Últimas indefectivações
terça-feira, 30 de junho de 2026
O Benfica e ‘esta’ centralização
"Depois das AG de sábado, os encarnados vão entrar na nova temporada em clima de estabilidade, embora tenham de ser mais expeditos na conclusão do plantel. Prometem, contudo, contestar vivamente, de várias formas, o modelo de centralização que está em cima da mesa. Entretanto, na arbitragem, o ‘adeus’ de Duarte Gomes é uma péssima notícia.
AS Assembleias Gerais do Benfica, realizadas no passado sábado, correram bem a Rui Costa, e a aprovação do plano de atividades e orçamento para a próxima época vai permitir ao clube um início de temporada em clima de estabilidade.
Porém, os encarnados não se têm mostrado lestos a recompor o plantel, numa altura em que Marco Silva já está a trabalhar e haverá jogos de acesso à fase de grupos da Liga Europa que terão de ser vistos pelo Benfica como se fossem de preparação.Com vários jogadores espalhados pelas seleções que disputam o Mundial, e ainda com as dúvidas que envolvem, por razões diversas, a continuidade de alguns desses e de outros, Rui Costa e Mário Branco deverão acelerar o passo para, de acordo com o que é pretendido por Marco Silva — evitando que seja «cada cor seu paladar», como diziam antigamente os pregões dos vendedores de gelados — criar um grupo coeso e coerente.
Apesar de ter desbaratado, ao longo da última época, boa parte do crédito que tinha junto dos sócios, Rui Costa ainda teve condições para encarar o pós-mourinhismo, passando entre os pingos da chuva, em boa parte também devido à aprovação que mereceu a chegada de Marco Silva.
Porém, da Assembleia Geral da tarde de sábado, para lá de algumas ameaças ocas de «tolerância zero» à FPF e à arbitragem, resultou uma tomada de posição, veiculada por Nuno Catarino, relativa à venda centralizada dos direitos televisivos, que mostrou, por um lado, como esse processo está longe de ser dado por terminado, e por outro a determinação do Benfica de se manter fiel ao que sempre disse sobre esta matéria: «desde que não recebamos um euro a menos, que seja, relativamente ao que conseguimos, não nos opomos a que um aumento de receitas seja distribuído pelos restantes clubes.»
Se a divergência se mantiver, se na altura de se saber quanto é que as operadoras estão dispostas a pagar pelo nosso futebol profissional — e será esse o valor do produto e não qualquer dos números que há anos vêm sendo adiantados — e se o Benfica entender que assim não vai a jogo, ficou a saber-se que seguirá a via dos tribunais, o que pode representar uma péssima notícia para uma reforma que foi imposta administrativamente.
A NOTÍCIA da saída de Duarte Gomes da Direção Técnica da Arbitragem da FPF não augura nada de bom. Competente, sempre a procurar fazer pedagogia (foi o que conseguiu, sempre numa perspetiva construtiva, nos muitos anos em que esteve no comentário ao desempenho dos árbitros), o antigo árbitro internacional, sendo solidário com a classe, fugiu sempre a duas coisas que parecem ser sagradas para o setor, dentro e fora de portas: o corporativismo e a opacidade.
Já o disse, apesar de terem sido lançados demasiados árbitros sem experiência em jogos nos quais se aconselhavam juízes com outro traquejo, houve sempre, ao longo da última época, possibilidade de acompanhar a forma como eram avaliados, o que responsabilizava, internamente, e credibilizava, externamente.
Sem querer fazer juízos apressados, não posso deixar de dizer que haverá uma atenção redobrada, no pós-Duarte Gomes, aos comportamentos que vão ser adotados. Porque um modelo de independência do setor só vingará se, como em qualquer empresa que se queira bem gerida, existir o primado da meritocracia, separando-se, sem tibiezas, o trigo do joio.
