Últimas indefectivações
domingo, 9 de agosto de 2026
Petição...
A petição entregue pelo Benfica na AR, a solicitar a suspensão do projeto de direitos audiovisuais da Liga, é um ato instrumental de um clube tão interessado no futuro do futebol portugueses quanto do seu proprio interesse. Não é uma opinião solitária sem alcance coletivo. 👇
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) August 8, 2026
Pelo futuro do futebol português
"Petição à Assembleia da República
Pela suspensão e revisão do Modelo de Centralização dos Direitos Audiovisuais
O futebol português é um património coletivo, com uma importância desportiva, social, cultural e económica que ultrapassa os interesses de qualquer clube. As decisões que determinarão o seu futuro devem assentar em transparência, rigor, responsabilidade e respeito pelos princípios do Estado de Direito.
Os cidadãos abaixo-assinados, ao abrigo do direito de petição consagrado no artigo 52.º da Constituição da República Portuguesa e regulado pela Lei n.º 43/90, de 10 de agosto (Lei do Exercício do Direito de Petição), vêm expor e requerer o seguinte:
I. Objeto da Petição
A presente petição visa requerer à Assembleia da República a suspensão da implementação do atual modelo até à realização de uma avaliação técnica, económica e jurídica independente do modelo de centralização dos direitos audiovisuais do futebol profissional e a sua respetiva revisão.
II. Razões
A presente iniciativa assenta no pressuposto de que uma reforma desta dimensão deve assentar em pressupostos técnicos sólidos, transparência e ampla participação dos principais interessados.
1. Modelo desajustado à evolução do mercado audiovisual
Desde a aprovação do atual modelo até aos dias de hoje, a evolução tecnológica e as novas formas de distribuição e consumo de conteúdos desportivos alteraram profundamente o mercado, impondo a revisão das soluções inicialmente previstas.
2. Ausência das reformas estruturais indispensáveis à valorização do futebol português
Apesar do tempo decorrido desde a aprovação do modelo, continuam por concretizar diversas reformas estruturais essenciais para aumentar o valor e a competitividade do futebol português, nomeadamente ao nível das infraestruturas, da experiência de estádio, da arbitragem, da internacionalização das competições e do combate à pirataria, ao qual se soma a ausência de uma verdadeira concorrência no mercado audiovisual, comprometendo a valorização do futebol português.
3. Risco de destruição de valor económico e patrimonial
Os direitos audiovisuais representam uma das principais fontes de financiamento dos clubes. Qualquer alteração ao modelo deve assegurar que não coloca em causa a sua capacidade de investimento, a competitividade das competições e a sustentabilidade do futebol português. Um modelo que determine uma redução significativa do seu valor compromete receitas, investimento, competitividade e sustentabilidade financeira do futebol profissional português, podendo inclusive levar à falência e extinção de muitos clubes.
III. Pedido
1. Determinar a suspensão imediata do modelo de centralização dos direitos audiovisuais.
2. Promover e assegurar a revisão do atual modelo, o qual deve ser baseado num modelo de adesão voluntária dos clubes e resultar de um processo de consulta transparente e participado por todos os agentes do setor.
3. Garantir que qualquer modelo futuro respeita os princípios da sustentabilidade económica, da concorrência, da transparência e da valorização do futebol português.
4. Salvaguardar que o capital social da entidade responsável pela centralização permaneça sob a titularidade e controlo dos clubes profissionais, impedindo a sua abertura a investidores privados externos e preservando a autonomia estratégica do futebol português.
IV. Conclusão
O atual modelo exige uma reavaliação. Importa garantir que a centralização dos direitos audiovisuais contribui para valorizar o futebol português, protegendo a sua sustentabilidade, competitividade e interesse estratégico.
Não poderá nunca a centralização ser sinónimo de desvalorização e/ou retrocesso.
A centralização dos direitos televisivos foi concebida para reforçar os clubes, valorizar o futebol português e potenciar as suas receitas, pelo que nunca poderá transformar-se num fator de perda de receita, de fragilização financeira ou de redução da competitividade dos clubes, tanto a nível nacional como internacional.
