"«Abracadabra» é uma palavra tradicionalmente ligada à magia. Algo surpreendente, quase sobrenatural. Ao transformar essa palavra em «Ibracadabra», essa associação vai muito além da fonética. Zlatan construiu ao longo da carreira uma persona muito particular. Confiança no limite, quase teatral, frequentemente descrevendo-se como alguém único e superior. Essa autoconfiança, somada ao seu estilo de jogo irreverente e belo, alimenta a ideia de algo mágico. O ponta-de-lança sueco marcou golos altamente improváveis. Remates acrobáticos, golos de longa distância, bicicletas quase impossíveis e lances de pura criatividade que parecem surgir do nada, como quem faz um belo truque de ilusionismo. Uma espécie de «Ibracadabra».
Para mim, Zlatan Ibrahimovic nunca foi apenas um jogador. Foi uma inspiração crua, imperfeita e, ao mesmo tempo, fascinante. Fui crescendo a vê-lo fazer coisas que pareciam desafiar não só os adversários, mas também a lógica. Enquanto muitos aprendiam o futebol de forma metódica, quase previsível, Zlatan parecia inventá-lo a cada toque na bola. E isso, para um jovem a jogar com os seus amigos, era tudo.
Lembro-me de tentar imitar os seus movimentos, aqueles dribles improváveis, as receções quase impossíveis, os remates de ângulo apertado, as acrobacias que mais pareciam cenas vindas diretamente do «Karate Kid». Zlatan jogava com uma confiança quase arrogante. E, durante muito tempo, essa arrogância foi incompreendida. Mas para quem o admirava, ela tinha outro significado. Não era apenas ego, era crença absoluta em si próprio, mesmo depois de sofrer bullying e de ser muitas vezes achincalhado durante a adolescência, ele resistiu.
Num mundo onde tantos jogadores parecem moldados para não errar, ele destacava-se precisamente por não ter medo de tentar o impossível. E, de vez em quando, fazia mesmo acontecer. E nesses momentos, o futebol tornava-se arte.
Dia 14 de novembro de 2012, na Friends Arena, há um jogo para ser contado aos filhos e aos netos. Suécia-Inglaterra. 4-2. Todos os golos da seleção sueca foram marcados por Zlatan, mas o seu pontapé de bicicleta a 40 metros da baliza defendida por Joe Hart, é das coisas mais bonitas que já vi dentro de um campo de futebol. Inventem outra palavra, pois isto não pode ser apenas um golo. Para ver e rever. Quantas vezes quiser.
Quando jogávamos nos pelados ou nos sintéticos, com o nosso amor puro pelo futebol, todos queríamos marcar golos bonitos. Mas, no fundo, o que queríamos mesmo era sentir, nem que fosse por um segundo, aquela confiança inabalável. Aquela sensação de que, independentemente do adversário ou da dificuldade, tudo era possível. Zlatan ensinou-me, sem nunca saber, que tudo está dentro de ti e de que a confiança é um fator altamente diferenciador.
Zlatan sempre foi fiel a si próprio, sem filtros, sem concessões. Não se trata apenas dos golos impossíveis ou das jogadas espetaculares. Trata-se da forma como nos fez sentir. Da forma como fez tantos miúdos acreditarem que o futebol podia ser mais do que um jogo. Podia ser criatividade e ousadia, algo que faz muita falta ao futebol atual.
Há, de facto, jogadores que passam pelo futebol como grandes profissionais. Outros deixam números, títulos, sangue, suor e estatísticas impressionantes. E depois há aqueles raros que se tornam histórias lendárias, quase personagens maiores do que o próprio jogo. Zlatan Ibrahimovic pertence, sem margem para dúvidas, a esse último grupo."

Sem comentários:
Enviar um comentário
A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!