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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Jordânia: Amer Shafi, o guarda-redes irascível que marcou de baliza a baliza


"Em 2011 agrediu um árbitro e ficou um ano sem jogar. Sete anos depois marcou um daqueles golos impossíveis, de ponta a outra do campo. As emoções, assume, por vezes apoderaram-se de si em demasia. Amer Shafi está nas listas dos melhores guarda-redes de sempre da Ásia, mas faltou-lhe levar a sua seleção ao Mundial - a nova geração fê-lo agora. Olhando para os dados de Amer Shafi na seleção nacional da Jordânia, há um incomum pormenor. A seguir ao 171, já de si um impressionante número de internacionalizações pela seleção asiática, que neste 2026 fará a estreia em Mundiais, surge um “1”. De golos.
É incomum ver ali um “1” porque Shafi foi guarda-redes e os guarda-redes, salvo raras exceções, não costumam marcar golos. Shafi não era bom a marcar livres e penáltis, como Chilavert ou Rogério Ceni, nem foi à área em horas extraordinárias tentar um golo salvador para a sua equipa, como Trubin, por exemplo, esta temporada na Liga dos Campeões frente ao Real Madrid.
O golo de Shafi aconteceu aos 25 minutos de um encontro de preparação frente à Índia, em 2018. Shafi viu o guardião rival ligeiramente adiantado lá do outro lado do campo e aqui vai disto: o chuto bateu à entrada da área e o ressalto transformou-se num chapéu perfeito a um desamparado Gurpreet Singh Sandhu.
Não se vê todos os dias um golo de baliza a baliza, convenhamos.
O número 1, diga-se, é ubíquo na carreira de Amer Shafi: não só foi com ele nas costas que se tornou no mais internacional de sempre pela Jordânia, como foi o número de anos que esteve suspenso, 12 meses inteirinhos, depois de agredir um árbitro em pleno jogo da liga jordana, em 2011. Talvez um perfil publicado em 2015 pelo Comité Olímpico da Jordânia tenha encontrado a definição perfeita de um homem feito das suas próprias contradições: “Às vezes sem rodeios, quase sempre controverso, mas sempre brilhante.” 
Nascido em Amã há 44 anos, Amer Shafi até começou como jogador de campo no Al-Yarmouk, antes de encontrar o seu pouso natural na baliza. Relativamente baixo para a posição (1,83m), cedo se destacou pelas defesas acrobáticas, cheias de reflexos e agilidade, com uma atitude e presença forte não só entre os postes mas também como líder na seleção e no Al-Wehdat, clube que representou durante onze temporadas.
Figura de proa da seleção durante quase duas décadas - a primeira internacionalização aconteceu em 2002 e o adeus em 2021 -, Shafi, conhecido por “A Baleia”, esteve na Taça da Ásia de 2004, 2011, 2015 e 2019 e não ficou longe de conseguir o que a nova geração jordana finalmente logrou em 2026: a qualificação para um inédito Mundial. Depois de uma memorável exibição frente ao Usbequistão - curiosamente, outro dos estreantes em 2026 -, a Jordânia ficou a apenas uma eliminatória do Mundial do Brasil 2014, perdendo com o Uruguai no derradeiro play-off.
Só o nascimento dos filhos, diria mais tarde, suplantou a alegria de estar tão perto de fazer história pelo seu país.

A Europa que nunca chegou
Respeitado e admirado na Ásia, frequentemente presente nas listas de melhores guarda-redes de sempre do seu continente, Shafi nunca teve, no entanto, oportunidade de jogar na Europa, pontuando períodos no Egito e Arábia Saudita com uma carreira que se fez quase exclusivamente no seu país.
“Houve interesse [da Europa] ao longo da minha carreira, mas nunca se materializou”, confessou em 2015, culpando a falta de “agentes profissionais” de futebolistas na Jordânia como fator decisivo para o deserto de propostas concretas.
Talvez o seu temperamento, que nem sempre lhe permitia manter a calma em campo, não tenha ajudado. Shafi era tão lesto a sair a bolas como a barafustar com árbitros. Até ao dia em que agrediu um. “Eu adoro este desporto e sou mesmo muito apaixonado por futebol, pela minha equipa e pelos meus colegas e isso às vezes leva a melhor sobre mim e mete-me em problemas quando eu sinto que há uma injustiça a acontecer”, sublinhou nesse perfil escrevinhado pelo Comité Olímpico jordano, onde se assumiu fã de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi."

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