Nestes termos, os peticionários solicitam à Assembleia da República que determine a suspensão imediata do modelo de centralização dos direitos audiovisuais e promova a respetiva revisão.
O futuro do futebol português não pertence a um clube, a uma liga ou a uma geração. Pertence a todos.
*Por isso, as decisões que hoje forem tomadas devem assentar em transparência, responsabilidade, rigor técnico e respeito pelos princípios do Estado de Direito. Porque proteger o futuro do futebol português é uma responsabilidade coletiva."
AURSNES CAPITÃO QUE GRANDE ESCOLHA!
"1.
Escrevi na fotografia "o meu capitão" porque há muito que defendo essa escolha, há muito que o vejo como um capitão, há muito que desejava ver-lhe a braçadeira no braço. Passou agora a ser "o nosso capitão", o grande capitão de todos nós, excelente decisão de Marco Silva.
2.
Entre os muitos atributos que se reconhecem a Aursnes, destaco a forma como trabalha em prol do coletivo, como põe os interesses do todo acima dos interesses individuais, ou, como diria o grande cronista brasileiro Nelson Rodrigues, "até quando espirra é em favor da equipa".
3.
Aursners pode não ter a exuberância de Otamendi, e não tem, sabemos, mas é um exemplo de entrega e abnegação, de comando sóbrio e discreto, de modéstia na disponibilidade, que é total, de exemplar profissionalismo também.
4.
Havendo muitas formas de capitanear um grupo, o exemplo é uma delas - e é, por sinal, a forma de liderança que mais admiro. Pois bem: se todos no grupo profissional do Benfica seguirem o capitão na atitude, e especialmente no altruísmo, um importante primeiro passo rumo ao sucesso terá sido dado: Et Pluribus Unum!
5.
Querem que vos diga o nome de um grande capitão da nossa história cujo perfil Aursnes muito me faz lembrar? Aqui vai: Shéu Han! Não é coisa pouca, não senhor, mas acredito muito que Aursnes será digno da pesada herança do Shéu e de outros grandes capitães que tivemos no passado. Toda a sorte do mundo para ti, capitão Fredrick!"
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O Benfica arranca, amanhã, o seu caminho na liga portuguesa. Como já se percebeu pela interdição do estádio e da nomeação de um arbitro da AF Porto - à qual pertence um árbitro que falseou um relatorio para prejudicar o Benfica - será um caminho de pedras. pic.twitter.com/NYEtxQs1fR
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) August 8, 2026
O dia em que o futebol inventou o medo
"Durante muito tempo, o futebol não soube o que fazer quando ninguém ganhava. Talvez porque, no fundo, nunca tenha sabido muito bem o que fazer com a igualdade. Havia jogos que terminavam empatados e tinham de ser repetidos. Outros eram resolvidos por sorteio. E houve até eliminatórias entregues à mais absurda das autoridades desportivas: uma moeda lançada ao ar. Duas equipas jogavam durante 120 minutos, corriam até já não sentirem as pernas, disputavam cada bola como se nela estivesse escondida uma parte da vida e, no fim, alguém tirava uma moeda do bolso: «Cara ou coroa?»
O Benfica, aliás, foi eliminado dessa forma numa Taça dos Campeões Europeus, frente ao Celtic, em 1969. Depois de perder 3-0 na Escócia, devolveu o gesto na Luz e acabou fora por um remate certeiro do lado errado da moeda.
Com vários casos desses, o futebol precisava de procurar uma forma melhor de ser cruel. Encontrou-a a 5 de Agosto de 1970. Nesse dia, no Boothferry Park, Hull City e Manchester United defrontaram-se para a Watney Cup. Não era um torneio mediático, não era Wembley, não havia centenas de milhões de pessoas à frente de um televisor. Era uma pequena competição inglesa que o tempo acabaria por esquecer. Mas o futebol tem esta estranha capacidade de esconder os seus grandes momentos nos lugares onde ninguém os procura.
