"Trabalho incrível do selecionador argentino em contraciclo com a realidade do país e da própria América do Sul. Um exemplo para outros casos difíceis, como parece ser o português
Mais do que o apuramento sofrido de Portugal para a Final 4 da Liga das Nações – somando dificuldades também sentidas pelos outros favoritos França, Alemanha e Espanha –, a paragem do futebol de clubes fica sobretudo marcada pelo que aconteceu para lá do Atlântico, na América do Sul, em que a campeã do mundo Argentina, sem Lionel Messi, bateu os dois maiores rivais e garantiu desde já a qualificação para o Mundial. No mítico Centenário, em Montevideu, ultrapassou o Uruguai por 1-0 e, dias depois, no Monumental, goleou um Brasil que continua a viver num passado cada vez mais distante por claros 4-1.
É uma Argentina à espanhola, intercalando Copas Américas com o seu terceiro título mundial (2021, 2022 e 2024), tal como a Roja fez entre 2008 e 2012, mas continua esfomeada – em 2014, a Espanha não passou da fase de grupos – e finalmente confortável com a sua identidade, que remonta a mais de um século.
É essa a identidade de La Nuestra, que se contrapôs nos anos 30 com o pragmatismo uruguaio, primeiro campeão mundial e olímpico, acabou goleada em 1958 no Olympia de Helsinborg pela Checoslováquia (6-1) e renasceu integrada, duas décadas depois, no Menotismo, que contou com os conselhos mais radicais do adjunto Angel Cappa e, igualmente importante, da ditadura imposta pela Junta Militar de Jorge Videla.
Como também aqui os consensos são complicados, o país foi-se erguendo também no seu oposto. No pragmatismo cru, traiçoeiro e no limite da Lei de Osvaldo Zubeldía, vencedor de três Libertadores e ainda treinador de Carlos Bilardo, o pai do Bilardismo que, com duas fileiras de proteção ao melhor de todos os tempos e que emanava talento e classe por ele e pelos restantes, venceu mais um Mundial e foi finalista do seguinte.
O fantástico grupo de 94, treinado por Alfio Basile, um menotista que levara a seleção à vitória em duas Copas América mas também perdera em pleno Monumental com a Colômbia por 5-0, o que resgatou Maradona da reforma, acabou por implodir diante da Roménia, após o teste positivo do Pelusa, que acusou efedrina. Quatro anos depois, o kaiser Passarella, que tinha obrigado todos os jogadores a rigorosos cuidados capilares, o que excluiu Redondo, tropeçou na magia de Bergkamp e, em 2002, Loco Bielsa quedou-se na fase de grupos. Pekerman, o Queiroz das Pampas devido ao sucesso na formação, e o próprio Maradona chegaram aos quartos de final nos dois Mundiais seguintes, com Alejandro Sabella a ver de perto Gotze saltar do banco para dar o título à Alemanha no Maracanã. Sampaoli, por sua vez, valeu apenas os oitavos na Rússia. O deserto foi longo após a festa do Azteca, em 1986.
No entanto, numa Argentina que quanto mais pobre fica mais se apaixona pelo jogo - mesmo que nem sempre a qualidade do futebol indígena seja fantástica, para muitos adeptos é muito mais importante como se ganha do que o resultado –, com todos os encontros transmitidos pela televisão e os estádios cheios, não esquecendo obviamente os momentos de excessos e violência porque não há paixão sem extremismos, houve quem soubesse dosear e equilibrar a herança e a pressão, obrigatória na Europa. Falamos de Bielsa, curiosamente o selecionador derrotado há dias enquanto líder charrúa, mas sobretudo dos discípulos, entre os quais, Cholo Simeone, uma das influências de Scaloni, a par de Ancelotti e da sua liderança tranquila, Pep Guardiola, De Zerbi, Simone Inzaghi e Luciano Spaletti.
O trabalho do modesto jogador e antigo adjunto do Sevilha e da seleção, e apenas ex-responsável principal dos sub-20, é extraordinário. Em contraciclo com o caos no país (político, económico e até futebolístico), com o poder atual do futebol sul-americano – são oito pontos sobre o Equador e dez sobre Uruguai, Brasil e Paraguai na tabela; a Argentina sagrou-se ainda campeã mundial em 2022, sendo a primeira formação do continente a festejar desde o Brasil, vinte anos antes – o jovem técnico, em parceria com Pablo Aimar, conseguiu tornar de novo competitiva a seleção das Pampas.
Fê-lo como uma comunicação simples, clara e sempre exemplar, com a procura do equilíbrio, mesmo quando era obrigatório proteger não só Messi como também Di María, e a incorporação do pressing como arma fundamental, mas ao mesmo tempo recuperando o gosto de ter a bola, passá-la e atacar. Mesmo que a história e Bilardo lembre sempre aos compatriotas que há outro caminho, la Nuestra parece de volta. Ainda que com um tom diferente. Bem afinado.
Não sei se daqui a um ano a Argentina conseguirá novo título, o que seria tão surpreendente – não pelo trajeto de agora, mas pelo arranque – quanto extraordinário. Há mais candidatos fortes, como a velha conhecida França e a reinventada campeã europeia Espanha, mas também Inglaterra, Alemanha e talvez Portugal. Todavia, se a festa não pintar de azul celeste e branco será preciso entendê-lo. Não se pode ganhar sempre, porém pode trabalhar-se para isso. E nomes como Alexis Mac Allister, Enzo Fernández e Julián Álvarez, pelo menos esses, asseguram a continuidade.
Às vezes, pergunto-me qual é a identidade do nosso futebol? Só entre 1996 e 2000 nos deixámos de sentir pequeninos e conseguimos jogar olhos nos olhos com os maiores, consciência que se prolongou através do efeito Mourinho nas equipas de Scolari, até que o Bilardismo, ou se preferirem Fernandismo, de 2016, assente num losango de quatro médios-centros atrás de Nani e Ronaldo, se tornar expoente máximo de conquistas. Quando o caminho alternativo é eficaz, mesmo que banhado com tanta felicidade, é preciso tempo, ainda mais porque não é imediato que haja um Scaloni no futebol português. Bem precisávamos.
A seleção portuguesa precisa de lógica nas decisões, de se organizar e voltar a sentir bem consigo mesma. Falta-nos alegria, também porque nos falta identidade. A ideia certa. A consciência de equipa, não por excesso de individualismo, porém por falta de encaixe das peças. Só que Martínez se prepara para se manter fiel ao que tem feito e dificilmente criará a rotura que se reclama. E tudo acabará num desperdício geracional."