Últimas indefectivações

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O “caso das sanduíches”


"O Benfica trocou o inverno pelo verão, ao realizar uma digressão pela América do Sul, em janeiro de 1971. Partiu de Lisboa no Dia de Reis, de comboio, rumo a Madrid, onde apanhou o avião com destino ao continente americano. Nos dias em que ali esteve, a comitiva benfiquista percorreu “milhares de quilómetros”, ficando, “certamente, cansada de deslocações”.
O primeiro jogo foi em São Paulo, no Brasil, onde a equipa encarnada empatou a uma bola com o Palmeiras, a 13 de janeiro. O destino seguinte era Lima e, após uma viagem de cinco horas, a comitiva chegou ao hotel às 23 horas locais. Os jogadores, cansados e com fome, pois a última vez que haviam comido tinha sido ainda em São Paulo, pensavam que iam fazer uma “refeição ligeira, antes de se ir deitar”. Porém, ficaram bastante surpreendidos com “a resposta de Hagan, muito no seu jeito típico: – No meals!”. A equipa protestou, mas o treinador “estava mesmo intransigente”.
Foram os dirigentes do Clube que resolveram a questão, tentando agradar a ambas as partes. Para não ser um jantar formal, arranjaram “umas sandes, acompanhadas com leite e refrigerantes”. Os ânimos acalmaram e, por fim, faltava pouco para as duas da madrugada quando os jogadores se foram deitar.
Este episódio não afetou a prestação dos encarnados no dia seguinte, em que venceram o misto Alianza-Municipal, por 2-1, pe rante cerca de 45 mil espectadores, a 15 de janeiro. Eusébio inaugurou o marcador com um “golo magnífico” e Nené foi o autor do segundo tento benfiquista, “em jogada pessoal longamente aplaudida pelo público”.
Todavia, a história não terminou por aqui. Jimmy Hagan cumpriu o que havia anunciado em Lima, que quando regressasse a Lisboa faria “um relatório do incidente”. Em reunião de Direção, referindo-o como “caso das sanduíches”, o treinador considerou que este episódio “aflorou uma situação de rebeldia coletiva” e propôs para toda a equipa uma multa de mil escudos, suspensa por 6 meses. O presidente Duarte Borges Coutinho “demonstrou aos jogadores o mau efeito do não acatamento de ordens superiores, bem ou mal fundamentadas”. Estava enfim resolvida a “guerra da sanduíche”.
Descubra outras histórias burlescas das digressões do Benfica na área 26 – Benfica Universal, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Lídia Jorge, in O Benfica

O mau cheiro do costume


"Quem é espectador do futebol português há mais de 40 anos já não se espanta com o que tem acontecido nos últimos tempos. Até podem mudar os rostos, mas há coisas que serão sempre iguais. Não é defeito, é feitio, como diz tão bem o povo.
Os homens do apito e quem os dirige andam felizes da vida. Conseguiram tornar a impunidade o prato do dia, normalizar a manipulação e ainda fazer o papel de virgens ofendidas quando são criticados. Agora, até já se dão ao luxo de criar pesos e medidas diferentes para as declarações e atitudes de quem não concorda com as suas decisões, inflacionando as multas. Bem sei que as passagens para o Brasil andam caras e que já não há convénios com agências de viagem para férias pagas no estrangeiro, mas a falta de vergonha deveria falar mais alto. Só que não, andam impunes. Têm dúvidas? Vejam o que se passou no jogo com o Alverca.
Os que vestem de azul e branco até podem ter levado um banho de loja e de alegado civismo, mas quando a coisa aperta continuam a mostrar a sua essência: jogo baixo, esquemas e vitimização. Quem assistiu ao último clássico dos Amigos do Altis pôde ver a estirpe da agremiação desportiva. No fim, mesmo escondendo as bolas de jogo, tiveram de ir buscar uma ao fundo das redes. Cheira cada vez mais a Ajax, mas não o limpa-vidros, porque de limpos não têm nada.
Guardo para o fim os santinhos do pau-oco, os beatos que levam a mão ao peito sempre que lhes são apontadas falhas. De carácter e não só. Andam a ser postos num pedestal, são-lhes permitidas agressões claras e perdoadas faltas e expulsões que mudam jogos e campeonatos – normal para os reis da farsa no número de títulos –, mas ai de quem coloque em causa a sua dignidade. Apoiados por uma base de apoio nos media que faz chorar de inveja qualquer líder da Coreia do Norte ou, agora, dos EUA, lá seguem na sua senda de fidalgos com brasão, mas sem honra. Mas está tudo bem, o problema é o SL Benfica."

