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sexta-feira, 10 de abril de 2026
«Ai, aaaaaaai, vou dizer à professora...»
"Nas décadas pós-Revolução havia nas salas de aula, nos recreios e nas ruas uma série de personagens-tipo: a gira, o engatatão, o caixa de óculos, o gordo, o dono da bola, o atleta, o mariquinhas, a sonsa, o menino da mamã, o bufo, a graxista, o queixinhas, o preto e até o chinoca.
Passaram os anos e foi com satisfação que me vi pai de duas ex-crianças que não foram estigmatizadas na escola por usarem óculos. E nunca lhes ouvi, nem aos amigos, expressões discriminatórias.
É com redobrada estranheza, portanto, que constato a existência — e a boa saúde — de uma das tipologias: o queixinhas. Está vivo e recomenda-se entre os principais clubes do futebol português.
De chorar por mais
Em exclusivo a A BOLA, Rui Costa disse muito sobre a necessidade de entendimento entre clubes.
No ponto
Estudo sobre mulheres no dirigismo deixa bons sinais, mas há muito caminho para fazer rumo à igualdade.
Insosso
As hipotéticas dispensas do Benfica não dizem muito bem sobre a preparação da temporada, com ou sem Mourinho.
Incomestível
Enzo Fernández parece ter tanto de bom jogador como de desrespeitador dos clubes que lhe pagam ordenados de rei."
Ibracadabra
"«Abracadabra» é uma palavra tradicionalmente ligada à magia. Algo surpreendente, quase sobrenatural. Ao transformar essa palavra em «Ibracadabra», essa associação vai muito além da fonética. Zlatan construiu ao longo da carreira uma persona muito particular. Confiança no limite, quase teatral, frequentemente descrevendo-se como alguém único e superior. Essa autoconfiança, somada ao seu estilo de jogo irreverente e belo, alimenta a ideia de algo mágico. O ponta-de-lança sueco marcou golos altamente improváveis. Remates acrobáticos, golos de longa distância, bicicletas quase impossíveis e lances de pura criatividade que parecem surgir do nada, como quem faz um belo truque de ilusionismo. Uma espécie de «Ibracadabra».
Para mim, Zlatan Ibrahimovic nunca foi apenas um jogador. Foi uma inspiração crua, imperfeita e, ao mesmo tempo, fascinante. Fui crescendo a vê-lo fazer coisas que pareciam desafiar não só os adversários, mas também a lógica. Enquanto muitos aprendiam o futebol de forma metódica, quase previsível, Zlatan parecia inventá-lo a cada toque na bola. E isso, para um jovem a jogar com os seus amigos, era tudo.
Lembro-me de tentar imitar os seus movimentos, aqueles dribles improváveis, as receções quase impossíveis, os remates de ângulo apertado, as acrobacias que mais pareciam cenas vindas diretamente do «Karate Kid». Zlatan jogava com uma confiança quase arrogante. E, durante muito tempo, essa arrogância foi incompreendida. Mas para quem o admirava, ela tinha outro significado. Não era apenas ego, era crença absoluta em si próprio, mesmo depois de sofrer bullying e de ser muitas vezes achincalhado durante a adolescência, ele resistiu.
Num mundo onde tantos jogadores parecem moldados para não errar, ele destacava-se precisamente por não ter medo de tentar o impossível. E, de vez em quando, fazia mesmo acontecer. E nesses momentos, o futebol tornava-se arte.
Dia 14 de novembro de 2012, na Friends Arena, há um jogo para ser contado aos filhos e aos netos. Suécia-Inglaterra. 4-2. Todos os golos da seleção sueca foram marcados por Zlatan, mas o seu pontapé de bicicleta a 40 metros da baliza defendida por Joe Hart, é das coisas mais bonitas que já vi dentro de um campo de futebol. Inventem outra palavra, pois isto não pode ser apenas um golo. Para ver e rever. Quantas vezes quiser.
Quando jogávamos nos pelados ou nos sintéticos, com o nosso amor puro pelo futebol, todos queríamos marcar golos bonitos. Mas, no fundo, o que queríamos mesmo era sentir, nem que fosse por um segundo, aquela confiança inabalável. Aquela sensação de que, independentemente do adversário ou da dificuldade, tudo era possível. Zlatan ensinou-me, sem nunca saber, que tudo está dentro de ti e de que a confiança é um fator altamente diferenciador.
Zlatan sempre foi fiel a si próprio, sem filtros, sem concessões. Não se trata apenas dos golos impossíveis ou das jogadas espetaculares. Trata-se da forma como nos fez sentir. Da forma como fez tantos miúdos acreditarem que o futebol podia ser mais do que um jogo. Podia ser criatividade e ousadia, algo que faz muita falta ao futebol atual.
Há, de facto, jogadores que passam pelo futebol como grandes profissionais. Outros deixam números, títulos, sangue, suor e estatísticas impressionantes. E depois há aqueles raros que se tornam histórias lendárias, quase personagens maiores do que o próprio jogo. Zlatan Ibrahimovic pertence, sem margem para dúvidas, a esse último grupo."
O que distingue o nosso atleta, treinador ou dirigente?
"Como é que um país com apenas 10,5 milhões de habitantes (mais 2 ou 3 milhões espalhados pelo Mundo) consegue produzir tanto talento no desporto?
É uma pergunta recorrente que me fazem. Não apenas no futebol, a principal montra, mas no desporto em geral. Há atletas a destacar-se em várias modalidades e nos melhores campeonatos, treinadores e dirigentes a abrir portas em diferentes países e equipas portuguesas a competir com sucesso contra contextos que investem três vezes, cinco ou muito mais.
