"FRANCISCO CALADO,
PARA ALÉM DE CAPITÃO
DE EQUIPA, FOI JORNALISTA
E MERECEDOR DE UM BEIJO
DE UMA DIVA
No final da temporada de 1956/57,
o Benfica tinha acabado de juntar a vitória na Taça de Portugal
à conquista do Campeonato
Nacional, celebrando a terceira dobradinha da sua história. Embalados pelo
triunfo, seguiram rumo a Madrid para
disputar a Taça Latina, prova na qual
participavam pela 3.ª vez.
A Direção decidiu que a viagem até
à capital espanhola seria feita de autocarro, com paragens e paisagens dignas
de histórias inesquecíveis. Para as relatar, o jornal do Clube escolheu o capitão
Francisco Calado, tarefa que este aceitou de imediato.
Logo nas primeiras linhas da sua
crónica, o jogador descreveu o primeiro
percalço: Ângelo e Bastos adormeceram e atrasaram a saída da comitiva
em uma hora. A partir daí, tudo parecia
correr bem. Entre conversas, jogos e
sestas, os atletas deixavam o tempo
passar.
Depois de um excelente almoço em
Mérida, um estrondo parou o autocarro:
“Começámos a apanhar as peças que se
tinham soltado do motor… partira-se
o bloco”. Um português salvou o dia: parou
o carro e deu boleia a dois dirigentes, que
foram em busca de um autocarro. Uma hora
depois, surgiram com o novo veículo. Apesar
de mais pequeno, servia para o propósito.
Os percalços fizeram com que a chegada, prevista para as 22 horas, acontecesse
perto das 3 da madrugada.
Os dias seguintes foram de preparação para a meia-final frente ao
campeão francês, o Saint-Étienne, e
visitas aos locais mais emblemáticos
da cidade. No hotel, a comitiva recebeu o apoio especial do cônsul português, Mário Duarte, antigo guarda-
-redes do Belenenses. Ele contou que
tinha assistido a um espetáculo de
Amália Rodrigues e garantiu que a
fadista estava esperançada na vitória
benfiquista, pedindo que transmitisse
à equipa o seu voto de confiança.
Resultou. O Benfica venceu
o Saint-Étienne por 1-0. Calado foi
o herói, ao marcar o único golo da
partida: num lance de contra-ataque,
e após ter progredido uns metros com
a bola, fez um remate de longe, batendo o guarda-redes do conjunto gaulês.
À noite, ele, Azevedo e Caiado
foram assistir ao concerto de Amália.
No final, quando o apresentaram
à fadista, referiram que tinha sido
o autor do golo da vitória. Amália não
hesitou: “Ó seu malandro, dê cá um
beijo.” Caiado aproveitou o momento
para se meter com o colega: “Já não
lavas a cara durante toda a vida.”
O jogador confessou que ficou vaidoso
com o gesto da fadista.
Quando o convidaram para escrever as crónicas da viagem, Calado não
imaginava que ele próprio seria o protagonista – dentro e fora de campo.
Saiba mais sobre o percurso deste fantástico
jogador na área 22 – De Águia ao Peito, do
Museu Benfica – Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica



