"Um guarda-redes que faz um arquipélago sonhar; um treinador que usa o microfone para não deixar esquecer um genocídio; um mago da bola que combate o racismo sem hesitações. Os heróis de um Mundial nem sempre são os que levam a taça. Às vezes são os que lembram as bancadas de que o futebol continua ligado à vida real e que a maior competição do planeta não serve só para marcar golos.
Vozinha - pequeno no nome, gigante nas redes. Espantou o Mundo e pôs metade dele a torcer por Cabo Verde. Levou um país de meio milhão de habitantes agarrado às luvas e, contrariando todas as probabilidades, defendeu o orgulho nacional como Cesária Évora ou Amílcar Cabral. O nome que tem nas costas vem do tempo em que era menino e levava pancada dos rapazes mais velhos no futebol de rua. Ia de cara trancada de volta para a casa da avó que o criou quando as coisas não lhe corriam bem. Os outros riam-se do mau perder. "Vai lá ter com a avozinha", diziam. E assim ficou: Vozinha. Passaram quase 40 anos desde esses tempos na ilha de São Vicente e hoje a dona Maria já cá não está, mas o resto do Mundo esteve na vez dela. Vozinha não é o rosto da Adidas, não promove casas de apostas, não faz publicidade à Linic nem tem encontros na Casa Branca. Não leva o estilo de vida estratosférico dos ídolos milionários do mundo da bola. É só um homem comum com mãos firmes, que ajudou a seleção que representa a chegar onde nunca antes tinha chegado.
Hossam Hassan - técnico de coragem. Conseguiu interromper o ruído do futebol para lembrar um silêncio ensurdecedor. Enquanto os outros treinadores falavam de esquemas táticos, lesões ou arbitragens, o selecionador do Egito aproveitou os holofotes das conferências de Imprensa para lembrar o horror de Gaza. Não pediu penáltis, pediu humanidade. Não reclamou tempo de compensação, reclamou tempo para olhar para quem continua a viver entre bombas. "Eu imploro, deixem o povo palestiniano viver! É só isso que eles querem", disse antes de defrontar a Argentina. Sabe que o futebol não trava uma guerra, mas também sabe que um Mundial oferece um palco para se ser visto. Ele preferiu ser ouvido.
Kylian Mbappé - craque dentro e fora de campo. Após a derrota do Paraguai para a seleção francesa, a senadora Celeste Amarilla fez um chorrilho de comentários racistas sobre a origem e educação do jogador francês. Chamou-o de "camaronês colonizado" e insinuou que havia crescido na selva, rodeado por macacos. Sem surpresas, Mbappé foi capitão fora das quatro linhas e virou o jogo, apontando o lado da vergonha, da indignidade e do "racismo descarado". "É indigna do seu cargo. Não representa o Paraguai, que demonstrou paixão e honra ao longo de toda a competição", respondeu.
Os campeões escrevem a história do futebol. Os heróis escrevem a história das pessoas."

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