Ponto de partida: isto é uma excelente notícia. É positivo e motivo de orgulho. E há um fator crítico nisso: alcançamos estes resultados mesmo reconhecendo que não trabalhamos tão bem quanto poderíamos. Mas existe também um elemento de preocupação, com um lado de curiosidade quase enigmático: porque somos fortes em alguns desportos e nas áreas de treino e gestão? O que nos distingue?
Responder a esta questão é decisivo. Em qualquer projeto, a autoanálise permite identificar rapidamente forças e áreas a desenvolver. A minha leitura é que não sabemos, de forma clara, o que nos diferencia, nem como esse diferencial se forma, evolui e sustenta.
Um teste simples: se pedíssemos a cada profissional do desporto em Portugal que escrevesse, num post-it, uma única característica diferenciadora, obteríamos centenas ou milhares de respostas diferentes. Isso indicaria falta de clareza coletiva. E daqui resultam dois problemas: se não sabemos o que nos distingue, dificilmente o conseguimos desenvolver; e torna-se complexo definir estratégia sem um entendimento comum sobre forças, fraquezas e posicionamento.
Escrevi neste mesmo espaço que o desporto, sobretudo fora do futebol, enfrentará dificuldades financeiras recorrentemente. E o atual contexto no Médio Oriente tende a agravar a fragilidade de muitos projetos. O futebol, pela sua dimensão, poderia resistir mais e melhor, mas o tema da sustentabilidade será exposto também em vários clubes e associações.
Apesar disso, existe valor claro para partilhar. Profissionais estrangeiros reconhecem-no. As visitas frequentes a centros de treino em Portugal demonstram interesse não apenas pelas infraestruturas, mas pela integração entre áreas, como a ligação entre departamentos médicos e o desempenho desportivo, por exemplo. Há investigadores portugueses em todo o lado, treinadores em ligas competitivas, dirigentes em mercados como Inglaterra, França, Brasil, Arábia e técnicos de modalidades como basquetebol ou andebol com presença internacional.
O exercício é obrigatório: identificar, estruturar e tornar consciente o que nos permite atingir níveis elevados com recursos limitados e, por vezes, de forma pouco coordenada. Como no Andebol, Atletismo, Judo, Canoagem, Ginástica, etc. Temos uma elevada taxa de exportação de talento per capita. Vemos a Premier League (expoente máximo do futebol) e é raro o jogo que não coloca frente a frente portugueses, seja nos treinadores, atletas, staff médico, scouting, dirigentes de gestão, etc.
O que é interessante é isto: há uma performance acima do esperado face ao orçamento, investimento, população e, desculpem a sinceridade, face à nossa forma de trabalhar. O que nos leva para a seguinte questão: e se trabalhássemos bem, onde estaríamos?
Quanto mais claras forem essas respostas, mais forte será a indústria do desporto em Portugal. Trabalhar identidade, posicionamento e uma lógica de marca Portugal–Desporto é um passo estratégico. Em paralelo, reforçar a cooperação entre profissionais portugueses no estrangeiro aumentará a capacidade de influência e consolidação internacional (aprender com os espanhóis por exemplo).
Isto não seria apagar a identidade individual de cada um. Seria termos algo para trabalhar em todas as federações, entidades relacionadas com o desporto. Seria uma ferramenta poderosa para as universidades, as associações de treinadores, etc.
Se compararmos Portugal com outros países (apenas da Europa) com números similares aos nossos em termos de população ou menores, percebemos três indicadores onde somos diferentes.
Primeiro, e ao contrário de uma Dinamarca, Suíça, Áustria, já para não falar da Eslovénia ou Croácia, temos mais modalidades onde costumamos aparecer no topo. O que somos é mais inconstante, ou seja, há mais dispersão e menos consistência do sucesso.
Segundo, a maioria dos países com a nossa dimensão são a favor da hiperespecialização (é assumido em termos estratégicos) e em Portugal existe mais dispersão competitiva e de investimento. Resta saber sinceramente se é propositado ou fruto da incapacidade que temos de gerir conflitos e, com isto, tentar agradar a muitos.
Terceiro, há um aproveitamento mais difuso do nosso talento e é fruto de um sistema menos estruturado. A excelente notícia é que temos uma margem de crescimento elevado se existir uma estratégia clara e que seja respeitada continuadamente.
Este trabalho não é da responsabilidade de uma entidade só. Provavelmente seria uma discussão interessante a ter/observar entre vários treinadores de diferentes modalidades. O que distingue o treinador português dos outros do Mundo? É algo de modalidade a modalidade ou tem mais de comum? E o dirigente? A verdade é que, no contexto certo, somos altamente competitivos. Temos competências que são negligenciadas em Portugal e depois lá fora fazem-nos brilhar. E os atletas?
Por último, considero que Portugal não tem tanto um problema de talento, mas mais de estratégia e dispersão. Produzimos acima da média com menos recursos. Podemos e devemos considerar isso uma vantagem competitiva, embora ainda pouco estruturada. E é precisamente por isso que o risco é maior: aquilo que não é compreendido, não é replicável, aquilo que não é estruturado, é mais difícil de manter. Parece-me que Portugal continua a ter bons resultados apesar do sistema, mas não por causa dele.
A oportunidade é esta mesmo, conseguir transformar talento numa vantagem.
Se isso acontecer, deixamos de ser um país que surpreende e passamos a ser um país que pode dominar em (algumas) modalidades globais. E neste caso, a verdadeira questão não seria o como foi que chegámos aqui, mas seria até onde podemos ir se, finalmente, tivermos uma estratégia de como e para onde queremos ir."
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