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terça-feira, 2 de junho de 2026

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COI, Kirsty Coventry e a mudança: milhares de milhões em receitas, mas qual o legado para os atletas?


"Costumo dizer que a mudança é a única constante do mundo em que vivemos. Quem não aceita ou não abraça a mudança, quem continua a fazer as coisas da mesma forma esperando resultados diferentes, quem não se prepara nem prepara os outros para a velocidade com que o mundo evolui, quem não arrisca, acaba inevitavelmente por ficar para trás.
Vem isto a propósito das recentes declarações da Presidente do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, quando afirmou que continua a não defender o pagamento aos atletas pela participação nos Jogos Olímpicos, acrescentando que existem outras formas de os apoiar apontando o seu caso pessoal como exemplo, esquecendo as enormes benesses em dinheiro, que o seu País de origem lhe concedeu enquanto atleta.
As declarações geraram debate. Mas, mais importante do que discutir a frase em si, é discutir aquilo que ela deixa por dizer.
Importa, desde logo, não confundir dois temas distintos. O primeiro é o reconhecimento e compensação dos atletas durante a sua carreira desportiva. Podemos discutir se os apoios existentes são suficientes, se deviam ser maiores ou menores, quais os critérios mais justos e como se comparam com os modelos do desporto profissional. Mas estas medidas são, por natureza, transitórias. Têm um princípio e um fim e esgotam-se normalmente quando termina a carreira competitiva.
O segundo tema, muito mais relevante e frequentemente ignorado, é o que acontece depois. A evidência científica disponível aponta para uma realidade consistente: entre 30% e 50% dos atletas de elite e olímpicos reportam dificuldades significativas na transição para o pós-carreira. Entre 10% e 20% apresentam sintomas relevantes de ansiedade, depressão ou sofrimento psicológico após o abandono da competição.
Ao mesmo tempo, os estudos demonstram que os atletas que conseguem desenvolver uma dupla carreira, combinando desporto, formação académica e preparação profissional, apresentam uma adaptação muito mais bem-sucedida à vida após o desporto.
Os números ajudam ainda a enquadrar outra realidade frequentemente esquecida. Em estudos realizados com atletas de alto rendimento, cerca de 26,5% declararam rendimentos anuais inferiores a 15.000 dólares durante a carreira desportiva, enquanto aproximadamente metade afirmou não receber qualquer compensação direta pela participação olímpica.
Perante estes dados, talvez a pergunta mais importante não seja se os atletas devem ou não ser pagos durante os Jogos Olímpicos; talvez a pergunta certa seja: o que acontece aos atletas quando os aplausos terminam?
Porque a verdade é simples: a esmagadora maioria dos olímpicos passará muito mais tempo como ex-atleta do que como atleta, e é precisamente por isso que o debate precisa de mudar.
Importa também colocar esta discussão na sua verdadeira dimensão financeira. O Comité Olímpico Internacional é hoje uma das organizações desportivas mais poderosas e financeiramente sólidas do mundo. No ciclo olímpico 2021-2024, as receitas ultrapassaram os 7,7 mil milhões de dólares, provenientes sobretudo dos direitos de transmissão televisiva e dos programas globais de patrocínio. 74% deste valor foi alocado ao desporto e muito do restante montante foi para alimentar salários chorudos dos Diretores e despesas de staff.
Mais impressionante ainda é o facto de o próprio IOC já ter assegurado cerca de 7,3 mil milhões de dólares em receitas contratualizadas para o ciclo 2025-2028, tendo igualmente garantidos mais de 6 mil milhões de dólares para o ciclo seguinte, demonstrando uma capacidade de geração de receitas e uma previsibilidade financeira raramente vista no panorama desportivo mundial.
Mesmo em anos sem Jogos Olímpicos, o COI continua a movimentar centenas de milhões de dólares. Em 2025, por exemplo, registou receitas próximas dos 650 milhões de dólares e ativos superiores a 6,9 mil milhões de dólares.
Perante estes números, torna-se difícil defender que os desafios relacionados com a transição de carreira, empregabilidade, saúde mental ou qualificação profissional dos atletas resultam de falta de recursos financeiros. A questão passa a ser outra: quais são as prioridades?
Porque se o Movimento Olímpico consegue mobilizar milhares de milhões de dólares em cada ciclo, então também tem capacidade para construir soluções estruturais para aqueles que constituem a sua verdadeira razão de existir, e essas soluções existem.
