Últimas indefectivações
sábado, 17 de janeiro de 2026
COMO CONDICIONAR UM ÁRBITRO E SAIR A BEM DA TRAPALHADA
"André Villas-Boas
Ato 1
Arranja-se um pretexto para carregar forte e feio na nomeação e, assim, deixar o árbitro condicionado.
Ato 2
O árbitro, condicionado, decide todos os lances duvidosos a favor da sua equipa.
Ato 3
Tendo ganho, elogia-se à grande o trabalho do árbitro para passar uma esponja sobre tudo o que de mau foi dito antes do jogo.
Sem mais comentários."
Na defesa dos seus
"O BENFICA TEM QUE IR ATÉ
ÀS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS
A última vez que estive no Dragão foi na goleada de 4-1 na época passada. Desde o arranque da caixa de segurança no ponto de encontro até estar sentado na bancada não foi preciso sequer uma hora. Por outro lado, não me pediram ou eu vi alguém a ter que se descalçar para entrar no estádio. Tudo correu bem.
Se sabem fazer as coisas bem, porque é que ontem correu tão mal? A resposta parece óbvia: por má vontade.
Os adeptos são a essência do futebol. Os adeptos são a razão de ser dos clubes. O Benfica tem que ir até às últimas consequências nesta questão.
Já vimos adeptos do Benfica a ser desconsiderados em vários estádios, a ter que despir camisolas, a serem obrigados a deixar do lado de fora qualquer tipo de objeto identificável com o seu clube. Ontem, no Dragão, conseguiram ser piores, passaram das marcas mais abjetas.
Acompanho habitualmente a equipa nos jogos fora. Sei bem os sacrifícios por que passam os adeptos fora de casa. Estou solidário com todos os que foram mal-tratados ontem no Dragão e não deixarei cair o assunto nas minhas participações televisivas nem na crónica da edição de domingo n'O Jogo.
Deixo a ligação para o post de um dos prejudicados ontem no Dragão.
👇
Benfica: quando a cabeça tem de mandar
"Há momentos numa época em que somos obrigados a fazer um exercício que custa mais do que qualquer derrota. Olhar para o clube que amamos e aceitar que o tempo da esperança imediata pode ter acabado. Não por falta de amor. Não por falta de vontade. Mas por excesso de realidade. E essa realidade, por mais que custe, acaba sempre por se impor, mesmo aos clubes grandes, mesmo aos adeptos mais resilientes.
A eliminação da Taça de Portugal no Dragão não foi apenas mais um jogo perdido. Foi um ponto final simbólico. Não porque o Benfica tenha sido inferior. Pelo contrário. Houve atitude, houve organização e, na maior parte do tempo, até superioridade. Houve uma equipa preparada para competir. Mas também houve aquilo que tem sido uma constante ao longo desta época: faltou qualidade na hora de decidir.
E quando falta qualidade, a atitude deixa de chegar. Pode ajudar a discutir jogos. Pode ajudar a equilibrar forças. Mas raramente chega para vencer títulos.
É duro dizê-lo numa fase ainda relativamente precoce da época.
É duro dizê-lo quando os adeptos estão feridos, cansados e cada vez mais desconfiados. É duro dizê-lo sabendo que o treinador e os jogadores não podem, nem devem, alinhar neste discurso. Eles têm de continuar a correr, a lutar, a honrar a camisola em cada minuto. Isso é inegociável. É o mínimo exigível a quem representa o Benfica.
Mas quem dirige o clube não pode pensar com o coração do adepto. Tem de pensar com a frieza de quem tem a obrigação de preparar o futuro. E essa frieza não é desistência nem falta de ambição. É responsabilidade. É perceber que há momentos em que insistir no discurso da esperança permanente apenas adia decisões que têm de ser tomadas.
