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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Chuveirinho #157

Vida de treinador...


"No futebol, a fronteira entre ser besta e ser bestial é tão ténue que mede-se muitas vezes em 90 minutos. Um resultado transforma relações, altera perceções e redefine competências. Um golo muda um discurso, uma derrota apaga um trabalho. É por isso que, neste mundo instável, se diz, com ironia, que a mala de um treinador nunca pode estar totalmente desfeita: tem de estar sempre pronta, tanto para entrar como para sair

Ainda a época 2025/26 vai a meio e já é um espelho fiel desta realidade. O treinador tornou-se a face mais visível de tudo: do sucesso, do insucesso e, muitas vezes, de problemas que não criou. O cargo de treinador é, hoje, um dos mais frágeis do futebol moderno. Vive-se do aqui e agora, do último jogo, da classificação atualizada, da sensação do momento ou da perceção momentânea. O tempo, esse, deixou de ser critério. Passou a ser um luxo.
Os números são claros. Com muitos campeonatos ainda longe do fim, já se registaram 110 mudanças de treinador nas principais ligas europeias, num estudo que analisou 18 dos 20 campeonatos de topo, excluindo Suécia e Noruega por diferenças de calendário. Não se trata de casos isolados, mas de um padrão estrutural.
A SuperLiga da Turquia, com 17 trocas de treinador, continua a liderar o ranking da instabilidade, seguida pela Grécia e pelo Chipre, com 10 mudanças cada, e pela Bélgica, com 9. Mesmo entre as cinco grandes ligas europeias, o cenário é revelador: a Premier League assume agora a liderança, com seis demissões, impulsionadas pelas saídas de Ruben Amorim do Manchester United e de Enzo Maresca do Chelsea. Curiosamente, ambos tinham recebido recentemente o prémio de melhor treinador do mês na competição — Amorim em novembro e Maresca em dezembro — e começaram 2026 já a perder o lugar, numa liga que se apresenta como exemplo de profissionalismo e estabilidade. Nem mesmo o campeonato mais rico do mundo escapa à lógica da urgência e da pressão imediata por resultados.
Este cenário não é novo, mas é cada vez mais extremo. Treinadores como Pep Guardiola, Carlo Ancelotti ou José Mourinho têm alertado, ao longo dos anos, para o mesmo problema: o treinador passou a ser o primeiro, e quase sempre o único, responsável visível pelos fracassos coletivos. Guardiola afirmou que «hoje um treinador precisa ganhar imediatamente, porque o tempo deixou de existir.» Ancelotti, mais pragmático, resume: «No futebol atual, a paciência é uma palavra decorativa».
Mas há um aspeto tantas vezes esquecido nesta discussão: a vida do treinador é vivida permanentemente sob observação. Em Inglaterra, usa-se uma expressão particularmente feliz para a descrever: Life inside the fishbowl — vida dentro do aquário. O treinador está sempre visível, exposto, observado de todos os ângulos. Cada gesto é analisado, cada substituição escrutinada, cada palavra dissecada. E o mais perturbador é que grande parte desse olhar é inquisidor e, não raras vezes, pouco informado. Comentadores ocasionais, ex-jogadores sem preparação, dirigentes de ocasião, redes sociais, programas de debate intermináveis. Todos opinam. Poucos contextualizam. Menos ainda entendem verdadeiramente os processos do jogo e o que é, realmente, o futebol.
Treinadores consagrados têm-no denunciado. José Mourinho falou várias vezes sobre a tribunalização do futebol moderno. Pep Guardiola referiu que hoje se analisa mais o resultado do que a ideia. Carlo Ancelotti sublinhou que o treinador passou a ser avaliado por quem nunca treinou, nunca liderou um balneário e nunca geriu um grupo sob pressão extrema.
Neste aquário, não há espaço para erro pedagógico nem para maturação de processos e ideias. Tudo é imediato, tudo é definitivo. Uma derrota gera teorias, duas geram desconfiança, três criam sentenças públicas. O treinador deixa de ser um construtor ou a solução para passar a ser um problema.
Por isso, já não existem histórias como a de Sir Alex Ferguson. O escocês esteve 27 anos no Manchester United, construiu uma cultura vencedora e deixou um legado que atravessou gerações. Importa recordar: nos primeiros anos em Old Trafford, Ferguson esteve muito perto de ser despedido devido à falta de resultados. Se fosse hoje, dificilmente teria sobrevivido. O futebol moderno teria eliminado, precocemente, um dos seus maiores mestres.
O presente oferece exemplos claros desta impaciência crónica. Escrevi aqui nesta rubrica sobre o injusto despedimento de Sérgio Conceição no Milan. O sucesso de Vítor Pereira no Wolves, com uma época 2024/25 marcada por vitórias e por ter salvo o clube da despromoção, parecia consolidar a sua posição. No entanto, poucos meses depois, foi despedido. O problema seria o treinador? Não me parece, de todo. Wilfried Nancy é um caso particularmente revelador: apenas 32 dias depois de suceder a Brendan Rodgers, deixou o cargo de treinador do Celtic. Um mês. Tempo insuficiente para mudar seja o que for, mas suficiente para ser descartado. No Liverpool, o treinador que foi campeão na época passada começa já a ouvir vozes que questionam a sua continuidade. Rui Borges, campeão pelo Sporting, já começou a ouvir essas vozes, e já se fala que a direção leonina estará a considerar um eventual substituto. Espero que não. O futebol raramente contextualiza; reage. O crédito desaparece à velocidade de uma story nas redes sociais. O passado recente não protege o presente imperfeito. O aplauso dura menos do que o eco da crítica.
O dado mais alarmante desta época, no entanto, está noutro número: 11 clubes europeus já se encontram no terceiro treinador da temporada. Em países, culturas e contextos diferentes, repete-se o mesmo padrão. Nottingham Forest, Celtic, Aves SAD, Panathinaikos, Antalyaspor, entre outros. Dois treinadores despedidos, um terceiro a entrar, muitas vezes com os mesmos problemas estruturais intactos. Mudam-se treinadores, mantêm-se problemas como é o caso do Manchester United. Falha o planeamento, falha o projeto, falha a liderança, falha a coerência mas o treinador paga primeiro. Tudo isto levanta uma pergunta essencial: estamos a trocar treinadores ou a esconder falhas mais profundas? Planeamento deficiente, decisões erradas no mercado, lideranças frágeis, expectativas desalinhadas. Mudar o treinador tornou-se o gesto mais rápido, mais visível e mais mediático. Dá a sensação de ação. Raramente resolve a raiz do problema.
Tudo isto expõe uma profissão vivida sob pressão constante, emocionalmente desgastante e estruturalmente frágil. O treinador já não gere apenas uma equipa: gere expectativas, discursos, ruídos e julgamentos. Vive dentro de um aquário onde todos olham, poucos compreendem e quase ninguém espera.
Vida de treinador é isto: viver num equilíbrio permanente entre a glória e a queda. Entre a assinatura da renovação e a da rescisão. Entre o aplauso fácil e a contestação imediata. Um exercício diário de resistência, lucidez, adaptação e sobrevivência num futebol que corre mais depressa do que a reflexão. Hoje, mais do que nunca, a pergunta já não é se o treinador vai ser questionado. É quando. É, também, quanto tempo falta para alguém, de fora do aquário, bater no vidro e exigir mudança. Porque, no futebol do agora, o tempo deixou de ser aliado, passou a ser inimigo."

