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terça-feira, 5 de maio de 2026

DAZN: F1 - Três, a conta que Kimi fez

Três heróis 'interrompidos'


"Ayrton Senna, Henri Toivonen e Alessandro Zanardi. Três destinos cruzados pela velocidade, pelo risco e pela tragédia. Mas é em Zanardi que a narrativa deixa de ser apenas sobre morte – e passa a ser, sobretudo, sobre a forma de viver

Há coincidências que não são apenas datas – são convites à memória. Entre 1 e 3 de maio, o desporto lembra três nomes que viveram no limite: Ayrton Senna, Henri Toivonen e Alessandro Zanardi. Três destinos cruzados pela velocidade, pelo risco e pela tragédia. Mas é em Zanardi que a narrativa deixa de ser apenas sobre morte – e passa a ser, sobretudo, sobre a forma de viver.
Senna e Toivonen representam o arquétipo clássico do herói interrompido: talento puro, carreiras brilhantes, vidas ceifadas no auge. Há neles uma dimensão quase mitológica – como se o desporto exigisse, por vezes, um preço demasiado alto pela grandeza. Zanardi, pelo contrário, desmonta essa lógica. A sua história não termina no acidente de 2001. Na verdade, começa aí.
Quando perdeu ambas as pernas num circuito alemão, seria expectável que o mundo o colocasse na prateleira das tragédias inspiradoras – aquelas que comovem por instantes e depois se desvanecem. Zanardi recusou esse papel. Não quis ser símbolo de pena, mas de ação. Reinventou-se no paraciclismo e, com uma naturalidade quase desconcertante, voltou a competir, a ganhar, a dominar. Quatro ouros paralímpicos não são apenas medalhas; são uma declaração de princípio: o limite não é imposto pelo corpo, mas negociado pela vontade.
Há algo profundamente desconfortável – e ao mesmo tempo admirável – na forma como Zanardi lidava com a adversidade. A frase recordada por Mario Andretti, sobre encomendar pernas novas e perguntar quão alto deveria ser, não é apenas humor. É uma filosofia. É a recusa em dramatizar o inevitável e a capacidade rara de reconfigurar a própria narrativa.
Mesmo o segundo acidente, em 2020, não apaga essa marca. Pelo contrário, reforça-a. Porque, ao contrário dos heróis que partem cedo demais, Zanardi obrigou-nos a acompanhar o processo – a luta, a fragilidade, a lenta degradação. E isso é mais difícil de romantizar. Mas talvez mais importante de compreender.
Numa era obcecada com resultados imediatos e sucesso visível, o exemplo de Zanardi é quase subversivo. Ele lembra-nos que a grandeza não está apenas em vencer quando tudo corre bem, mas em redefinir o que significa vencer quando tudo corre mal. Não é uma história de superação no sentido banal; é uma história de reconstrução contínua.
Entre Senna, Toivonen e Zanardi, há um fio comum: a coragem. Mas enquanto os dois primeiros a demonstraram no instante final, Zanardi fez dela um modo de vida prolongado. E isso muda tudo. Porque morrer no limite pode ser heróico – mas viver depois dele exige algo ainda mais raro.
Talvez seja essa a verdadeira lição destes dias de maio: não apenas recordar quem partiu, mas perceber como viveu. E, nesse campo, Alessandro Zanardi não deixou nada no depósito. Nem na pista, nem na vida."

O exemplo de Zanardi


"Morreu Alex Zanardi. Para todos aqueles que amam o desporto, é uma notícia triste. Zanardi encarnava tudo aquilo que o desporto tem de melhor! Foi um piloto de automobilismo e de Fórmula 1 de eleição contudo, em 2001, na sequência de um gravíssimo acidente, foi amputado em ambas as pernas. Apesar deste revés, Zanardi afirmou: “Após amputação das minhas pernas olhei para a parte com que fiquei, e não para a parte que perdi”.
Uma frase extraordinária, cheia de sentido e significado, que diz tudo de um verdadeiro campeão. É uma frase que cito bastantes vezes quando vou a escolas ou a clubes, dando o exemplo desportivo deste atleta, afirmando que com persistência e força de vontade tudo se consegue. Zanardi, na dificuldade descobriu uma oportunidade! Esta foi o paraciclismo, uma modalidade desportiva para deficientes, à qual se dedicou de corpo e alma.
Com 34 anos teve de reaprender quase tudo, na vida, como na nova modalidade desportiva que abraçou. O seu carácter e a sua determinação levaram-no a um novo Olimpo, conquistando quatro medalhas de ouro e duas de prata nos Jogos Paralímpicos de Londres e Rio de Janeiro. Zanardi, com o seu testemunho de vida, deixa-nos um legado, quer no desporto quer no âmbito da cidadania, cheio de valores como a determinação, o sacrifício, a tenacidade, o empenho, a persistência… e o mote: nunca devemos desistir.
Zanardi um verdadeiro exemplo!"

Paraguai: José Luis Chilavert, o guarda-redes goleador que cuspiu em Roberto Carlos e que Asprilla salvou da morte por sicários


"O mítico guarda-redes paraguaio, duas vezes mundialista, marcou 67 golos ao longo da carreira, de livre direto e penálti, e o seu pontapé era tão forte quanto a tendência para se meter em polémicas.