FOTOLEGENDA
DIOGO COSTA
Antes do início do Mundial apontei o guarda-redes do FC Porto como a minha aposta de destaque da equipa de Portugal no Mundial da América do Norte. Depois de algumas hesitações na partida com a RD Congo, e de ter ganho confiança e ambientação ao torneio no jogo contra o incipiente Uzbequistão, Diogo Costa exibiu-se em grande plano frente à Colômbia, executando uma mão cheia de defesas de alto nível, que permitiram (isso e o número avantajado de chuteira de Davison Sánchez) que a Seleção Nacional não saísse derrotada de Miami. Contra a Croácia queremos o mesmo nível de inspiração!
CAPA
Gonçalo Ramos, novo Diabo ‘rossonero’
O AC Milan pagou ao PSG 70 milhões de euros pelo algarvio formado no Benfica (que ainda vai receber mais alguma coisa…), e Ruben Amorim, treinador dos ‘rossoneri’, deve estar satisfeito com a decisão de Roberto Martinez de manter o seu novo pupilo em doca seca, preservando-o, assim, de qualquer percalço físico e permitindo-lhe um descanso que o fará mais forte no início de temporada, em Itália.
CARTAS
ÁS
Bubista
O que vou escrever não tem nada de neocolonialista, apenas representa a minha satisfação genuína pelo sucesso de Cabo Verde, um País de gente calorosa, orgulhosa da sua identidade, que sempre esteve ao lado de Portugal nas grandes competições internacionais. Grandes ‘Tubarões Azuis’.
ÁS
Ricardo Quaresma
Assertivo, o fantasista campeão da Europa colocou o dedo na ferida após o jogo com a Colômbia. Houve falta de compromisso defensivo (até nos pontapés de canto dos ‘cafeteros’, que quando saíam a jogar curto ficavam logo dois para um!), e demasiado ‘conforto’. Conformados com quê?
REI
Roberto Martinez
Apesar do apuramento de Portugal para a fase de mata-mata (daí Rei e não Duque), que gestão anda o selecionador nacional a fazer? Que sentido faz ter dado, até agora, todos os minutos a Cristiano Ronaldo? Messi, com a Jordânia, jogou apenas a última meia hora e marcou um golo…"
Nureyev no Coliseu
"Rudolph Nureyev — um dos melhores bailarinos a pisar os palcos do planeta, para muitos The GOAT, embora haja quem prefira o classicismo de Nijinsky ou a modernidade de Baryshnikov — atuou em Lisboa, no São Carlos, ao lado da divina Margot Fonteyn, em 1969, dançando o bailado clássico Giselle.
Foi uma noite de esplendor artístico apenas comparável à presença, na mesma sala da capital portuguesa, de Maria Callas, que ali cantou, em 1958, La Traviata.
Em 1991, já numa fase de declínio acentuado, Nureyev regressou a Lisboa, integrado na digressão ‘Nureyev e Amigos’, no âmbito do Festival de Música do Estoril, apresentando-se ao público no Coliseu dos Recreios.
Em 1969, Lisboa deliciou-se com o génio único de Nureyev. Em 1991, a ida ao Coliseu foi mais curricular: quem foi pôde dizer «eu vi Nureyev ao vivo», embora essa ‘last dance’, do ponto de vista artístico, fosse medíocre.
A persistência de muitas personalidades da música tornou possível a frase «old rockers never die.» Ainda no passado sábado, Cyndi Lauper (73) e Rod Stewart (81) juntaram 90 mil fãs no Parque Tejo, no terceiro dia do Rock in Rio de 2026. Pouco importou que as vozes e a vitalidade já não fossem as mesmas; o carisma estava lá, a lenda apresentava-se ao vivo, e isso bastava, porque, para cantar, lá estava a plateia. Da mesma forma, Mick Jagger (82) ou Paul McCartney (84) ainda andam aí para as curvas.
Tenho a certeza de que se, amanhã, Bjorn Borg (70) e John McEnroe (67) decidirem defrontar-se, haverá casa cheia, seja onde for, e cobertura mediática planetária, da mesma forma que todos os amantes do golfe se comoveram ao ver, este ano, Jack Nicklaus (86) e Gary Player (90) no ‘tee shot’ de honra no Masters de Augusta.
Cada coisa tem o seu tempo, e apenas os verdadeiramente grandes conseguem fintá-lo, valendo-se do que foram para justificar o que são. Todos eles merecem o maior respeito porque, nas áreas que escolheram, atingiram patamares apenas acessíveis aos eleitos.
