Últimas indefectivações
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
José, anda falar que tu falas bem
"Quando as coisas não correm bem em campo, dá jeito ter um treinador que comunique bem na sala de imprensa. Mas pelos vistos é mais fácil ir diretamente ao Seixal obter explicações...
José Mourinho voltou a não fazer conferência de imprensa de antevisão, desta vez para o encontro de hoje frente ao Estrela da Amadora. Está mais do que visto que se tornou hábito substituir o encontro com jornalistas por uma curta intervenção via BTV.
Estas conferências não são obrigatórias, pelo que a decisão de evitar perguntas não tem consequências para o clube. Já os adeptos normalmente reagem a estas ocasiões com elogios à estrutura que afasta os seus funcionários desses maléficos e mal-intencionados profissionais da comunicação social, tendo dificuldades em perceber que são eles que ficam sem explicações (a não ser que, aparentemente, se dirijam diretamente ao Seixal).
Nesta altura, além de ficarem a saber que Rafa Silva vai jogar hoje, julgo que gostariam de saber se o treinador está à espera de mais reforços, se está desiludido por ter perdido Lucca para o Nottingham Forest ou como reage à mensagem de confiança no seu trabalho, dada recentemente pelo presidente Rui Costa. Ou até, na loucura, ouvir o que Mourinho diria sobre a conversa com os adeptos de ontem. Em vez disso, ouviram que a equipa está a jogar muito bem mas a marcar pouco e que os regressos de lesões vão ajudar. Ok...
Quando José Mourinho chegou ao Benfica, acreditei que a comunicação entre treinador e adeptos iria melhorar consideravelmente. Trata-se de um campeão das palavras, que revolucionou até as conferências de imprensa, e ainda hoje há frases de Mourinho que circulam por todo o mundo do futebol. Sobretudo quando as coisas não correm muito bem em campo, ter na sala de imprensa alguém capaz de transmitir segurança, confiança e visão de futuro vale ouro em qualquer clube. Evitar isso, ainda por cima numa altura em que se acumulam as dúvidas sobre a época encarnada, só faz aumentar as perguntas (e aqui não me refiro só às dos jornalistas...).
Recordo que Roger Schmidt foi campeão, mas não durou muito quando as respostas não esclareciam. Bruno Lage não fugia do guião, a não ser em áudios na garagem. E Mourinho está preso a uns minutos na BTV, onde naturalmente não foi assunto que cerca de 200 adeptos estavam àquela hora no centro de treinos, insatisfeitos com o rumo da equipa.
Ainda estamos em janeiro e o Benfica não venceu a Taça da Liga, não ganhará a Taça de Portugal, está longe de conquistar o campeonato e com muitas dificuldades na Champions. A culpa pode ter sido das conferências de imprensa..."
Sporting confia, Benfica duvida
"Ao longo de uma época, todos os clubes enfrentam dificuldades. Os mais coesos, com um caminho bem definido, estão mais preparados para as adversidades. A forma como cada clube gere os problemas que surgem diz muito sobre a sua liderança e organização.
Sporting: copo meio cheio
O pós-Ruben Amorim não foi um processo fácil para o clube. O ex-treinador leonino tinha muita influência nos jogadores, na estrutura administrativa e nos adeptos. Comunicava de forma clara e era sempre muito convicto nas suas ideias. Teve o apoio da estrutura diretiva e conseguiu alcançar sucesso através das suas convicções. Nos últimos meses de Amorim, o Sporting praticava um futebol encantador, dominador e agressivo. Valorizou os jogadores e deixou saudade.
Por tudo isto, a transição não foi fácil. Rui Borges chegou num momento delicado, após a aposta em João Pereira não ter resultado. Ao longo destes 13 meses no Sporting, a missão de Rui Borges enfrentou muitos obstáculos, nomeadamente as inúmeras lesões com que teve de lidar. E como reagiu o técnico transmontano? Reagiu de forma positiva. Só o vimos abalado uma vez, depois da derrota com o Vitória para a Taça da Liga.
Apesar de perder constantemente jogadores importantes por lesão, Rui Borges sempre encarou as alternativas com confiança. Nunca as subestimou. Ao mesmo tempo, soube implementar as suas ideias com inteligência e naturalidade.
Hoje, o Sporting não joga como jogava com Ruben Amorim. Os méritos de Rui Borges estão à vista de todos: tem um plantel unido e confiante (onde todos têm oportunidades), joga um futebol ofensivo e dominador, valoriza os jogadores e a própria instituição. Tem muito mérito nos títulos conquistados (Campeonato e Taça de Portugal), assim como na forma como hoje o clube projeta a sua própria identidade, sem depender de Ruben Amorim ou Gyokeres.
Nos momentos difíceis, podia ter-se deixado dominar pelas dificuldades. Na realidade, preferiu valorizar aqueles que estavam disponíveis. Soube isolar o ruído à sua volta e concentrou-se no que podia controlar: o seu trabalho. Independentemente de quem joga, hoje os adeptos do Sporting vão a Alvalade confiantes, com a expectativa de ver uma equipa ofensiva, bem trabalhada e a praticar bom futebol.
Benfica: copo meio vazio
O contexto no Benfica não é fácil. Muitas decisões parecem ser tomadas sem grande lógica. Treinadores e jogadores chegam com grandes expectativas e saem quando surgem as dificuldades. A gestão do clube parece orientar-se pelos resultados, e não por convicções. Não há uma definição clara sobre o que o clube pretende.
Os treinadores são um bom exemplo dessa instabilidade. Os plantéis são criados com base num perfil de treinador que acaba por ser despedido nas primeiras jornadas. E o que se faz a seguir? A lógica seria contratar um treinador com perfil de jogo semelhante, mas isso não tem acontecido. O que os dirigentes do Benfica parecem procurar é um salvador.
Por exemplo, José Mourinho foi contratado exatamente com esse objetivo. Numa fase de grande instabilidade, Mourinho trazia aquilo que os dirigentes do Benfica queriam: alguém capaz de gerar — mais uma vez — enormes expectativas nos adeptos encarnados, com o slogan ‘Agora é que vai ser’.
Esta contratação deu a Rui Costa uma camada de proteção. Mourinho funciona como um escudo: atrai as atenções e protege aqueles que estão acima dele. Como resultado, Rui Costa venceu as eleições. Contudo, Mourinho traz também consigo outros elementos. Devido à sua dimensão e à ausência de liderança no clube, é Mourinho quem define o rumo. No plano desportivo, Mourinho adotou uma estratégia de desculpabilização. Fala constantemente sobre as lesões. Desvaloriza regularmente o plantel e as soluções disponíveis. Ignora aquilo que Rui Costa afirmou no início da época: que passou quatro anos a preparar um plantel de presente e futuro. Acaba por retirar confiança às segundas linhas. Chega a usar frases fortes, como: «Olhei para trás no avião e pensei que era treinador da equipa B.» Todas as estratégias são válidas, e cada treinador utiliza as suas.
Analisando este caso, o que Mourinho ganha ao desvalorizar constantemente as opções disponíveis na equipa? Por um lado, retira confiança às segundas linhas, que são fundamentais em muitos momentos da época. Por outro lado, apresenta publicamente uma justificação para o insucesso. Com esta estratégia, estará Mourinho a pensar mais nele próprio do que no clube?
Como referiu recentemente Mourinho, os momentos dos rivais influenciam, para o bem ou para o mal, o desempenho do Benfica. Retomo a frase em que Mourinho disse que se sentia como treinador da equipa B para analisar o FC Porto. Frente ao Vitória, com o jogo empatado, Farioli terminou a partida com um jogador de 17 anos, três de 19, um de 20 (que fazia anos nesse dia) e um de 21, e foi com estes jogadores em campo que o FC Porto acabou por vencer o Vitória. A diferença entre Farioli e Mourinho é que o treinador portista confiou e lançou os jovens num momento decisivo, enquanto Mourinho retira-lhes confiança antes do jogo e nunca os utiliza em momentos importantes.
A valorizar:
Matheus Reis
Não é um prodígio, mas é um jogador muito útil. Quando é necessário está à disposição na posição que o técnico pretende. Adapta-se bem ao que o treinador pretende e é um jogador competitivo.
A desvalorizar:
Aves SAD
Ao fim de 19 jogos tem cinco pontos e já vai no terceiro treinador. As consequências das más decisões fora do relvado estão à vista de todos."
Sinais que o Benfica não pode ignorar
"A presença de cerca de duas centenas de adeptos no centro de estágios do Benfica, apesar da forma ordeira como decorreu o protesto e das conversas mantidas em tom correto entre os líderes do movimento e o diretor-geral, diretor técnico, treinador e capitães da equipa — segundo informou o próprio clube —, torna impossível não recordar a invasão à academia do Sporting em maio de 2018, essa sim violenta e com consequências graves a vários níveis. Também faz lembrar as manifestações de dimensões alarmantes que tantas vezes se registam em clubes da América do Sul.
A fronteira entre o protesto legítimo e a intimidação é muito estreita, ficando apenas a um passo da ameaça — ou pior. O Benfica enfrenta agora um contexto delicado, mas do qual terá de retirar uma conclusão óbvia: os adeptos, mesmo que os presentes no Seixal não representem todo o universo benfiquista, não estão apenas insatisfeitos — perderam paciência e mostram-se revoltados com os resultados, as exibições da equipa de futebol e, sobretudo, com a sensação de que não há um rumo claro para algo diferente.