O Benfica ainda tem objetivos esta época. Passar à próxima fase da Liga dos Campeões. Lutar pelo melhor lugar possível no campeonato. Garantir, pelo menos, o segundo lugar que dá acesso à Champions da próxima temporada. Mas sejamos claros: esses objetivos já não são desportivos no sentido emocional. São financeiros. São estruturais. São meios para garantir estabilidade e margem de manobra na próxima temporada.
Porque, olhando para esta equipa, não se vislumbra capacidade para vencer o campeonato ou para uma surpresa europeia. Falta talento individual. Falta magia. Falta aquele jogador que, quando tudo está bloqueado, resolve sozinho. Falta o Rafa que acelerava quando ninguém conseguia. Falta o Di María que inventava quando o jogo parecia morto. Falta aquele rasgo que muda uma noite inteira e altera o destino de um jogo, mesmo quando o coletivo está preso.
E isso percebe-se mesmo nos jogos em que o Benfica está bem. Mesmo quando há atitude, mesmo quando há compromisso, mesmo quando a equipa está organizada, o problema aparece sempre no mesmo sítio. Na incapacidade de criar desequilíbrios. Na falta de magia no último terço. Na dificuldade em transformar posse e domínio territorial em oportunidades claras. Uma equipa que cria pouco, marca pouco e, por isso, ganha pouco.
Há também aqui uma questão de perfil. O Benfica construiu um plantel com muitos jogadores corretos, fiáveis, disciplinados taticamente, mas poucos capazes de desequilibrar por si próprios. Jogadores que precisam de contexto favorável para render, quando tantas vezes os jogos exigem precisamente o contrário. Exigem improviso, risco, talento individual que rompa com o guião.
Houve jogos recentes em que o problema não foi apenas a qualidade. Foi a atitude. As primeiras partes frente ao SC Braga, no campeonato e na Taça da Liga, são exemplos claros. Não se entra assim num jogo. Não se pode. E esses momentos contam, porque revelam fragilidades competitivas que não surgem por acaso. Revelam uma equipa que nem sempre reage bem à pressão.
Mas mesmo quando a atitude surge, como no Dragão, a história repete-se. A atitude sem talento raramente chega para ganhar títulos. Pode chegar para competir. Pode chegar para discutir. Mas dificilmente chega para decidir épocas.
É por isso que este momento da temporada tem de ser encarado como aquilo que verdadeiramente é: o início da preparação da próxima época. Não como abdicação. Não como rendição. Mas como planeamento. Como lucidez estratégica.
É agora que o Benfica tem de olhar para a formação e perceber quem pode fazer parte do futuro. É agora que tem de dar minutos, responsabilidade e contexto competitivo a jovens que podem crescer. Não para cumprir agenda, mas para criar soluções. É agora que tem de perceber quem já não acrescenta, quem chegou ao seu limite e quem pode ser útil noutro papel. É agora que estes meses têm de funcionar como uma pré-temporada prolongada para 2026/2027.
Porque, se o Benfica continuar apenas a reagir jogo a jogo, a tentar salvar emocionalmente uma época que, desportivamente, já não se salva, arrisca-se a chegar à próxima temporada com os mesmos erros, as mesmas ilusões e a mesma frustração acumulada. E isso seria repetir um ciclo que já dura há demasiado tempo.
O mercado ensina-nos isso todos os dias. Jogadores medianos custam hoje 20 ou 30 milhões. Exige-se que sejam craques instantâneos. E depois surpreendemo-nos quando não o são. O Benfica tem de ser cirúrgico. Tem de errar menos. Tem de contratar melhor. E isso não se faz em cima do joelho.
Eu sei que o coração do adepto não aceita isto. Sei que custa olhar para os meses que faltam e pensar mais no amanhã do que no hoje. Mas há momentos em que a cabeça tem de mandar. E, neste momento, mandar significa preparar o Benfica para voltar a ser dominante. Não em discursos. Não em promessas. Mas em campo.
Porque o Benfica não pode viver eternamente a tentar sobreviver a épocas falhadas. Tem de aprender com elas. E esta, goste-se ou não, é uma dessas épocas."
