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sábado, 6 de junho de 2026

O apelo da carnificina que é o Isle of Man TT é real e muito difícil de explicar


"Todos os anos, dezenas de pilotos arriscam a vida nesta série de provas que invade as ruas e montanhas da Ilha de Man. A lista de fatalidades é longa. Para os milhares que assistem às corridas o fascínio é tão intenso como difícil de colocar em palavras. Eu ouso dizer que, por muita culpa que sinta, há muito mundo real naquelas corridas

Há dois eventos desportivos que me deixam com sentimentos ambivalentes quando lhes dou mais um ponto de audiência ou atenção porque, embora muito me entretenham, sinto que estou a contribuir para uma carnificina. Há uma espécie de culpa, lado a lado com o entusiasmo. Não, nem estou a falar de UFC que, meio hipocritamente, assumo, abomino. Falo de jogos de futebol americano, atividade que, sei eu, sabe toda a gente, nomeadamente a ciência e os próprios protagonistas, não faz propriamente bem à firmeza do cérebro.
E falo do Isle of Man TT.
O Isle of Man TT é uma série de corridas de motociclismo que todos os anos invade as estradas e ruas da Ilha de Man, ali entre a Irlanda e a Grã-Bretanha. A corrida tem várias particularidades, a mais tétrica de todas é que nenhuma outra competição desportiva terá uma tão longa página de Wikipedia com a lista de fatalidades. À hora a que escrevo este texto, são 271 vítimas mortais nas mais diversas provas daquele circuito que atravessa vilas, montanhas, lugares onde uma pessoa teria medo de andar a pé, quanto mais numa moto a 300 quilómetros por hora.
Quando reforço o “à hora a que escrevo este texto” é porque há ainda corridas a decorrer e essa lista aumenta sem dar recado. Em 2017 tive a oportunidade de visitar a ilha durante o TT e durante as horas que passei no paddock houve dois avisos de acidente, seguidos, minutos depois, do anúncio de mais uma vítima mortal. A reta que marca o início e o final do circuito é acompanhada pelos túmulos e jazigos do cemitério de Douglas, a capital desta comunidade autónoma. Vários dos pilotos que pereceram na prova estão ali sepultados. A edição de 2025 foi notícia porque não houve qualquer vítima mortal.
Ainda assim, todos os anos dezenas e dezenas de pilotos, muitos deles amadores, gente de classe trabalhadora que não podia estar mais longe dos Valentinos Rossis ou dos Marc Marquéz, apresenta-se para arriscar a vida naquelas mais de 200 curvas espalhadas por 60 quilómetros. E muitos mais milhares pegam nas suas motos e percorrem meia Europa, por estrada e ferry, para assistirem as corridas.
Lembro-me, nesse ano de 2017, de encontrar um grupo de portugueses e tentar perceber com eles, gente bem mais batida que eu, que nem sei andar de moto, o fascínio daquela corrida, a mais perigosa do mundo, um apelo que a mim própria já atingia, tanto quanto o frio gélido, daquele que viaja pelos ossos, que até em junho ali se faz sentir. Talvez tudo aquilo ser tão mundo real, tão pouco artificial, tão imprevisível e sem guião faça parte do apelo. Começa a faltar muito mundo real a outros desportos.
Nenhum me conseguiu dar uma explicação minimamente lógica, há coisas que são mesmo assim, vi-lhes apenas as tentativas, as frases sem terminar, o brilho nos olhos, o tom de quase incredulidade nas palavras de quem ainda parecia meio apalermado, no bom sentido, por aquela explosiva energia cinética de motos arriscando a morte e, demasiadas vezes, indo ao seu encontro. Aqueles pilotos não são muito diferentes de gladiadores e o namoro com o perigo é algo que continua a ser irresistível para muitos seres humanos.
Leio agora que Brad Pitt e Channing Tatum voaram este ano para a Ilha de Man, onde gravaram algumas cenas para um futuro filme sobre o TT, um bocadinho à imagem do que Pitt protagonizou e produziu sobre a Fórmula 1, que não é nenhuma Palma de Ouro de Cannes, mas não deixa de ser entretenimento competente. Mas o TT não é o ambiente controlado da Fórmula 1. Não se corre num circuito, mas sim no meio de povoações, entre vales e estradas que serpenteiam montanhas e fogem de escarpas. E no paddock não há roupa de estilistas e champanhe: há lama, um cheiro omnipresente a fritos que se mistura com fuligem, gente normal de galochas e impermeáveis.
Não sei até que ponto será possível colocar isto numa tela de cinema de forma honesta. E tratar da morte, que ali anda todos os dias de braço dado com os pilotos, sem carga dramática, mas sim com a contenção que lhe é devida, porque aquela gente sabe, abraça e já há muito racionalizou as probabilidades, demasiado altas, de, a cada prova, não voltar vivo."

