"Tinha ar de Mr. Bean, Romário chamou-lhe “malandro”, furava cuecas e vendia escovas. Este guarda-redes deu-se a conhecer no Mundial de 1994, onde a Suécia ficou em terceiro lugar. Alegrava-se quando defendia e quando os adversários falhavam. Às vezes, também sofria golos e uma vez foram logo cinco, o que levou o Bayern Munique a desistir da sua contratação.
Uma bola de espelhos, uma pista e, como em qualquer outro local feito para dançar, uma baliza. Há uma valsa a ser exibida. Metade do par move-se com uma elegância reforçada pelo movimento da saia rodada. A outra é um Mr. Bean nórdico a digerir um garfo. A exibição percorre a madeira até que ela, a profissional, e ele se agarram a cada um dos postes dourados. Para finalizar, a dançarina coloca uma medalha no acompanhante que teve ao longo de toda a performance o número um colado nas costas do casaco do fato.
A atuação recolheu aplausos da plateia do “Let’s Dance Suécia 2019”, um programa que convida celebridades a darem uns passinhos. Aparições televisivas, palestras, a loja de desporto que abriu com o irmão gémeo. O futebol expôs o carisma e Thomas Ravelli tem gozado a vida que a popularidade lhe concedeu.
No Mundial de 1994, Ravelli só tinha entradas no cabelo. Ao interior da baliza não chegava nada. Vestia a camisola que distingue aqueles que podem dar uma mãozinha dentro da grande área dos que estão condicionados a jogar com os pés. Era um traje espampanante. Parecia ter escapas devido ao efeito provocado pelos quadros coloridos.
O guarda-redes foi um dos principais responsáveis pelo terceiro lugar conseguido pela Suécia. Na meia-final, os nórdicos postos a torrar no Rose Bowl atrapalharam a canarinha. Motivado pelos dois penáltis travados na eliminatória anterior contra a Roménia, Ravelli defendeu quase tudo. Romário rematou de fora da área e ele voou de modo a conter o massacre. Zinho surgiu na recarga e, inesperadamente, rematou ao lado com a baliza deserta.
Ravelli levantou-se, olhou para a câmara, mostrou um sorriso reto e dançou. Seria alguém a quem Messi poderia chamar bobo. No Brasil, que acabou por chegar ao 1-0 aos 80 minutos, lembram-se bem da sua cara. “Aquele guarda-redes fanfarrão chegou a dizer que não me conhecia.” Romário sempre achou o adversário daquele dia “muito engraçado”. “Ele era dos meus. Se ser malandro na Suécia é esse tipo de malandragem, ele é o malandro sueco.”
Durante sensivelmente metade da carreira, Thomas Ravelli foi amador. Ao mesmo tempo que jogava no Osters, vendia escovas que serviam para limpar máquinas em gráficas. Específico. Apesar de ter sido duas vezes campeão nacional com o clube, desceu de divisão. O desaire permitiu-lhe ser contratado pelo Gotemburgo, onde se tornou profissional.
O salto até podia ter sido maior. Ainda no Osters, jogou a pré-qualificação da Taça dos Campeões Europeus, competição na qual viria a participar com mais frequência no Gotemburgo. Numa eliminatória contra o Bayern Munique, acabou por sofrer cinco golos na Alemanha. Os bávaros estavam de volta de Ravelli tendo em vista uma possível contratação, mas, depois daquele descalabro, a mudança acabou por nunca se concretizar.
Com 143 internacionalizações, é o segundo na lista de jogadores que mais vezes representaram o país. Algumas delas foram realizadas noutros grandes torneios. Ravelli era extrovertido, brincalhão e trapaceiro. No Euro 1992, realizado em casa, a Suécia fez frente à França, venceu a Inglaterra e só cedeu contra a Alemanha, nas meias-finais. Nos intervalos, pegou numa tesoura e fez buracos nas cuecas de Martin Dahlin, companheiro de equipa com menos seis anos."

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