Passam por programas obrigatórios de preparação para o pós-carreira ainda durante o percurso competitivo. Passam por modelos de dupla carreira verdadeiramente integrados entre federações, universidades e empresas. Passam por programas globais de mentoring entre atletas ativos e antigos atletas. Passam por apoio psicológico estruturado durante os anos mais críticos da transição. Mas, se eventualmente o COI diz que tudo isto já existe, então o desafio passa pela responsabilização dos intervenientes e, sobretudo, pela criação de métricas de acompanhamento do pós-carreira que permitam medir taxas de emprego, níveis de rendimento, qualidade de vida e integração social dos ex-atletas.
Mas talvez exista uma solução ainda mais transformadora, ainda que mais desconfortável para o próprio sistema: o fortalecimento de uma associação mundial de atletas verdadeiramente independente, sustentável e representativa.
A World Olympians Association tem potencial para desempenhar esse papel. Mas, para tal, precisa de se libertar definitivamente das amarras institucionais que ao longo dos anos limitaram a sua capacidade de intervenção e afirmação.
Uma organização de atletas não pode depender exclusivamente daqueles que também deve questionar, sob o risco de se anular e de perverter a sua vocação na defesa dos atletas (ainda não ouvimos o que a WOA pensa sobre o assunto, um silêncio perturbador). Uma organização de atletas deve ter voz própria, estratégia própria e sustentabilidade financeira própria. E essa sustentabilidade pode ser construída através de uma proposta de valor diferenciadora para a sociedade e para as empresas.
Durante demasiado tempo olhámos para os atletas apenas pelo que fizeram nas pistas, nos campos ou nas piscinas. Mas o verdadeiro valor dos atletas vai muito além das medalhas.
Os atletas olímpicos representam liderança, disciplina, capacidade de superação, gestão da adversidade e trabalho em equipa, competências cada vez mais valorizadas por empresas que procuram combinar desempenho económico com propósito social e impacto positivo.
Num mundo onde as organizações são cada vez mais avaliadas pelas suas métricas ESG e pelos seus compromissos de sustentabilidade, os atletas podem desempenhar um papel relevante na construção de programas de liderança, inclusão, bem-estar, educação e impacto social.
Trata-se de uma oportunidade de benefício mútuo, que já pus em prática com muito sucesso em Portugal. As empresas encontram parceiros credíveis para concretizar os seus objetivos sociais, os atletas encontram oportunidades de integração profissional, desenvolvimento pessoal e valorização das competências adquiridas ao longo da carreira desportiva.
Uma verdadeira solução win-win. Curiosamente, a independência financeira dá voz e capacidade interventiva, mas acarreta também um desafio: o receio institucional e o desconforto que uma voz verdadeiramente autónoma pode gerar no sistema.
O Comité Olímpico Internacional, em vez de ver aqui uma ameaça, tem uma oportunidade única, não para controlar esta evolução, mas para a apoiar; não para falar pelos atletas, mas para criar espaço para que os atletas falem por si próprios e façam o seu caminho.
Isso exigirá, de quem decide, inteligência institucional, visão estratégica e, acima de tudo, coragem. Existem hoje cerca de 100.000 olímpicos vivos em todo o mundo sendo que menos de 10% estão no activo. Representam experiência, conhecimento, diversidade e uma enorme capacidade de influência. Não são um problema para resolver; são uma parte fundamental da solução.
Existem dois obstáculos estruturais que continuam a impedir uma resposta eficaz.
O primeiro é que o sistema olímpico tem sido historicamente liderado por antigos atletas que, ao entrarem no sistema, muitas vezes acabam por se afastar das dificuldades reais que eles próprios viveram, tornando-se parte da manutenção do status quo que anteriormente questionavam.
O segundo é que os atletas têm tido dificuldade em construir uma voz coletiva forte, capaz de defender os seus interesses comuns. A ambição individual, a natureza altamente competitiva do desporto e a falta de solidariedade estruturada têm, demasiadas vezes, impedido uma ação coletiva eficaz.
O primeiro desafio é envolvê-los de forma efetiva na construção do futuro do Movimento Olímpico. O segundo é explicar aos atletas que hoje estão no ativo que, mais cedo ou mais tarde, o seu momento inevitavelmente chegará. E quando esse dia chegar, quererão seguramente encontrar respostas para questões que hoje ainda parecem distantes.
Porque o verdadeiro legado do Olimpismo não se mede apenas pelas medalhas conquistadas; mede-se pela forma como cuida dos seus atletas durante a carreira, mas sobretudo pela forma como os acompanha depois dela terminar."