Mas ver Nureyev, em 1991, no Coliseu, e esperar que fosse o mesmo de 1969, no São Carlos, seria, no mínimo, estultícia.
A vida é feita de escolhas, e há quem enverede por esticar o tempo, desde que haja quem lhes permita que o tempo seja esticado. Mas estas coisas correm, normalmente, melhor nos filmes do que na vida real…
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…"
Bicampeões
"Em destaque na BNews, a revalidação do título nacional de futsal no masculino.
1. Título revalidado
No derradeiro jogo da final do play-off da Liga Placard, o Benfica ganhou ao Sporting por 4-3 e sagrou-se Bicampeão nacional, vencendo a competição pela 10.ª vez. Desde 2009 que os encarnados não venciam um título de forma consecutiva.
Na mensagem de felicitações, o presidente do Sport Lisboa e Benfica, Rui Costa, sublinha a "final com a chave de ouro, depois de já terem vencido a Taça de Portugal e a Taça da Liga."
2. Mundial 2026
Siga, no Site Oficial, o desempenho dos futebolistas do Benfica e todos os resultados e marcadores.
3. Distinção
Ivan Baptista, treinador da equipa feminina de futebol do Benfica, foi distinguido na Gala do Treinador do Núcleo de Lisboa da Associação Nacional dos Treinadores de Futebol.
4. Título na formação
O Benfica é tricampeão nacional de hóquei em patins, escalão Sub-17 masculino."
Pois...
A falta de respeito sempre esteve lá, mas foi sempre ignorada porque tinha rendimento em campo, agora não tem rendimento ficamos só com a falta de respeito.
— Doutor Madureira Ⓜ️ (@DoutorMadureira) June 29, 2026
Comemos a carne agora temos que roer os ossos.
P.Bento Queiroz F.Santos, todos saíram chateados com o “capitão”…. pic.twitter.com/E7oA96SpZp
Roberto Martínez e o Suplício Nacional
"Foguetes pela goleada ao Uzbequistão, tão somente o 60.º do ranking FIFA, foram precoces. Mesmo com uma equipa cheia de talento é preciso ter no banco mais do que um diplomata
«I'm back, I'm back», jurava Cristiano Ronaldo depois de mais 90 minutos e dois golos diante do Ubzequistão para acabar com o jejum de 10 jogos sem marcar em fases finais de Europeus ou Mundiais. Perante tamanho feito como golear o 60.º classificado do ranking da FIFA e que nem 40 anos de existência como país independente tem, rapidamente o capitão da Seleção se disponibilizou para falar aos jornalistas.
É pena que tal raramente aconteça quando há nuvens negras e não sol a brilhar, como depois da deprimente estreia frente à RD Congo e, ontem, para ajudar milhões de portugueses a entender o porquê de mais uma deplorável exibição de uma equipa que garante com todas as forças que quer ser campeã do Mundo. Se vai dar Portugal, não será assim e a culpa não é dos jornalistas, comentadores ou adeptos, esses especialistas da maledicência e que só querem dividir uma seleção que, como se tem visto, prima pela união e atitude dentro de campo. Menos quando está calor ou não se tem bola.
Escrevi, depois do 1-1 a abrir, que, pelo menos, o aviso tinha chegado cedo e havia, por isso, tempo para corrigir, mais ainda num formato em que até é possível o apuramento para a fase a eliminar sem se ganhar um único jogo no grupo. Dias depois chegou o fragilíssimo Uzbequistão e o 5-0 serviu, durante algumas horas, para calar aqueles que há tanto tempo querem reformar Ronaldo e dar a Gonçalo Ramos algo mais do que turismo e milhas aéreas ou duvidar da capacidade do espanhol para gerir uma equipa que tem alguns dos melhores jogadores do Mundial e joga como uma das piores que estão nos 16 avos de final. Qualquer semelhança com grande parte do percurso de Martínez na Bélgica será pura coincidência.
Portugal ganhou dois (!) dos últimos seis jogos oficiais —Arménia e Uzbequistão foram as vítimas da façanha — e o selecionador assobia para o lado. Diz que Portugal «está de parabéns» pelo jogo que fez frente à Colômbia e até vê o facto de Diogo Costa ter sido o melhor em campo em Miami como algo positivo.
É uma realidade paralela, mas que não surpreende: Roberto Martínez está no cargo há mais de três anos e há mais de três anos que responde dando voltas à rotunda e fazendo de conta que os problemas não existem.
Mesmo passando a Croácia, nem o mais otimista acreditará que, assim, pode dar Portugal com possíveis duelos com Espanha nos oitavos de final e França nas meias-finais."
Olhar mais para dentro
"Terminada a Fase de Grupos e em três jogos vimos três versões distintas de Portugal. Não tanto pela natureza dos adversários, mas muito mais pela forma como Roberto Martinez continua a não perceber o que tem em mãos.
Frente à RD Congo, Portugal falhou coletivamente no plano ofensivo. A inexistência de jogo interior em virtude de posicionamentos que procuraram sobrecarregar o corredor lateral onde se encontrava a bola foi fatal para que a seleção nacional tivesse apresentado um futebol pouco criativo e dinâmico.
Contra o Uzbequistão, com posicionamentos e comportamentos adequados às características dos jogadores que compunham o onze inicial, Portugal dominou e controlou com bola. Teve jogo interior e jogo exterior. Foi rápido a reagir à perda de bola e eficaz na transição defensiva. O adversário não era de renome, mas coletivamente houve mérito e trabalho luso.
A Colômbia trouxe-nos uma versão portuguesa incapaz nos momentos sem bola e inexistente nos momentos com bola. O onze inicial, ainda que com apenas uma alteração face ao jogo anterior, teve posicionamentos e comportamentos que em nada abonaram a favor de Portugal.
Rúben Neves sem bola a fechar sobre a meia direita para ajudar João Cancelo a fazer 2 vs 1 defensivo sobre Luis Diaz desprotegeu o corredor central, permitindo situações de 2 vs 1 ou 3 vs 2 favoráveis aos cafeteros. Com bola, o médio do Al Hilal não foi 6, mas sim 8, com claro prejuízo para a dinâmica ofensiva da seleção.
Os laterais estiveram sempre muito amarrados taticamente, como se mais importante do que ajudar o ataque fosse não permitir espaços a James Rodriguez e Luis Diaz. Pedro Neto raramente teve apoio por fora, João Félix nunca pôde deambular entrelinhas em zonas interiores porque não havia quem desse largura e profundidade sobre a esquerda.
Portugal tem um dos melhores selecionados deste Mundial. Em quantidade e em qualidade. Individualmente tem alguns dos melhores laterais e médios do mundo. Tem o maior finalizador da História do futebol mundial. Mas não tem o mais importante (ainda): um líder que saiba aproveitar o talento que tem à sua disposição para construir um coletivo forte e competente. Independentemente de quem seja o adversário. Independentemente do estilo de jogo do adversário.
Está na hora de Portugal olhar mais para dentro e menos para fora. Preocupar-se menos com quem vai defrontar e mais com a maneira como quer ganhar. Respeitar, sim, temer, nunca. Ter mais desejo de ganhar do que medo de perder."
As duas estátuas
"Portugal, com a Colômbia, jogou com oito homens e duas estátuas. As estátuas que deveriam ser erguidas, em Miami, a Diogo Costa e a Renato Veiga...
Os portugueses vivem em ambivalência a cada quatro anos. Oscilamos entre a certeza absoluta de que a Seleção Nacional vai ser campeã do mundo e a certeza absoluta de que não somos favoritos, nem candidatos, nem rigorosamente nada. Vivemos entre a noção de que só Luiz Felipe Scolari poderia ter levado Portugal à final de um Europeu e à meia-final de um Mundial e a ideia de que o brasileiro sempre foi, apenas e só, um bom psicólogo e um bom gestor de homens. Por fim, a ambivalência das ambivalências, a rainha de todas as ambivalências: Cristiano Ronaldo. Para uns, é o maior dos maiores, o GOAT dos GOATs, aquele que deve jogar sempre porque é melhor do que Gonçalo Ramos e Gonçalo Guedes, juntos ou em separado. Para outros, Ronaldo está velho, não corre, não se mexe, não defende, não recua e nem sequer devia ter sido convocado, quanto mais jogar 90 minutos atrás de 90 minutos.
Lembro-me sempre da primeira vez que ouvi alguém falar de uma espécie de trazer à terra os jogadores (ou, como neste caso, os portugueses). Um dia, lá por 2004 ou 2005, ouvi José Mourinho dizer algo como isto: se os meus jogadores estão eufóricos, tenho de lhes baixar a euforia; se estão tristes, tenho de os arrebitar. O segredo, no fundo, é recentramento. Ou, como dizem os anglófilos, back to basics. O regresso ao essencial. Mas no futebol, como bem sabemos, é complicado ser racional. Ou é preto ou é branco. Nunca cinzento. Ou é alto ou é baixo. Nunca mediano. Ou é gordo ou é magro. Nunca alguém tem o percentil certo. É aqui que entra a frase futebolística que mais se tem ouvido nos últimos anos e que, apesar de verdadeira, jé demasiado enfadonha, por que tão repetida: «Não éramos os melhores do mundo, nem agora somos os piores». E é verdade.
As ambivalências do momento têm rostos claros: Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo. A ambivalência em redor do selecionador nacional é, contudo, diferente: gira quase sempre em torno do pior extremo. Há quem diga que ele é apenas razoável, enquanto outros dizem que é muito mau. São poucos os que acham que é o homem certo no lugar certo. Era mau quando Portugal empatou com a RD Congo, passou a razoável após a goleada ao Uzbequistão e voltou a descer depois do empate com a Colômbia. Talvez volte a ser razoável se a Seleção ultrapassar a Croácia, e só será medianamente bom se bater a Espanha (ou a Áustria, claro). Foi assim com Fernando Santos antes e depois do Euro 2016. Pelo meio, em França, foi excelente.
Quanto a Ronaldo, os portugueses oscilam, estranhamente, entre o amor e o ódio ao capitão. Ódio quando falha golos como os de Congo e da Colômbia; amor quando marca dois golaços como os que marcou ao Uzbequistão. Talvez dentro de dias voltemos a amar o que hoje alguns odeiam. E se Portugal ganhar o oitavo jogo neste Mundial, os que agora o criticam gritarão GOAT!, GOAT!, GOAT! Tem sido assim de quatro em quatro anos (2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026), ou de dois em dois, se juntarmos os Europeus.
Na minha própria ambivalência, vou oscilando entre o sim, o homem já não pode ser sempre titular e o se não for ele, quem? Só não aceito é que a agressividade chegue ao ponto de dizer que Portugal, frente à RD Congo, jogou com dez homens e uma estátua, como escreveu um jornalista inglês. Prefiro dizer quase o contrário. Portugal, frente à Colômbia, jogou com oito homens e duas estátuas. Mas as estátuas que deveriam ser erguidas, em Miami, a Diogo Costa e a Renato Veiga."
O talento que não joga: a decepção de Portugal no Mundial'2026
"Há algo de profundamente perturbador em assistir a uma selecção que possui, no papel, alguns dos melhores jogadores do mundo e ver que o colectivo não consegue produzir sequer o que qualquer equipa mediana produziria com metade desse talento. Portugal chegou ao Mundial 2026 com o rótulo de candidato ao titulo. Saiu da fase de grupos com cinco pontos, dois empates e um único jogo em que afinal pareceu existir enquanto equipa. A conta não fecha. E o que ficou em campo foi menos que uma desilusão: foi um retrato clínico de uma equipa desorganizada, desmotivada e sem identidade táctica.
A estreia contra a Republica Democrática do Congo, a 17 de junho em Houston, resume tudo. A selecção adiantou-se com o golo de João Neves ao minuto seis, mas rapidamente perdeu o controlo do jogo perante uma congolesa intensa, que acabou por empatar e acumular mais oportunidades, deixando Portugal com apenas um remate enquadrado em todo o encontro. Um remate enquadrado. Contra a Republica Democrática do Congo. Numa fase de grupos de um Campeonato do Mundo. A CNN Portugal resumiu com uma precisão quase cirúrgica: "Eis um Portugal peripatético, mistura de apático e patético, que se perdeu contra a RD Congo a deambular num passeio no parque."
