Últimas indefectivações
terça-feira, 28 de abril de 2026
Os tempos da (in)justiça
"O Benfica, e demais réus, foram absolvidos no caso do «Saco Azul». A Justiça precisou de dez anos para proferir a sentença, uma década de prejuízos reputacionais, danos financeiros e menos-valias económicas e desportivas para o clube da Luz. Irreparáveis e irrecuperáveis. Sem querer alinhar em teorias da conspiração (porque são muitos, anónimos, os que têm justas razões de queixa), pergunto a quem de direito: Não sentem vergonha pela morosidade?
É verdade que a Justiça tem os seus tempos próprios, e há que respeitá-los, para ser conseguida uma sentença justa. Mas também é verdade que há casos, mais complexos, que consomem tempos impróprios, seja por expedientes dilatórios dos acusados, seja por insuficiência de meios, seja ainda pela burocracia tremenda que envolve os processos. Provavelmente, o «caso Sócrates» é o mais impactante, e aquele que coloca a nu as insuficiências do nosso sistema judicial; se houvesse, realmente, vontade de mudar, para melhor, o «Marquês» seria um bom ponto de partida…Falemos então do ‘Saco Azul’, processo que se arrastou durante uma década e que agora terminou com a absolvição do Sport Lisboa e Benfica e de todas as pessoas singulares nele envolvidas. Foi uma grande vitória para o Benfica? Evidentemente. Mas, ao mesmo tempo, quem foi o principal prejudicado, para não dizer, derrotado? Aquele que foi agora declarado inocente, que ao longo de dez anos sofreu danos reputacionais irreparáveis, viu criada à sua volta um clima de suspeição permanente, que abrangeu os mais diversos setores - económicos, financeiros e também desportivos - e gastou uma fortuna num ‘dream team’ de advogados que tiveram vencimento de causa. Se bem virmos, no ‘Saco Azul’, só o Benfica perdeu, porque quem decidiu levar o caso até à barra dos Tribunais, diluiu-se no anonimato, e o Estado, em situações similares, não procede a reparações. Se me perguntarem se acho mal que, perante dúvidas e pistas potencialmente incriminatórias, o caso tenha avançado, tenho de dizer, em tese, que não. Cada um faz o seu trabalho e o juiz decide. O que é intolerável é que tenham passado dez anos até à sentença, porque cada ano que passou foi um dano adicional causado ao Benfica. Poder-se-á falar em Justiça plena na absolvição do Benfica? Não, porque o clube da Luz somou prejuízos em todas as frentes, exceção feita à sentença. Haverá quem queira, mais do que refletir, tomar medidas para que o sistema seja mais expedito? Francamente, depois de tudo o que se tem visto, não creio.
AINDA no âmbito da Justiça, desta vez na órbita da UEFA, foi tornada pública, com celeridade, a sentença do «caso-Prestianni», com a condenação do jogador argentino por ofensas homofóbicas a Vinícius Junior, que o acusou de racismo. Recorde-se que Prestianni sempre recusou ter chamado «mono» ao internacional brasileiro, dizendo que lhe chamou «maricón», insulto, segundo ele, muito comum entre jogadores na Argentina, como, ainda fazendo fé em Prestianni, «cabrón», outra palavra preferencial quando os futebolistas pretendem trocar mimos orais nas ‘canchas’ sul-americanas. Julgo que, se o extremo do Benfica, tivesse dito que em vez de «maricón» tinha chamado «cabrón» a Vinícius Junior, não teria sofrido qualquer sanção. Mas essas são contas de outro rosário (na escala de gravidade dos insultos, colocar em causa a fidelidade da mulher ou do marido ou a honorabilidade da mãe, estão na parte de baixo do ‘ranking’), sendo que não nenhuma dúvida existe quanto à justeza de punir com severidade comportamentos racistas ou homofóbicos. Dissecando a sentença da UEFA - seis jogos - poder-se-á começar por concluir pela dureza da mesma; depois, percebe-se que três desses jogos têm pena suspensa; a seguir relembra-se que Prestianni já não jogou em Madrid, o que deixa dois jogos por cumprir; finalmente, sabe-se que esses jogos incluem a Seleção argentina, o que pode levar, caso Prestianni seja convocado para a «albiceleste», a que o extremo seja utilizado no próximo jogo internacional do Benfica. Depois do impacto mundial que a acusação de racismo feita por Vinícius teve, o que dizer desta saída de sendeiro? E o que pensar de Mbapée, que, além de Vinícius, garantiu ter ouvido a palavra «mono», cujo testemunho foi irrelevante para a sentença (o Benfica já tinha dito que, perante as imagens, era impossível que o francês, à distância a que se encontrava, tivesse ouvido fosse o que fosse…)? E todos os outros que, sumariamente, crucificaram Prestianni na praça pública? É evidente que não percebem a importância do tema, e desconhecem os danos que a sua má utilização pode trazer a uma causa civilizacional.