Assembleia Geral


"De acordo com o artigo 32.º do regime jurídico das federações desportivas (RJFD), as federações desportivas devem contemplar na sua estrutura orgânica, pelo menos, os seguintes órgãos, mesmo que com outras denominações: a) Assembleia geral; b) Presidente; c) Direcção; d) Conselho fiscal; e) Conselho de disciplina; f) Conselho de justiça; g) Conselho de arbitragem.
Também nos termos do RJFD — concretamente do artigo 34.º — a assembleia geral (AG) é o órgão deliberativo da federação desportiva, cabendo-lhe, designadamente: a) A eleição ou destituição da mesa da AG; b) A eleição e a destituição dos titulares de alguns dos órgãos federativos; c) A aprovação do relatório, do balanço, do orçamento e dos documentos de prestação de contas; d) A aprovação e alteração dos estatutos; e) A ratificação dos regulamentos disciplinar e de arbitragem das ligas profissionais; f) A aprovação da proposta de extinção da federação; g) Quaisquer outras que não caibam na competência específica dos demais órgãos federativos.
Ora, precisamente na FPF, sábado, 6 de junho, irão realizar-se duas AG, uma ordinária, outra extraordinária, para duas das finalidades previstas na Lei: a aprovação do plano de atividades e orçamento e a ratificação dos regulamentos disciplinar e de arbitragem da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.
Seja através da apreciação e aprovação dos instrumentos de gestão e planeamento da atividade federativa, seja pela ratificação de regulamentos fundamentais para o funcionamento das competições profissionais, estas deliberações refletem o papel central deste órgão na definição das orientações estratégicas, financeiras e regulamentares da federação, garantindo simultaneamente a observância dos princípios de democraticidade, transparência e legalidade."

Usbequistão: Odil Akhmedov, o homem do quase que já não protagonizou a história, mas que poderá ter tido um dedo nela


"Foi seis vezes o melhor jogador do Usbequistão mas também protagonista em algumas das maiores desilusões da seleção do país, que em 2014 e 2018 ficou a um pequeno passo da qualificação para o Mundial. A história chegou já com Odil, um médio versátil, taticamente inteligente, como dirigente da federação de um dos estreantes no Mundial 2026.

Há algo de paradoxal na carreira de Odil Akhmedov, uma das maiores estrelas do futebol do Usbequistão, seis vezes considerado o melhor jogador do país. Paradoxal ou injusto, dependendo das sensibilidades. Akhmedov, um médio completo, fisicamente resistente e taticamente sagaz, esteve presente nas maiores desilusões vividas pela seleção nacional usbeque. A equipa da nação da Ásia Central, membro da FIFA desde 1994 como país independente, bateu na trave em 2014 e 2018, depois de outro falhanço épico em 2006, um par de anos antes da estreia de Akhmedov. E mal o médio se retirou, o Usbequistão conseguiu chegar à ansiada estreia em Campeonatos do Mundo.
Diga-se que é possível que Akhmedov, que cometeu a proeza de ser considerado o melhor jogador da temporada no Anzhi, da Rússia, quando Samuel Eto’o e Roberto Carlos faziam parte da equipa, tenha um dedo neste sucesso, já que mal deixou os relvados assumiu outro posto de responsabilidade, depois de arrumar a braçadeira de capitão: o de vice-presidente de uma federação que não se coibiu de criticar na hora do adeus. Mas já lá vamos.
Odil Akhmedov é fruto da escola do Pakhtakor FC, da capital Tashkent, o mais bem-sucedido clube do Usbequistão. Ali se estreou profissionalmente aos 18 anos e conquistou dois campeonatos antes de se mudar para o na altura muito endinheirado Anzhi. Um suposto interesse do Arsenal, confirmado pelo próprio Akhmedov, que via esse namoro como “uma vitória para todo o futebol usbeque”, não chegou a materializar-se.