O Manchester United tinha George Best, Bobby Charlton e Denis Law. Três homens que já pertenciam a uma dimensão diferente do jogo. Dois anos antes, também frente ao Benfica, o clube conquistara a Taça dos Campeões Europeus. Quanto ao Hull? Uma equipa modesta que estava na segunda divisão. Parecia um jogo sem história, só que a bola nunca quis saber de prognósticos ou vencedores antecipados. O Hull marcou primeiro e Denis Law empatou para o United. No prolongamento, tudo na mesma. Foi então que aconteceu algo inédito em jogos oficiais.
Poucas semanas antes, a International Board aprovara um novo método para resolver jogos empatados. Em vez da moeda, haveria jogadores. Em vez do acaso absoluto, haveria um remate. Onze metros entre um homem e outro homem. Uma bola parada. Uma baliza enorme que, misteriosamente, naquele instante parece minúscula. Fez esta semana 56 anos que nasceu, de forma oficial, o desempate por grandes penalidades.
Coube a George Best ser o padrinho desta nova forma de decidir jogos. O primeiro de todos a olhar para a baliza, a respirar fundo, antes de tentar enganar o guarda-redes. Hoje sabemos tudo aquilo que um penálti, nesses momentos, pode significar. Conhecemos Roberto Baggio de cabeça baixa em Pasadena. Conhecemos as lágrimas de jogadores que falharam o remate de uma vida. Conhecemos Panenka e a sua insolência. Conhecemos guarda-redes transformados em gigantes durante alguns minutos. Conhecemos finais de Mundiais, Europeus e Taças dos Campeões decididas naquele pequeno círculo de relva.
George Best não conhecia nada disso. Não havia fantasmas atrás dele. Ainda não existia uma história dos desempates por penáltis porque ele estava prestes a escrever a primeira frase. Correu. Rematou. Marcou. O primeiro penálti de um desempate profissional tinha entrado numa baliza. Depois marcaram outros. Terry Neill pelo Hull, Brian Kidd pelo United, Ian Butler pelo Hull, Bobby Charlton também marcou.
Até aparecer Denis Law. Um dos maiores craques desse United, rematou e permitiu a defesa de Ian McKechnie. E ali estava a segunda metade da invenção. Não era apenas uma nova forma de ganhar. Também era uma maneira de perder.
Ali, naquele momento, nasce o maior teatro psicológico do futebol. Tecnicamente, tudo favorece quem remata. A bola está parada. A distância é curta. A baliza tem mais de sete metros de largura. Não há defesas. Ninguém pode fazer um carrinho. Ninguém pode interceptar o passe porque não existe passe. E, no entanto, com um estádio inteiro a olhar, onze metros podem transformar-se na distância entre dois continentes.
É aí que o futebol apresenta o seu momento de maior drama. O jogador começa a caminhar desde o meio-campo e leva consigo tudo. O resultado, os adeptos, os companheiros, a infância, as horas de treino, a camisola, o medo de falhar. Sobretudo, o medo de falhar.
Porque há uma crueldade particular no penálti. Durante o jogo, podemos esconder-nos no coletivo. Uma derrota pertence a onze homens. Um golo sofrido tem várias explicações. Um passe falhado é diluído no meio de centenas de passes. No penálti, desaparecem todos os esconderijos. Fica o batedor. A bola. O guarda-redes. E o turbilhão dentro da cabeça de quem tem de rematar.
Naquela noite, Ian McKechnie viveu todas as personagens possíveis dessa pequena tragédia. Foi o primeiro guarda-redes a sofrer um golo num desempate. Depois tornou-se o primeiro a defender um penálti. E, finalmente, teve de abandonar a baliza, atravessar o campo psicológico que separa o herói do culpado e colocar ele próprio a bola na marca. McKechnie rematou, a bola bateu na barra e o Manchester United venceu por 4-3. O homem que tinha acabado de descobrir como se defendia um penálti, percebeu também como se perdia por causa de um. É difícil imaginar uma metáfora mais perfeita para o futebol.
Talvez seja por isso que continuamos fascinados pelos penáltis. Porque comprimem, em poucos segundos, tudo aquilo que é o futebol. Talento e medo. Preparação e acaso. Coragem e dúvida. Glória e culpa.