O que se viu não foi infelicidade. Foi ausência O New York Times escreveu sobre Ronaldo com uma crueldade que dói precisamente por ser justa: "Não houve nenhum remate errado, nenhum mau passe, nenhum erro crasso. Nada que alguém pudesse usar para postar nas redes sociais para gozar com ele. Apenas... nada." O Independent foi mais duro: "Dez homens e uma estátua. Portugal sacrifica mais um Campeonato do Mundo ao ego de Cristiano Ronaldo." A Gazzetta dello Sport concluiu na mesma linha: "Portugal desilude, CR7 ainda mais. No Portugal de Martínez, em Houston, havia um problema evidente: Cristiano Ronaldo."
Mas reduzir o problema a Ronaldo seria uma analise cómoda. A exibição apagada de Bruno Fernandes e Bernardo Silva, normalmente motores criativos da equipa, foi alvo de críticas nas redes sociais e nos programas de debate televisivo. Os analistas sublinharam a falta de ligação entre o meio-campo e o ataque, bem como a ausência de desequilíbrios individuais. Portugal tem dois dos melhores médios da Premier League no mesmo onze, e ambos desapareceram contra uma selecção que nem sequer foi para o Mundial com ambições de campeã.
O segundo jogo, a goleada por 5-0 sobre o Uzbequistao, foi a excepção que confirma a regra. Serviu para acalmar o ambiente interno e lavar a imagem pública, mas nunca foi teste a nada. Roberto Martinez retirou Vitinha, considerado o melhor médio do mundo nos últimos dois anos, para colocar Samu Costa. O jogador do PSG teve uma Copa bem abaixo do esperado. Os aplausos à goleada funcionaram como anestesia. O problema estava a dormir, não resolvido.
Chegou o terceiro jogo, a Colômbia, aquele que diria onde Portugal realmente esta. A Colômbia foi quem mais teve a bola, quem mais atacou, quem mais rematou, quem mais mereceu ganhar. Muitas vezes recuava e fazia pressão média, mas depois, quando ganhava a bola, acendia o fogo e transformava cada duelo numa batalha física. Portugal pareceu sempre conformado. E quando assim é, deixou de jogar o futebol que melhor sabe. No final, Portugal saiu com um empate que deve mais à estatura de Diogo Costa do que a qualquer mérito colectivo. A Marca ficou convencida de que os portugueses teriam perdido se não fosse a ineficácia contrária e a actuação do guarda-redes Diogo Costa, eleito melhor jogador em campo pelo diário espanhol.
Esta selecção continua a viver muito mais da qualidade individual do que da força colectiva. Continua a depender de um rasgo, de um momento de génio ou de uma inspiração pontual para desbloquear jogos que, colectivamente, raramente desbloqueia. O diagnóstico não podia ser mais preciso. E e precisamente essa a natureza do problema com Roberto Martinez. Os resultados permanecem aceitáveis do ponto de vista estatístico mas as exibições continuam demasiado inconsistentes sempre que aparecem adversários de maior qualidade. Há talento suficiente para aspirar a muito mais do que aquilo que esta equipa tem mostrado, e talvez seja precisamente essa a maior frustração porque poucas selecções presentes neste Mundial apresentam tanta qualidade individual espalhada por praticamente todos os sectores.
O treinador espanhol recusa o papel de responsável Depois do empate com a RD Congo, Martinez disse em conferencia de imprensa: "Desde o primeiro dia em Portugal, não tive um dia sem barulho." Prometeu autocrítica garantiu que os últimos 25 minutos foram muito maus. Palavras que ecoaram no vazio. Após a Colômbia, admitiu que não foi um jogo da forma que Portugal quer, mas defendeu Ronaldo e disse que a equipa reagiu bem durante todo o jogo. Para quem viu o jogo, a afirmação é desconcertante. A análise internacional foi directa: Martinez fez escolhas de onze confusas e, fora de um jogo, ainda não encontrou a melhor utilização do seu jogador mais mediático. A esta selecção falta directividade no ataque, e isso é responsabilidade do treinador.
