ao domínio avassalador dos anos dourados da Mercedes, mas a uma ideia mais simples e mais rara no desporto de alto rendimento: a de que os sonhos improváveis ainda podem concretizar-se.
Hamilton já ganhou muito. Ganhou mais do que quase todos. Mas talvez nunca tivesse precisado tanto de uma vitória como desta. Não para provar aos outros quem é, mas para recordar a si próprio que ainda podia escrever capítulos novos na equipa em que conquista da glória eleva à imortalidade."

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