É o Benfica, sem qualquer surpresa!
"A época acabou na Luz e não surpreende, após tantos erros. Estamos apenas em janeiro. No Dragão, colhem-se os frutos da simplicidade: do processo, da mensagem e da escolha de rumo
Acaba o clássico e a sensação que fica é que, embora tenha corrido alguns riscos, o FC Porto controlou a partir do 1-0. Pouco ou nada se importou com conclusões redutoras ou a ideia de vitória moral extraída pelo rival, que vislumbrou um par de oportunidades flagrantes e ainda viu sustentado o argumento do penálti sobre Barreiro. Ironia das ironias, os meios foram mais importantes para Mourinho e companhia do que o próprio fim.
A crise existe, no entanto, a miragem de um outro resultado não deixa que ganhe contornos sufocantes. Além de no epicentro, claro, estar um dos melhores da história, ainda que há muito tenha saltado em andamento para apeadeiros em que esse comboio dificilmente irá parar.
Dizia eu: acaba o clássico e a imagem que me surge é de um coletivo, em que as coisas podem ser simples, mas não deixam de fazer sentido, a superiorizar-se a uma soma de jogadores, sem qualquer tipo de química entre si. Pelo perfil sim, e pela forma como os distribuem em campo.
Claro que o Benfica se apresentou organizado, unido pelo objetivo primário de não sofrer golos. Contudo, mais à frente, não foram assim tão poucos os momentos em que foi cada um por si a tentar ligar com Pavlidis. Aliás, tem sido esse o caminho que as águias têm percorrido, em contraciclo com os rivais e os maiores de outras ligas.
Enquanto o coletivo, com expoente máximo em PSG, Arsenal e Bayern, e a um nível menor, pela perda de alguma identidade, no Manchester City, parece ter virado finalmente paradigma — as individualidades servem e servem-se do processo — na Luz procuram-se soluções de desequilíbrio para fechá-lo, quase como se aí não fossem precisos treino e ideias. Apenas pura inspiração. Se os maiores do planeta já não abdicam dos jogadores multifuncionais, capazes de defender, mas também de atacar com engenho e qualidade, de roubar a bola, porém ainda de a colocar curta ou longa, ou levá-la colocado ao pé no drible e no sprint, ao mesmo tempo, no Benfica escolhem-se futebolistas unidimensionais, só capazes de pressionar para recuperar e aparecer para finalizar como Barreiro. De fintar ou cruzar como Lukebakio. De acelerar e centrar como Sidny. Até Roger Schmidt, que vivia na vertigem, precisava de jogadores de pausa, de inteligência, de controlo. Teve de criá-los, recuperar proscritos como Florentino e João Mário, inventar Chiquinhos, dar depois a batuta a João Neves. Que depois perdeu como Enzo, sem substituto à altura.
Não foi surpresa a eliminação do Benfica. E o FC Porto nem precisou de fazer muito. Marcou, não fechou com o segundo golo e entregou-se à gestão, conhecendo não só as debilidades do adversário na criação como as próprias forças em tapar caminhos para a baliza de Diogo Costa. Podia ter corrido mal, sim, todavia as probabilidades de que seria bem-sucedido sempre foram superiores.
A partir do 1-0, mas sobretudo daquele falhanço de Pavlidis já depois de Diogo Costa ter brilhado no final da primeira parte, vende-se a imagem de um Benfica infeliz e do resultado injusto. Da atitude diferente. Sim, a agressividade nos duelos subiu, a par com a condescendência do adversário, confortável com o que se estava a passar. E o Benfica, ferido e a lutar pela vida na única competição que poderá realmente vencer, foi apenas esforçado. A 15 de janeiro, ainda que possa prolongar um pouco mais a presença na Champions e lutar pelo segundo lugar do campeonato e, assim, pela próxima edição da mesma competição, a época praticamente acabou. E nem é surpresa.