Os pés que andaram descalços até José Luis Chilavert fazer 7 anos foram os mesmos que, anos mais tarde, se fartaram de marcar golos. O que fica mais estranho quando todos sabemos que Chilavert, nascido há 60 anos em Luque, um subúrbio de Assunção, capital do Paraguai, ganhou a vida a ser guarda-redes, o melhor do mundo três vezes de acordo com a Federação Internacional da História e Estatísticas do Futebol.
Personagem de culto e polarizador como todas elas, Chilavert é um desses espécimes que recusou quintinhas. A linha de baliza nunca foi o seu único feudo e também gostava de balançar as redes alheias, fosse de penálti ou com os seus temíveis livres diretos, marcados com precisão e força. 
Ao longo da carreira foram 67 os golos marcados, oito deles pela seleção nacional do Paraguai, que representou em 74 ocasiões. Em 1999, tornou-se o primeiro guarda-redes a marcar um hat-trick, três penáltis ao Ferro Carril Oeste - até hoje, não há mais registos oficiais de tal feito de um guarda-redes. Anos antes, já na sua fase dourada no Vélez Sarsfield, onde ganhou a Libertadores e a Intercontinental, acertaria em cheio na baliza com um remate ainda dentro do seu meio-campo, a 60 metros de distância. O guardião rival era Germán Burgos, do River Plate, que voltaria a ser vítima de Chila num confronto de seleções, aquando de um jogo de qualificação para o Mundial 1998. Em ambos, Chilavert usava a sua mítica camisola adornada com uma cara de bulldog, uma metáfora para a sua personalidade aguerrida e sem desculpas.
Por vezes, até demasiado, diga-se.
O jeito para as bolas paradas, contou em 2003 numa entrevista à FIFA, não foi exatamente matéria de aptidão, mas sim de muito trabalho e repetição. Quando chegou à liga espanhola no final dos anos 80, para jogar no Saragoça, criticavam-lhe as saídas com a bola, gritavam-lhe para voltar para trás. Mas Chilavert sabia que podia ajudar a equipa com o seu tiro: “Ficava sempre no final dos treinos a bater livres, 80, 120 remates. Foi assim que melhorei.” Mas seria apenas no regresso à Argentina, onde já tinha representado o San Lorenzo e voltaria para jogar no Vélez, que a veia goleadora se tornaria decisiva.
Tanto essa como a veia para as polémicas. Em 2001, foi condenado a pena suspensa por agressão a um funcionário do Gimnasia La Plata ocorrida sete anos antes. No Mundial de 2002, o segundo em que representou o Paraguai, depois de 1998, não jogou na estreia da sua equipa. Estava ainda castigado depois de cuspir na cara de Roberto Carlos durante um encontro de qualificação. Tudo foi gravado em direto, em grande plano, enquanto o lateral dava uma entrevista rápida para a televisão - Chilavert justificou-se dizendo que o brasileiro lhe tinha chamado “índio”.
Numa entrevista já depois de deixar o futebol revelou que, quando chegou ao Estrasburgo, em França, em 2000, agrediu um colega, que seria o luso-francês Corentin Martins, depois deste lhe chamar “sudaca”, um termo depreciativo para pessoas da América do Sul.
Mais bizarra - e quase fatal - foi a história do dia em que, num jogo de qualificação para o Mundial 1998, em Assunção, Chilavert agrediu o colombiano Faustino Asprilla com um murro na cara depois de ambos terem sido expulsos. O avançado revelou anos mais tarde, num canal da TV colombiana, que nesse próprio dia recebeu uma chamada de um conhecido narcotraficante do país, antigo braço direito de Pablo Escobar, mostrando a sua disponibilidade para matar Chilavert por causa da agressão. Asprilla recusou a simpática oferta.
Estar vivo permitiu a José Luis Chilavert candidatar-se nas Presidenciais do Paraguai, em 2023, com uma plataforma conservadora, onde arrecadou menos de 1% dos votos. Sempre um crítico da classe política do seu país, o antigo guarda-redes recusou-se a participar na Copa América organizada pelo Paraguai em 1999, argumentando que o dinheiro seria mais bem investido na educação.
Educação que é coisa que nem sempre parece fazer parte do cânone de Chilavert por estes dias. Aos 60 anos, soma aparições nos jornais e rádios com declarações torpes e até discriminatórias. Em 2018, exigiu a expulsão do embaixador britânico no Paraguai depois deste opinar sobre um assunto de justiça do país. Pelo caminho, usou insultos homofóbicos. Mais recentemente têm-se atirado a Vinícius Jr., criticando o brasileiro por denunciar o racismo de que é alvo. No recente caso com Gianluca Prestianni, do Benfica, o discurso ignóbil atingiu também Kylian Mbappé. “Fala de valores e de tudo mais e depois vive com um travesti. Não é normal”, atirou na argentina Radio Rivadavia.
A sua razão teria César Luís Menotti, treinador campeão mundial pela Argentina em 1978, que algures nos anos 90, quando era treinador do Independiente e Chilavert jogava no Vélez, atirou a seguinte consideração: “O Chilavert deveria andar pelas escolas e pelas universidades para que os jovens saibam como era o homem há 40 milhões de anos. Primeiro veio o Chilavert, depois o macaco e depois o ser humano.”"