SEM deixar o tema da Justiça (desportiva), usada como arma de arremesso pelos nossos principais clubes - com destaque, irrecusável para Sporting e FC Porto - já não há paciência para tantas queixas e queixinhas deste teor, que nunca resultam em nada a não ser na descredibilização da imagem do futebol, palco permanente de uma guerrilha que afasta adeptos e investidores, tornando o produto invendável, por estar minado de suspeições. De facto, não há campanha que valha, argumento racional que impere, ou mudança geracional que marque a diferença, se os principais responsáveis não interiorizarem que é possível fazer diferente.
HÁ muitos anos, o antigo árbitro internacional e então comentador televisivo, Vítor Correia, afirmou, em direto, na RTP 1: «Desde que vi, num circo, um porco a andar de bicicleta, nada me surpreende.» Lembrei-me de Vítor Correia recentemente, pela atualidade das suas palavras, de há três décadas. Isso aconteceu quando veio a público a notícia de que Paolo Zampolli, enviado especial dos EUA para as parcerias globais, tinha sugerido à FIFA que substituísse o Irão, apurado para o Mundial, pela eliminada Itália. Desde que Trump, irónico, ou não, nunca se sabe, tinha aventado a hipótese de transformar a faixa de Gaza num «resort» turístico, que não ouvia uma enormidade de tão grande calibre. Mas o ridículo da situação sobe a níveis estratosféricos quando se percebe que o ideólogo do modelo é italiano de nascimento - e terá, como principal mérito, ter apresentado Donald Trump à atual mulher, Melanie, quando era dono de uma agência de modelos - e não se apercebeu, entre muitas outras coisas, que um tetracampeão mundial nunca aceitaria estar, ‘por esmola’, num Campeonato do Mundo. Giorgia Meloni e a FIGC foram perentórios na recusa, mas a calamitosa proposta (indecente) ficará para sempre nos anais dos Mundiais de futebol.Confesso que tenho todas as dúvidas quanto à presença do Irão no Campeonato do Mundo, que começa daqui a mês e meio, por tudo e mais alguma coisa, sem esquecer a possibilidade de os Estados Unidos negarem visto a elementos do «staff». Se isso acontecer, e os iranianos ficarem em casa, quem deve substituí-los é quem foi por eles eliminado. Um pouco à imagem do que sucedeu no Campeonato da Europa de 1992, quando a Jugoslávia (que entretanto implodiu), estava apurada para a fase final, e ficou de fora, vindo a abrir vaga para a Dinamarca, que se sagraria campeã europeia.
CURIOSAMENTE, quando o Mundial de 2026 foi atribuído à América do Norte, Gianni Infantino já era presidente da FIFA e Donald Trump presidia aos Estados Unidos, embora o trabalho de sapa tivesse sido feito por Barack Obama e pelo FBI, na sequência dos contornos da atribuição do Campeonato do Mundo de 2022 ao Catar, que colocaram a agência federal norte-americana na senda do «FIFAgate». Oito anos volvidos, Infantino anda no arame sem rede, e Trump movimenta-se como um elefante em loja de porcelanas. Mas, repito o que escrevi há umas semanas, no dia 13 de julho, no Metlife Stadium, em Nova Jersey, haverá um campeão do Mundo de futebol.
ALINHO pela equipa de Arrigo Sacchi, que um dia disse que «o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes das nossas vidas.» Dito isto, confesso que há coisas que não consigo entender: no que respeita às coisas importantes, que matam centenas de milhares, afetam diretamente muitos milhões, e indiretamente colocam em causa toda a Humanidade, nunca percebi o racional de quem, no eixo Hamas-Irão, ordenou o massacre de dois mil israelitas e o sequestro de muitos outros, abrindo as portas do Inferno no Médio Oriente. No âmbito do futebol, que é ‘apenas’ um jogo (maravilhoso), que desenvolve, é certo, paixões muitas vezes demasiado exacerbadas, agora associado a uma indústria, mas que possui uma matriz essencialmente lúdica, também não percebo as dúvidas que o Benfica parece ter quanto a entregar o seu projeto para o futebol a José Mourinho. São duas situações (incomparáveis na magnitude, a primeira é tão profunda quanto a Fossa das Marianas, a segunda tem a profundidade de uma piscina olímpica), uma por ação, outra por omissão, a primeira fazendo parte das coisas verdadeiramente importantes das nossas vidas, a segunda das coisas mais importantes das coisas menos importantes, cuja compreensão me transcende."
O 'My Way' ferido de Rui Borges
"A Taça, que ainda precisa de ser conquistada, não apagará o cinzento do céu dos sportinguistas. O mundo sabe que o leão está quebrado, sem forças e arrisca falhar até a Champions
A imagem que fica é a de um leão quebrado, na vontade e na força, a arrastar-se penosamente até ao final. Um Sporting que vê o grande rival aproximar-se e não consegue reagir, por não ter forças e por não acreditar ter ainda forças, ideias apenas semelhantes. Porque não o são.
O Arsenal foi uma fatalidade e aplaudiu-se ao se ir para lá do limite. O equilíbrio, o cair por um bocadinho assim. O Benfica ameaçava possível lotaria, tal a força de ambos e a maior frescura no adversário. Caiu para as águias, podia ter caído para qualquer dos lados. O Dragão assumia-se como palco da inevitabilidade, não fosse Rui Silva resgatar a si próprio um último fôlego e Froholdt falhar o encontro com o destino naquele cabeceamento por cima de uma baliza vazia, com a final da Taça no horizonte. E Aves, depois de tanto, um calvário ainda mais íngreme, onde esperava a Lei de Murphy. E, sempre no final, aquele discurso. «Tentámos, mas não conseguimos. Estou muito orgulhoso dos meus jogadores.» Derrotado no tom, fatalista, mensagem que não motiva. Rui Borges precisa mudar. O «Manto Verde» que lançou quer reinventar nova teoria da conspiração? Se quer, falhou também aí pela falta de força.
O Sporting era o favorito à entrada para a nova época. Bicampeão. Atrás do tri. Borges queria que fosse à sua maneira, o que é legítimo. O FC Porto vinha de nova revolução, que tudo abanara. Precisava de tempo, mas ganhar em Alvalade deu-lhe solidez precoce. O Benfica vivia, como vive há anos, no seu mundo, sem liderança, porém teve Mourinho. E mesmo um Mourinho a lutar contra si próprio em certos momentos foi capaz de ir atrás e apanhar o leão. Feriu-o, deixou-o fraco e agora está, a três jogos do fim, perto de lhe roubar a presença nas eliminatórias da Champions. E reforçar um ego especial.
Ainda há pouco ecoava a notícia de um novo contrato para Rui Borges. Mas hoje, a imagem do treinador não é a mesma. Está tão ferido como o seu leão.
Rui Borges mereceu chegar a um grande. Depois de ter reequilibrado a equipa após o adeus de Amorim e conquistado o título mereceu prosseguir. Nem de propósito, tal como O Mundo Sabe Que é uma versão de My Way de Sinatra, também é justo que queira ganhar à sua maneira.Os leões jogaram bom futebol. Foram candidatos. E ainda têm a Taça, para diluir o cinzento que pinta agora o seu céu, mas a temporada não acaba bem. O técnico garante competitividade, mas isso não chega. Também terá de crescer."
Carlos Lopes a 462 segundos de Sabastian Sawe
"Caiu o recorde do Mundo da maratona e logo com um tempo épico: 1.59.30 horas. Pela primeira vez um homem correu 42 quilómetros abaixo de 2 horas
Lembram-se de Carlos Lopes, em abril de 1985, a vencer a maratona de Roterdão em 2.07.12 horas? Sim: o recorde do mundo foi superado por 53 segundos. O jornal francês L’Équipe fez capa com esse feito, catalogando o atleta como extraterrestre. E era. Entretanto, passaram-se 41 anos e a melhor marca mundial dos 42,195 quilómetros caiu 14 vezes. A última foi ontem, em Londres, por Sabastian Sawe. Um queniano, claro. E não é um recorde igual aos outros 13 que se seguiram ao de Lopes. É um tempo mítico: 1.59.30 horas!
O dia 26 de abril de 2026 representa para o atletismo mundial o mesmo que o 20 de julho de 1969 — dia em que Neil Armstrong pisou a Lua — representa para a exploração espacial. Ou o 7 de março de 1876 para as telecomunicações, data em que Alexander Graham Bell patenteou a invenção do telefone, cuja primeira transmissão de voz ocorreu três dias depois. Sabastian Sawe é, pois, uma espécie de mistura entre Armstrong e Bell: o primeiro a fazer algo épico.
Correr a maratona abaixo de duas horas é como, um dia, alguém saltar 2,50 metros em altura, 9 metros no comprimento, baixar de 1.40 m aos 800 metros ou de 26 minutos aos 10.000 metros. Estes 1.59.30 h são um tempo tão épico que, embora o seu recorde tenha já 41 anos, Carlos Lopes demoraria mais 7 minutos e 42 segundos a completar a prova! Ou seja, quando Sawe cortasse a meta, o campeão olímpico de 1984 estaria a mais de dois quilómetros — precisamente a 462 segundos — de distância. Se isto não é épico, o que é ser épico? E não foi só Sawe que foi épico. Também os segundos e terceiros classificados o foram: Yomif Kejelcha fez 1.59.41 e Jacob Kiplimo fez 2.00.28. Ambos correram abaixo do recorde do malogrado Kelvin Kiptum (2.00.35 em Chicago, 2023). Épico, pois, a triplicar: Sawe, Kejelcha e Kiplimo. Lopes, em Londres-2026, seria apenas 13.º!
Há diversos fatores que poderão ajudar a perceber este salto de mais de sete minutos em 41 anos: tipo de treino, evolução dos ténis (solas finas de borracha versus espuma+placa de carbono), melhoria da nutrição/hidratação (água e bebidas isotónicas simples versus hidrogéis de alta concentração), pisos mais adequados, recuperação (repouso e massagem básica versus crioterapia, botas de compressão e dados de sono) e ainda as chamadas lebres.
Há ainda outro fator, claramente menos positivo, que poderá influenciar (e influencia) o rendimento dos atletas de altíssima competição — e que não é de agora: o doping. Quando se trata de um recorde mundial de atletismo, sobretudo na maratona e, sejamos justos, sobretudo com atletas africanos, as dúvidas são sempre algumas. Esperemos, então, pelas próximas semanas para vermos se o recorde do Mundo da maratona será mesmo de 1.59.30. E se a marca de Carlos Lopes, em 1985, está mesmo a 462 segundos do recorde do Mundo da maratona."
Marie-Louise abriu a porta, mas e quando a quiserem fechar?
"Como desfazer história? Union Berlim tomou decisão corajosa, mas agora pede-se que viva com ela; ´Para lá da linha´ é um espaço de opinião
A nomeação de Marie-Louise Eta para treinadora do Union Berlin lançou ondas de choque, orgulho, admiração, fez história ao ser a primeira mulher no cargo na Bundesliga. O clube despediu Steffen Baumgart e nomeou Eta, que já estava na estrutura do clube e se preparava para assumir o comando da equipa feminina.
Dois jogos e duas derrotas depois, frente a Wolfsburgo e Leipzig, o que se pensa? Muitos dirão… ‘agora despedi-la parece mal…’ Mas convenhamos, quanto trabalho terá ela conseguido fazer numa equipa que tem apenas 8 vitórias, sendo que na primeira semana teve a conferência de imprensa mais concorrida da época?
Vincent Kompany, treinador do Bayern, sublinhou uma nomeação que «abre portas», mas em entrevista ao site da Bundesliga, Marie-Louise quer ser tratada como apenas mais um profissional: «Quanto à minha posição, penso que é independente do género e deve centrar-se no desempenho. Seja homem ou mulher, não se trata de fazer uma afirmação, mas sim garantir que essa pessoa é a mais adequada para o cargo.»
A três jornadas do fim, a equipa continua aflita na classificação e vai defrontar Colónia, que também precisa de pontos, e Mainz e Augsburgo, mais confortáveis na tabela apesar de não terem vencido nesta jornada.
