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quarta-feira, 15 de julho de 2026

E afinal que portugueses ficam no Mundial até ao fim?


"Estão nas meias-finais do Mundial as quatro melhores seleções — mesmo — e... já agora os 13 melhores árbitros. Um deles é português, embora isso pouco nos orgulhe por cá

Entramos na reta final do 23.º Campeonato do Mundo com a reconfortante sensação de que chegam à fase decisiva as quatro melhores equipas quer do torneio quer da atualidade. Claro que os oitavos de final souberam a pouco aos portugueses, mas patriotismos e preferências à parte será difícil não interpretar o naipe de semifinalistas com uma sensação de justiça apurada. França, Espanha, Argentina e Inglaterra são mesmo as melhores seleções do Mundo nos dias que correm.
Brasil e Alemanha, os outros colossos eliminados, pouco mostraram que justificasse outro fim. Percorrido o mapa de eternos favoritos (e tendo em conta que a Itália não veio sequer a jogo), importa olhar para a segunda linha de candidatos.
Sobre Portugal, que até eliminou a Croácia, há pouco a acrescentar. A Bélgica e os Países Baixos foram mais ou menos iguais a si próprios, ou ao que têm sido nos últimos anos, e o Uruguai há muito que saiu deste lote
Do lado das boas surpresas temos Cabo Verde (à sua escala, que nos nossos afetos é maior e ainda bem), Estados Unidos, Marrocos, Suíça e Noruega.
Se pensarmos que a Suíça, de 2016 para cá e falando de Europeus e Mundiais (a Liga das Nações é uma coisa muito portuguesa, ainda), fez o mesmo que Portugal nas fases finais, sobra então a Noruega como melhor não-semifinalista deste torneio. De longe, diria.
Mas o futebol do Mundial não são só as seleções e aí Portugal tem um motivo de orgulho ao qual liga pouco e se for preciso ainda despreza: neste momento, João Pinheiro e os assistentes Bruno Jesus e Luciano Maia são os únicos portugueses que ainda podem sonhar com a final.
Ao que se sabe é improvável tal acontecer, mas estar entre os 13 árbitros que ficam até ao fim, sendo que oito serão nomeados para os quatro jogos (árbitro e quarto árbitro), é proeza à qual estamos a dar muito pouca importância.
Chamado como árbitro principal para três jogos até ao momento (mais um como quarto árbitro), teve decisões de risco para tomar e tomou-as todas de forma correta, com ajuda do VAR.
Podem contestar-se as regras e os protocolos (eu também tenho um fraquinho nostálgico pelo futebol sem VAR, confesso), mas questionar o que é óbvio perante a tecnologia e as normas existentes não é, de todo, sensato.
João Pinheiro e a respetiva equipa devem orgulhar Portugal, sim. Mesmo que nos preparemos para mais um ano inteiro a dizer mal deles e dos colegas todos, na maioria das vezes como justificação fácil para insucessos e grãos de areia para os olhos dos adeptos."

Há aí algum abraço para Sorloth?


"O futebol é feito de ‘ses’, mas nenhum deles fica para a história, por maior que seja. Não há realidades alternativas, apenas uma, ainda que possa ser formada por várias versões. No intervalo de todas elas, estão os factos, o que deve continuar a ser contado de geração a geração, ainda que com liberdade criativa. Porque é nessa dimensão que habitam os heróis e nós, sem eles, demoramos mais tempo a conseguir ser melhores humanos.
No Noruega-Inglaterra, mais do que o bis de Bellingham ou o erro de Nyland, expiado com quem mais interessa, mulher e filhos, naquele abraço coletivo em que cada um segurava o próximo para que não caísse ao abismo, o que permanece é a encruzilhada em que Sorloth se despistou. Porque aquele «o que seria se tivesse passado a Haaland, e este feito o 2-0?» ecoou depois a cada rugido dos Três Leões até ao final.
E nós até os protegemos. Se fosse um médio, nada seria mais imperdoável, mas um avançado, que se alimenta dos golos que marca, já tem direito a uma dose considerável de egoísmo. É verdade que a decisão pode ser trabalhada, mas quem decide é quem tem a oportunidade. Um treinador pode escolher o jogador que decide sempre bem e, ainda assim, num jogo, este pode errar.
Sorloth engasgou-se nessa fome num 1x1 forçado, em que O’Reilly só teve de apostar no mais provável. Fechou-lhe o melhor pé e a jogada perdeu-se.
Há quem culpe os dois pontas de lanças em simultâneo. A tal teoria do egocentrismo. Em superioridade, no 2 para 1, Sorloth apostou em si. Ainda não tinha marcado no Mundial, não conseguia lidar com mais dias de ressaca. Todavia, pode não ter sido só isso. Será que o gigante não congelou e se embrulhou na solenidade do momento?
Onde ao lixo da humanidade é permitido sê-lo sem restrições, sucederam-se ameaças e insultos. Ninguém lhe ofereceu um abraço que o sustente sobre o próprio abismo. Sorloth pareceu demasiado egoísta para tê-lo realmente sido."