Existe um padrão histórico que não deixa de provocar desconforto. Portugal tem acumulado demasiadas dificuldades precisamente nas ultimas jornadas das fases de grupos, quando precisa de confirmar uma posição mais favorável ou dar um passo competitivo em frente. Aconteceu em diferentes gerações, em diferentes competições e com diferentes protagonistas. O que muda, edição após edição, são os rostos. O problema estrutural permanece intacto.
Portugal apurou-se para os 16 avos de final como segundo classificado do Grupo K, com cinco pontos, fruto de uma vitoria e dois empates, e vai defrontar a Croácia em Toronto. O desempenho nesta fase de grupos acaba por ser razoável mas longe de ser entusiasmante. Uma selecção com Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Vitinha, Joao Neves, Rafael Leão, Pedro Neto e Ronaldo não pode ter razoável como ambição aceitável num Campeonato do Mundo.
Talvez seja essa a maior tragédia desta geração portuguesa: não e a falta de talento. E saber que o talento esta la, disponível fardado e em campo, e ver que ninguém sabe, ou quer, transformá-lo em jogo. Um treinador que não encontra o seu melhor onze ao terceiro jogo da fase de grupos, numa selecção sem lesões de relevo, e um treinador com um problema que não é de calendário. É de método E métodos não se corrigem em madrugadas de eliminatória.
O Campeonato do Mundo de 2026 ainda pode ser diferente. Os torneios a eliminar tem essa memoria curta. Um jogo muda tudo. Mas a questão que Portugal devia fazer a si próprio não é se vai passar a Croácia. A questão é: com este Portugal, ate onde é honesto acreditar?"
Scaloni curou Messi e a Argentina agradece
"Talvez seja a maior vitória de Lionel Scaloni, o treinador capaz de aliviar a obrigação de Lionel Messi de carregar sozinho um país inteiro que se alimenta de futebol como poucos.
Qualquer aprendiz de feiticeiro com formação em futebol é capaz de operacionalizar um treino, organizar taticamente uma equipa, escolher um onze e fazer evoluir um jogador, as missões básicas de um treinador seja de que modalidade for. E depois há os predestinados, aqueles que conseguem algo raro — criar uma comunidade.
Lionel Scaloni pertence a esse lote restrito. O mérito do selecionador argentino não se resume aos títulos, um Campeonato do Mundo (2022) e duas Copas América (2021 e 2024), as principais competições a que uma seleção sul-americana pode almejar. O grande legado do antigo defesa/médio, hoje com 48 anos, é a capacidade de transformar um conjunto de estrelas numa família. Uma obra invisível aos olhos das estatísticas, mas fundamental para o brilho dos números que ostenta no currículo.
Na sexta-feira, 26 de junho, completaram-se 10 anos do anúncio de Lionel Messi de que se ia retirar da alviceleste. Aos 29 anos, acabara de perder a Copa América de 2016, a quarta final seguida sem erguer a taça em disputa, após o Mundial-2014 e a Copas Américas de 2007 e 2015. As comparações com o passado glorioso de Diego Armando Maradona e a pressão para repetir feitos só ao alcance de D10S — a epopeia do México-1986 e a saga do Itália-1990 — produziram um ambiente tóxico que asfixiou a pulga, uma pulga que, ao serviço do Barcelona, saltava feliz ao ritmo de Bolas de Ouro. A camisola argentina pesava mais do que inspirava.
Sem discursos públicos grandiosos ou murros na mesa no balneário, Lionel Scaloni inverteu estado de espírito sombrio através da proximidade com os jogadores, da simplicidade de processos e da criação de um espaço onde todos se sentem importantes e dividem responsabilidades à medida do respetivo talento. É impossível dissociar esse processo da relação construída com Messi. O capitão encontrou, finalmente, um contexto em que mantém o estatuto de génio e líder, agora rodeado por colegas dispostos a correr e sofrer por ele para, depois, tocarem o céu.
Talvez seja a maior vitória de Scaloni, o técnico capaz de aliviar a obrigação de Leo de carregar sozinho um país inteiro que se alimenta de futebol como poucos.