Depois daquela noite vieram milhões de penáltis. Vieram as mãos de Schumacher e as pernas de esparguete de Grobbelaar. Veio Panenka a descobrir que era possível desafiar um guarda-redes com a delicadeza de uma colher. Vieram Taffarel, Casillas, Buffon, Dibu Martínez. Veio Ricardo que, ao contrário de Ian McKechnie, descobriu a glória das duas formas. Com luvas e sem luvas. Vieram finais que fizeram países inteiros festejar nas ruas e outras que deixaram milhões de pessoas incapazes de sair de casa.
Mas antes de todos eles houve uma noite quente em Hull. Um estádio inglês. Uma competição que praticamente desapareceu da memória. Ninguém naquela noite podia imaginar o monstro emocional que acabava de ser criado. Até então, quando 120 minutos não chegavam, o futebol podia entregar o destino a uma moeda. A partir de 5 de agosto de 1970, decidiu fazer algo muito mais humano. Entregou-o ao medo. A uma crueldade, sim. Mas uma crueldade irresistível."
Desejos para a Liga 2026/27
"Gostava que o tempo útil fosse maior, que os relvados não tenham de ser pintados ou que estádios estivessem mais cheios. No fim, que a culpa não seja dos jornalistas...
Está dado o pontapé de saída da Liga 2026/27 (à hora a que escrevo ainda não sei o resultado final do Estoril-Famalicão) mas espero ainda ir a tempo de fazer alguns desejos.
Esta época gostava que o campeonato nacional tivesse mais equipas a jogar bom futebol, com jogadores de qualidade e que fosse mais apetecível ver todas as partidas. Todas as estratégias são bem-vindas, menos as que nos fazem adormecer ou mudar de canal.
Para isso, também gostava que o tempo útil fosse maior, que os intervenientes não perdessem tanto tempo em faltas e faltinhas e em tentativas de parar os jogos para obter algum resultado mais positivo. Se o VAR puder resolver todas as guerras no mundo, espero que pelo menos seja rápido e que não deixe dúvidas.
Não sei se será pedir muito, mas desejo que os relvados não tenham de ser pintados para disfarçar a má qualidade, ou que os apanha-bolas não sejam notícia, ou que jogos não sejam interrompidos ou adiados porque àquela hora há quase sempre nevoeiro na Choupana.
O ideal era que os estádios estivessem mais cheios, mas para isso tenho de desejar que a calendarização seja mais rápida, como naqueles países em que as competições europeias não servem de desculpa, e que se evitem mais vezes aqueles dias e aquelas horas em que ninguém quer levar a família ou sair de casa. Impossível, certo?
Os preços dos bilhetes também podiam ser mais convidativos, porque percebo a necessidade do negócio mas ainda sou do tempo em que o futebol era para todos os adeptos e não só para os melhores e mais afortunados clientes. Por falar nisso, e aqui admito a rezinguice, talvez pudéssemos acalmar esta transformação de um jogo em todo um espetáculo de luzes e som e pirotecnia e passatempos incríveis - já não há paciência para tanta exuberância.
Também gostaria que os clubes se abrissem mais e os protagonistas fossem convidados a falar mais vezes, para estarem mais próximos dos adeptos, mas daqui retiro o desejo de que alguns falem tantas vezes e quase sempre com as mesmas queixas. Talvez pudesse haver menos comunicados e mais comunicação, ou talvez os responsáveis devessem fugir menos às perguntas.
Por falar em perguntas, gostava que os jornalistas não fossem os culpados de tudo, mas percebo que seja mais fácil apontar o dedo para aí do que fazer outras reflexões.
Por fim, desejo que todos saibam ganhar e que todos saibam perder, porque o campeonato é longo e haverá muitas histórias para contar, mas algumas dispenso desde já. Boa Liga 2026/27, vamos lá!"
Quem forma melhor jogadores: futebol de rua ou academias?
"Atualmente, os grandes talentos de futebol são, na sua maioria, identificados em idades muito jovens e integrados em academias e estruturas de formação altamente organizadas. Apesar disso, continuam a surgir exemplos como o de Lamine Yamal, um jovem de 19 anos que começou a desenvolver o seu futebol no bairro onde cresceu e que depois foi lapidado na academia do Barcelona, atualmente apontado como um dos principais candidatos à conquista da Bola de Ouro. O jogador do Barcelona destaca a influência do futebol de rua no seu percurso de formação.
Por outro lado, o desenvolvimento de talento de forma autodidata na rua está em vias de extinção. Um dos principais prejudicados por esta evolução do futebol tem sido o Brasil. A história do futebol brasileiro está repleta de jogadores que construíram carreiras brilhantes a partir das suas raízes no futebol de rua. Embora o Brasil continue a produzir talentos, existe a perceção de que a quantidade e a qualidade destes jogadores criativos provenientes de contextos improvisados, de futebol entre amigos e no bairro, diminuíram face a gerações anteriores. No caso das maiores estrelas da atualidade, defende-se frequentemente que o futebol de rua oferece vantagens relativamente à formação exclusivamente desenvolvida em academias.
Entre jogadores de elite, verifica-se frequentemente que, antes da puberdade, o processo de aprendizagem teve uma forte componente autodidata, como mostram as histórias de Pelé, Johan Cruyff, Diego Maradona, Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi. O futebol praticado de forma livre proporciona uma enorme diversidade de componentes técnicos, uma elevada frequência de contacto com a bola, inúmeras situações de um contra um e muitas horas de prática espontânea e voluntária. Ao analisar o percurso dos grandes jogadores, verifica-se que a sua evolução não resultou exclusivamente da prática do jogo livre. Desde cedo, procuraram aperfeiçoar de forma contínua, os seus comportamentos técnico-táticos, tanto nas ações ofensivas como nas defensivas, ajustando-os às exigências das diferentes situações de jogo.
Deste modo, o jogo livre assume um papel que vai além da simples prática informal, constituindo um contexto de aprendizagem autorregulada. Através da identificação dos erros e da sua correção, o jogador vai refinando progressivamente o seu desempenho e caraterísticas pessoais. Este processo é alimentado pela motivação intrínseca e pela capacidade de adaptação, permitindo uma melhoria contínua das competências técnicas, táticas e da tomada de decisão.
Neste momento, começa a introduzir-se a abordagem liderada e orientada por restrições. E isso não existe no futebol de rua, na maioria das vezes. Além disso, a variabilidade das tarefas é considerada essencial para favorecer a adaptação dos jogadores a diferentes situações competitivas.
Outro princípio fundamental é o acoplamento entre perceção e ação, segundo o qual a tomada de decisão e a execução técnica ocorrem de forma integrada e contínua, em função das informações fornecidas pelo ambiente de jogo. Assim, o papel do responsável do treino passa por criar ambientes de aprendizagem, recorrendo, por exemplo, a jogos em campo reduzido, alterações das regras ou do número de jogadores, promovendo o desenvolvimento da autonomia, da criatividade e da capacidade de adaptação dos atletas.
O caso português tem algumas particularidades na formação de jogadores e no desenvolvimento das academias, sobretudo pela relação entre a tradição do futebol de rua, a qualidade dos treinadores e a evolução das estruturas profissionais.
Alguns dos clubes históricos, tiveram o seu auge ainda antes da existência de academias de formação. Por exemplo, o Boavista FC destacou-se pela qualidade do seu futebol juvenil, em grande parte graças à parceria com a ADR Pasteleira. Esta colaboração permitiu ao clube dispor de melhores condições para o treino e competição das camadas jovens, fortalecendo principalmente a captação e o desenvolvimento de jovens talentos e afirmando o Boavista como uma das referências da formação no futebol português, na última década do século XX.
Uma das principais imagens de marca do Sporting é a sua academia de formação, amplamente reconhecida pela qualidade dos jogadores que tem produzido ao longo das últimas décadas. A Academia Cristiano Ronaldo consolidou-se como uma referência internacional no desenvolvimento de jovens talentos, tendo formado futebolistas de renome mundial, como Cristiano Ronaldo, Luís Figo, Nani, João Moutinho e Rui Patrício.
Paralelamente, o Benfica Campus voltou a ser reconhecido pelo CIES Football Observatory (Observatório do Futebol) como a melhor academia de formação do mundo. Este reconhecimento evidencia a consistência do modelo de formação do Benfica, responsável pelo desenvolvimento de jogadores como João Félix, Rúben Dias, Gonçalo Ramos, João Neves e António Silva. O relatório mede o desempenho das academias com base no número de jogadores formados, no nível competitivo dos clubes em que atuaram e nos minutos jogados em jogos oficiais. De acordo com os dados divulgados, o Benfica formou 93 jogadores atualmente em atividade nas 49 ligas analisadas.
Apesar deste sucesso na formação de talentos, a evolução do futebol moderno continua a colocar novos desafios aos clubes. Em determinadas posições, como a de extremo, observa-se frequentemente a necessidade de recorrer ao mercado para contratar jogadores por valores elevados, muitas vezes na ordem dos vinte milhões de euros, nem sempre capazes de demonstrar, de forma consistente, competências individuais determinantes, como a capacidade para superar adversários em situações de um contra um. Esta realidade reforça a importância de continuar a investir na formação de jogadores tecnicamente diferenciados, criativos e capazes de resolver problemas de forma eficaz em contexto competitivo, reduzindo a dependência de contratações dispendiosas.
A formação do FC Porto também tem formado diversos talentos como Rúben Neves, Vitinha e Diogo Costa, demonstrando a importância de uma estrutura organizada na evolução dos jovens atletas. Já o SC Braga tem um coeso grupo de deteção de talento, que procura jogadores jovens com margem de evolução e integra-os num processo de desenvolvimento a médio-longo prazo, como fez o Boavista no passado. Na altura, foi decisivo para ganhar o campeonato.
Todos estes exemplos mostram que o talento desenvolvido no futebol de rua, por si só, não explica a excelência dos grandes jogadores. O mais determinante parece ser o equilíbrio entre diferentes formas de aprendizagem: a liberdade para explorar e criar, típica do jogo de rua, aliada ao treino estruturado e ao acompanhamento especializado. Como resumiu recentemente Lamine Yamal, a combinação entre jogo de rua e academia pode ser a fórmula ideal, uma conclusão sustentada tanto pela sua experiência, como pela atual evidência científica.
A análise da resposta desportiva pode ser aprofundada e centrada em diferentes níveis da resposta adaptativa. Assim, o debate entre a formação em academias e o futebol de rua não deve ser visto como uma oposição entre dois modelos, mas como uma oportunidade de compreender o valor de diferentes formas de aprendizagem.
As metodologias de treino centradas no jogo procuram recuperar alguns dos princípios presentes no futebol de rua, colocando o jogador perante problemas reais que exigem perceção, adaptação e tomada de decisão. Desta forma, mais do que repetir gestos técnicos de forma isolada, o desenvolvimento da criatividade depende da criação de ambientes de treino variados, onde o jogador possa explorar diferentes soluções e aprender a responder às imprevisibilidades do jogo."
A comunidade do futebol deixou de confiar em Infantino e no desporto a confiança continua a ser o capital mais precioso
"Uma parcela significativa da comunidade futebolística deixou de confiar no seu líder e na forma como algumas decisões são pensadas, concebidas e executadas. E esse, só por si só, é já um problema de dimensão sistémica
A controvérsia que envolve a atual liderança da FIFA ultrapassa a discussão sobre projeto financeiro, modelo de investimento ou opção de governance. O que está verdadeiramente em causa é algo mais difícil de mensurar e, por isso, incomparavelmente mais valioso: a confiança.
Como é público, as críticas a Gianni Infantino multiplicaram-se a partir de vários quadrantes.
Independentemente do desfecho, das explicações prestadas ou do que venha a ser apurado, há um dado que me parece incontornável: uma parcela significativa da comunidade futebolística deixou de confiar no seu líder e na forma como algumas decisões são pensadas, concebidas e executadas. E esse, só por si só, é já um problema de dimensão sistémica.
Atualmente, para que se possa questionar a permanência de alguém em cargo de poder, há a exigência de “prova provada“, decisão transitada em julgado ou condenação formal. No plano estritamente jurídico, o entendimento é legítimo e, em boa verdade, o único que faz sentido num estado de direito democrático.
Mas as instituições mais nobres sustentam-se, sobretudo, com base em valores maiores.
Nenhuma organização preserva a sua autoridade quando aqueles que com ela colaboram passam a duvidar da integridade de quem a lidera, da transparência de processos ou da boa-fé das decisões. A confiança institucional não se decreta por estatuto nem resulta de qualquer norma regulamentar. Ela edifica-se ao longo do tempo pelo património de credibilidade acumulado, pela clareza e coerência das ações tomadas. É por isso que crises como esta instalam-se rapidamente.
Nascem quando se insinua a dúvida, quando as explicações deixam de convencer, quando a argumentação é incongruente, quando o volume de perguntas supera o nível de esclarecimentos prestados.
Haverá quem interprete o ato de abandonar uma instituição como uma forma de deslealdade. Acho exatamente o contrário: lealdade não se confunde com dever de permanência, mas com a coragem em não normalizar o que se considera ser, no mínimo, imoral.
Virar a cara para o lado, manter o estatuto, o vencimento mensal ou as regalias conquistadas, pode até ser confortável para alguns, mas felizmente não é para todos.
A este nível, a verdadeira lealdade tem que ser constante e mútua. Tem que prestar-se aos princípios que fundamentam as relações e a própria instituição.
As organizações verdadeiramente sólidas compreendem essa distinção e é por isso que não exigem fidelidades cegas. Valorizam antes a integridade intelectual, a coragem moral e o sentido de responsabilidade. A coerência entre o que se diz e o que se faz.
Quem escolhe afastar-se por não reconhecer esses valores nos seus pares ou na instituição que serve, não o faz por achar que detém a verdade absoluta, mas porque aquilo que viu, ouviu e sentiu foi mais do que suficiente para perceber que deixou de servir a mesma causa.
Não se trata de juízo de condenação, mas de um exercício elementar: a recusa em permanecer num lugar onde a consciência não encontra sossego.
No desporto como na política, no meio empresarial ou no espaço público, a confiança continua a ser o capital mais precioso de qualquer liderança e de qualquer relação pessoal. Uma instituição pode sobreviver a erros de palmatória e a derrotas duríssimas, mas sucumbirá sempre a suspeitas persistentes, sobretudo quando recaem no mesmo denominador comum.
Em boa verdade, o presidente de uma instituição como a FIFA nunca cairá no dia em que a sua sentença for conhecida, mas quando aqueles que viajam ao seu lado deixam de acreditar no seu projeto, na sua visão e, sobretudo, nas suas intenções.
Se Infantino resistir, nunca sairá vencedor. Será apenas mais um derrotado em funções.
Até ao dia."
Contra-Ataque. O "momento Ícaro" de Infantino
"O Contra-Ataque desta semana, o primeiro da nova temporada, apanha logo com a guerra civil na FIFA, ou seja, a casa que gere o futebol mundial está a arder. Já aqui tinha admitido que, depois do Mundial americano, não valia a pena ter ilusões, porque o futebol não voltaria a ser o que era. Só faltava saber que tipo de desenvolvimentos haveria nesta aliança entre Infantino e Trump, depois de terminada a competição. O que, na altura, me levou a dizer isto prendia-se com o facto de não ser crível que esta mercantilização absurda do Campeonato do Mundo tivesse um prazo de validade. Quando se fala de negócios, de Trump e de exercício do poder, é evidente que a coisa não poderia ficar por um simples Mundial de futebol. No entanto, confesso que uma destas não me tinha passado pela cabeça.
É assim que nasce a FIFA Forward Enterprise que, caso não tenham reparado, seria a perfeita convergência de interesses. Os privados que ficassem com uma fatia suculenta da exploração comercial das competições, rapidamente teriam um salvo-conduto para uma faturação com que nunca sonharam; a família de Donald Trump também estaria envolvida neste negócio, através do cunhado de Ivanca Trump; e Gianni Infantino ficaria à cabeça da empresa, quando deixasse a presidência da FIFA, passando a ganhar uns discretos 30 milhões por ano... Ou seja, isto tinha tudo para ser fantástico, exceto num pequeno pormenor: todos ficavam a ganhar, menos o futebol.
O único erro de Infantino neste processo foi julgar que o suporte político de Donald Trump era o suficiente para decidir em nome da FIFA, sem passar cartão a quem quer que fosse. Como muito bem observou o New York Times, este é o momento Ícaro de Gianni Infantino: voou perto demais do sol. Aliás, só para avivar a memória, em 2016, quando foi eleito presidente da FIFA, Infantino disse isto: "O dinheiro da FIFA é o vosso dinheiro. Não é o dinheiro do Presidente da FIFA. É o vosso dinheiro. Vocês são as federações nacionais e o dinheiro da FIFA tem de servir para o desenvolvimento do futebol e não para mais nada"...
É espantoso, mas Infantino conseguiu dizer isto sem rir. Enfim, bem sei que foi há dez anos, mas ainda assim... Sobretudo quando constatamos que mais de 200 milhões de euros do Mundial de clubes do ano passado, resultantes dos direitos de transmissão, ainda não foram pagos pela FIFA. Estamos a falar de fundos projetados para distribuir por toda a pirâmide do futebol global. E, como se não bastasse, também já é público que as cidades anfitriãs dos Estados Unidos, no Mundial deste ano, estão a exigir à FIFA que cumpra a promessa feita antes da competição. Gianni Infantino prometeu 1 milhão de dólares (quase 900 mil euros) a cada uma das cidades e, até agora, continuam à espera... A verdade é que a reação a esta última invenção de Infantino acabou por atropelar completamente os objetivos do senhor e, agora, a questão já é saber se ele pode continuar como presidente da FIFA.
O tal "prémio da paz" para Trump não derrubou Infantino... A forma como capitulou em toda a linha face às exigências da Casa Branca durante o Mundial não o derrubou...mas quando as federações perceberam que ele estava a entregar o negócio a terceiros, aí, o mundo do futebol desatou aos gritos. Infantino tinha a reeleição assegurada em 2027, mas agora vê todos os dias os apoios a fugirem, à exceção de uns quantos que têm razões óbvias para o segurar, como Marrocos, Emirados Árabes Unidos ou o Kuwait (sendo que continuo com uma enorme curiosidade em perceber o que a Arábia Saudita vai fazer, já que será sede do Mundial 2034). No entanto, se querem que vos diga, uma possível saída de Infantino não é bem sinónimo do fim do problema. João Havelange percebeu que distribuindo umas benesses conseguia arrebanhar votos de várias federações fora dos chamados "centros de decisão" e Sepp Blatter percebeu bem cedo que aliar-se ao dinheiro - fosse do Catar ou da Rússia - era meio caminho andado para se perpetuar no poder. Agora, Infantino faz isto...
Portanto, se estão à espera de um milagre redentor, é melhor serem prudentes, até porque vários dos nomes que têm sido ventilados como hipótese para a sucessão oferecem tanta tranquilidade como um furacão de categoria 5... E a ver vamos no que vai dar o sarilho que se segue, relacionado com o Mundial 2030, porque não vamos ser ingénuos e pensar que este choque frontal entre Marrocos e Espanha não terá consequências na competição. E nem é exatamente da segurança que estou a falar. Agora que o futebol já meteu a neutralidade política na gaveta, o mais sensato é aguardar para ver. Sendo que, nestes tempos agitados e de menor lucidez em que vamos vivendo, dá perfeitamente para aplicar aquela afirmação de Giuliano da Empoli, um dos administradores da Bienal de Veneza, sobre a forma como certas lideranças olham para aquilo que as rodeia. Diz ele que "as elites empresariais julgam que são a cultura, a religião e o partido". Ora é precisamente isto que temos visto da parte do presidente da FIFA..."
Mourinho Vs Guardiola
Mourinho Vs Guardiola@el_pais pic.twitter.com/CIo69DxJj4
— Fever Pitch (@Fever_PitchFC) August 8, 2026
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