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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O João Palhinha de sempre agora num palco diferente


"Os sentimentos são abstratos mas a exibição do novo ai-Jesus dos adeptos encarnados foi bem realista. O grego Pavlidis coloca o Benfica a dançar como Zorba

Samuel Soares (5) — Bem poderia ter levado uma cadeira para assistir ao jogo e poucas vezes precisaria de se ter levantado. Teve uma noite bastante tranquila, dada a inépcia ofensiva do Estoril até à reta final do encontro, momento em que Begraoui o bateu num remate em que não teve qualquer hipótese.

O melhor em campo: João Palhinha (7)
É o novo ai-Jesus dos adeptos benfiquistas, não tivesse ele sido formado no arquirrival e estado no pensamento dos dirigentes do outro lado da Segunda Circular. Mas os sentimentos são abstratos e a exibição de João Palhinha não foi um filme de Buñuel ou um quadro de Salvador Dali, mas sim do realismo que a todos habituou. Portanto, o palco pode ter mudado mas o médio foi de sempre: intenso, físico, líder e organizador. Podem mudar as cores, não muda a atitude. Foi a primeira amostra, mas os tubos de ensaios não partiram na experiência. Não entrou de início mas entrou diretamente para o coração dos seus novos apaixonados. Parece incontestável que está encontrado o titular para a posição 6. O investimento encarnado foi forte, porém, a rentabilidade desportiva será, ao que tudo indica, alto. Mas foi só o primeiro jogo...

Bah (6) — Muita propensão ofensiva a dinamizar o flanco direito, sem demonstrar ter saído de um período de paragem prolongada. Não é um lateral dado a grandes espalhafatos, no entanto, cumpre com eficácia.

Tomás Araújo (5) — Passou ao largo de trabalhos forçados e até deu bons indicações na capacidade de construção. Contudo, falhou no posicionamento no golo canarinho, visto que era o responsável por fechar a marcação a Begraoui.

Lenglet (6) — Ninguém lhe retira o mérito do golo marcado, daqueles para ver e rever incansavelmente. Todavia, a principal missão de um defesa continua a ser defender, e na abordagem a Begraoui demonstrou excessiva brandura. Com maior contundência (e sem arriscar o penálti), poderia ter travado o remate certeiro do franco-argelino.

Dahl (6) — Participou no lance do primeiro golo e soltou-se na fase final do encontro, obrigando Joel Robles a uma grande defesa (77’). Numa altura em que ganha ritmo e confiança, chega El Karouani para aumentar a concorrência. Mas assim é a vida de um futebolista.

Barrenechea (6) — Estava a funcionar como a placa giratória do meio-campo, aplicando variações de jogo interessantes, até ao instante em que sofreu um choque e ficou lesionado. Ainda tentou continuar em sacrifício, mas o corpo cedeu e teve de ser substituído, acabando com o prémio limão pelo azar. Porém, a julgar pela amostra, terá de evoluir bastante para discutir a titularidade. Leandro Barreiro (5) — Menos intenso do que o habitual e com pouca presença em zonas de finalização. Manteve a entrega exemplar de costume, mas pecou na falta de lucidez. Numa avaliação escolar, não passaria de um 'suficiente'.

Rafa (5) — Sem o espaço habitual na profundidade para explorar as costas da defesa adversária, foi tentando criar perigo, mas desta vez até os passes saíram sem a precisão habitual. Louve-se o empenho, mas a exibição ficou-se por aí.

Sudakov (5) — Continua a acusar um problema já antigo: as ideias são excelentes, mas a execução deixa a desejar. E a prática é o critério da verdade, pouco mais há a dizer sobre a exibição do ucraniano. Nota positiva, ainda assim, para a fluidez que conferiu à circulação de bola, embora longe das imediações da área.

Prestianni (7) — Se a FIFA criou a ‘Lei Prestianni’ por causa do célebre jogo com o Real Madrid, o argentino assina agora uma nova norma no universo encarnado: a da qualidade de jogo constante e tomadas de decisão acertadas, ainda que sem o brilhantismo fulgurante demonstrado frente ao Aarhus.

Pavlidis (7) — Tal como no clássico do cinema 'Zorba, o Grego', em que Anthony Quinn imortalizou uma dança marcante, este Benfica também se exibe ao ritmo da música grega de Vangelis Pavlidis. Trabalha incansavelmente para o coletivo e, quando a equipa entra em apuros, surge o golo do camisola 14 a desbloquear a partida. Já soma 11 tentos esta temporada.

Schjelderup (5) — Colou-se à ala esquerda e teve reduzido impacto na partida. Ofereceu mais vertigem, mas revelou muito menos critério do que Prestianni.

Gonçalo Moreira (4) — Denotou muita vontade, mas faltou-lhe discernimento nos momentos de decisão.

Durán (5) — Bastante rotação e correria, contudo esteve pouco em jogo.

Lukebakio (3) — Uma exibição inconsequente e pontuada por demasiada displicência."

Sete jogos em agosto podiam ter acabado com um desgosto


"O Benfica ainda não tinha apanhado, esta época, pela frente, um 'autocarro' clássico. Se a isto juntarmos uma exibição mais esforçada e menos fulgurante dos encarnados (fizeram sete jogos no mês findo) e uma série de golos falhados, ao Estoril, mesmo sem ter apostado, podia ter-lhe saído o Euromilhões…

Liga Portugal Betclic Por muito que Marco Silva se tenha esforçado em rodar a equipa, a verdade é que a fatura dos seis jogos ‘excedentes’ que o Benfica fez para aceder à Liga Europa, tinha, forçosamente, de chegar.
Contra um Estoril-Praia que fez profissão de fé no 5x4x1 em frente a Robles, os encarnados não conseguiram ser asfixiantes como noutras alturas, circularam a bola com maior lentidão e previsibilidade, e o tempo foi-se escoando com o guarda-redes espanhol dos canarinhos a ter uma primeira metade quase toda de descanso. Sem hipótese de defesa, quer no golo de Pavlidis, quer na bola que Sudakov à barra, Robles esteve de férias até aos 45+2 e a seguir, em dois minutos fez três defesas de bolas-golo, uma de Pavlidis, outra de Rafa e outra de Barreiro.
O Benfica, que tinha assinado uma primeira parte sonolenta, foi para o intervalo a dever-se uma vantagem mais dilatada, contra um Estoril que se limitava a manter as linhas baixas e juntas, povoar a zona central, e defender, defender, defender…Mas houve alguma modificação tática no conjunto encarnado dos jogos anteriores para este? Nenhuma. Apenas se alterou a dinâmica, e este ‘apenas’ teve muito que se lhe dissesse. Com algumas unidades abaixo do que habitualmente rendem, especialmente Barreiro, que se deixou antecipar a meio-campo demasiadas vezes e Rafa, que não esteve nas suas noites, e outras, como Sudakov, na alternância bom-mau do costume, o Benfica controlou sem entusiasmar até ao toque a rebate já nos minutos de compensação.
Quando a equipa da Luz marcou (40) pensou-se que o Estoril ia deixar o autocarro na cabina e afoitar-se um pouco mais. Não foi essa a opção de Vasco Matos, que entendeu que qualquer bola parada ou ressalto favorável à sua equipa podia dar em golo. Ao intervalo trocou Xeka, lesionado, por Holsgrove, e não perdeu com a troca porque o escocês deu mais critério e poder físico ao meio campo dos canarinhos. Quem também não perdeu com a troca foi Marco Silva quando mandou a jogo, na sequência de uma lesão de Barrenechea aos 30 minutos (o futebol pode ser muito cruel!), João Palhinha. O internacional português entrou bem, apoderou-se de um raio de ação bastante vasto e tivesse ele um Leandro Barreiro mais inspirado no duplo-pivot e o andamento do Benfica seria outro.

'Monsieur' Lenglet
Estavam os benfiquistas a dizer mal da vida, porque a sua equipa não regressara do descanso com a mesma pedalada alucinante da fase derradeira da primeira metade, quando Clément Lenglet, em pezinhos de lã, subiu no terreno e a 29 metros do risco de golo arrancou um petardo a 108 Km/h (a tecnologia é fantástica) que tornou infrutífera a estirada de Joel Robles.
Com 2-0, parecia evidente que o Estoril tinha de trocar o autocarro por um veículo ligeiro. Nada. Tudo na mesma, e quando, aos 71 minutos, mandou a jogo Peixinho, Fabrício e Pedro Carvalho, foi Tsoungui a baixar para central, porque o 2-0 para o Benfica podia ser reversível, o 3-0 já não.
Aliás, Vasco Matos sabia bem como empatara, ao serviço do Santa Clara, na Luz, no jogo que abriu o caminho para o despedimento de Bruno Lage, dias depois, após uma derrota com o Qarabag. Do outro lado, porque nem com Schjelderup a criatividade vinha à tona, a melhoria não era grande, mas suficiente para ir tornando Robles na figura do Estoril, evitando que o marcador se avolumasse (que grande defesa a remate de Dahl, 77, com a Luz a gritar golo!).
Marco Silva, aos 80 minutos, lançou Lukebakio para espevitar as alas, Durán para dar mais luta na área e Gonçalo Moreira para ter bola, na expetativa de um avanço no campo do Estoril, então já sem nada a perder. Porém, na primeira jogada de perigo dos forasteiros, Begraoui fez de Pavlidis (golos semelhantes) e encurtou distâncias.
Estavam jogados 82 minutos e viram-se entrar no relvado da Luz todos os fantasmas de desaires passados nos minutos finais, que bem caro custaram aos encarnados. As bancadas gelaram e um nervoso miudinho apoderou-se de mais de 60 mil almas benfiquistas, temerosas não daquilo que o Estoril estava a fazer (não criou qualquer oportunidade), mas daquilo que podia acontecer. Vasco Matos, tal com há um ano, em que Otamendi teve um erro garrafal e o Santa Clara chegou a desoras ao empate, tentou que lhe saísse novamente o Euromilhões sem fazer qualquer aposta, e manteve os caminhos da baliza de Robles fechados, à espera de que a ansiedade encarnada lhe permitisse chegar ao ponto desejado. Porém, com um raio não cai duas vezes no mesmo sítio, o Benfica acabou, justamente, com os três pontos.
Principal ilação que Marco Silva deve tirar? Há jogadores que precisam de uma cura de repouso, depois de um mês de agosto com sete jogos oficiais, uma violência que já está a passar fatura. Boa notícia da noite para o técnico encarnado? João Palhinha, em estilo veni, vidi, vici, pegou na batuta e, pela sua forma de atuar, que tanto dá para ser terceiro central como um seis que tem um alcance XL, irá permitir outras aventuras a quem jogar sob sua proteção. Uma nota para Sudakov: está melhor, mas não suficientemente melhor para ser o playmaker do Benfica à velocidade que Marco Silva quer que a sua equipa jogue. Vamos ver o que nos diz o fim do mercado e as opções de que o ex-treinador do Fulham passará a ter. Porque com a equipa a dar naturais sinais de pouca frescura, ou o plantel tem profundidade e qualidade, ou opções difíceis terão de ser feitas mais lá para a frente…"