"O Contra-Ataque desta semana, o primeiro da nova temporada, apanha logo com a guerra civil na FIFA, ou seja, a casa que gere o futebol mundial está a arder. Já aqui tinha admitido que, depois do Mundial americano, não valia a pena ter ilusões, porque o futebol não voltaria a ser o que era. Só faltava saber que tipo de desenvolvimentos haveria nesta aliança entre Infantino e Trump, depois de terminada a competição. O que, na altura, me levou a dizer isto prendia-se com o facto de não ser crível que esta mercantilização absurda do Campeonato do Mundo tivesse um prazo de validade. Quando se fala de negócios, de Trump e de exercício do poder, é evidente que a coisa não poderia ficar por um simples Mundial de futebol. No entanto, confesso que uma destas não me tinha passado pela cabeça.
É assim que nasce a FIFA Forward Enterprise que, caso não tenham reparado, seria a perfeita convergência de interesses. Os privados que ficassem com uma fatia suculenta da exploração comercial das competições, rapidamente teriam um salvo-conduto para uma faturação com que nunca sonharam; a família de Donald Trump também estaria envolvida neste negócio, através do cunhado de Ivanca Trump; e Gianni Infantino ficaria à cabeça da empresa, quando deixasse a presidência da FIFA, passando a ganhar uns discretos 30 milhões por ano... Ou seja, isto tinha tudo para ser fantástico, exceto num pequeno pormenor: todos ficavam a ganhar, menos o futebol.
O único erro de Infantino neste processo foi julgar que o suporte político de Donald Trump era o suficiente para decidir em nome da FIFA, sem passar cartão a quem quer que fosse. Como muito bem observou o New York Times, este é o momento Ícaro de Gianni Infantino: voou perto demais do sol. Aliás, só para avivar a memória, em 2016, quando foi eleito presidente da FIFA, Infantino disse isto: "O dinheiro da FIFA é o vosso dinheiro. Não é o dinheiro do Presidente da FIFA. É o vosso dinheiro. Vocês são as federações nacionais e o dinheiro da FIFA tem de servir para o desenvolvimento do futebol e não para mais nada"...
É espantoso, mas Infantino conseguiu dizer isto sem rir. Enfim, bem sei que foi há dez anos, mas ainda assim... Sobretudo quando constatamos que mais de 200 milhões de euros do Mundial de clubes do ano passado, resultantes dos direitos de transmissão, ainda não foram pagos pela FIFA. Estamos a falar de fundos projetados para distribuir por toda a pirâmide do futebol global. E, como se não bastasse, também já é público que as cidades anfitriãs dos Estados Unidos, no Mundial deste ano, estão a exigir à FIFA que cumpra a promessa feita antes da competição. Gianni Infantino prometeu 1 milhão de dólares (quase 900 mil euros) a cada uma das cidades e, até agora, continuam à espera... A verdade é que a reação a esta última invenção de Infantino acabou por atropelar completamente os objetivos do senhor e, agora, a questão já é saber se ele pode continuar como presidente da FIFA.
O tal "prémio da paz" para Trump não derrubou Infantino... A forma como capitulou em toda a linha face às exigências da Casa Branca durante o Mundial não o derrubou...mas quando as federações perceberam que ele estava a entregar o negócio a terceiros, aí, o mundo do futebol desatou aos gritos. Infantino tinha a reeleição assegurada em 2027, mas agora vê todos os dias os apoios a fugirem, à exceção de uns quantos que têm razões óbvias para o segurar, como Marrocos, Emirados Árabes Unidos ou o Kuwait (sendo que continuo com uma enorme curiosidade em perceber o que a Arábia Saudita vai fazer, já que será sede do Mundial 2034). No entanto, se querem que vos diga, uma possível saída de Infantino não é bem sinónimo do fim do problema. João Havelange percebeu que distribuindo umas benesses conseguia arrebanhar votos de várias federações fora dos chamados "centros de decisão" e Sepp Blatter percebeu bem cedo que aliar-se ao dinheiro - fosse do Catar ou da Rússia - era meio caminho andado para se perpetuar no poder. Agora, Infantino faz isto...
Portanto, se estão à espera de um milagre redentor, é melhor serem prudentes, até porque vários dos nomes que têm sido ventilados como hipótese para a sucessão oferecem tanta tranquilidade como um furacão de categoria 5... E a ver vamos no que vai dar o sarilho que se segue, relacionado com o Mundial 2030, porque não vamos ser ingénuos e pensar que este choque frontal entre Marrocos e Espanha não terá consequências na competição. E nem é exatamente da segurança que estou a falar. Agora que o futebol já meteu a neutralidade política na gaveta, o mais sensato é aguardar para ver. Sendo que, nestes tempos agitados e de menor lucidez em que vamos vivendo, dá perfeitamente para aplicar aquela afirmação de Giuliano da Empoli, um dos administradores da Bienal de Veneza, sobre a forma como certas lideranças olham para aquilo que as rodeia. Diz ele que "as elites empresariais julgam que são a cultura, a religião e o partido". Ora é precisamente isto que temos visto da parte do presidente da FIFA..."

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