Leio entretanto que não é a altura para abdicar de Mourinho, que o Benfica precisa de um manager, alguém com cultura de vitória para fazer o clube sair do momento que vive no futebol profissional (talvez precisasse de mais uns quantos para as modalidades). Por muito que concorde com a ideia que face ao vazio de liderança, legitimado pela larga maioria que o escolheu, seja preciso alguém que encontre rapidamente um rumo e tome as decisões certas, é preciso acertar que rumo deverá esse.
Escrevi aqui que o Benfica tem de saber o que quer. Que tipo de futebol pretende colocar em campo, a fim de atingir os seus objetivos. Qual é a sua cultura de clube? Em que é o que os adeptos se reveem? Em ganhar, sim, mas como? Enquanto andar a saltar de ideia para ideia, ou atrasar aquela que será sempre a dominante na sua história, o seu ADN, estará a perder tempo. Mourinho escondeu a equação atrás do ganhar e agora, sem resultados, pouco lhe resta mais do que um futebol desfigurado que se encolhe diante do futuro. Se não é a solução como técnico, o que parece evidente, também não o será como manager.
Já ninguém se lembra de onde o FC Porto partiu. Das dificuldades financeiras, do plantel pouco competitivo, do ano zero que se anulou a si próprio. Enquanto a sul se falava da falta de tempo para introduzir três ou quatro novos jogadores e, depois, um novo processo, no Dragão começava-se quase do início. Com novas ideias. A mensagem passou logo na pré-época e, com um ou outro sobressalto, consolidou-se ao ponto de, jornada após jornada, se ganhar. Seguro da decisão, Villas-Boas renovou com Farioli, tal como Rui Costa fez com Schmidt. Ambos bem, a meu ver, mas com sustentação diferente. Sobretudo a nível da liderança. Porque um bom técnico não chega, a não ser que seja muito mais do que isso, que também seja um pouco presidente. Sobretudo, líder.
Roger Schmidt não o era. Lage também não. O velho Mourinho poderia sê-lo. Não este. Amorim mostrou-o antes e talvez pudesse devolver o rumo que esta direção nunca encontrou, ainda que pouco ou nada mereça ser salva pelo que não fez até aqui. Porque, no fundo, por vezes basta não complicar o que é simples.
Villas-Boas, que já falhou feio e tantas vezes se perdeu no discurso, talvez ainda a dialogar com a sombra do antecessor, se ganhar agora fá-lo-á por uma razão essencial: sempre soube o que queria. Definiu um caminho, sustentou-o e foi coerente.
No futebol, ganhar pode ser consequência. Saber quem se é — e agir de acordo com isso — devia ser sempre o princípio."
Do clássico do detalhe à «situação difícil» de Mourinho
"O detalhe que decidiu o clássico da Taça não esteve só no golo de bola parada e no falhanço incrível, mas fica também uma frase de José Mourinho que talvez precise de ser analisada com pormenor
De um lado a cabeçada de Bednarek a evocar Jorge Costa, do outro o falhanço de Pavlidis a lembrar Bryan Ruiz. O clássico da Taça de Portugal caiu para o lado do FC Porto, mas o detalhe que decidiu o apuramento para as meias-finais não esteve apenas no aproveitamento de um pontapé de canto como expoente máximo da eficácia.
O Benfica jogou acima daquilo que tem sido o padrão da temporada, mas o crescimento coletivo — com uma atitude competitiva que nada ficou a dever ao rival — ficou órfão do plano individual, incapaz de fazer a diferença no Dragão.
Como tantas vezes no futebol, a nódoa caiu no melhor pano, o de Pavlidis, tão só na companhia de Prestianni, Barreiro e Sidny Lopes Cabral. Isto perante uma muralha azul que já era impressionante, e que agora ainda foi reforçada com a contratação de Thiago Silva. Embora mais discreto do que Bednarek, o brasileiro teve uma estreia arrebatadora, tanto a proteger a sua baliza como a construir jogo (aquela dobra na lateral direita, concluída com um passe entre as pernas de Sudakov…)
A coesão defensiva do FC Porto começa em Samu, mas já por aqui escrevi que o maior upgrade na equipa deste ano é mesmo a qualidade dos elementos da linha defensiva.