Os heróis do Mundial


"Um guarda-redes que faz um arquipélago sonhar; um treinador que usa o microfone para não deixar esquecer um genocídio; um mago da bola que combate o racismo sem hesitações. Os heróis de um Mundial nem sempre são os que levam a taça. Às vezes são os que lembram as bancadas de que o futebol continua ligado à vida real e que a maior competição do planeta não serve só para marcar golos.
Vozinha - pequeno no nome, gigante nas redes. Espantou o Mundo e pôs metade dele a torcer por Cabo Verde. Levou um país de meio milhão de habitantes agarrado às luvas e, contrariando todas as probabilidades, defendeu o orgulho nacional como Cesária Évora ou Amílcar Cabral. O nome que tem nas costas vem do tempo em que era menino e levava pancada dos rapazes mais velhos no futebol de rua. Ia de cara trancada de volta para a casa da avó que o criou quando as coisas não lhe corriam bem. Os outros riam-se do mau perder. "Vai lá ter com a avozinha", diziam. E assim ficou: Vozinha. Passaram quase 40 anos desde esses tempos na ilha de São Vicente e hoje a dona Maria já cá não está, mas o resto do Mundo esteve na vez dela. Vozinha não é o rosto da Adidas, não promove casas de apostas, não faz publicidade à Linic nem tem encontros na Casa Branca. Não leva o estilo de vida estratosférico dos ídolos milionários do mundo da bola. É só um homem comum com mãos firmes, que ajudou a seleção que representa a chegar onde nunca antes tinha chegado.
Hossam Hassan - técnico de coragem. Conseguiu interromper o ruído do futebol para lembrar um silêncio ensurdecedor. Enquanto os outros treinadores falavam de esquemas táticos, lesões ou arbitragens, o selecionador do Egito aproveitou os holofotes das conferências de Imprensa para lembrar o horror de Gaza. Não pediu penáltis, pediu humanidade. Não reclamou tempo de compensação, reclamou tempo para olhar para quem continua a viver entre bombas. "Eu imploro, deixem o povo palestiniano viver! É só isso que eles querem", disse antes de defrontar a Argentina. Sabe que o futebol não trava uma guerra, mas também sabe que um Mundial oferece um palco para se ser visto. Ele preferiu ser ouvido.
Kylian Mbappé - craque dentro e fora de campo. Após a derrota do Paraguai para a seleção francesa, a senadora Celeste Amarilla fez um chorrilho de comentários racistas sobre a origem e educação do jogador francês. Chamou-o de "camaronês colonizado" e insinuou que havia crescido na selva, rodeado por macacos. Sem surpresas, Mbappé foi capitão fora das quatro linhas e virou o jogo, apontando o lado da vergonha, da indignidade e do "racismo descarado". "É indigna do seu cargo. Não representa o Paraguai, que demonstrou paixão e honra ao longo de toda a competição", respondeu.
Os campeões escrevem a história do futebol. Os heróis escrevem a história das pessoas."

BolaTV: Dias de Mundial...

Jogo Pelo Jogo - S03E49 - Jorge Jesus: Ronaldo finish?

No Princípio Era a Bola - A Espanha nunca foi tão chateada como vai ser pela França. E esqueçam, o Inglaterra-Argentina é mais do que futebol

Angra: Mundial #11

Throne: How Jorge Jesus Changed Flamengo Forever: The Story Behind the Glory

AA9: Will Jorge Jesus Take Cristiano Ronaldo To EURO 2028?

ESPN: Futebol no Mundo #608

Renascença: Jogos Sem Fronteira - França x Espanha

FIFA: Argentina...

