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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Torreense, setenta anos debaixo de terra


"Há quem esteja convencido de que o Torreense surgiu no Domingo passado. Mas não. Esteve ali o tempo todo. Não enterrado: semeado. Plantado na terra. À espera. Até que, como uma dessas velhas árvores que um dia acordam, começou a mexer-se

Há quem tenha ficado surpreendido com o que o Torreense fez no Domingo passado. “Inédito”, “incrível”, “inesperado”, etc., etc. Mas permitam-me: só se surpreendeu quem anda há demasiado tempo distraído. Se até Napoleão se vergou em Torres Vedras, qual é exactamente o espanto com a queda do Sporting? A conquista da Taça foi, tão-somente, o reerguer de um clube que esteve setenta anos à espera, com uma Taça atravessada na garganta.
Uma surpresa vem do nada. O Torreense vem da terra. Já sei no que estão a pensar. Mas não têm razão. Não se trata aqui de mais uma apologia sentimental do “clube da terra”; é antes a descrição literal de um clube feito dos pequenos montes, das encostas suaves e dos terrenos fertilíssimos da região saloia, como li algures sobre Torres Vedras.
Para compreender isto é preciso recuar ao princípio, ou quase. O princípio, neste caso, não é uma fotografia de onze bigodes. É o chão. O Estádio Manuel Marques foi erguido num antigo campo de semeadura. Sabiam? Eu também não. Mas sabia Luís Manuel Santana, o sócio número um, que o disse numa entrevista dada, em tempos, ao jornal do clube. O campo do Torreense, antes de ser para a bola, era para semear. Este texto podia acabar aqui.
O Torreense nasceu no lugar onde as coisas nascem. É possível imaginar melhor certidão de nascimento? A metáfora vem pronta a usar. Basta respeitá-la. O Torreense tem dinheiro novo, claro. Ninguém chega à final da Taça e às portas da Primeira Divisão alimentado a saudade e a bifanas. Mas há dinheiro que se injecta e há dinheiro que irriga. Num clube assim, o dinheiro não poderia cair do céu; teria de subir do solo. Depois da aventura chinesa (há sempre uma aventura chinesa), o Torreense voltou a crescer com a ajuda do ecossistema empresarial local. Nuno José Feliciano de Carvalho, ligado à Agriloja, vem daí.
Até as cores concorrem. Hoje diz-se “azul-grená”. Como hoje se diz “Oeste”. Mas a região saloia fazia parte da Estremadura. E nos estatutos de 1950 estava escrito: “camisa vermelha, calções em azul-vivo e meias pretas com canhão vermelho.” Uma equipa que vem do lugar de onde os franceses bateram em retirada, vestida com as cores da libré da Casa de Bragança, que foram também as das tropas portuguesas e do partido legitimista? De D. Miguel? Desculpem, mas isto não se interpreta com prudência.
Depois de ter perdido a final de 1956 contra o FC Porto do azul-e-branco liberal, com um penálti roubado, podia uma equipa que regressa ao Jamor para pedir contas à história vestir outra coisa? Tinha de ser azul-grená.
Até ganhar ao Sporting vem daí. De um lugar longínquo. A primeira taça contra o Sporting foi contra a versão torreense do Sporting: uma taça de cristal, assente numa peanha de madeira. Em 1955/56, o Torreense foi a Alvalade vencer contra o Sporting a sério. E em 1991/92, na última época da equipa de Torres Vedras na Primeira Divisão, os de Lisboa vingar-se-iam com um golo de Luís Figo — o primeiro do futuro Bola de Ouro na Primeira Divisão — e outro de Cadete. O Sporting de Lisboa acabou por funcionar como a possibilidade nacional da rivalidade de província. O leão do Lumiar foi, para o Torreense, o testa-de-ferro do leão saloio.
E, por esta ordem de ideias, à falta de Benfica, o Torreense fez as vezes do Glorioso contra o Sporting. Como quando, no final dos anos 90, o Torreense eliminou o Porto da Taça, em plenas Antas. Lembram-se disso? Um jovem benfiquista perdedor, como o cronista que vos escreve, sentiu-se justificado. Foi uma loucura. O Porto fazia do futebol português a sua sala de estar. Havia cães de loiça e cheiro a bafio. Era o Porto do Penta, treinado por Fernando Santos. O mesmo que uns anos antes, ao serviço do Estoril, levara oito a um do Torreense. Oito. A um. Convém repetir para fixar.
Sem saber muito bem como, fui dar com um trabalho de escola sobre o Torreense, feito em 1998. Assinam “Viviana” e “Sandra”. Nas páginas finais, ao dar com aquela parte normalmente reservada a agradecimentos e apoios, vi ali uma espécie de Lei Fundamental do Reino: os Presidentes de Junta e os Vereadores, o Sr. João Camilo e o Sr. Manuel Candeias do jornal “Badaladas”, os professores, o Nelson e o Edgar, glórias do clube, “todos os amigos e turma de desporto”, e, claro, as empresas agrícolas da região.
Antes de tudo, o Torreense pertence ao chão. Ao solo. Em 1992, na celebração dos 75 anos do clube, houve Missa na Igreja de São Pedro e, depois, romagem ao túmulo de Luís Manuel Santana, o tal sócio número um. Romagem à raiz, melhor dito. Tudo o que interessa ser dito sobre o Torreense (e sobre futebol) disse-nos este homem, numa frase que vale por uma lápide e uma tarja para os Ultras levarem para todo o lado: “Aos desafios em Torres assisto sempre, até mesmo quando resolvo deixar-me disso.” A isto chama-se pertencer. Perdão: a isto chama-se estar plantado.
Há quem esteja convencido de que o Torreense surgiu no Domingo passado. Mas não. Esteve ali o tempo todo. Não enterrado: semeado. Plantado na terra. À espera. Até que, como uma dessas velhas árvores que um dia acordam, começou a mexer-se."

