"No futebol, a fronteira entre ser besta e ser bestial é tão ténue que mede-se muitas vezes em 90 minutos. Um resultado transforma relações, altera perceções e redefine competências. Um golo muda um discurso, uma derrota apaga um trabalho. É por isso que, neste mundo instável, se diz, com ironia, que a mala de um treinador nunca pode estar totalmente desfeita: tem de estar sempre pronta, tanto para entrar como para sair
Ainda a época 2025/26 vai a meio e já é um espelho fiel desta realidade. O treinador tornou-se a face mais visível de tudo: do sucesso, do insucesso e, muitas vezes, de problemas que não criou. O cargo de treinador é, hoje, um dos mais frágeis do futebol moderno. Vive-se do aqui e agora, do último jogo, da classificação atualizada, da sensação do momento ou da perceção momentânea. O tempo, esse, deixou de ser critério. Passou a ser um luxo.
Os números são claros. Com muitos campeonatos ainda longe do fim, já se registaram 110 mudanças de treinador nas principais ligas europeias, num estudo que analisou 18 dos 20 campeonatos de topo, excluindo Suécia e Noruega por diferenças de calendário. Não se trata de casos isolados, mas de um padrão estrutural.
A SuperLiga da Turquia, com 17 trocas de treinador, continua a liderar o ranking da instabilidade, seguida pela Grécia e pelo Chipre, com 10 mudanças cada, e pela Bélgica, com 9. Mesmo entre as cinco grandes ligas europeias, o cenário é revelador: a Premier League assume agora a liderança, com seis demissões, impulsionadas pelas saídas de Ruben Amorim do Manchester United e de Enzo Maresca do Chelsea. Curiosamente, ambos tinham recebido recentemente o prémio de melhor treinador do mês na competição — Amorim em novembro e Maresca em dezembro — e começaram 2026 já a perder o lugar, numa liga que se apresenta como exemplo de profissionalismo e estabilidade. Nem mesmo o campeonato mais rico do mundo escapa à lógica da urgência e da pressão imediata por resultados.
Este cenário não é novo, mas é cada vez mais extremo. Treinadores como Pep Guardiola, Carlo Ancelotti ou José Mourinho têm alertado, ao longo dos anos, para o mesmo problema: o treinador passou a ser o primeiro, e quase sempre o único, responsável visível pelos fracassos coletivos. Guardiola afirmou que «hoje um treinador precisa ganhar imediatamente, porque o tempo deixou de existir.» Ancelotti, mais pragmático, resume: «No futebol atual, a paciência é uma palavra decorativa».
Mas há um aspeto tantas vezes esquecido nesta discussão: a vida do treinador é vivida permanentemente sob observação. Em Inglaterra, usa-se uma expressão particularmente feliz para a descrever: Life inside the fishbowl — vida dentro do aquário. O treinador está sempre visível, exposto, observado de todos os ângulos. Cada gesto é analisado, cada substituição escrutinada, cada palavra dissecada. E o mais perturbador é que grande parte desse olhar é inquisidor e, não raras vezes, pouco informado. Comentadores ocasionais, ex-jogadores sem preparação, dirigentes de ocasião, redes sociais, programas de debate intermináveis. Todos opinam. Poucos contextualizam. Menos ainda entendem verdadeiramente os processos do jogo e o que é, realmente, o futebol.
Treinadores consagrados têm-no denunciado. José Mourinho falou várias vezes sobre a tribunalização do futebol moderno. Pep Guardiola referiu que hoje se analisa mais o resultado do que a ideia. Carlo Ancelotti sublinhou que o treinador passou a ser avaliado por quem nunca treinou, nunca liderou um balneário e nunca geriu um grupo sob pressão extrema.
Neste aquário, não há espaço para erro pedagógico nem para maturação de processos e ideias. Tudo é imediato, tudo é definitivo. Uma derrota gera teorias, duas geram desconfiança, três criam sentenças públicas. O treinador deixa de ser um construtor ou a solução para passar a ser um problema.
Por isso, já não existem histórias como a de Sir Alex Ferguson. O escocês esteve 27 anos no Manchester United, construiu uma cultura vencedora e deixou um legado que atravessou gerações. Importa recordar: nos primeiros anos em Old Trafford, Ferguson esteve muito perto de ser despedido devido à falta de resultados. Se fosse hoje, dificilmente teria sobrevivido. O futebol moderno teria eliminado, precocemente, um dos seus maiores mestres.
O presente oferece exemplos claros desta impaciência crónica. Escrevi aqui nesta rubrica sobre o injusto despedimento de Sérgio Conceição no Milan. O sucesso de Vítor Pereira no Wolves, com uma época 2024/25 marcada por vitórias e por ter salvo o clube da despromoção, parecia consolidar a sua posição. No entanto, poucos meses depois, foi despedido. O problema seria o treinador? Não me parece, de todo. Wilfried Nancy é um caso particularmente revelador: apenas 32 dias depois de suceder a Brendan Rodgers, deixou o cargo de treinador do Celtic. Um mês. Tempo insuficiente para mudar seja o que for, mas suficiente para ser descartado. No Liverpool, o treinador que foi campeão na época passada começa já a ouvir vozes que questionam a sua continuidade. Rui Borges, campeão pelo Sporting, já começou a ouvir essas vozes, e já se fala que a direção leonina estará a considerar um eventual substituto. Espero que não. O futebol raramente contextualiza; reage. O crédito desaparece à velocidade de uma story nas redes sociais. O passado recente não protege o presente imperfeito. O aplauso dura menos do que o eco da crítica.
O dado mais alarmante desta época, no entanto, está noutro número: 11 clubes europeus já se encontram no terceiro treinador da temporada. Em países, culturas e contextos diferentes, repete-se o mesmo padrão. Nottingham Forest, Celtic, Aves SAD, Panathinaikos, Antalyaspor, entre outros. Dois treinadores despedidos, um terceiro a entrar, muitas vezes com os mesmos problemas estruturais intactos. Mudam-se treinadores, mantêm-se problemas como é o caso do Manchester United. Falha o planeamento, falha o projeto, falha a liderança, falha a coerência mas o treinador paga primeiro.
Tudo isto levanta uma pergunta essencial: estamos a trocar treinadores ou a esconder falhas mais profundas? Planeamento deficiente, decisões erradas no mercado, lideranças frágeis, expectativas desalinhadas. Mudar o treinador tornou-se o gesto mais rápido, mais visível e mais mediático. Dá a sensação de ação. Raramente resolve a raiz do problema.
Tudo isto expõe uma profissão vivida sob pressão constante, emocionalmente desgastante e estruturalmente frágil. O treinador já não gere apenas uma equipa: gere expectativas, discursos, ruídos e julgamentos. Vive dentro de um aquário onde todos olham, poucos compreendem e quase ninguém espera.
Vida de treinador é isto: viver num equilíbrio permanente entre a glória e a queda. Entre a assinatura da renovação e a da rescisão. Entre o aplauso fácil e a contestação imediata. Um exercício diário de resistência, lucidez, adaptação e sobrevivência num futebol que corre mais depressa do que a reflexão. Hoje, mais do que nunca, a pergunta já não é se o treinador vai ser questionado. É quando. É, também, quanto tempo falta para alguém, de fora do aquário, bater no vidro e exigir mudança. Porque, no futebol do agora, o tempo deixou de ser aliado, passou a ser inimigo."

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