Nos pequenos gestos, continua a ver-se união dentro e fora de campo, tal a forma como os suplentes vibram com as façanhas dos titulares neste Mundial. Nos festejos, a identidade desta Argentina revela-se em absoluto. Não há protagonistas isolados nem coreografias ensaiadas a pensar em likes nas redes sociais. Assistimos, isso sim, a corridas desenfreadas para o banco, abraços que envolvem futebolistas, treinadores e elementos do staff, uma felicidade genuína. A impressão é a de que cada golo pertence ao coletivo, independentemente de quem o assinou.
A Scaloneta mostra que o futebol de seleções exige bastante mais do que apenas qualidade técnica e tática. Sem sentido de pertença, não há equipa que resista. Quando um grupo acredita verdadeiramente no companheiro ao lado, os momentos difíceis tornam-se mais suportáveis e as glórias ganham outro significado.
Do Campeonato do Mundo de 1982, o primeiro de que tenho memória, além do Naranjito e da desilusão com a eliminação do Brasil aos pés de Paolo Rossi, guardo a imagem de Marco Tardelli a celebrar o segundo golo da Itália no triunfo, por 3-1, sobre a Alemanha na final do Santiago Bernabéu. Um grito de emoção louca e incredulidade com a proeza que protagonizara.
Quarenta anos volvidos, no Qatar-2022, Lionel Scaloni fez-me lembrar o antigo internacional transalpino. Gonzalo Montiel batera Hugo Lloris e a Argentina sagrava-se campeã mundial no desempate por penáltis após sensacional 3-3 nos 120 minutos.
Scaloni pareceu estranhar e antes de entranhar a dimensão da conquista estava hipnotizado, quase sem reação. Quando despertou, benzeu-se e chorou convulsivamente como um vulcão que entra em erupção. A explosão de alguém que sentia que os seus recebiam a recompensa merecida.~
(Cada vez que vejo o esplendor na relva de Tardelli e Scaloni não consigo evitar emocionar-me).
Scaloni será recordado pelos troféus, porque é assim que o futebol costuma escrever a história. Mas, antes de construir uma seleção dominadora, estruturou um exército que gosta de combater junto e devolveu Messi à Argentina. O segredo que distingue os bons treinadores dos verdadeiramente especiais."
Deustáquio e Paz na Scaloneta
"Nico Paz será dos poucos jovens craques neste Mundial que ainda não convenceu o seu selecionador a entregar-lhe a titularidade. Percebe-se porquê. Dez canhoto já tem um e é, pelo menos, um dos dois melhores de sempre. Não sendo Messi, Maradona. Não sendo Maradona, Messi. Ainda assim, Scaloni convocou-o, utilizou-o no primeiro jogo e não teve medo de integrá-lo na rotação quase completa que fez diante da Jordânia.
Claro que o risco era nulo, mas ainda assim teve pequenas conquistas. Uma delas foi mostrar a Paz que está logo ali, perto dos titulares, outra foi acabar com o jejum de Lautaro. Lo Celso, Paredes e Simeone ganharam ritmo, só faltou tirar Julián Álvarez debaixo do peso do momento, o pedido de saída que fez ao Atlético Madrid. Ah. Messi descansou. E ainda assim voltou a tempo de assinar mais um belo golo.
Paz quis fazer muitas coisas, por vezes demasiado depressa, mas deixou rasto do seu enorme talento. Sabe que Scaloni está atento. Tal como ele, quando prefere o Como de Fàbregas ao Real de Mourinho. Escolheu jogar e os que gostam dele.
O Canadá continua a fazer história e qualificou-se pela primeira vez para os oitavos de final. Excelente trabalho do norte-americano Jesse Marsch, 'formado' na Red Bull, que está a potencializar aquela que é a geração de ouro do país. O golo foi de Stephen Eustáquio, num momento de indefinação da carreira, em jogada que mostra as suas características: capacidade de chegada e raciocínio rápido, após o domínio no peito. O remate eleva-o à condição de herói. Não se sabe onde continuará a jogar, mas aqui o português até ajuda mais ao trocadilho do que o inglês. Será Deustáquio por muitos anos."
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