Nem com muito dinheiro se quer Inglaterra: o fator vida que pesou mais que os milhões na saída de Bernardo Silva


"O dinheiro compra muita coisa no futebol moderno, resulta em títulos, infraestruturas e os melhores plantéis do planeta, mas continua sem conseguir comprar o sol, a proximidade da família e a leveza do estilo de vida mediterrânico. A saída oficial de Bernardo Silva do Manchester City, consumada este fim de semana, é o reflexo perfeito de que, para as grandes estrelas do futebol, os contratos milionários da Premier League já não bastam quando a balança pessoal exige outra qualidade de vida.
Aos 31 anos, o internacional português despediu-se em lágrimas do Etihad Stadium após nove épocas de uma hegemonia incontestável sob o comando de Pep Guardiola. Contudo, o adeus não foi motivado por divergências financeiras ou falta de espaço na equipa. Bernardo saiu porque, simplesmente, cansou-se de Inglaterra.

O peso do quotidiano britânico
Não é segredo para ninguém que a adaptação ao clima cinzento e à cultura do norte de Inglaterra sempre foi um desafio para o jogador e para a sua família. Em declarações recentes, o camisola 20 assumiu que o fator cultural e o quotidiano pesaram de forma decisiva na sua escolha.
Para quem cresceu à beira-mar em Lisboa e viveu no Mónaco, a rotina de Manchester, marcada por invernos rigorosos e dias curtos, fora o que não foi dito, tornou-se um preço demasiado alto a pagar, independentemente do salário astronómico que o City estivesse disposto a oferecer para renovar o vínculo que termina a 30 de junho. Bernardo optou por cumprir o contrato até ao fim precisamente para ter o destino nas suas próprias mãos, rejeitando a opulência britânica em busca de um quotidiano mais quente e familiar na Península Ibérica.

A última oportunidade de mudar
"É a minha última oportunidade de ter um desafio e algo diferente", confessou o atleta à imprensa, revelando que esta decisão já estava tomada na sua cabeça há dois anos. Mais do que fugir da chuva de Manchester, Bernardo Silva procura novas motivações desportivas numa liga que se enquadre melhor no seu estilo de vida ideal.
Com o Atlético de Madrid na linha da frente para garantir os seus serviços a custo zero, o destino do craque português parece firmemente traçado em direção à capital espanhola. Em Madrid, Bernardo encontrará a competitividade ao mais alto nível europeu que tanto exige, mas com o bónus de viver num país com raízes, clima e gastronomia muito mais próximos do seu Portugal natal. No braço de ferro entre os milhões da liga mais poderosa do mundo e o bem-estar pessoal, Bernardo Silva provou que há coisas que o dinheiro de Abu Dhabi não consegue comprar. A Premier League perde uma das suas maiores lendas para o "modo de vida" do sul da Europa.
Esta decisão de Bernardo Silva espelha um fenómeno psicológico contemporâneo em que o sucesso financeiro e o estatuto profissional já não anulam o desgaste de um quotidiano cinzento e culturalmente distante, algo que ganha ainda mais força num mundo globalizado onde a saúde mental e o bem-estar pessoal foram redefinidos como o verdadeiro luxo. Curiosamente, este movimento do craque português faz o caminho inverso, mas partilha exatamente dos mesmos motivos, de uma tendência migratória crescente: a de cidadãos britânicos que optam por deixar o Reino Unido e escolher Portugal como refúgio de vida. Procurando escapar ao stresse urbano, ao clima rigoroso e ao custo de vida sufocante das cidades inglesas, estes imigrantes procuram em solo luso a segurança, o ritmo desacelerado, o sol e a hospitalidade que a riqueza material da Premier League ou o dinamismo financeiro de Londres simplesmente não conseguem oferecer, provando que a verdadeira qualidade de vida se mede pela harmonia entre o corpo, a mente e o ambiente que nos rodeia."

