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terça-feira, 19 de maio de 2026

Falsos Lentos - S06E37 - Surpresa na Convocatória!

Segundo Poste - S05E42

ESPN: Futebol no Mundo #566 - CITY CAMPEÃO, XABI ALONSO NO CHELSEA, JUVENTUS LONGE DA CHAMPIONS

A (última) oportunidade de Roberto Martínez


"Roberto Martínez sabe que o seu tempo na Seleção está politicamente contado. A convocatória para o Mundial surge como um raro e derradeiro momento de possível libertação

É raro um treinador, de clube ou seleção, saber ao que vai. No entanto, Roberto Martínez sabe-o bem. Sabe que, por muitas voltas que o futebol dê, e dá, a sua continuidade há muito que não é bem-vista por quem lhe paga o salário, que só o mantém no cargo em nome da paz podre que se estabeleceu com a conquista da Liga das Nações. O espanhol apenas adiou, ao pactuar com os sorrisos amarelos que acompanharam os parabéns, ser uma das vítimas da caça às bruxas do agora presidente da FPF, que sempre quis romper com tudo o que vinha do passado.
Primeiro era Mourinho, que agora já não pode, e será Jorge Jesus quem em breve estará a bater-lhe à porta para desocupar o gabinete. Proença troca um lobista, que Martínez foi, e com distinção ressalve-se, por outro que talvez inconscientemente também o será, neste caso para garantir a felicidade do seu capitão eterno. Se calhar, Cristiano já está a ver bem mais do que nós, para lá do Mundial. É o que lhe diz a idade biológica do seu corpo, que há muito não passa dos 23. Mesmo que não seja o mesmo em campo que era quando realmente os tinha, no corpo e na alma.
É raro um treinador saber o que se vai passar daí a algum tempo e, por isso, a oportunidade é de ouro. Martínez pode aproveitar o seu último momento — só não o será se sair campeão do mundo da América do Norte e mesmo assim... — para construir o seu plantel sem as amarras dos estatutos, que sempre tanto o preocuparam. Porque não ser um pouco louco e esquecer isso tudo, livre de qualquer tipo de pressão? Porque não levar realmente os melhores? Porque não construir o grupo ideal para uma última dança? E arriscar se for preciso. Tomar decisões difíceis se as fáceis comprometerem o grupo. Ou escolher as mais fáceis se estiver a complicar demais.
Porque não aproveitar de facto um Kroupi, que a França deixou de fora, e tomar uma decisão estratégica que pode influenciar uma geração. Se adotar a nacionalidade da mãe e avó, os 12 golos que marcou na Premier League são capazes de lhe valer a qualidade de melhor avançado à disposição de Martínez. Mesmo que não seja um 9. O que até poderá trazer vantagens aos problemas da Seleção no ataque posicional. Mas são apenas pensamentos soltos. Uma discussão para outros momentos.
Amanhã, Martínez vai sentar-se em frente ao país. Pede-se um selecionador coerente, mas também corajoso. Porque quando não se tem nada a perder há sempre mais margem para se ganhar."

Afonso Eulálio, talento afirmado


"A camisola rosa do Giro não será recordada como conquista passageira, ou tão-só um marco de carreira, é símbolo colorido que o corredor português está a usar para se destacar no pelotão, que, definitivamente, já o vê de outra maneira

Afonso Eulálio é o mais recente talento do ciclismo português. Até agora poderíamos considerá-lo emergente, porque jovem, aos 24 anos, ainda a afirmar-se no principal escalão mundial, WorldTour, na segunda temporada na equipa Bahrain Victorious, que, em finais de 2024, reconheceu-lhe valor para contratá-lo à Continental lusa Feirense.
O corredor figueirense dera nas vistas ao envergar a camisola amarela na Volta a Portugal durante seis dias, conquistada no Alto da Torre com um segundo lugar e grande exibição. Embora a tivesse entregado ao russo Artem Nych na penúltima jornada, na Sra. da Graça, mais do que a saída do anonimato pelo destaque da liderança na principal competição nacional, impressionou pela combatividade. Não se restringiu a defender a posição cimeira, atacando, procurando reforçá-la a cada oportunidade que vislumbrou, proporcionando espetáculo e garantida prova de talento.
Qualidade e espírito de luta que demonstra no Giro 2026, em que ostenta a prestigiada camisola rosa. Ganhou-a com desempenho soberbo, a que voltou a faltar a vitória na etapa - que roçou -, e que não parece pesar-lhe, tal é a coragem e ambição com que a defende, atacando... alguns dos melhores corredores do mundo, como Jonas Vingegaard.
A camisola rosa do Giro não será recordada como conquista passageira, ou tão-só um marco de carreira, é símbolo colorido que o corredor português está a usar para se destacar no pelotão, que, definitivamente, já o vê de outra maneira.
Afonso não é um voltista como João Almeida, dificilmente o veremos a disputar a vitória em provas por etapas, principalmente com contrarrelógio, mas corridas em que houver montanha, teremos um trepador empolgante, como poucos. Em corridas explosivas, estará lá para nos trazer emoção."

