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quarta-feira, 11 de março de 2026

Crónicas de uma viagem de fazer inveja


"FRANCISCO CALADO, PARA ALÉM DE CAPITÃO DE EQUIPA, FOI JORNALISTA E MERECEDOR DE UM BEIJO DE UMA DIVA

No final da temporada de 1956/57, o Benfica tinha acabado de juntar a vitória na Taça de Portugal à conquista do Campeonato Nacional, celebrando a terceira dobradinha da sua história. Embalados pelo triunfo, seguiram rumo a Madrid para disputar a Taça Latina, prova na qual participavam pela 3.ª vez.
A Direção decidiu que a viagem até à capital espanhola seria feita de autocarro, com paragens e paisagens dignas de histórias inesquecíveis. Para as relatar, o jornal do Clube escolheu o capitão Francisco Calado, tarefa que este aceitou de imediato.
Logo nas primeiras linhas da sua crónica, o jogador descreveu o primeiro percalço: Ângelo e Bastos adormeceram e atrasaram a saída da comitiva em uma hora. A partir daí, tudo parecia correr bem. Entre conversas, jogos e sestas, os atletas deixavam o tempo passar.
Depois de um excelente almoço em Mérida, um estrondo parou o autocarro: “Começámos a apanhar as peças que se tinham soltado do motor… partira-se o bloco”. Um português salvou o dia: parou o carro e deu boleia a dois dirigentes, que foram em busca de um autocarro. Uma hora depois, surgiram com o novo veículo. Apesar de mais pequeno, servia para o propósito. Os percalços fizeram com que a chegada, prevista para as 22 horas, acontecesse perto das 3 da madrugada.
Os dias seguintes foram de preparação para a meia-final frente ao campeão francês, o Saint-Étienne, e visitas aos locais mais emblemáticos da cidade. No hotel, a comitiva recebeu o apoio especial do cônsul português, Mário Duarte, antigo guarda- -redes do Belenenses. Ele contou que tinha assistido a um espetáculo de Amália Rodrigues e garantiu que a fadista estava esperançada na vitória benfiquista, pedindo que transmitisse à equipa o seu voto de confiança.
Resultou. O Benfica venceu o Saint-Étienne por 1-0. Calado foi o herói, ao marcar o único golo da partida: num lance de contra-ataque, e após ter progredido uns metros com a bola, fez um remate de longe, batendo o guarda-redes do conjunto gaulês.
À noite, ele, Azevedo e Caiado foram assistir ao concerto de Amália. No final, quando o apresentaram à fadista, referiram que tinha sido o autor do golo da vitória. Amália não hesitou: “Ó seu malandro, dê cá um beijo.” Caiado aproveitou o momento para se meter com o colega: “Já não lavas a cara durante toda a vida.” O jogador confessou que ficou vaidoso com o gesto da fadista.
Quando o convidaram para escrever as crónicas da viagem, Calado não imaginava que ele próprio seria o protagonista – dentro e fora de campo. Saiba mais sobre o percurso deste fantástico jogador na área 22 – De Águia ao Peito, do Museu Benfica – Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

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