"Há quem esteja convencido de que o Torreense surgiu no Domingo passado. Mas não. Esteve ali o tempo todo. Não enterrado: semeado. Plantado na terra. À espera. Até que, como uma dessas velhas árvores que um dia acordam, começou a mexer-se
Há quem tenha ficado surpreendido com o que o Torreense fez no Domingo passado. “Inédito”, “incrível”, “inesperado”, etc., etc. Mas permitam-me: só se surpreendeu quem anda há demasiado tempo distraído. Se até Napoleão se vergou em Torres Vedras, qual é exactamente o espanto com a queda do Sporting? A conquista da Taça foi, tão-somente, o reerguer de um clube que esteve setenta anos à espera, com uma Taça atravessada na garganta.
Uma surpresa vem do nada. O Torreense vem da terra. Já sei no que estão a pensar. Mas não têm razão. Não se trata aqui de mais uma apologia sentimental do “clube da terra”; é antes a descrição literal de um clube feito dos pequenos montes, das encostas suaves e dos terrenos fertilíssimos da região saloia, como li algures sobre Torres Vedras.
Para compreender isto é preciso recuar ao princípio, ou quase. O princípio, neste caso, não é uma fotografia de onze bigodes. É o chão. O Estádio Manuel Marques foi erguido num antigo campo de semeadura. Sabiam? Eu também não. Mas sabia Luís Manuel Santana, o sócio número um, que o disse numa entrevista dada, em tempos, ao jornal do clube. O campo do Torreense, antes de ser para a bola, era para semear. Este texto podia acabar aqui.
O Torreense nasceu no lugar onde as coisas nascem. É possível imaginar melhor certidão de nascimento? A metáfora vem pronta a usar. Basta respeitá-la.
O Torreense tem dinheiro novo, claro. Ninguém chega à final da Taça e às portas da Primeira Divisão alimentado a saudade e a bifanas. Mas há dinheiro que se injecta e há dinheiro que irriga. Num clube assim, o dinheiro não poderia cair do céu; teria de subir do solo. Depois da aventura chinesa (há sempre uma aventura chinesa), o Torreense voltou a crescer com a ajuda do ecossistema empresarial local. Nuno José Feliciano de Carvalho, ligado à Agriloja, vem daí.
Até as cores concorrem. Hoje diz-se “azul-grená”. Como hoje se diz “Oeste”. Mas a região saloia fazia parte da Estremadura. E nos estatutos de 1950 estava escrito: “camisa vermelha, calções em azul-vivo e meias pretas com canhão vermelho.” Uma equipa que vem do lugar de onde os franceses bateram em retirada, vestida com as cores da libré da Casa de Bragança, que foram também as das tropas portuguesas e do partido legitimista? De D. Miguel? Desculpem, mas isto não se interpreta com prudência.
Depois de ter perdido a final de 1956 contra o FC Porto do azul-e-branco liberal, com um penálti roubado, podia uma equipa que regressa ao Jamor para pedir contas à história vestir outra coisa? Tinha de ser azul-grená.
Até ganhar ao Sporting vem daí. De um lugar longínquo. A primeira taça contra o Sporting foi contra a versão torreense do Sporting: uma taça de cristal, assente numa peanha de madeira. Em 1955/56, o Torreense foi a Alvalade vencer contra o Sporting a sério. E em 1991/92, na última época da equipa de Torres Vedras na Primeira Divisão, os de Lisboa vingar-se-iam com um golo de Luís Figo — o primeiro do futuro Bola de Ouro na Primeira Divisão — e outro de Cadete. O Sporting de Lisboa acabou por funcionar como a possibilidade nacional da rivalidade de província. O leão do Lumiar foi, para o Torreense, o testa-de-ferro do leão saloio.
E, por esta ordem de ideias, à falta de Benfica, o Torreense fez as vezes do Glorioso contra o Sporting. Como quando, no final dos anos 90, o Torreense eliminou o Porto da Taça, em plenas Antas. Lembram-se disso? Um jovem benfiquista perdedor, como o cronista que vos escreve, sentiu-se justificado. Foi uma loucura. O Porto fazia do futebol português a sua sala de estar. Havia cães de loiça e cheiro a bafio. Era o Porto do Penta, treinado por Fernando Santos. O mesmo que uns anos antes, ao serviço do Estoril, levara oito a um do Torreense. Oito. A um. Convém repetir para fixar.
Sem saber muito bem como, fui dar com um trabalho de escola sobre o Torreense, feito em 1998. Assinam “Viviana” e “Sandra”. Nas páginas finais, ao dar com aquela parte normalmente reservada a agradecimentos e apoios, vi ali uma espécie de Lei Fundamental do Reino: os Presidentes de Junta e os Vereadores, o Sr. João Camilo e o Sr. Manuel Candeias do jornal “Badaladas”, os professores, o Nelson e o Edgar, glórias do clube, “todos os amigos e turma de desporto”, e, claro, as empresas agrícolas da região.
Antes de tudo, o Torreense pertence ao chão. Ao solo. Em 1992, na celebração dos 75 anos do clube, houve Missa na Igreja de São Pedro e, depois, romagem ao túmulo de Luís Manuel Santana, o tal sócio número um. Romagem à raiz, melhor dito. Tudo o que interessa ser dito sobre o Torreense (e sobre futebol) disse-nos este homem, numa frase que vale por uma lápide e uma tarja para os Ultras levarem para todo o lado: “Aos desafios em Torres assisto sempre, até mesmo quando resolvo deixar-me disso.” A isto chama-se pertencer. Perdão: a isto chama-se estar plantado.
Há quem esteja convencido de que o Torreense surgiu no Domingo passado. Mas não. Esteve ali o tempo todo. Não enterrado: semeado. Plantado na terra. À espera. Até que, como uma dessas velhas árvores que um dia acordam, começou a mexer-se."