Falso Plano #124 - Eulálio, não me dês a tua camisola, fica tu com ela.

O futebol português não sabe vender o drama


"O futebol português tem um problema que se repete todos os anos. E não tem a ver com quem ganha o campeonato. Tem a ver com tudo o resto que ninguém consegue transformar em produto. Este fim-de-semana foi o exemplo disso mesmo.
Enquanto se celebram títulos, com o FC Porto, Marítimo e Amarante a fecharem a época com números dominantes e claros, há uma outra competição a decorrer em paralelo, muito mais emocional, imprevisível e, paradoxalmente, muito menos explorada: a luta pela sobrevivência. Jornadas finais com equipas a depender de terceiros, decisões no último minuto, clubes históricos a viver no limite. Tudo aquilo que, noutros mercados, seria ouro puro.
Em Portugal, é ruído e não tem a atenção que merece. Basta olhar para o que aconteceu nesta reta final de época. Equipas a garantir manutenção no limite, outras a cair mesmo depois de vencerem e play-offs decisivos a definir quem fica nas principais divisões do futebol português. Isto não é um detalhe competitivo. Isto é conteúdo premium. É tensão narrativa no seu estado mais puro. É o tipo de produto que, bem trabalhado, prende audiências globais.
Mas não prende. Porque não existe enquanto produto. Liga e Federação continuam algo presas a uma lógica antiga: vender o topo e ignorar a base. Benfica, Sporting e FC Porto concentram atenção, seguidores, media e patrocinadores. Tudo o resto é tratado como contexto. O problema é que, num mercado saturado de futebol global, três clubes não chegam para sustentar um produto competitivo relevante.
As grandes ligas perceberam isto há muito tempo. A Premier League construiu parte do seu valor precisamente na incerteza da cauda da tabela. Cada jogo da luta pela manutenção é apresentado como um evento. Há storytelling, há dados, há personalização, há emoção amplificada. Não é um detalhe do campeonato. É um dos seus principais ativos.
Em Portugal, continua a ser um subproduto. E isso é tanto mais paradoxal quanto sabemos que o conteúdo existe. Há clubes com história, comunidades locais fortes, rivalidades regionais e contextos dramáticos reais. Há jogadores a jogar a carreira num jogo. Há treinadores que sabem que 90 minutos definem anos de trabalho. Há cidades inteiras suspensas de um resultado.
Mas não há produto. O mais interessante é que, do ponto de vista do marketing, esta é talvez a oportunidade mais óbvia e menos explorada do futebol português. Num momento em que a atenção está fragmentada e a concorrência não vem apenas de outras ligas, mas de todas as formas de entretenimento, o que diferencia não é a qualidade média, mas sim a intensidade da história.
E poucas histórias são mais intensas do que a sobrevivência. A luta pelo título tende a ser previsível. Este ano voltou a ser. A luta pela permanência, não. E é precisamente essa imprevisibilidade que poderia ser capitalizada. Jogos em simultâneo, classificações a mudar em tempo real e decisões nos últimos minutos.
Hoje, a luta pela manutenção não tem identidade própria. Não tem naming. Não tem narrativa agregadora. Não tem exploração digital relevante. Não tem posicionamento internacional. Existe apenas para quem já está profundamente envolvido no ecossistema.
E isso é desperdiçar valor. Porque o futuro das ligas médias, como a portuguesa, não passa por competir com a Premier League ou a La Liga na qualidade média ou nos direitos televisivos. Passa por encontrar ângulos únicos de diferenciação. Passa por transformar aquilo que já têm, mesmo que imperfeito, em algo consumível, relevante e emocionalmente poderoso.
A luta pela sobrevivência é um desses ângulos. Num campeonato onde o campeão é muitas vezes previsível, talvez o verdadeiro produto nunca tenha sido quem ganha. Sempre foi quem resiste."

Suécia: Thomas Ravelli, o fanfarrão que dançava quando os adversários rematavam para fora


"Tinha ar de Mr. Bean, Romário chamou-lhe “malandro”, furava cuecas e vendia escovas. Este guarda-redes deu-se a conhecer no Mundial de 1994, onde a Suécia ficou em terceiro lugar. Alegrava-se quando defendia e quando os adversários falhavam. Às vezes, também sofria golos e uma vez foram logo cinco, o que levou o Bayern Munique a desistir da sua contratação.

Uma bola de espelhos, uma pista e, como em qualquer outro local feito para dançar, uma baliza. Há uma valsa a ser exibida. Metade do par move-se com uma elegância reforçada pelo movimento da saia rodada. A outra é um Mr. Bean nórdico a digerir um garfo. A exibição percorre a madeira até que ela, a profissional, e ele se agarram a cada um dos postes dourados. Para finalizar, a dançarina coloca uma medalha no acompanhante que teve ao longo de toda a performance o número um colado nas costas do casaco do fato.
A atuação recolheu aplausos da plateia do “Let’s Dance Suécia 2019”, um programa que convida celebridades a darem uns passinhos. Aparições televisivas, palestras, a loja de desporto que abriu com o irmão gémeo. O futebol expôs o carisma e Thomas Ravelli tem gozado a vida que a popularidade lhe concedeu.
No Mundial de 1994, Ravelli só tinha entradas no cabelo. Ao interior da baliza não chegava nada. Vestia a camisola que distingue aqueles que podem dar uma mãozinha dentro da grande área dos que estão condicionados a jogar com os pés. Era um traje espampanante. Parecia ter escapas devido ao efeito provocado pelos quadros coloridos.
O guarda-redes foi um dos principais responsáveis pelo terceiro lugar conseguido pela Suécia. Na meia-final, os nórdicos postos a torrar no Rose Bowl atrapalharam a canarinha. Motivado pelos dois penáltis travados na eliminatória anterior contra a Roménia, Ravelli defendeu quase tudo. Romário rematou de fora da área e ele voou de modo a conter o massacre. Zinho surgiu na recarga e, inesperadamente, rematou ao lado com a baliza deserta.
Ravelli levantou-se, olhou para a câmara, mostrou um sorriso reto e dançou. Seria alguém a quem Messi poderia chamar bobo. No Brasil, que acabou por chegar ao 1-0 aos 80 minutos, lembram-se bem da sua cara. “Aquele guarda-redes fanfarrão chegou a dizer que não me conhecia.” Romário sempre achou o adversário daquele dia “muito engraçado”. “Ele era dos meus. Se ser malandro na Suécia é esse tipo de malandragem, ele é o malandro sueco.”
Durante sensivelmente metade da carreira, Thomas Ravelli foi amador. Ao mesmo tempo que jogava no Osters, vendia escovas que serviam para limpar máquinas em gráficas. Específico. Apesar de ter sido duas vezes campeão nacional com o clube, desceu de divisão. O desaire permitiu-lhe ser contratado pelo Gotemburgo, onde se tornou profissional.
O salto até podia ter sido maior. Ainda no Osters, jogou a pré-qualificação da Taça dos Campeões Europeus, competição na qual viria a participar com mais frequência no Gotemburgo. Numa eliminatória contra o Bayern Munique, acabou por sofrer cinco golos na Alemanha. Os bávaros estavam de volta de Ravelli tendo em vista uma possível contratação, mas, depois daquele descalabro, a mudança acabou por nunca se concretizar.
Com 143 internacionalizações, é o segundo na lista de jogadores que mais vezes representaram o país. Algumas delas foram realizadas noutros grandes torneios. Ravelli era extrovertido, brincalhão e trapaceiro. No Euro 1992, realizado em casa, a Suécia fez frente à França, venceu a Inglaterra e só cedeu contra a Alemanha, nas meias-finais. Nos intervalos, pegou numa tesoura e fez buracos nas cuecas de Martin Dahlin, companheiro de equipa com menos seis anos."