José Mourinho já teve mais razões para apontar o dedo aos jogadores, mas no adeus a outra taça fez questão de realçar que foi contratado pelo Benfica «numa situação difícil».
Favorável não era, seguramente, ou não teria sido chamado a substituir Bruno Lage, mas Mourinho não deve estar a fazer contas à luta pelos títulos internos, que o prejuízo atual já vai além daquele que herdou.
Talvez a «situação difícil» esteja relacionada (também) com o plantel que herdou, mas aí o técnico perdeu margem para pedir reforços, tendo em conta a ambição limitada com que a equipa pode encarar a segunda metade da temporada.
Talvez a «situação difícil» esteja relacionada com o processo eleitoral que o clube atravessou, ou com carências que Mourinho possa identificar na estrutura do Benfica. Talvez.
Ficou por entender a real dimensão das palavras do técnico encarnado, mas seria importante — para sócios e adeptos, acima de tudo — que a mesma fosse explicada um dia destes, pelo próprio.
Hoje não será, que Mourinho não fará conferência de imprensa de antevisão da visita a Vila do Conde."
Benfica e o desafio de gerir as lesões no ombro
"O Benfica informou que Richard Ríos sofreu uma luxação anterior traumática do ombro direito durante o jogo da Taça de Portugal frente ao FC Porto, no Estádio do Dragão.
É uma das lesões mais comuns nas articulações do corpo humano e está associada à prática desportiva.
Não propriamente ao futebol.
É uma das lesões mais comuns nas articulações do corpo humano e está associada à prática desportiva.
A luxação ocorre quando a cabeça do úmero (osso do braço) se desloca da cavidade glenóide (a parte da escápula onde deveria encaixar). No caso da luxação anterior, o úmero move-se para a parte da frente do corpo com possível rotura de estruturas como ligamentos e cápsula articular.
Os encarnados para já preferem descartar a cirurgia e optar por avaliar diariamente a evolução clínica do jogador internacional colombiano para, posteriormente, tomar uma decisão mais concreta.
Tanto o tratamento cirúrgico como o conservador são opções viáveis e ponderadas caso-a-caso.
A preferência do atleta do Benfica neste caso também desempenha um papel importante na tomada de decisão para o tratamento, isto porque tanto o tratamento cirúrgico como o conservador são opções viáveis e ponderadas caso-a-caso.
Após a primeira luxação traumática do ombro anterior, a articulação pode tornar-se mais instável.
Por outro lado, após a primeira luxação traumática do ombro anterior, a articulação pode tornar-se mais instável e continuar a deslocar-se, de forma progressivamente mais simples. Não há informação clínica pública para saber se esta foi a primeira vez que aconteceu.
No mesmo dia em que Richard Ríos se lesionou, outro jogador do Benfica, João Veloso, foi submetido a uma intervenção cirúrgica para tratamento de instabilidade anterior do ombro. O mesmo diagnóstico. Tal como tinha acontecido com Tiago Gouveia. Este ano, Sudakov já ficou indisponível por lesão no ombro e Enzo Barrenechea ainda está em recuperação após lesão no treino, também no ombro."
Nomeação de árbitros e good governance: uma reflexão necessária
"As federações desportivas não são meros organizadores de competições. São entidades reguladoras, guardiãs da integridade das provas, da confiança pública e da credibilidade do sistema desportivo. No futebol, esta responsabilidade assume particular relevo quando estão em causa decisões suscetíveis de influenciar a perceção de justiça, imparcialidade e verdade desportiva, como sucede, de forma muito especial, no domínio da arbitragem.
A nomeação de árbitros para competições oficiais não é um ato neutro, nem meramente técnico. Trata-se do exercício de um poder discricionário, que deve ser orientado por critérios de prudência, transparência, razoabilidade e alinhamento com os valores institucionais da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Estas decisões não produzem efeitos apenas no plano do jogo: têm impacto direto na confiança dos agentes desportivos, na perceção pública da arbitragem e na própria autoridade institucional da Federação.