Arábia Saudita: Majed Abdullah foi o “Pelé do Deserto” e rei de Riade antes de Cristiano Ronaldo


"O melhor marcador da história da seleção da Arábia Saudita ainda é, também, a maior figura do Al Nassr. Com a camisola amarela, marcou mais de 300 golos e ganhou seis títulos nacionais. Avançado com técnica, faro de golo e capacidade de drible, no Mundial de 1994 os media ocidentais viram nele uma encarnação de Pelé, ainda que ele não se achasse digno de tal comparação.

Tempos houve em que não era Cristiano Ronaldo o nome gritado no estádio do Al Nassr, que não era o português o combustível da paixão do clube de Riade, que acaba de se sagrar campeão saudita. Majed Abdullah não foi campeão do seu país uma, duas ou três vezes: foram seis os títulos e uma vida dedicada ao Al Nassr, de 1977 a 1998, sem passagens rápidas por outros clubes ou enamoramentos pelo estrangeiro.
Ronaldo, sabemos, adora um bom recorde, mas terá de suar as estopinhas e mais umas quantas camisolas do Al Nassr para apanhar aquele a que chamavam “o Pelé do Deserto”. Nas mais de duas décadas vestido de amarelo, Abdullah marcou qualquer coisa como 259 golos, 320 contando com jogos de preparação. O português, cuja produção é indubitavelmente mais rápida, tem 129 remates certeiros, longe daquele que ainda hoje é visto como uma espécie de figura primordial do futebol saudita, dos tempos do romantismo, sem dinheiro de fundos soberanos, petróleo e quejandos.
Dotado de uma técnica crua e de uma capacidade inata de marcar golos, Majed Abdullah, que até nasceu em Jedá, há 67 anos, e não na capital saudita, foi protagonista em momentos históricos e inéditos do futebol do país, como a qualificação para a estreia em Mundiais, em 1994, e nas duas vitórias na Taça da Ásia, em 1984 e 1988. Em 1984, marcou também o único golo dos sauditas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. É, ainda hoje, o melhor marcador da seleção saudita, com 72 golos em 117 jogos.

Captain Majed
A família de Majed Abdullah mudou-se para Riade para acompanhar o pai, treinador de futebol. Majed até começou na baliza, mas a sua relação com as redes não seria de defendê-las, mas sim de abaná-las. Começou no Al Nassr, onde o pai era técnico, assinando o primeiro contrato aos 16 anos, em 1975. Cinco anos mais tarde seria decisivo para o Al Nassr conquistar o seu primeiro campeonato saudita.
Um verdadeiro rei entre portas, Abdullah mantinha e mantém uma pose discreta. Era homem de poucas falas e muitos golos, com uma aura quase mitológica. Reza a lenda que na adaptação árabe da célebre série “Captain Tsubasa” - que por cá, anos depois de passar a versão original japonesa, recebeu o inexplicável nome de “Oliver e Benji” -, a personagem principal recebeu o nome de Majed em homenagem ao avançado.
Numa era onde o futebol ainda batia à porta da verdadeira internacionalização, o ocidente só apreciou verdadeiramente Abdullah quando o avançado, já numa fase avançada da carreira, ajudou a Arábia Saudita a qualificar-se para o Mundial de 1994, nos Estados Unidos. É daí que vem a alcunha “Pelé do Deserto”, dada pela imprensa internacional ao jogador quando notaram a sua capacidade de drible, de encarar os adversários, o golo fácil e a liderança natural.
O atacante não se achava digno de tal apodo. Seria na fase de grupos desse Campeonato do Mundo, frente à Bélgica, que jogaria pela última vez pela sua seleção.
Daí para cá, e com o futebol da Arábia Saudita noutro patamar mediático, Abdullah tornou-se uma figura silenciosa, mas cuja opinião é ouvida e respeitada. Foi alvo de homenagens e até de uma produção teatral biográfica - “The Flaming Arrow” fala da sua relação com o povo e da sua carreira.
A ascensão de Cristiano Ronaldo como figura do Al Nassr não lhe causou mágoa ou despeito, mas apenas palavras de admiração. Quando o português bateu o recorde de mais golos numa só temporada na Arábia Saudita em 2023/24, sublinhou que era “um exemplo a seguir” e que estava feliz pelas conquistas do capitão da seleção nacional: “A idade tem um papel secundário no desempenho de um jogador quando a paixão está presente”, disse, citado pela imprensa local."