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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Don Quixote de La... Fuente


"Pena Portugal ter ficado com o espanhol errado. É impressionante o que se pode alcançar quando não importa quem leva o crédito.

No final do jogo com a Argentina, Luís de la Fuente sente-se um Don Quixote. Mas não é Cervantes que cita. É Júlio Iglésias, o cantor preferido. «Soy de aquellos que sueñan con la libertad... soy Quijote de un tiempo que no tiene edad». E maior liberdade não existe que vencer com as suas próprias convicções, sem cedências, conquistando a imortalidade, uma idade que não se mede em anos.
Aos 65 anos, Luís de la Fuente aparece amadurecido em pipas de carvalho. Como o fruto das castas da La Rioja natal, capital espanhola do vinho. Um processo lento, sem atalhos, que demorou décadas até atingir o esplendor máximo servido numa taça. A força vem do respeito pela natureza; vem da terra; da sabedoria de anos: do saber escutar os mais velhos. A força vem de olhar o céu, saber as horas pelo sol e contar as luas. Crescer no País Basco e passar peça formação no Athletic Bilbao refinou esse caráter — um clube histórico marcado pela ética de trabalho, solidariedade e forte sentido de identidade coletiva.
Esta Espanha não é feita de individualidades. Não é mais nem é menos do que a soma das partes. É a soma das partes. Não é a fúria espanhola que rompe caminho; não é o tiki-taka que desliza no relvado. É uma alquimia de redução de tudo à máxima simplicidade da eficácia. É dominar, com tranquilidade, segurança e competência, todos os momentos do jogo. É pensar e decidir bem em cada segundo. Espanha é aquele motorista que nos inspira segurança, mostra sempre que sabe o que está a fazer.
Estava a escrever este artigo quando recebo a notificação da morte de Luís Represas. Mas não são as canções que me vêm de imediato à cabeça. É o livro infantil «A Coragem de Tição», publicado em 2010. Tição é um pequeno cavalo-marinho. Vive com a sua família e amigos, rodeado de peixes perigosos e assustadores. É através do convívio e da entreajuda com os amigos que Tição descobre a força interior. Mais do que bravura física ou força, a verdadeira coragem que o pequeno cavalo-marinho demonstra vem da solidariedade, da empatia e do amor pelos outros.
Luis de la Fuente, o agricultor que, na federação, lançou a semente à terra e foi colhendo os frutos. Um líder discreto, sereno, sábio. Um excelente gestor de egos. Que me remete para uma brilhante reflexão de Harry S. Truman, antigo presidente dos Estados Unidos: «É impressionante o que se pode alcançar quando não importa quem leva o crédito.» Por norma, essas pessoas preferem desfrutar a caminhada do que o reconhecimento da meta. Até porque a meta não existe em absoluto, é sempre um ponto de partida para outra caminhada.
Seis séculos antes de Cristo nascer, já o pensador Lao Tsé defendia que «um líder é melhor quando as pessoas mal sabem que ele existe; Quando o seu trabalho está feito e o seu objetivo cumprido, elas dirão: fomos nós que o fizemos…» É esse um segredo dos mestres. Como Luis de la Fuente."

O trigo, o joio e a coragem de decidir


"Mal termina uma grande competição, começa o julgamento. Uma seleção jogou “com classe”, outra foi “desonesta”. Multiplicam-se veredictos morais nas bancadas e nas manchetes, como se a legitimidade de uma vitória pudesse decidir-se no calor da indignação. Não pode. A legitimidade desportiva conquista-se em campo e só pode ser posta em causa por prova e por processo.
Não é um detalhe. É o princípio que sustenta a credibilidade do desporto. Uma seleção é campeã porque venceu segundo regras iguais para todos. Se infringiu essas regras — por dopagem, manipulação de resultados ou corrupção — o desporto dispõe de mecanismos para o apurar e sancionar: regulamentos, arbitragem, autoridades antidopagem e tribunais desportivos. A sanção deve ser firme, mas apenas quando assente em factos demonstrados e em decisões fundamentadas. Nunca em suspeitas ou na pressão da opinião pública.
Confundir suspeita com prova é o erro que a parábola do trigo e do joio descreve há dois mil anos. Quando os servos quiseram arrancar de imediato as ervas daninhas, foi-lhes dito que esperassem pela ceifa, para não destruírem também o trigo. No desporto acontece o mesmo. Quem julga antes do tempo arrisca-se a condenar o mérito legítimo em nome de uma certeza que ainda não existe.
Esta prudência não diminui a competição; protege-a. A competição, regulada e aceite por todos, transformou a rivalidade entre povos numa forma pacífica e civilizada de confronto. É uma conquista da civilização, não um instinto a reprimir. Competindo sob regras comuns, aprendem-se disciplina, esforço, superação, respeito pelo adversário e capacidade para aceitar a derrota. Defender a integridade do desporto é, por isso, defender a própria competição.
Quem garante, então, que ao longo do tempo o mérito é reconhecido e a fraude punida, sem que uma coisa se confunda com a outra? Não são os comentadores nem a indignação do momento. São as instituições. Jean Monnet sintetizou-o de forma exemplar: «Nada se faz sem os homens, mas nada perdura sem as instituições.» Um atleta conquista uma medalha; é a instituição que garante que essa medalha terá o mesmo valor daqui a vinte anos.
Mas as instituições não existem por si. Vivem da qualidade de quem as dirige. Não falo de quem aplica mecanicamente regras estabelecidas. Falo de quem tem a responsabilidade de decidir, fazer cumprir e assumir as consequências das suas decisões. A integridade de um líder não se mede pelos discursos nem pelos comunicados. Mede-se quando chega o momento de decidir, de escolher um princípio em vez da conveniência e de sustentar essa escolha quando ela tem custos.
O maior inimigo dessa integridade raramente é a corrupção ostensiva. É o unanimismo: a tentação de adiar decisões difíceis para não desagradar, de procurar consensos vazios em vez de exercer liderança. Quem age assim não decide; contemporiza. Evita o conflito quando deveria afirmar um princípio e, ao proteger-se do incómodo, acaba por proteger quem devia responsabilizar. Não é prudência. É cobardia disfarçada de equilíbrio.
Por isso, a falha de um dirigente é mais grave do que o erro de um atleta. O atleta viola regras; o dirigente que se recusa a decidir enfraquece a autoridade das próprias regras. A maior ameaça à integridade do desporto raramente é o escândalo que chega aos jornais. Para esse existem investigação, processo e sanção. O verdadeiro risco é a erosão silenciosa provocada por decisões adiadas, compromissos oportunistas e lideranças sem coragem.
Separar o trigo do joio nunca foi tarefa da bancada. É missão de instituições suficientemente fortes para respeitar o tempo da prova e de líderes suficientemente íntegros para, chegada a ceifa, terem a coragem de fazer a colheita — mesmo quando isso significa decidir contra os seus próprios pares."

Pois...

Terceiro Anel: Planeta - ANÁLISE FINAL DO MUNDIAL: Final, Melhor Equipa, Melhor Jogador, GR, Revelação e Reflexão Final!! 🏆⚽️