Vamos a isto!


"1. Terminou sem glória a expedição da equipa da Federação Portuguesa e Futebol ao Mundial de futebol. Uma fase de grupos cumprida burocraticamente, um mata-mata com a Croácia em que a seleção foi quase sempre inferior ao adversário tendo a seu favor a sorte do jogo, a simpatia do VAR que anulou três golos aos croatas e, por fim, a cabeça de Gonçalo Ramos para tudo se acabar na segunda-feira, frente aos espanhóis, tal como era de esperar.

2. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol já tratou de se desresponsabilizar. Fê-lo rapidamente atirando para Fernando Gomes, o seu antecessor, os créditos pela contratação de Roberto Martínez. “Quando assumimos a FPF, tínhamos plena consciência de que esta não era a nossa opção”, disse com aquele oportunismo que o caracteriza.

3. Realmente foi um grande azar para Pedro Proença a vitória de há um ano na Liga das Nações que impediu o despedimento do selecionador nacional Martínez tal como estava programada. Mas o presidente da FPF não é o sujeito mais azarado destas digressões da seleção nacional, façamos-lhe justiça, até porque Proença tem, cá por casa, imensas coisas com que se preocupar, como, por exemplo, o que fazer com aquele árbitro-mentiroso que vicia relatórios e que vem atuando sem vergonha na Liga principal do nosso futebol.

4. Voltemos ao sujeito mais azarado das comitivas nacionais. Trata-se de Gonçalo Ramos, um jogador formado no Benfica, normalmente convocado para as aventuras da seleção. Estreou-se no Mundial do Catar fazendo um hat-trick contra a Suíça e foi logo substituído não fosse atrever-se a fazer um póquer. Depois desse desaforo nunca foi um jogador regularmente titular na seleção.

5. Quando joga, marca, é verdade. Leva 11 golos em 1031 minutos distribuídos por 27 presenças na seleção. Sem penáltis. Este Ramos é um perigo. É tão perigoso que não pode ser titular da seleção. É este o seu azar. E o nosso, claro.

6. Vamos, então, ao que interessa, o Sport Lisboa e Benfica e às suas atualidades. Neste defeso, por exemplo, mudou-se de treinador. Saiu José Mourinho a troco de 15 milhões de euros e entrou Marco Silva, a quem não haverá um único benfiquista que não deseje as maiores felicidades. Neste momento, o Benfica tem três jogadores no Mundial. Andreas Schjelderup e Fredrik Aursnes ao serviço da Noruega e Dodi Lukebakio ao serviço da Bélgica. Boa sorte a todos!

7. O primeiro jogo não-oficial da temporada aberto ao público é um Benfica-Flamengo no Algarve. É uma bela maneira de arrancar na temporada de 2026/27. Vamos a isto!"

Leonor Pinhão, in O Benfica

Um adeus expectável


"A equipa sénior masculina da Federação Portuguesa de Futebol encerrou a sua participação no Mundial 2026. Perdeu com a Espanha e tudo está dentro da normalidade. As exibições nos jogos disputados em Houston, Miami e Toronto não deixaram grandes dúvidas: um grupo de bons jogadores não faz uma equipa.
Faltou quase tudo em campo, sobrando sempre muito fora dele – entrevistas, reels, praia, fait divers e excesso de confiança. Após a primeira ronda de jogos, percebeu-se bem quem tinha unhas para tocar guitarra. Quem eram os treinadores que recorriam a todo o plantel e quem estava sem ideias. Roberto Martínez sai do cargo e também está tudo dentro da normalidade. A ver se o próximo selecionador vai à manicure antes de entrar ao serviço, porque a guitarra anda desafinada e há ali cordas que precisam de ser usadas. Já chega da cantilena de dois acordes com que fomos brindados nos últimos anos. Dizem que o próximo homem do leme virá do desemprego, depois de umas temporadas na Arábia Saudita. É só uma questão de tempo para se perceber se Bernardo Silva vai ser convocado para lateral-direito.
Enquanto quase todas as equipas que demonstraram qualidade seguem em competição (um abraço aos incríveis cabo-verdianos que ficaram pelo caminho), o foco já se vai alterando. O Sport Lisboa e Benfica voltou ao trabalho e prepara-se para estrear a versão Marco Silva frente ao Flamengo, neste sábado às 19:30, no Algarve. No fundo, é só isso que importa e é só disso que estamos todos à espera. Sim, é um início de época prematuro, mas pelo menos que sirva para termos as alegrias que o Mundial 2026 não permitiu."