Um novo tempo para o Boxe português


"O boxe nacional atravessa hoje uma fase de renovação que o projeta muito para além da sua função histórica de intervenção social. Modalidade fundadora dos Jogos Olímpicos, o boxe afirma-se em Portugal como uma referência sólida e inspiradora no panorama desportivo, com um percurso próprio e heterogéneo que se tem vindo a consolidar como um espaço de formação de prática regular e de afirmação competitiva.
A Federação Portuguesa de Boxe, fundada em 1914, tem desenvolvido um trabalho consistente de renovação da modalidade. Nos últimos dois anos, Portugal marcou presença em Campeonatos da Europa, Campeonatos do Mundo e no último apuramento olímpico, destacando a qualidade dos seus clubes, treinadores e atletas. Paralelamente, projetos inovadores e de investigação em parceria com a Universidade de Aveiro sobre o impacto da modalidade no atleta, a aposta no boxe feminino e o boxe adaptado, têm reforçado a inclusão, a diversidade e o impacto social da modalidade.
A admissão de Portugal, a 31 de dezembro de 2025, na World Boxing é mais um reconhecimento internacional do esforço ambicioso do boxe português, que continua a crescer em clubes, praticantes e notoriedade. O grande desafio para o próximo ano passa pelo reconhecimento público e pelo financiamento, essenciais para consolidar este projeto e garantir que o boxe português se afirma de forma sustentável, inclusiva e de excelência."

Alcaraz em Melbourne: O capítulo que pode mudar o ténis


"O Australian Open abre 2026 com a narrativa perfeita para marcas e audiências: Carlos Alcaraz entra em Melbourne à procura do único torneio que lhe falta para completar o Grand Slam e consolidar o estatuto de atleta-marca global.
Esta combinação de ambição histórica, timing e localização cria um produto de entretenimento de altíssima tração mediática e comercial: os Grand Slams são, por natureza, o formato premium do ténis, mas o Australian Open tem um diferencial estratégico: começa o ano e oferece o verão australiano como ambiente instagramável que amplifica conteúdos e ativações.
Para marcas e organizadores, o caso Alcaraz impõe uma pergunta direta: estamos a maximizar um atleta que pode 'fechar o ciclo' de títulos antes dos 23 anos e, com isso, arrastar novos públicos para o ténis? É aqui que o marketing tem de trabalhar em três frentes: narrativa, dados e experiência.
Na narrativa, Melbourne precisa de vender 'o último capítulo' com inteligência editorial, cruzando a jornada de Alcaraz com a memória recente do circuito; na camada de dados, o torneio deve medir em tempo real a correlação entre picos de audiência e momentos de tensão competitiva; na experiência, é crucial transformar a presença física no recinto em conteúdo partilhável que viva para lá da partida.
Carlos Alcaraz é um catalisador raro: soma finais consecutivas em Grand Slams e chega a Melbourne com a narrativa do 'único troféu que falta', um arco que, no passado, transformou Federer, Nadal e Djokovic em ativos comerciais com valor de longo prazo. Para os patrocinadores, esta é a hora de desenhar experiências dentro e fora do recinto: conteúdos exclusivos, ofertas dinâmicas em dia de jogo, merchandising limitado associado a momentos chave e, sobretudo, de ligar propósito e performance sem cair em slogans vazios.
O torneio tem a vantagem competitiva do território: Melbourne dispõe de uma infraestrutura de hospitalidade e mobilidade que facilita ativações e parcerias, enquanto a janela horária australiana, historicamente vista como barreira, pode ser aproveitada com conteúdos on-demand que mantêm o pico de consumo durante todo o dia nas geografias europeias e americanas.
A antecedência editorial também joga a favor: a imprensa especializada e guias de calendário colocam o Australian Open como 'primeiro grande' de 2026, com a expectativa adicional de observar efeitos da troca técnica no desempenho de Alcaraz e a resposta dos seus rivais diretos, como Jannik Sinner, vencedor em 2025, o que alimenta debates e aumenta o valor do pré-jogo.
Há ainda uma dimensão de cultura e tecnologia que o torneio deve abraçar: em 2026, o consumo de streaming caminha para modelos mais personalizáveis e orientados por dados, e os grandes eventos começam a integrar camadas interativas para reduzir a fricção na descoberta e aumentar a retenção; esta tendência é transversal e atinge também o desporto, tornando crítica a capacidade de oferecer múltiplos ângulos, estatísticas em tempo real e highlights automatizados em formatos curtos para redes sociais.
Em 2026, o Australian Open não é apenas o torneio que abre o calendário. É o palco onde o ténis decide se quer competir pela atenção com as ligas que ocupam o mês de janeiro ou se quer liderar o mês com uma história que só ele pode contar."