Jordânia: Amer Shafi, o guarda-redes irascível que marcou de baliza a baliza


"Em 2011 agrediu um árbitro e ficou um ano sem jogar. Sete anos depois marcou um daqueles golos impossíveis, de ponta a outra do campo. As emoções, assume, por vezes apoderaram-se de si em demasia. Amer Shafi está nas listas dos melhores guarda-redes de sempre da Ásia, mas faltou-lhe levar a sua seleção ao Mundial - a nova geração fê-lo agora. Olhando para os dados de Amer Shafi na seleção nacional da Jordânia, há um incomum pormenor. A seguir ao 171, já de si um impressionante número de internacionalizações pela seleção asiática, que neste 2026 fará a estreia em Mundiais, surge um “1”. De golos.
É incomum ver ali um “1” porque Shafi foi guarda-redes e os guarda-redes, salvo raras exceções, não costumam marcar golos. Shafi não era bom a marcar livres e penáltis, como Chilavert ou Rogério Ceni, nem foi à área em horas extraordinárias tentar um golo salvador para a sua equipa, como Trubin, por exemplo, esta temporada na Liga dos Campeões frente ao Real Madrid.
O golo de Shafi aconteceu aos 25 minutos de um encontro de preparação frente à Índia, em 2018. Shafi viu o guardião rival ligeiramente adiantado lá do outro lado do campo e aqui vai disto: o chuto bateu à entrada da área e o ressalto transformou-se num chapéu perfeito a um desamparado Gurpreet Singh Sandhu.
Não se vê todos os dias um golo de baliza a baliza, convenhamos.
O número 1, diga-se, é ubíquo na carreira de Amer Shafi: não só foi com ele nas costas que se tornou no mais internacional de sempre pela Jordânia, como foi o número de anos que esteve suspenso, 12 meses inteirinhos, depois de agredir um árbitro em pleno jogo da liga jordana, em 2011. Talvez um perfil publicado em 2015 pelo Comité Olímpico da Jordânia tenha encontrado a definição perfeita de um homem feito das suas próprias contradições: “Às vezes sem rodeios, quase sempre controverso, mas sempre brilhante.” 
Nascido em Amã há 44 anos, Amer Shafi até começou como jogador de campo no Al-Yarmouk, antes de encontrar o seu pouso natural na baliza. Relativamente baixo para a posição (1,83m), cedo se destacou pelas defesas acrobáticas, cheias de reflexos e agilidade, com uma atitude e presença forte não só entre os postes mas também como líder na seleção e no Al-Wehdat, clube que representou durante onze temporadas.
Figura de proa da seleção durante quase duas décadas - a primeira internacionalização aconteceu em 2002 e o adeus em 2021 -, Shafi, conhecido por “A Baleia”, esteve na Taça da Ásia de 2004, 2011, 2015 e 2019 e não ficou longe de conseguir o que a nova geração jordana finalmente logrou em 2026: a qualificação para um inédito Mundial. Depois de uma memorável exibição frente ao Usbequistão - curiosamente, outro dos estreantes em 2026 -, a Jordânia ficou a apenas uma eliminatória do Mundial do Brasil 2014, perdendo com o Uruguai no derradeiro play-off.
Só o nascimento dos filhos, diria mais tarde, suplantou a alegria de estar tão perto de fazer história pelo seu país.

A Europa que nunca chegou
Respeitado e admirado na Ásia, frequentemente presente nas listas de melhores guarda-redes de sempre do seu continente, Shafi nunca teve, no entanto, oportunidade de jogar na Europa, pontuando períodos no Egito e Arábia Saudita com uma carreira que se fez quase exclusivamente no seu país.
“Houve interesse [da Europa] ao longo da minha carreira, mas nunca se materializou”, confessou em 2015, culpando a falta de “agentes profissionais” de futebolistas na Jordânia como fator decisivo para o deserto de propostas concretas.
Talvez o seu temperamento, que nem sempre lhe permitia manter a calma em campo, não tenha ajudado. Shafi era tão lesto a sair a bolas como a barafustar com árbitros. Até ao dia em que agrediu um. “Eu adoro este desporto e sou mesmo muito apaixonado por futebol, pela minha equipa e pelos meus colegas e isso às vezes leva a melhor sobre mim e mete-me em problemas quando eu sinto que há uma injustiça a acontecer”, sublinhou nesse perfil escrevinhado pelo Comité Olímpico jordano, onde se assumiu fã de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi."