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quinta-feira, 4 de junho de 2026

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França: Cantona, o macambúzio que chamou “saco de merda” ao selecionador, pontapeou um adepto e acabou na praia antes de ser ator


"Éric Cantona já era amigo da polémica bastante antes de agredir um adepto do Crystal Palace, em Inglaterra, com um pontapé de kung fu. Dado a frases filosofais e crípticas, o francês já insultara o selecionador do seu país e andara ao soco com adversários e jogadores da mesma equipa. Quando se retirou ainda foi internacional de futebol de praia, ator de cinema e protoganista-mor em anúncios da Nike onde a ideia era ser ele próprio, beneficiando da fama de durão que sempre teve. E acabou a viver em Lisboa.

“Quando as gaivotas perseguem uma traineira é porque pensam que sardinhas serão atiradas ao mar.”
A frase críptica saiu da boca de Éric Cantona em 1995. Dita em pleno tribunal, o francês acabara de ser condenado a uma pena de prisão por dar um pontapé a um adepto do Crystal Palace que descera, esbaforido, uma dezena de filas de cadeiras no estádio para o insultar, acertando-lhe com a sola da chuteira no peito. O provável futebolista mais famoso do país, por certo o melhor estrangeiro a jogar então em Inglaterra, respondia perante a justiça por violentar um homem à beira do relvado e o que teve a dizer foi uma frase entre o filosofal e o piscatório.
Antes da farfalhuda barba, da boina à pintor, Cantona jogava com a gola da camisola ao alto, a fazer continência à figura sargental que vista, um sargento de pavio curto: nos tempos áureos do Manchester United, tinha o crânio rapado de pêlo, o queixo raso em barba.
Enigmático nas suas ações, por costume intempestivo, o pontapé que deu em Sellhurst Park ao adepto, segundos após ser expulso do jogo por uma entrada violenta contra um adversário, é, a par do batalhão de jornalistas a encavalitarem-se na sala do tribunal aquando da sentença, o que engoliu quase por inteiro tudo o que Éric Cantona fez no futebol. Nada que ele arrependa: disse, em 2020, à revista “Four Four Two”, ter sido o momento preferido da sua carreira, lamentando “não lhe ter batido com mais força”.
Mas sua gravitação pela polémica, quando não pela zaragata, viera de bastante antes.
Em 1985, ainda caçula no Auxerre, envolveu-se em confusão durante um jogo frente ao Cournon Le Cedre. O visado adversário foi expulso e, finda a partida, a enfurecida equipa contrária esperou à entrada do balneário para o confrontar; Cantona não foi de modas, saiu disparado a história reteve que privou ao soco com uma dezena de homens até Guy Roux, histórico treinador do Auxerre, cheio de quatro décadas no clube, acabar com a peleia.
Chegado ao Marselha que lhe detinha a paixão de criança desde que ao Velódrome fora, pela mão do pai, admirar as bancadas, coincidindo páginas tantas com um jogo frente ao Ajax de Johan Cruijff e embasbacado-se com o futebol total holandês, Cantona explodiu: futebolisticamente, marcando golos e exibindo a sua aptidão com a bola; e raivosamente, como virou seu apanágio.
Ainda nos seus vinte e poucos anos, diante de câmara e microfone, pouco hesitou ao insultar o selecionador francês por não o convocar para os Les Bleus. “Henri Michel não está longe de ser um saco de merda. Espero que um descobramos que é um dos treinadores mais incompetentes do mundo”, disse em 1987, recusando equipar-se pelo país enquanto o visado, com uns quartos de final do Mundial anterior no currículo, estivesse no cargo. Cantona foi excomungado da seleção durante um ano, sendo perdoado pelo sucessor nos bancos, Michel Platini.
No clube pelo qual torcia, cujo estádio foi buscar o nome ao ciclismo, o avançado conheceu destino semelhante ao que tivera em Auxerre, recebendo guia de marcha quando o presidente soube como, irritado no balneário, invadido pela fúria, Cantona arremassara as chuteiras à cara de um companheiro de equipa. A escapatória foi o Nîmes, equipa humilde, incapaz de serenar a natureza do jogador de olhar sério no cimo da penca pronunciada: por lá se encimou também sobre a polémica, ao atirar a bola contra um árbitro, recusando-se a participar na audiência disciplinar subsequente.

O ‘Le Roi’ de Inglaterra
Castigado foi e criticado se viu pela opinião pública em França, farta das suas raivas, sem vagar para as excentricidades, como esticar um pirete para as bancadas quando não estava embrenhado em confusões. Desencantado com a profissão, Cantona decidiu, aos 25 anos, retirar-se do futebol, para apenas Platini o convencer a desistir da ideia. Outra sábia voz sugeriu-lhe outra decisão: aconselhado pelo psicólogo, atravessou o Canal da Mancha.
O Leeds United acolheu o francês de má fama, ciente do seu pavio curto, igualmente do talento geracional. À primeira época com Cantona, a última antes da Division One ser rebatizada como Premier League, o clube de Yorkshire fez-se campeão inglês ajudado pelos golos vistosos, a postura calma a desembaraçar-se de adversários e a delicadeza do francês a tratar a bola.
A demonstração constante do seu talento não abafou o seu feitio idiossincrático. Éric mantinha-se conflituoso, mas uma Inglaterra nos últimos anos do hooliganismo, ainda de kick and rush no seu futebol e de bancadas esfomeadas por festejar cortes em carrinho ou chutões para fora, aceitava-lhe os defeitos a bem das suas virtudes. Perdoava o trombudo francês pela magia em campo, a que levou Alex Ferguson a cravá-lo aos dirigentes do Manchester United quando soube do amuo de Canton com Howard Wilkinson, treinador do Leeds.
Com ousadia a correr-lhe no sangue, Cantona entregou, em mão, um pedido ao clube para ser vendido ao Manchester United, Liverpool ou Arsenal, um dos três, desfaçatez aproveitada pelo escocês que tentava descolar o seu pecúlio triunfal na cidade-berço da Revolução Industrial. Disposto a aceitar o feitio sinuoso do francês, Ferguson teve a peça que faltava na equipa. Com os golos de Cantona, sobretudo com o requinte técnico que acrescentou ao ataque, o United ganhou quatro vezes a Premier League em cinco anos.
E pela Inglaterra de manuais de história versados em séculos de animosidade com França o jogador ficou conhecido como ‘Le Roi’, o rei.

“Au revoir”
O reinado conheceu o seu fundo, em 1995, com o golpe de kung fu em Matthew Simmons, adepto que provocara Cantona, saber-se-ia mais tarde na audiência judicial, com insultos xenófobos e, mais tarde ainda, teve problemas com a autoridade ao agredir o treinador do filho infantil por não o colocar a jogar. Essas nuances foram suficientes para largas falanges de apoiantes do United assumirem vista grossa quanto ao ato violento do francês, defendendo o avançado que acabaria suspenso pelo clube por quatro meses.
Foi metade do tempo de castigo aplicado pela liga inglesa, além das 120 horas de serviço comunitário que teve de cumprir após recorrer da sentenção de prisão inicial. Recuperado da palmatória, Cantona jogaria ainda mais duas temporadas, até 1997, com o prémio de ser capitão do Manchester United durante a sua última época, sempre fiel ao seu estilo: produzia golos belos com frequência, puxava a gola da camisola para cima, pincelava os jogos com aprumos técnicos ao alcance de poucos.
E retirou-se do futebol aos 31 anos.
Taciturno nas feições, alérgico a entrevistas, deixou um magro rasto na seleção. Resolvidas as quezílias iniciais, sofreu com o resto da sua geração o baixio enfrentado por França durante o final da década de 80 e meados da seguinte, jogando apenas no desastre do Europeu de 1992, onde foi eliminada de um grupo com Inglaterra e Dinamarca, a eventual campeã. Sucumbiu também ao escândalo que foi a não qualificação para o Mundial dos EUA, mas era o capitão gaulês no trilho rumo ao Europeu seguinte, onde não esteve devido à suspensão pelo golpe de artes marciais dado ao adepto do Crystal Palace.
Arrumadas as chuteiras, Éric Cantona evoluiu rumo à figura hoje emanadora de uma aura de carisma que colhe mais admiração do que soslaio. Crescido para os lados, mais rechonchudo debaixo da farta barba, tornou-se ator de cinema - participou no filme “Elizabeth“, com Cate Blanchett - e de teatro e participou em campanhas da Nike, marca que não o largou na reforma, esperta a aproveitar o seu estilo macambúzio, de tipo duro e cru, para ser o laçarote de múltiplos anúncios com futebolistas no ativo. À tirada mítica de “Au Revoir”, quando o francês ainda jogava, seguiram-se muitas outras em que protagonizava um papel quase de provedor de uma forma bonita de tratar o futebol.
Já dentro do seu segundo século de vida, largada a sua dedicação ao futebol de praia, onde jogou em Mundiais com a França e chegou a ser selecionador, Cantona mudou-se para Lisboa, cedente à cidade que chamou “o Rio de Janeiro da Europa“ onde, de boina na cabeça, tenta passar despercebido entre os pais que esperam pelo final do treino dos filhos (ele tem dois com a segunda mulher, acrescidos aos dois que teve com a primeira) numa escolinha de futebol. A par das ocasionais críticas públicas que ainda faz à elitização da modalidade, será essa a sua ligação mais preemente à bola que o teve como uma das estrelas mais ambivalentes."