A aposta do Union foi tomada com prazo de validade, até final da época, mas verdadeiramente revolucionário seria oferecer já, sem manutenção assegurada, a chance de continuar a treinar a equipa masculina na próxima temporada. Aí sim, poderia ser julgada pelo desempenho e, eventualmente, despedida pela falta de mérito, como se faz com qualquer outro treinador. Portas que se abrem e fecham com naturalidade."
Três taças para o Museu
"Em destaque nesta edição da BNews, as três Taças de Portugal conquistadas ontem pelo Benfica.
1. Taça de Portugal de futsal (masculino)
O Benfica ganhou por 5-6 ao Sporting na final da Taça de Portugal, conquistando a prova pela 9.ª vez.
2. Taça de Portugal de futsal (feminino)
No jogo derradeiro da Taça de Portugal de futsal no feminino, o Benfica derrotou o Nun'Álvares por 1-0, ganhando a competição pela 10.ª vez.
3. Taça de Portugal de hóquei em patins (feminino)
A vitória por 3-2 ante a Stuart Massamá deu o triunfo ao Benfica, pela 12.ª vez consecutiva, da Taça de Portugal de hóquei em patins no feminino.
4. Outros resultados
A equipa B perdeu por 1-2 na receção ao Marítimo. Em voleibol no feminino, o Benfica ganhou por 1-3 no reduto do Sporting no jogo 1 do apuramento dos 3.º e 4.º classificados do Campeonato Nacional.
5. Distinção
Norberto Alves é considerado o treinador do ano da Liga Masculina de basquetebol 2025/26.
6. Presença inspiradora
Tinha Penicheiro, considerada a melhor jogadora portuguesa de basquetebol de sempre, esteve à conversa com cerca de 80 atletas da formação de basquetebol do Benfica.
7. Casa Benfica Mortágua
Esta embaixada do benfiquismo celebrou o 25.º aniversário."
O teste pós-carreira ao Decreto-Lei n.º 272/2009: onde estão os resultados?
"O Decreto-Lei n.º 272/2009 nasceu com uma ambição clara e, à data, até louvável: garantir que os atletas de alto rendimento não fossem deixados à sua sorte no momento mais difícil das suas carreiras, o fim das mesmas . A ideia era simples na teoria e exigente na prática: assegurar que anos de dedicação ao país, muitas vezes com sacrifícios pessoais e académicos evidentes, não terminassem num vazio profissional.
Ao longo dos anos, o legislador foi reforçando este enquadramento. E fê-lo, mais recentemente, com a aprovação da Lei n.º 13/2024, de 19 de janeiro, que veio alterar e densificar o próprio regime. Introduziram-se sistemas de quotas no emprego público, reforçaram-se apoios financeiros no pós-carreira e ajustaram-se mecanismos como a subvenção temporária de reintegração. No papel, o sistema nunca esteve tão completo. O problema continua a ser o mesmo: o papel aceita tudo.
Importa, contudo, quero deixar uma nota de enquadramento político que não pode servir de desculpa. Apesar desta última alteração ao regime resultar de iniciativa do governo anterior, nada justifica a inação do atual executivo, nem tão pouco do IPDJ. Pelo contrário: a continuidade e execução das políticas públicas são um teste à maturidade institucional de um país. A falta de consistência, acompanhamento e responsabilização não é um detalhe é, aliás, um traço típico de contextos menos desenvolvidos, onde se legisla muito e se avalia pouco.
Portugal continua a investir recursos públicos significativos no desporto de alto rendimento. E bem. Mas há um momento em que as luzes se apagam, os pódios deixam de existir e os atletas regressam à vida “normal”. É nesse momento que o sistema devia mostrar se funciona. E é também nesse momento que desaparecem os dados, a evidência e arrisco dizer a própria responsabilidade.
A alteração de 2024 ao DL 272 veio introduzir um elemento particularmente exigente: quotas no emprego público e apoios financeiros reforçados, com efeitos que, na prática, podem abranger atletas que terminaram a carreira antes da entrada em vigor da lei. Ou seja, já não estamos apenas no domínio das intenções. Estamos no domínio da execução. E execução mede-se.
Mas há um detalhe que não é novo e que ajuda a perceber porque continuamos onde estamos. Lembro-me bem de, na altura em que participei em grupos de trabalho e, através da AAOP, termos apresentado propostas concretas para melhorar o sistema. E recordo-me de ter colocado uma pergunta simples — mas incómoda, quase uma pergunta ácida: existe uma base de dados integrada que permita saber quem são os atletas, que percurso tiveram, que apoios receberam e qual foi o seu desfecho no pós-carreira? Existe informação consolidada que permita analisar, cruzar dados e, a partir daí, tomar decisões informadas?
A resposta, na altura, foi a habitual: “não sei”. E, na prática, os resultados existentes eram próximos de zero em muitas dimensões.
E é precisamente esse “não sei” que atravessa o tempo, atravessa diplomas e atravessa reformas. E quando os órgãos públicos não publicam o que sabem, ou não sabem e devem ser naturalmente responsabilizados por essa omissão.
Hoje, com quotas no emprego público e subsídios reforçados, as perguntas são ainda mais exigentes e continuam sem resposta.
Quantos atletas beneficiaram efetivamente deste regime desde janeiro de 2024?
Quantos entraram na Administração Pública através do sistema de quotas?
Em que organismos?
Em que concursos?
Quantos ficaram de fora?
E, no que toca aos apoios financeiros, quantos beneficiaram, com que critérios e com que impacto real na sua reintegração?
A verdade é simples e desconfortável: continuamos sem saber!
Uma visita ao site do IPDJ mostra um sistema bem explicado, atualizado, alinhado com a nova lei. Mas, mais uma vez, falta o essencial: resultados. Não sabemos quantos atletas estão empregados após o fim das suas carreiras, quantos utilizaram os novos mecanismos introduzidos em 2024, quantos ficaram excluídos, nem qual o impacto real destas alterações.
O sistema evoluiu. A lei foi reforçada. Mas a transparência continua parada no tempo, o que levanta um problema estrutural: se não existe uma base de dados integrada, se não há capacidade de análise e extrapolação, então o sistema não está apenas por avaliar , está na prática, cego. E um sistema cego não corrige, não melhora, não aprende.
O que se exige não é complexo. Exige-se que a tutela meça e publique o impacto do regime. Que construa, finalmente, uma base de dados integrada que permita saber onde estamos e para onde devemos ir. Que diga, com dados, quantos atletas beneficiaram das quotas, quantos foram integrados, quantos recorreram aos apoios financeiros e quantos ficaram de fora. Porque a transparência não é um extra é o mínimo que se exige para tomar decisões informadas sobre o dinheiro que é de todos nós.
E importa dizê-lo: se quem tutela o desporto, Ministra, Secretário de Estado, presidentes de diversos Institutos, passassem menos tempo em eventos, inaugurações e momentos de palco, até já com direito a tirar selfies, e mais tempo com as suas equipas a fazer o trabalho estrutural que lhes compete, adotando uma lógica de execução e responsabilização próxima do setor empresarial, provavelmente já teríamos hoje respostas. Respostas sustentadas não em perceções, mas em dados.
Por isso, a pergunta mantém-se, agora ainda mais atual: quem beneficiou, quantos ficaram de fora e se alguém utilizou, de facto, entre outros instrumentos, o sistema de quotas no emprego público?
Senhores governantes, governar não é atualizar leis, é provar que elas resultam. E essa prova, no caso do DL 272, continua por fazer.
Uma Nota Final , inevitável e sentida, sobre os olímpicos no pós-carreira, tantos deles remetidos a um silêncio injusto, longe da visibilidade e da “solidariedade olímpica” tantas vezes proclamada.
A minha singela homenagem a Joaquim Granger, olímpico da ginástica em Helsínquia 52, o mais velho atleta olímpico, que nos deixou aos 97 anos. ainda recentemente, recordo-me bem nas inúmeras interações que tive com este ATLETA, aos 95, mantinha uma energia contagiante: deslocava-se de Linda-a-Velha a Cascais para visitar a nossa associação, percorrendo ainda, com uma vitalidade admirável e a pé, os dois quilómetros entre a estação de comboios e a nossa sede. Sempre com projectos novos, sempre com um sorriso.
Apesar dos diversos apelos á natureza olímpica, que inclui os valores do Respeito Excelência e Amizade , na missa e cerimónia fúnebre, contei 14 olímpicos num universo de mais de 800, dá para pensar. o Joaquim Granger Merecia mais. Muito mais.
Não se esqueçam que a vida é efémera — e também feita de esquecimentos!"
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