VAR(iedades)


"O senhor professor-doutor Pedro Proença, quando ainda estava na Liga de Clubes, e num momento de grande lucidez, anunciou que a partir de então nenhum jogo de futebol teria início depois das 20:45. Naturalmente ficámos muito gratos. Afinal, o homem não se lembrou de estabelecer a fasquia nas 22:15, nas 23:00, ou mesmo na meia-noite. Que sorte a nossa!
Mostrando essa gratidão, quase 50 mil heróis enfrentaram a tempestade, ignoraram o resultado das eleições presidenciais e deslocaram-se à Luz na noite do passado domingo. Sobretudo quem teve de fazer viagens longas, com estradas cortadas e chuva intensa, regressando a casa a horas impróprias, ficou a dever ao agora presidente da FPF uma noite bem dormida, e pôde assim, na manhã seguinte, regressar ao trabalho fresco como uma alface.
Pelo contrário, na Cidade do Futebol, com ar condicionado, sem chuva, sem trânsito e refastelado numa cadeira ergonómica, um ilustre cidadão chamado João Casegas adormeceu mais cedo. Acordou subitamente para anular um golo a Pavlidis, mas cedeu novamente ao sono profundo dos anjos. Além desse lance, não viu mais nada do que se passou no ecrã colocado diante do seu nariz. Acontece.
De há um ano para cá, aconteceu tantas vezes que se está a tornar banal. Neste período, a arbitragem portuguesa regrediu 40 anos. O que, noutros tempos, outros protagonistas de - moraram décadas a edificar, estes conseguiram em apenas 12 meses. É obra!
A redução da diferença pontual para os lugares da frente até podia dar-nos alguma esperança de ainda lá chegar. Quando nos lembramos destes condicionalismos externos, quando vemos o que foi todo este Campeonato (e a ponta final do anterior e a Taça de Portugal…), perdemos quaisquer ilusões. Com estas arbitragens, não há Mourinhos nem Anísios que nos valham."

Luís Fialho, in O Benfica

É Hora de ajudar!


"Há ocasiões em que nos confrontamos com a nossa real fragilidade e enfrentamos a verdade nua e crua de que o planeta manda e nós obedecemos, por mais que lhe façamos mal ou que tentemos controlar as consequências. É a escala humana a bater de frente com a escala geológica, ou se quiserem, a humanidade a deparar-se com a sua pequenez perante a imensidão e a fúria dos elementos. Que podemos fazer então? Resignar-nos nunca, resistir sempre, levantar a cabeça, unir as mãos, não deixar ninguém para trás e aprender, aprender muito e depressa. Precisamos de aprender a respeitar o território, aproveitando os seus recursos e respeitando os seus limites, porque também os tem. A água, o vento, as ondas, as enxurradas, os rios, não são maus, são isso mesmo, apenas água, vento e rios. Interagem e estabelecem permanentemente equilíbrios. A engenharia por vezes desafia os seus limites e consegue-o, notavelmente, mas ao nível dos grandes empreendimentos pensados com estratégia, planeamento e construídos com arte. Um exemplo? As silenciosas barragens a quem devemos tanto na regulação dos caudais e das cheias. Mas a maioria das construções, vias, muros e outras, são de construção mais modesta e, infelizmente, parecem por vezes menos pensadas ou pior executadas. Por isso, quando nos batem à porta eventos desta dimensão, resistem pouco e multiplicam consequências dramáticas para a vida das famílias. Quem sofre, é bom de ver, são os mais fracos, os mais pobres, os mais isolados.
Todos merecem uma mão solidária, mas pensemos nos mais velhos, mais indefesos, que vivem mais longe de tudo e não têm como se valer. A sua companhia mais importante são os agentes da GNR, que frequentemente os visitam e apoiam como filhos. Por isso, reconhecendo a nobreza incomensurável desta missão incógnita, longe dos media, presente no dia a dia, sentimo-nos impelidos a agir e a colaborar. Fazemo-lo em nome dos benfiquistas, que para isso criaram a Fundação. Por isso, nesta hora difícil, a solidariedade do Benfica ganha uma vez mais forma concreta e a Fundação, reunindo contributos de todos, em articulação com a Guarda Nacional Republicana e com o Programa Apoio 65 – Idosos em Segurança, está a ajudar a repor equipamentos e mobiliário essenciais à vida e ao conforto.
Junto fazemos bem, chegamos onde ninguém mais chega e ajudamos quem mais precisa!"

Jorge Miranda, in O Benfica