O Regulamento de Arbitragem da FPF é claro ao estabelecer que compete ao Conselho de Arbitragem «defender o prestígio da arbitragem». Esta competência não se esgota na avaliação técnica do desempenho dos árbitros. Envolve, necessariamente, uma dimensão institucional e reputacional, que obriga a ponderar o contexto em que cada nomeação é efetuada e a forma como ela pode ser percecionada no espaço público.
Esta missão articula-se com o Regime Jurídico das Federações Desportivas, que impõe princípios de organização e funcionamento baseados, nomeadamente, na transparência e na boa governação. A atuação dos órgãos federativos deve, por isso, refletir não apenas conformidade formal com os regulamentos, mas também uma cultura de responsabilidade institucional e de gestão prudente do risco.
O Código de Ética e Procedimentos da FPF densifica estes deveres ao consagrar como princípios orientadores a credibilidade, a imparcialidade e a responsabilidade, sublinhando que os atos da Federação devem ser avaliados também pela forma como são percecionados. A ética desportiva, neste plano, não se limita à ausência de ilegalidade: exige uma atuação que proteja ativamente a confiança pública e a integridade das competições.
No mesmo sentido, os Estatutos da FPF impõem a defesa dos valores da ética, da lealdade, da verdade desportiva e do fair play. Estes comandos normativos traduzem uma ideia essencial: os órgãos federativos não são apenas aplicadores de regras, são responsáveis pela salvaguarda da integridade institucional do sistema.
Importa ainda sublinhar que o modelo português de designação de árbitros não assenta em sorteios automáticos, mas num sistema de nomeações. Esta opção organizativa implica um nível acrescido de exigência institucional. Quando a escolha resulta de uma decisão humana e discricionária, torna-se ainda mais relevante que os princípios de boa governação - transparência, prudência, imparcialidade e proteção do prestígio da arbitragem - sejam cumpridos de forma escrupulosa e visível.
É neste enquadramento que a nomeação de árbitros deve ser compreendida como um verdadeiro exercício de governação. Sempre que se escolhe um árbitro para determinado contexto competitivo, não se está apenas a selecionar um agente técnico, mas a gerir expectativas, perceções e confiança. Em cenários de elevada exposição mediática ou tensão competitiva, essa responsabilidade é naturalmente acrescida.
A boa governação exige, nesses casos, uma ponderação especialmente cuidada de todos os fatores relevantes, não apenas sob o prisma da competência técnica, mas também da proteção do prestígio da arbitragem e da salvaguarda da aparência de imparcialidade. Como a conhecida máxima recorda, não basta ser, é preciso parecer.
Por fim, importa sublinhar que, no plano estritamente desportivo, o jogo desta semana entre FC Porto e Benfica decorreu sem incidentes relevantes, tendo mesmo merecido palavras públicas de elogio à equipa de arbitragem por parte do presidente dos dragões. Esse dado deve ser reconhecido.
Ainda assim, uma reflexão serena de good governance permite concluir que determinadas nomeações, em certos contextos, podem colocar o próprio árbitro numa posição especialmente exigente, sujeitando-o a um nível acrescido de pressão e escrutínio que poderia ser evitado.
Em jeito de conclusão, a forma como são pensadas e comunicadas as nomeações no futebol profissional constitui um verdadeiro teste à maturidade da governação desportiva. Mais do que atos técnicos, são atos institucionais, que devem refletir rigor, sentido de responsabilidade e atenção ao impacto das decisões. A autoridade de uma federação constrói-se não apenas na letra dos regulamentos, mas na coerência entre esses regulamentos e a forma como são concretamente aplicados. É nesse plano sereno, construtivo e pedagógico que esta reflexão se impõe."
Subscrever:
Comentários (Atom)








