"Há empresas que desaparecem porque o mundo muda e deixa de precisar delas. Há outras que desaparecem, ou estiveram em vias disso, porque, durante demasiado tempo, se esquecem daquilo que as tornou grandes. Com os clubes é exatamente igual.
Hoje parece difícil imaginar, mas a Apple em 1997 era uma empresa em declínio. Anos de decisões erradas, produtos a mais, prioridades a menos e sucessivas mudanças de liderança tinham transformado uma das empresas mais inovadoras do mundo numa organização à procura de uma razão para continuar a existir.
A empresa não tinha deixado de ter talento. Não tinha perdido a sua história, nem recursos. Tinha perdido uma coisa mais decisiva: energia.
Foi nesse momento que Steve Jobs regressou. E antes do iMac, do iPod ou do iPhone, Jobs recuperou uma coisa que não aparecia nos balanços da empresa: a crença de que a Apple podia voltar a fazer coisas extraordinárias.
O Benfica destes dois últimos meses voltou a transmitir energia e devolveu aos adeptos a crença de que pode voltar ao topo. A comparação com a Apple é propositadamente exagerada, mas nem por isso deixa de haver semelhanças de contexto.
Depois de anos de enorme instabilidade, sucessivos treinadores, investimentos desproporcionados, contratações discutíveis, muitas falhadas, e uma equipa incapaz de transmitir aos adeptos a dimensão do clube, começou a instalar-se algo particularmente perigoso numa grande instituição: a normalização da mediocridade.
É por isso que o trabalho de Marco Silva nestes primeiros meses merece ser olhado para além dos resultados. Herdou problemas do passado e ainda trabalha sobre erros acumulados durante demasiado tempo, mas já conseguiu uma coisa que há poucos meses parecia difícil: recuperou a ambição da equipa. E, numa grande organização, recuperar a ambição pode ser o primeiro passo para recuperar tudo o resto. O Benfica de Marco Silva voltou a transmitir energia.
Isso não significa que tudo mude de repente e que o Benfica volte a ganhar o que deve ganhar. O futebol tem demasiadas variáveis para permitir esse tipo de certezas, mas significa que voltou a parecer possível.
As grandes organizações renascem quando alguém consegue alterar o estado de espírito coletivo e transformar resignação em ambição. Marco Silva está a conseguir fazê-lo, esperemos que tenha companhia dentro da SAD."

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