Ricardo Santos, in O Benfica

The End


"Um fabuloso filme de Billy Wilder, realizado em 1950 e chamado “Sunset Boulevard”/“O Crepúsculo dos Deuses”, mostra-nos uma antiga estrela do cinema mudo (representada magistralmente por Gloria Swanson, ela própria oriunda desse período), que vive em isolamento e entra numa espiral de decadência por se recusar a aceitar sair do seu próprio passado.
Lembrei-me várias vezes deste filme durante o Mundial, ao ver uma antiga estrela arrastar-se em campo, sem perceber que o seu tempo acabou, sem saber sair de cena, e sem que ninguém, a bem ou a mal, o consiga convencer da realidade.
Cristiano Ronaldo foi um dos melhores futebolistas de sempre. É, seguramente, o cidadão português mais conhecido em todo o mundo. Arrasta consigo multidões de fãs (não necessariamente verdadeiros adeptos de futebol), vende camisolas, dá audiências, faz girar dinheiro, ou seja, tudo o que nos dias de hoje acontece com uma celebridade de âmbito global.
Talvez essa bolha mediática, essa fama desmedida, ou a natural bajulação dos que lhe são mais próximos (e ainda alguns golos que vai conseguindo no meio de defesas sauditas), não lhe permitam perceber que, aos 41 anos, já não é o melhor jogador do mundo, já não é sequer um dos melhores, e só com boa vontade podia caber, ainda, nos convocados de uma selecção como a portuguesa. E Roberto Martinez revelou absoluta incompetência na gestão do tema, comprando artificialmente uma paz podre que levou a equipa portuguesa e ele próprio a caírem com estrondo. Sem perdão, atendendo a que Portugal se apresentava, neste momento, com um dos melhores plantéis da sua história, e com legítimas ambições de alcançar um título mundial.
Ver Portugal perder é sempre doloroso. Quando percebemos que o motivo da derrota podia ter sido evitado, a dor transforma-se em indignação."

Luís Fialho, in O Benfica

Pertencer


"Pertencer a uma comunidade é fazer parte, contribuir, ser alguém. Não é coisa pouca ser respeitado e reconhecido pelos que nos rodeiam e que connosco partilham o espaço urbano. É certo que as relações de vizinhança são cada vez mais difusas, mas nos bairros sociais mantêm uma força especial, ligando famílias e vizinhos numa vivência do espaço público mais intensa do que noutras áreas urbanas. Por isso, os jovens interagem mais entre si e tendem a construir a sua socialização sobretudo nesse contexto, o que pode limitar o contacto com outras realidades e contribuir para alguma segregação no uso do espaço comum. Ninguém beneficia de bairros disfuncionais ou limitadores da vida comunitária. Pelo contrário, os desafios socioeconómicos atuais tornam ainda mais importante a existência de solidariedades vicinais, familiares e intergeracionais. E a contribuição de todos para o bem comum é determinante. Por isso há que promover um espaço público adequado à convivência positiva e dinamizar a vida comunitária para que todos possam viver em harmonia. Viver em família e pensar em comunidade são condições essenciais para uma vida equilibrada. Embora se fale frequentemente do afastamento dos jovens das suas comunidades, a realidade é mais complexa. Na maioria dos casos, não falta vontade de participar, faltam oportunidades, estímulos e formas eficazes de concretizar essa participação. É aqui que a inovação social assume um papel decisivo, tal como todas as ferramentas capazes de comunicar com os jovens, motivando-os para a reflexão e para a ação. Nesse contexto, o futebol tem um poder único. E quando esse poder se junta ao prestígio dos seus protagonistas e ao compromisso social do Benfica, os resultados fazem-se sentir. É o que acontece há vários anos através de uma parceria feliz entre a Fundação Benfica e a Gebalis, que já produziu muitos e bons resultados na cidade de Lisboa.
Por tudo isto levámos os vencedores da liga Community Champions à ilha da Madeira e, ao mesmo tempo que lhes proporcionamos justo prêmio, demonstramos localmente o interesse e potencial deste projeto para que possa o mesmo ser reproduzido. Fica o desafio!"

Jorge Miranda, in O Benfica