Os traumas usbeques
Akhmedov seria campeão da China pelo Shanghai SIPG, em 2018, com Vítor Pereira no banco, mas o sucesso que ia vivendo nos clubes não encontrava paralelo na seleção, onde era líder e capitão.
O trauma vinha já de trás, antes do seu tempo: na 1ª mão do play-off final da fase de qualificação asiática para o Mundial 2006, frente ao Bahrain, o Usbequistão ganhava já por 1-0 quando teve direito a um penálti. Server Djeparov, outro histórico, fez o 2-0, mas o árbitro japonês do encontro vislumbrou jogadores usbeques a entrarem na área e anulou o golo. Pelas regras, o Usbequistão deveria repetir o penálti, mas o juiz da partida, de forma bizarra, marcou livre para o Bahrain.
O Usbequistão pediu que lhe fosse atribuída a vitória por 3-0, mas a FIFA decidiu que o jogo deveria ser repetido. E o Bahrain acabou por passar ao derradeiro play-off internacional com um empate 1-1 em Tashkent e um nulo em casa. Akhmedov terá sido um dos jovens a chorar em casa perante tamanho azar.
Esta foi a desilusão número 1. A desilusão número 2 aconteceu na qualificação para o Mundial 2014, já com Akhmedov em destaque na equipa. Aí, o Usbequistão falhou a presença direta no Brasil por causa de um singelo golo: na última jornada bateu o Catar por 5-1, mas faltou-lhe mais um para ficar à frente da Coreia do Sul no grupo.
E ainda há a desilusão número 3. Na qualificação para o Mundial 2018 bastava uma vitória na última jornada da qualificação para chegar à Rússia. Mas, frente à Coreia do Sul (de novo a Coreia do Sul), o Usbequistão não saiu do nulo. A desilusão número 4 foi menos dramática, já que a antiga república soviética ficou longe do Mundial do Catar. E aí Akhmedov assumiu as responsabilidades, deixou a seleção e fez um raio-x, talvez decisivo para que, agora sem ele - mas talvez com ele -, o Usbequistão tenha garantido uma presença inédita no Campeonato do Mundo.
No adeus, em junho de 2021, Akhmedov deixou frases fortes: “O futebol não pode ser enganado. Se não mudarmos hoje, daqui a quatro anos vamos estar aqui a pedir perdão. Se os interesses do futebol não estiverem acima de todos, não vamos ter resultados”, começou por dizer, sublinhando a dificuldade do país em formar jogadores e a falta de “fundações”.

Estratégia que resultou
Certo é que já com Odil Akhmedov na vice-presidência da federação surgiram os primeiros resultados de um investimento estatal em infraestruturas, nomeadamente com a construção de relvados por todo o país e a renovação de 15 mil campos em escolas, refere a “Reuters“.
O Usbequistão, nação de 35 milhões de pessoas, com uma demografia imberbe, fomentou ainda uma rede de escolas dedicadas ao futebol, apoiando cerca de 65 mil jovens futebolistas, numa estratégia a longo prazo que está a ter efeitos imediatos: a equipa olímpica qualificou-se para Paris 2024, a sénior para o Mundial 2026 e um jogador usbeque chegou pela primeira vez à Premier League: Abdukodir Khusanov, do Manchester City.
Não foi em campo, mas Odil Akhmedov, hoje com 38 anos, conseguiu mesmo travar o ciclo de desilusões do seu país, a primeira nação da Ásia Central a jogar um Mundial. Quatro anos depois, não houve pedidos de desculpas, tentativas de explicar as desventuras, mas sim um momento histórico que não viveu como jogador, mas sim como dirigente."