É precisamente aqui que a Direção do Benfica deve agir e comunicar melhor. A luta pelos objetivos ainda em aberto — o campeonato e a qualificação para a próxima fase da Champions, ambos difíceis de alcançar — tem de continuar. Mas, além de pensar no imediato, é determinante planear a próxima época com visão e coerência.
O Benfica pode transformar este mau momento numa oportunidade para definir com clareza o que quer ser. Mostrar aos adeptos que está consciente da situação e que trabalha com confiança é essencial. Importa decidir se continuará com José Mourinho para além desta temporada, apostar em contratações equilibradas e corajosas, e fortalecer a integração dos jovens formados no clube, em vez de olhar apenas para oportunidades de negócio.
Mesmo os adeptos mais impacientes saberão dar crédito à Direção se sentirem que existe um projeto desportivo sólido e coerente. Tudo muda ao ritmo das vitórias, e o plantel tem a seu favor um balneário aparentemente unido e comprometido — fruto da liderança de Mourinho e de Nicolás Otamendi, capitão e referência dentro e fora de campo. Ainda que o Benfica tenha sido penalizado por várias lesões de jogadores importantes e fatores além futebol, é incontornável reconhecer que perdeu terreno demasiado rápido para os principais rivais.
Hoje, os benfiquistas parecem confusos quanto ao verdadeiro projeto para a equipa de futebol. O que se passou no Seixal não deve repetir-se, mas é um sinal claro que a Direção do Benfica não pode ignorar."
Eusébio ou Ronaldo? Os dois!
"O privilégio de 'ver' jogar Eusébio, que hoje celebraria o 84.º aniversário, através das palavras de António Simões, o «irmão branco» do Pantera Negra.
Certas perguntas atravessam gerações, resistem às estatísticas, sobrevivem aos títulos e teimam em não ter resposta definitiva. A uma delas, com maior ou menor convicção, já todos respondemos — quem foi o melhor jogador português de sempre, Eusébio da Silva Ferreira ou Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro?
Se olharmos para os registos, CR7 domina em número de golos, de troféus, Bolas de Ouro, recordes internacionais, longevidade ao mais alto nível. Mas, se formos além da matemática, o king continuará a reinar com uma multidão de súbditos aos pés.
Nunca vi Eusébio jogar, exceção a alguns vídeos a preto e branco — quase todos — por entre inúmeros relatos com tanto colorido que parecia estar a assistir ao vivo às proezas contadas por quem testemunhou o poder do Pantera Negra. Já a carreira de Ronaldo segui logo a partir do final da formação no Sporting, quando começaram a surgir os primeiros sinais públicos de genialidade recompensados com a chamada à equipa principal dos leões pela mão do treinador romeno Laszlo Boloni.
Antiga glória do Benfica e da Seleção Nacional, António Simões, 82 anos, o «irmão branco» de Eusébio, como este o apelidava, foi o ilustre convidado do oitavo episódio do Toque de Bola, videocast de A BOLA, no qual revisitámos a vida e obra de Eusébio agora que comemoraria, hoje, domingo, 25 de janeiro, 84 anos. Ouvi-lo falar de um «familiar próximo», olhos a brilhar, uma viagem no tempo em que o futebol foi apenas uma etapa numa longa, longa caminhada lado a lado, emocionou quem o ouvia. Simões evocou um homem simples, generoso, obcecado pela vitória sem querer ser a estrela que indiscutivelmente era, um futebolista que carregava um país inteiro nas costas.
Descreveu-se uma época, uma identidade, um sentimento coletivo que hoje é difícil de replicar, pois, tal como frisou, «Eusébio era um produto da sociedade daquela altura, tal como acontece com Cristiano Ronaldo nos dias que correm».
Eusébio foi o rosto de uma nação que precisava de heróis que trouxessem luz ao período sombrio da ditadura. No Mundial de 1966, em Inglaterra, colocou Portugal no mapa global do desporto-rei, senhor de alegria contagiante misturada com uma fúria que exibia de punho no ar enquanto saltava a festejar como se ainda fosse um menino no bairro de Mafalala, na então Lourenço Marques, hoje Maputo.
Ronaldo, esse, é o produto perfeito da era moderna, profissional até à obsessão, competitivo, incansável na superação dos próprios limites. Eusébio jogou num futebol diferente, num mundo diferente, com regras, contextos e exigências diferentes. Cristiano joga num futebol globalizado, profissionalizado, monitorizado ao detalhe por GPS e outras tecnologias de ponta.
Não precisamos de escolher um entre eles. Precisamos, sim, de agradecer aos dois, porque, juntos, contam uma bela e intemporal história."
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